sábado, 21 de outubro de 2017

“DAR A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR”

                                                         
Porque “hoje é sábado, amanhã domingo”, passo ao largo desta vaga em que baloiça a Madeira, com programas estratégicos de governos, remodelações e autarquias, novinhas em folha. Entro, pois,  noutro ritmo programático, o da análise global sócio-ideológica daquele que veio reformular a condição humana. Teremos amanhã, nos textos bíblicos oficiais, mais um momento alto dessa análise, Trata-se da famosa resposta de J:Cristo aos “sábios do templo de Jerusalém e aos doutores” da lei judaica. Tão forte e tão densa que se tornou viral, repetida, dobrada e desdobrada tantas vezes quantos os gostos dos intérpretes.
Descontextualizada do corpo factual que lhe deu forma, a resposta converteu-se em axioma generalizado para distinguir os conteúdos funcionais, as especialidades profissionais e, ainda, a dicotomia dos serviços oficiais: os que pertencem ao mundo ou à polis e os que à religião ou ao culto dizem respeito. E aqui não faltam exímios dissecadores da questão, secessionistas escrupulosos, a puxar o monóculo e o bisturi para o corte que lhes convém.
Entretanto, prefiro “ler com olhos de ver”  a factualidade original dos acontecimentos. É tão linear, tão leve e límpida que dispensa ‘ilustradas’ e complicadas interpretações. Insere-se numa outra luta, a antítese entre o pensamento livre e transparente de J:Cristo e o emaranhado de prescrições, engenharias estrábicas dos Sumos-Sacerdotes e Fariseus, ditadas exclusivamente para encobrir e, se possível, contrariar a descoberta da Verdade inteira.
Vejamos: nos domingos anteriores, os textos evangélicos revelam a coragem do Mestre face aos deturpadores do pensamento religioso, resguardados nas sombrias e largas vestes oficiais da elite vigente. Não há paralelo na história que se assemelhe ao fogoso combate do Mestre contra a classe hipócrita de Jerusalém: “Cegos, que guiais outros cegos. Assassinos. Sepulcros que fedem a podridão” . E este anátema, sem apelo nem agravo: “Os pecadores e as prostitutas entrarão no meu reino, mas vós sereis postos fora. Porque eles arrependeram-se e vós não”!
Amanhã, começa o contra-ataque. A gana revanchista da elite organiza-se em conciliábulos secretos onde traça plano de acção. Tacticamente, com medo da contestação popular. E sai o primeiro round: testar a vertente político-fiscal do  Nazareno. Numa terra colonizada pelos romanos, os impostos eram pomo de discórdia e raiva quotidiana entre o a população contra o colonizador. A armadilha é perfeita, pidesca ao mais alto requinte: “Mestre, então, o que é que achas desta carga de impostos contra nós? Parece-te justo explorar assim o nosso pobre povo para enriquecer o exército dos Césares”?...
Espada de dois gumes, encostada ao pescoço do Mestre. O “sim” e o “não”  arrastariam a mesma condenação: uma, da parte do Imperador; outra, da parte do povo. Não esperavam, porém, os “doutores forenses” e os “papas-cardeais-bispos” de Jerusalém, a intuição repentista do nosso Cristo. “Mostrai-me essa moeda com que pagais os impostos. De quem é essa imagem cunhada na moeda”? – “De César” – “Então, se é dele, devolvei-lha”.
“Dai a César o que é de César”. Eis a origem pragmática da expressão que tem sido pretexto para as mais díspares e repuxadas interpretações. A armadilha que as elites prepararam para “caçar” o Mestre foi essa, a mesma, com que ficaram enredados e derrotados. Ainda assim, não desistiram. Como não resultou a estratégia política, voltaram a reunir o sinédrio e congeminaram uma outra, mais capciosa e fatal, a estratégia cultual-religiosa, uma questão intocável na mentalidade de então. É o que leremos no domingo seguinte.
Passados mais de dois mil anos, como é que não possível ainda entender a linearidade libertadora e saudável de Quem veio abrir o caminho novo da plena realização da Vida?!

21.Out.17
Martins Júnior

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

MADEIRA E MALTA – ‘GEMINADAS’ NA SEMI-SECULAR RDP/M!


