quinta-feira, 13 de outubro de 2022

15 DE AGOSTO E 13 DE OUTUBRO – MADEIRA E VENEZUELA, A MESMA SENHORA, AS MESMAS TRAGÉDIAS E A MESMA PERGUNTA ATÉ HOJE SEM RESPOSTA

                                                                              



Fenómenos há que, pela homogeneidade da sua mensagem pacífica, nem de longe nos toca nem abala a subtil contradição que os pode afectar e, como explosivo escondido, é capaz de destruir num momento a harmonia   sagrada que envolvia OS DOIS fenómenos.

Os dois fenómenos:

1.     Em 15 de Agosto de 2017,  Dia de Nossa Senhora do Monte,  sósia (a mesma!) de Nossa Senhora de Fátima, com uma veste regional,. Rios de fé,  salpicada de lágrimas, emoções, juras de confiança absoluta na Padroeira. No entanto, um tronco sonolento ali escondido desperta de um letargo de séculos, apaga as velas promitentes e mata repentinamente 13 peregrinos que cantavam louvores à Senhora.

                                                             




        2, Em 13 de Outubro de 2022 em Los Teques, hoje mesmo,   inaugura-se uma basílica dedicada a Nossa Senhora de Fátima, réplica da existente em Portugal. Foram 9 milhões de euros oferecidos (mas extraídos) pelos portugueses, continentais e insulares, fruto das suas poupanças de emigrados.  No entanto, antecipando-se à gloriosa e aristocrática homenagem à Senhora, uma dura catástrofe natural abate-se sobre o território de Tejerrias, sacrificando vítimas inocentes..

A estes episódios contraditórios, muitos outros acrescenta-os  a História dos Homens e das Religiões.

         Podem os hermeneutas, teólogos e místicos, doutores e canonistas apresentar tratados e concílios como os que enchem os alfarrábios do Vaticano- Mas ao homem comum e à mulher crente não lhes resta senão uma oração interrogante diante do altar da Senhora do Monte, Senhora de Fátima, de todas as Senhoras:

           Senhora que tudo podeis

         Mãe que tanto nos amais

         Por que não seguraste aquele tronco no Largo do Monte?

         Por que não mandaste parar as águas assassinas de Tejerrias?

         Responde-nos: Que significa este massacre em cima dos vossos mais devotos fiéis? A última gota de sangue necessária à salvação?... Ou o castigo de uma fé mal esclarecida?...    

         Ficaremos à espera da resposta… até ao fim do mundo.

         Por isso, imploramos:

         SENHORA, ESCLARECE E AUMENTA A NOSSA Fé!

 

         13.Out.22

         Martins Júnior

   

terça-feira, 11 de outubro de 2022

NEM A SENHORA DA APARECIDA ESCAPA A ESTA CAMPANHA ‘BACANA’…

                                                                                


Quem pode ficar imune aos furacões que todos os dias nos entram em casa?... Como saltar o muro deste poço neurótico da pré-morte psíquica em que se tornou todo o planeta, desse os campos de guerra aos pacatos becos da aldeia, desde os ovais salões do poder às apertadas paredes domésticas?...

         Uma noite de dezenas, centenas de mísseis russos e drones iranianos, 19 mortos e 109 feridos, dia de assembleias intensivas, imediatas, G7, ONU, parlamentos, contra-ataque de ameaças nucleares, os terroristas cabisbaixos armados em vítimas para logo se rearmarem em bombistas assassinos. Mais sangue pelo chão e mais corpos retirados dos escombros. E vem tudo junto: o terrorismo climatérico em Venezuela, o execrando enxurro oculto dos abusos de menores na Igreja Católica, o fantasma da inflação, a guerra dos orçamentos e, a minar a saúde mental social, o medo inquietante do dia de amanhã.

Mas do meio das nuvens negras de hoje saiu o foguete - hilariante seria, se não fosse perigoso e trágico - produto de um país de contrastes e apresentado com pompa e não menos ganância: “Bolsonário vai amanhã à Grande Festa da Senhora da Aparecida, Padroeira do Brasil” !!! E o toque a rebate patriótico, bradado pelo próprio, candidato-peregrino:_” Venham gente, venham todos, milhares, milhões de brasileiros, vistam-se de azul e amarelo na Festa da Padroeira  do Brasil” !!

