terça-feira, 15 de agosto de 2017

REQUEIMEM


A morte vem do fogo a morte vem do verde a morte vem da água e não há mão nem Mãe que a sustem nem a dos Remédios onde estou nem a do Monte de onde sou.
Monte de lágrimas feitas de fogo verde e água.
1967-2017 cinquenta anos não apagaram a saudade dos onze sepultados na picada moçambicana.
15 de agosto dia da Assunção da 'nossa e outra' condição humana.

Lamego

Martins Júnior       

domingo, 13 de agosto de 2017

TRÊS MESES EM ALTA TENSÃO

     
    Se os decibéis sonoros  se transformassem em fogueiras (Vade retro, credo abrenuntio) podíamos pegar rastilho num qualquer lugarejo da ilha e teríamos durante 90 dias um poderoso anel de fogo na cintura, no dorso, da cabeça aos pés, desta paisagem estival em que se tornou a Madeira. Não se sai de uma aldeia, vistosamente engalanada, que não se entre noutra a abarrotar de gente envolvida ‘à sombra’ de plásticos multicolores que se abanam com o ribombar dos foguetes e os estridentes acordes do palco. O povo andarilho lá vai de poiso em poiso, ao toque do arraial e à pala do santinho ou da santinha, tantas vezes os mais desconhecidos da festa, mas que lhe dão uns salpicos de devoto conforto.
         São assim os nossos arraiais, rivalizando uns com os outros, quase numa corrida à camisola amarela. Dos programas publicados, lanço um olhar exclusivo sobre o panorama musical. A alegria exige animação, muita música, sob a batuta do ‘chefe de orquestra’: Façam barulho! É curioso observar, pelos anúncios públicos, que os géneros são muito similares, os solistas e respectivas bandas vão passando de um arraial para outro, chegando-se ao cúmulo que alguém exprimiu assim: “Basta ir a um só que fica tudo visto”. Referia-se à frágil, senão mesmo nula,  originalidade distintiva deste ou daquele lugar. Para desenfastiar, lá vêm do rectângulo os ‘cromos’ animadores das feiras, alguns até com uma salada pimba que revolve o debulho. E o povo gosta, diverte-se, esquece as pisadas da vida.
         Profundando a análise dos factos, não será difícil concluir que a falta de identidade característica que distinguiria uma festa da outra deve-se a  outra lacuna: a falta de criatividade participativa da população local na construção do seu programa de animação. A ausência do elemento Povo no palco varre todo o encanto típico daquela festa, por mais rica e espectacular que seja. O Povo demite-se e passa procuração a terceiros que nada trazem de representativo da sua terra. Dir-se-ia, à moda antiga, é a “mesma chapa seis” em todas as paragens.
         Longe de mim o culto de um regionalismo doméstico (paroquial, como  displicentemente classificam alguns) e, muito menos, qualquer sombra de menosprezo pelos artistas profissionalizados, de cá ou de lá. Aliás, em datas festivas, há sempre uns aperitivos diferentes da ementa quotidiana. Mas o que me parece indissociável da festa é o perfil marcante da sua população, coreografia adequada  e a produção literária autóctone dos poetas populares, que todas freguesias têm, particularmente nos meios rurais e suburbanos. E toda essa caracterização  visual ao serviço de conteúdos vivos, tocantes e quase sempre atractivos. Pela sua simplicidade e pela sua autenticidade. É isto que faz falta.
         Sem pretender ‘embandeirar em arco’ exclusivo uma localidade já conhecida na Madeira, apraz-me reconhecer e prestar homenagem aos mais de setenta participantes em palco, na última festa da Ribeira Seca, cumprindo uma tradição antiga. Os nossos ‘bailarinos’, desde os quatro e seis anos até aos de setenta (estes, antigos executantes de há quase cinco décadas) desfilaram em palco, cada qual com o seu traje diferenciado, idealizado por cada grupo ou sítio,  apresentando o perfil da população residente, as suas tradições laborais, os moinhos artesanais de outrora, o tear, as vindimas, os emigrantes,  as justas ambições dos jovens, enfim, fragmentos da sua história, traduzidos em canto e dança. Da enorme afluência de espectadores, ninguém arredou pé enquanto os nossos ‘artistas’ estiveram em palco.
           Festa é Festa – lá diz a velha cantiga. Desejável, porém, seria que a  festa não fosse apenas um narcótico barato, alienante, tão fortuito com o foguete que assusta o sol e fica logo em nada, estatelado no chão. O arraial bem pode ultrapassar a estaca rasca – “só para comer e beber”, é o que mais se ouve. Pelo contrário, deve alimentar a auto-estima colectiva, a exaltação de um Povo, o itinerário dos seus antepassados, enfim, o arraial pode preencher simultaneamente o corpo e o espírito. Não apenas, os arraiais populares, mas até os grandes concertos internacionais. Recordo aqui, a título exemplificativo, bandas famosas com os U2, Bruce Springsteen, os Downtown. E tantos outros de craveira mundial que fazem das guitarras, da  voz e das  baterias não apenas episódios de diversão mas poderosas ondas comunicacionais de mensagens firmes que sustentam os grandes valores da condição humana.
         Transcrevo uma das estrofes com que o grupo de jovens locais encerrou a sua actuação:

