sábado, 9 de dezembro de 2017

MITOS E SOMBRAS À VOLTA DE UMA MULHER, A MAIOR!

                                              
Calculo a sensaboria com que  muitos aceitarão este meu produto de fim de semana. Ou talvez nem o aceitarão, pois que traz um rótulo enfadonho, embora ‘perfumado’ pelo bolor  dos mitos religiosos que se colam inconscientemente aos indivíduos e às sucessivas gerações. Faço-o porque estou entre dois dias feriados e consagrados. Faço-o também porque sei distinguir o que é magia e sonho daquilo que é mito redutor de factos e personalidades. Faço-o, ainda, porque o mito balança entre o 1 e o 8 de Dezembro. Poucos parágrafos bastarão.
         Primeiro: dizem os livros que os conjurados e, com eles, D. João IV atribuíram  à “Senhora da Conceição” o sucesso da ‘Restauração’ de 1640 e, por isso,  consagraram-na ‘Rainha e Padroeira de Portugal”, inclusive com o direito exclusivo de, só ela e não o monarca, passar a usar a coroa do Império. Primeiro mito, herdado já desde 1385 em agradecimento da vitória de Aljubarrota, com a agravante herética de colocar Maria, Mãe Cristo, ao mesmo nível da ‘padeira’ que matou sete castelhanos com uma pazada. Sempre o mesmo instinto de endossar aos deuses as escaramuças e guerras que os homens fabricam!
Segundo: desde a infância tenho ouvido que a nomenclatura ‘Senhora da Conceição’ significa que uma mulher – Maria – foi concebida e isenta do “pecado original”, isto é, foi a única que escapou à condenação inelutável por um crime que todo o bebé carrega aos ombros pelo facto de vir ao mundo… Esse crime – aleatório, sem conteúdo nem tipificação definida -  quem o cometeu foi Adão, levado pela Eva, o qual marcou como um ferrete cruel toda a criança recém-nascida. Até ao fim dos tempos será assim. Quem poderá suportar esta tremenda difamação, só de per si suficiente para instaurar um processo de injúria junto do Ministério Público!... Aqui, o mito atinge proporções dantescas. Para ser condenado logo que sai da barriga da mãe, melhor seria então não ter nascido...
Terceiro: isento de ‘pecado original’ é privilégio que torna o indivíduo imune ao erro e à deficiência, particularmente na área dos comportamentos e atitudes. Conclusão: Maria foi a mulher formatada para ser perfeita, dotada da ‘bossa craniana’ que lhe vedava o acesso a qualquer solicitação negativa. Por outras palavras, mesma que quisesse, ela não podia errar. E o mito chega agora ao cúmulo de considerar Maria como um autómato, quase um robot matematicamente predeterminado, enfim, Maria, regida pelo instinto, como as abelhas perfeccionistas que, desde o princípio do mundo, constroem infalivelmente o génio de um  favo de mel… Em sendo assim, conclui-se que a grande Mulher, mãe do “Homem mais Inteligente da História” (Augusto Cury), nenhum mérito teria por ser Santa, Perfeita, Imaculada Conceição… É implacável  a lógica do erro!
Quarto: todas as eventuais manifestações negativas do ‘pecado original’  (e são patentes, até  nas crianças, as deficiências inatas, a vários níveis) só têm um nome e uma fonte: a genética. Por desconhecerem, à época, as leis científicas da hereditariedade, os teólogos de então, com Santo Agostinho de Hipona à cabeça, recorreram a uma categoria ‘extraterrestre’, reveladora do castigo divino e a que chamaram o dito cujo nome. E, em vez de apelarem à autonomia do ser humanos, às suas virtualidades dominadoras e libertadoras, jogaram o problema para um ‘estádio’ superior – a teoria do ‘pecado original’. A ciência destruiu o mito de séculos. O Homem assume-se herdeiro de um processo dinâmico em que os genes de outrora vivem com ele. Dele depende a sublimação, a construção do monumento que traz virtualmente dentro de si. Neste entendimento, têm mais valor os que lutam pela perfeição holística do ser humano, como foi a autêntica Maria de Nazaré,  do que os que, segundo o mito,  nasceram robotizados, milimetricamente formatados, sem hipótese de errar.
Só há caminho fora do mito!

09.Dez.17
Martins Júnior
  






quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

JÁ NÃO HÁ GENTE DESSA!

