sexta-feira, 15 de abril de 2016

INVESTIMENTO SEGURO NO BANCO DO FUTURO!


Nobilíssima missão a de quem ensina a descobrir os caminhos da Cultura! E de quem faz da Cultura um guião para a vida através da Educação!
Foi nestes dois pilares que se apoiou  o Sindicato dos Professores da Madeira  para construir, neste fim de tarde, a ponte  por onde circularam conhecimentos e experiências dos docentes do concelho de Machico. Durante mais de duas horas, a problemática da “Cultura na Educação”    ocupou os  respectivos profissionais, tendo sido reveladas abertamente as coordenadas da ciência e da arte de ensinar, a amplitude de acções e concepções, as dificuldades supervenientes, a necessidade de articulação entre a sociedade, a escola e os diversos agentes educativos, sendo de relevar o fenómeno cultural como “um crescimento inteligente, sustentável e inclusivo”.
Nesta vertente inclusiva, desfilaram sucessivamente os esforços dos docentes e a sua função integradora dos diversos saberes no organismo social a que pertence a população escolar, com especial destaque para as potencialidades do sector museológico, caso do “Solar do Ribeirinho” e do “Museu da Baleia”, bem como a persistente envolvência da comunidade escolar na realização do “Mercado Quinhentista”.  Dito e vivido pelos próprios dinamizadores dos eventos, a “Tertúlia” (assim classificou o SPM) ganhou um dinamismo reprodutivo, patente nas questões que depois foram debatidas pelos presentes. Que bom sentir o pulsar das instituições no gesto, na palavra e na emoção dos seus promotores!
São iniciativas deste teor que fertilizam o solo, por vezes árduo e ingrato, que pisamos todos os dias e nos fazem entender que os docentes não são apenas funcionários cumpridores de horários fixos.  Pelo contrário, amam a sua arte – matrix do desenvolvimento global – e dedicam-lhe preciosos tempos do seu merecido lazer, ou seja, à causa  do futuro em construção.



Bem hajam!
Parabéns a todos os Docentes, na pessoa dos dirigentes do respectivo Sindicato. Não é tarefa doce nem passeio mole militar na vanguarda do prestígio e da luta pela dignificação da Escola e do superior interesse dos discentes. Conforta-vos o invisível troféu de ganhar os desafios do amanhã em cuja torre  cantarão vitória os vossos “filhos adoptivos”!
Uma palavra especial aos titulares da autarquia, presidentes e autarcas da Câmara Municipal e Junta de Freguesia que vieram “sentar-se no banco da escola”  em que, nesta noite, se transformou a Sala das Actividades Culturais da JFM. Excelente exemplo do compromisso com a missão pedagógica para que foram eleitos. Da minha parte, apenas o registo   de ter colaborado na tertúlia.
Acto eminentemente cultural! Sem espectacularidade nem sobranceria, sem os microfones e sem as objectivas áudio-visuais. Tudo autêntico como a ânsia de saber, tudo transparente como a vontade de servir!


15.Abr.16
Martins Júnior
     


quarta-feira, 13 de abril de 2016

“BEIJA-FLOR”

No "Dia do Beijo" gratuito e necessário. E dentro da Festa da Flor



Quanto a amei
Amei-a fora da lei
Dos códigos cifrados que a cidade tece
Amei-a
Como na selva se ama
Deitei-a no chão-cama
Do meu terreiro
E o terro da cor do castanheiro
Ficou palácio real
Só porque nele eras rainha
Fiz-te lençóis de água cantante
E tornei-me fiel escudeiro
Contra invasoras hostes do levante

Cresceste com beijos coloridos
A todo o viandante
Que passasse
E ensinaste
Que sempre o amor puro dá-se
De pronto e de graça
Ao caminheiro sedento que passa

E tu eras assim
Pródiga e frágil
Vestida da nudez clara do meu jardim
À tua mesa
Vinham esvoaçando de êxtase
Asas de seda e framboesa
Beber o mel da tua boca
O sumo perfumado da corola
Porque terra mar e céu
Moravam todos
No teu secreto gineceu

Até que um dia te levaram

Vi-te no empedrado e nos salões
Prisoneira de olhos estranhos e mãos-cifrões
Vi-te estendida morta
Cobrindo a laje
Das vítimas caídas diante dos canhões
Vi-te pisada
Pelo sardanapalo calçado de verniz
De quem se diz
Trazer os pés sofridos do Crucificado