Nas ilhas do vulcão
Nas terras do basalto
Erguemos bem alto
A chama deste grito
E o chão de granito
Brada sem demora
O futuro é nosso 
Esta é a nossa hora



 13.Ago.2015
Martins Júnior 

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

DESFECHO DO DRAMA “FICAR OU LARGAR” (III)


Quem, em tempo de férias relaxantes, preferiu viajar na linha livre das duas estações anteriores (“Ficar ou Largar”- I e II) estará hoje à espera do desenlace final: em que ficamos? Terá razão a sentença proferida pelo juízo da leitora: “Quem não se revê nos valores da instituição não faz parte dela”! E eu pergunto: haverá direito a recurso quando em apreço está a instituição-Igreja?...
         Sem correr o risco de enfadar o repouso de verão, tentarei marcar algumas bóias de referência neste mar propenso a dúvidas e equívocos sem conta. Quero crer que do paralelo descrito no texto anterior – entre os diversos modelos de instituição  -  pergunta-se se o Império organizacional da Igreja-instituição corresponde à matriz original do seu Fundador ou se, pelo contrário, configurou-se à imagem e semelhança das monarquias absolutas?... Trata-se de um organigrama burocrático-militar ou, antes, de um organismo vivo, dotado de inteligência, sensibilidade e criatividade no pensamento e na acção?...
         É esta a chave do enigma. Os que antepõem a instituição-Igreja à comunidade de corpos e almas em marcha para a Vida – decretarão depressa  a exclusão, ‘sem apelo nem agravo’. Os que invertem a equação – Povo em  perpétua viagem em vez de betão armado, colunas, tronos  e  cúpulas ogivais, por mais sofisticadas que sejam – esses descobrirão que o seu protótipo e Líder, O Cristo Evangélico,  identificou-se com a carne humana, o Povo em marcha, deu-se-lhe todo, combatendo a ignorância, a alienação e a despersonalização com que os pilares da Sua Religião, sediada em Jerusalém,  sufocavam os crentes. A Sua paixão era a dignificação e a ascensão global dos seus conterrâneas, ao ponto de ser acusado pelos fariseus de subverter a lei de Moisés e de colocar o Homem à frente de Deus. Poderia o Mestre afastar-se, abandonar, largar – deixando os seus contemporâneos condenados às garras do obscurantismo, do medo, do terror divino. Mas não fez. Manteve-se firme, inteiro e intemerato até ao fim. Mesmo sabendo que após a Sua morte viriam os abutres sem escrúpulo (“ a praga do Vaticano”,  disse-o  Francisco Papa) e do Seu Corpo fariam mina de ouro, dos seus braços amorosos fariam chicotes de tortura e do Seu Coração aberto jorrariam labaredas condenatórias contra quem Lhe seguisse as pegadas. Mas não desistiu!
         Milhares de homens e mulheres, mártires da Inquisição de todos os tempos, que abraçaram a comunidade, a Sua Ecclesia, acabaram atirados às feras pela instituição-Igreja. Mas não desistiram! Porque viam no seu Povo, não um rebanho acéfalo, manada bruta de autómatos invertebrados, mas carne da mesma carne e sangue do mesmo sangue, com fome e sede de Verdade e Luz, sempre em escala ascendente ao encontro da Casa Paterna.