         Ridículo, mas perturbador, sabendo-se dos excessos fanáticos a que levam as religiões. Pegando na alegoria da Cegueira e da Loucura, eu diria que estamos perante o Elogio da Cegueira de um povo e o Ensaio da Loucura de um concorrente maquiavélico. Vale tudo! Amanhã o mundo vai assistir ao segundo episódio da mesma farsa ‘bacana’. Em 7 de Setembro, serve-se do Dia da Independência (200 anos) e termina o abusivo comício puxando a multidão a bradar um ‘lunático’ Pai-Nosso. Daqui a algumas horas, lá estará ele, sobrepondo-se ao andor da Senhora da Aparecida, transformando uma celebração religiosa numa espécie de estonteante ‘macumba’ polítca.

Uma blasfémia, a que a Igreja não devia subjugar-se!

Mas que fazer, se por cá a mesma ‘opera bufa’ se repete, sob registos sofisticados, porém, indisfarçáveis ?!... Que fazer, se Igreja e Poder-Governo são dois heterónimos, inquilinos do mesmo quarto?!

Terminando por aqui este fait divers tragicómico e sem desprimor para a fé dos brasileiros, apraz-me divertir. em diferido, com aquela visita que fiz, em 1972, ao Salão das Promessas da velhinha igreja da Aparecida do Norte (estava ainda em construção o monumental  Santuário da actualidade). E o que mais me surpreendeu (e divertiu) de entre os imensos ex-votos expostos foi uma cruz enorme, mais de 9 metros, tendo apensado um cartão com estes dizeres: “ (…O NOME do devoto peregrino) PROMETEU À SENHORA DA APARECIDA TRAZER AOS OMBROS, DESDE (indicava o lugar) SE O BRASIL GANHASSE A COPA DO MUNDO. E GANHOU”.

Ridicule, mais charmant…

 

11.Out.22

Martins Júnior

 

domingo, 9 de outubro de 2022

COINCIDÊNCIAS E DISSONÂNCIAS: FAVORES E PAGAMENTOS, EDUCAÇÃO E DESINFORMAÇÃO

                                                           


          Tanta coincidência para quanta dissonância!

         A coincidência vem do LIVRO – o meu bem-estar entre uma semana e outra – e o centenário velório ambulante na cidade de Machico,  

         Os liturgistas do dicastério romano, (é o departamento que detém o pelouro do alinhamento dos textos bíblicos para todos os Domingos do ano) decidiram fixar para o 9 de Outubro de 2022 –  XXVIII Domingo Comum, Ano C – dois textos narrativos em que são protagonistas onze homens leprosos e outras tantas curas-milagres. Estas as coincidências mais tocantes do 9 de Outubro/22.

         Mas há diferenças, não só nas ‘fés das pessoas’ mas sobretudo nas facturas e formas de pagamento do sucesso obtido pela Fé.

         É de todo o interesse cultural penetrar nos labirintos do espírito da Fé ou das ´fés´ dos intervenientes nestas duas narrativas tão coincidentes  superfície. Para tal, convém reler o capítulo 5  do “II Livro dos Reis”, escrito entre 560 e 538  a.C..  Deixo aqui os tópicos mais salientes, a começar pelas três personagens marcantes, cada qual com sua Fé, todas diferentes: o general Naamã, chefe das Forças Armadas sírias, orgulhoso, descrente do Iavé judaico e do seu profeta, incrédulo das águas do rio Jordão e das eventuais propriedades terapêuticas. Eliseu,o profeta de Iavé, altruísta, homem de espírito, pouco dado a rituais excêntricos e supersticiosos. Giési, o ajudante  de Eliseu, seu servente e directo «colaborador, egoísta, astuto, calculista e sem escrúpulos.

         Dissecando as três ‘fés’. Concretamente, não foi a fé convencional que curou Naamã. Foi a sua condescendência aos conselheiros, seus subalternos,  Acima de tudo, foi o seu voluntarismo, a coragem do seu querer, paradoxalmente oposta à sua incredulidade, inclusive nos sete mergulhos no rio Jordão. Cumpridor dos ritos pagãos, muniu-se de uma fortuna de ouro e prata, acrescida de vestes sumptuosas, para pagar ao médico, curandeiro ou profeta que o libertassem do terrível mal. Hoje, diríamos ‘pagar a promessa’, ainda que não a tenha feito.