                                      

Foi o contraste dos dias que me fez mudar de direcção no alinhamento destes momentos de diálogo implícito, ao cair da noite.
Assistimos todos e assistiu todo o mundo, estupefacto e tragicamente expectante, perante um mastodonte humanóide vomitando, de olhos vendados, barris de pólvora  sobre o tão retalhado e esmagado Oriente: “Vou mudar a Embaixada dos EUA, de Telavive para Jerusalém”.  O planeta estremeceu de espanto e horror na visão do inferno feito de labaredas de sangue e ossadas que julgávamos socialmente extintas. Impantes de orgulho sádico, só os judeus de Nova York, magnatas da finança americana.
Do outro lado do hemisfério, uma voz se ergueu. Foi a primeira a rasgar os ares da manhã de ontem para protestar, com a autoridade ético-política que lhe assiste, contra tamanha e selvática maldição. Veio de Roma e foi a voz de Francisco Papa que, intrepidamente, reafirmou a tríplice dimensão da “Cidade Santa” de Jerusalém, onde o Nazareno foi assassinado, de braços abertos, para significar a comum universalidade etno-político-religiosa dos humanos, representados nas três credos:  judeus,  cristãos e  muçulmanos. Assim falou Francisco, preocupado e angustiado, acentuando: ”Não me posso calar”. Que testemunho de coragem e autenticidade, tão diferente de outros titulares de uma Igreja, tantas vezes cobarde e colaboracionista!
Nem de propósito! Neste dia 7 de Dezembro, evoca-se a memória de um grande líder religioso, do século IV, d.C.. Ambrósio, de seu nome, era arcebispo da, já então famosa, cidade de  Milão. Era o tempo em que, após o decreto imperial de Constantino Magno, os cristãos ganharam liberdade de culto. Os Imperadores Romanos passaram de perseguidores a protectores da Igreja e tinham assento privilegiado nas basílicas recém-construídas. Ao tempo de Ambrósio, era soberano o Imperador Teodósio, assíduo frequentador da catedral de Milão.
 Algo aconteceu que veio alterar esta mútua cordialidade entre os dois. Teodósio mandou invadir e saquear uma pobre população de 7.000 habitantes de Tessalónica. Ambrósio ficou tão indignado que, no domingo seguinte, quando o Imperador Teodósio e sua comitiva se preparavam para entrar, como de costume, na catedral, o arcebispo correu à porta do templo e, ostensivamente barrou-lhe a passagem. Mais: obrigou-o a penitenciar-se perante a população e sentenciou-o a caminhar durante meses sobre as montanhas geladas dos Alpes, como condição prévia para poder reentrar na catedral de Milão. Eminente lição, que ficou impressa na história, em homenagem à Paz, contra os promotores das guerras! Imortalizou-a o pintor seiscentista Antoon van Dyck.
                                                  

Titulei este nosso encontro de uma forma, talvez demasiado impressiva, repetindo  um ditado popular: “JÁ NÃO HÁ GENTE DESSA”. É que, compulsando as páginas de outrora, deparamo-nos com uma Igreja colaboracionista, ‘edificantemente’ calada, perante atrocidades de governos opressores de populações indefesas. Não vou mais longe: recordo as guerras coloniais, em que a Igreja oferecia os seus serviços e até obrigava os padres a integrar-se nos batalhões do exército, promovendo-os a capelães militares. Mais perto, porém,  não esqueço uma Igreja diocesana madeirense que, conluiada com o governo, consentiu que  um efectivo de 70 polícias ocupasse um pobre templo (foi na Ribeira Seca, em 1985) durante 18 dias e 18 noites.
Hoje, porém, emendo o título. Faço-o, perante a atitude de Francisco Papa face à loucura irresponsável de Trump. E já não é a primeira vez. O facto de o ter recebido no Vaticano, em visita protocolar, não o  impediu de censurar o comportamento ditatorial do presidente americano, nestes termos: “Trump não é cristão”.
Ambrósio e Francisco: separados por 17 séculos de distância temporal, estão juntos no mesmo tronco evangélico – firmes e corajosos: “Felizes os que têm fome e sede de justiça… Felizes os obreiros da Paz”. (Mt.22,37-40)  
         Afinal, AINDA HÁ GENTE DESSA !!!

         07.Dez.17

Martins Júnior

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

“NASCEU-VOS UM MENINO”… COM 80 ANOS DE IDADE!

