quinta-feira, 25 de julho de 2024

BEM-AVENTURADOS, FELIZES, OS DESOBEDIENTES DE TODOS OS TEMPOS !!!

                                                                            


É preciso  não deixar fugir o momento. Captar-lhe a alma mais que o corpo, reter do fortuito a força reprodutiva do futuro e plantar na vertigem da água corrente  a bandeira  perene dos valores imortais! Eis uma filosofia existencial segura, pois que é a vida senão uma sucessão ininterrupta de instantes fugazes?!

Por isso é que não deixo passar em claro a dimensão intemporal daquela homenagem que há menos de oito dias em Viseu foi prestada a Aristides de Sousa Mendes, o Grande DESOBEDIENTE que fez da Desobediência a SALVAÇÃO de dezenas de milhares de seres humanos. A propósito da inauguração da Casa-Museu em Cabanas de Viriato, sua terra natal, assinalei aqui no Senso&Consenso que são os Desobedientes que fazem mover a História.

É esse o momento que não quero deixar fugir. Hoje, pretendo reafirmar o gérmen superior de uma atitude que as normas oficiais consideram inferior e destrutiva: a DESOBEDIÊNCIA. Previno desde logo que não se trata de um anormal e doentio espírito de  contradição, ou da  absurda e cega paranoia  de quem tem por profissão: desobediente. Refiro-me tão-só àqueles que mantêm lucidez em tempo de cegueira colectiva, os que diante de confusas encruzilhadas “vêem o invisível” e não só apontam mas abrem o caminho na direcção certa. Costuma dizer--se que são aqueles e aquelas que estão à frente do seu tempo e, por isso, são malsinados, são vilipendiados pelos contemporâneos e até sacrificados pelo ‘status quo’ vigente. Só mais tarde, é-lhes reconhecido o mérito e, daí, colocam-lhes  na fronte  a auréola de oiro da sua liderança.

Em todos os sectores e em todas estrias da história, eles e elas ficaram na memória das gerações futuras.

Jeanne d’Arc desobedeceu aos bispos franceses, aliados aos ingleses, organizou o exército popular e saí na vanguarda em defesa do território e da sua gente. A Inquisição da Igreja queimou-a viva. Trezentos anos depois, a Igreja (Papa, cardeais, bispos) canonizaram-na e proclamaram-na padroeira de França.

Tomás de Aquino, poeta filósofo, foi condenado pela Igreja em 1277 por ter adoptado o ateniense Aristóteles como mestre inspirador da sua Summa filosófica e teológica. Mais tarde alcandorou-o aos altares, tornou-o Santo e Protótipo da Teologia Católica.

Francisco, o Poverello,  foi considerado marginal e louco, percorrendo as ruas da sua cidade, Assis, como protesto contra o luxo e a opulência hegemónica da Igreja Vaticana. Hoje é o super-venerado São Francisco.

Teresa de Calcutá, quando iniciou a sua missão anti-pobreza em bairros infra--humanos, foi malvista e censurada pelos hierarcas eclesiásticos.

Salgueiro Maia desobedeceu ao regime ditatorial de Marcelo e Tomás, mas nessa desobediência formal, restituiu a liberdade e o prestígio ao Povo Português.

E como esquecer, no domínio da ciência, Nicolau Copérnico e, na mesma época,  Galileu Galilei, condenado pela Igreja por ter descoberto o sistema heliocêntrico (A Terra girando à volta do Sol e não o contrário, como descrevia a Bíblia) e só escapou à fogueira dando, aparentemente, o dito por não dito!

Por detrás de cada uma das personalidades citadas, subentendem-se e multiplicam-se centenas, milhares de protagonistas, por cuja Desobediência aos códigos doutrinais e comportamentais dos regimes totalitários  deram novo rumo à História do Ser Humano, andarilho errante do Planeta.

Mas o maior, o mais impressivo e determinante de todos foi Jesus, o Nazareno, que afrontou o regime teocrático do Templo de Jerusalém, pôs a nu a hipocrisia dos hierarcas Sumos Sacerdotes que faziam da Religião a ameaça e o terror contra um povo humilhado e submisso. Jesus foi considerado um herege, um marginal,  revolucionário anti-imperialismo romano e até demónio aliado de Belzebu. Não descansaram os dois poderes – o religioso e o político – enquanto não perpetraram o assassinato mais vergonhoso da História!

