quarta-feira, 27 de maio de 2015

MACHICO RESPIRA SAÚDE

É um deslumbramento sem  ocaso contemplar o maravilhoso mundo da biologia naquilo que possui de mais íntimo, escondido dos holofotes dos dinossauros com olheiras do “ homo erectus” do século XXI.  A beleza da filigrana produzida pelas anónimas obreiras dos casulos mereceu bem esse poético compêndio que Maurice Maeterlinck dedicou À “Vida das Abelhas”. Tanto mais emotivo e atraente quanto se sabe e vê que nos dias que passam o que conta é o grande plano, o efeito, mesmo sem nada feito, mas mensurável  a  olhómetro,  enfim,  o que é espectacular e retumbante, ainda que vazio, desde  que ensurdeça os ouvidos e cegue a vista ao  transeunte comum. Ele é nos futebóis, ele é nos partidos, ele é nas mordomias eclesiásticas pavoneando-se em plumas vermelhas nas praças e estádios.
         Por isso “eu gosto muito mais daquela feia”, perdoem-me, mas sinto a voz do Carlos do Carmo enaltecendo o que,  sem ser vistoso,  guarda a riqueza interior de quem a procura. Foi também nesta perspectiva que E.F.Schumaker  concebeu esse maravilhoso livro “Small is beautiful” (O que é pequeno é belo), um estudo de economia em que as pessoas também contam.
É nesta óptica que aprecio uma iniciativa que, desde há nove anos, a Junta de Freguesia de Machico vem realizando sob o signo de “Feira da Saúde”. Feira, porque é do Povo, pelo Povo e para o Povo. Não se ataviou para a grande ribalta, nem a nossa “TV” das Madalenas se dignou dar cavaco (e já lá vai no quarto dia) nem mesmo o solícito novo Secretário da Saúde se dignou aceder ao convite, nem pessoalmente nem por representação. Ainda bem, acho eu, porque a iniciativa, particularmente nestes dois anos de mandato,  já está habituada a abrir caminho sem muletas nem padrinho.
Mas a verdade é que Machico descobre nesta altura o ouro precioso de um  voluntariado profissionalmente conceituado, ao nível da saúde e sua profilaxia, quer na área do nutricionismo, da actividade física, nos cuidados primários, quer no rastreio presencial, na ginástica localizada, no culto da arte  da música e dança. Outro valor acrescentado manifesta-se na agregação das diversas instituições sediadas em Machico e são muitas  --- desde a infância das escolas até à “terceira idade” --- como pode ver-se no prospecto que aqui se dá por reproduzido. É uma cidade nova que se encontra e reinventa em cada ano, unindo corpos e almas.
Cumpre-me (e nisto acho que envolvo toda a população) felicitar os autarcas da JFM, na pessoa do seu devotado presidente Alberto Olim, bem como à coordenação da jovem e dinâmica dra. Ana Isabel Cunha, felicitação esta  que se transforma em grato reconhecimento pelo trabalho consciencioso realizado em prol da saúde desta cidade. É com iniciativas destas, sem a pesporrência foguetória tão colada a esta Região, que se faz crescer a cidadania e o vigor de todo um povo. Certamente que também  noutras localidades algo se esteja a fazer com a mesma humildade das abelhas anónimas obreiras do Bem Comum.
Parabéns!  Para cumprimentar-vos , não vejo maneira mais cordial e mais saudável senão repetir aquele provérbio antigo: “A primeira e melhor recompensa do dever cumprido é ter cumprido esse dever”.
É esta a vossa maior glória!