Nas bodas de ouro da Radiodifusão Portuguesa na Ilha da Madeira, chamo uma outra Ilha – a de Malta – para geminá-la com a nossa. Ambas cercadas de mar por todos os lados  e ambas apertadas pela corda férrea que algema as mãos de quem escreve – garrote à solta que amarra a garganta de quem  afronta os corruptores-poluidores do ar que respiramos.
Saúdo DAPHNE CARUANA GALIZIA, jornalista,  53 anos, assassinada em 16 de Outubro, meia-hora depois de ter denunciado a corrupção dos “donos da ilha de Malta”.
No início das comemorações do cinquentenário da RDP/M, evoco a coragem de Daphne e, nela, todos aqueles e aquelas que, entre nós, sentiram o apelo veemente da consciência jornalística e tentaram, mesmo entre soluços e gemidos, despoluir o negro ‘capacete’ com que os poderosos pretendem afogar o pensamento ilhéu. Gloriosa - mas ingrata – a missão de jornalista!... Sobretudo quando a terra é um charco e o império é de sapos!
Saúdo o malogrado JOSÉ MANUEL PAQUETE DE OLIVEIRA que, amanhã, 20, dia do seu aniversário natalício, será homenageado em Lisboa.
Saúdo TOLENTINO DE NÓBREGA, da estirpe das terras de Tristão Vaz, “de antes quebrar que torcer”.
Saúdo os ilustres jornalistas, Mestres da Palavra pública  que, vindos de Lisboa, deixaram ontem e hoje no Teatro Municipal mensagens libertadoras, sem esquecer o realismo atroz dos que se vêem manietados e amordaçados pelo poder dominante, seja o político, financeiro ou ideológico. Retive, entre outras, a verdadeira, mas arrasadora, constatação de Paula Cordeiro: “A cada jornalista que contesta, há uma fila à porta para entrar” .  A conclusão, nem é preciso dizê-la: Como é duro ser Jornalista nesta terra!

19.Out.17
Martins Júnior


terça-feira, 17 de outubro de 2017

DE PEDRÓGÃO A VISEU, DE COIMBRA ATÉ LISBOA – A QUEM APROVEITA PORTUGAL A ARDER?

              Em Outubro-10,  de 2017,  celebraram-se em Coimbra os 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal, um marco glorioso, porque pioneiro, que até fez Victor Hugo lançar, desde França, um rasgado elogio aos portugueses, colocando Portugal na vanguarda da civilização universal.
         Hélas! – exclamaria hoje, inconsolável e perdido,  o genial romancista  parisiense, ao constatar a tragédia com que, precisamente no centro do nosso país, deparar-se-ia perante uma paisagem-cemitério de mais de 100 mortos, “A pena de morte voltou a Portugal”!... Mais cruel e assassina que outrora, pois são inocentes todas as vítimas que os 530 incêndios devoraram nos 350 mil hectares de terra queimada!
         Quem, mesmo de longe como nós,  seguiu atentamente a vertigem dos acontecimentos, os gritos lancinantes, o desespero sem tréguas, a fúria do vento em chamas, não resistiu à dor, sentindo o lume chegar-nos à pele, as cinzas turvar-nos  a vista e o corpo todo, sufocando-nos a respiração! Mas o mais pungente foi a sensação de impotência perante a tragédia, a impotência das vítimas, dos bombeiros, do povo anónimo. E a nossa também.
           O estertor do apocalipse bateu-nos à porta. De sobressalto, como o fogo. Sacudiu a sociedade, de alto a baixo. E eis-nos todos – nas redes sociais, na imprensa, em mesas redondas e em debates quadrados - a interpelar a atmosfera, os planos estratégicos, os incendiários profissionais, as corporações, os madeireiros, os autarcas, os meteorologistas, os paisagistas, os governos de hoje, de ontem, do século passado. No meio de todo esta barafunda ensurdecedora, não será difícil distinguir entre a análise serena, criteriosa, sentida  e, do lado oposto, a verborreia sem pausa e sem nexo, descontrolada e enviesada de raiz, enfim, a lamúria-espectáculo para impressionar o consumidor desatento, antepondo ao bem dos lesados outros  interesses encapotados, os seus, classistas, partidários. Sintomático foi o esbracejar de um conhecido comentador que, bem arrumado e engravatado na poltrona do estúdio, exigia ao Estado a expropriação/retenção das terras cujos proprietários não procedessem à sua limpeza. Muito bem, diria eu, se não adivinhasse que o mesmo seria o primeiro opositor da dita proposta, caso o proprietário o constituísse seu defensor na barra do tribunal…
         Não entro por aí. Nem tão pouco pela sofreguidão voraz dos que, desde há muito (e com culpas no processo) só vêm como  solução atirar uma mulher à fogueira, para que os incêndios se extingam e os mortos ressuscitem. E não vou por aí, porque é enorme, no tempo e no espaço, a empresa da regeneração dos solos, do ordenamento florestal, da gestão dos aquíferos e respectiva rentabilização, de uma acurada  pedagogia cívica  e, acima de tudo, de uma inteligente repartição dos recursos disponíveis. Serão necessários orçamentos de décadas inteiras para alcançar o cimo da montanha.
         Julgar e condenar quem, por acção ou omissão, fez de Portugal um lugar de tortura, a morte pelo fogo, é um direito e um dever de cidadania. Mas que, na sentença, seja  imperativo e visível o horizonte da defesa da “nossa casa comum”.  Enquanto usufrutuários inquilinos desta nesga do planeta, apraz-nos ouvir o apelo genesíaco do grande Friedrich Nietzsche: “Irmãos, amai a Terra”!

