terça-feira, 15 de janeiro de 2019

QUAL É A COR DO TEU ALVORECER?


                                                                  

Em Janeiro de 2019, todos os alvoradas se juntam numa apoteose de cores. É o mês de todos os alvoreceres. Se subires ao mais alto miradouro do planeta, logo verás a explosão polícroma do fogo aos borbotões lavrando os vales e as colinas, os abismos mais profundos e as mais longínquas planuras. Parece que não é de alvorecer a paisagem, mais parece de alvoroço. Aqui, acolá, mais além – por tudo quanto é mundo – tudo fervilha e sobressalta, ora melopeia cantante, ora tumulto ululante.
É no seio pacato da natureza, é no silêncio do laboratório de investigação, é nas escolas, nos hospitais. na rua, nas praças públicas, nos parlamentos, nas sedes partidárias, nos campos de guerra. Por onde passa a mão humana, há um toque mágico de metamorfose anunciada. Até naquele estádio supranatural, no habitat do espírito, dito de outra forma, até no horto íntimo da instituição Igreja. Parece que tudo ficou fechado num estranho recanto do outro mundo para abrir-se misteriosamente na ribalta dos 600 anos da nossa história insular.
Mas todo o alvorecer tem a sua cor. Ele é de ouro para os pioneiros da investigação, conquistadores da ciência que salva. Ele é de prata para todos aqueles que sobem os silenciosos socalcos do estudo, do trabalho, do esforço quando depois alcançam a almejada meta. Ele é roxo macerado na arena do quotidiano onde a dignidade humana é espezinhada e triturada até que se transforme em sangue de vitória pelos direitos e deveres em pé de igualdade para todos.  Mas o alvorecer é de preto na abertura oficial do ano judicial, no ódio surdo das sedes partidárias onde a ganância de poder e dinheiro fabrica facas longas para exterminar irmãos da mesma família e assentar-se nas mesmas poltronas. Em França, o alvorecer é amarelo, cabeça, coletes, tronco e membros, abalando corpos e cidades.  É-o também em Londres, com um Brexit desestabilizador de nações e continentes. Mais negro, ainda, é o amanhecer para milhares, foragidos de guerra e presos depois nos espinhaços de arame farpado.
Qual é a cor do teu alvorecer?...  Do meu, do nosso?...
Porque é a alma que dá cor à paisagem do alvor. A ideia, o sonho, a meta. Será sombrio e malsão o amanhecer, se mesquinhas, peçonhentas forem as motivações do habitante da madrugada.. E será rubro, aureolado o teu alvorecer, se transparentes e magnânimos forem os teus olhos ao saudar a manhã, o dia, o ano que se te oferecem como dádiva amorosa.
  No mar convulso das motivações que por toda a parte pululam, logo ao alvoroçado romper de 2019, à minha (à nossa) mão eu peço que me ajude (que nos ajude) a pintar de luz e juventude estes velhinhos 600 anos – no Ano Novo do trabalho, da escola, da ruas, da Política e até da Igreja. Na Ilha, em Portugal, na Europa. Até onde alcançar a nossa vista!

15.Jan.19
Martins Júnior

domingo, 13 de janeiro de 2019

ASSIM ACABAM OS “TRÊS REIS” EXPULSOS DE NAZARÉ – ÚLTIMO EPISÓDIO


                                                          


