quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

“ILHA-NATAL” DE ONTEM E DE HOJE!

                                           

Só uma singular intuição como a do Prof. Nélson Veríssimo seria capaz de entrelaçar no mesmo tronco  a história, a arte e o património imaterial da ilha. E nenhum outro laço verde poderia atar melhor esta original trilogia como a fragrância de uma “lapinha”, onde se cruzam todas as sensações e onde se encontram todos os corações. São cinco séculos de  ondulações tão diversas e rumorejantes como as que o  Atlântico  borda as falésias deste basalto estendido e dormente no oceano. Que sabores de antanho reencontrar Baltazar Dias, o cedo vidente, do povo bem amado!
Teve o Autor da antologia a gentileza de incluir no seu alinhamento uma composição minha, de há sessenta anos. Era o tempo das influências híbridas de classicismo e realismo, incarnadas no género-rei da literatura de então – o Soneto – superiormente cultivado por Antero de Quental, o “Cavaleiro Andante”  demandando o “Palácio da Ventura”, mas sempre sem sucesso, antes exasperado com o mundo em seu redor.  É esse contraste entre a magia gratuita do Natal e a “agonia de um mundo em pranto” -  essa “lúgubre elegia” já então, com os meus 18/19 anos, povoava a minha atmosfera natalícia. Inconformado,  ontem como hoje. Disse-o bem António Fournier (e com ele me identifico) no prefácio da feliz colectânea: “No presente sempiterno que é esta Lapinha de Poesia, os poetas vêm-nos recordar que o Mal existe mas está temporariamente anestesiado, como neve caindo em silêncio e cobrindo com seu manto imaculado os pesadelos e as misérias de uma cidade atlântica”.
Como quem revisita um passado longínquo, reproduzo aqui esse soneto,  publicado em 25 de Dezembro de 1958, pelo Jornal da Madeira, quando este não fora ainda capturado e manietado pelo poder político e no qual deixei muitos outros escritos, sempre que a sua direcção mos solicitava.
                   VEM, SENHOR!
O meu Natal!,,, Natal dum mundo em pranto,
Em ânsias lacrimais da luz do dia!
Quanto peito a sangrar de sede... ai quanto!
Farrapos de alma sempre em agonia

Ouço em minha alma a lúgubre elegia
Os trenos sepulcrais dum Campo Santo:
“Ai, fome!…Vida!…Paz!… Mais alegria!...”
Chagas de fel gritando em cada canto.

De olhos a arder em brasa, o corpo exangue,
As almas choram lágrimas de sangue
Que acendem rumos de oiro até ao Além.

Vem, Senhor, vem... que o mundo estala e grita!
Apaga a sede trágica, infinita
E abre em cada alma a Gruta de Belém!...


        13,Dez,17

         Martins Júnior

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

“MANIFESTO DA MADEIRA” – Um anteprojecto constitucional para uma Igreja Cristã

                                                                