         Certo é que, neste dilema, abrem-se dois caminhos opostos, um dos quais é o de sair e lutar denodadamente (alguns pegaram em armas) para derrubar a instituição. O outro, permanecer e abrir clareiras na mentalidade dos crentes, ‘armá-los’ de ideias e perspectivas, num paciente e porfiado esforço de propedêutica sócio-cultural e espiritual, redescobrindo o rosto fraterno do Cristo-Fundador, para esconjurar os falsários predadores da instituição e  cumprir a directiva do bracarense Frei Bartolomeu dos Mártires (1514):  Ecclesia sempre reformanda – a Igreja deve estar sempre em processo de transformação. De purificação, acrescento.
         É este um trabalho árduo, mas consistente. Quando os cristãos de base interiorizarem que também são fermento na Igreja, então serão eles os construtores da Igreja-comunidade, de regresso às fontes primeiras da sua crença. Abrir-se-lhes-ão os olhos e então cairão as superstições pias, os báculos acusadores, as mitras balofas. Tem sido assim o percurso do Papa Francisco, esperando ele que a imensa assembleia dos cristãos compreenda o seu alcance e assuma o  lugar que lhe compete no grande fórum da História.
         Louvo todos quantos – gente boa, verdadeira “estirpe cristã” – que no seu dia-a-dia vibram com este anseio libertador. Louvo os que largaram, como bem descreveu Bernardo Santareno, na peça “A Traição do Padre Martinho”, quando este, perseguido pela Pide, abandonou a sua paróquia do Cortiçal,  desabafando amargamente: ”Não é possível ser-se padre em Portugal”.  Tal como na luta sócio-politica, louvo os que desertaram da guerras fratricidas em África e, no estrangeiro, lutaram contra a ditadura.
         Mas maior louvor dedico aos que ficaram, organizando e apoiando o Povo nas suas justas reivindicações, os que foram despedidos, perseguidos, jogados às prisões, manietados e torturados. Esses mantiveram-se firmes às raízes e aos ideais. Por vezes, custa mais ficar que partir. O mesmo se pode subscrever quanto à organização familiar.
         O importante é o conhecimento. Recordo-me do Prof. H. Hoestlandt, da Universidade de Lille, quando o acompanhei na Madeira numa inesquecível pesquisa científica por todo o litoral insular. Ofereceu-me a obra do P. Vouiillaume, Au coeur des Masses, sobre a vida e o assassinato de Charles de Foucauld, no deserto dos tuaregues. E apôs a seguinte dedicatória: “Pour uns découverture du Christ”. Foi este convite à descoberta que me  marcou os passos futuros, já lá vão mais de 60 anos.
         Apraz-me terminar esta mini-trilogia – “O drama de ficar ou largar” – com recurso à estância 40, Canto I, do valoroso Luís Vaz de Camões: “É vergonha desistir-se da coisa começada”, Aqui, “coisa” é conhecimento, é ideia, é “sonho que comanda a vida”!
         11.Ago.17

