quinta-feira, 13 de abril de 2023

NO SUPERMERCADO DO DIA DO BEIJO

                                                                                   


                                         

  o beijo-amor e o beija-flor

o beijo-chegada e o beijo-partida

o beijo-aritmétrico e o beijo-geométrico

o redondo e o quadrado

o beijo-recto e o beijo-quebrado

o beijo-brasa e o beijo-gelo

o seco e o molhado

o mudo e o sonoro

o átono e o tónico

o beijo de Judas

o beijo de Vénus

o beijo-perdido e o beijo-achado

o beijo-breve e o beijo-longo

o consentido e o apetecido

o desejado e o recusado

o  beijo-paixão e o beijo-caixão

o que nasce e o que morre

o beijo-vida e o beijo-morte

o beijo-tudo e o beijo-nada

 

enfim, o beijo-sinónimo e o seu antónimo

e ainda, na prateleira,

o beijo compra-e-vende

 

“Aceito, compro, vendo e troco

ao melhor preço” – diz o gerente

 

Em que prateleira ficam os teus?...

Os meus?...

Os nossos?...

 

         13.Abr.23

         Martins Júnior


terça-feira, 11 de abril de 2023

ELOQUÊNCIA E PROJECÇÃO – OLHAR O CÉU E FALAR À TERRA

 


É das mais elementares teses dos manuais de Retórica a arte, que o é   ciência também, de conjugar Eloquência e Projecção, quando o orador elege um destinatário formal no discurso mas, nas entrelinhas, está subentendido o interlocutor material, É a figura de estilo adequada ao género literário da ‘Fábula’, com a mestria cados famosos Esopo e La Fontaine. Mas nenhum outro exemplar excedeu a eloquência do “Príncipe da Língua Portuguesa”, o Padre António Vieira, naquela peça inimitável, conhecida por Sermão de Santo António aos Peixes. Dirigiu-se aos peixes para falar aos homens. ,

         Aliás – e respeitando a intimidade fideísta de crentes e agnósticos – é esta a fórmula privilegiada de muitas e diversificadas homilias e orações pias. Projecta-se no Além um somatório de apelos e anseios, cujos destinatários estão no Aquém dos meridianos planetários. Assim fazem os cristãos recorrendo ao seu  Deus, os muçulmanos ao seu  Alá, os budistas ao seu Guru.

         Apreciei o talento maiêutico do Papa Francisco, no seu Discurso Pascal. O  escopo teleológico das suas palavras consistia em convidar (diria, estimular, forçar) os titulares de poderes públicos a reverem as suas políticas em ordem à paz social, à realização plena do indivíduo e da comunidade global. Por isso, da janela do Vaticano como que sintetizou as viagens que realizou como peregrino e as que ainda estão por concretizar. Passou pela Ucrânia, rumou a Cabo Delgado, em Moçambique, rumou ao Sudão, Nicarágua, China, Maynmar, enfim, deu a volta ao mundo e viu-se na sua voz humilde e profunda o pedido, a esmola, a angústia de quem implora a Paz, remetendo a sua mensagem a Deus Soberano: Senhor Deus, olhai para… escutai os gemidos de… calai as armas aqui, acolá, ainda mais longe…

         Deus escutou-o, como a Moisés no cativeiro do povo hebreu sob o jugo do faraó. Com uma diferença: Ihaveh respondeu e ouviu-se a sua voz: Os gemidos do meu povo chegaram até mim. Por isso, Moisés, vai tu e liberta-o, enfrenta o faraó. Na prece de Francisco Papa não se ouviu a resposta do Senhor do Universo, mas ela aconteceu. E não terá divergido do conteúdo essencial da que foi dada a Moisés: A Paz, quem mais do que Eu, quer vê-la no mundo?!... Mas ela está nas vossas mãos,

nas vossas leis, nos vossos acordos… Vai tu, Francisco, clama sem cessar, insiste, suplica – o mesmo mandato que Paulo conferiu ao discípulo Timóteo.  