         17.Out.19
         Martins Júnior
        


domingo, 15 de outubro de 2017

NO DOMINGO, 15 - “O PIOR DIA DO ANO”


Anúncio do Profeta:
“No alto daquele monte, o Senhor vai preparar um banquete de manjares escolhidos, acabará com o luto, enxugará as lágrimas de todas as faces, rasgará o manto que separa todas as gentes, destruirá a escravidão e a vergonha que pesam sobre o seu povo”… (Isaás,25, 6-10).
Notícia do dia:
O fogo devora montanhas, casas, vidas, povoações… O povo chora e nem as lágrimas apagam as chamas.… Mais além, não há pão na mesa nem leite para as crianças… Em vez do pão servem-lhes um tabuleiro de minas, munições, mísseis e armadilhas… Levantam-se muros da vergonha entre os povos,,, E a morte cobre de luto os campos e os mares… Mas o Senhor não vem, nem Isaías volta a falar.
Palavra de ordem:
O Senhor não vem, nem virá. E tu, Homem, não esperes nem desesperes. Entende: o  Senhor não virá assinar tratados de paz e cooperação… Não tem direito a voto nos parlamentos regionais, nacionais, mundiais… Não fará orçamentos nem planos de actividades plurianuais… Não abrirá hospitais, não dará consultas nem mandará mais enfermeiros… medicamentos… escolas e professores… Não pensa  ordenar o perímetro florestal do teu país, nem tão pouco debater as alterações climatéricas.
         HOMEM – local ou planetário, actual ou intemporal, de hoje e de amanhã!
És tu o co-Criador, o co-Redentor, o Co. Regenerador do mundo que habitas. Na tua mão, o sonho de Isaías! Falta cumpri-lo. De ti, também, depende a mão que assina os tratados, o braço que vota os orçamentos, o olhar vigilante que ajudaste a colocar no monte da tua aldeia, do teu município, do teu parlamento, do teu continente!
         Contigo – Connosco! - “o pior dia do ano” será definitivamente erradicado do calendário e poderá transformar-se no melhor domingo de toda a vida!