Martins Júnior

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

FICAR OU LARGAR?... II


Mantenho a premissa enunciada no texto anterior: uma palavra  envolve mais de mil imagens. Eis-me aqui hoje a navegar sobre o turbilhão de rotas e paisagens suscitadas pelo dilema gráfico – “ficar ou largar” -  a propósito da forma como  Raquel Varela comentou  o encontro de três sacerdotes, “três lados luminosos de uma Igreja justa” e à qual alguém teve a amabilidade de observar: “Quem não se revê nos valores da instituição não faz parte dela”. Mais concretamente: quem não está de acordo com a Igreja-instituição deve largá-la. Prometi esclarecer e cumpro agora, obrigando-me, pela escassez de espaço legível, a um esforço de apertada síntese, em cinco item’s:
Primeiro - De que género ou figurino-instituição é que estamos a falar, quando nos referimos à instituição-Igreja? Trata-se de uma estrutura monárquica, hermética, reservada a uma estirpe genealógica aristocraticamente segregada e transmitida por herança mítica, à semelhança do Velho Império Romano ou do Sacro Império Romano-Germânico?... Trata-se de uma organização militar, arregimentada num castelo monolítico, servido por estrelas do marechalato e generalato, logo seguida dos galões dourados de capitães e tenentes até diluir-se na massa informe das praças, impedidas de pensar e só condenadas a executar?... Tratar-se-á ainda de uma  pirâmide do sistema de Max Weber em que pontifica o ideal burocrático, pelo qual basta carregar no botão hierárquico e logo  toda a máquina acciona um encadeamento de peças autómatas, êmbolos, parafusos, correias de transmissão?...
Segundo - Estaremos seguros que foi esse o modelo da Ecclesia (Assembleia) que Cristo quis quando criou a sua Igreja?
Terceiro - Como se portou o mesmo Cristo perante o Templo de Jerusalém, a sede da religião judaica oficial, na qual nasceu e cresceu?... Largou-o, abandonou-o?... Foi-lhe inteira e cegamente submisso?... Esteve sempre de acordo com os Sumos Pontífices Anás e Caifás, ou com os sacerdotes e levitas do Templo?...  Lembram-se das críticas cerradas, verrinosas peças de oratória tribunícia, “raça de víboras, hipócritas, cegos que guiais outros cegos, fétidos sepulcros, por fora caiados de branco e por dentro antros de podridão”?!... Pergunta-se: Apesar disso, deixou de frequentar o Templo?... Lembram-se: aos doze anos já lá estava a discutir com os sábios e doutores da Lei, mais tarde entrou desabridamente no Santuário e  com azorragues escorraçou os que lá dentro “faziam da “Casa do Meu Pai uma banca de negócio”?!...
Quarto - Para manter a Sua Igreja (Assembleia) por que Constituição se orientava Cristo:  por um esquelético, desumano e gélido Código de Direito Canónico, decalcado do Codex Juris Romanus, com penas talhadas ao milímetro e exclusões cominatórias, algumas até sem processo formado?... Lembram-se de Pedro que O negou, da Madalena, de Zaqueu, de Judas até, convidado para a Sua mesa?!... “Na Casa do Meu Pai há muitas moradas”…
Quinto - Por fim, a questão inicial e a incógnita final: Fugiu Cristo à participação da Religião de Moisés, apesar de estar em descordo frontal com a orgânica e contra  os máximos titulares oficiais que a deformavam?... “Não vim destruir a Lei e os Profetas, vim aperfeiçoar”. Esta a pedagogia do Mestre e pela qual o assassinaram.
Esperava concluir hoje esta reflexão, a única que me serve de guião e bússola segura no mar encapelado deste dilema gráfico – “Ficar ou Largar”.  Reconheço, porém, que as interrogativas descritas nos cinco item’s  já vão longas e, por certo, poderão constituir semáforos auxiliares para encontrar a meta serena desta estrada por onde entrei. Por onde entrámos.
Encontrar-nos–emos na estação seguinte, que é como quem diz,  no próximo dia ímpar.
09.Ago.17