Triste sorte
A flor de sua sina
Bela intocada virgem-menina
Espera-a a prematura morte
No rude corte
De mão assassina

Ninguém mais saberá dela
Da ametista açucena, da orquídea estrela

Será talvez a sua palma
Esse martírio de alma
Errante no parto condenada
Congénita cigana  
Sempre aquela  refugiada
Às mãos de quem a prende e a engana

É a sua epopeia

Por isso amei-a
Com aquele amor-primeiro
E só queria vê-la beijá-la
No chão-cama
Do meu antigo terreiro

13.Abr.16
Martins Júnior

segunda-feira, 11 de abril de 2016

HOJE VOU ENTRAR EM CONTRADIÇÃO COMIGO MESMO…




Poucas palavras para não desvirtuar o título. E também para fazer esse higiénico mergulho, difícil e necessário, dentro do cérebro até  tocar o nosso consciente  latente activo - se é que o podemos localizar – e aí conquistarmos o espaço          do pensamento livre.
Descodificando o preâmbulo, refiro-me à tumultuosa agitação das ondas comunicacionais que, à superfície, gravitam em nosso redor e nos estrangulam sem darmos por isso. Nunca foi tão activa, obsessiva e opressiva a informação que, de fora, bombardeia olhos, orelhas e neurónios. E com tal subtileza que nem chegamos a levar as mãos à cabeça para  abrigá-la de tamanho furacão. Pelo contrário. A pretexto de  actualização de dados, somos nós que lhe franqueamos as portas e as janelas. E se ela não vem à hora certa (que é toda a hora)  lá vamos a correr atrás da  algazarra, nos jornais, nas TV’s, nas rádios, nos face’s, até mesmo na bisbilhotice caseira dos comentadores de cordel. Recordando o hino da extinta (em 1974) Mocidade Portuguesa do regime fascista que formatou na escola da ditadura os jovens de então, nossos pais e avós, também cantamos de braços abertos: “Lá vamos cantando e rindo, levados – levados, sim”.
Permitam-me este desabafo, mas (à maneira de F.Pessoa “trago a cabeça doente  de sonhos”) apetece dizer: trago a cabeça doente, escaqueirada de informações. Não sei se convosco o mesmo se passa, mas caio em mim, mergulho no oceano fundo de mim próprio e pergunto: Ainda não te saturaste desse turbilhão em fúria que ronda à tua volta? Bebeste a informação, sim, mas provaste-a suficientemente nas papilas do pensamento crítico? Seleccionaste-a, saboreaste-a, interiorizaste-a naquilo que de verdadeiro e útil te pode enriquecer?
Na praça pública da informação somos, tantas vezes,  taxistas de serviço gratuito à espera do primeiro cliente que se nos atira porta adentro sem controlo nem critério. E sem ferir  susceptibilidades, chego ao extremo de nos compararmos a vazadouros públicos que aceitam  indiscriminadamente  todo o lixo que os donos da comunicação entendem despejar em cima do nosso consciente. Que  ridícula atracção esta  de apanha-bolas em que muita gente se torna no estádio do quotidiano.  São  os “spots” publicitários, são as subreptícias campanhas políticas, as   encenações pseudo-religiosas, os ataques bombistas, os milionários offshores, erotismos mórbidos, enfadonhos comentadores dos futebóis, já sem falar nos escândalos apetitosos aos paladares podridos – tudo nos chutam à cara e nós, bobos da feira, aceitamos e até  agradecemos. “Lá vamos… levados, levados sim”.
Sem dúvida, precisamos de estar vigilantes, nada de humano nos deve ser alheio, já nos educava Aristóteles. Mas, como de água para a nossa sede, precisamos de liberdade interior para avaliarmos da química das fontes. Conforme  o filósofo francês Michel de  Montaigne (1533), não basta uma cabeça abundantemente mobilada; preciso é ter une tête bien rangée, uma cabeça bem arrumada.  
         Perdoem-me este expirar nocturno de um estado de alma. Mas acho-o necessário ao equilíbrio neuro-vegetativo do ser humano e ao verdadeiro espírito da cultura. Assistimos hoje àquele paradoxo que o jornal El País titulava assim: “A solidão, epidemia da era da comunicação”, em comentário ao livro The Lonely City, da escritora britânica  Olivia Laing.   E justifica: ”Neste mundo hiperconectado, grande parte da população sente-se só e isolada. Estar presente a todas as horas nas redes sociais, recebendo uma maré cheia de informação permite disfarçar um sentimento real de desamparo que o mundo virtual paradoxalmente acentua”. 
         É um tónico que a nossa saúde física e mental não dispensa: mergulhar para dentro de nós mesmos. E aí descobrir tesouros desde  sempre  escondidos.
Tudo certo. Mas, afinal, feitas bem as contas, acabo por entrar em rotunda contradição. Pela lógica que descrevo,  eu não tenho sequer  o direito de sobrecarregar os meus amigos nos dias ímpares  com este  SENSO&CONSENSO...

