sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

FREI BENTO DOMINGUES E PROF. LABORINHO LÚCIO NA TRIBUNA DOS MAIORES



                                         
           
Memorável o dia 15 de Fevereiro de 2019!
Correndo o risco de parecer unilateral, ouso confessar publicamente que todos os temas previamente agendados para hoje teriam de aguardar e dar lugar à boa  notícia desta sexta-feira. Descreve-se-a em poucas palavras, tal como assim se desenham os grandes fenómenos.
O “Largo do Paço”, em Braga, vestiu-se de gala para fazer escolta de honra à passagem do colégio de doutores da Universidade do Minho. Por sua vez, o desfile solene de tão distinto elenco perfilou-se para aclamar e receber no seu “Olimpo”  dois novos doutorados. Honoris Causa-  Quem? …  Precisamente Álvaro Laborinho Lúcio, jurista, consultor, Professor de Direito e antigo Ministro de Portugal. O outro laureado foi Bento Domingues, dominicano, teólogo, Professor, biblista, investigador, colunista. Mensageiro e Doador da mais alta distinção foi o “Magnífico Reitor”, Prof. Rui Vieira de Castro.
A ampla e vetusta “Aula Magna” da Reitoria Bracarense ressumou no granito secular das suas paredes fragrâncias de juventude, revérberos de lucidez, ciência, filosofia, teologia, entrelaçados com a poesia esvoaçante dos sons haendelianos que a Orquestra de Câmara e o Orfeão da Universidade do Minho projectaram sobre os incontáveis participantes de tão nobre evento.
Se notável foi a Laudatio introdutória dos respectivos “Padrinhos” - os  Catedráticos Licínio C. Lima e Moisés de Lemos Martins – não menos imponente e reconfortante foi o Agradecimento dos novos Doutorados, duas peças de preciosos testemunhos históricos e, sobretudo, de agulhas brilhantes perfurando os nebulosos tempos futuros. Vale a pena ler e interiorizar a mensagem dos dois oradores, pelo que trazem de conhecimento, investigação, saber experiencial e perspectiva no domínio da educação holística do indivíduo, a começar pelos bancos da escola.
Sensibilizado pela quase magia sonora e literária do estilo do Doutor Laborinho Lúcio (a que já de há muito me habituei, especialmente nas suas deslocações à Madeira) permito-me, no entanto, trazer à ribalta da ilha o discurso coloquial e comovente, mas ao mesmo tempo corajoso e dinâmico de Doutor Frei Bento Domingues. Primeiro, pelo agradecimento que dirigiu “a todas as pessoas e instituições que o desassossegaram ao longo da vida”. É poderosa e decisiva (daí, merecedora da nossa maior gratidão) a mão que nos desperta da letargia acomodatícia e pantanosa em que somos tentados a resvalar. Segundo motivo desta referência: a simplicidade chã de Bento Domingues que não faz diferença entre o palco de uma cátedra académica e a mesa de uma aula suburbana ou o altar de uma aldeia fortemente marcada pela ruralidade profunda.
Testemunhas desta transparente agilidade dispositiva somos nós, madeirenses: o Padre José Luís Rodrigues que já  levou Frei Bento Domingues às suas paróquias no Funchal e, na mesma linha, o humilde povo trabalhador da Ribeira Seca, Machico, que foi já várias vezes privilegiado pelo ensino e pela pedagogia cívica e teológica do ilustre homenageado. No mesmo agradecimento e pela mesma disponibilidade amiga e sincera  envolvemos um outro Professor da Universidade de Coimbra, o Prof. Doutor Padre Anselmo Borges, que também marcou hoje  distinta presença na cerimónia de Braga.
Pela minha parte, valeu a pena ter dedicado toda esta sexta-feira ao “Largo do Paço”, por tudo e, ainda mais, pela sedução anímica e transformadora que nos incutiram no espírito os novos Doutores da Universidade do Minho. Está escrito no chão da vida:  só crescemos na mesma medida em que nos distribuímos aos outros. Inteiramente. Desinteressadamente!

15.Fev.19
Martins Júnior    


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

SABEIS QUEM É ESTE HOMEM?… CERTEZA?...