         15.Out.17
         Martins Júnior   


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

“ O HERÓI SERVE-SE MORTO” – Evocação cinquentenária



Fosse esta crónica um berro histérico alçando um bota-de-elástico que marca bolas de ouro – e o vulgo néscio cairia de bruços, em espasmos de arraial bacoco… Mas não vou por aí. Hoje navego até Outubro de 1967. E curvo-me diante de um Homem, 39 anos feitos, ‘cantados’ e ensopados em sangue, algures no chão matoso da Bolívia: acabava de ser assassinado Ernesto “Che” Guevara. Para uns, um criminoso, para outros um mártir, um San Ernesto Guevara de La Higueta.  Médico, escritor, político, guerrilheiro. Sonhava um mundo livre, uma sociedade de iguais oportunidades para todos. E deu tudo quanto tinha na luta contra a ditadura cubana de Fulgêncio Baptista.  Ir mais além – era a sua meta – e libertar toda a América Latina, colocando no alto da sua bandeira a estrela de um ideal: “Lutamos contra a miséria, mas ao mesmo tempo contra a alienação”.
Hoje, volvidos 50 anos sobre o seu assassinato, formulo a pergunta que o diário Le Monde estampava nas suas páginas: “Que nos resta agora de Che Guevara”? Algumas publicações, muitas efígies, decalcadas do famoso retrato, da autoria do artista irlandês Jim Fritzpatrik. Dizem até os entendidos que é o segundo retrato mais difundido no mundo, a seguir ao de Jesus Cristo. Testemunhei-o eu próprio no ano de 1972, em Volta Redonda, periferia do Rio de Janeiro, quando o Bispo Duarte Calheiros me confidenciou, em jeito de desabafo: “Sabes, padre português, o governo brasileiro pôs-me um processo judicial, porque mandei colocar  em dia de Sexta-feira Santa um retábulo do Crucificado sobre o altar e eles acharam que a cabeça do Cristo era igualzinha à do “Che” Guevara”!...
Sejam quais sejam as opiniões, deixo aqui o auto-retrato de Alguém, gerado e humano como nós, publicado no seu livro “El Socialismo y el Hombre en Cuba”, onde define o seu conceito de revolucionário:
“Devo dizer, com o risco de parecer ridículo, que o revolucionário verdadeiro é guiado por grandes sentimentos de amor. É impossível pensar num revolucionário autêntico sem esta qualidade. Quiçá seja um dos grandes dramas do dirigente: deve unir a um espírito apaixonado uma mente serena e tomar decisões dolorosas.  Nessas condições, há que se ter uma grande dose de humanidade, um grande sentido de justiça e de verdade para não cair em erros dogmático, em isolamento das massas. Todos os dias é preciso lutar para que esse amor à humanidade se transforme em factos concretos, em actos que sirvam de exemplo”.
Seu pai, engenheiro civil, orgulhava-se do jovem lutador  Ernesto, dizendo: “Nas veias do meu filho corre o sangue dos irlandeses rebeldes”. Porque a sua rebeldia não ambicionava o poder nem a vanglória oportunista. Pretendia, tão-só, a libertação dos povos oprimidos do continente americano. Por isso, o mataram. Dele bem poderia dizer o grande poeta ‘moçambicano’ Reinaldo Ferreira: “O Herói serve-se morto”!...  
Que diria hoje a sepultura do Herói: “Terá valido a pena dar a vida para galgar o poder e instaurar outra ditadura, qualquer que seja a sua cor?... Jamais”!
Tremendo aviso para os políticos arrivistas que pululam por toda a parte. Aqui também. Ganhar para acomodar-se à poltrona da ambição interesseira, nunca! Mais vale perder lutando do que viver amodorrado na almofada do ego. Mais vale morrer lutando do que viver apodrecendo no trono!

13.Out.17
Martins Júnior

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

NO CENTRO, A VIDA!

