terça-feira, 29 de março de 2016

COMÉDIA SÉRIA, ONDE ENTRAM POLÍCIAS, BISPOS, PADRES E PORTAS SEM MISERICÓRDIA


  Não era  este o tema que reservei para terça-feira de Páscoa. Creiam, mesmo, que as mãos me pesam mais que noutros dias sobre este teclado de notas alfabéticas. A qual músico e a qual ouvinte agrada tocar ao piano repetidas dissonâncias ou escutar cacofónicas percussões?
         Por isso, quero  ser  breve. Desde logo, pela motivação circunstancial que amigos meus me trouxeram  acerca de um incidente ocorrido numa das pacatas nortenhas paróquias da Madeira onde foi  solicitada a PSP pelo respectivo jovem pároco.  Perante a minha quase indiferença em relação à notícia (para mim, mais do mesmo) fiquei amarrado à “provocação” dos meus amigos interpelantes: “Então não reage? Vai fazer o mesmo que a diocese que se esconde sempre nos silêncios cúmplices?”
         Aqui vai, pois, uma pequena amostra  do que penso e sinto.
         A Diocese, no feminino (em francês é masculino, le diocèse) é uma entidade abstracta, sobretudo entre nós, ilhéus. Não tem rosto, duvido que tenha alma, pelo menos, alma evangélica. Quando é chamada à colação,  não reage. Usa uma arma secreta: o silêncio dos cemitérios. Entretanto, ela  reconhece-se pelo corpo, nas suas estratégicas aparições,  nas paradas espectaculares, nos jantares e inaugurações governamentais,  nos arraialescos festejos de verão e nos partos litúrgicos pré-natais. De longe dá nas vistas pela anafada cinta vermelha e pelo régio brilho de uma cruz dourada, à imagem e semelhança dos brasonados oficiais do reino.
         Falo do que se vê a olho nu. E de mais alguma coisa que vi, sobretudo, nos três últimos titulares madeirenses, de entre os sete que conheci como inquilinos do Paço. Confrange-me -.mas não afecta a minha fé no Cristo Nazareno, anti-sinagoga e anti-diocesano – sim, confrange-me olhar a paisagem.  Numa ilha pequena, Madre das Cristandades de outrora, onde nos tempos mais recentes tem reinado a prepotência política, o favoritismo, a mediocridade e o nepotismo, esperava-se (e os madeirenses mereciam) um pastor verdadeiro, cuja mitra fosse cultura e talento e cujo báculo fosse “chicote no templo dos vendilhões” e, por outro lado, arrimo seguro para os mais débeis do seu rebanho, os proscritos dos poderes mundanos. Em vez disso, porém, coube-nos a sorte de uma diocese, corpo sem alma lá dentro. Diocese-Instituição. Há modestas autarquias rurais com melhor e mais responsável sentido de liderança, vigilante e humanista. Talvez até simples associações e colectividades de bairro, porque têm alma e dão o corpo às balas, em defesa da Verdade que professam.
         Pelo que acabo de dizer, nada me espanta o “lavar-de-mãos na bacia  de Pilatos” por parte da Mitra. Ê mais do mesmo. Um eclesiástico    subalterno  entende transgredir as mais elementares normas urbanísticas, outro espuma retaliação contra uma instituição centenária e exclui-a da igreja-mãe a que sempre deu colaboração; este chama a polícia, aquele abre-se aos apetites políticos de um governo que lhe faz obras faraónicas, inúteis – e onde está a Diocese? No retiro dos cenóbios ou na paz dos sepulcros. Um bispo toma conta de uma quinta, legado pio para abrigo dos sacerdotes na sua velhice – e que diz o hierarca diocesano?  Zero!
         Termino já, porque não me conforta nada pôr a secar na via pública o estendal de roupa esfarrapada que não aquece a nudez de ninguém.
         Ficaria, porém, incompleta a mensagem aos meus amigos interpelantes deste dia 29, se não citasse a resposta da Diocese – a mesma entidade sem rosto, não se sabe quem responde, se o Chefe ou se o vice -  que ofereceu como antídoto e consolo, no caso da paróquia nortenha, uma receita de “misericórdia” perante duas devotas que, a  pedido do jovem pároco, a  polícia devia expulsar da igreja.. Misericórdia! É o que está na moda neste ano de abrir de portas. Nem me apetece comentar. Seria uma boa deixa para Dante escrever  uma outra versão da  “divina comédia”, revista e actualizada.
         Misericórdia! Não brinquem nem nos tomem por tolos. Terá sido por “misericórdia” que a Diocese deu aval ao Governo Regional para mandar 70 (setenta) polícias atacar e esvaziar a igreja da Ribeira Seca, em 1985?... Foi por “misericórdia” que cortou a essa igreja a venda das hóstias para a Eucaristia?... Foi também por Santa “misericórdia” que não deixou entrar nessa igreja, em 8 de Maio de 2010, a Imagem Peregrina?... E será por que carga “misericordiosa” os bispos da Madeira, há 42 anos,  não têm força para  administrar o sacramento do Crisma na igreja da Ribeira Seca?..
         Misericórdia, Papa Francisco – dizemos nós. Quem tem ouvidos de ouvir,  entenda. Quem tem olhos de ver, interprete os factos.
         O que nos dá força é que há mais Vida além da Diocese. O que nos vale é que há mais Cristo além da Mitra.   
          