27.Maio.2015
Martins Júnior

segunda-feira, 25 de maio de 2015

“NÃO HÁ PALAVRAS”…

Uma certa radiografia das emoções

Será pura diversão o meu escrito de hoje, será uma despromoção do veículo mais precioso da condição humana, o verbo comunicador, será porventura uma crítica aos valores ou desvalores que comandam as nossas  mais primárias reacções. Cada qual optará pela interpretação com que melhor se identificar.
         Tocou-me ontem mais de perto a vulcânica explosão de festa, quer a  dos fãs no Funchal quer a  dos madeirenses presentes  no campo de Marvila, quando souberam que o velho  “Uniãozinho da bola” tinha recuperado o patamar soberano do futebol português, a ascensão à I Liga. É sempre digno de ver-se, do sofá,  e divertir-se com a torrente gestual dos trejeitos faciais e os esgares de garganta, quais petardos de júbilo desarvorado. E, em contraste, os mais sensíveis, alguns até às lágrimas, meneando a cabeça de comoção e balbuciando como um bebé-chorão: “Não há palavras!” E mais não disseram. O mesmo ritual pegava-se às gentes de Tondela, ora em gritaria, ora no mesmo silêncio intraduzível: “Não há palavras”. E no Benfica-Bi, muito mais.
         Lembrei-me, então, de tantos outros cenários em que o som esmorece e apenas reaparece no “Não há palavras”, por exemplo, no desgosto de um acidente mortal, numa decepção de amores frustrados, nos cemitérios mediterrânicos que afogam crianças e adultos foragidos à guerra e à fome, no sucesso de uma licenciatura ganha a pulso, enfim e em resumo, naquela mortandade que devorou vidas inocentes em fevereiro de 2010 --- “não há palavras” --- e na “salvação” de uma imagem de gesso que ficou intacta após a destruição da sua casa-capela, “não há palavras”, repetiam os crédulos em uníssono com os hierarcas cá do burgo.
            Que abismo semântico é este em que se balançam e, paradoxalmente, se repelem três indescritíveis fonemas?! Ocorre-me logo Eugénio de Andrade, naquele seu intemporal poema “Gastámos as palavras, meu amor”. Palavra-pau de toda a obra, palavra-senha  do seu contrário, palavra-farrapo de qualquer tapete puído. Nesta babilónia de interesses conflituantes em que somos obrigados a viver, as palavras  começam e acabam por enfastiar-nos, ludibriar-nos até à exaustão, ao ponto de não lhes darmos crédito no câmbio das relações humanas. Se para aquilo que nos é mais autêntico e mais íntimo “não há palavras”, então a conclusão não poderá ser outra: no normal quotidiano as palavras não servem para nada. Só para enganarmo-nos uns aos outros. E com isso nos cansarmos. Venha “Ricardo Reis”, o estóico pensador reincarnado em Fernando Pessoa, e explique o  tédio desconcertante a que nos leva esta fadiga da palavra batida, triturada, mil vezes ruminada, seja ela escrita ou falada.
         Por outro lado, não deixa de ser verdade a máxima atribuída ao sumo e eloquente Lacordaire: “Quando a dor humana é grande, grita. Mas quando é muito grande, a dor cala-se”. E o que se diz do sofrimento pode também dizer-se da alegria ou do sucesso.
         Admitamos, com a especulativa  dose de optimismo, que a linguagem é o dicionário de sinónimos do que sentimos e  somos. Então aqui é que poderá entrar um outro aforismo: Diz-me quais as palavras tuas e eu dir-te-ei quem és. Ou, noutro registo: Mostra-me quando é que achas e quando é que perdes as palavras e eu saber-te-ei de cor, os pensamentos, as emoções. Pela boca tanto respira  e vive como por ela se agarra e morre o peixe, já o sabemos.
Momento oportuno este breve instantâneo captado no rectângulo de futebol e que nos faz interpelar: o que é que te faz correr, o que te faz gritar ou ficar sem palavras?...  O que te dói ou te galvaniza?... O que te emociona?... Por quem vives ou por quem morres?... E é aqui que vais pôr a “cruzinha”  da tua opção: se nos verdadeiros valores e emoções, se o vazio efémero daquilo que não merece nem uma só pulsação do teu corpo!
Recorro ao pensador mais pragmático e mais profundo do nosso tempo: “Mal vai a tecnologia da informação quando dá mais importância às oscilações da bolsa que a um sem-abrigo que morre na valeta do caminho”.(Francisco, Papa).
         Pura diversão,  pessimismo de circunstância ou espelho de alma?
Fica na tua. “Não há palavras”-

25.Maio.2015
Martins Júnior


sábado, 23 de maio de 2015

MAIS QUE O FIM, A “MENSAGEM” DO ACÁCIO!