                                                              

Outros títulos e outras legendas achei para esta imagem. Muitas. Intermináveis. Mas todas – legendas e títulos – iriam dar à mesma incógnita: EM QUEM ACREDITAR?... Na história ou nas estórias?...
Enquanto vos deixo tempo e espaço para opinar, fico preso no labirinto da dúvida cartesiana, após o que vi e ouvi no Colégio dos Jesuítas.
Compartilhar convosco significa optar por uma das faces do dilema: ou evadir-me da prisão ou mergulhar na noite, definitivamente.
Estamos juntos até ao próximo dia ímpar.

13.Fev.19
Martins Júnior

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

VIAGEM TRIANGULAR AO REDOR DE UM DIA


                                                   

Quem, por simpática deferência, me acompanha no trilho dos dias ímpares não esperará certamente contínuas doses compactas ou esboços de teses pré-elaboradas. Por isso, hoje preferi deambular à volta do 11 de Fevereiro, com o mesmo  à-vontade com que Xavier de Maistre, em 1794,  escreveu a Viagem à Volta do Meu Quarto.
         Cada dia traz a sua graça e sua estatura singular. Preciso é vê-las à nossa beira, na palma da nossa mão, embutidas dentro do mais íntimo de nós mesmos. Como a poesia que nos veste a toda a hora e nem sempre damos por ela.
Talvez levado pela reminiscência do eminente filósofo René Descartes que antes de morrer, precisamente em 11 de Fevereiro de 1650, nos deixou em testamento o famoso legado Cogito ergo Sum (Penso, logo Existo), talvez por isso encontrei neste 11 de Fevereiro o triângulo existencial em que todo o ser humano se movimenta. Nós também.
É hoje que em todo o mundo se presta atenção a quem está privado do precioso bem da saúde. É o Dia Mundial do Doente. Hoje, também,  a crença mariana, a partir da gruta de Lourdes, em França, desde 11 de Fevereiro de 1858, conhece a apoteose de um acontecimento cultuado e revisitado anualmente por 5 milhões de crentes de 140 países. Finalmente, é hoje que no Irão foi derrubado o regime de Reza Palevi e instaurada a República Islâmica, palco de tumultos e desavenças. Foi  em 11 de Fevereiro de 1979. Há 40 anos.
Doença. Crença. Desavença.
Basta assentar a cabeça no tripé cartesiano e logo concluímos que ‘todo o homem que vem a este mundo’ nasce num berço triangular onde infalivelmente cabem aquelas três dimensões. O segredo do sucesso está em, primeiro aceitá-las; depois transformá-las e, por fim, sublimá-las. Portadores natos da saúde (descontado o deficiente património hereditário) somos candidatos directamente eleitos à Doença. Encará-la frontalmente e acreditar na superação da mesma, pela ciência, pela motivação, pelo optimismo! Este é, a meu ver, o conteúdo mais eficaz de toda a Crença. Há quem prefira lançar-se no abismo a que chamamos fé, endossando para factores supraterrestres expectativas que, com esforço, por vezes titânico, dependeriam de nós. Será, porventura, uma opção in extremis, mas que na sua raiz terá de contar sempre com um suplemento volitivo inexcedível da nossa parte, ou seja, “esperar contra toda a esperança”.   
    Se a Doença é um conflito orgânico connosco próprios, outros embates mais densos advêm e arregimentam-se fora de nós. É então o reino da Desavença. Por muito que se a queira evitar, ela tentará infiltrar-se, per faz et per nefas, em tradução popular, por ter cão e por não ter cão. Nesta arena, só ganha quem enfrenta o obstáculo com a mesma perícia do hábil velejador que até sabe captar  o vento contrário para alcançar a meta vitoriosa. Tão difícil a arte de marear, quão sábia e generosa a ciência de dirimir conflitos! Referindo-se ao Irão, o jornalista de Le Monde, Louis Imbert, fala em caso de “revolução interminável” e conclui, em jeito de lamento: “Em 11 de Fevereiro, o país celebra os 40 anos da revolução que lhe outorgou a República Islâmica, mas devido às sanções americanas, o Irão não tem o coração na festa”. Até um dia!
                                                    

Dia esse que surgiu para Nelson Mandela. Foi também em 11 de Fevereiro. Ano 1990. Após 27 anos preso na cadeia de Victor Verser, província do Cabo, o Grande Lutador-Pacificador sai em liberdade para transformar a Doença em Saúde Social, a Crença em Certeza ganha a pulso e a Desavença em Abraço de povos e gerações.
   E com este Abraço final, termina também aqui a Viagem global à volta do 11 de Fevereiro de 2019. Todos os dias têm a sua graça e a sua estatura singular. Como a Poesia!
11.Fev.19
Martins Júnior

sábado, 9 de fevereiro de 2019

JESUS E A SUA “LISTA”


