sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

VELHO PREGADOR JOVEM REVOLUCIONÁRIO DE 400 ANOS HOJE MAIS PERTO DE NÓS!


A cada dia e a cada hora, em cada esquina na viragem da vida, encontramos, se quisermos, amigos do peito, companheiros da estrada que ali estão à nossa espera para dar-nos a mão e ajudar-nos a transpor as passadas do rio. Anteontem, foi o dia "ímpar" de José Afonso na "sua casa" em Lisboa, onde estivemos a apresentar o Cancioneiro e CD, "A Igreja é do Povo e o Povo é de Deus", a história do povo da Ribeira Seca, cantada e coreografada.
Ontem foi a vez de encontrar um outro"colega" de quatro séculos, na Aula Magna da reitoria da Cidade Universitária, também em Lisboa, a convite da Organização da Edição Monumental, em 30 volumes, de toda a obra do Padre António Vieira,  pelo "Círculo de Leitores"
Foi chão sagrado e fumegante aquele anfiteatro, Pressentia-se no ar o cheiro amazónico da palavra de António Vieira, seu vulto pairava sobre as nossas cabeças e enchia o nosso olhar longínquo, a que  os acordes da orquestra sinfónica da Universidade de Lisboa deram definição e espaço maior.
Dos oradores intervenientes, Eduardo Lourenço, Carlos Reis e Vasco Soromenho Marques --- qual deles o mais distinto ---  recolheu-se um monumento breve mas bem cinzelado do "Imperador da Língua Portuguesa", como o chamou Fernando Pessoa. Particularmente da parte de Soromenho Marques sobressaíram a coerência e o desassombro do missionário nordestino António  Vieira, com dobrado acento naquela que foi a denúncia da corrupção, na defesa dos marginalizados, na dignidade, oficialmente denegada e ofendida, dos índios e  judeus, além das invectivas veementes contra o colonialismo vigente, quer na Índia, na África ou no Brasil.
Um "Bem Haja, a toda essa pléiade de investigadores portugueses e brasileiros que, sob a direcção de Pedro Calafate e do nosso conterrâneo José Eduardo Franco, produziu durante dois esforçados anos um caudal de conhecimentos, sem paralelo, que vai inundar os dois países irmãos e todos aqueles que se debruçarem sobre o génio do escritor, político, diplomata, orador e missionário --- personagem excelsa que, em tão remotos tempos, ganhou, por direito próprio, o estatuto da dupla nacionalidade: português de nascimento. brasileiro de alma inteira.
Conhecer António Vieira enche a nossa condição humana e, mais do que isso, liberta-nos da moleza e da pusilanimidade com que a sociedade nos constrange. Faz-nos descobrir que a nossa curta passagem tem de deixar um rasto luminoso para todos os amanhãs.
Para completar estas duas horas e meia de contemplação activa, tivemos a palavra de António Vieira pela voz de um reputado ator do nosso teatro que disse perante o auditório o famoso "Sermão do bom ladrão", proferido em 1655 perante o Rei D.João IV e toda a sua corte, na Igreja da Misericórdia de  Lisboa, mas, como expressamente afirmou Vieira neste mesmo sermão, deveria ser pregado não ali, mas na Capela Real.

Já vai longa esta nossa conversação, Entretanto, ficaria tudo sem sabor se não reproduzisse, para si especialmente, este eloquente extracto do "Sermão do bom ladrão"
Ei-lo;
..."O que vemos praticar em todos os reinos do mundo é. em vez de os reis levarem consigo os ladrões ao paraíso, são os ladrões que levam consigo os reis ao inferno...
... O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao inferno. Os que só não vão mas levam são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam exércitos e legiões ou os governos provinciais ou a administração das cidades, os quais, já com manha, já com força, roubam e despojam os povos... Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo de seu risco, estes sem temor nem perigo.Os outros, se furtam, são enforcados, mas estes furtam e enforcam..."

Isto, há 359 anos!  Diante do Rei, dos ministros, dos juízes e conselheiros!

Vem de novo, velho pregador, jovem revolucionário.
É  DESSA  REVOLUÇÃO QUE O MUNDO PRECISA!