                                                              
            Dias há – e estes são os que ora vivemos – que fazem o pleno total. No hiper-painel do tríduo, desde segunda até hoje, quarta-feira, ofereceram-se aos nossos olhos e à nossa consideração fenómenos, os mais díspares e até contraditórios, que dão para pano para mil mangas e apetite para todos os paladares. Logo na ribalta, os trunfos dos craques lusos contra os ‘cheques´ suíços, as surpresas do campeonato político regional,  os badalados escândalos financeiros, os gloriosos 50 anos sobre a morte de Ernesto ‘Che’ Guevara, o terramoto independentista da Catalunha, os 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal, evocados no auditório da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, com valiosíssimas prestações de índole médico-ético-jurídica que nos impressionaram vivamente.
         Nesta densa paisagem humana, optei por um outro cenário, esse único e concêntrico, onde tudo nasce e tudo acaba: a Vida, a sua génese, os saltos qualitativos, as estranhas metamorfoses e, por fim, o seu epílogo.  Tudo quanto mexe, cresce e fenece – é dentro da ‘bola mágica’ da Vida que acontece. Oh enigma da unidade e da diversidade do fenómeno existencial!... Tentar descobri-lo, penetrá-lo nos seus estonteantes meandros e constelações é tarefa ingente, só comparável à do mito de Sísifo (que inspirou a Camus um precioso ensaio filosófico e a Miguel Torga um poema de inexcedível beleza) – a  divindade grega,   condenada a transportar até  ao alto uma pesada pedra que, em lá chegando, voltava a resvalar eternamente ao sopé da montanha.
            Vêm estas considerações a propósito de um livro – uma enciclopédia, direi – lançado anteontem em Lisboa. É seu Autor o Prof. Dr. Miguel Oliveira da Silva, catedrático de Ética Médica na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, entre outras funções, primeiro presidente eleito do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV). A obra, apresentada por José Barata Moura, Anselmo Borges e Bento Domingues, constitui uma corajosa incursão numa problemática suscitada pelos tempos de hoje, como se regista em epígrafe. Tocar na Vida exige mãos de veludo e punhos de gigante e em que o foco projector iluminante tem o nome e a dimensão da Bioética. Perante um seleccionado elenco de médicos,  juristas, teólogos, constitucionalistas consagrados e um numeroso grupo de universitários, alunos seus, o Prof. Dr. Miguel Oliveira abriu o imenso Livro da Vida com a coragem de quem não teme encontrar a verdade ético-biológica, sem preconceitos nem dogmatismos, aplicando rigorosamente o método cartesiano da dúvida em demanda da certeza que, tal como o lendário Sísifo, retorna à dúvida metódica e nos obriga a prosseguir viagem. No seu cerne, surgem a vertigem e as limitações das novas tecnologias, as responsabilidades das famílias, das escolas e dos Estados, em ordem ao fim último, “a dignidade das nossas vidas”. Foram duas horas de escaldante concentração mas de íntima satisfação global que a todos  nos mobilizaram, a partir da  Fundação Medeiros de Almeida, Lisboa.
            Impossível traduzir aqui a amplitude das suas propostas, onde a par da humildade interior do cientista avulta o ânimo transformador, positivamente  revolucionário, próprio dos bandeirantes de um mundo novo. A título exemplificativo, transcrevo:
            “Os preceitos morais não perderam, por certo, nem força nem autoridade, mas correm o risco de se subverterem perante situações concretas inesperadas que os códigos tradicionais não podiam prever. Impõe-se, portanto, a tarefa de libertar as normas fundamentais que são peremptórias dos preceitos acessórios e secundários que acidentalmente se lhe juntaram em épocas pretéritas, ao sabor de condições históricas particulares e transitórias… A Ética biomédica não pode, pois, ser reducionista nem fundamentalista, muito menos converter-se numa nova teologia da medicina com as suas velhas e novas leis canónicas e dominantes”.
              E a advertência final, eloquente, persuasiva, exigente:
          “Mas o maior mal é querer ser-se banal, é não querer assumir o seu próprio destino na dialéctica sopesada entre o bem individual e o bem comum na defesa dos mais fracos e vulneráveis, aceitar, continuar a ser-se heterónomo, a passividade perante o poder ético, político, profissional e deontológico que vem de fora”.
              Como sublinharam os apresentadores – um Livro sério, científico, obrigatório! Nós agradecemos, Prof. Miguel!

            11.Out.17
            Martins Júnior

                         