                                                            

Ai, o nosso juízo! – diz o povo na análise empírica, mas meticulosamente cirúrgica, de certas linhas desviantes do pensamento. E não se enganou o filósofo Montaigne quando, já no século XVI, classificou a nossa cabeça como a louca da casa, “la folle de la maison”.
Foi o que me aconteceu hoje. Estando eu em dia de sábado excogitando os textos que habitualmente se lêem aos crentes para daí extrair feixes de luz perene, eis que me achei caído, como Daniel profeta, na “cova dos leões” ou, como Ulisses, nas ondas revoltas “entre Cila e Caribdes”, em risco de ser devorado em terra ou engolido no mar, sem saber como escapar. No fim, ver-se-á o logro em que naturalmente tudo isto vai dar.
O texto a que me refiro tem a chancela de Lucas (5, 1-11) e de Mateus ($, 18-21, ambos testemunhas presenciais dos acontecimentos. O cenário é o mais aberto que se possa imaginar, transparente e sugestivo: uma praia, gente apinhada no ‘calhau’, canoas ancoradas perto da costa. Entre a multidão está um homem meão, rosto tisnado do sol da Palestina, trinta anos de idade.  Conversa com os conterrâneos (todos o conhecem) e, de seguida, tocado por um palpite que encontra eco em seu redor, pede aos pescadores que lhe dêem ‘boleia’ numa canoa. Já dentro dela, afasta-se um pouco, o suficiente para que o seu olhar abarque todo aquele maravilhoso anfiteatro humano. E começa a falar à multidão. Que fascínio e que beleza! Mais que romântico, ecológico, quase irreal: a catedral – a natureza; a abóbada – o céu azul: o alicerce – a terra e o mar num abraço aquático sem fim; o púlpito – uma canoa pobre, pão de pobres, balouçando suavemente à beira-lago. Entendam, pregadores purpurados, mitrados, rubicundos dos barrocos púlpitos, entendam e aprendam o poder e eficácia da verdadeira Oratória Sacra!... Por mim, juro que daria toda a minha vida só para estar  no meio daquela gente, sentado naquelas pedras como se fora o ‘calhau’ da minha baía, vendo e ouvindo o Irmão, o Doce Nazareno, “que seduzia as multidões”,  no dizer de Diego Fabri.
Estou quase a perder-me pelo caminho. Porque o “caso” de hoje é outro. Trata-se de acompanhar o espinhoso processo que o Nazareno utilizou para escolher  colaboradores. Tudo na sua vida são episódios singulares de um projecto maior: “transformar a face da terra”, purificar as mentalidades, corrigir as leis, sublimar os costumes, enfim, recolocar o Homem no seu legítimo pedestal primeiro. Numa palavra, dignificá-lo, o mesmo que dizer, salvá-lo. Plano utópico, gesta intangível, épica, diríamos que megalómana, se não fosse esse o maior sonho que a humanidade possa conceber!
Maiores, porém, que o sonho foram os obstáculos pré-determinados. À época, criar um movimento de âmbito sócio-religioso significava aquilo que hoje se chama partido político. Ao tentar fazê-lo, o líder Nazareno estava atentando contra os “partidos-seitas” vigentes: os fariseus, os saduceus, os zelotes, os herodianos, os samaritanos e, acima destes,  os todo-poderosos Sumos-Sacerdotes do Templo Judaico de Jerusalém, símbolo e sede da dinastia de David, sacerdote, profeta e rei. A quanto se atrevia o “filho do carpinteiro” de Nazaré!
Tarefa árdua, a inicial: pesquisar e descobrir gente credível, límpida de costumes, aceite pelos contemporâneos,  inquebrável diante dos adversários já organizados. Quantas as noites de insónia, de avanços e recuos, de esperanças mortas à nascença, de altas e baixas expectativas, teve o Mestre para formar (diríamos hoje) a “sua lista”. Para cúmulo, não tinha lugares, benesses ou prebendas para lhes prometer em troca da aceitação.
Como fazê-lo? Passou à acção. Foi ao terreno, acompanhou operários, camponeses e pescadores, vizinhos seus, amigos e novos simpatizantes. Os convites, fazia-os pessoalmente, cara-a-cara com os eventuais apoiantes. Mateus e Lucas não referem se levou alguma nega, mas é muito provável que tal tenha acontecido. Uma nota impressiva: os possíveis aderentes, surpreendia-os  quase sempre no próprio local de trabalho. Foi, precisamente, o caso de hoje. Depois de falar â multidão, sugeriu aos donos ou companheiros da lancha uma pesca no “Mar da Galileia”. Durante essa noite deve ter testado mais de perto a personalidade de cada um deles e, chegados a terra, endereçou-lhes directamente o desafio: “Vou fazer de vós pescadores de homens”. E logo viu o fruto gostoso de toda essa tarefa pessoal de análise e prospecção: “Eles imediatamente deixaram o barco e as redes e seguiram a Jesus”.
      Muito mais havia que aditar para compor o episódio de hoje e o quanto de autêntico e profundo nele se subentende. Deixo à livre interpretação de quem lê. Até porque não quero cair em covas de leões nem nas costas de Cilas ou Caribdes. Estão a aproximar-se, segundo a meteorogia sócio-política, as agitadas alterações climáticas que normalmente produzem as cobiçadas “listas” . E feitas as contas, os textos de Lucas e Mateus talvez possam proporcionar lições de excelente propedêutica, para bem dos responsáveis e de toda a sociedade.
Afinal, tinha razão Montaigne: “Notre tête – la folle de la maison”. Sem aviso prévio, o discorrer livremente levou-me até onde não contava chegar.