         29.Mar.16
         Martins Júnior

         

domingo, 27 de março de 2016

A FORÇA QUOTIDIANA DE UM PREFIXO: ---------- Reagir…Reflorescer…Ressuscitar!


Peguei-me hoje com o cardápio dos prefixos. São eles (mais os seus gémeos irmãos, os sufixos) que fertilizam a língua, criando infindáveis gerações de signos,  quando enxertados na palavra-mãe. De entre tantos e tão diversos, fixei-me naquele que este domingo particularmente sugere: o prefixo “Re”.
Compulsando o dicionário ou mesmo citando de cor e a esmo, o prefixo “Re” salta-nos diante dos olhos e, sobretudo, no terreiro das emoções, como o clic mágico que nos desperta e faz abrir manhã no meio da noite escura. Quem não se sentirá movido ao som do timbre de uma  renovação, de um repuxo de água viva, de um resplendor ou de um regresso à juventude existencial? Em subtítulo, dei acima uma trilogia representativa da energia que percorre a dinâmica do nosso ser: Reagir, Reflorescer,  Ressuscitar! Todos estes prefixos mexem connosco, impelem-nos a subir a encosta e a sair da “fossa” depressiva em que um dia cairmos.  
Este retomar do alento que revigora ideias,  músculos e nervos fica todo reintegrado intensamente no vocábulo que dá nome a este domingo: RESsurreição, o mesmo que ressurgir, renascer, reflorir. É um prazer e, ao mesmo tempo, um árduo “fazer”,  um programa de toda a hora, o “pão nosso de cada dia”.  Ninguém pode fazê-lo por nós. Somos nós que fabricamos (ou destruímos) o prefixo que  pode iluminar  muitas vidas: a nossa e a dos outros. Esse prefixo, filão invisível, tem a sua  nascente  (quantas vezes!) na pedra dura do nosso pensar e do nosso sentir, abrindo caminho para aquele Dia Novo que está connosco e, paradoxalmente, tanto tarda.
É a esta luz que vejo o Domingo de Páscoa. Reafirmando a vitória do nosso Cristo, importa ponderar que de nada adiantaria a ressurreição de um cadáver se não fosse maior a ressurreição da sua Ideia. “Serás jovem quanto a tua Ideia”. Não fosse a chama incandescente do pensamento libertador do Crucificado  e  Ele ficaria apenas como estátua de carne física arrumada na prateleira das antiguidades. “A carne mata, o Espírito é que dá vida” -  já o tinha proclamado anos antes. É por isso que a Palavra de Ordem e o apelo à Vida estão consignados no retábulo natural do templo da Ribeira Seca:
“QUEM TIRA JESUS DA CRUZ?...
QUEM O RESSUSCITA?... HOJE!”
 Propositadamente, às duas interrogativas, segue-se o reforço da exclamativa: HOJE! É aqui e agora que, com a Ideia, ressuscitamo-nos globalmente,  Corpo e Espírito. Deste filão inesgotável sai a força quotidiana do prefixo:  Reagir, Reflorescer, Ressuscitar! Em cada gesto, em cada reabrir das nossas pálpebras pousadas no horizonte longe-e-perto que nos chama! Tal como o som e o a alegria pascal das crianças que animaram o nosso Domingo Ressuscitado.
Na ementa deste domingo, ofereço um voto e um abraço: Comam e saboreiem o Prefixo deste Dia!  