E o Papa tem feito a sua parte, até chegou a pronunciar-se directamente sobre a injustiçada sentença que condenara Lula e Dilma. Um arrojo, acho eu. Mas são gestos destes que convencem e arrastam. Só que têm uma factura pesada, passada pelos visados e até vinda de dentro da instituição –‘não fica bem ao Representante de Cristo meter-se nessas coisas, não lhe compete’. No entanto, quem mais directo e frontal que Jesus de Nazaré?... E pagou com a própria vida a sua frontalidade!

Belíssima, comovente a alocução do “Homem que veio do fim do mundo”. Mas, da sua acção, ele está ciente de que a Oração, por mais eloquente, não basta. É preciso chegar aos intervenientes, cair na real, dar passos mais corajosos, decisivos e não acomodarmo-nos apenas  a um bem-estar interior, ainda que respaldado pela divindade.

Em tempo de Páscoa, ressuscitar está nas nossas mãos. A cada dia morremos e a cada hora ressuscitamos!

 

11.Abr.23

Martins Júnior

 

 

segunda-feira, 10 de abril de 2023

VARIAÇÕES SOBRE UM MESMO DIA: PÁSCOA DE TODAS AS HORAS

                                                             


deuses sepultaram. deuses reergueram

a uns embalsamaram. a outros coloriram

nem foram precisos três dias, um só chegou, o mesmo

 

gentes caem. castas se entronizam  

se morre um pária, mil párias agonizam

inumado um oligarca, exumados serão milhões de proletários

 

de que serviu ó Cristo rolares a pedra tumular

se temos tectónicas avulsas nos cérebros oceânicos

desde o génesis primeiro

                                                                                     

sei que trazes a chave que solta e o sopro imortal

mas são nossos os mísseis os drones as valas goelas famintas   

 

de todas as sextas a todos os domingos  

deuses e gentios morrem e ressuscitam

 

se abrires uma fenda no túmulo das tuas noites

crescerão em mim  sedentas manhãs de páscoa

 

09-10.Abr.23

Martins Júnior  

sábado, 8 de abril de 2023

EU VI-O, SUSPENSO DE UMA ÁRVORE NA PICADA AFRICANA !!!

                                                                             


         Está tudo consumado. Morto e sepulto. Até que enfim – espumaram eles!

         O Processo chegou ao termo – uma meta que não se revia apenas na subversão de todos os normativos da legislação romana, nem mesmo no assassinato da vítima: era preciso mais – expô-la em hasta pública para que a repressão e o medo afogassem os ânimos daquele povo revoltado, mas impotente, perante o crime perpetrado contra o seu Líder e Mestre.

         Assim proclamaram eles, Anás e o genro Caifás. Os pontífices máximos manipularam bandos marginais, forçaram o procurador Pôncio Pilatos, urdiram como matéria de acusação afirmações descontextualizadas (a questão dos impostos, o incitamento à rebelião, a destruição do Templo). Objectivo estratégico infalível era o enxovalho público do condenado, fazê-lo passar, vaiado e massacrado, pelas mesmas ruas em que antes fora aclamado, entusiasticamente aplaudido e amado. Neste furor visceral, estava o plano último: erguê-lo acima do solo, na colina sobranceira à cidade, para que ficasse visível, emblemático, aterrador. Para isso, deveria chegar lá acima, ainda com vida E por isso, intimaram um pobre trabalhador, Simão Cireneu, que casualmente ali passava, obrigando-o a transportar o patíbulo, o madeiro, afim de que o condenado não morresse no percurso.

Digno de registo, para memória de todos os tempos, foi o apoio das mulheres de Jerusalém ao mártir indefeso, notoriamente a sua Mãe e a Verónica, que afrontaram sem medo a barreira dos militares encarregados da execução final.

Vale a pena reler o texto de L ucas, capítulo 23.

É nestes dois dias que não consigo varrer da retina aquela visão tétrica do nativo indígena dependurado no alto da árvore centenária à beira da picada. De visita à Companhia operacional, vim a saber que se tratou de um homem desarmado, apanhado pela nossa tropa, ao qual, diante de toda a Companhia em parada, deceparam as duas orelhas e fuzilaram-no depois, suspendendo-o naquela que me pareceu ver a cruz do Calvário e o corpo do moçambicano afigurou-se-me um Cristo Negro em Cabo Delgado. Ali ficou patente como mostrengo aterrador aos olhos daquela pobre gente que vivia amedrontada no meio da mata. Como fizeram os magnatas de Jerusalém ao povo hebreu.