         É práxis comum designar pelo nome do Autor ou da cidade que lhes deu origem determinados documentos de relevância capital para a história e para o mundo. Estão neste elenco a Magna Carta (1215) de “João Sem Terra”, as Teses de Wittenberg, (1517) o Tratado de Roma (1957), o de Maastricht (1992) e, mais perto de nós, o de Lisboa (2007). Estes e muitos outros textos significaram uma viragem decisiva não só no cenário em que foram produzidos mas, com maior caudal abrangente, nas gerações futuras, seja na vivência democrática, seja no âmbito estritamente religioso,
         Após a leitura de uma entrevista memorável publicada no “JM”, do Funchal, no dia 9 de Dezembro, não hesito em classificá-la como o Documento por excelência, a que chamarei de “Manifesto da Madeira” (2017). É seu Autor, na qualidade de entrevistado,  o já largamente conhecido, direi familiar aos madeirenses, Professor Doutor Padre Anselmo Borges. Pena é que tamanha dimensão filosófico-teológica e sociológica fique comprimida nos estreitos limites da ilha. Conforta-nos, no entanto, a certeza de que o seu pensamento já ganhou foros de cidadania nacional e internacional, através dos muitos livros, conferências, entrevistas que entraram, por direito próprio, na galeria dos intelectuais contemporâneos.
         Porque esta minha reflexão não tem por escopo final entronizar Anselmo Borges (nem ele precisa) quero tão-só mergulhar na profundidade, na coragem e, sobretudo, na visão cósmica, necessariamente holística, com que aborda as mais vastas questões e, ainda, assinalar a intuição maiêutica de integrar o leitor nesse largo universo que o olhar acutilante da jornalista Carla Ribeiro entendeu perscrutar-lhe.
         Desde a Constituição, dita Dogmática, da Igreja, a investigação histórica das suas estruturas e subsequentes desenvolvimentos, o Direito Canónico, até à evolução gradativa da entidade sociológica do “fenómeno cristão”, focalizado cirurgicamente no Vaticano e no Papa Francisco, tudo vem aberto na entrevista, ali está o inventário completo de tudo quanto sobre Igreja e Religião, Ciência e Fé alguém queira saber, crente ou não crente. E se acaso houver quem fique perturbado pela transparência corajosa (alguns chamarão ‘escandalosa’) com que ele enfrenta os problemas e denuncia os desvios hierárquicos, uma evidência se impõe: O seu programa não tem outro horizonte senão o regresso às origens, às fontes límpidas e suculentas do Evangelho de Cristo. Tal qual como Francisco Papa, a quem define com esta tão linear quanto eloquente identidade: “É um Papa cristãos”!
         Daí, a sua coragem – fruto de uma convicção amadurecida e, por vezes, sofrida.  Olhos nos olhos e palavra liberta, nunca dúbia nunca empastelada – eis Anselmo Borges em tamanho natural. Vi-o e confirmei-o quando, no Festival do Funchal, foi convidado para apresentar o livro “A Vagina”, da escritora americana Naomi Wolf. E com que dignidade, eloquência e superioridade o fez, aplaudido por todo o Teatro!
Por isso, não se esconde por detrás das cortinas sedosas da hierarquia, antes pelo contrário, acentua que a “grande preocupação do Papa é  converter em cristãos os cardeais e os bispos que o não são”. E, com a mesma frontalidade, mas cordialmente, observar esta crua realidade: “Há padres novos que continuam conservadores”. Anselmo Borges sabe do que fala. E sente a sua responsabilidade como Professor e Educador das futuras gerações. Não pode titubear nem resvalar para o “crime dos que silenciam”. É que as religiões assentaram banca e supermercado que terão sempre clientes à porta. Por rituais atávicos, por medos e superstições, por interesses inconfessados. Anselmo Borges tem o  mandato imperativo de sanear as excrescências e restaurar a face íntegra da espiritualidade, da vocação transcendental do Homem. O que Hans Kung e o falecido Cardeal Martini, entre outros grandes teólogos, representam na Europa e no Mundo, Anselmo Borges e, com ele, Bento Domingues incarnam em Portugal.
Perdoar-me-á o facto de ter chamado à sua entrevista “Manifesto”, que bem merecia ser publicado em volume autónomo.  Mas outro sinónimo não acho para classificar essa  profética mensagem, em formato jornalístico – Manifesto da Madeira - a qual considero um seguro Anteprojecto para uma verdadeira Constituição da Igreja de Cristo. Na esteira de João Baptista, o Precursor! Em uníssono com Francisco Papa!

  11.Dez.17
Martins Júnior
            
        

           

sábado, 9 de dezembro de 2017

MITOS E SOMBRAS À VOLTA DE UMA MULHER, A MAIOR!