3.Dez.14
Martins Júnior  
                           

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

DIA PAR QUE SE TORNOU “ÍMPAR” Rua de São Bento, 170, LISBOA


Foi o que se deu ontem, dia 2, o qual, sendo par, fez-se “dia ímpar”, tomando esta adjectivação na sua dimensão semântica mais ampla. E de tal forma que hoje, já no sentido numérico do termo, ocupo o habitual dia ímpar com a feliz notícia ontem acontecida: o abraço, em Lisboa, de duas mensagens gémeas: a de Machico, Madeira, com a de Coimbra, Setúbal e Lisboa, conjuntamente na sede da delegação da “AJA - Associação José Afonso”, Rua de São Bento, 170. Cito apenas estas cidades, mas  poderia citar muitas outras vilas e aldeias, por onde o imorredoiro “Zeca Afonso” deixou  bem impressas as suas pegadas.
Após a apresentação no Teatro Municipal do Funchal e no Solar do Ribeirinho em Machico, surgiu  a iniciativa de levar a mesma ideia até ao continente português mostrando páginas sonoras da história da comunidade da Ribeira Seca, especialmente o último “Cancioneiro Breve” e respectivo CD intitulado “A IGREJA É DO POVO , O POVO É DE DEUS” que se completa  com o refrão:
“Queremos a Igreja sempre ao nosso lado
Como Deus viveu com o povo explorado”

E tal como reconheceu o próprio presidente da AJA, Francisco Fanhais, foi este o meio ecológico perfeito para fazer emergir na capital a voz de um povo que, nas mesmas pegadas de “Zeca Afonso”, lutou e continua a lutar e a afirmar o seu direito à  dignidade e à cidadania inteira, não pela violência mas pela arte, poesia, música e dança. Num ambiente minado pela mesma energia anímica que a todos tocava, projectaram-se no palco as imagens da coreografia com que os jovens interpretam na sua terra a história da suas gentes. Foi visivelmente emocionante constatar o interesse a identificação dos presentes com os conteúdos transmitidos na tela.
Os depoimentos calorosos de duas testemunhas oculares da nossa história local --- Fanhais e Frei Bento Domingues, que viveram “ao vivo” momentos altos  da Ribeira Seca --- encheram-nos de um conforto e de uma alegria tamanha. Aliás, foi Bento Domingues que fez a gentileza de apresentar o nosso trabalho. E fê-lo com a profundidade analítica que se lhe reconhece nos livros e nas crónicas semanais do “Público”.  Mas o mais sensível para nós foi a manifestação de proximidade que estabeleceu entre a mensagem do nosso “CD-Cancioneiro” e a abertura do Papa Francisco ao mundo, citando uma página inteira do último livro das homilias do Papa em Santa Marta, onde reprova o legalismo que mata e exalta o sentido profético, dinamizador, da Palavra e da Vida.
Surpreendente notícia que nos trouxe Francisco Fanhais foi a indizível alegria que sentiu, nessa mesma tarde, na sede nacional da AJA, em Setúbal, quando recebeu em mão o original, escrito pelo próprio punho de Zeca Afonso, em 1975, daquela canção “Os Índios da Meia-Praia” que fez parte da banda sonora do filme “Continuar a Viver” de António Cunha Telles. Preciosíssima descoberta e feliz coincidência no mesmo dia da nossa presença em “casa” de Zeca Afonso!
Tendo por fundo o mural pintado, em 2013, na Ribeira Seca, pelo artista continental António Alves, (e que reproduz nesta página) encerrou-se este encontro histórico, com a proposta mutuamente sugerida de criar-se na Madeira uma extensão da AJA, constatando que entre nós ela já existe no pensamento e na acção, faltando-he apenas a existência formal, com os respectivos  sócios e estatutos.
Aqui fica, para quem ler esta auspiciosa notícia, o convite para que se junte à grande família  “Zeca Afonso”, aquele que, abraçado lado a lado à estátua de Trisão Vaz Teixeira, encheu o centro da cidade com a sua e nossa “Grândola, Vila Morena”!