09.Fev.19
Martins Júnior



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

“MATEM O MENSAGEIRO”


                                                         

Hoje não estou em paz. E quem poderá estar?... Talvez os inquilinos da mansão dos mortos. Mas nem todos. Aqueles que doaram os verdes anos e os frutos maduros de uma vida  em prol de uma renovada primavera para o mundo de amanhã, esses também não têm paz, ao olhar o mundo com que sonharam e não viram. Ameaças entre os povos, convulsões territoriais, contorções fratricidas, corrupções premiadas, mensagens cifradas e mensageiros abatidos.
Quem poderá estar em paz?!... Até no silêncio acolhedor das alcovas domésticas rebentam furacões devoradores, cuja proporção ultrapassa o trágico furor dos esquadrões da morte. Segurança e paz, onde morais?
Remeto-me à solidão interior, onde o pensamento marulha inquieto como o mar que abala a falésia e traz-me vagas rolantes, redemoinhos de contradições que custam a engolir. Com elas, vem a jovem Serafita, do romance de Geoge Bernanos (Jounal dún Curé de campagne), figura de uma candura e sensibilidade supra-humanas, de uma virtude subtil, parca em palavras, mas impressiva nas atitudes, que o romancista resume nestes termos: Quando ela aparecia era como a luz da manhã que põe a nu os contornos que a noite esconde. A bondade da sua presença servia para reflectir-se nela o negrume das nossas maldades.
Há pessoas, na vida real, irmãs gémeas da jovem Serafita, de Bernanos. Uma palavra, um gesto bastam para, em contraste,  reflectir-se nelas a oculta imundície adjacente, tal a força anímica da sua mensagem.
Mensagem e mensageiro, duas ondas potestativas que batem na margem do meu solilóquio. E trazem aquela “frase batida”, que vem de muito longe – “Matem o Mensageiro” – desde os combates da barbárie até aos tempos de agora, como o demonstrou o jornalista Gary Webb, soberbamente interpretado pelo actor Jeremy Renner (2014). Estava então no fio da navalha o tráfico da droga de altos políticos americanos que, perante a divulgação na imprensa, elegeram o jornalista denunciante como único alvo a abater.
Em tempos que já lá vão,  João - o Baptista - denunciou Herodes. A João, sacaram-lhe a língua, degolaram-no. A Herodes, a corte manteve-o no trono. Até que caíram a corte, o trono e o entronizado.
Mas a vibrante língua de João, essa  ficou para sempre cada vez mais alta, eloquente, imaculada. E com isto, tento recuperar  a paz e a esperança nas futuras madrugadas.

07.Fev.19
Martins Júnior


terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

TODOS OS DIAS SÃO DELE… HÁ 411 ANOS !


