terça-feira, 19 de junho de 2018

Talvez não saiba que… HOJE É O DIA: “CONTRA OS CANHÕES MARCHAR, MARCHAR”


                                                             

          Vamos sair hoje deste emaranhado ensopado, infestado – já cansa – das intrigas ‘alcocheteiras’ e afins, dos não-natos (mas já empertigados) despiques eleiçoandos, das tramp-trumpes ameaças comerciais, enfim, saiamos à rua para respirar outras aragens. E as de hoje até têm a ver connosco, é dentro delas que todos nós, portugueses, nos movimentamos.
         Então, sabia que… faz hoje precisamente 107 anos que o nosso Hino Nacional foi proclamado oficialmente o Hino de Portugal, sob a designação genérica de A Portuguesa?!
         Nem mais! Com letra de Henrique Lopes de Mendonça e música de   Alfredo Cristiano Keil (português, filho de pais alemães),  foi composta em 1890 e correspondeu a um impulso nacional contra a prepotência britânica sobre os territórios colonizados por Portugal em África. É por isso que, nalgumas versões, embora contraditas por certos autores, a expressão Contra os canhões tinha outra tradução inicial: Contra os Bretões, Marchar, Marchar.
         Faz hoje anos o Hino Nacional, como ícone representativo da Nação. Até 19 de Junho de 1911, era considerada  a canção exclusiva do Partido Republicano. Passou por diversas vicissitudes e versões, até que em 16 de Julho de 1957, após o minucioso estudo de uma comissão especializada, o Conselho de Ministros de então fixou definitivamente o texto que ainda hoje se mantém.
         Não será despiciendo, muito menos excedentário, aproveitar esta efeméride para fazer uma reflexão temática - cultural e sociológica – sobre a legítima representatividade e actualidade do seu conteúdo, isto é,  se a letra e a música  conferem ou não com a idiossincrasia do Povo Português. Porque um hino, queiramos quer não, é a identidade sonora que sintetiza a alma de uma Colectividade, de uma Freguesia, de uma Região ou de um País.
Muito longe levar-nos-ia uma incursão nesta área. Em primeiro lugar, saber se o hino reflecte a totalidade histórico-cultural e social da Nação. Temerária e ambiciosa é a tarefa de condensar em poucos versos a mansagem dos nossos valorosos  antepassados, o estro grandíloquo dos nossos poetas, a força criadora dos braços de gerações e gerações! Bem poderiam inscrever-se as primeiras oitavas dos nossos “Lusíadas” e arvorá-las em apoteótico Hino Nacional!
Assim não foi. Com Henrique Lopes de Almeida e Alfredo Cristiano Keil transportamos na voz e na alma todo um passado de que somos herdeiros. Chegados, porém, ao fim da picada obrigam-nos a pegar em armas. Pior ainda, incitam-nos a abrir o peito às balas assassinas, como fazem os obtusos crentes jhiadistas do Alcorão,  Marchar, Marchar contra os canhões! … Fico-me a  imaginar no que pensam o Presidente da República e seus comparsas quando, em bicos de pés, soltam a voz para proclamar cantando em cerimónias protocolares a fatídica ordem de marcha Contra os Canhões Marchar!... Mas o mais certo é não pensarem coisa nenhuma, como em muitos  rituais religiosos, os crentes nem sabem o que dizem.
Canhões, quais canhões? … São outros, muito maiores e mais sofisticados os canhões que, em nossos dias, temos de enfrentar e esconjurar: os atentados à dignidade humana, a precariedade laboral, as insuficiências no SNS, os problemas escolares, as crianças desvalidas, a corrupção, a desertificação, os sem-terra e sem abrigo, todo o estendal do sofrimento humano, quer endógeno, quer exógeno.
Com a homenagem ao Hino Pátrio e seus autores, aqui fica o voto, talvez longínquo, mas necessário, de que. um dia, cedo ou tarde, haja coragem suficiente num coração português para ultrapassar a “marcha dos canhões” e actualizar o epílogo do Hino Nacional em ordem ao vértice da Vida e da Felicidade, à semelhança do hino de outros países civilizados. Mesmo que não chegue a vê-lo, assim o creio!

19.Jun.19
Martins Júnior  


domingo, 17 de junho de 2018

COINCIDÊNCIAS…DISSIDENTES!

                                                      









Domingo findo, o que dele fica é o olhar do observador atento à paisagem circundante. Hoje entrou-nos abertamente em casa e na rua onde moramos o acento forte do contraste. De um lado, a irrespirável intoxicação esférica que sai dos rectângulos verdes e toma conta dos ecrãs televisivos. Do outro, as labaredas gritantes que devoraram vidas: 66 - contam as folhas impressas deste domingo. Desde logo, o contraste entre o áudio-visual e a imprensa escrita.