                                              
Calculo a sensaboria com que  muitos aceitarão este meu produto de fim de semana. Ou talvez nem o aceitarão, pois que traz um rótulo enfadonho, embora ‘perfumado’ pelo bolor  dos mitos religiosos que se colam inconscientemente aos indivíduos e às sucessivas gerações. Faço-o porque estou entre dois dias feriados e consagrados. Faço-o também porque sei distinguir o que é magia e sonho daquilo que é mito redutor de factos e personalidades. Faço-o, ainda, porque o mito balança entre o 1 e o 8 de Dezembro. Poucos parágrafos bastarão.
         Primeiro: dizem os livros que os conjurados e, com eles, D. João IV atribuíram  à “Senhora da Conceição” o sucesso da ‘Restauração’ de 1640 e, por isso,  consagraram-na ‘Rainha e Padroeira de Portugal”, inclusive com o direito exclusivo de, só ela e não o monarca, passar a usar a coroa do Império. Primeiro mito, herdado já desde 1385 em agradecimento da vitória de Aljubarrota, com a agravante herética de colocar Maria, Mãe Cristo, ao mesmo nível da ‘padeira’ que matou sete castelhanos com uma pazada. Sempre o mesmo instinto de endossar aos deuses as escaramuças e guerras que os homens fabricam!
Segundo: desde a infância tenho ouvido que a nomenclatura ‘Senhora da Conceição’ significa que uma mulher – Maria – foi concebida e isenta do “pecado original”, isto é, foi a única que escapou à condenação inelutável por um crime que todo o bebé carrega aos ombros pelo facto de vir ao mundo… Esse crime – aleatório, sem conteúdo nem tipificação definida -  quem o cometeu foi Adão, levado pela Eva, o qual marcou como um ferrete cruel toda a criança recém-nascida. Até ao fim dos tempos será assim. Quem poderá suportar esta tremenda difamação, só de per si suficiente para instaurar um processo de injúria junto do Ministério Público!... Aqui, o mito atinge proporções dantescas. Para ser condenado logo que sai da barriga da mãe, melhor seria então não ter nascido...
Terceiro: isento de ‘pecado original’ é privilégio que torna o indivíduo imune ao erro e à deficiência, particularmente na área dos comportamentos e atitudes. Conclusão: Maria foi a mulher formatada para ser perfeita, dotada da ‘bossa craniana’ que lhe vedava o acesso a qualquer solicitação negativa. Por outras palavras, mesma que quisesse, ela não podia errar. E o mito chega agora ao cúmulo de considerar Maria como um autómato, quase um robot matematicamente predeterminado, enfim, Maria, regida pelo instinto, como as abelhas perfeccionistas que, desde o princípio do mundo, constroem infalivelmente o génio de um  favo de mel… Em sendo assim, conclui-se que a grande Mulher, mãe do “Homem mais Inteligente da História” (Augusto Cury), nenhum mérito teria por ser Santa, Perfeita, Imaculada Conceição… É implacável  a lógica do erro!
Quarto: todas as eventuais manifestações negativas do ‘pecado original’  (e são patentes, até  nas crianças, as deficiências inatas, a vários níveis) só têm um nome e uma fonte: a genética. Por desconhecerem, à época, as leis científicas da hereditariedade, os teólogos de então, com Santo Agostinho de Hipona à cabeça, recorreram a uma categoria ‘extraterrestre’, reveladora do castigo divino e a que chamaram o dito cujo nome. E, em vez de apelarem à autonomia do ser humanos, às suas virtualidades dominadoras e libertadoras, jogaram o problema para um ‘estádio’ superior – a teoria do ‘pecado original’. A ciência destruiu o mito de séculos. O Homem assume-se herdeiro de um processo dinâmico em que os genes de outrora vivem com ele. Dele depende a sublimação, a construção do monumento que traz virtualmente dentro de si. Neste entendimento, têm mais valor os que lutam pela perfeição holística do ser humano, como foi a autêntica Maria de Nazaré,  do que os que, segundo o mito,  nasceram robotizados, milimetricamente formatados, sem hipótese de errar.
Só há caminho fora do mito!

09.Dez.17
Martins Júnior
  






quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

JÁ NÃO HÁ GENTE DESSA!