Perante a expulsão dos dois “reis”, parece que o terreiro de Nazaré  se abalou  quando o “rei-momo” irrompeu cheio de raiva contra a porta do Nazareno. “O quê? – espumava baba e paranóia – esse velho com quem pensa que está falar?... Entro e entro mesmo!...  Abre já a porta… ou mando isto tudo pelos ares!
De dentro nem um pio. Entretanto, José lobrigou, por uma das frinchas do portal, o monstruoso aspecto do homem. E foi ao quarto contar à mãe-Maria e ao filho: “O intruso tem corpo de gorila, olhar de lebre ferida, a voz esgueirada parece-se com uivos de urso, o cabelo é de leão perdido, esfomeado, mas todo retorcido como arame farpado”.
Fizeram um silêncio temido, tal o batente acelerado do homem sem controlo, que desabridamente esbracejava “Quero cercar esta cidade, os continentes, a América, tudo, com um muro gigante para não entrar nenhum negro, nenhum amarelo, nenhum judeu, nenhum muçulmano, nenhum mexicano. Exijo que esse Menino saia já daí,  venha aqui deitar a bênção às minhas tropas e  água benta no meu muro de cinco mil milhões. Chamem-lhe muro da vergonha, que eu  baptizo-o como   a muralha da honra e da glória do povo americano”!
Hesitaram, transidos de medo, se dariam ou não resposta ao intruso. Num ápice, como que tocados por um raio divino, Maria, José e o Menino dirigem-se à porta, escancaram-na de par em par. Instintivamente levantam os braços, apontam o dedo para o “rei-momo” e, com veemência, protestam: “Esta não é a tua casa. Vai embora. Tu, Herodes, agora é que percebemos, não nos deixarás fugir  quando procurares o Menino para o matar. Leva esse arame do inferno, amarra-te com ele e atira-te desse muro abaixo”.
No ímpeto da contenda, Maria e José contiveram-se. Apenas (conta-nos o rabino-narrador) miraculosamente e para espanto de todos, saiu da boca do Menino este angélico apelo: Lembra-te, rei, que tudo o que fizeres (mal ou bem) a qualquer um dos mais pequeninos é a Mim mesmo que o fazes. Se escutares e agires em conformidade, então podes voltar que eu abraçar-te-ei”.
Decepção tremenda! Os “Três Reis” do Mundo, DDT, foram escorraçados do casebre de Nazaré, onde reincarnara e vivera o Menino. Não eram dignos de lá entrar. Sem que ninguém o esperasse, os três derrotados cerraram fileira, com todo o seu séquito – armas, tanques, mísseis, E diante do portal  de Nazaré, vociferaram:
- Já que não quereis receber-nos, nem os nossos presentes, vamos já rumar ao Vaticano.  Na grande basílica seremos recebidos em faustosa audiência pelo Papa.
Mas não ficaram sem resposta. A mesma voz angélica, suave, como um fio de mel caído do alto, sussurrou baixinho: “Vaidade das vaidades! Eu não estou nesse palácio real, O Vaticano não é, nunca foi, nunca será a minha casa! No entanto, se lá chegardes, escutai a voz daquele que lá está, porque ele está comigo. E ouvireis, de novo, o que vos digo: Se vos não converterdes, jamais entrareis no Meu Reino”. 
……………
Por aqui ficou o informe secreto do rabino-narrador sobre a visita dos três DDT, os “Donos Disto Tudo”. Perdeu-lhes o rasto, definitivamente. Só uma certeza lhe ficou gravada para sempre: nenhum deles foi digno de entrar no humilde casebre de Nazaré. Onde estiver o Menino não entra sombra de prepotência, desumanidade ou cinismo. Para o que o mundo saiba e os homens não esqueçam!

(A gravura é extraída do jornal “Le Monde”, ed. 10/01/19)
13.Jan.19
Martins Júnior


sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

A NOVELA DOS “TRÊS REIS”, DDT (DONOS DISTO TUDO) A NAZARÉ, 2019 (continuação) – II EPISÓDIO

                                                               