Ele, mais que ninguém, pôde erguer a honra e o valor dos DESOBEDIENTES, quando no alto da montanha proclamou:

Bem-aventurados, Felizes, os que desejam (lutam) por amor da Justiça (de um mundo justo)!

Bem-aventurados, Felizes, os que sofrem (são presos, ostracizados, queimados, assassinados) por amor da Justiça. São esses que pertencem ao Meu Reino!

Adaptemos a todos os tempos e a todos os  povos a profundidade semântica do Sermão da Montanha:

Bem-aventurados, Felizes, os verdadeiros DESOBEDIENTES da História Humana!

 

23-25.Jul.24

Martins Júnior

domingo, 21 de julho de 2024

QUANDO DESOBEDECER É UM DEVER ! … MAS “O HERÓI SERVE-SE MORTO”. ATÉ QUANDO?!


Julho – antecipado sol de Abril  em terras de França! Em 14 de 1789, a heróica “Tomada da Bastilha”, baluartde olímpico do derrube do ‘Ancien Régime’ e do absolutismo reinante. E em 19 de 1885  nasce um português que em terras da Gália libertou dos fornos da morte  dezenas de milhares de seres humanos presos à fila dos condenados ao genocídio nazi.

            19 de Julho de 2024! Em Cabanas de Viriato renasce um velho palácio, antes mudo e quedo, agora iluminado com o timbre das madrugadas estivais. Quem o fez, qual o mago reformista, que pôs alma e lume novo nas cinzas de um chão proscrito?

            Quem foi?... Um filho clonado do Proto-Viriato, aquele que nos primórdios da portugalidade ousou afrontar a soldadesca do imperialismo romano. Foi ele, o novel Viriato, não na guerrilha das montanhas, mas na mais sangrenta ditadura urbana. Tem um nome que, a partir de hoje, ilumina todas as noites viseenses e todos os meandros da história: ARISTIDES DE SOUSA MENDES!

            Ele – diplomata e humanista, esposo exemplar e pai de quatorze filhos,  visionário e empreendedor e, no apogeu da ascensão existencial, um Herói!

            Mas, por mais encomiásticos panegíricos que lhe dediquem os historiadores, faltar-lhe-á sempre o principal, o único exponencial: UM DESOBEDIENTE !!! Marginal, desalinhado, refractário, fora-de-lei, provocador, revolucionário - todos os sinónimos, que houve e que os houver no dicionário dos povos. Mas todos reconduzir-se-ão ao único estruturalmente definidor deste homem: DESOBEDIENTE.

            Ele subverteu a anquilosada semântica do vocábulo “Desobediência”, até então carregada de rebeldia, contradição, destruição e até loucura. Ele demonstrou que Desobedecer é um Dever quando as leis e os seus agentes afrontam a dignidade humana. Em tempos de cegueira generalizada, Desobediência é Lucidez. E quando a anestesia colectiva assiste e assina a destruição, a morte lenta de um povo, Desobedecer é Re-Viver, voltar à Vida, Ressuscitar.

            Desobedeceu ao regime salazarista. E pagou caro a coragem de ter restituído à Vida gerações vindouras, descendentes dos milhares de homens e mulheres sem outro futuro além do crematório hitleriano. Pagou com a miséria, a fome e a desonra pública, a sua e a dos quatorze filhos inocentes, alguns ainda no regaço da própria mãe. Ele pertence àquela estirpe liderada pelo Nazareno Mártir, ao lado de Joana d’Arc, Álvares de Nóbrega, (madeirense) Luther King, Navalny e tantos outros que os regimes totalitários mandaram a terra comê-los e esquecê-los.

            É belo, é justo, intemporal o agora palácio-museu de Cabanas de Viriato. Mas fica-nos no peito a poção amarga que o poeta Reinaldo Ferreira escreveu em Moçambique: “O Herói serve-se morto”! Até quando?!...