Subi hoje à freguesia de Santo António,  o chão-cidade do mesmo nome, o jardim das memórias suspensas nas cinzas voláteis: o palácio universal  que ali começa ou que ali acaba,  onde todos temos apartamento marcado. Fui lá como o aluno que reaprende a lição de um mestre que ali ficou --- o Acácio!
Devo confessar que não é aquela a minha visita privilegiada. Já pela “insustentável leveza” do ambiente, já pelo bafio que se nos cola aos nervos perante a hipocrisia do séquito enfatuado,  já  --- e sobretudo --- pelo epitáfio que um dia nos deixou  Fernando Pessoa: “Quando quiserem fazer a minha biografia é muito simples: a data do meu nascimento e a data da minha morte. Tudo o resto é meu!”
É este “meu”, é esse muito “seu”, que eu quero guardar do Acácio.
Que não ficou lá. Nem terá ficado (quem dera me enganasse) naqueles que lhe voltaram as costas com a última pazada de terra caída na tumba. O Acácio, de voz sonora, sem pregas esconsas, a voz sem medo, audível e transparente, espelho de todo o seu ser! O Acácio, senhor da sua verticalidade que não se quebrou no bastão dos poderosos, que não se acobardou nos bastidores do oportunismo, antes erguia a sua bandeira mesmo em tempos da servidão reinante, fosse em plenários fechados, fosse   em estádios abertos! Sou testemunha de que ele dava a voz a quem a não tinha, o seu microfone oferecia-o, como arma justa, aos combatentes pelas justas causas!  E a riqueza ímpar desse talento que do mais trivial relato tecia um fino bordado  de literatura, tão raro na banalidade dos dias que passam.  Poderias ter morrido velho, velhíssimo, rico, riquíssimo, gordo, gordíssimo.  Bastava rastejares, como tantos da tua profissão, mas não da tua fibra, por aqui fazem, nutrindo da sua incompetência o colchão em que sadicamente se deitam.
Mais meia-dúzia de luas… e quem se lembrará do Acácio, de olhos brilhantes e ideais cantantes?! Não importa. Foi essa a glória do Acácio, atirado para o vão de escada desta mansarda onde nós, os que ainda aqui vagueiam, passaremos insensíveis e broncos. Volto a Pessoa: “Em quantas mansardas e não mansardas do mundo/Não estão nesta hora génios-para-si- -mesmos sonhando?... Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente!...”
Da  singela “Mensagem” do Acácio fico guardando a luz no olhar e a sua palavra nos meus ouvidos de gente.
Acabo por gostar desse “prédio” onde tens apartamento ao lado da tua companheira de sempre. E gosto também porque nesse fundo sem fundo  ficou o meu pai. Ninguém dos que lá passam se lembra dele. Mas sei eu que ele permanece tão grande quanto  a profundeza que o guardou. A tua também!

23.Maio.2015

Martins Júnior

quinta-feira, 21 de maio de 2015

LUA DE MEL NO PARLAMENTO


“Como é diferente e como é  belo o amor em Portugal”… exclamava o octogenário  De Gonzaga,  na deliciosa “Ceia dos Cardeais” de Júlio Dantas.
Foi a definição que mais perfeita encontrei, ao seguir o “rendez-vous” (perdoem-me  o galicismo) que dá pelo nome estatutário de “Programa do Governo” no  Parlamento Regional. A mesa, de facto, era tão redonda e ininterrupta como a arquitectura circular concebida pelo conceituado Chorão Ramalho. Aquilo era tudo fresco e “acaloirado” como o fatinho novo com que se encadernavam os deputados: “Muito bem, sr. deputado, não posso estar mais de acordo consigo”, cantava o novel Secretário, a que repenicava o oposicionista: ”Muito bem, sr. Secretário, até que enfim está a confirmar o que o nosso partido dizia e o seu antecessor recusava”.
Depois, as juras de amor quadrienal, conjugadas com o verbo ir: “Nós vamos isto…e vamos aquilo…e vamos”, aqui entra o substantivo conjunto: “ Estamos a preparar um conjunto de regras…um conjunto de peças … um conjunto de ideias”… Tudo muito aparelhado e completo como o cardápio de presentes para  futuros noivos.  Uma excepção, apenas,  dissonante expediu da boca de uma “velha” senhora, antes autarca e agora estreante secretária, a um distinto deputado com provas dadas ao longo de
várias legislaturas: “Não venha com essa demagogia”. De uma graciosa boca feminina, soou a caserna.
Para lá do desfile dos perfumados colarinhos brancos,         indaguei-me do porquê de tanta “cantiga de amor” palaciano. Até que descobri: Aquela “ceia” de três dias não é bem de casamento, mas de divórcio.  Afinal, os vários nubentes ocupantes da mesa de honra  estavam ali porque tinham-se divorciado do primeiro amor que durara mais de 36 anos, record de longevidade superior ao velho solteirão Oliveira Salazar. Consumado, embora  com duvidoso sucesso, o divórcio litigioso, agora os bem sucedidos litigantes abraçam-se e juntam-se aos inimigos do “velho”, que de angustiado vigia passou a defunto hibernado.
Bem, para lua de mel de segundas núpcias, nada de mais doce e consolador!
Veremos mais tarde, no chão pedregoso das opções --- velhos interesses em odres novos --- quais ementas e benefícios chegarão às mãos do pagante destas facturas, o Povo ilhéu!
21.Maio,2015