27.Mar.16
Martins Júnior



sexta-feira, 25 de março de 2016

Na celebração do crime … ENTRO, MAS SOB PROTESTO!

 

Esta é a crónica que nunca desejara escrever. Porque este é o crime que nunca imaginara “ver” sob os meus olhos nem muito menos no cenário da minha memória.
         À hora em que escrevo, sinto os passos daquela multidão que corria para as suas casas batendo no peito. Oiço o pulsar e a voz do oficial centurião romano, comandante da tropa que levou a cabo a operação “assassinato” do Nazareno: “Agora reconheço que esse homem era um justo” (Lc. 23, 47)- eco magoado, mas tardio,  do plenipotenciário Pôncio Pilatos que, antes de  lavrar a sentença capital contra J:Cristo, exclamou perante os acusadores em satânico delírio: “Não acho matéria de crime neste homem” (Jo. 18,38).
         E, no entanto, entregou-O  à sevícia dos carrascos. Então, como? Se o juiz Pilatos não encontrou matéria de acusação,  por que  O  mandou para fatal cadafalso?
É com este nó atravessado na garganta que me custa entrar no cortejo da chamada “Via-Sacra”. Entro, sim, mas sob protesto! Contra a tibieza de Pilatos que se acobardou à pressão do poder religioso. Protesto contra os Sumos Sacerdotes do Templo, instalados no  topo da hierarquia da religião judaica. Estes, os autores  principais, únicos, deste horrendo atentado: sob as vestes bafientas mas tenebrosas da “Lei” esconderam-se na sombra e mandaram para a arena das ruas de Jerusalém  os soldados, os marginais, os criminosos das cadeias que bradavam liberdade para  Barrabás. Protesto contra a subversão das normas processuais então em vigor, atirando J:Cristo de tribunal em tribunal, o religioso (Sinédrio) e o judiciário (Pretório). Foi a antecipação da Inquisição, sempre o poder religioso e o poder político maquiavelicamente  conluiados, não se sabendo onde acaba um e começa o outro, para queimarem na fogueira pública da mais vil hipocrisia aqueles que rompem a treva e levantam o facho purificador da Verdade e da Transparência.
         É um turbilhão de íntimos sobressaltos que tomam conta de mim nesta fatídica sexta-feira do crime histórico. Protesto contra todos esses poderes hierárquicos, a dois níveis, que fazem da Via-Sacra uma “diversão” para os olhos e um anestesiante da consciência crítica,  pomposamente  arregimentadas (nada de mais disforme da verdade dos factos!) percorrendo cidades e aldeias, fazendo crer que o nosso Cristo se deixou matar, como se de um suicida se tratasse, “pelos pecados do Povo”, quando é o Povo a vítima  constantemente sangrada e apetecida dos poderosos. Protesto!  Jesus foi assassinado pelos crimes dos  que  pervertem o Povo, distorcendo a realidade: os detentores do capital, da ditadura, do domínio, seja ele profano ou pseudo e atrevido domínio “sagrado”.
Faço minhas as palavras de Anselm Grun: “Para Luther King, a Paixão de Jesus indicava um caminho para os cristãos manifestantes  se revoltarem pacificamente contra a injusta  segregação racial e para destituir o poder estatal, frequentemente bruto e desumano”.
Perdoem-me a impaciência, mas não consigo prosseguir.
Na nossa Via-Sacra, acompanhou-nos uma cruz. Sem crucificado. Não se percebe a atracção dos crentes por um Cristo, quase nu, derrotado e vaiado, como se os denodados defensores da Verdade tivessem sempre como prémio a derrota e a ignomínia. Acabemos com o prazer mórbido de ver condenados os inocentes. O nosso J:Cristo quer quem O tire de lá, quem faça ressuscitar as causas pelas quais teve de suportar toda a vida os ataques dos barões da religião.
Naquele cruzeiro vazio estamos nós, estão  todos os que lutam contra as quotidianas condenações de tantos Cristos vivos.
 Para apaziguar  a minha mais profunda indignação, fui visitar amigos meus, presos a uma outra cruz, uma cama do hospital. Aí, recordei-me do “Príncipe da Língua Portuguesa”, o Padre António Vieira, em São Luis do Maranhão, há mais de 400 anos:
  “As imagens de Jesus Crucificado que estão nas igrejas são imagens falsas, porque não padecem nem sofrem. Imagens verdadeiras de Jesus são os pobres, os doentes, esses sim é que padecem”.
Que o protesto se transforme em força maior e manhã de Páscoa!