                                      

Foi o contraste dos dias que me fez mudar de direcção no alinhamento destes momentos de diálogo implícito, ao cair da noite.
Assistimos todos e assistiu todo o mundo, estupefacto e tragicamente expectante, perante um mastodonte humanóide vomitando, de olhos vendados, barris de pólvora  sobre o tão retalhado e esmagado Oriente: “Vou mudar a Embaixada dos EUA, de Telavive para Jerusalém”.  O planeta estremeceu de espanto e horror na visão do inferno feito de labaredas de sangue e ossadas que julgávamos socialmente extintas. Impantes de orgulho sádico, só os judeus de Nova York, magnatas da finança americana.
Do outro lado do hemisfério, uma voz se ergueu. Foi a primeira a rasgar os ares da manhã de ontem para protestar, com a autoridade ético-política que lhe assiste, contra tamanha e selvática maldição. Veio de Roma e foi a voz de Francisco Papa que, intrepidamente, reafirmou a tríplice dimensão da “Cidade Santa” de Jerusalém, onde o Nazareno foi assassinado, de braços abertos, para significar a comum universalidade etno-político-religiosa dos humanos, representados nas três credos:  judeus,  cristãos e  muçulmanos. Assim falou Francisco, preocupado e angustiado, acentuando: ”Não me posso calar”. Que testemunho de coragem e autenticidade, tão diferente de outros titulares de uma Igreja, tantas vezes cobarde e colaboracionista!
Nem de propósito! Neste dia 7 de Dezembro, evoca-se a memória de um grande líder religioso, do século IV, d.C.. Ambrósio, de seu nome, era arcebispo da, já então famosa, cidade de  Milão. Era o tempo em que, após o decreto imperial de Constantino Magno, os cristãos ganharam liberdade de culto. Os Imperadores Romanos passaram de perseguidores a protectores da Igreja e tinham assento privilegiado nas basílicas recém-construídas. Ao tempo de Ambrósio, era soberano o Imperador Teodósio, assíduo frequentador da catedral de Milão.
 Algo aconteceu que veio alterar esta mútua cordialidade entre os dois. Teodósio mandou invadir e saquear uma pobre população de 7.000 habitantes de Tessalónica. Ambrósio ficou tão indignado que, no domingo seguinte, quando o Imperador Teodósio e sua comitiva se preparavam para entrar, como de costume, na catedral, o arcebispo correu à porta do templo e, ostensivamente barrou-lhe a passagem. Mais: obrigou-o a penitenciar-se perante a população e sentenciou-o a caminhar durante meses sobre as montanhas geladas dos Alpes, como condição prévia para poder reentrar na catedral de Milão. Eminente lição, que ficou impressa na história, em homenagem à Paz, contra os promotores das guerras! Imortalizou-a o pintor seiscentista Antoon van Dyck.
                                                  

Titulei este nosso encontro de uma forma, talvez demasiado impressiva, repetindo  um ditado popular: “JÁ NÃO HÁ GENTE DESSA”. É que, compulsando as páginas de outrora, deparamo-nos com uma Igreja colaboracionista, ‘edificantemente’ calada, perante atrocidades de governos opressores de populações indefesas. Não vou mais longe: recordo as guerras coloniais, em que a Igreja oferecia os seus serviços e até obrigava os padres a integrar-se nos batalhões do exército, promovendo-os a capelães militares. Mais perto, porém,  não esqueço uma Igreja diocesana madeirense que, conluiada com o governo, consentiu que  um efectivo de 70 polícias ocupasse um pobre templo (foi na Ribeira Seca, em 1985) durante 18 dias e 18 noites.
Hoje, porém, emendo o título. Faço-o, perante a atitude de Francisco Papa face à loucura irresponsável de Trump. E já não é a primeira vez. O facto de o ter recebido no Vaticano, em visita protocolar, não o  impediu de censurar o comportamento ditatorial do presidente americano, nestes termos: “Trump não é cristão”.
Ambrósio e Francisco: separados por 17 séculos de distância temporal, estão juntos no mesmo tronco evangélico – firmes e corajosos: “Felizes os que têm fome e sede de justiça… Felizes os obreiros da Paz”. (Mt.22,37-40)  
         Afinal, AINDA HÁ GENTE DESSA !!!

         07.Dez.17

Martins Júnior

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

“NASCEU-VOS UM MENINO”… COM 80 ANOS DE IDADE!