         11.Abr.16

         Martins Júnior

sábado, 9 de abril de 2016

NO MEIO DO BULLYING E DO NEVOEIRO, HÁ ALGUÉM QUE RESISTE


Em fim de semana – e que semana! - o que apetece é respirar, estender corpo e alma  no chão da terra verde, ao gosto do “Guardador de Rebanhos”.  Mas nesta semana exclamativa (!) também nos chega o eco perturbador do fim da “Mensagem” quando Pessoa nos envolve no “nevoeiro”, não só do país mas do mundo à nossa volta, acabando por constatar que “tudo é disperso, nada é inteiro”.
De entre tantos, dois acontecimentos vieram toldar o pavilhão onde habitamos. Um, o ensaio de bullying entre um par de  adolescentes velhos, o  ministro e o jornalista, tipo duelo de outras eras, o qual ensaio, mesmo levado a sério, outra reacção não  merece além de umas gargalhadas de caserna. O certo, porém, é que a comédia dos brandos costumes acabou em naufrágio ministerial. Mas o prometido “par de bofetadas”  é,  não raras vezes, o receituário recorrente  - dito e não escrito – de muito boa gente que por aí anda ou vegeta em palanques e carroças. Para nós, madeirenses, nada de novo, já herdámos a  cartilha de um “governador ”, tão hilariante quanto perigoso. Muitos estalos foram dados na honra, na carreira e até no pão de  famílias e instituições, cujo único crime foi o de exercer o seu direito de expressão. A aplicar a mesma sanção, tentem contar quantas vezes ele e seus comparsas seriam  demitidos.  No entanto, aguentaram-no lá mais tempo que o ditador-mór do velho regime português…
“Nada é inteiro” nesta forma de habitar a terra. Oxalá, o recente bullying verbal dos rançosos litigantes sirva para reaprendermos a ciência e a arte de sermos diferentes e até adversários, mas nunca terroristas em “vias de facto”.
E “tudo é disperso”! É o segundo acontecimento desta semana: os “Papéis do Panamá”. O crime anda à solta, onde quer, como quer. E tudo abafado  de gravatas e cortinas da mais fina sede. Que execráveis trastes, esses  traficantes nauseabundos! Os chamados “golpes de mão” e os assaltos por esticão que enchem primeiras páginas  são puros eufemismos, comparados aos piratas especuladores que por aí pululam espaventosamente diante dos nossos olhos pálidos de tristeza e mesmo de fome, nalguns casos. Até quando?... Lamentava-se, enfurecia-se anteontem um  jornalista muito atento que passo a citar: “Jamais haverá unanimidade entre países para acabar com os paraísos fiscais. Se há um predador que desiste, há logo outro que toma o seu lugar”. Quando levantar-se-á um povo, como o da Islândia, para apear do trono um alto presidente e bradar que “o rei vai nu”? Ou como os britânicos que obrigaram Cameron a retratar-se, confessando publicamente que também se serviu à mesma mesa dos “vampiros” dos offshores? E entre nós, os secos, os doces e os salgados?!
“Tudo é disperso, nada é inteiro”.
Por entre o “nevoeiro” e no meio deste vulcão sobre o qual muitos de nós inconscientemente navegamos, há sempre uma voz que se levanta, suave como a brisa mas contundente como o trovão que limpa as estruturas do planeta: a voz de Francisco Papa, quando anuncia que vai pessoalmente à Grécia proclamar na  Ilha de Lesbos, mártir de mártires, que os refugiados de guerra são vítimas do terrorismo financeiro personificado também, dizem os comentadores, nos ditadores presidentes da Síria e da Arábia Saudita, clientes sanguessugas nos offshores do Panamá e fomentadores do terrorismo armado.
Voz  –  a do longínquo argentino – que abre um novo espaço de paz e realização humana, quando recomenda à Igreja que alargue os braços compreensivos  aos “cristãos imperfeitos, como os divorciados, os recasados” e até os de orientação sexual diversa. O ancião de corpo, mas o Jovem conquistador da Ideia e distribuidor da verdadeira essência do Amor!
À opacidade nebulosa dos poderosos oponhamos a corajosa transparência que a todos conforta e liberta.

