domingo, 3 de março de 2019

O SOL DA LIBERDADE


                                                     

Aqui Carnaval significa liberdade e catarse. Mas não só. Também é sol, o sol da liberdade. Também é lua, serena e bela, que não tem idade.
Registo e agradeço à trupe da Ribeira Seca a forma artística e a coreografia com que encheram as ruas da nossa cidade, dando colorido e projecção à letra e musica que lhes ofereci.
Porque a festa continua partilho convosco a euforia do nosso Entrudo.




Somos o sol que vai na rua
O sol o sol  da liberdade
Também também já vem a lua
Que sobrevoa
Toda a cidade
Também também já vem a lua
Serena e bela
Não tem idade

É Machico
É a Madeira
A liberdade aqui é a nossa bandeira
É Machico
É a Madeira
A nossa trupe é fixe
É da terra primeira
Ribeira Seca em alta    
É fixe a nossa malta   

Nós somos a lua
Tu és o astro-rei
Por ti esperei
Até madrugada

E nós somos o Sol
Já raiou a manhã
Oh lua encantada
E minha namorada

Há seiscentos anos
Que a nossa baía
Foi capitania
Maior da Madeira

E viva o Tristão Vaz
Valente marinheiro
É aqui em Machico
Que o sol nasce primeiro



3.03.19
Martins Júnior


sexta-feira, 1 de março de 2019

ANATOMIA BREVE DO “BEM-ESTAR” SOCIAL (WELFARE) DO CONCELHO DE MACHICO


                                                         