                                                     

Tivera eu o timbre altissonante de um Arcanjo e romperia pressuroso por essas montanhas além bradar ao mundo inteiro a Grande Nova de Belém:: “NASCEU-VOS UM MENINO”. Não apenas aos guardadores de rebanhos, mas a todos os homens e mulheres de “boa vontade”! Também aos de má vontade, aos cegos e sonâmbulos, aos reis e aos párias: “NASCEU-VOS UM MENINO”! E com esta notícia responderia ao anseio latente de toda a terra e de quantos a povoam, porque na decrepitude de um mundo caduco e vazio de esperança, nada mais reconfortante e promissor do que um berço de criança para renovar a face da terra.
E, para espanto de toda a gente, acrescentaria: “Ele vem do ‘fim do mundo’ e tem 80 anos! Aquele, por quem tanto esperais, já está chegando, já chegou, está aí no meio de vós”!
Mas já que não sou Arcanjo Mensageiro nem tenho a sua voz potente, eis que nos visita alguém que vem abrir a cortina desta Nova Belém que habitamos, para anunciar o Menino de 80 anos que vem restituir a alegria do amor e o abraço entre as nações.
Quero referir-me à presença do Prof.Dr.Pe. Anselmo Borges que, na tarde de hoje, deu a conhecer a professores e alunos da Universidade da Madeira a sua mais recente obra . “FRANCISCO – DESAFIOS À IGREJA E AO MUNDO”. Do quanto se ouviu e do muito mais que se poderá ver nas páginas deste precioso volume, fica-nos a sensação  que, tal como os antigos esperavam um Libertador,  hoje  é de Jorge Bergoglio - Francisco Papa – que o mundo tanto espera e precisa. A enciclopédia de saberes e vivências está aberta diante dos nossos olhos. Nenhum outro líder ético-político se apresentou ao mundo com um programa tão pleno e estruturado que, como já antes reconhecera, Teilhard de Chardin, radica na natureza e atravessa todas as estrias da sociedade e com elas se compromete para transformá-las e sublimá-las na grande Ogiva do Espírito. Nada mais, nada menos que o Programa evangélico de J:Cristo – o que faz o Autor  definir a originalidade diferenciadora do Papa nesta tão sintética quanto avassaladora, quase ‘escandalosa’ expressão: “FRANCISCO É UM PAPA CRISTÃO”.
Todos os problemas actuais, até mesmo as chamadas questões fracturantes, estão plasmadas nestas 439 páginas, a forma directa e pessoal como Francisco Papa as enfrenta, as simpatias do mundo e, paradoxalmente,  os rancores da oposição interna da Cúria Vaticana, tudo ali está, podendo considerar-se esta obra como a Summa mais conseguida que ultimamente alguém tenha produzido sobre o Papa Francisco, o que, aliás, vem reflectido na Conclusão: “Francisco, Um Quase-Testamento”. Para nosso gáudio e a convite do Município de Machico, O Prof.Dr. Pe. Anselmo Borges dar-nos-á a honra de apresentar aos nossos conterrâneos uma nova versão do seu Livro. Será amanhã, quarta-feira, pelas 18,30 H, no Solar do Ribeirinho.
Porque se aproxima a quadra natalícia, optei hoje pelo pregão do Arcanjo aos pastores de Belém, expresso no título, chamando a atenção para a página 289 do Livro: “NATAL DA DIGNIDADE HUMANA”.
Mas, em nota de roda.pé. acrescento o que já acentuei noutras crónicas: Por muito que queira, o Papa Francisco não pode fazer tudo sozinho. Para renovar ou fazer renascer a face da terra, ele precisa de nós, Foi o que ele mesmo, na tomada de posse, comovidamente pediu: “Rezem por mim”. Rezem, Mexam-se, Ajam comigo!