Martins Júnior

terça-feira, 19 de maio de 2015

AFINAL, TERÁ BENTO XVI MAIS DE 700 ANOS? Duas histórias paralelas


Se a História se faz de encontros e desencontros, não podia deixar passar este dia 19 de Maio sem colocar num mesmo trono ou num mesmo altar duas figuras tão pares e gémeas nos papéis que desempenharam e, paradoxalmente, tão  desalinhadas e ímpares no tecido normal das instituições, mui particularmente da instituição a que presidiram. Separa-os a “módica” distância de 721 anos. Ambos alcançaram a suprema tiara papal e ambos beberam do mesmo cálice da mais vil traição, quedando-se, frágeis e destruídos, às mãos dos seus mais próximos “cortesãos”.
Esta é apenas mais uma página, tirada à moda antiga, a papel químico, dos arquivos secretos do Vaticano. Em dois breves parágrafos:
1.     Pedro Celestino era um beneditino monge rural, sumido numa caverna do Monte Morone. O trono papal estava vago. Em dois anos de conclave, com apenas 12 cardeais eleitores, não houve acordo na votação. Motivo: as tremendas e ambiciosas lutas entre as duas linhagens rivais da nobreza italiana --- os Orsini e os Colonna --- cujos familiares cardeais cobiçavam a cadeira de Pedro. Até que venceu o mais forte, Carlos I de Anjou, rei de Nápoles. Foram buscar à montanha o velho frade, de 84 anos de idade, o qual, visivelmente contrafeito, foi obrigado a ocupar o trono pontifício, sob o nome de Celestino V, em julho de 1294.  Entretanto, o astuto cardeal Benedicto Caetani, promotor da causa, mas subversivamente candidato ao lugar, organizou tal cerco persecutório ao velhote  que este, impotente e sem vocação para o cargo, decidiu fugir de novo para a antiga caverna de onde viera. Benedicto Caetani, porém,  e o seu bando político-cardinalício, temendo que o fossem buscar de novo, encarcerou-o, enquanto montava o maquiavélico plano de assassiná-lo. Cinco meses durou o  pontificado de Celestino V, entre  julho e dezembro do mesmo ano.  Oito dias depois, subia ao trono papal o mesmo mafioso cardeal Caetano, com o nome de Bonifácio VIII.
2.     Em 2005, é eleito em Roma, Bento XVI, um exemplar da intelectualidade quase monástica, mas frágil e sem intuição pragmática para o cargo Os seus mais próximos, os cardeais, serventuários da banca, da corrupção e da degenerescência moral, ao ver-se acossados pela vigilância  pontifícia, moveram-lhe ciladas e angústias tais que o homem, já com 86 anos, desistiu, desertou, vítima dos “lobos do Vaticano”.
Não são necessárias mais testemunhas. O enigma está decifrado: Bento XVI tem mais de 700 anos. Tem tantos séculos quantos o velho monge beneditino, mais tarde canonizado Pedro Celestino, cujo dia a Igreja Católica hoje lhe dedica. Ambos foram traídos pela corte que os rodeava. Podem colocar-se, lado a lado, no mesmo trono ou no mesmo altar.
Tem sido este, tracejado de cíclicas excepções , o enrolado sudário vermelho de uma hierarquia usurpadora do nome do  Nazareno. Não concebo como se sentem em paz consigo próprios, os generais da cúria, os embaixadores papais, os brasonados eclesiásticos, de feminis e douradas gargantilhas ao peito,  revestidos da púrpura do avarento do Evangelho, indiferente às chagas do pobre Lázaro, e de sobrepeliz rendilhada por costureiros da mais fina “lingerie” mundana. Tão fina quanto ridícula e contraproducente!
Um grito final: Não deixemos que prendam jamais nas teias da máfia romana o Grande Libertador, Francisco Papa, apostólico “varredor” das lixeiras em que trazem triturados os crentes que aspiram à Luz!