                                                     

Tivera eu o timbre altissonante de um Arcanjo e romperia pressuroso por essas montanhas além bradar ao mundo inteiro a Grande Nova de Belém:: “NASCEU-VOS UM MENINO”. Não apenas aos guardadores de rebanhos, mas a todos os homens e mulheres de “boa vontade”! Também aos de má vontade, aos cegos e sonâmbulos, aos reis e aos párias: “NASCEU-VOS UM MENINO”! E com esta notícia responderia ao anseio latente de toda a terra e de quantos a povoam, porque na decrepitude de um mundo caduco e vazio de esperança, nada mais reconfortante e promissor do que um berço de criança para renovar a face da terra.
E, para espanto de toda a gente, acrescentaria: “Ele vem do ‘fim do mundo’ e tem 80 anos! Aquele, por quem tanto esperais, já está chegando, já chegou, está aí no meio de vós”!
Mas já que não sou Arcanjo Mensageiro nem tenho a sua voz potente, eis que nos visita alguém que vem abrir a cortina desta Nova Belém que habitamos, para anunciar o Menino de 80 anos que vem restituir a alegria do amor e o abraço entre as nações.
Quero referir-me à presença do Prof.Dr.Pe. Anselmo Borges que, na tarde de hoje, deu a conhecer a professores e alunos da Universidade da Madeira a sua mais recente obra . “FRANCISCO – DESAFIOS À IGREJA E AO MUNDO”. Do quanto se ouviu e do muito mais que se poderá ver nas páginas deste precioso volume, fica-nos a sensação  que, tal como os antigos esperavam um Libertador,  hoje  é de Jorge Bergoglio - Francisco Papa – que o mundo tanto espera e precisa. A enciclopédia de saberes e vivências está aberta diante dos nossos olhos. Nenhum outro líder ético-político se apresentou ao mundo com um programa tão pleno e estruturado que, como já antes reconhecera, Teilhard de Chardin, radica na natureza e atravessa todas as estrias da sociedade e com elas se compromete para transformá-las e sublimá-las na grande Ogiva do Espírito. Nada mais, nada menos que o Programa evangélico de J:Cristo – o que faz o Autor  definir a originalidade diferenciadora do Papa nesta tão sintética quanto avassaladora, quase ‘escandalosa’ expressão: “FRANCISCO É UM PAPA CRISTÃO”.
Todos os problemas actuais, até mesmo as chamadas questões fracturantes, estão plasmadas nestas 439 páginas, a forma directa e pessoal como Francisco Papa as enfrenta, as simpatias do mundo e, paradoxalmente,  os rancores da oposição interna da Cúria Vaticana, tudo ali está, podendo considerar-se esta obra como a Summa mais conseguida que ultimamente alguém tenha produzido sobre o Papa Francisco, o que, aliás, vem reflectido na Conclusão: “Francisco, Um Quase-Testamento”. Para nosso gáudio e a convite do Município de Machico, O Prof.Dr. Pe. Anselmo Borges dar-nos-á a honra de apresentar aos nossos conterrâneos uma nova versão do seu Livro. Será amanhã, quarta-feira, pelas 18,30 H, no Solar do Ribeirinho.
Porque se aproxima a quadra natalícia, optei hoje pelo pregão do Arcanjo aos pastores de Belém, expresso no título, chamando a atenção para a página 289 do Livro: “NATAL DA DIGNIDADE HUMANA”.
Mas, em nota de roda.pé. acrescento o que já acentuei noutras crónicas: Por muito que queira, o Papa Francisco não pode fazer tudo sozinho. Para renovar ou fazer renascer a face da terra, ele precisa de nós, Foi o que ele mesmo, na tomada de posse, comovidamente pediu: “Rezem por mim”. Rezem, Mexam-se, Ajam comigo!