   Curvaram-se até ao chão os cinquenta escravos que suportavam aos ombros o “Rei Chino”. Ele desceu, anafado e majestoso, poisando o calçado cor-de-fogo em cima daqueles  dorsos amarelos transformados em degraus de carne humana. Curvou-se ele, também, num ângulo de noventa graus, quando apareceu à porta um homem robusto, olhos vivos, penetrantes, que se identificou como o pai do Menino. À pergunta de protocolo – “Quem sois e a que vindes”? – o “rei” prontamente atalhou:
 “Sou eu o maior do mundo, tenho sob o meu jugo biliões de escravos, sou eu que alavanco a economia do planeta. E mais, eu”…
O judeu anfitrião cortou-lhe a palavra e o passo: “Mas a que vindes, dizei”.
- Trago ali o dragão dos deuses, carregado da tapeçaria mais fina, trago ouro a rodos, feito do sangue do meu povo amado. E mais: trago duzentos escravos meus para oferecer-tos. Permite que eu veja o Menino. Ou, ao menos, vai dizer-lhe que está aqui o “Rei da China e das Arábias”.
José nem precisou de consultar mais ninguém:
- Desaparece deste terreiro. Este é um chão sagrado, onde não há opressores e oprimidos,  senhores e escravos. Aqui todos são iguais. Leva esse ouro e restitui-o aos corpos de onde os arrancaste a ferros. Volta ao teu reino, acaba com o trabalho forçado de milhões de crianças famintas, destrói a escravatura.  Depois, só depois, podes chegar até aqui, onde serás digno de entrar no meu casebre.
Discretamente, sem alarido, toda a comitiva real virou atrás e foi postar-se, envergonhada, na rectaguarda da grande parada.
De imediato, apressa-se o “Rei das Estepes”, musculado, ritmo binário no andar, vai ele mesmo à frente dos tanques cor-de-chumbo, comandante-em-chefe da embaixada russa. E antes que José fechasse a porta, puxa-o violentamente pelo braço e dispara de rajada:
- Diz a esse Menino que eu não lhe trago escravos e já deixei de ‘comer criancinhas ao pequeno almoço’. Eu sou pela revolução e pela igualdade de classes. Venho de um passado hostil aos czares e aos privilégios. A minha bandeira sempre foi o proletariado, a defesa dos indefesos, a protecção da infância e a segurança dos velhinhos. Por isso, conta lá isto ao teu Menino: Está aqui o “Rei Russo”, traz-te armamento, o nuclear, os tanques, os mísseis. Comigo estás seguro.
José tentou fechar a porta entreaberta, mas não conseguiu, porque o russo encostou a peitaça como couraça dura contra os gonzos. Tinha ainda mais uma prenda para o Menino:
- Aqui tens a oitava maravilha do mundo. Leva-a lá dentro, mostra ao Menino e à sua Mãe a minha prenda, de todas a mais poderosa. Com isto, em casa ou na rua, no céu ou na terra, ninguém fará mal ao Menino, nem a ti, nem a tua mulher.
O dono da casa abriu o pacote e ficou intrigado com o que viu lá dentro. Teve medo de tocar-lhe. É então o próprio “rei” que lhe explica: “Esta é aquela arma supersónica, a exterminadora,  que os nossos cientistas classificaram de Kinzhal, também chamada de ‘Avangarde’. Com ela, nenhum Herodes ou Pilatos ousarão meter-se convosco. Eles fogem a sete-léguas”.
 O nosso rabino, testemunha ocular de todo este movimentado espectáculo, contou aos jornalistas a repulsa de José, depois de fechar a porta, resmungando lá dentro:
- Vai-te embora. A minha casa é uma casa de paz, não é nenhum ‘bunker’ de guerra. Precisamos de pão, não de bombas de espécie alguma. Vai, destrói no gelo da Sibéria todas essas máquinas assassinas. Depois disso, só depois, volta aqui a Nazaré e traz contigo o trigo, a água, a bandeira da concórdia e da paz universal. És nosso convidado.
Foi enorme o desaire, diz o nosso rabino. O musculado ginasticado “rei”  meteu o rabo entre as pernas e foi juntar-se, lá atrás, ao “Rei Chino”.
(continua)

11.Jan.19
Martins Júnior


quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

OS “TRÊS REIS” DO DIA SEIS, SÉCULO XXI: ESBOÇO DE NOVELA EM TRÊS EPISÓDIOS


                                                   