      3,Dez,14
      Martins Júnior

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

POR QUAL INTIMAÇÃO AMPUTARAM O 1º DE DEZEMBRO?


Passei as horas com a intermitência do 1º de Dezembro nas encruzilhadas do meu pensamento diário.
Digo intermitência, querendo dizer uma certa tensão ideológica interior entre o dever comemorar ou não essa data. Explico porquê.
"In illo tempore" (como diria Trindade Coelho") isto é, na minha juventude, estas datas --- 1º de Dezembro, 10 de Junho, 5 de Outubro ---  deitavam  um mofo incómodo, por, de um lado, representarem o império salazarisa e, de outro, a edificante  (para o zé-povinho) e escandalosa (para nós) promiscuidade entre o poder da Igreja e o poder do Estado, visto que a imponente cerimónia tinha duas caras de "feijão-frade": uma, em frente da Sé Catedral, com todas as forças em parada, Exército, Marinha, Polícia, Mocidade Portuguesa (a que ironicamente nas latadas da Queima em Coimbra apelidavam de Mocidade Perdida), depois os escuteiros, enfim, "a força do público e o público à força" (literatura também da Queima). Cá fora, nesse ano de 1962, foi (era quase sempre) orador o consagrado escritor madeirense Horácio Bento de Gouveia, que exaltava com abundante gesticulação os pergaminhos da Pátria.  Dentro da Sé, o solene Te-Deum pontifical, com grande instrumental, Bispo a presidir, Cónegos ostentando nos cadeirais  vistosas meias vermelhas. governador civil e governador militar na proa do altar-mor e, claro, na primeira fila, os graduados e condecorados do regime. A mim, ainda padre-caloiro, convidou-me o distinto professor do Liceu,dr.Emanuel Paulo Ramos, presidente da delegação na Madeira da Sociedade Portuguesa de Geografia, encarregada do magno evento, convidou-me, dizia, a proferir a Oração de Sapiência, ou seja, o solene sermão de homenagem ao 1º de Dezembro que, como da praxe, devia ter por fundo o amor pátrio secundado ou, mesmo identificado, com o fervor religioso. O texto, dei-o ao dr. Paulo Ramos que mo pediu para publicar no Boletim da Sociedade. Até hoje! Só me lembro que, em virtude das afirmações ditas do alto do púlpito, recebi "guia-de-marcha" para a ilha do Porto Santo que, à época, era mais "colónia penal" do que "estância turística".Entretanto, enganaram-se porque os paroquianos porto-santenses transformaram-me o deserto em paraíso.

Até aqui, o lado pitoresco e, ao mesmo tempo enfadonho que nos (e a mim principalmente) causavam as celebrações patrióticas das referidas datas oficiais.

No entanto, hoje penso de outra forma. E penso-o, no cenário da actual globalização em que vivemos, mais particularmente na esfera da europeização do nosso país dentro da CE. Os sociólogos e filósofos contemporâneos mais conceituados na área da modernidade e pós-modernidade são unânimes em considerar que a "globalidade significa o desmanche da unidade do Estado e da sociedade nacional, novos conflitos e incompatibilidades entre actores e unidade do Estado nacional" (Ulrich Beck, in "A Sociedade do Risco",1986). Por sua vez, Zygmunt Baum, na sua eloquente "Modernidade Líquida", (2001)  insiste em que "a modernidade não é mais que a extensão totalitária da lógica dos mercados a todos os aspectos da vida...Os mercados financeiros globais impõem as suas leis e preceitos ao planeta...À globalização interessam Estados fracos mas "independentes" ...Todos têm interesses adquiridos nos Estados fracos".

Perguntar-me-ão o que é que tudo isto tem a ver com o feriado, amputado, do 1º de Dezembro.
Pois tem. E muito! Quando um Estado politicamente independente se entrega ao regime tendencialmente totalitário, o europeu inclusive, começa a perder a sua soberania. Portugal continua marionette apetecida da centralidade europeia. E quanto mais se abaixa, mais se degrada. Agora, depois de ter visto as sucessivas subserviências do governo português ao consulado de Merkel, nada me  custa a crer que a amputação do 1º de Dezembro, ícon da nossa independência, tenha sido decretada nos directórios europeus, como sinal e até escárneo da perda da nossa soberania.
Bem haja António Costa que promete repôr o feriado nacional como apelo ao povo português para que não curve alegremente a cerviz à nova "Castela" sediada em Bruxelas.