05.Dez.17

Martins Júnior  

domingo, 3 de dezembro de 2017

“DIVERTISSEMENT” DE NOEL

                                                                 

              Porque é domingo e porque os sons e as luzes que nos vão cercando  exalam  o cheiro das tangerinas da Festa, ousei titular esta mensagem com o original francês  - “divertissement” – nome que muitos compositores deram aos trechos musicais, a um tempo ligeiros e inspiradores. É exactamente este tom quase jocoso, ma non tropo, que pretendo dar a este apontamento sobre o Natal, para responder a uma questão que tem tanto de ingénua como de profundo: Será preciso pôr Natal neste arraial de euforia colectiva em que nos mergulhamos “de cabeça, tronco e membros”?  
         Só tem dois andamentos esta breve fuga ao grande circo da quadra  divertida com que nos brinda a presente estação.  
O primeiro poderia formulá-lo nesta hipótese imaginativa. Quem, de fora, aprecia este frenético corrupio de magotes ambulantes de um lado para outro, quem se envolve nesta bebedeira consumista de ‘chineses’, lojas ‘continente’ e ‘pingo-doce’, quem se deslumbra com as árvores gigantes iluminadas ou os artísticos dosséis luminosos que perpassam sobre as nossas cabeças ao percorrermos  a cidade, quem ‘se perde’ neste reboliço global e depois tem um tempinho para sentar-se num banco da placa central não pode deixar de perguntar-se a si próprio: “Que falta faz aqui o Presépio de Belém? Com ou sem o Menino, os santinhos, mais a vaca e o burrinho, alguém deixaria de pegar no carrocel ou  provar a ‘bela poncha’ , ou vai se quer fechar os olhos ao incêndio celeste da noite de São Silvestre? De modo algum. Mesmo sem a gruta de Belém, toda a multidão explode de emoção: Que Grande Festa, Maravilha, Extraordinário!
Segundo andamento: Imaginemos, ao invés, que no centro da cidade erguer-se-ia o Presépio, um palheiro-pardieiro, com uma criança lá dentro, recém-nascida,  rejeitada em todas as maternidades, pensões e hotéis da mesma cidade. Nos olhitos da criança um sonho:  mudar as estruturas caducas da humanidade. Mas na capital da ilha pouco mais havia de espectacular. Que diriam os residentes e os turistas: “Que vergonha de Natal é este, que festa é uma, vamo-nos já daqui para fora”!
No entanto, este é que seria o verdadeiro Natal, o facto histórico autêntico, o original, o protótipo, do qual as cidades e as aldeias de todos os tempos fizeram fotocópias. E desfiguraram-no de tal maneira, que hoje se torna irreconhecível, ausente, despedido e até incómodo numa sociedade moderna, civilizada..
Deste breve entretenimento não apresentarei quaisquer conclusões pessoais. Se alguém tiver a coragem de acompanhar-me nesta viagem de ‘dois andamentos’, fica desde já convidado a formular propostas de conclusão. Ainda assim, em jeito de roda-pé, apeteceria dizer: Podem tirar o Menino e a Mãe e o bovino e o asinino da gruta, que, mesmo assim, a Festa continua, os supermercados despejam contentores nas casas, as bandas alargam o perímetro da avenida, os carrocéis vão aos ares e vêm… Enfim, o que nós queremos é a cretina dupla panem et circenses (pão e jogos, ou circos e festas) como o povo miúdo de há dois e três séculos. Com ou sem Menino.
Porque este é um “divertissement” de Natal não serão pessimistas as conclusões. Pelo contrário, divertidas. Como esta: Liga-se mais à essência das broas e dos licores, dos foguetes e das feiras, enfim, à essência do vinho do que à Essência do Natal. Da minha parte, transitarei por todas, mas só deter-me-ei nesta última, a Essência do Natal.

03.Dez.17

Martins Júnior

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

“INDEPENDÊNCIA OU MORTE”: UM DIREITO CARREGADO DE DEVERES - Na evocação do 1º de Dezembro

                                                          