Estranho silêncio cobriu a travessia dos “Três Reis” pelo deserto Mais denso, porém, foi o negrume impenetrável que envolveu a sua chegada a Nazaré e a recepção na casa onde estava o Menino. Durante quarenta e oito horas tinham desaparecido da banda larga noticiária os três DDT, senhorios do planeta Terra.
Dado o alarme, logo correram a Jerusalém agências, jornalistas, estações, o arsenal informativo dos quatro cantos do mundo. Em vão. Nem rasto nem pegadas nem sinal que fosse da passagem do poderoso trio peregrino. O Gabinete de Benjamin Natanyahu fechou-se, sem qualquer hipótese de contacto. Os próprios moradores também se esconderam e, pelo mexer das cortinas, viam-se lá dentro das casas vultos furtivos a espreitar as ruas desertas. Parece que, além do silêncio, um medo subterrâneo amarrava as pessoas às fechaduras das portas cerradas.
Mas que mistério e que pavor teria provocado a secreta (porque não-anunciada) visita dos três magnatas reais à pátria do reincarnado Nazareno?... Era preciso desvendar o enigma. Mas sem sucesso.
Desiludidos, os jornalistas preparavam-se para regressar aos locais de origem, quando lá ao fundo da avenida avistam um transeunte, pelo traje indiciava ser rabino, que saía da sinagoga. Caíram logo em cima do homem, tímido e de baixa estatura, bombardearam-no com perguntas em catadupa e, de tal jaez, que viu-se obrigado a chamá-los para um recinto esconso, não fosse alguém denunciá-lo à justiça judaica por desobediência à “lei da rolha”, decretada nessa manhã,
Começou assim:
“Por coincidência, juro por Deus, estava  eu lá mesmo em Nazaré, quando à distância vi aproximar-se um enorme séquito de cavalos, tanques de guerra, muitos soldados, que se dispunham no espaço em frente do carpinteiro José. O medo tolheu-me os ossos, mas lembro-me que entre os três comandantes dos  blindados levantou-se uma espécie de discussão, mas tão dura que até de longe se ouviam trocas de palavras azedas, agressivas. Porquê?... Só captei esta imprecação de rajada: “Eu é que sou o primeiro a entrar”, ao que o outro ripostava: “Não e não. Sou eu, porque sou o mais importante” e o terceiro acudia: “Mereço eu o primeiro lugar, porque venho de mais longe”.
Continuou, depois, o velho rabino, a descrição das três comitivas em parada, mais os respectivos equipamentos e ofertas ao Messias renascido.
“Um deles, o mais volumoso e arrogante, juba ruiva, virada ao contrário, ostentava cofres de dólares e o que me chamou a atenção foi um enorme dossier que parecia mais pesado que o próprio portador. Algum megaprojecto talvez, pensei… O outro ostentava diante do seu exército uma arma que, dizia ele, era o último grito da arte bélica, arma invencível, com a inscrição “Kinzhal”. Um outro, ainda, de tez asiática, fazia-se transportar num trono dourado, carregado aos ombros de cinquenta escravos chineses que entoavam canções de guerra”.
Entretanto, o “Rei Chino” antecipa-se e é o primeiro a bater à porta da casa de Nazaré”.
O que então se passou, conta-se no próximo episódio.

 09.Jan.19
Martins Júnior  

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

QUARTA-FEIRA DE CINZAS EM JANEIRO?... NUNCA!