19.Maio.2015

Martins Júnior

domingo, 17 de maio de 2015

FUTEBOL, FÁTIMA E O REVOLTANTE FADO DE ANTEONTEM

Hoje serei lacónico e cirúrgico. Lacónico quanto a minha indignação, cirúrgico quanto o vírus mo exige. Até porque este fim de semana é suficientemente perdulário para fazer gastar toneladas de tinta e chuveiros de perdigotos aos microfones: ele é o futebol, ele é Fátima, ele é o fado.
         Na anatomia dos factos, escolho este último: o fado --- arranhado,  na voz do velho manequim-intérprete. E indigesto na letra irritante, porque passada, requentada, hipócrita e, por isso mesmo, insuportável.
         Refiro-me ao discurso do ainda Presidente da República dos jovens portugueses, anteontem na Fundação Champalimaud.  É agora, nas vésperas de deixar as puídas cadeiras de Belém, só agora se mexe e remexe para chamar os jovens emigrados a este país que ele --- o político com mais tempo  no poder --- ajudou a escaqueirar e desertificar. Quem será capaz de suportar, de consciência quieta, um sujeito a deitar lágrimas de crocodilo sobre o leite fétido que ele próprio engendrou ao apoiar uma coligação que descaradamente, como única solução,  indicou  aos jovens a porta de saída do seu país? Só uma plateia envernizada de hipocrisia aturou tamanha enormidade. Não houve ali uma voz que lhe bradasse a verdade dos factos: “Foste tu que disseste que não havia alternativa a esta governação”!
         Passando por cima das dramáticas estatísticas --- 53,1% dos jovens entre os 15-24 põem a hipótese de trabalhar no estrangeiro ---  o homem sem qualquer pejo em travestir-se de títere feirante  levanta o braço e chocalha o badalo da política. Venham os jovens para cá, interessem-se pela vida política. Atinge as raias  da insolência  acusá-los de ficarem alheios às politicas do país. É a sorte dele.
         Mas de que políticos e de quais políticas está ele a falar? Dos carreiristas das jotas, como Passos Coelho?... Dos que assaltaram o poder pela traição e pela mentira prometendo que nunca haviam de cortar pensões ou subsídios de natal? … Dos que fizeram do Estado um vulgar pátio de bullying político, caso Portas, com ameaças, escritas na via pública, de demissões “irrevogáveis” só para galgar, pelas traseiras do prédio, o lugar de vice-PM?... E aquele que deveria ser o responsável pelo prestígio da nação, “o garante pelo normal funcionamento das instituições” apára, aceita, diverte-se, com todo este charco de adolescentes garimpeiros, garotos impunes, sem escrúpulos de coisa nenhuma, perante um povo sofrido, órfão de líderes, exilado no próprio país… 
         É para esta enxovia de relacionamento cívico e político que chama os jovens emigrantes?... Sorte a dele! Se o tivesse dito mais cedo, ter-se-iam unido os jovens portugueses de hoje, como fizeram no Maio/68, como fizeram os estudantes de Coimbra ao então, caduco como o de agora, Américo Tomás.
         Tremendo baldão na face limpa dos jovens! Depois de lhes cortar as asas do sonho… depois de lhes tirar o pão da mesa obrigando-os, já adultos, diplomados e casados, a aceitar as migalhas dos pais, apertados pensionistas... depois de lhes partir as pernas e os desarmarem na vida … depois, é que os chamam à pátria! Assim fez Salazar com toda uma geração de inválidos, estropiados e muitos deles, regressados da guerra colonial, “numa caixa de pinho”. 
         Chega!  Poupe-nos!  Engula o vírus dos próprios perdigotos até ao fim do mandato! E ainda tem a iliteracia, o prosaico atrevimento  desplante de citar a delicadíssima Florbela Espanca: “Palavras são como as cantigas, leva-as o vento”. Envergonhe-se.
         E deixe-me curtir, sozinho, neste recanto do país, a minha lacónica indignação.   