09.Abr.16

Martins Júnior          

quinta-feira, 7 de abril de 2016

NÃO É SÓ DO PANAMÁ – “O PROBLEMA É NOSSO”


Hoje, renuncio ao prazer de escrever, de burilar as palavras, enquanto serviço ao “Prazer de Ler”, na bela expressão de Roland Barthes.  Pelo contrário, hoje não escolho palavras nem convido ao descanso. Nem serão minhas as palavras. Vou  bosquejá-las nas leituras que por estes dias nos caem em cima, através dos jornais e respectivos comentadores.  No estrangeiro e em Portugal.
         No último texto tentei aguçar a atenção para o clamoroso escândalo dos Panama Papers.  Porque o caso é connosco também. Esse veemente protesto alastra por todo o mundo. Os termos mais aplicados em artigos de opinião vão desde “escândalo”, “náusea” (Jêrome Fenoglio)), “túnel de esgoto, por onde passa o dinheiro negro daqueles negócios que geram lucros fabulosos para alguns  e  dívidas públicas mastodônticas” (Eduardo Dâmaso) “veículo para o crime organizado” (Lobo Xavier), “polvo gigante”  “terrorismo financeiro” (F.Gonçalves)  “lógica da selva e pornografia fiscal” (Pedro Ivo Carvalho).
         Acerca dos agentes e beneficiários do gabinete da ‘Mossack e Fonseca’  os analistas não poupam qualificativos, tais como  “os corsários financeiros” (Raul del Pozo), “elites financeiras políticas e criminosas –qualidades que muitas vezes se cruzam no mesmo indivíduo – ou seja, que países, como o Panamá ou as Ilhas Virgens, são santuários para grandes fortunas” (Rafael Barbosa). O Panamá é considerado como um “passageiro clandestino num mundo que se quer normal” (Arnaud Leparmentier): clandestino sinónimo de contrabandista, eventual bombista, enfim, um malfeitor da humanidade. Os grandes tablóides, desde o Suddeutsche Zeitung  até ao Guardian referem-se ao caso do  Banco   HSBC que ajudou a salvar os milhões de Rami Makhlouf, um dos gestores da rede corrupta denunciada nos papéis do Panamá e primo do ditador Bashar al-Assad.
         São muitos e imperiosos os avisos de vários países representados na OCDE, os quais são unânimes em afirmar que um “mundo globalizado sem ética e sem transparência tem em si o gérmen da sua própria dissolução”.
         Poderia continuar com muitas outras e eloquentes imprecações contra a “chantagem do Panamá” (Carlos Segovia). Registo o  apelo do supra-citado  Raul del Pozo: “Oxalá que o esforço dos mais de 300 jornalistas, agregados no Consórcio Internacional de Investigação, sirva de  “despertador da ira dos contribuintes”.  E termino, citando por todos, o editor executivo adjunto do Jornal de Notícias, na sua edição de ontem:
         “O problema é nosso. Aquele dinheiro que não pagou impostos poderia ter sido gasto nos nossos hospitais, nas nossas escolas ou nos nossos tribunais. Aquele dinheiro que não pagou impostos é o mesmo que, sob a forma de branqueamento e ocultação de operações financeiras e demais expedientes,  levou à ruína do BES, do BPP e do BPN. Pagos por quem nós sabemos”, (nós, os contribuintes)… “A sem-vergonhice dos clientes da ‘Mossack e  Fonseca´ permitiu que o capital e os bens de 1% dos mais ricos (cuja fortuna supera a riqueza mundial) possam circular livremente sob o anonimato fiscal que não aplica a mesma benesse aos restantes 99%”.
         O problema é nosso. E a solução também. Foi a voz persistente do povo islandês que provocou a queda de um dos clandestinos dos offshores, o Primeiro Ministro do seu país.
         “Vimos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar”.
        