                                                            

Fosse ele jesuíta ou franciscano, agnóstico ou ateu…Fosse diplomata   ou pária,  embaixador ou refugiado…Fosse ele “Imperador da Língua Portuguesa” ou escravo dela – pouco me interessaria nesta hora. Só sei  que vou ficar de vigília até que o sol rompa, na próxima madrugada, porque outro Sol Maior há-de abrir as cortinas daquele dia extenso que mede mais de quatrocentos anos!
Impossível voltar a folha do 5 para  o 6 de Fevereiro e  ficar indiferente. Impossível  esquecer Alguém que ilumina todo o mendo, mais intensamente  Portugal e Brasil, desde esse instante em que  pela mão de Maria de Azevedo, lisboeta, e de Cristóvão Vieira Ravasco, filho de pai alentejano e de mãe mulata, pisou chão português  um infante-gigante , de nome António.
Mais que todos os altos predicados com que possa colorir o seu dia, importa-me vê-lo hoje, global e  inteiro: a Torre de menagem do passado, o Referencial do presente, o Profeta do futuro! Quero vê-lo, afrontando de rosto aberto os abutres jesuítas da Inquisição. Vê-lo diante de reis e delatores, defendendo a liberdade religiosa (há quatro séculos!) contra a perseguição aos judeus e “cristãos novos” sentenciados e expulsos de Portugal. Quero vê-lo, ainda, no escaldante e mísero Nordeste do Brasil, bradando vigorosamente pelos direitos do índios e  negros brasileiros. E vê-lo, também, ele mesmo, atravessando numa piroga o rio Amazonas para valer aos pobres indígenas e, por via disso, ser expulso do Maranhão pelos senhorios fazendeiros, todos portugueses,  que escravizavam as populações.
Ele, “O Imperador da Língua Portuguesa” (digo-o agora com Fernando Pessoa) percorrendo o sertão, matando a sede em águas insalubres, deitado numa enxerga de capim, trincando a mandioca e as  tâmaras silvestres, veste picada esfarrapada pelos atritos da selva, enfim, um ‘índio” feito entre os índios nordestinos. E, mais que tudo, a Voz, aquela voz que na mata imensa brilhava e soava mais alto que nos púlpitos da Capela Real  da capital do Império, onde fora pregador régio. Apetece-me deixar de lado o teclado e ficar assim, absorto, contemplativo (eu que já experimentei a mesma geografia agreste da floresta moçambicana) e  imaginar, fazer repercutir dentro de mim o timbre metálico e doce dos indígenas quando se lhe dirigiam, em dialecto tupi,  com a expressão Paíaçu – “Grande Pai ou Grande Padre”.
Enquanto aguardo a manhã, recorto e memorizo, em síntese, dois rasgos de eloquência e coragem:
Contra a realeza e a nobreza brasonada, o “Sermão do Bom Ladrão”, na famosa igreja da Misericórdia, em Lisboa, em que o Pregador Régio equipara aos ladrões os próprios  monarcas, príncipes e ministros: “Antigamente eram os ladrões que pendiam do alto das cruzes.  Hoje, são as cruzes que pendem do peito dos ladrões”.
Contra os titulares das “Misericórdias”, em São Luís do Maranhão. que só serviam para mandar enterrar os mortos, pois não havia nem hospital nem enfermaria: “Bom seria não haver igreja e haver hospital. Mas se não houver outro modo, converta-se esta igreja em hospital, que Deus ficará mui contente disso”.
Chamo aqui Eça de Queirós, quando se referia ao seu colega do “Grupo dos Cinco”, Antero de Quental,  e cognominava-o de “Santo Antero”, porque este tinha já afirmado que “na grande marcha da história, o Santo é aquele que vai à frente”.  Na perspectiva de Antero, o conceito de “Santo” ultrapassava a visão pietista vigente e envolvia o universo da perfeição omnímoda do ser humano.
Na mesma altitude de pensamento, o Padre António Vieira merece, com absoluto mérito, o título de “Santo”. Ainda ninguém propôs ao Vaticano tal iniciativa. No entanto – espantoso! - a Igreja Anglicana Brasileira estabeleceu o dia 18 de Julho (data da sua morte, em 1497) como a Festa Litúrgica do Santo Padre António Vieira”! Belo e justo testemunho, sobretudo vindo de onde veio.
Em contraste, imensa, inconsolável será a mágoa do Grande Missionário do sertão nordestino, ao constatar  que todos os seus esforços, os seus confrontos, o seu martírio de há 400 anos encontraram no século XXI  a total negação nos programas e leis draconianas de exclusão e racismo produzidos em solo brasileiro. Oh, se voltasses de novo!...