                          1,Dez.14
                          Martins Júnior  

sábado, 29 de novembro de 2014

“A MINHA PRISÃO É UM REINO” ((Gilbert Cesbron)


Embora seja amanhã o 1º Domingo do Advento, ocorre também o 241º aniversário natalício de Francisco Álvares de Nóbrega, poeta-filósofo, nascido em Machico em 30 de Novembro de 1773 no sítio dos Moinhos, hoje sítio da Graça, e morto em Lisboa, após trágico cativeiro na Cadeia do Limoeiro pela Inquisição, como referi no meu  anterior blog. Porque vejo nele o maior expoente deste concelho e um dos mais exímios sonetistas portugueses ---  sendo até cognominado de “Camões Pequeno” --- por isso, peço-lhe reverente licença para dedicar em verso esta modesta homenagem.



      Entre céu e mar e terra
      Seu berço foi

      A graça infante nascida
      Na “Graça dos Moinhos”
      Juncou de azul e sal e guerra
      Os teus caminhos

      E porque não tem pátria a Ideia
      Apátridas foram os dias intemporais
      As longas nocturnas espirais
      De luta e agonia
      Com que a ilha madrasta
      Avara e nefasta
      Te cobriu
      Desde a ribeira-rio
      Onde nasceste
      Até ao Tejo amaro
      Onde sofrido morreste

      Taumaturgo do verbo
      Da tua prisão
      Fizeste a tua e a nossa liberdade.
      Irmão de Bocage e Camões
      Quebraste os grilhões
      Onde outros algemam a Verdade

      Longe da terra e dos teus que já não tinhas
      Deixaste sereno a vida ingrata
      E sepultaste o monstro antigo
      De vis garras mesquinhas


      Hoje voltas de novo
      Belo, firme, vertical
      Bradando a céus e mar e terra
      Deste teu berço
      Canto imortal


29.Nov.14

Martins Júnior

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

MEMÓRIA QUE É UM APELO! FRANCISCO ÁLVARES DE NÓBREGA

                  “Porém, não consintais que se lastime
                   Na mesma estância,  e em confusão se esmague
                   A singela inocência a par do crime”

 
 