         A Fé de Eliseu, humilde, quase ausente do grande feito, intimamente convencido que a força anímica que traz consigo não provém das suas mãos. A única Fé verdadeira, ao serviço dos outros, desinteressada! A sua despedida, tão afectuosa quanto exigente para um homem de armas: “Vai em Paz”.

         E a de Giési?... Protótipo de todos os tempos, sibilino, devoto, coadjutor, simoníaco, máscara acabada dos que, à sombra da religião, põem a sua fé  exclusiva no dinheiro, nas sacas de moedas de ouro e de prata, no aumento do seu pecúlio, enfim, o receptador oculto  das promessas, as prendas que seriam pertença do Senhor Iavé.   

          Mais depressa, porém,  veio a sentença fatal: “Estás rico, podes comprar tudo. Já que ficaste com a riqueza de Naamã, vais ficar também com a lepra dele”. E a partir daquele momento, o corpo de Giési cobriu-se de lepra até morrer.

         Esta é a Palavra de Deus  exarada, há milénios, no LIVRO, o II dos Reis, capítulo 5 e em Lucas, capítulo 17, 11-19.

         Essa a Palavra de Deus, repito. Mas há quem prefira a palavra dos homens. Para esses, nada a fazer. “Nem que viessem Moisés e os Profetas a este mundo” – disse um dia Jesus de Nazaré.

Em tempo: Informam os noticiários que hoje é o Dia Mundial da Educação Cristã. E eu proponho que faça parte do Programa da Educação Cristã a versão completa do Capítulo 5 do “II Livro dos Reis”. Digo isto, porque os liturgistas do dicastério romano que acima referi, elidiram, obliteraram, amputaram,  apagaram (ou seja o que for) censuraram a lição mais forte da narrativa. É pura desinformação contra a Educação a que o povo tem direito.

 

09.Out.22

Martins Júnior        

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

ROSÁRIO DE GRANADAS E MORTOS DE CÉU SEGURO…

                                                                           


De guerras ia hoje manchar esta folha imaculada, pois é delas que se nutrem os oleodutos da informação global, desde a bilionária à proletária.

         Sucintamente, vou abrir duas frentes, não na Europa, mas na Eurásia, ambas iguais, vizinhas de ao pé-da-porta, as duas guerras,  mas distantes só no tempo que as separa – precisamente 451 anos.

         É hoje em tempo oportuno que junto aqui – em 7 de Outubro – a ‘gloriosa’ batalha naval  de Lepanto entre João de Áustria, líder do exército cristão, sob o nome de Liga Sancta,  e Ali Paxá, comandante das forças otomanas, sediadas  na Turquia. Luta encarniçada, missão quase impossível. Mas João saíu-se vitorioso.

Justificação generalizada do sucesso, a partir do Vaticano: o Rosário de Nossa Senhora disseminado por toda a Europa e rezada em cada casa, palácio ducal, villa de campo ou humilde casebre. Daí, a proclamação, pelo Papa Pio V, do Dia 7 de Outubro entronizado às alturas com dedicação exclusiva a Nossa Senhora do Rosário, por antonomásia Nossa Senhor das Vitórias. Este é o seu Dia, embora na Madeira seja transferido para o primeiro Domingo do mesmo mês.

A mediação ‘divina’ – o elo secular que une 1571 a 2022!

Em 2022, também em 7 de Outubro, uma mãe deitou ao mundo um bebé louro  que hoje faz 70 anos… (De Judas Iscariotes disse Jesus: Mais te valia nunca teres nascido). Não se sabe que terá dito o Nazareno acerca de Vladimir Putin.

Mas sabe-se que fez o seu soi-disant representante e procurador em toda a Ásia Ortodoxa, o Patriarca Kirilos. Felicitou-o pelo aniversário, agradeceu o ter sido nomeado, pelo próprio Putin, Patriarca Máximo. E mais: deitou a bênção aos obuses e aos carros de combate. Achou pouco. Diante do exército em parada, ergueu a voz mais alto que a coroa mitral que trazia na cabeça. E disse: Vós que estais alistados para a guerra contra a Ucrânia, eu vos garanto também uma indulgência plenária: Os vossos pecados ficam todos perdoados.