Porque este encontro não pode configurar-se com um passeio matinal na promenade marítima, nem como uma sessão proclamatória do que somos e temos, nem muito menos com uma assembleia de esgrima político-partidária, o que hoje se requer é uma análise objectiva e serena, como numa assembleia de família, em que todos somos aqui ramos de um mesmo troco e seiva reprodutiva dos mesmos frutos no presente e no futuro
          Saúde, Dinheiro e Amor!
Toda a vida assenta neste tripé que, à força de ser tão repetido, escape-se-nos o seu simbolismo mãos profundo. E é a partir deste plano visual que tento captar o brilho ou as sombras do nosso concelho, o claro-escuro de Machico implantado, entre o azul do mar e o verde da montanha, com as suas cinco freguesias, podendo definir-se o seu ADN nesta breve  (e longa!) expressão: Machico-Cinco Estrelas.
Na Saúde situa-se todo o nosso processo biológico, envolvendo a natalidade, a infância, a juventude, a idade adulta, a velhice e, por fim, o adeus à vida. Numa visão holística cabem aqui todos os vectores do bem-estar individual e social, os desportos, a psicologia, todas as patologias físicas ou mentais, os apoios domiciliários, as creches e os lares, os cuidadores informais. Acresce ainda – e com que imponência! – a saúde ambiental, que a todos nos afecta no mar, na terra e no ar que respiramos. Importa questionar: Como vai a Saúde no concelho de Machico?
 Por muito que se faça, a nível público e privado, o portal ou frontispício de qualquer hospital ou similar deveria ostentar este cartaz identitário: A Saúde está doente, É o seu mote e é a sua razão de ser. Machico não será excepção. A insuficiência de médicos de família aumenta as listas para consultas de recurso. Por outro lado, se houvera maior diversificação de valências, evitar-se-ia esse entranhado vício chamado hospitalocentismo. Apesar de tudo, é vox populi o bom desempenho nos cinco centros de saúde de Machico. O mesmo não poderá dizer-se da Saúde Ambiental. Lamento constatar que não se cumpriu o veredicto do eminente Arquitecto Siza Vieira (em 1993, na baixa de Machico, a meu pedido, enquanto presidente) ; “Trate-me com pinças esta zona ribeirinha”. Hoje é o que se vê… Para mágoa minha e prejuizo nosso.
No Dinheiro confrontamo-nos com a economia do concelho. O resfriamento da construção civil, a agricultura de subsistência, a instabilidade da indústria das pescas, tudo isto aliado ao desaceleramento nas áreas da hotelaria e do turismo tem provocado notório deficit económico que se reflecte no desemprego jovem. Neste item, há que esclarecer e denunciar dois imperdoáveis atentados cometidos contra Machico: a diabolização deste concelho pelas entidades regionais, durante 38 anos, vociferando contra nós as mais vis maldições. “Machico-terceiro mundo”, Machico-quarto mundo”, “Para Machico nem um tostão” e outros mimos de imbecilidade e raiva, só porque Machico marcou democraticamente o seu direito à diferença. Não é fácil dobrar este Cabo das Tormentas que ainda remexe com os destinos deste povo. Noutro âmbito, é preciso fazer uma retrospectiva e concluir que Machico foi sacrificado em benefício da Madeira toda. Refiro à ampliação do aeroporto que, sendo um equipamento maior para a Região, acarretou a destruição do inigualável “Aldeamento Turístico da Matur”, fonte de riqueza que se estancou, sem que Machico fosse alguma vez ressarcido por essa perda.
No Amor, abarcamos e abraçamos a educação, o ensino, as escolas, as famílias. O abrandamento da natalidade, transversal nos tempos que correm, obriga a uma requalificação do parque escolar, levando os responsáveis a resvalar para a tentação do economicismo e, com ele, para a massificação e concentracionismo. O quadro é deplorável e perturbador, por esse mundo fora: alargam-se cemitérios e encurtam-se maternidades, abrem-se lares e fecham-se escolas. A extinção de uma só escola nos meios rurais é o mesmo que um machado que corta a floresta e, em seu lugar, implanta o fantasma subtil da desertificação. À atenção de quem de direito!    
A título de sugestão, proporia uma abertura mais efectiva da escola à sociedade envolvente, através de iniciativas concretas, convidativas ao livre e saudável intercâmbio estre as famílias, os alunos e respectivos docentes e às diversas associações porventura existentes na área, convergindo tudo para o sábio horizonte já conhecido: “Para educar uma criança é preciso uma aldeia inteira”. Uma cidade toda!
Finalizando esta brevíssima viagem analítica àquilo que os manuais técnicos chamam de welfare ou bem-estar social deste concelho, cumpre deixar um impressivo registo de apreço e gratidão ao JM, na pessoa dos dois jornalistas e moderadores Miguel Silva e Miguel Guarda, pela excelência deste encontro de liberdade de expressão e enriquecimento democrático, pois foi dada a palavra sem restrições a todos os intervenientes.
Julgo que em nenhum outro concelho, como em Machico,  terá sido tão oportuna e prestimosa esta sessão, visto que ela assenta como luva nas comemorações dos “600 Anos”. Com efeito, foi aqui que tudo começou. Por isso, deixo hoje o repto ao Senhor Presidente da Comissão Organizadora, Dr. Guilherme Silva, aqui presente: Machico, por direito histórico e por fidelidade às origens, deve ser o epicentro das Comemorações! Os poderes autárquicos já deram um passo – um grande passo! – para repor a verdade histórica, restituindo a Machico o registo certo da sua idade, como Primeira Capitania da Madeira (8 de Maio de 1440) e transferindo para essa data, 8 de Maio,  o seu Dia do Concelho.
Machico e as suas cinco freguesias, Machico-Cinco Estrelas!
01.Mar.19
Martins Júnior

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

1985-2019…ENTRE AS DUAS DATAS, BEM NO MEIO, PODEM ESCREVER: “O POVO É QUEM MAIS ORDENA”!


                                                   

Passadas quase três décadas e meia, um pensamento antigo torna-se presente: Per angusta ad augusta – “através dos desfiladeiros alcançarás as  alturas”. É a verdadeira face da vida – particular, familiar ou social: Pela Cruz, alcançarás a Luz. Pela angústia e sofrimento, ganharás a vitória.
Não obstante a invasão de 70 policiais, as ameaças, as bastonadas e as prisões sofridas em 27 de Fevereiro, o Povo cantou vitória no Domingo, 18 de Março de 1985.
Se a luta acabou, a Vitória continua!