Martins Júnior

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

O DRAMA DE FICAR OU LARGAR


Se, como se diz, “uma imagem vale mais que mil palavras”, também se lhe deve apor o contraditório, acrescentando que uma palavra pode sugerir mais que mil imagens. E foi, precisamente, esta tese-antítese que deu mote a uma intensa reflexão que abala e todos os dias agita a aparente acalmia de quem se fez ao largo no vasto oceano da vida. O meu caso, também.
Directo ao assunto: a historiadora Raquel Varela publicou na sua página pessoal a imagem que, com a devida licença, coloquei em epígrafe. Três padres amigos, Tavares, José Luís Rodrigues e eu, aproveitámos a hora de almoço para colaborar com a autora e com a investigadora brasileira Luísa Barbosa no estudo que ambas decidiram fazer, tocando as margens da historiografia da Igreja na Madeira. E comentou, ela própria, a foto, escrevendo: “três lados luminosos de uma Igreja justa, transformadora”. Logo choveram comentários e denúncias em cima de duas palavras apenas: ”Igreja justa”, os quais se sintetizam num único conceito, de que a instituição não é nem nunca foi justa.
Uma declaração, porém, voltou a bater-me como uma pedra pontiaguda na testa, até ao peito: “Quem não se revê nos valores da instituição não faz parte dela”. Uma proposta clara: sair, fugir, abandonar.  Quantas vezes essa pergunta anda a atormentar-me – a mim e a tantos outros  companheiros de viagem! E é sempre a mesma corrente das marés  e contra-marés constantemente  a marulhar cá dentro, num duelo febril!
Já descobrimos, pelas vergastadas na vida, aquilo que nos esconderam em doze anos de internato de seminário: que a Igreja-instituição não cumpre, detectámos a olho-nu que ela despiu pomposamente o seu Fundador na praça pública, vimos que ela apropriou-se despudoradamente do seu programa de luta pela Verdade, de humildade e serviço, para transformá-lo num Império de ouro, de hegemonia mundana, de corrupção acetinada. Não tenho dúvidas de que o Vaticano é o  monstruoso muro da vergonha que nos impede de ver o verdadeiro rosto do Cristo Histórico, Aquele que não se vergou perante a ditadura religiosa dos magnates do Templo oficial de Jerusalém, mesmo nos paroxismos da mais vil tortura no cadafalso raso do Calvário.
Mas, então, porque continuas nesse antro de injustiça e hipocrisia?...
Vou responder-lhe. Antes, porém, tentarei mostrar factualmente a radiografia de uma instituição que subverteu, sem escrúpulos, todos os ideais libertadores do Mestre que ela invoca todos os dias nos seus rituais, não para iluminar mas para obscurecer os homens e mulheres de boa-fé. Presumo que o Império vai continuar, séculos fora, não “por obra do Espírito Santo”, como abusivamente apregoam os seus serventuários, mas pela capacidade mimética de adaptar-se a todos os regimes de poder político e económico, o que levou o grande bispo e santo, Agostinho de Hipona, a produzir,  há 1.500 anos (séc.V)  esta cruel mas rigorosa sentença: Casta meretrix Ecclesia – “Igreja, casta prostituta, meretriz sempre pura”.
Dispenso-me de repetir, a este propósito, o que já referi  em outras circunstâncias: o incesto de poderes, que junta no mesmo pescoço a cabeça do poder religioso e a cabeça do poder de Estado. E aí temos, o Estado Vaticano a nomear embaixadores (iguais aos diplomatas leigos) com a sacrílega chancela de “Núncios Apostólicos”. Oh Pedro Apóstolo,  pescador do mar  da Galileia, sai do túmulo e anda ver os palácios e os galões cardinalícios com que se vestem os teus colegas de pesca, a companha do teu barco!
Um dia destes, um amigo emigrante venezuelano, de férias na Madeira, confidenciou-me: “Sabe, o padre lá na minha cidade, que é meu amigo também,  disse-me que esta Papa é comunista. Afiançou-me que era”.  Só porque Francisco ( a excepção clamorosa na história dos Papas!)  toma a defesa frontal da justiça social. E por essa razão os pilares da instituição, bispos e cardeais, uns em surdina, outros abertamente (o americano Leo Burke, por ex.)) querem processá-lo, a Francisco, como herege – que  mais provas pretendemos nós para classificar a instituição como marginal e defraudadora do Cristo Histórico?!

     Perante esta cegueira insanável, porque maquiavelicamente elaborada, o Papa Francisco deveria abandonar não apenas o trono do Vaticano mas a própria instituição-Igreja. Mas não o fez. Nem fará, espero eu. E com esta proposta, já começo a justificar-me face à observação de   . É o que apresentarei no próximo dia ímpar.
Martins Junior
07.Ago.17

sábado, 5 de agosto de 2017

222… 222 … repito 222 – ESQUEÇA ESTE NÚMERO!!!!!!