Quer se lhe chame Independência. Autonomia, Emancipação ou Autodeterminação, o seu gosto e o seu cheiro mexem connosco, galvanizam as baterias constitutivas do nosso sistema neuro-vegetativo e mobilizam visceralmente todo o nosso psiquismo. Aliás, é todo o ser vivo que participa desta energia oculta e renovadora, desde a crisálida que se abre para dar voo à borboleta até ao fruto que se liberta da flor que lhe serviu de berço. No composto humano, a metamorfose é a linha recta que define a inaudita epopeia do crescimento, com as consequências e erupções, tantas vezes dramáticas e preocupantes, sobretudo  ao chegar à puberdade e, daí, à idade adulta. Autonomizar-se, emancipar-se é um direito irrenunciável, porque inscrito no mais íntimo do nosso ser.
Não admira, pois, que o mesmo processo evolutivo transborde para o “Homem-em-Situação”, isto é, para a vida societária, seja a mais  pequena comunidade, seja o mais extenso território. Mas é precisamente aqui, nesta encruzilhada bio-psico-sociológica que confluem e se debatem antonomias e paradoxos indissociáveis: de um lado, a tendência genética da auto-condução (Independência ou Autonomia) e, do outro, a indeclinável necessidade de pertencer a um corpo comum,  um agregado estável e seguro que nos transmita confiança e mútua produtividade, condição indispensável à sobrevivência individual e colectiva.
E surge a grande questão – quando, como e porquê romper com a raiz da árvore a que pertencemos para fazer germinar, por conta própria, o ramo verde que nós somos?... É a pergunta que se impõe a quem se decide executar ou, mesmo, analisar todo e qualquer movimento revolucionário, chamado Independência, Autonomia ou Secessão. Suponho e mantenho que é da resposta a esta questão que se podem classificar de justas ou injustas, consequentes ou contraditórias, verdadeiras ou populistas e demagógicas as revoluções independentistas. Na história, não são assim tão raros os episódios em que rebeliões aparentemente heróicas estatelaram-se num logro irreparável para os povos que tudo deram para a causa.
Justas as lutas contra os regimes totalitários, esclavagistas. Consequentes as oposições aos sistemas ideologicamente  dogmáticos e opressivos. Nobres e produtivas as reivindicações sindicais contra a exploração do capital sobre o trabalho, desde que os seus líderes não sejam robots de centralismos partidários, manipuladores de massas.
Não há lugar hoje  para passar no crivo da lógica humanizante os diversos embates político-sociais conducentes à emancipação dos povos, ao longo da história, nem mesmo os do tempo presente. E não serão precisos demorados estudos de análise para concluirmos que, à sombra e a pretexto de campanudas autonomias, o resultado foi a instauração de outras formas de controle e ditadura, iguais ou piores que aquelas combatidas por oportunistas prestidigitadores disfarçados de autonomistas e campeões do independentismo. Eles são tantos, aos molhos. Aqui mesmo, entre nós. Sempre afirmei que os auto-cognominados conquistadores da Autonomia da Madeira, “pós-25 de Abril”, outros instintos não tiveram senão instaurar, primeiro capciosamente e depois despudoradamente, a ditadura do “24 de Abril”, da qual foram oriundos e beneficiários privilegiados. Similarmente, em certos países africanos – e até na Europa do segundo quartel do século XX – os corifeus de certos clãs e  tribos demonstraram a olho nu que o seu ardor “patriótico e revolucionário” era o de substituir-se no trono aos anteriores dominadores, usurpando poderes e ultrapassando-os nas pilhagens dos recursos existentes.
Saúdo os valorosos homens que protagonizaram a luta do povo português explorado por um soberano estrangeiro. É sintomático constatar que, em 1640, foi a Catalunha que, em guerra contra o centralismo imperialista de Espanha, contribuiu indirectamente  para a vitória da Restauração de Portugal.
No entanto, fica o repto: Não é independentista quem quer. Aos fautores e líderes dos movimentos autonomistas exige-se uma entrega total e  isenta, cuja missão só termina quando vir o seu Povo autonomamente libertado. Só esses é que têm direito a proclamar “Independência ou Morte”!.
Em síntese, para os esforços quotidianos em que cada um de nós luta pela sua justa afirmação de personalidade  emancipada, deverá ficar escrita no portão do campo de batalha esta memorável palavra-de-campanha: “A minha independência acaba quando começa a independência do outro”.

01.Dez.17
Martins Júnior           


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

NUM HOMEM SEM ROSTO – O ROSTO DE UM POVO

                                                               