07.Abr.16
Martins Júnior


terça-feira, 5 de abril de 2016

CONTRA O GENOCÍDIO ENCAPOTADO – Os ladrões envernizados e os migrantes de luxo


Por mais vistosos ou sugestivos que fossem outros temas,  nenhum deles poderia abafar neste dia o clamor que irrompe das profundezas do mundo neste dia de Abril. Junto-me, pois, ao coro gritante que os jornais, as TV’,s e as redes sociais levantam contra o crime organizado dos malditos paraísos que um punhado de demónios escavou nos subterrâneos do planeta. E faço-o, porque me estala a consciência a palavra de ordem, tantas vezes proclamada: “Vimos, ouvimos e lemos/ Não podemos ignorar”!
Todos nós vimos, ouvimos e lemos a descoberta, talvez a maior até hoje nos “media”, do tenebroso escândalo que dá pelo nome de Panama Papers, esse memorável trabalho de jornalistas coligados, a nível internacional,  que durante quase um ano investigaram, sob sigilo comum, a orgânica dos offshores naquele país. Milhões, biliões, fortunas sem rasto, filhos de ventres incógnitos e herdeiros do sangue, suor e lágrimas dos pobres da Terra! Tudo isso trancado em, para eles, paraísos e, para nós, infernos abrasadores! Agora percebe-se aquela cruel equação que envergonha a condição humana: só 1% da humanidade detém a riqueza do mundo, à custa dos 99%  que dela carecem.
Remeto os meus amigos para a comunicação social justa e competente, por onde ficamos a saber os tais  “herdeiros–donos disso tudo”, desde reis e presidentes das nações, banqueiros, gestores, cineastas, deputados e até futebolistas super-milionários.  Tudo gente importante, gente “séria”, raça de eleitos, ladrões de smoking envernizados, a quem nos mandavam beijar as mãos e os pés.   Oxalá não apareçam sotainas de bispos e  cardeais, embaixadores do Vaticano, o velho Vaticano, aquele que antes de Francisco Papa lavava dinheiro sujo nas catacumbas de Roma…
  De um único escritório de advogados – o Mossack Fonseca – sediado no Panamá, surgiam e cresciam como cogumelos venenosos empresas ocultas sem conto, que escondiam (e escondem) em cofres  frigoríficos, tão gelados e insensíveis como a consciência dos seus detentores, os corpos e até as almas dos que mourejam de sol-a-sol, curvados sobre a terra, presos à penosa ferramenta do trabalho que (talvez, alguns não)  têm, enfim, descapitalizam o erário público e obrigam os contribuintes indefesos a pagar duros impostos. Só de Portugal saem dois milhões e meio por dia, a caminho de bancas-fantasma.
É insuportável conviver com os “jihadistas” do dinheiro. Em que difere o sofisticado  terrorismo capitalista, agora posto a nu, do bárbaro terrorismo bombista   de Paris, Bruxelas, Madrid e quejandos? É com  dinheiro dos offshores que se compram as armas assassinas. E  são eles, os financiadores sem escrúpulos,  que sadicamente e impunemente praticam o mais sangrento genocídio encapotado, em morte lenta,  de pessoas e nações inteiras. Os autores da lei são os autores do crime. Ainda por cima, alguns deles são considerados beneméritos sociais, organizam promoções comerciais, oferecem donativos a instituições… enquanto, á socapa e protegidos pela lei, furtam-se aos impostos na sua pátria, ufanam-se de pagá-los noutros países onde lhes pinga mais doce o “cacau”, enfim, outros até negoceiam drogas, recrutam combatentes e proxenetas, traficam seres humanos. Que execranda, malfadada sorte nos coube! Em pleno século XXI.
Não haverá maneira de exterminar o crime organizado, falsamente legalizado?  Vamos assistir indiferentes e enxutos a esta contradição nuclear: enquanto os miseráveis migrantes refugiados de guerra imploram uma nesga de paz na Europa, os  multifundiários da alta finança fazem vida de migrantes de luxo, saltitando de offshore em offshore conforme a avidez dos seus apetites?!