25.Mar.16

Martins Júnior

quarta-feira, 23 de março de 2016

"FAZEI ISTO EM MEMÓRIA DE MIM" ......................O QUE É “ISTO” ?


É esta uma noite ímpar, pela soma de contrastes que a vestem. Por um lado, os galopantes ventos cruzados que derrubam árvores e travam  aeronaves. Por outro, a lua cheia, viajando fagueira “como a alma de um justo”,  entra-nos em casa e na mente em acenos de paz e cânticos de Páscoa. Dormem no mesmo berço  nocturno, as bombas suicido-assassinas dos aeroportos  e  os prenúncios de uma Ceia, em cuja mesa  pão e vinho se misturam com o sabor do abraço e do perdão.
         E é nesta Ceia, chamada a Última, que debruço hoje o meu olhar para descobrir-lhe a ementa e desvendar-lhe o significado. Espero não ferir susceptibilidades e arquétipos interpretativos que sucessivas gerações nos transmitiram ao ritmo imponderado do tradicionalismo religioso.
         No derradeiro adeus aos amigos mais próximos, J.Cristo pôs a mesa e sobre a toalha dispôs pão e vinho da terra, dizendo: “Isto é o Meu Corpo, Isto é o Meu Sangue”. E como quem acentua o núcleo ideológico daquela estranha despedida, mandatou-os com este aviso: “Fazei Isto em memória de Mim”.  
         Que sentido maior terá o demonstrativo “Isto” no contexto da narrativa?
O conhecido e abalizado teólogo Bento Domingues refere, na sua  crónica de domingo passado, que a Última Ceia fica toda iluminada com o gesto simultâneo de J.Cristo quando decidiu lavar os pés aos comensais, pescadores e pecadores, seus amigos desde a primeira hora – uma atitude de intensa carga afectiva e de partilha igualitária entre todos, sublinhando a moralidade global daquela Ceia: “Também é Isto que deveis fazer uns aos outros”.  (Mt.26,26; Jo.13,1-17).  
         Os primeiros cristãos traduziram à evidência o mandato do Mestre: “Partiam o pão em  casa e comiam juntos com alegria e singeleza de coração…Tinham tudo em comum: até vendiam as suas propriedades e fazendas e repartiam com todos, conforme as necessidades de cada um”. (Act.2, 44-46).  Eis a genuína interpretação da Ceia do Senhor e do subsequente  Lava-pés, fielmente vivenciada pelos que receberam em primeira mão a narrativa do Cenáculo. Para eles, interessavam menos os rituais do que as acções concretas de solidariedade no terreno, demonstração dinâmica da sua fé na Eucaristia – a “Boa Graça”, etimologicamente.