            Não consigo reprimir o apelo interior quando medito em Aristides de Sousa Mendes e em todos os desobedientes vítimas da sua Lucidez pró-Humanidade. Esse apelo, mote inspirador de subsequentes reflexões, consiste no seguinte dilema: Muito se apregoa o ‘heroísmo’ dos mobilizados para a guerra colonial – eu fui um deles – e até se defendem prebendas para aqueles que, embora forçados, foram em terras africanas apoiar e, se possível, perpetuar o regime da ditadura salazarista. Eu pergunto: E os que se recusaram a combater, os que foram atirados ao fosso mortuário de Caxias, Peniche, Tarrafal, os que viram a sua vida social e familiar barbaramente destruída? Estes, a quem devemos o derrube do totalitarismo português e a conquista da Alvorada de Abril? Estes, os Desobedientes, genuínos descendentes de Aristide de Sousa Mendes?...

            São os Desobedientes que fazem mover a História !!!

 

19-21.Jul. 2024

-Martins Júnior  

           

              

              

           

           

 

 

                                                                 

quarta-feira, 17 de julho de 2024

NO 7º DIA DE UMA SAUDOSA MÃE SUPRA- -BIOLÓGICA

 


“O que eu andei para aqui chegar!”….

Ao vê-la fechada naquela nau da última viagem que terá de fazer quem teve o privilégio de nascer pareceu-me ouvir a sua voz saída das quatro tábuas ali jacentes. As centenas, milhares de quilómetros que esta mulher andou…sem nunca ter conhecido outras paragens senão a sua ilha, a sua freguesia, o seu sítio verde terra, a sua amada Ribeira Seca.

Há quem seja grande porque enormes foram os cenários, os ambientes, os países e os regimes que o fizeram. E há quem, pelo seu labor discreto, torne maior e mais belo o magro e serrano berço onde nasceu e viveu. The small is beautiful.

Assim foi esta Mulher. Sem nunca ter viajado, percorreu o sempre inacabado itinerário da paisagem humana. Sem nunca ter casado, foi Mãe de centenas, milhares de filhos: Mãe supra-biológica, na formação da alma infantil, dentro dos parâmetros que marcam decisivamente os passos futuros da vida: o civismo, o carácter, a convivialidade, a cultura, a crença, enfim, os valores humano-cristãos, a cuja campanha dedicou, enquanto lhe permitiram, os seus prolongados cem anos menos dois.

  Conheci-a, desde o meu regresso da guerra colonial em Moçambique, em 1969, quando passei de capelão militar a outra missão qualitativamente mais digna, a de assistente sócio-cultural e espiritual, como pároco da Ribeira Seca, um enclave marginalizado, desprezado, explorado, martirizado durante mais de cinco séculos pelo ‘leonino regime’ da colonia. Da colónia africana à colonia insulana, uma passagem de nível  que exigiria idênticos, se não maiores, esforços de   esclarecimento e persistência para libertar quem vivia plebeu e ´servo-da-gleba’ na sua própria ilha.

E foi nesta conjuntura que comecei a apreciar a trajectória do pensamento de uma Mulher, nascida na ruralidade profunda e marcada pela  resignação imposta no catecismo eclesiástico como promessa e caminho de salvação eterna. Ela pertencia à congregação das antigas “Filhas de Maria”, a que os populares  depreciativamente apelidavam de “beatas”. Com surpresa minha, notei o crescimento evolutivo da sua mentalidade face à Igreja institucional, tornando-se uma defensora e lutadora acérrima dos valores autenticados na Bíblia, sobretudo nos Evangelhos, mais do que nos preceituados pela hierarquia. Ao ponto de - quando o governo regional e a diocese conluiaram-se para mandar 70 polícias ocupar a igreja da Ribeira Seca  em 1985 – esta Mulher, diante do agente que a obrigava a abandonar o recinto, reagiu de uma forma lapidar: “Vá embora o senhor. Eu não saio daqui, esta é a minha casa”!