Interminável parece a viagem dos “Três Reis” – os donos do planeta – às terras do Oriente. De como foram recebidos, ou não, na modesta casa de Nazaré, nada se sabe. O secretismo que ronda o acontecimento não augura bons sinais. Enquanto isso, retoma-se a vida nestas ocidentais paragens lusitanas.
Passada a meia-noite e repassadas as passas da sorte, voltou a prosa dos dias. Não obstante os calorosos votos de Feliz Ano Novo, tão fugazes a sair-nos da boca quão céleres a desfazer-se como as fagulhas brilhantes caídas no mar, a verdade é que o cenário mudou, apagaram-se as ampolas multicolores amarradas às árvores, finou-se a magia da cor, da avenida, da Placa Central, enfim, acabou-se o teatro do magnífico anfiteatro. A cidade emudeceu, os campos esmoreceram, as esplanadas são praias vazias. Cheios apenas os aeroportos, gente a correr, de malas aviadas, não vá a aeronave deixá-los em terra, os milhares de turistas de passagem.
Em redor da ilha, liquefez-se o imaginário anel do bolo-rei que a circundava. Agora, é a expectativa, a grande incógnita que aí vem: o regresso às aulas, a rotina do trabalho (dos que o têm) e o espinho da incerteza (dos que o não têm), a saúde e as suas oscilações, a família, numa palavra, o futuro. Alterou-se, notoriamente, o semblante dos que ontem nos sorriam e cobriam-nos de mimos e festas. Como no facebook (dizem-se amigos no tablet e desconhecem-se na rua) passamos, os transeuntes, uns pelos outros, cabisbaixos, indiferentes, por vezes hostis numa espécie de diminuta guerra-fria. Como tudo mudou em menos de uma semana!
Alongando o olhar pelos extensos continentes, poucas ou nenhumas são as amostras de sorriso franco. Como e para quem? Para os precários, toda a vida escravos por um dia? Para as vítimas do shutdown da maior potência económica? Para os náufragos resgatados  do Mediterrânio, à espera de um porto que os acolha? Somam-se os “coletes amarelos”, junta-se o arcebispo de Lion, Mons.Barbarin, sentado no banco dos réus por encobrimento. Mais além, o furor de um militar falhado a vender armas nas avenidas e nas favelas do Brasil. E o cortejo - mais caterva que desfile – continua… Por tudo isto e muito mais, a ressaca da Meia-Noite das doze passas pôs-nos na cara a máscara de uma indefinida depressão.
Afinal, parece que à Terça-Feira de Ano Novo seguiu-se uma antecipada Quarta-Feira de Cinzas. Nas ruas, nas esplanadas, no mar e em terra e, pior, no rosto das pessoas. Mas eu não estou aí. Não! Só quero ir com quem vê nestes primeiros dias do Ano Novo a grande rampa de lançamento, construída a pulso, para marcar um novo rumo ou uma nova velocidade na conquista de sonhos inacabados. Retomando o grande tiro de partida, o que é preciso é amar a vida e a ilha. E para amá- las, só há um módulo: conhecê-las. Para 2019, seja una e plena esta palavra de ordem: 600 anos depois, vamos realizar todos a Redescoberta da Ilha!
07.Jan.19
Martins Júnior       

sábado, 5 de janeiro de 2019

QUE ESTRANHA VIAGEM SERÁ ESSA?...


                                                            

         A notícia explodiu por todo o mundo. Os três reis do planeta Terra juntaram-se em assembleia secreta na periferia de um buncker lunar e acordaram à uma neste megalómano projecto revolucionário:
“As nossas embaixadas, já que as mudámos de Telavive para Jerusalém, vamos inaugura-las amanhã na capital do reino davídico de Israel” (Aprovado por unanimidade).
Vodka, champagne e chá preto selaram o pacto histórico, embora com o repúdio veemente da Sociedade das Nações.
         Entretanto, para apaziguar a celeuma dos povos, houve uma emenda ao texto e propôs-se-lhe o seguinte aditamento: “Aproveitamos a viagem e após a inauguração, subimos a Belém, passaremos à cidadezinha de Nazaré e lá encheremos de preciosos presentes a casinha do Menino. Obrigá-lo-emos a renascer nas palhinhas do Presépio”.
         Assim se disse, assim se fez!
         Organizados os preparativos, armazenadas as provisões, lá vão eles, os três mosqueteiros, donos da Terra. Atravessando a noite, ei-los a caminho, passo grave e solene, guiados pelo satélite tri-dimensional, ostentando as bandeiras de cada um dos três impérios dominadores do mundo.
         Que estranhos planos irão debatendo ao lingo da viagem?
         E como serão recebido na casa de Nazaré?
Que brindes levarão ao Menino de Belém?
………………………………
É o que saberemos no próximo episódio. Até lá, surpresas positivas surgirão. Fiquemos suspensos no meio da noite, aguardando o próximo Dia Ímpar deste Janeiro auspicioso.
Bom Ano Novo!