         Assim não entenderam os séculos posteriores e os cristãos, doutrinados e dominados por uma hierarquia crescente em poder, luxo e majestade.  Passou-se a privilegiar o rito em prejuízo da seiva interior que lhe dava sentido e actualização. Fechou-se a Ceia no círculo apertado do formalismo litúrgico da “Consagração”. Depois, ergueram-se camarins e baldaquinos, cinzelaram-se sacrários, âmbulas e custódias, algumas delas de ouro precioso (lembremo-nos da sumptuosa custódia do ourives quinhentista  Mestre Gil Vicente) e guardou-se o “Senhor do Universo” numa perfeitinha hóstia circular, bem segura numa prisão que, por ser dourada, não deixa de ser prisão. E chegou-se a esta obtusa contradição: enquanto o Mestre e os primeiros cristãos tomavam o pão da Eucaristia para  abrirem caminho ao exterior, aos que viviam nas periferias, a Igreja usa prioritariamente a Ceia do Senhor para prendê-lO nas áureas teias do solenes rituais.
         Não está em causa o fenómeno da “transubstanciação” (um vocábulo dogmático que os crentes pouco entendem) mas a inversão dos factores-valores da equação entre os meios e os fins, entre o ritualismo e vida. Se alguém houve que repudiou o verniz dos cerimoniais e defendeu acerrimamente os valores da fé viva e actuante, esse alguém foi o nosso Líder e Mestre, atraindo, por isso, contra si a fúria dos sumos-sacerdotes sentinelas da religiosidade formalista oficial.
              Em síntese, todo o equívoco resume-se à frágil distinção entre significante e significado. Quanto menos evoluído é um povo, mais necessidade tem de significantes - repetidos, redundantes, asfixiantes até. Pelo contrário, um povo de olhos límpidos, não afectados por sombrias cataratas ideológicas, depressa intui o significado essencial dos gestos e tradu-lo em expressões factuais, prova transparente da sua crença.
         Quinta-feira Sã e Santa, porque criadora de solidariedades necessárias, dos perdões consensuais, embora tantas vezes doridos e sofridos, mas no fim sempre geradores de prazer e militância face ao futuro!
Não há Eucaristia sem Abraço!
______________________________________   
Seria “divertido” e produtivo se alguém quisesse desenvolver um tema que tivesse mais ou menos este título: “Ao fim de 50 anos de embargo a Cuba, o presidente adventista Obama visitou aquele Povo. Na Madeira, faltam só oito anos para a Diocese levantar o embargo decretado desde 1974  à comunidade cristã e católica, chamada Ribeira Seca”.
Viva Quinta Feira Sã, Saudável, Santa!
_________________________________________

23.Mar.16

Martins Júnior

segunda-feira, 21 de março de 2016

1 – 5 – 100: CHUVA DE PRIMAVERAS!