Além da sua natural bonomia, da gentileza de trato (nunca erguia agressivamente a sua voz) e de uma constante preocupação de unir em vez de separar, esta Mulher ganhou o honroso título de Mãe – aquela que “dá o pão e o ensino”: ensinou centenas e milhares de crianças em aulas de catequese e alimentou gerações com o pão servido no altar da Eucaristia. Quando o bispo  diocesano proibiu a venda oficial de hóstias à paróquia da Ribeira Seca, foi ela que inspirou a iniciativa de  adquirirmos uma máquina para a confecção das partículas destinadas à Comunhão. Durante, mais de 40 anos ( desde 1977 a 2019), produziu milhões de hóstias para suprir a ‘fome’ do Pão da Eucaristia, que a Igreja institucional tinha negado. Jamais esquecerei a paciência o carinho maternais com que, todos os anos, ela fazia a demonstração ‘ao vivo’  de como se fabricam as hóstias, perante os olhos atentos das crianças candidatas à Primeira Comunhão.

Sétimo Dia abraçado a uma vida de quase Cem Anos!

Que outro voo de homenagem e saudade posso eu dedicar à Maria da Conceição de Gois senão a expressiva revelação do poeta:

Não me peças mais canções

Porque a cantar vou sofrendo

Sou como as velas do altar

Que dão luz e vão morrendo

 

Ela viveu, serviu,, sofreu, cantou, aprendeu, ensinou e alimentou gerações, “como as velas do altar”  e assim foi fenecendo, suavemente apagando-se, dando luz e assim morrendo.

MISSÃO CUMPRIDA – podem escrever na sua tumba. Por isso e porque “morrer é só deixar de ser visto”, a sua presença e o seu legado povoam amplamente o nosso agregado populacional, tal como a luminotécnica deste nosso templo da Ribeira Seca, sem uma única lâmpada visível, mas todo ele brilhantemente iluminado.

“Alma nossa gentil que te partiste”…

Boa Viagem para a Eternidade !  

               

17.07.24

Martins Júnior


quinta-feira, 14 de março de 2024

NOITES DO VOTO – NOITES DO PARTO E UMA ESTRANHA TRÍADE: PAI, PARTEIRO E PADRINHO !!!

                                                                        


    Prolongo no plural a noite de 10 para 11 de Março, porque de tantas horas e sobressaltos, euforias, desânimos, expectativas abortivas, pulsações batidas como o fragor escondido das derrocadas longínquas, de tudo isso se encheu e estendeu o mapa luso, desde o vasto oceano até à mais serrana província deste país.

            Tornou-se o pequeno ecrã um enorme bloco de partos. E um povo todo em redor, ansioso  à espera de saber “quem será o pai da criança”. E foram três os putativos progenitores a agarrar a alcova do poder. Houve aplausos, lágrimas, juras de amor em fúria!

            É da praxe nas tribos remotas ‘festejar’ o nascimento com toadas de pranto à beira do novo inquilino do lar. Não assim na fumaça da noite eleitoral. Mas por entre os esgares apoteóticos da vitória, era indisfarçável  nos olhos e no tom verbalizado dos vencedores a insegurança  latente perante o futuro. Como um pesadelo após um sono de noivado, viu - e estremeceu!!! - o ‘herói’ multidões açodadas batendo à sua porta, um batalhão de polícias (os tais que tanto lhe agradaram na campanha), os estetoscópios dos médicos e as seringas dos enfermeiros misturadas com o roncar dos tractores agrícolas, as pandeiretas e os pendões dos professores, acompanhados dos pupilos, mais as togas dos assessores judiciais, os guardas prisionais, as mulheres, os sem-abrigo, as brigadas do reumático (de muletas, ambulância ou de tuktuk) enfim, uma visão dantesca que antes o deliciava e agora o apavora e fá-lo chegar ao pranto e ao pânico das antigas tribos: “Em que é que eu me meti!”. E em vez da  mão espadeirada em flecha contra os adversários  na campanha eleitoral, agora está de mão estendida pedindo-lhes a esmola da “responsabilidade patriótica”.

Se, por um lado, sente-se confortado com o excedente financeiro de seis mil milhões em caixa  para acudir aos famintos de dinheiro vivo, fustiga-o o vaticínio das pitonisas da nossa praça (analistas, comentadores, colunistas, treinadores de bancada) que apontam para  um reinado efémero, a curto e médio   prazo, com palavra dada e desonrada, acordos e desacordos e também cordas roídas, a começar dentro do próprio conúbio de um atribulado ménage à trois e, tudo somado, um país instável, movediço,  nada confiável ao investimento estrangeiro.      