27.Fev.19
Martins Júnior
        

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

E DE SEISCENTOS ANOS…QUE FICOU, EM MACHICO E NA MADEIRA?


                                                           

Que desmesurado armazém tem o “Sr. Seiscentos” para arrecadar tanto entulho que, parecendo novo, não passa de remendadas velharias, retalhos de vaidadezinhas saloias “com que se o povo néscio engana”! Já não há nada, seja mato ou seja oregão, alfinete ou frigorífico, que não traga a marca industrial do “seis-zero-zero”.  Como nos tempos da Velha Senhora, emboneca-se o velho, entroniza-se-o no templo e no altar da ilha-mátria, tocam-se a rebate os carrilhões da pátria e, vai daí, arrotam-se balonas e foguetes em terra, mar e ar. Porque já chegou Sua Alteza Real o “Sr, Seiscentos”… Comissões Especializadas, Assembleias Patrióticas, Discursos poderosos, que nem Sansão quando fez cair as colunas do Palácio do Rei. Tudo solene, tudo soberbo, tudo soberano! Mas tudo tão campanudo e volátil como a tarde de um só dia.
Pensar e sentir que esta foi a casa onde viveram os nossos antepassados – é isso o que mais importa. Revisitar gerações e megagerações de inquilinos que aqui deixaram a sua pegada, encontrar a seiva original desta secular árvore genealógica à sombra da qual vivemos e respiramos! E, no pico mais alto dessa árvore, ouvir o grito de alarme que mexe connosco: “Que marca vais deixar no chão que hoje é teu”?
A maior homenagem aos Seiscentos Anos da nossa História Insular só pode advir das raízes das suas gentes, da chamada sociedade civil, a necessária construtora dos alicerces do futuro. Se em pequenos e médios ambientes, em que a “Família” seja a grande moderadora, realizarmos esta operação de pesquiza e este exercício de catarse colectiva, então aí desaparece a farsa do “Sr. Seiscentos” e surgirá como uma galáxia a Ilha-Mãe em todo o seu esplendor, mesmo quando, intermitentemente,  os filhos a transformaram em ilha-madrasta. Não serão as cúpulas a segurar o prédio, por mais salomónico que ele se apresente. É nos caboucos anónimos que mora a robustez (e, paradoxalmente, a fragilidade) deste imenso condomínio.
Foi assim que interpretei a iniciativa do matutino regional “JM”, ao lançar a sonda analítica por todos os concelhos da Madeira e Porto Santo, juntando os actuais inquilinos deste território. Na próxima quinta-feira, 28, caberá à “Primeira Capitania da Ilha” a nobre e corajosa empresa de reencontrar-se com a História e clarificar a sua identidade face aos tempos que correm. Imagino que será um tempo novo, de impressiva marca patriótica, se os herdeiros do primeiro capitão da Ilha se irmanarem em redor do mesmo objectivo comum, qual seja o de conhecer sem preconceitos os contornos da sua terra para fidelizar-se à sua matriz de antanho e, daí, projectá-la cada vez mais para o grande oceano que a abraça e seduz.
Este é o nosso tempo. Esta é a nossa hora. Lá estaremos.
E um Bem-Haja aos seus promotores!

25.Fev.19
Martins Júnior    

sábado, 23 de fevereiro de 2019

O LEGADO QUE TUDO QUEIMA E TUDO ABRAÇA


                                                                