Hoje arrisco-me a apanhar umas valentes bordoadas electrónicas, na mesma linha de correio por onde escrevo este arrazoado de circunstância. Porque, propositadamente, escrevo na hora em que  por tudo quanto é sangue português  corre açodadamente a ‘luta´ entre a capital do Império e o berço que lhe deu o ser. Mais claro, escrevo enquanto oiço à distância o cachão frenético  dos que assistem, via TV, o desafio entre o Benfica de Lisboa e o Vitória da cidade-mãe da nacionalidade, Guimarães.
Lá se vai todo o encanto que tinha reservado para este fim-de-semana. Hoje mando a poesia às urtigas e destoo militantemente da euforia que por aí anda desenfreada. Acentuo: hoje  cresceu uma força maior dentro de mim para cumprir o que, de há muito tempo, já tinha decidido: desligar o televisor quando e sempre que traz à rua  e polui o quarto o que  ao futebol diz respeito. Sejam os jogos, os comentários, os  ‘doutos paineleiros’, alguns até derrotados nas lides políticas,  que se sentam em mesas redondas para moer e remoer o rectângulo de que se alimentam. Passei a detestar liminarmente.
            Perguntarão o motivo desta decidida pulsão contra a absoluta monarquia do ‘desporto-rei’, assim cognominado pelo vulgo vassalo. Acusar-me-ão de anti-futebolista primário- Mas dali não saio desde que os noticiários arvoraram em tresloucadas parangonas o enunciado no título: 222! Isso mesmo: venderam duas pernas do esqueleto de um homem por 222 milhões de euros!!! Dizem mesmo que a ‘módica quantia’ vai esticar para 280 milhões. E lá vão mais seis s exclamações!!!!!!...
Nem me dou sequer ao incómodo de repetir argumentos e considerandos sobre este mercado negro – a nova escravatura, esta de luva branca – que rumina diamantes e humilha  a condição da humanidade que moireja toda a vida sem nunca ver na  sua mesa senão o ‘pão que o diabo amassou’. Venham os economistas e façam a contabilidade entre o Deve e o Haver desta indústria exportadora-importadora. Venham os psicólogos e educadores e  perscrutem a mentalidade de uma criança ou de um jovem colocados perante a ‘inutilidade’ de estudar e a fábrica de fazer dinheiro com um par de botas…
Mesmo que Manuel Alegre lhe dedique poemas ou que Vitorino alinhe notas musicais na relva alentejana soltando loas aos futebois, não hesito em classificar todo este emaranhado de compras e vendas como uma requintada forma (encapotada e idolatrada pelo rebanho ignaro, de alto a baixo) digo, uma forma encapotada  de capitalismo selvagem, galopante. Não é por acaso que o PSG deixou de ser francês para tornar-se uma colónia de um dos representantes do petróleo das arábias, o tal que deixou cair dos calções os tais 222 milhões.
Fosse um médico, um enfermeiro ( hoje mesmo,  certa comunicação social esteve de orelhas fitas para criticar) fosse um professor, um administrador consciente, um operário competente, um cientista ou até mesmo um político honesto a reclamar idênticos honorários – e caíam o Carmo e a Trindade, “olha os parasitas, olha os ladrões, grandes vigaristas, abutres da inflação”!  Mas  ao “bípede sem penas” (relembro Platão) que tem a bola no papo, já ninguém critica, todos aceitam e esperam mais. Quem será o senhor que se segue, nei-mar ou nei-terra ou nei-ar?!
Fico-me por aqui, esperando as bancadas que muitos vão arrancar e atirar  ao rosto deste escrito. Mas sei também que haverá por aí alguém que me acompanhe, tal é a obscenidade, como dizia hoje um conceituado jornalista, do mercado negro das, enfaticamente chamadas, transferências. Só me resta confirmar a decisão que originou este texto prosaico, mas esclarecido e militante. Porque (reafirmo o que disse há algum tempo) abrindo  o meu televisor para aturar pontapés no couro-não cabeludo, os sábios e falantes  “furões” da caça futebolísticas ou a cloaca de corrupções que fedem  dentro e fora dos estádios –aí já estou a ser cúmplice-consumidor e comparsa-vendedor dos tóxicos produtos que destroem os valores e minam as sociedades.
Amantes do verdadeiro desporto que torna são o corpo e saudável o espírito, “anima sana in corpore  sano”, Sim! Predadores e traidores aos ideais olímpicos, Não!