Abracei a árvore da Primavera. E logo dos seus ramos seculares caíram cem estrelas, uma a uma luzindo nos meus braços.
Poderia começar assim o poema que ontem, domingo, na transição do equinócio solar, aconteceu no seio desta comunidade da Ribeira Seca. Diante dos nossos olhos – e foram muitos, muitos – desfilou o mistério da Vida: desde o cordão umbilical preso à terra-mãe até aos nimbos que se evolam na longínqua estratosfera. Vimos todos passar a Primavera viajante ao longo das cem estações do Tempo. E que beleza, com sabor a nostalgia e renascença, que profundidade no olhar de quantos contemplaram a latitude e a longitude plenas da existência humana!
Não me apetecia descer deste voo espacial que nos proporcionou aquela hora de encantamento. Mas é preciso  decifrar e transmitir o simbolismo deste dia estruturalmente ímpar, para multiplicar o êxtase e a poesia entre todos os que se juntam ao redor desta mesa em que, dia-sim-dia-não, nos encontramos.  
Estou descrevendo a emoção que me envolveu no templo da Ribeira Seca durante a comemoração de três efemérides entrelaçadas num só tronco  -  a Primavera da Vida:
Foi a celebração do centenário da nossa vizinha e paroquiana Dona Guilhermina de Olim. Depois, o baptismo do Marcy, de cinco anos de idade. Trinta minutos após, novo baptismo, a Mariana, de um ano apenas.

Quem seria capaz de ver este “filme” gradativo  sem sentir-se transportado mais alto e mais além?! Ter ali, na nossa mão e no nosso olhar, os pontos cardeais da condição humana!... Adivinhar e tocar a eloquência daquelas rugas que, há cem anos, exalavam a candura matinal de uma vida em botão ! ... E, à mesma luz, prognosticar os passos futuros de quem agora vê diante de si as pegadas que outros já pisaram na vida!... Até quando? Cinquenta?... noventa?... até aos cem e talvez mais?... Misterioso o GPS de cada existência, mas tão igual nos seus princípios e fins! Aqui apetece evocar Fernando Pessoa: “Para escrever a minha biografia bastam duas datas, a do meu nascimento e a do meu fim, tudo o resto é meu”. De quem fez cem anos, já sabemos o que foi “seu”. E qual será o  de quem balbucia as primeiras boas-vindas de um incógnito amanhã,  aberto  à sua frente?
Exaltante e enternecedor abraçar os polos dos dois hemisférios existenciais! Concluir que, afinal, somos todos atletas olímpicos  correndo num mesmo estádio, em que os que vão entregam aos que vêm o facho luminoso da História. Afinal, “nenhum de nós é uma ilha”, repetindo Thomas Merton. Pelo contrário, somos todos UM SÓ, no incomensurável cortejo do Tempo, umas vezes subterrâneo amargo, outras vezes solarengo e triunfal  “como em Dia de Domingo”!
E foi no Domingo das Palmas esta ditosa chuva de Primaveras. Domingo evocativo da entrada em Jerusalém, onde a força de um Povo Unido suplantou os carros de guerra, as coortes  romanas e os arsenais de ouro e prata com que os poderosos maquinavam assassinar o Profeta da Libertação e da Vida.
Celebrar no mesmo abraço um ano, cinco anos, cem  anos,  é também erguer a vitória de um Povo, fruto da sua vitalidade primaveril, sempre antiga e sempre nova!
Parabéns à Vida!