Atravesso o paralelo “29” e piso o solo aventurado do dia último do mês de Novembro. Na mesma viagem levo comigo 244 anos de história. Porque venho saudar a “Pátria do Autor” e a “ extensa ribeira preguiçosa”, em cujas margens ele viu “a primeira luz do sol sereno em pobre, sim, mas paternal morada”.
         Todo o bom patriota, nascido em Machico, conhece de cor – e de coração – esta toada  encomiástica e, ao mesmo tempo, plangente  que Francisco Álvares de Nóbrega dedicou ao seu torrão natal. É dele que me ocupo nesta noite,  da sua memória e, sobretudo,  do seu ‘lugar’ nos anais da freguesia, da ilha e do próprio país. Quando me refiro aos anais históricos de Machico, da Madeira e de todo o Portugal, não evoco a letra do texto escrito, porque a personalidade do “Nosso Camões” ou “Camões Pequeno” não coube nas páginas impressas dos arquivos. Durante quase dois séculos mãos daninhas encarregaram-se de apagar o seu nome. Nem um simples registo fotográfico nos ficou, para que, ao menos,  pudéssemos vislumbrar no seu rosto o brilho incandescente que trazia no peito.
         Dessa chama interior brotaram as cintilações dos seus sonetos e, mais do que isso, firmou-se a marca distintiva da época em que viveu. À produção literária que chegou até nós, a “EFAN- Estudos Nobricenses” tem dedicado diversas iniciativas, publicações, saraus proclamatórios e representações dramatúrgicas, ao longo dos anos.
         No entanto, importa-me sobremaneira, nesta data, detectar e relevar o impressivo lugar que Francisco Álvares de Nóbrega deixou na História. Tanto mais que foram exactamente esse ‘lugar e a sua intervenção que motivaram o esquecimento a que foi votado pelos sucessivos  regimes que governaram o país e, por consequência, a ilha. Não abundam  referências precisas ao conspecto sócio-político insular, durante três séculos e meio após o achamento  daquela “que do muito arvoredo assim se chama”. Muito espólio se perdeu na voragem dos incêndios e das aluviões. Entretanto, chegando aos finais do século XVIII, princípios do século XIX, um padrão luminoso se acende no oceano da semi-obscuridade dos acontecimentos: é um jovem, nascido em Machico no dia 30 de Novembro de 1773, de nome Francisco André Álvares de Nóbrega. Neste ligeiro apontamento (que terá, a seu tempo, novos desenvolvimentos) pretendo chamar a atenção e sensibilizar a opinião pública para a real caracterização de uma época trepidante, como foi a da transição dos ´séculos XVIII-XIX. Nesse canal tumultuoso mas brilhante nasceu, viveu e finou-se o “Nosso Camões”. A sua vida e a sua obra  corporizam a síntese e o símbolo vivo das contradições entre o conservadorismo mais repressivo e o clamor vitorioso dos ideais da Revolução Francesa. A inquisição, de um lado, e a Maçonaria, de outro, digladiavam-se encarniçadamente. Era o estertor do poder absoluto face aos ventos da liberdade que sopravam de Paris.
Francisco Álvares de Nóbrega incarna esse turbilhão cultural, religioso e, por arrasto, social e político. É por isso que a sua poesia não é inócua nem, muito menos, romântica ou licorosa. Ela reflecte o país e as instituições em aceso litígio público, de que resultaram vítimas indefesas, entre as quais, o próprio poeta que acabou por sofrer os “ferros sórdidos” da cadeia do Limoeiro, em Lisboa, às ordens da “Santa Inquisição”. Estudar e dar a conhecer Francisco Álvares de Nóbrega é abrir a enciclopédia de uma das fases mais incisivas da ilha e do país.
Por isso, o meu regozijo e  o meu apelo. Sabendo que as ‘forças vivas’ de Machico – à cabeça, a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia – preparam um expressivo programa dos “600 Anos do Descobrimento”, recomendo o estudo acurado de um dos capítulos mais sugestivos do nosso passado e a  inclusão de Francisco Álvares de Nóbrega como protótipo emblemático dessa mesma época.
Mais que uma homenagem ou deferência académica, é um dever imperativo que impende aos ombros da nossa geração.

29.Nov.17
Martins Júnior  

    ’ 

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

“DORES DO PARTO” – E BONS NASCIMENTOS!