Mas era preciso mais. A voz trémula, mas imparável, enrijeceu-se e falou: “Se algum de vós morrer em combate, eu vos juro em nome de Jesus: Tendes o Céu garantido.

Sublinho e reitero: a mediação ‘divina’ ao serviço das fanáticas e tresloucadas ambições dos homens. De todos os tempos e lugares. Também nas nossas guerras coloniais! O que os separa, apenas nomes e décadas, séculos, milénios.

Não comento. Proponho reflexão. E perdoe-me a doce Mãe de Jesus o meu arrepio de pegar num rosário de granadas…

 

07.Out.22

Martins Júnior

 

 

 

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

QUEM IÇA O ‘ENGUIÇO’?...

                                                                          


Fizesse eu o discurso  do “112” – os anos da República, entenda-se – e em vez do grito  avassalador de José Relvas na varanda da Câmara de Lisboa - “VIVA A REPÚBLICA” – limitar-me-ia ao título desta mensagem; QUEM IÇA O ‘ENGUIÇO’?... E mais não diria. Ou então talvez transcrevesse do Dicionário da Língua Portuguesa os diversos sinónimos de ‘Enguiço”. Aí vão: quebranto, mau-olhado, mau-agoiro, empecilho, criança enfezada, mostrengo.

Era isso tudo e muito mais a bandeira da decrépita monarquia portuguesa, como agressivamente a retratou Guerra Junqueiro no poema dramático “Finis Patriae”.

Hoje a bandeira é outra, mas não deixa de esconder o medonho enguiço da ditadura (o mostrengo!), por mais alto que a içassem em todos os quarenta e oito “5 de Outubro” que durou o regime.

A bandeira não espelha apenas o património de um povo ou de um regime. Representa todos e cada um, sobremaneira quando é desfraldada em gloriosa hasta pública. Nela estão não só as mãos que a levantam, mas também os cérebros, os legisladores, os executivos, os bons ou maus serviços que prestam ao povo. É por isso que, para uns, o içar da bandeira é o orgulho da Mãe-Pátria, enquanto  para outros não passa de uma manta de retalhos, sudário fúnebre de um país amortalhado. De um país, de uma classe, de uma cidade ou de um tugúrio abandonado, Em casos extremos, a bandeira já foi o grande lençol de linho puído em que se enxugavam as lágrimas e se abafavam os soluços do seu povo. O enguiço, o mau-agoiro, o mostrengo.

É nessas circunstâncias que se pergunta: QUEM IÇA O ENGUIÇO?

Neste Ano da Graça, o meu içar da bandeira não tem hino, não tem fanfarra, não tem esporas, cavaleiros e plumas carnavalescas. Nem discursos. Pareceu-me ouvir da boca dos protagonistas falantes uma espécie quase-violenta de indignação contra a resignação. Ironia das ironias… Mas eles só têm boca  e auto-mutilaram as orelhas?! Não vêem nem ouvem que o  chão alcatifado e o palanque de onde peroram mais se assemelha a um vale de gritos que regurgitam de todos os lados: mais camas para os idosos paralíticos, mais médicos nos hospitais. Mais enfermeiros, mais dinheiro para o Superior, mais salários contra a inflação, a função pública, os ordenados mínimos e os médios, leite para as crianças, transportes gratuitos, ajuda aos migrantes, o grito das mulheres, não só as afegãs. Enfim, mais que um vale de lágrimas, um vulcão de gritos.

Tudo, porquê?

Por causa de uma outra bandeira, essa maior e mais decisiva: o ORÇAMENTO !!! Quando se esperava que o içar da bandeira republicana, leve e esvoaçante, fosse a cereja em cima do bolo das nossas vidas, eis que se apresenta com a ‘caixa-negra’ do Orçamento, pesada, inacessível, inexorável. Tempo houve, até,  em que o símbolo da Pátria virou-se ao contrário, talvez envergonhada de quem a levantara, em 5 de Outubro!