21.Mar.16

Martins Júnior

sábado, 19 de março de 2016

PAIS – PATENTES – PATERNIDADES


               Não há Dia do Homem, mas há-o da Mulher. Porque o Homem é o tal, o maior, o auto-suficiente. A Mulher é a qual, serva, subalterna e carente. Esta a mentalidade que se enroscou na raiz e no tronco das sociedades, mesmo as ditas civilizadas. Talvez por isso, hoje, invertem-se os termos: o Dia do Pai subalterniza-se face  ao seguro e alçado Dia da Mãe. Apertado e esmorecido é o Dia do Pai.
         Mas não deveria ser assim. Porque a paternidade não se confina aos convencionais limites da procriação biológica. Vai muito mais além e abarca o início e o fim do processo criativo de toda a produção humana ou de toda a transformação da natura.. Inscrevo, pois, à cabeça desta incursão o dado adquirido de que se todos os dias são-no da Mãe, pela mesma razão, todos são Dia do Pai. Seja maior ou menor, homem ou mulher, seja planta, flor, animal ou mineral, a paternidade cria patente, descoberta, semeadura.
          É nesta grande angular, de amplitude cósmica, que vejo  o magno estatuto da paternidade. Há que pedir contas ou, pela positiva, tecer palmas e hossanas nas aras onde se cultua a patente paterna. Aos  helénicos  Pais da Filosofia, Platão e Aristóteles; ao Pai do sobre-dotado Povo Hebreu, Abraão; ao Pai da Europa, S. Bento: ao Pai da Nação Portuguesa, Afonso Henriques: ao Pai do Teatro em Portugal, Gil Vicente; ao Pai precursor da navegação aérea, Bartolomeu de Gusmão; Ao Pai da Relatividade, Albert Einstein;  ao Pai do Serviço Nacional de Saúde, António Arnaud. E num mesmo feixe, a todos os Homens e Mulheres da Ciência, da Pedagogia, da Música, do Cinema, arautos de um ,mundo novo, vai hoje todo o aplauso do Universo:
         Mas àqueles que “semearam sombras e quebrantos”, desde o genocídio mais primitivo até à malvadez do nazismo, das ditaduras, do jihadismo, a esses há que pedir contas severas, bem como aos satânicos mensageiros do obscurantismo religioso. Pais cegos que fazem filhos cegos, monstros que procriam outros monstros, pais assassinos que só trazem filhos no ventre para matá-los à nascença.. Quem os leva à barra do Tribunal da Humanidade?... Quem os amarra às grades dos fornos crematórios para contemplarem os antros da crueldade onde destruíram vidas inocentes? … Quem os pendura nos muros da vergonha ou nas muralhas de arame farpado para verem onde morrem, exangues, as vítimas das guerras, das fomes que eles próprios armadilharam com as mãos peçonhentas?...
         Eu sei e peso a violência dos anátemas que acabo de escrever. Mas infinitamente mais violentos foram e continuam a ser os traumas, as crateras, os abismos de horrores que sadicamente abriram no coração da História e nos corações das gentes. Para que, ao menos, os filhos e herdeiros arrepiem caminho e reparem com equidade os danos que tais pais infligiram.
         Dia, hoje, em que é posta no livro das horas e no filme dos dias a nossa patente criadora, a nossa paternidade interventiva. Cada palavra, cada gesto, cada linha que se escreve, tudo o que é fruto do nosso respiro  assume-se como um filho saído do mais íntimo que temos e somos. Sejas mulher ou homem, sejas jovem ou ancião, estás colocando no calendário da História a marca do Dia do Criador, o Dia do Pai. Tal como o fizeram Pierre e Marie Curie, os Pais do novo elemento rádio, ganhando o Prémio Nobel da Física, em 1903, pela excepcional descoberta  que abriu caminho para promissoras e decisivas conquistas da ciência em prol da humanidade.