05.Ago.17

Martins Júnior    

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

FAZ DE CADA DIA O TEU “DIA ÍMPAR”


E por ser Agosto… deu maior gosto regressar aos “Dias Ímpares”.  Neste regresso, dei comigo a pensar na semiótica dos “Dias Ímpares” e,  por instinto, vi e senti a atracção irresistível, quase mágica, da aritmética dos números assim designados. A começar pelo número 3 - símbolo da perfeição e da Trindade - o 5 dos cinco dedos espalmados na mão,  o 7 do setestrelo, o dos dias da semana, o dos mitos bíblicos, depois o 11 das paixões futebolísticas e o 13 fracturante, da sorte quando acerta e do malogro quando é azar, o 21 dos solstícios e o 25 da revoada de cravos vermelhos… enfim, razão tenho eu para desentranhar da calculadora do Tempo a filia de tudo quanto traz a marca do  afeiçoado “Ímpar”. Verdade se diga que, nesta dança ambulante dos números, o “Par” é tão essencial ao “Ímpar” porque sem aquele também este não ganharia  a autonomia e o brilho que ostenta. Sendo certo que  sem  “Par” não haveria  “Ímpar”,  é notório que é este último que transporta o temão e a vanguarda, talvez porque participa directamente  do 1 inicial, Um, Único, o Absoluto.
Feita esta deriva semântica, gongórica talvez, das “imparidades” numéricas (longe das destruidoras ‘imparidades bancárias’) o que pretendo, de verdade, é desafiar a sucessão dos dias e das horas, para formular um desejo e um apelo a quem comigo navega: “De cada dia que passa faz dele o teu “Dia Ímpar”. 
Utopia, diversão e delírio – dirão alguns. Porque nem todos os dias são de festa ou de amores correspondidos ou de optimismos volantes – dirão outros. Como falar assim ao mendigo da valeta, ao coração traído, ao paciente impaciente num  leito de hospital?...
Quão difícil é penetrar no mundo inacessível de cada passageiro da rotativa misteriosa do planeta! Dava tudo para ver chegar aqui Fernando Pessoa e ouvir-lhe a ‘Mensagem’ deste apelo urgente e necessário: Que é o homem sem essa utopia e sem essa loucura senão um “cadáver adiado que procria”?!  Por isso, torna-se urgente e necessário encontrar rubis dispersos por entre os cardos e os pedregulhos que retalham os nossos pés doridos. Haverá sempre algo a descobrir á nossa beira, talvez no dentro do mais dentro que nós somos e de que tantas vezes fugimos. Mesmo nas grades da prisão há quem vislumbre um cântico de liberdade que nos quer deitar a mão. Recordo uma entrevista ao falecido Dr. Mário Soares: “Estando preso numa masmorra  em África pela Pide, ao chegar todas as manhãs ao postigo da minha cela, nunca tive aquela sensação, ai que dia tão chato, pelo contrário exclamava de braços abertos: Mais um dia que me aproxima do Dia da Liberdade”!
Já aqui citei Gilbert Cesbron, quando classificava Ma prison c’est un Royaume , a minha prisão é um Reino”. Tudo está na força motriz que nos comanda, essa força por nós cobiçada e conquistada, que tanto se chama ideal, fogo, paixão, como pode acontecer num outro olhar sobre a paisagem que nos inunda, um amigo, um livro, um beijo ou até mesmo uma decepção transitória. Em pleno verão ou no tumulto dos invernos, cabe-nos a nós fazer de cada dia um Dia Novo, Dia  Único, “Dia Ímpar”.  É nesta encruzilhada que se encontram e abraçam o SENSO e o CONSENSO!
03.Ago.17

Martins Júnior