      Ele podia deixar reinos e impérios. Ele podia erguer muralhas de aço e estátuas de bronze. Ele podia até fazer do Sinai a pedra mármore com dez, mil ou milhões de códices ultra-soberanos. Mas nada quis que lhe marcasse ao mundo as pegadas extra-terrestres.
Enterrem Bíblias, Corões e Manifestos. Rasguem os Códigos Civis, Comerciais, Penais, Nacionais e Internacionais. Portarias, Decretos Canónicos e Profanos.  Fechem os tribunais, destruam as cadeias e deixem sem chaves as portas das vossas casas, os ferrolhos dos vossos cofres.
Porque um Legado – “O Legado” – nos foi dado. Está em Lucas, 6, 27-38. “Amai, estimai, respeitai todos, mesmo o vosso inimigo e concorrente…Não julgueis para não serdes julgados… A medida com que medirdes os outros é precisamente com essa que sereis vós medidos e avaliados”! … Perdeis  tempo  e saúde em projectos de vingança. O mundo é de todos, dá para todos e a chuva não escolhe onde cair. Cai para todos, bons e maus terrenos…
“O Legado” nos foi dado. Abaixem os montes altos, preencham-se os abismos e tudo será plano, será recto. Rasgai essas vestes de ouro, fundi no lume essas tiaras papais, essas coroas imperiais, essas borlas doutorais, Porque “O Legado” nos foi dado!
Diante dele, tudo cai, tudo se esfuma como estopa vil.  Só ele ficará de pé! E o Amor de quem sabe lê-lo e amá-lo!

23.Fev.19
Martins Júnior  

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

”QUO VADIS”, VATICANO?


                                     
I

O PAPA FRANCISCO ACABA DE ASSINAR A SUA SENTENÇA DE MORTE NA INQUISIÇÃO ROMANA


II
UM PEQUENO PASSO A CAMINHO DAS FONTES OU O REGRESSO ÀS ORIGENS

III
UM GRANDE PASSO PARA A IDENTIDADE DO PADRE OU BISPO MILITANTES DE JESUS CRISTO

Três títulos para quem quiser definir e discorrer sobre a Cimeira Vaticana que o Papa Francisco convocou em Roma durante esta semana. Qual deles assentará melhor às motivações e aos objectivos em causa?... Mais que uma manifestação compulsiva apresenta-se como um Magno Congresso de Auto-Crítica em direcção à Luz que ilumina toda a História do Cristianismo. Pelo meio, “um homem terá de morrer” (Jo.18,14). Outrora, foi o Nazareno. hoje, o argentino Francisco-Papa.

21.Fev.19
Martins Júnior

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

AUTOTERAPIA NO 20 DE FEVEREIRO


                                                          

Como aquele irreprimível tropismo que ao dia sucede a noite e uma estação inelutavelmente  dá lugar à outra, assim a  vertigem entre 19 e 20 de Fevereiro toma conta de mim em cada ano que passa e só lhe encontro antídoto num assumido esforço de autoterapia, rememorando a “Tragédia Rodavante”, sobretudo a imprecação à “Estirpe mole e cobarde/Que chega sempre tarde” e à força reconstrutiva do “Madeirense mareante, Gente firme, Povo atlante”.   


TRAGÉDIA  RODAVANTE



Furor
Das águas bravas
Onde estavas
Ou dormias
Oh Velho Adamastor
Das illhas mansas,
Sadias.

Donde vieste
De qual cerro ou cume
Tume batume tume
Tumescente agreste
Desterrando o velho
Enterrando o menino
Oh belo horrível
Loucura e desatino
Oh caixa de Pandora!

Não chamem Deus
Nem a Senhora
Nem Júpiter nem Zeus
Que o mar e o trovão
Planetário em turbilhão
São amados filhos seus.

Velha matrona, ilha bendita
Tiveste a dita
De voltar à ilha virgem
Do seio furibundo
Da criação do mundo

E … oh  prole maldita
Estirpe mole  e cobarde
Que chega sempre tarde
Ao tormentoso cabo da vida

Madeirense mareante
Que mesmo gemendo mão teme
Faz-te ao largo agarra o leme
Gente firme  Povo atlante,
Rodavante  rodavante !

E Machico tem
Machico sabe
Que o Cristo dos Milagres
Não quer que o mar adormeça
Nem quer que o fogo se acabe

Venha um Infante de Sagres
Renasça o velho Marquês
Pra levantar dos escombros
De Lisboa ou do Funchal
Um povo que é português
A força que é Portugal !


20.Fev.2010 – 19/20.Fev.2019
Martins Júnior