19.Mar.16
Martins Júnior
   


quinta-feira, 17 de março de 2016

O HERÓI “SERVE-SE” VIVO! - Um mês, muitos anos sem ele

Eu sei que todos os dias são livros abertos na tumba de quem nos diz adeus. E muitos têm sido neste início de ano bissexto. Cada um com a marca distintiva da sua proximidade da nossa casa, do nosso ofício, do nosso peito. E quanto mais o tempo passa mais se aviva a necessidade de trazê-los connosco. Não para entronizá-los, mas para fortalecer-nos.
Por este necessário apelo interior, não posso deixar de chamar ao meu/nosso convívio aquele SENHOR que atravessou quase anónimo as veredas e atalhos desta ilha  -  o Padre Eduardo Freitas do Nascimento. Faz amanhã um mês que deixou  numa tumba humilde de Santana o livro aberto de uma vida. Das suas múltiplas funções e não menos extensos serviços, já escreveu na imprensa diária José d’Olim, numa linguagem de fino recorte literário e humanista. Por isso, da minha parte, limitar-me-ei a saborear o companheirismo de um colega e amigo que, na década de 60 do século passado, criou as novas centralidades de Piquinho, Preces, Ribeira Grande e Maroços,  no Machico mais  profundo, corporizando a sábia intuição do Prelado David de Sousa de descentralizar o monopólio das igrejas urbanas e conferir a autêntica autonomia aos habitantes da ruralidade, até então abandonados nas periferias montanhosas da ilha, sem estatuto de cidadania e, pior, desprovidos dos bens indispensáveis à dignificação da condição humana.
         Neste âmbito, guardo de fresco na memória visual o vigor denodado do Padre Nascimento em abrir caminhos onde as pessoas viviam no mais cru isolamento, captar água pura das nascentes para acabar com as viroses que não poucas vezes minavam os rurais que se abasteciam da água das levadas. Ele, entre Preces e Maroços, e o seu colega conterrâneo, Padre Manuel de Freitas Luís Júnior, na Ribeira Seca. Nessa altura, o padre era pastor, pedreiro, servente, mestre de obras, engenheiro, assistente social, curador de corpos e almas. Tempos duros!  Lembro-me da sua coragem em alcançar outros continentes, estendendo a mão aos emigrantes madeirenses lá residentes para poder construir as igrejas de Piquinho e Ribeira Grande. Falo dessa luta (hoje ninguém a conhece) porque também me toca de perto. Corria então o ano de 1962 e o Padre Nascimento pediu-me que eu, recém-ordenado sacerdote, o substituísse nas tarefas paroquiais e de que guardo sentidas recompensas de afecto e camaradagem para o resto da  vida.
Percorreu as “sete partidas” da Madeira em várias paróquias e, num certo dia, vi-o confidenciar-me a pouca consideração pela sua já debilitada situação etária com que a hierarquia eclesiástica lhe impunha serviços e deslocações  que a saúde  não lho permitia.
“O herói serve-se morto”  -  rigorosa expressão do grande poeta Reinaldo Ferreira, o mesmo da balada do “soldadinho que volta numa caixa de pinho”,  referência aos soldados mortos na crudelíssima guerra colonial.
Também o Padre Nascimento foi herói “servido morto” à mesa da hierarquia eclesiástica que o sugou até ao tutano e depois abandonou-o num canto anónimo, como ele, da Terceira Idade. Partiu-se-me o coração quando fui visitá-lo e deparei-me com um corpo frágil amarrado a uma cadeira no meio de tanta gente decrépita, deprimida. O trato na casa era exemplar em higiene, alimentação e cuidados. Mas aquele crucificado de olhar longínquo naquele, para mim, degradante figurino (embora por precaução médica) bateu-se-me como pedrada no peito, imagem que jamais apagarei da minha retina.
A memória torna-se repulsa, indignação, ao constatar aquilo que já vem de longe: a Igreja na Madeira trata,  como senhoria,  os seus padres enquanto eles têm para dar. Depois porta-se como madrasta desnaturada. E pensar que determinada habitação, no Funchal, foi legada por alguém, precisamente, para servir de última residência aos sacerdotes anciãos da diocese – e saber que o bispo “emérito” fez dela a sua exclusiva mansão – então a indignação atinge o cúmulo da revolta!
 Merece uma aprofundada e exigente reflexão a constatação deste caso.
Mas não quero desviar-me  deste que considero um dever e um conforto pessoal: trazer para a minha/nossa companhia um herói. Vivo! Imperativo! Ele não precisa, como nunca precisou nem  procurou os louros dos palcos transitórios. Nós é que precisamos  vê-lo e segui-lo na sua luta porfiada e consequente. Para ele, o amigo de peito, poderia inscrever-se na sua lápide a filosofia do eloquente provérbio árabe: A primeira recompensa do dever cumprido é ter cumprido esse dever”.

17.Mar.16
Martins Júnior