domingo, 5 de abril de 2020

5+20 = ABRIL EM JERUSALÉM


                                                           

           À hora a que escrevo, já terão silenciado as ruas da cidade, os ramos verdes das oliveiras, as esguias palmas ogivais das palmeiras e os olorosos alecrins terão sido pisados pela guarda pretoriana do governador ou pelos guardas do templo de Jerusalém. Provavelmente estaria o Nazareno em sua casa, curtindo junto à sua Mãe o sabor daquela manhã triunfal e, ao mesmo tempo, o amargor das tenebrosas maquinações que se vinham acastelando nos zimbórios das sinagogas-madres da cidade.
         Mas não posso deixar passar este dia – o Domingo de Ramos – sem senti-lo e absorvê-lo em toda a sua plenitude. Fosse ou não fosse em um domingo (nenhum evangelista nomeia o dia da semana), o Padre António Vieira denomina-o, tão só, o “Dia de Ramos” no seu Sermão, pregado em 1656 na matriz de São Luís do Maranhão.
Limitar-me-ei a sublinhar três tópicos-chave, remetendo tudo o mais para a intervenção matinal, transmitida em directo, aqui:                                          https://www.facebook.com/ribeirasecamachico/.
1º - Toda a cidade pressentia um surdo sobressalto, na expectativa dos planos da “nomenclatura” hierárquica consignada aos Sumos-Sacerdotes Anás e Caifás. Estava iminente o assassinato do Nazareno, um estorvo incontornável para os detentores da religião moisaica. “Era urgente liquidar esse homem”. Mas Ele, que fugiu sempre a homenagens e aos apelos do Povo para nomeá-lo rei ou governador, nessa manhã decidiu enfrentar os poderosos titulares do Templo. Não tinha exército nem armas, não tinha fortuna nem carros de guerra, mas pretendia desafiar os monstros sagrados. A seu favor tinha um jumento por trono e o Povo como seus militantes desarmados. Entra na cidade. Os hierarcas e a polícia do Templo ficam alvoroçados, ao ponto de tentarem persuadir o homenageado a “mandar calar” aquela gente, ao que Ele próprio riposta com a suave veemência que lhe era peculiar: “Se eles se calarem, levantar-se-ão as pedras da calçada e gritarão mais alto”. Não há palavras nem pincéis que descrevam a frescura primaveril, a espontaneidade e o fragor clamoroso daquelas multidões soltando cânticos de festa e liberdade. Acabara-se o medo, a cidade estava nas suas mãos. Era o seu Líder e Conterrâneo que ali passava, vitorioso, intocável! Um lampejo hebreu do futuro luso “25 de Abril”!
2º - O Povo reconhecido, mesmo que espontaneamente organizado, foi mais forte que as armas, os milhões, os palácios, os castelos, as sinagogas dos ditadores. Não tenho dúvida de que a resistência daquela gente ultrapassava o simples âmbito religioso ou de mero culto. Eram causas mais amplas, porque libertadoras, em prol de uma sociedade mais digna, mais justa, afinal, a verdadeira mensagem de Jesus de Nazaré.    
         3º - O plano maquiavélico contra Jesus não provinha originariamente do Representante do Império Romano na Palestina. Por mais repugnante que se imagine, a sua matriz assassina era a Religião, os supremos dignitários do Templo: Anás e Caifás, respectivamente sogro e genro! Motivo para reflectirmos sobre a essência do fenómeno religioso, afim de que se não deixe resvalar nos escaninhos da ditadura. Recordo o antigo bispo de Viseu José Alves Martins: A religião quer-se como o sal na comida: nem demais nem de menos”.
    Uma nota final:  Hoje assisti, pelas redes sociais, a sete eucaristias, vulgo dictu, sete missas. Permitam-me um desabafo: chamando-se a este dia o “Domingo de Ramos”, estranhei que ele se tivesse ficado quase somente pelos palmitos decorativos, e pelo vermelho berrante da paramentaria, divagando depois, na esteira litúrgica, para os trágicos acontecimentos de Sexta-Feira Santa. Até parece que  um masoquismo endémico enferma as nossas crenças… É bom, é útil, é positivo e sacral relevar, não apenas as derrotas e martírios, mas também as vitórias e sucessos do nosso Líder e Redentor!
         05.Abr.20
         Martins Júnior

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