17 de Junho 2017-2018 – a coincidência. A asfixia da bola – a dissidência.
Na euforia estupefaciente da bola, alteiam-se os televisores até ao limite estelar, com o estardalhar pirotécnico das praças russas, repercutidas em tudo quento é nesga de Portugal. Acrescentem-se-lhe as piruetas e os delírios infanto-maníacos de um moço abusivamente pintado de verde-branco, enchendo palcos, puxando saliva da língua dos comentadores, entretendo plateias, numa requentada comédia de enfados que já nem conseguem divertir-nos.
Que estranha sensibilidade a nossa, que se deixa prender pelo efémero, pelo ridículo, pelos ‘idiotas-úteis’ e, em repugnante contraste, passa ao largo da tragédia que vitimou corpos e almas, gente como nós?!
Não se trata de apagar com lágrimas de hoje o fogo devorador de há um ano. Trata-se, isso sim, de construir mentalidades, adoptar critérios de valor e estabelecer prioridades no pensamento e na acção. Para ajudar a clarificar os contornos mais incisivos da contradição de valores, reflicto em três quesitos fundamentais:
Qual a diferença de orçamentos entre os faraónicos privilégios da bola mundial no que concerne a Portugal  e os prejuízos de pessoas e bens de Pedrógão Grande?...
Quanto dão por um par de chuteiras? E quanto custa uma vida, quanto pesam dezenas de vítimas tragicamente ceifadas?...
Quanto aos efeitos - directos, indirectos, colaterais – ponhamos na balança de julgamento e notemos os que mais pesam no tempo e no espaço: se os da vitória/derrota no mundial, se os do sucesso/prejuízo  do 17 de Junho de 2017?...
         Na resposta a estas três questões fundamentais reside a escala de valores que nos faz observar e avaliar, primeiramente, a estratégia dos órgãos informativos que nos batem à porta e, na mesma linha, medir a sensibilidade dos portugueses perante os acontecimentos ocorridos ou comemorados neste domingo. Aí revelar-se-ão evidentes, comprometedoras e motivadoras  as “coincidências…dissidentes”  da vida de uma aldeia ou de um país.

17.Jun.18
Martins Júnior                                                                                                                                                                                                 

sexta-feira, 15 de junho de 2018

CUMPLICIDADE E GRATIDÃO



Deixem-me só ficar no ramo verde
Lira lâmina tuba ou flauta
À espera que ele passe, o Vento,
À espera que ela fique, a Poesia.
                 DEDICATÓRIA  in  “Poemas Iguais aos Dias Desiguais”

Desta vez, o ramo verde foi Lisboa, Palácio Baldaya, Estrada de Benfica. O Vento foi a brisa que subia do Tejo sereno. E a Poesia, essa perpassou em todos os amigos presentes na Sala “O Desembargador”, nas vozes que cantaram a solo e no ritmo intenso e ajustado dos  homens e mulheres que declamaram perante  uma plateia de primeira água, que muito me surpreendeu pela quantidade e, sobretudo, pela qualidade.

Jamais esquecerei – e, pela amostra, quem ali esteve – estes momentos vividos numa tarde de Junho cadenciada pelos “Poemas Iguais aos Dias Desiguais”, introduzidos pela sonora profundidade analítica da historiadora Raquel Varela, a quem renovo os meus agradecimentos.
Uma palavra de reconhecimento e apreço à Administração do Palácio Baldaya e aos amigos que, na capital do país, organizaram o evento.
15.Jun.18
Martins Júnior  

quarta-feira, 13 de junho de 2018

TODOS OS ANOS, PELO 13 DE JUNHO


         Ao dobrar a curva ímpar do dia 13 de Junho de cada ano, impossível
seguir viagem sem prestar vassalagem aos dois gigantes que se erguem diante dos nossos olhos – os olhos do mundo inteiro. Separa-os um largo oceano de oito séculos, mas maior e mais forte une-os aquele fogo invisível que purifica as grandes almas: o génio criador! Como um romeiro crente que vem de longe, curvo-me, ajoelhado, diante dos dois Fernandos – Fernando de Bulhões e Fernando Pessoa – e ao pé do seu ‘altar’, hoje em Lisboa,  peço-lhes a bênção e a permissão para saudá-los com a mesma prece que, desde o ano transacto, lhes dedico com paixão e gratidão:



Quem te amarrou ao cepo
De uma milenária noite estulta?
E quem te travestiu
De usurário agente da turbamulta
Em velórios mortiços
Mitos bentos óleos  e feitiços?
Que mão rasteira
Te enfardou e apalhaçou
Entre os varridos balões da feira?

Grandíloquo helénico Demóstenes
Da era medieva
Precursor de Vieira a haver
Esconjurando a treva
Dos tempos

Náufrago migrante
Pelo mundo esparso
Foste ‘Fogo de Santelmo’
Foste Paulo de Tarso
Ulisses bandeirante
Da tua urbe primeira
‘Por mares nunca dantes navegados’

Onde as lusas quilhas não lavravam
Já os teus pés de Assis
Lassos mendigos exilados
Deixavam rasto visionário
De sábio lutador missionário

Em cada areia ou cabo ou frágua
Em tudo vias a amurada de Pádua
Com homens-peixes lá defronte

Oh verbo-fogo que arpava os tubarões
Flameja de novo a afiada espada
Da Justiça agrilhoada

Como outrora os tribunais
Ainda hoje esperam as togas naturais
Que não se prostituam nem fraquejem.

 
 Pessoa com o estro de Fernando
António transmutado de Pessoa
Filhos do mesmo sol de Junho
Amamentados no mesmo berço-Lisboa

Voltai de novo ao seio capital
Génios do Bem
Fernandos da mesma Mãe
E será grande  Portugal



13.Jun.18
Martins Júnior