Sempre foi içada a bandeira. Hoje. Tremulante, indecisa, pesada do pranto dos seus procuradores, o povo detentor da soberania da Nação. As mãos que a erguiam lembravam o “Homem do Leme” (do ‘Mostrengo’ de Fernando Pessoa): “Aqui, ao leme sou mais do que eu. Sou um Povo…”.

Compete ao Povo exigir que a Bandeira Nacional seja o orgulho dos Portugueses!

 

05.Out.22

Martins Júnior

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

DOS IDIOTAS ÚTEIS E DOS SERVOS INÚTEIS

                                                                                 


         Quem chega à portagem inevitável do “Fim-Princípio de Semana”, aí procura no mercado da estação o seu prazer-saber (os ingleses dizem hobby), cada qual na sua prateleira: para uns o futebol, outros o filme, a caminhada, o romance ou o poema, ainda a praia ou o pic-nic familiar. E com isso acha passagem saudável para a semana seguinte. Por mim, escolho o LIVRO – o maior da história – e nele encontro a luzerna suficiente (nalguns casos, enfeixada em múltiplas direcções) que dá trânsito seguro até à estação hebdomadária seguinte.

         Ontem foi o caso. No texto proposto urbi et orbi vem um tratado de psico-sociologia aplicada a cada dia e a cada pessoa, a cada instituição e a toda a circunstância da vida em sociedade. A lição quem a deu foi “Aquele que não sabia nada de finanças nem consta que tivesse biblioteca”. Mas tinha a percepção nítida das relações humanas, observador atento das assimetrias entre o trabalho e o capital, consequentemente da indiferença dos nababos bem instalados face à míngua dos deserdados da sorte, comparando, a opulência do tubarão, cego e sôfrego, em cima dos frágeis peixes que lhe fogem espavoridos. Já que falamos no reino animal, o Mestre da Lição dominical aponta o contraste entre ‘a lagartixa que ambiciona chegar a jacaré’ e, do lado oposto, o gigante laborioso que se sente feliz em ser apenas  um servente indiferenciado.

         O caso é muito sério, espelho deprimente da condição humana em todos nos revemos. Para melhor entendimento convém abrir o LIVRO, em Lucas, capítulo 17, 7-19.

         O  Nazareno, conhecedor directo do mundo laboral, quer na orla do Mar de Tiberíades quer nas pastagens dos rebanhos e da produção agrícola,  põe ao rubro a questão: O criado (o assalariado, o colono ou caseiro) trabalhou, desde o nascer ao pôr do sol, chega extenuado a casa do patrão (o latifundiário, o dono da quinta, o senhorio). Achais vós – pergunta o Mestre ao povo que o acompanha em multidão -  achais que este, o senhorio, vai convidá-lo a sentar-se à mesa, vai servir-lhe a ceia?... Jamais. Vai é obrigar o pobre trabalhador a redobrar de esforços, trazer ao patrão as melhores carnes e os  melhores vinhos. E tu, amanha-te depois”.

         Será possível desenhar e repudiar, em tão breve alegoria, o fosso sem fundo da insensibilidade de uma minoria de poderosos diante das intermináveis turbas de explorados prostrados à beira deles?... Verdade seja dita que não se conhece o contexto em que se desenrolou esta cena. Porque, noutro cenário, o mesmo Jesus de Nazaré faz justiça e enaltece o dono daqueles seus servos que o esperam, até altas horas da noite, sempre vigilantes no portão da sua quinta: “Mandá-los-á sentar-se e ele próprio servi-los-à mesa”. (Lucas, 24, 46).

         Aproximemos o Mestre para mais perto de nós. Sem dúvida que aplaudiria toda a luta de activistas, sindicalistas, legisladores e operários anónimos que conseguiram o seu lugar ao sol, que aboliram a escravatura, que determinaram o justo horário de trabalho, o pagamento de horas extraordinárias, o direito a férias. O trabalhador tem o mesmo sangue do explorador, o mesmo cérebro, o mesmo direito ao repouso regenerador.

         Mas o Nazareno, na mesma alegoria, subentende e distingue os servos, os trabalhadores, aqueles que cultivam uma digna consciência profissional e, nos antípodas, os oportunistas, os que ‘fazem que andam mas não andam’.