         Porque passam, domingo próximo, 241 anos sobre o seu nascimento, ponho na mesa do nosso convívio de hoje o último terceto da carta que, em forma de soneto, foi entregue ao “Sereníssimo Senhor D.João VI, Príncipe de Portugal”. O remetente foi um jovem, acorrentado nas masmorras do Limoeiro, às mãos da Santíssima Inquisição: Francisco Álvares de Nóbrega, conhecido entre os seus como o “Nosso Camões” e também por “Camões Pequeno”. Para quem traça estas linhas e para todos os que têm no coração a ilha da Madeira e, com maior emoção, o nome de Machico, lembrar Álvares de Nóbrega é como sentir um rio que corre nas nossas veias, sangue sempre novo a jorrar do terro e do rochedo que habitaram os nossos antanhos. É que ele nasceu aqui, ano 1773, olhou o mesmo sol que nos aquece, subiu os mesmos socalcos que nos vestem de verde, pisou o mesmo chão que nos aguenta.
         Por isso, quando chega Francisco, o “Nosso”, seca-nos a tinta na pena e trava-se-nos a força nos dedos: só dá para ver o ecrã do seu percurso num silêncio ofegante, ao seguir-lhe os passos para trabalhar no Funchal e ao transpor os umbrais do Seminário, já com vinte anos, por sugestão do Mestre de Retórica Francisco Lopes da Rocha, deão da Sé Catedral. Depois, é vê-lo enrolado no turbilhão das lutas político-ideológicas dentro da própria organização diocesana: de um lado, o bispo ultra-conservador José da Costa Torres e, do outro, os “pedreiros-livres”, os maçons, entre os quais o número dois da Diocese (o citado deão da Catedral) e muitos padres e forças vivas, não só da cidade do Funchal, mas de várias zonas rurais. Prevaleceu, embora temporariamente, a razão da força e o “Nosso“ Francisco, acusado caluniosamente de blasfémias contra a religião, foi levado, barra fora, para os cárceres da Inquisição, onde se  encontrou na mesma cela com essoutra “alma gémea” Manuel Maria Barbosa du Bocage, que fez do seu estro poético uma arma fulminante contra a ditadura vigente. Aos trinta e três anos, doente, quase leproso em casa de um amigo e benfeitor na rua S.João Nepomuceno, à Estrela,  despediu-se da vida, rodeado dos seus escritos. Até hoje, desconhece-se o cemitério onde foi sepulto. Só a data:: 1806.
         Maltratado em vida, esquecido na morte! Votado ao ostracismo, o regime queimou-lhe os livros e apagou-o da memória dos vivos. Só a partir de 1954, a Câmara Municipal mandou esculpir  no Miradouro de seu nome o soneto dedicado “À Pátria do Autor”, assim chamava o próprio  ao seu Machico. Mais tarde, Alberto Figueira Gomes editou as “Rimas” que ainda sobrevieram e João França dedicou-lhe o drama em Um Acto “Camões Pequeno”. Desde 1960  e, com maior empenho e liberdade, após Abril de 74 do século XX, passou-se a levantar bem alto a Mensagem de Álvares de Nóbrega  ininterruptamente em 30 de Novembro de casa ano (e muito me conforta o ter contribuido para tal), culminando todo este dever patriótico com a criação, em 2005, da associação cultural denominada “EFAN-Estudos Nobricenses”, a qual deu à estampa as “Actas do Bicentenário, 2006”, (uma colectânea de valiosos trabalhos apresentados por investigadores da Madeira e do Continente) e o “Processo da Inquisição nº 15.764”, da historiadora dra. Ivone Correia Alves.  Mais recente,  em publicação autónoma,  o estudo do dr.João Luís Freire e  a estátua de Francisco Álvares de Nóbrega, do escultor Luís Paixão, no Solar do Ribeirinho, completam este feixe luminoso na ara do nosso conterrâneo.
         Domingo próximo, 30 de Novembro, 17 horas , a Junta de Freguesia de Machico comemorará o 241º aniversário do nascimento do nosso poeta-filósofo e, conjuntamente, a “EFAN-Estudos Nobricenses” editará a aludida  peça dramática  “Camões Pequeno” (até agora inédita) do falecido polígrafo madeirense João França.
Ler e conhecer Francisco Álvares de Nóbrega  é mais importante que homenageá-lo. Tenho-o dito e redito: Os homens verdadeiramente grandes não esperam nem  precisam das nossas homenagens, nós é que  precisamos trazê-los para junto de nós, bem à nossa frente, para que o seu brilho nos arraste para aqueles horizontes que, no seu tempo, vislumbraram e ardentemente desejaram para nós, os vindouros.
Fazer da nossa vida uma luta, da nossa luta um dever, do nosso dever um prazer para tornar mais respirável a atmosfera e mais habitável o planeta --- seja pelo estudo, pelo trabalho braçal, pela poesia, pela música, por toda a  arte, pelo ensino, pela terra e pelo mar --- eis a grande Mensagem, a Única Homenagem ao cognominado, embora, de “Pequeno”, será sempre o “Nosso Camões”.