Ninguém encolha os ombros, julgando-se impotente. Primeiro que tudo, é preciso saber disto, seguir a boa informação, conhecer os meandros dos terroristas financeiros. Mesmo perto de nós. Ainda está por esclarecer cabalmente  se aquele “negócio”  da chamada Zona Franca e respectivo paraíso fiscal , onde um escritório, sediado no Funchal, é susceptível de acolher ou receptar dezenas e centenas de firmas,  configurar-se-á  (ou não) com outros  Mossack Fonseca em miniatura.  Ainda está por  saber se, com  aquele empreendimento, ficaram os madeirenses a ganhar ou a perder. Estaremos nós, a troco de tostões,  dando passagem a contrabandistas que lucram milhões?  Fica no ar a grande incógnita.
Temos também outra arma contra o banditismo legalizado: peguemos nela, aquando do acto eleitoral, rejeitando os encobridores-legisladores do crime e votando naqueles que proclamam a abolição dos paraísos fiscais, à escala mundial.
“Vimos, ouvimos e lemos/ Não podemos ignorar”!
O editorial de Le Monde, pela mão de Jerôme Fanoglio, classifica de  vertige et nausée (vertigem e náusea) esta torrente de dinheiro sujo,  sem cuja proibição jamais serão credíveis os programas governativos de qualquer país. Entre nós, ocorre oportunamente recordar, para combate-los, Os vampiros que bebem o sangue fresco da manada, Comem tudo e não deixam nada, repetindo Zeca Afonso, o precursor e construtor do nosso Abril.
Contra o genocídio encapotado e lento, contra a geo-corrupção, abrir os olhos e… marchar, marchar!

           05.Abr-16
         Martins Júnior      


domingo, 3 de abril de 2016

O OUTRO “MENINO DA SUA MÃE” – Cinco anos depois

Foi em 2 de Abril de 2011. Após a morte súbita, aos 20 anos de idade do Luis Filipe, nosso amigo, colaborador e elemento da nossa Tuna, escrevi esta mensagem que nunca tinha tido coragem de entregar à  Natália, sua mãe.  Neste dia (ontem), passado o primeiro lustro,  na comemoração comunitária do 5º aniversário do trágico acontecimento, entrego finalmente a uma mãe, até hoje inconsolável,  a antiga mensagem, extensiva ao marido e ao novo rebento,  a Vitória, renovada primavera daquela casa.,


Ele era o cordão umbilical
Que te ligava à terra
E onde corria o ar que respiravas
Era ele que trazia
Cada noite cada dia
O arco doce
De uma manhã de Abril
Por mais negro que fosse
O basalto das montanhas circundantes

E mesmo que o sol se finasse
E o sangue já não corresse
No seu passo de menino
Na sua face
Os trilhos ficavam de luz
O basalto era ouro fino
Que se abriam à tua passagem
E por ser único
Nenhum outro se te dava

Mas um dia – e ontem foi –
O menino fez viagem
O mar largo sem retorno
Veio buscá-lo

Na manhã de Abril
Levou consigo todas as manhãs
A mãe-terra e o cordão

Cortaram-te a respiração

Vi-te  então
Imagem sagrada
 Olhos ausentes pele inteira de lilás
A maior das Pietás
Com um filho morto nos braços

Amanhã
Vou ajudar-te a deitá-lo no berço branco e breve
Do universal navio
Que atravessa aquele rio
De lágrimas lavrado
Em demanda inacessível
Da Ilha do outro mundo

Deixa-o ir
Não chores mais
Talvez a encontre, a Ilha inexistente
Aos olhos dos que esperam
Na amarração deste cais

Tão novo
Deixou-te o testamento
Das vinte estrelas gigantes que lhe acendeste

Abre as mãos e vê
Galáxias, vezes vinte  mil,  renascidas
Das estrelas que voaram
Entre as cinzas de outras vidas

De Natal foi o seio
De onde veio
De cravos
A mortalha que o levou

Acredita:
Um dia virá
De acordes alleluiah
E uma vitória infinita
Ao mundo proclamará
O que ainda não ouves nem vês:
Serás “Natália” de novo
E será Abril outra vez



03.Abr.2016
Martins Júnior