05.Jan.19
Martins Júnior                                                                      

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

O VERDADEIRO FOGO DO NOVO ANO


                                                    

Desafinando do apreciado conjunto “Resistência” que enriqueceu o panorama musical português com o refrão  - Não, não sou o único a olhar o céu – ousei anteontem, 1º dia do ano, transpor a negativa e mudar a conclusão para o atrevido Eu sou o único a não olhar o céu, querendo com isso significar a minha recusa em deixar-me iludir com o colorido narcótico dos foguetes que estralejaram toda a abóbada planetária. Mais importante que ficar embasbacado com o fogo a pingar do céu seria olhar a terra, desbravar os tenebrosos tufos de ignorância, enfim, redescobrir valores e convicções inatas no coração e na raiz das pessoas e das sociedades.
         Em boa hora, o aparente pessimismo da minha posição veio  transformar-se numa manhã de optimismo e militância activa,  ao tomar conhecimento dos textos de duas personalidades marcantes da nossa época. Foram eles que me fizeram, felizmente, corrigir a minha afirmação inicial e alinhar com os “Resistência”: Afinal, Não, não sou o único. Não sou o único a tentar descobrir no húmus da terra o brilho de estrelas iluminantes que afastam as trevas da ignorância para podermos ver o caminho e alcançar o horizonte claro das nossas convicções.
         Cómodo e anestesiante é espojar o olhar e a mente na almofada das ilusões, das meias-palavras coloridas e ociosas, das panaceias malabares que divertem mas não resolvem. Ao contrário, requer-se muita coragem e muita energia se exige para olhar frontalmente a realidade, accionar os mecanismos da “razão pura e da razão prática” (como proclamava E.Kant) e marcar posição clara, inequívoca, iluminante.
         Foi isto mesmo que nos deram, em mensagens de Ano Novo, o Papa Francisco na Roma italiana e o bispo Nuno Almeida, na Roma portuguesa, como é conhecida a cidade de Braga.  Começando pelo bispo auxiliar da arquidiocese bracarense, sabe bem  - e louva-se-o, por isso – ouvir estas palavras em plena catedral: “É preciso exercer o direito de uma cidadania atenta, activa e criativa, contra a propaganda política profissionalmente orientada”. E não pára o bispo educador da população, vai directo à meta, abalando a consciência cívica individual e colectiva: “Não permitamos que alguns euros na reforma ou no salário comprem as nossas convicções profundas”.
         Candentes línguas de fogo purificador estas considerações, para todos os regimes políticos, mais incisivamente para os de pendência populista!
         Tão directo e radical foi o Papa Francisco no Vaticano, ao devastar o fumo fátuo dos incensos farisaicos nas igrejas, em devoções, celebrações faustosas mas estéreis, em rituais caiados de branco e mística dentro do templo,  mas visceralmente terroristas fora dele. É de ficarmos em sentido para ouvir estas libertadoras Lições de Abismo : “É MELHOR VIVER COMO ATEU DO QUE IR À IGREJA E ODIAR OS OUTROS”
Quanto de profundo e clamoroso se esconde nas linhas e entrelinhas destas brilhantes mensagens! Cabe aos seus destinatários – nós, também – interiorizar os seus conteúdos, desenvolvê-los e semearmo-los no c hão da terra que nos foi dada como inquilinos de passagem.        
No dealbar de um Ano Novo confortam-nos e dinamizam-nos estas velhas e sábias sentenças, aceites como chaves de ouro para abrirmos as portas deste incógnito mistério do ano 2019!

03.Jan.19
         Martins Júnior