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

ANATOMIA AO 9 DE OUTUBRO – DIA DO CONCELHO DE MACHICO



A onda patriótica do 5 de Outubro na capital do país alongou-se pelo mar atlântico e abraçou a baía iniciática da  capital histórica da Madeira – Machico, Terra de Tristão Vaz. Aqui se abriu o Pórtico das Descobertas do Além-Mar Português. E é hoje, 9 de Outubro, o Dia Maior oficialmente designado para alcandorar o nome, a bandeira, o Povo de Machico.   Por isso, pus na minha agenda compor um hino apoteótico àquele território onde o sol nasce primeiro  e ao qual o nosso poeta-filósofo, Francisco Álvares do Nóbrega, dedicou o soneto titulado “À Pátria do Autor”.
Dois episódios, porém, alteraram o projecto patriótico que me tinha proposto. E decidi descer à prosa dos dias e ao catálogo das efemérides. As judiciosas observações, na imprensa diária, de José de Olim, um atento analista do seu concelho, desmontaram, logo de manhã, o meu poema. E  embarquei na sua ideia de autonomizar o Dia do Concelho, dissociando-o das comemorações bicentenárias do “Senhor dos Milagres”. O segundo episódio, tão determinante como o primeiro, aconteceu na sessão solene, em que todos os oradores “obrigaram-se” a colar nos seus discursos a dupla ‘constitucional e sacramental’, enfadonha também: “Hoje, 9 de Outubro, Machico celebra o Dia do Concelho e o Dia do Senhor dos Milagres”.
A sugestão não é nova. Já a tinha equacionado aquando das minhas responsabilidades autárquicas,  lá vão quase trinta anos. Hoje, porém,  algo fez eclodir dentro de mim a imperatividade urgente da sua concretização. Chame-se-lhe adenda, emenda, correcção ou adequação. Eu chamo-lhe respeito pela terra e fidelidade à história.
Desde logo, porque esta comemoração falseia e destrói a idade e a identidade de Machico. Com efeito, o 9 de outubro, em estrito cômputo da história, não tem mais de 214 anos. Situa-se em 1803 o trágico acontecimento que deu origem à (impropriamente) chamada “Festa” do Senhor dos Milagres. Mas o nosso Machico, nobre e ancestral, tem certidão de nascimento desde 2 de Julho de 1419, portanto há quase 600 anos. Bem andou a actual Junta de Freguesia de Machico em instaurar o “2 de Julho” como o Dia da Cidade. Em abono desta tese e em contradita ao 9 de Outubro, basta pensar em certos sítios de Machico, hoje paróquias, caso paradigmático o da Ribeira Seca, que ostenta no seu frontispício a data de 1692,  ano em que o secretário-capitão da Câmara Municipal de Machico, Francisco Dias Franco, mandou construir, a expensas suas, a capela do Amparo naquela, então,  zona serrana, completando agora a provecta idade de 325 anos de história, muito anterior portanto aos 214, hoje comemorados, na sede do município. Contra factos, não há argumentos.
Outro aspecto, este de ordem psicossociológica, que tem muito a ver com a idiossincrasia da população. O garbo, o brio atávico e a emblemática capacidade, optimista e combativa, do Povo de Machico não se espelha numa comemoração trágica que, em 1803, engoliu pessoas, terras e bens, tal como sucedeu no Funchal, cujo balanço conjunto contou com mais de mil vítimas mortais, de todas as idades. Pela mesma lógica, o Dia da Cidade do Funchal seria, não o 21 de Agosto, mas igualmente o 9 de Outubro. E, adaptando a Lisboa o Dia Maior seria o 1 de Novembro, em que um tremendo terramoto arrasou, em 1755, toda a cidade.
Esbatem-se na penumbra do tempo as provas fundamentantes da opção tomada pelas entidades oficiais relativamente ao Dia do nosso Concelho. Não será despicienda, talvez, e admissível a hipótese de agregar num só feixe a memória histórica e a religiosidade popular oriunda de um fenómeno casual centrado na recolha de uma imagem no alto mar por uma galera (tinha de ser!) americana. A valer este argumento, o Funchal teria o seu Dia no 1º de Maio, de São Tiago Menor, que ‘limpou’ a lepra que então grassava na cidade.  E o Dia de Portugal, o 15 de Agosto, evocando o ‘milagre’ de Aljubarrota, em 1385, pela mão de Santa Maria da Vitória. Ou então, o 13 de Maio, pelo maior acontecimento religioso português, desde 1917.
Aqui fica, pois, o meu contributo para a valorização cultural e, sobretudo, para a verdade histórica da vetusta ’capitania’ de Machico. Compete aos historiadores (e há-os, proficientes e persistentes, no nosso concelho) investigar e trazer à luz do dia o marco identitário que exalte o brilho secular, sempre antigo e sempre novo, e mobilize a militância civilizacional que vive no subconsciente histórico das nossas gentes. Permitam-me sublinhar a saudável autonomização das duas comemorações – a civil e a religiosa - evitando promiscuidades supérfluas e até prejudiciais para as duas instituições em causa.
Isto também é amor pátrio!
Como é da praxe, termino: “À consideração superior”.

09.Out.17
Martins Júnior