“Nada de humano me é estranho”. E eu retomo o pensamento do grande Aristóteles  para pluralizá-lo (deixem passar o neologismo) traduzindo-o numa linguagem global: Nada do que é humano nos deve ser estranho.
         É nesta premissa que me apoio para apreciar a lufa-lufa das diversas formações partidárias na preparação dos respectivos Congressos e, preventivamente, na escolha dos seus líderes. Antes de mais, É de saudar esta movimentação, nalguns casos até, esta agitação das águas para não deixar estagnar a mística crepitante que deve animar toda a militância política. Desejável seria que os manuais de estratégia interna não resvalassem para os libelos fogosos das lutas externas, ou seja, que a descoberta do Melhor à cabeça do partido ultrapassasse a rasteirice, sempre censurável, da ganância do poder a qualquer preço. É neste escolho rochoso que esbarra a escolha do líder, impedindo de chegar à foz  o livre curso de critérios limpos e seguros, condição ‘sine qua non’ de uma boa opção. E, neste âmbito,  incomodam, magoam a sensibilidade do cidadão comum ver, ouvir, ler certa literatura quase deprimente (pode tirar-se  o ‘quase’) entre candidatos e respectivas hostes. Isto cá e lá, lá e acolá, em Portugal e fora dele - neste, nesse, naquele e ainda naqueloutro partidos. Pela minha parte, desisto de pousar os olhos em certos nacos de novelas de cordel político intra-partido.
         Na mesma medida também, cheira a proselitismo barato, para não dizer charlatanice de feira, acenar ao vulgo com os retalhos do lençol sebastianista, o mítico espantalho de uma estirpe privilegiada, quais arcanjos extraterrestres brandindo a espada flamejante nas trevas da noite . “Este é que é o tal, este é que vai salvar o beco, a vila, a cidade, o país, o mundo”.
        
         A este propósito, nunca é demais acautelar-nos contra as erupções alarmistas, porque nunca em tempo algum uma sociedade pode viver em constante clima de perturbação sísmica. Se em determinados – raros! – períodos tumultuosos da história é necessária a aparição de um líder anormalmente carismático, manda a experiência constatar que não deve ser esse o chão onde queremos construir a nossa casa. Aliás, os auto-cognominados homens ou mulheres de eleição laboratorialmente e bacteriologicamente virginal identificam-se logo pela sua peculiar táctica de ataque, com processos rápidos, pré-concebidos a-papel-químico, intempestivos e galopantes, como quem quer afincar em Marte a primeira bandeira!
         O eleitor atento distingue claramente a vocação governativa de um partido através dos processos visíveis da eleição do seu líder. Quando vislumbra, mesmo à distância, a instabilidade de uma liderança candidata cujo único objectivo é saltar para o pódio,  ainda que tenha de perturbar a paz evolutiva e o normal crescimento dos resultados obtidos na luta política externa, aí o eleitorado adivinha uma governação insegura e sem credibilidade. Ao contrário, porém, quando a candidatura assenta em provas dadas e êxitos políticos já alcançados, a população confia esperançosamente  nas linhas  programáticas de um futuro governo.
De “Salvadores da Pátria” – livrai-nos, Senhor. Uma boa proposta de oração, que equivale a estoutra: “Dos Tarzans espadaúdos, caídos do céu  – Credo, Abrenuntio”. Porque já os conhecemos pelo seu histórico horrendo, desde Hitler a Estaline, de Salazar a Franco, de Piongiang a Trump. Foram considerados os maiores, os salvadores. Salvador carismático foi também Cavaco Silva, no famoso Congresso de Aveiro. E viu-se o ‘lucro’ para o país.. Eu sei que esses espécimens não deitaram grão nos nossos poios,  mas mutatis mutandis já conhecemos alguns sósias nesta ilha, como no longínquo Zimbabué, que governaram ambos durante uma ‘eternidade’ de 38 anos, cada qual  no seu Reino.
Felizmente que essa raça está em vias de extinção. Mas, para isso, é urgente que os partidos marchem na vanguarda desta nobre campanha: escolham as respectivas lideranças por critérios ponderosos, inclusivos, expurgados de interesses de mercearia ou oficina de tachos efémeros  (como são os da política, todos a-prazo) mas sim  de olhos postos no amanhã das comunidades. Ganhar não é tudo. Consolidar, precisa-se.
E isso só se consegue com conhecimento e competência. Que são os dois pilares da  credibilidade, tanto a do líder como, sobretudo, do eleitorado. Deixo, pois, estas legítimas impressões a todos os partidos, da Região ou do Continente. Eles também lá andam com as dores do parto.  Digo “legítimas” impressões, porque saídas de quem viu e sentiu o “espectáculo  ao vivo”, ao longo de muitos anos.  E também porque interessa-me acompanhar e, se possível, influir positivamente nestes processos, dado que é dos líderes eleitos que sairão os potenciais governantes da minha  Ilha e do meu País. E isto interessa,  deve interessar a todos os que ganharam responsavelmente o seu estatuto de cidadania.
Boa sorte a todos. Porque também será essa a nossa sorte!
         27.Nov.17

         Martins Júnior