   05.Fev.19
Martins Júnior



domingo, 3 de fevereiro de 2019

CONTRA POPULISMOS E SEBASTIANISMOS – O FILHO DO CARPINTEIRO


                                                               

Aos domingos, passo por entre as bancas e os mercados das ocorrências de toda a espécie. Passo-os e ultrapasso-os, para apenas debruçar-me na barra de um miradouro alto que me traz no horizonte paisagens milenares de ontem, de hoje e de amanhã. Fica esse miradouro no dentro mais dentro de mim mesmo e a linha desse horizonte tem o tamanho desse Livro sem medida que dá pelo nome de Biografia do Nazareno, vulgo dicto, Evangelho.  Lido e treslido em todo o mundo, nem sempre se lhe absorvemos a largueza e a altitude.
Hoje, porém, cortei as amarras que me prendem ao rotineiro corrico das horas e voei até onde  nos é dado abarcar o formigueiro humanizado (e tantas vezes inumano) que reveste o planeta. E aí descubro a inexorável sentença do escritor bíblico, de há milhares de anos: Nihil sub sole novi – nada de novo acontece debaixo do sol, diverso do que já antes acontecera.
O caso passou-se numa sinagoga de Judá. O jovem Cristo toma assento na assembleia da sua cidade, Nazaré, pede a palavra, esclarece os presentes, discorre com realismo, pertinência e elegância do verbo, de tal forma que os seus conterrâneos ficam extasiados e tributam-lhe manifestamente concordância e simpatia. Os  “donos do Templo”, os fariseus, escribas, enfim, os detentores do poder ideológico e financeiro, furiosos com os conteúdos da mensagem transmitida ao povo - e à falta de argumentos credíveis – lançam a peçonha deste repto: “Então, não sabem quem é esse sujeito? Ele é o filho do José, o carpinteiro. E ainda vão dar-lhe crédito? Olhem para a família dele: o pai, a mãe, os irmãos,  as irmãs”… A raiva rompeu todos os limites, ao ponto de arrastarem o Jovem até ao alto de um pináculo para o atirarem de lá abaixo. Sem sucesso, porém.
É evidente, aqui, o confronto entre duas lideranças e respectivos perfis. De um lado, um jovem operário, filho de operário, vizinho dos seus conterrâneos, com os quais mantém laços de proximidade diária, transparente no trato, companheiro indiferenciado no traje,  na rua, na praia, na ementa familiar, enfim, um nazareno entre os nazarenos. Mas arrasta multidões. Com que armas? Pela força do espírito, pela integridade do carácter, pela firmeza das convicções e, acima de tudo, pelo Amor à sua terra e ao seu Povo. Este o perfil do líder Cristo.
Do outro lado, o líder vem do obscuro, invisível, numa manhã de nevoeiro, enigmático, torna-se rei, presidente, rico, nobre, devoto e crente, fala sempre em Deus, jura em nome de Deus. Ostenta bondade e democracia, que depressa substitui por ameaças, armas, arrogância, prisões. Assim se apresentam os líderes, logo transformados em ditadores. Qualquer cidadão conhece os seus nomes: os do passado e os do presente.
Tal como há milhares de anos, o confronto é o mesmo e é a mesma  a escolha: entre o líder natural ou o líder pré-fabricado pela classe dominante, pelo exército, pelo capital, pela ganância, pelos interesses  e pela exclusão?... O líder do Povo ou o líder populista?... O educador popular, transparente,  desprendido e livre ou o príncipe sebastianista, impostor, de sorrisos-fantasmas e promessas delirantes?...
O líder, nascido no mesmo berço do Povo, é o “pastor cujo traje tem o cheiro às ovelhas do estábulo”. Sem pretender sacralizar-se carismático, possui nos cromossomas o carisma nato, sem disfarce. O líder fantasma é o ‘robot’ mecanizado, estereotipado, “pele de cordeiro e goela  de lobo devorador”. Ele infiltra-se e nutre-se dos subterrâneos imundos das instituições, das máfias, dos bancos, dos paióis e, em grande cotação, das religiões.
Só o Povo soberano e esclarecido é que poderá expurgar do seu seio as lideranças populisto-sebastianistas e, em seu lugar, colocar aqueles e aquelas que conhece, que sabe terem calcorreado e rasgado os pés nos mesmos caminhos pedregosos e que comeram do “mesmo pão que o diabo massou”. Os que trazem no ADN os genes do “Filho do carpinteiro”!

03.Fev.19
Martins Júnior