            E aqui é que entra uma madrinha sexagenária e fleumática consorciada constitucionalmente com um padrinho visceralmente hiperactivo, o qual ‘obrigou’ mais de dez milhões de eleitores a uma corrida extemporânea às urnas e foi abrindo pistas (ele próprio afilhado de Marcelo Caetano) em direcção ao pódio de São Bento, em cujo trilho corria também  o afilhado partidário. Qual astuto imperador no Coliseu pagão de Roma, assim também durante duas semanas divertiu-se ‘à brava’ desde as ameias do cristianíssimo castelo de Belém, contemplando os novos ‘gladiadores’  das arenas públicas em duelos vocais, rodadas e arruadas, folclore made in Trump american e a que não faltou uma saloia simulação do assalto ao Capitólio lisboeta.

E pronto! Conseguiu o que trazia entranhado ao peito, desde há muitos anos: pai, parteiro e padrinho nesta sala de partos, cuja hiperactividade congénita fez questão de  demonstrar, numa vertigem indomável de entronizar em primeiro-ministro o afilhado de partido, mesmo antes da assembleia de apuramento geral das eleições, em contravenção com os normativos constitucionais.

Chegámos a isto, 50 anos pós-25 de Abril! Quem na véspera da data eleitoral invadiu o ‘tempo de reflexão’ falando em estabilidade e governabilidade revelou-se o maior factor de desestabilização nacional. Aguardemos episódios futuros desta tragicomédia a-céu-aberto!

 

11-13.Mar.24

Martins Júnior   

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

FEVEREIRO BISSEXTO: TREVAS E LUZ – o 27º JAMAIS SERÁ ESQUECIDO!

                                                                       




 

        Superstição ou crença sempre tatuaram o ano bissexto e, com maior negrume, o mês que lhe deu o ser e o nome: Fevereiro!

            E não se enganou o povo-adivinho, sobretudo na segunda década do ‘malfadado’ mês bissexto: 20, 23, 24, 27, a sequência fatídica dos dias que o coração perdoa, mas a memória não esquece. Cada qual em seu lugar, cada qual com o seu peso, o seu drama e a sua tragédia. E todos convergem neste bissexto 2024!

Em 2010, foi o 20º dia que arrastou terras, casas, haveres e pessoas, ribeira abaixo, para o mar: contaram-se 42 vítimas mortais. Em 1987, finou-se no 23º dia o Cantor da Liberdade, José Afonso. Em 2022,  ficaram marcadas a sangue as nuvens da manhã do 24º dia no sul da Ucrânia pelas garras assassinas de Moscovo. E, à cabeça da fila, em 1985, o 27º dia foi testemunha ocular, às 7 horas da manhã, do assalto de 70 polícias a uma pacata igreja, na Ribeira Seca de Machico, ocupando-a  durante 18 dias e 18 noites. Houve ameaças e agressões, prisões de pessoas arrastadas para os carros da PSP. Tudo, sem mandado judicial. A mando do presidente do Governo Regional e do bispo de então da Diocese do Funchal. Têm nome e os dois estão vivos, aqui na Madeira.

Mas, ao fim do cerco, a população triunfou. Em 17 de Março, o forçado piquete policial abandonou o local. Secretamente e antes que o sol nascesse.

Para que o mundo não esqueça, transcrevo aqui as quadras que o povo de então compôs - e cantou até hoje e sempre - em legado das dores e dos fulgores que a história jamais apagará:

 

                                                    Povo da Ribeira Seca

Gente firme e verdadeira

De lutar pela Verdade

Não se cansa a vida inteira

 

Seu nome será lembrado

Ele tem a sua história

Este chão é um chão sagrado

Onde cantámos vitória

 

 

É dia de Acção de Graças     O nosso Povo estremece

Assim podemos dizer            Cheio de felicidade

Em o Povo estar em festa       De sermos os lutadores

Depois de tanto sofrer            Pelo direito à verdade

                             

                              -------------------                      

 

“27 de Fevereiro”                    O governo mais o bispo

Deve ficar bem lembrado        Mandaram a igreja fechar

Que veio tanta polícia              Mas o Povo resistiu

Ocupar o nosso adro                Até a vitória alcançar

 

                             -----------------

 

Aqui nesta nossa igreja             Ninguém pode destruir

O Povo é quem tem poder            A força desta união

Que custou tanto suor                Nós ganhámos esta luta

Para a igreja se fazer                  Que o Povo tinha razão

 

 

27-28.Fev.24

Martins Júnior

sábado, 24 de fevereiro de 2024

“O HERÓI SERVE-SE MORTO”… ATÉ QUANDO?!