17.Mai.2015

Martins Júnior

sexta-feira, 15 de maio de 2015

SE QUISERES, TU ÉS O MILAGRE VIVO!


Ampliando a casuística descrita no nosso último encontro, 13 de Maio, chegamos à conclusão de que nunca, como em tempos de crise, se propagam tanto os incêndios míticos na mente dos indivíduos e, com maior pendência, para os desdobramentos psíquicos centrados na aura das religiões. É ver a corrida às igrejas, aos santuários, ao sortilégio das velas. Há também quem prefira o recurso às magias, brancas ou negras, aos talismãs e polivalentes amuletos. E muitos, até, sem estrutura anímica para suportar tamanhas depressões, desaguam na baía dos suicidas, o seu nirvana consolador.
Tem toda a lógica   Karen Horney   , ao titular a sua obra mais impressiva, definindo-a como “A Personalidade neurótica do nosso tempo”. A mais cómoda fuga aos problemas que comprimem os indivíduos é aquela em que a grande multidão se refugia: a Fé.
E é uma descoberta de indizível sabor intelectual verificar as mais contraditórias derivas que um mesmo facto é capaz de produzir. Exemplifico: a menina-deusa que no Nepal viu o seu templo de pé no meio dos horrorosos escombros à sua volta, apostrofava: “Os deuses ofendidos pelos homens descarregaram sua ira no terramoto que matou quase 10.000 nepaleses”. Na Madeira, em 2010, a maior catástrofe do século XX deu-se precisamente quando a Imagem da Virgem Peregrina estava entre nós em generosa visita. Para uns, a Imagem teve todo o fragor de um maléfico avatar. Para uma velhinha dos recônditos rurais, foi outra a interpretação: “Ai, se não fosse Nossa Senhora a Madeira ia toda por esse mar abaixo”.
Assim se fala, assim se reza, assim se explora, assim se ilude… em nome da Fé.
         Não vou teorizar sobre a Fé. O livro do meu amigo Padre José Luís Rodrigues ( O que a Fé não deve ser, 2013) é um excelente manual de iniciação a esta problemática. Recomendo-o.  Aproveito também a oportunidade para exprimir o meu respeito por todas as formas que os crentes sinceros entendem demonstrar a sua Fé. Mesmo que não esteja de acordo com essas práxis. Mas confrange-me ver a fragilidade humana misturar fés e superstições, preces e negociações, fazendo do “seu” Deus um vulgar comerciante --- “dou-te se me deres” --- e de Maria uma feirante de arraial…
Na enredada patologia dos nossos tempos, parece mais fácil endossar a Deus ou aos deuses aquilo que ao próprio homem se deve exigir. Não chamem Deus nem  Sua Mãe para aquilo  que não se lhes deve atribuir. É  ofensa redobrada.
A Fé começa no esforço que cada um faz por alcançar os horizontes possíveis. Não tem o direito de confiar em Deus aquele que não confia em si mesmo. Ou fazer por isso. A nossa fraqueza e o nosso comodismo são a força de muitos bruxos e de muitas religiões. Desde o século V,  prescreve-nos o pioneiro e dinâmico  “Pai da Europa”, São Bento: ”Ora et Labora”. E ainda: “Faz tudo, como se tudo dependesse de ti.  E, só depois, espera tudo, como se tudo dependesse de Deus”.
         E de mais longe vem o repto do Mestre a Pedro quando o mandou caminhar sobre as ondas. Pedro iniciou a marcha, depois começou a duvidar e afundou-se. “Porque duvidaste, Pedro?”
Ao avistar as mais originais e multiformes expressões dos crentes nos santuários, apetece-me segredar a quem o queira aceitar:
Confiar em si mesmo, enfrentar os obstáculos, navegar captando a força motriz dos ventos adversos: eis, em minha opinião, a maior fé e a maior homenagem ao Todo Criador!

15.Maio.2015

Martins Júnior