27.Nov.14

Martins Júnior

terça-feira, 25 de novembro de 2014

DESCUBRA AS DIFERENÇAS

 

Desde logo, cá vai um pré-aviso: qualquer semelhança é pura coincidência. Para desanuviar o ambiente carregado destas últimas semanas, polvilhadas e encharcadas de comentadores e analistas, tipo “gato escondido com rabo de fora”, venho propor-vos um jogo, em forma de charada, para no fim chegarmos à “moral da história” : saberá algum de vós ligar ou desligar os caracteres deste título “VOZ DA MADEIRA”?... Quem descobrir merece um prémio. E que prémio!!! A sabedoria da história, o guião seguro para saber distinguir entre a aparência e a realidade. Com a minha provecta idade, confesso que só o descobri nos arquivos locais e regionais, a propósito da pesquisa que ando a fazer sobre os conteúdos desse pomposo folclore que deu pelo nome de “Os 500 anos da Diocese”. Procurava eu os hipotéticos “400 anos” (1914) em diversos documentos da época, quando me cai debaixo dos olhos o título “VOZ DA MADEIRA”, mensário publicado entre 1901 e 1927. Disse logo com os meus botões: “Que seca! Só me faltava esta, começar por aturar, já em 1914, o jornal do regime!”

Para os mais novos, talvez não saibam, mas a minha geração sabe que “VOZ DA MADEIRA” cheira ao bolor do fascismo, aos códigos da Inquisição, como veremos mais abaixo. De imediato, vi que não poderia corresponder ao meu palpite, pois seria um grosseiro anacronismo. Então, que era e quem representava essa folha informativa e, sobretudo, eminentemente formativa? Nem mais nem menos que o órgão oficial da Igreja Metodista (Luterana) da Madeira, uma organização religiosa, dirigida por ingleses protestantes radicados na ilha. Devo dizer que fiquei positivamente pasmado com os conteúdos, tanto sobre o debate religioso, como na área social e cultural, com escolas, assistência médica, educação cívica para o povo rural. Dois polos dinâmicos da Igreja Metodista estavam implantados no Santo da Serra e em Machico, sítio da Ribeira Grande e Maroços. Era o que hoje se pode chamar uma publicação progressista, reivindicativa, servindo de exemplo a necessidade de iluminação pública (artesanal) e a construção de fontenários de água potável para a população de Machico, exigidos à Câmara Municipal, em 1926. À margem do texto, repare-se que datam de 1927-28-29 certos fontenários, artisticamente concebidos, que permaneceram até aos dias de hoje.
Eis a primeira versão da “VOZ DA MADEIRA”, para mim, um curioso e precioso achado, pelo seu conteúdo, mas especialmente porque me levou a compará-la com a versão do meu tempo.
E que versão era esta, iniciada em 1953 e extinta 1974? Pela data da sua extinção, talvez cheguemos lá. Esta “moderna” edição da “VOZ DA MADEIRA” era, imaginem, o órgão oficial do regime salazarista, dirigido no mais aceso da agressão fascista, pelo Dr. Agostinho Cardoso, presidente representante da União Nacional (o Partido Único) e onde repetidamente escrevia seu sobrinho, o ex-futuro inquilino da Quinta Vigia, tecendo glórias a Salazar e Caetano, incentivando os jovens soldados a combaterem na guerra colonial, por amor à Pátria (mas a pátria do dito escriba ficou-se pela secretaria do quartel general na Madeira). Chegou o “25 de Abril” e a “VOZ DA MADEIRA” fascista morreu de susto.

Para que servem estas linhas?... Certamente já está tudo esclarecido: Cuidado com as aparências, com as apropriações falaciosas. Não basta o cabeçalho de um jornal para classifica-lo: é preciso saber o seu director, o seu proprietário, a sua tendência oculta, mesmo que se autoproclame independente. E quem diz de um jornal, diz-se de tudo o mais. Para acabar, moral da história: “Nem tudo o que luz é ouro”.

Aproveito para desejar o melhor sucesso à novíssima “VOZ DA MADEIRA”, edição on-line.