 

                                                             


        Acompanharam-me todo o dia as nuvens sombrias do dia 23, sexta-feira (“aquele dia aziago, sexta-feira” das Viagens na Minha Terra) e não me deixaram quieto até à última das vinte e quatro horas. Pegaram-me nas mãos e obrigaram –

-me a transcrever aqui a inquietação, a angústia deste desabafo, que se estenderam até ao dia seguinte, à espera de um novo nascer do sol.

            A Inquietação – mais dramática que a de José Mário Branco – vem de mais longe, das terras moçambicanas e de Reinaldo Ferreira, quando o poema dedicado aos heróis fecha, como urna funerária, neste trágico epitáfio:

“O HERÓI SERVE-SE MORTO”

Que outra dor maior  e maior ignomínia à grandeza humana poderia ocorrer--nos quando os gélidos carrilhões do Kremlin emudeceram os quatro ventos do planeta:  

“NAVALDY MORREU. TINHA 47 ANOS” ???!!!

É sina que vem dos confins da História: desde o inocente Abel até Àquele que pagou no corpo a factura ditada pelo incestuoso código romano-israelita Pretório-

-Sinédrio: “É preciso que morra um homem para salvar todo o povo”. Assim o Nazareno, os seus colaboradores directos e indirectos. Assim Joana dÁrc. Assim  Luther King. Assim as vítimas da Pide salazarista. Assim Navalny.

Até quando?...

Até que um povo inteiro – cada homem, cada mulher, cada jovem – recuse ceder um palmo de terra, de culto, de poder ao ditador: primeiro conhecê-lo, desconstruir o seu discurso, pô-lo à prova, por mais doces que sejam as suas palavras. O ‘superavit’ de doçura verbal transformar-se-á em outro tanto de fel armazenado e pronto a intoxicar até à morte o mesmo incauto povo que deu vida ao mesmo ditador. Assim  com Hitler, assim com Mussolini, assim com Salazar, assim com Putin.

Como se não bastasse  lançar na masmorra o corpo vivo de Navalny, o sadismo putinista ceva agora o estertor do seu ódio mantendo preso o corpo morto do Herói, perante o pedido angustiante da família. É urgente  acordar, denunciar e cortar o passo à passagem dos ditadores, desde os maiores nas grandes superfícies aos mais pequenos no estreito burgo onde emergem como ‘salvadores do povo’, enquanto não lhes cair a máscara e revelarem o que são: “vampiros nocturnos”. 


Chamo José Afonso, nesta sua canção e neste aniversário da sua morte, em 23 de Fevereiro de 1987.

Em Navalny assassinado e em José Afonso consumido na luta contra a ditadura está cada um de nós. Está a sua morte, mas está também a sua ‘reincarnação’, erguendo o braço e a voz, ressuscitando o ânimo redivivo de todos aqueles que deram a vida para que brilhasse o sol da paz e da liberdade para os vindouros. Sejamos dignos dos nossos antepassados!

Connosco, o herói nunca será servido morto!

 

23-24.Fev.24

Martins Júnior

 

 

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

“SMALL IS POWERFUL”… O ABRAÇO DO URSÃO E O BEIJO DA URSINHA… JÁ CHEGÁMOS À MADEIRA’?!

                                                                            


Dizem que há por aí maremotos, dormentes de cinco décadas, agitando aquilo que, segundo alguns, nunca passou de mais uma “Baía dos Porcos”. Contam coisas das arábias, de um Mega contentor, marca Al-Bu Kék, atrelado a um submarino de invisível mas poderoso calado, ambos carregados de farinha branca com destino à Rua Gomes Freire sob custódia ‘cubana’.