Distingue ainda os que jogam para a plateia, para o capataz, para o olheiro, para o patrão, sempre na mira de fintar e trepar às costas dos outros. Não é este o grande teatro do mundo?... Na administração, no clubismo, nos partidos, nos parlamentos, nos governos e (pasme-se!) até na religião!... Pular aos tronos e aos baldaquinos do mundo à custa do pobre Peregrino  da Galileia !!!

         Do texto de Lucas sobressaem o louvor e o justíssimo brio de quem trabalha sob o signo da consciência profissional ou – como anteontem dizia Maria João Viamonte em entrevista ao DN/Lisboa – “A minha divisa é fazer a coisa certa, mesmo quando ninguém está a ver”.  A estes receita Jesus um desabafo que tem tanto de brio pessoal como de realismo social perante os “idiotas úteis” que proliferam no reino da mediocridade.

Aos verdadeiros profissionais, o Mestre recomenda que não esperem os louros e os galões da sociedade do espectáculo mundano. “Depois do trabalho feito, dizei: “Somos servos inúteis, só fizemos o que devíamos fazer” !  Já o ouvimos também de uma sábia tradição da filosofia árabe:“A primeira e a maior recompensa do dever cumprido é ter cumprido esse dever”.

Dos idiotas úteis nem merece a pena falar…

 

03.Out.22

Martins Júnior        

 

sábado, 1 de outubro de 2022

“VER” O SOM NOS MIRADOIROS DO ALTO…

                                                              


Deixo para o ‘Ímpar’ seguinte as sábias pistas do LIVRO deste fim-de-semana. Hoje dou lugar, aliás, procuro o mitológico lugar da Arte dos Deuses – a Música.

Dia Mundial da Música! Se de outras sonantes efemérides pré-datadas se diz que elas não pertencem a um só dia mas são de todos os dias que o sol deita ao mundo, então que se há-de dizer do Primeiro de Outubro – Dia internacional da Música?... Ele povoa todos os dias do Calendário, todas as horas do ritmo da Vida.

Não será exagero constatar que hoje o planeta Terra configura-se literalmente com o monumental anfiteatro, de reprodutivas linhas circulares, desenhadas pelo Supremo Arquitecto, onde todos os sons se cruzam e todos os corações se abraçam. Muito embora nos media seja dada audiência prioritária aos fabulosos concertos orquestrais enclausurados em auditórios, palácios, templos e solares de élite, o Espírito de Orfeu sobrevoa os mares, continentes, aldeias longínquas, desde o mais intimista serão nos terreiros do povo até alcançar as verdes encostas voltadas para o firmamento azul. E ali fica embalada – a Divina Arte -  num enorme berço feito dos dedos sonoros de crianças e jovens. Sem eles e elas, sem o aconchego de gente anónima habitada pela ruralidade genuína – “doce como os bosques e pura como as donzelas” – sem o miradouro do alto, o Dia da Música nunca teria o seu Dia Mundial.

                                                        


O universo de todos os sons e as partituras de todas as emoções ali estavam hoje no Miradouro da Portela, em Machico, ladeado pelas araucárias altaneiras e debruçado sobre os amplos vales e médios-vales do Porto da Crua, o mar ao fundo e a majestosa rainha vulcânica com toda a justeza entronizada em Penha d’Águia.

Juntaram-se no miradouro transformado em palco os cordofones madeirenses do Grupo “A Caçoar” da Ribeira de Machico e a Tuna de Câmara de Machico, vinda do Centro Cívico-Cultural e Social da Ribeira Seca. Digamos que as duas Ribeiras desaguaram em delta no Miradouro do  Alto da Portela.

                                     


Quem ali esteve – eram jovens, adultos e idosos – formando o mais belo anfiteatro de emoções partilhadas, sim, quem ali esteve não só ouviu Música. Direi que viu a Música, a Mágica Arte dos Deuses, passeando-se num outro paraíso terreal, como é todo o cenário da Portela e Santo da Serra. E, como cereja em cima do bolo, a dedicatória do evento àquela estância da vida, cujos protagonistas são os Idosos. Eles que hoje precisamente também  festejam o seu Dia.

Um bem-haja ao Município de Machico que em boa hora desdobrou a sua programação cultural com estes saraus localizados – “Música nos Miradouros” – extensivos às cinco freguesias do concelho.

 

01.Out.22

Martins Júnior