25.Nov.14
Martins Júnior

domingo, 23 de novembro de 2014

ACIMA A DEMOCRACIA ABAIXO A "MONARQUIA" ROMANA


Neste fim de tarde da grande gala da velha instituição monárquica da Igreja Católica  --- a Festa de Cristo-Rei --- prometi passar à segunda parte  do filme: a que estirpe pertence este rei-Cristo? Pois, quanto à primeira parte,  já ficou razoavelmente descrita a megalomania do Papado Romano, usurpador dos dois poderes, o temporal e o espiritual, que, por via da ignorância e submissão dos crentes (e a que se  associou a aliança perversa entre Roma e os imperadores de então) chegou ao extremo do Tratado de Tordesilhas, em 1494, em que o Papa, “delegado de Cristo e seu Vigário na terra” dividiu as colónias descobertas e a descobrir entre Portugal e Espanha. A tanto chegou a entronização de uma absurdo, “em nome Cristo, senhorio dos céus e da terra”. É caso para confirmar-se que a realidade ultrapassou a ficção.
Qualquer observador, minimamente isento, ao compulsar os textos hoje lidos na liturgia, depressa verificará a falsificação, a meu ver criminosa, da documentação original, compulsivamente merecedora de uma séria condenação judicial. E porquê?
Desde logo, pela declaração formal de J:Cristo diante do Procurador Pôncio Pilatos: “Sou rei, mas o meu reino não é deste mundo”.  Como justificam  e com que paz interior ocupam bispos e cardeais sumptuosos palacetes? Que o façam em nome pessoal ou de  heranças familiares, tudo muito bem.;mas em nome J:Cristo?  “As raposas têm as suas tocas e as aves os seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. Bem andou  Hélder da Câmara que, em Olinda e Recife, entregou o Paço arquiepiscopal para obras de alcance social (jovens, idosos, crianças) e foi viver para uma casa rasteira numa das ruas da cidade. O mesmo fez Jorge Bergoglio em Buenos Aires.
Seria um extenso relatório enumerar a contradição entre o autêntico rei-Cristo e o abuso despudorado com que se apresentam os eclesiásticos, sobretudo os ambiciosos das sedes episcopais, como seus intrusos representantes, porque  sem legítima procuração para tal.
O texto de hoje identifica o passaporte do exacto procurador do rei-Cristo: Aquele que acompanha os pobres, os famintos, os doentes, os sem-abrigo e até os presos. Mas --- ninguém se iluda --- não é pelo gosto mórbido da permanecer nos “ghetos” da miséria, mas para tirá-los de lá, despregá-los da cruz, matar-lhes a fome e a sede, restituir-lhes a saúde e, acima de tudo, transfigurar a sua condição em promoção da vida e da alegria que lhes foram amputadas pelos poderosos, aliados aos auto-proclamados gurus espirituais.
Na mesma medida, seria imenso o cortejo de tantos homens e mulheres que põem convictamente os seus pés nas pegadas deste rei-Cristo. Mas esses são os que a Instituição monárquica atira para a valeta do caminho.
Permitam-me trazer ao nosso convívio o ex-militar, investigador do mundo oriental, padre Charles de Foucauld, assassinado no Saará por muçulmanos tuaregues em 1916.  Porque me conforta recordar momentos decisivos no meu itinerário existencial, rendo homenagem ao Prof. Dr. Henri Hoestlandt, da Universidade de Lille, quando o acompanhei nas pesquisas científicas dos isópodes na Madeira, já lá vão quse  sessenta anos. Ofereceu-me a biografia de Foucauld, escrita por René Voillume, que mais tarde fundou a associação “Les Petits  Frères de Jesus”. A dedicatória marcou-me:”Pour une découverture du Christ” (Para uma descoberta de Cristo). Impressionou-me vivamente o ideário do ex-oficial do exército francês e ainda mais o programa da mencionada associação, maravilhosamente descrita pelo historiador Daniel Rops: “A fraternidade dos Pequenos Irmãos de Jesus vê  nele, não tanto o taumaturgo milagreiro, nem a Segunda Pessoa da SS. Trindade, nem Aquele que virá julgar os vivos e os mortos, mas o companheiro humilde,  Aquele que é mais um entre a multidão, operário no meio dos operários…”
Cada vez mais me convenço que não é pela micro-interpretação da religião ou de uma casuística pontual que se chega à verdade da realeza do nosso J:Cristo, mas sim pela visão-macro, multímoda e holística da sua personalidade  e do programa “escandalosamente” inovador, ao ponto de identificar a Divindade nos humilhados e ofendidos da história.
É um percurso, por vezes espinhoso, mas de uma luminosa conquista libertadora!

23.Nov.14
Martins Júnior