05.Dez.17

Martins Júnior  

domingo, 3 de dezembro de 2017

“DIVERTISSEMENT” DE NOEL

                                                                 

              Porque é domingo e porque os sons e as luzes que nos vão cercando  exalam  o cheiro das tangerinas da Festa, ousei titular esta mensagem com o original francês  - “divertissement” – nome que muitos compositores deram aos trechos musicais, a um tempo ligeiros e inspiradores. É exactamente este tom quase jocoso, ma non tropo, que pretendo dar a este apontamento sobre o Natal, para responder a uma questão que tem tanto de ingénua como de profundo: Será preciso pôr Natal neste arraial de euforia colectiva em que nos mergulhamos “de cabeça, tronco e membros”?  
         Só tem dois andamentos esta breve fuga ao grande circo da quadra  divertida com que nos brinda a presente estação.  
O primeiro poderia formulá-lo nesta hipótese imaginativa. Quem, de fora, aprecia este frenético corrupio de magotes ambulantes de um lado para outro, quem se envolve nesta bebedeira consumista de ‘chineses’, lojas ‘continente’ e ‘pingo-doce’, quem se deslumbra com as árvores gigantes iluminadas ou os artísticos dosséis luminosos que perpassam sobre as nossas cabeças ao percorrermos  a cidade, quem ‘se perde’ neste reboliço global e depois tem um tempinho para sentar-se num banco da placa central não pode deixar de perguntar-se a si próprio: “Que falta faz aqui o Presépio de Belém? Com ou sem o Menino, os santinhos, mais a vaca e o burrinho, alguém deixaria de pegar no carrocel ou  provar a ‘bela poncha’ , ou vai se quer fechar os olhos ao incêndio celeste da noite de São Silvestre? De modo algum. Mesmo sem a gruta de Belém, toda a multidão explode de emoção: Que Grande Festa, Maravilha, Extraordinário!
Segundo andamento: Imaginemos, ao invés, que no centro da cidade erguer-se-ia o Presépio, um palheiro-pardieiro, com uma criança lá dentro, recém-nascida,  rejeitada em todas as maternidades, pensões e hotéis da mesma cidade. Nos olhitos da criança um sonho:  mudar as estruturas caducas da humanidade. Mas na capital da ilha pouco mais havia de espectacular. Que diriam os residentes e os turistas: “Que vergonha de Natal é este, que festa é uma, vamo-nos já daqui para fora”!
No entanto, este é que seria o verdadeiro Natal, o facto histórico autêntico, o original, o protótipo, do qual as cidades e as aldeias de todos os tempos fizeram fotocópias. E desfiguraram-no de tal maneira, que hoje se torna irreconhecível, ausente, despedido e até incómodo numa sociedade moderna, civilizada..
Deste breve entretenimento não apresentarei quaisquer conclusões pessoais. Se alguém tiver a coragem de acompanhar-me nesta viagem de ‘dois andamentos’, fica desde já convidado a formular propostas de conclusão. Ainda assim, em jeito de roda-pé, apeteceria dizer: Podem tirar o Menino e a Mãe e o bovino e o asinino da gruta, que, mesmo assim, a Festa continua, os supermercados despejam contentores nas casas, as bandas alargam o perímetro da avenida, os carrocéis vão aos ares e vêm… Enfim, o que nós queremos é a cretina dupla panem et circenses (pão e jogos, ou circos e festas) como o povo miúdo de há dois e três séculos. Com ou sem Menino.
Porque este é um “divertissement” de Natal não serão pessimistas as conclusões. Pelo contrário, divertidas. Como esta: Liga-se mais à essência das broas e dos licores, dos foguetes e das feiras, enfim, à essência do vinho do que à Essência do Natal. Da minha parte, transitarei por todas, mas só deter-me-ei nesta última, a Essência do Natal.