Devo dizer que nada disso me diverte, nem move nem comove, não me aquenta nem arrefenta. Estou farto disso até à náusea, raça de corsários novos (travestidos de oportunistas cristãos não menos novos)  que passaram quase cinquenta anos a perseguir, vilipendiar e esmagar quem na hora certa denunciou que ‘o rei vai nu’ por fora, mas couraçado de ouro por dentro. Mantenho que era aí, há trinta e  quarenta anos que  deveria haver justiça - tão musculada quanto a ‘Super musculada Madeira Nova’ – para desnudar e punir os andrajosos de alma feitos milionários de corpo. Foi esse o ventre ‘imaculado’, a escola matriz, que ‘pariu’ os monstrinhos deprimentes, dispersos como filhos de pai incógnito por essas furnas adentro!...

Hoje, o que me conforta é o milagre da pequenez, desde o das fábulas de Esopo e La Fontaine, em que uma rã engoliu um boi, até à heroica gesta bíblica em que o pastorinho David fulminou o gigante Golias. E se Ernst Friedrich Shumacher  viesse a conhecer o milagroso ‘caso Madeira’, após ter escrito Small is Beautiful (‘A beleza de ser Pequeno’ ou  ‘O que é Pequeno é Belo’) daria ao mundo a espantosa novela Small is Powerful (‘O Poder de Quem é Pequeno’ ou ‘O que é Pequeno é muito Poderoso’). E certamente escolheria  para  introdução-chave  a profecia de Isaías: “Tu, Belém, não te julgues a mais pequena das principais cidades de Judá, porque de ti sairá o Chefe, Pastor e Líder do Meu Povo”.

E não seria desmentido. Bem, pelo contrário.

Vislumbro até que os “Quatro e Meia”, num lampejo de prognose

divinatória, inspiraram-se nela para compor aquela inimitável canção:

                                   Se algo existe nesta vida

                                   Que algum  saber requer

                                   É a ciência de saber

                                   Como pensa uma mulher    

Seja como for, o que está feito – já está feito. Sem remédio. “Em que é o que me meti… e com quem me meti?!”. Estará a mascar agora o rei posto. “Onde é que eu tinha a cabeça quando fiz orelhas de mercador a quem me segredou  a sábia prosa dos meus bisavós: “Quem dorme com crianças amanhece………”!

Verdade da história: Agora, ela tem tudo na mão: é rei quem ela quiser. Para a vida ou para a morte deste ou de outro governo da Região Autónoma, ela é que é, neste momento,  o  Presidente da República, a Procuradora Geral da República,  o Presidente da Comissão Nacional-Regional das Eleições, a Representante da República, a Presidente da Assembleia Legislativa, enfim, a Presidente do Tribunal Constitucional. Quem aguenta tamanha carga em cima dos ombros? Como vencer o pesadelo das e as noites de insónia?... E, mais do que isso, enfrentar a legião dos 254 milhares de eleitores da Madeira e Porto Santo!

Mas fez o tremendo assalto, portento jamais visto ou escrito em 50 anos de vida ilhoa: com escassos 3.046 sufrágios  abateu a cordilheira laranja de 58.399 Votos Grandes! Digam lá sábios da Escritura/ Que segredos são estes da Natura – bem poderia comentar e apostrofar o nosso Épico: 43.13% do gigante adamastor caem nas mãos e vão ao fundo dos magros 2,25% da  mareante anã que talvez  nem saiba nadar !!!

Moral da história: Primeiro - Nunca sabe a força que tem quem vota num partido pequeno! Segundo – a beleza e o perigo do Abraço do Urso Maior quando se encontra com  o Beijo da Ursa Menor, direi mesmo, da Ursa Mínima!

Desculpem: ‘Qualquer semelhança (não) é pura coincidência’. Originalidades da moderna ‘madeirensidade’ e, por estas e por outras, nasceu o castiço aforismo regional: “Já chegámos à Madeira?!”. Boas sortes!

ÚLTIMA HORA: Se ainda não exerceu o seu poder coercivo cá na ilha, já causou uma escandalosa ‘baixa’ em Lisboa, dentro da própria casa-mãe, leia-se, dentro do próprio partido. É obra!

03-05.Fev.2024

Martins Júnior