03.Dez.17

Martins Júnior

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

“INDEPENDÊNCIA OU MORTE”: UM DIREITO CARREGADO DE DEVERES - Na evocação do 1º de Dezembro

                                                          

Quer se lhe chame Independência. Autonomia, Emancipação ou Autodeterminação, o seu gosto e o seu cheiro mexem connosco, galvanizam as baterias constitutivas do nosso sistema neuro-vegetativo e mobilizam visceralmente todo o nosso psiquismo. Aliás, é todo o ser vivo que participa desta energia oculta e renovadora, desde a crisálida que se abre para dar voo à borboleta até ao fruto que se liberta da flor que lhe serviu de berço. No composto humano, a metamorfose é a linha recta que define a inaudita epopeia do crescimento, com as consequências e erupções, tantas vezes dramáticas e preocupantes, sobretudo  ao chegar à puberdade e, daí, à idade adulta. Autonomizar-se, emancipar-se é um direito irrenunciável, porque inscrito no mais íntimo do nosso ser.
Não admira, pois, que o mesmo processo evolutivo transborde para o “Homem-em-Situação”, isto é, para a vida societária, seja a mais  pequena comunidade, seja o mais extenso território. Mas é precisamente aqui, nesta encruzilhada bio-psico-sociológica que confluem e se debatem antonomias e paradoxos indissociáveis: de um lado, a tendência genética da auto-condução (Independência ou Autonomia) e, do outro, a indeclinável necessidade de pertencer a um corpo comum,  um agregado estável e seguro que nos transmita confiança e mútua produtividade, condição indispensável à sobrevivência individual e colectiva.
E surge a grande questão – quando, como e porquê romper com a raiz da árvore a que pertencemos para fazer germinar, por conta própria, o ramo verde que nós somos?... É a pergunta que se impõe a quem se decide executar ou, mesmo, analisar todo e qualquer movimento revolucionário, chamado Independência, Autonomia ou Secessão. Suponho e mantenho que é da resposta a esta questão que se podem classificar de justas ou injustas, consequentes ou contraditórias, verdadeiras ou populistas e demagógicas as revoluções independentistas. Na história, não são assim tão raros os episódios em que rebeliões aparentemente heróicas estatelaram-se num logro irreparável para os povos que tudo deram para a causa.
Justas as lutas contra os regimes totalitários, esclavagistas. Consequentes as oposições aos sistemas ideologicamente  dogmáticos e opressivos. Nobres e produtivas as reivindicações sindicais contra a exploração do capital sobre o trabalho, desde que os seus líderes não sejam robots de centralismos partidários, manipuladores de massas.
Não há lugar hoje  para passar no crivo da lógica humanizante os diversos embates político-sociais conducentes à emancipação dos povos, ao longo da história, nem mesmo os do tempo presente. E não serão precisos demorados estudos de análise para concluirmos que, à sombra e a pretexto de campanudas autonomias, o resultado foi a instauração de outras formas de controle e ditadura, iguais ou piores que aquelas combatidas por oportunistas prestidigitadores disfarçados de autonomistas e campeões do independentismo. Eles são tantos, aos molhos. Aqui mesmo, entre nós. Sempre afirmei que os auto-cognominados conquistadores da Autonomia da Madeira, “pós-25 de Abril”, outros instintos não tiveram senão instaurar, primeiro capciosamente e depois despudoradamente, a ditadura do “24 de Abril”, da qual foram oriundos e beneficiários privilegiados. Similarmente, em certos países africanos – e até na Europa do segundo quartel do século XX – os corifeus de certos clãs e  tribos demonstraram a olho nu que o seu ardor “patriótico e revolucionário” era o de substituir-se no trono aos anteriores dominadores, usurpando poderes e ultrapassando-os nas pilhagens dos recursos existentes.
Saúdo os valorosos homens que protagonizaram a luta do povo português explorado por um soberano estrangeiro. É sintomático constatar que, em 1640, foi a Catalunha que, em guerra contra o centralismo imperialista de Espanha, contribuiu indirectamente  para a vitória da Restauração de Portugal.
No entanto, fica o repto: Não é independentista quem quer. Aos fautores e líderes dos movimentos autonomistas exige-se uma entrega total e  isenta, cuja missão só termina quando vir o seu Povo autonomamente libertado. Só esses é que têm direito a proclamar “Independência ou Morte”!.
Em síntese, para os esforços quotidianos em que cada um de nós luta pela sua justa afirmação de personalidade  emancipada, deverá ficar escrita no portão do campo de batalha esta memorável palavra-de-campanha: “A minha independência acaba quando começa a independência do outro”.

01.Dez.17
Martins Júnior