Quisera eu habitar estes dois dias longe do povoado, evadir-me para algum incerto horto das oliveiras ou para a mais alta serrania e aí jogar ao vento forte a reminiscência de há mais de cinquenta anos em terras coloniais.

Detenho-me no Gólgota. Vejo que retiraram da Cruz o corpo morto do Jovem Libertador Jesus. E penso que outro lenitivo ele não deseja nem espera senão que o façam descer do lugar do tormento e da ignomínia.

E bate-me outra vez ao subconsciente: aquele africano anónimo que não teve quem o retirasse da velha árvore. E que o fizesse voltar à vida. E é isso que Jesus de Nazaré mais deseja: que não se pregue mais ninguém ao madeiro infame. E se tal acontecer, que o façamos descer depressa, que o libertemos doo cepo amargo da tristeza, da depressão.

“Por mim ninguém chore” – foi a  sua resposta às mulheres de Jerusalém que choravam à sua passagem. Ele quer vida e acção!

 

         Seja a noite de Sexta-Feira a alvorada de Domingo de Páscoa.

 

         07-08.23

         Martins Júnior

quarta-feira, 5 de abril de 2023

NOITE DE PAZ… NOITE DO PERDÃO

                                                                                       


      

Na semana do Processo, interrompo a ‘sessão’ e retomo-a na sexta-feira, 7. Porque no meio das trevas desta noite Alguém perpassa e, do banco dos réus onde o ódio organizado pretende amarrá-lo, Ele faz o trono do Amor erguido sobre a montanha verde do Perdão.

Uma mesa, Pão e Vinho, o Abraço da Fraternidade, o Perdão dado com lágrimas, esclarecido, confrontado com os farrapos da pérfida indiferença, ainda que sublinhado com o “Mais valia não teres nascido”.

O Perdão – assunção da responsabilidade!

Todas as guerras perderão, face a face, no puro olhar do Perdão.

Perdão de corpo e alma, não perdão de plástico.

Falou certo o Padre José Luís Rodrigues.

Perdão de Mateus, capítulo V.

Perdão de Tiago, Carta,5..

Perdão de Quinta-Feira Santa!

__________________

N.B. Para melhor  justificação, remeto para os blogues de 1-3.Fev.23.

 

05-6.ABR.23

 Martins Júnior

 

segunda-feira, 3 de abril de 2023

O ASSASSINATO DE JESUS – UM PROCESSO A DUAS VELOCIDADES

                                                                             


           É  a ‘Ordem de Trabalhos’ exclusiva para esta semana: o Processo.

Logo vem-nos à memória Franz Kafka e o seu protagonista que acabou  condenado à morte, sem saber porquê, entre dois verdugos. Sem saber porquê!!! – eis a grande questão que deve colocar-se à tragédia ocorrida há dois mil anos.

         O caso, não sendo actual, mexe  com a actualidade, seja a nível sociológico, religioso, turístico-económico, mas acima de tudo em termos de análise histórica. Até porque importa separar as águas – águas turvas – em que se submerge um fenómeno, envolto como  está numa redoma híbrida, isto é, entre o sagrado e o profano, o místico e o sensorial, entre o religioso e o estritamente histórico.

         Na hermenêutica puramente sacro-bíblica, Jesus tinha o destino marcado, que se reconduz a esta tese: Deus Pai, ofendido pela desobediência de Adão e Eva, exigia a morte do próprio Filho, único preço com o qual sentir-se-ia desagravado e, daí, reabrir o caminho da salvação para todos os humanos. Portanto, toda a trama – digamos, processo – da literatura e da história judaicas, (profética, didáctica, simbólica) dirige-se inelutavelmente ao assassinato de Jesus. Uma questão nada consensual entre os teólogos, mas que tem sido dogmaticamente proclamada pela Igreja, há mais de dois séculos.

         Mas, seja qual a credibilidade da tese religiosa, há a factualidade processual: o Réu teria de ser julgado e condenado. o que pressupõe acusação, testemunhas, juiz e sentença transitada em julgado. O modo de aplicação da pena e toda a pressão (os lobbies) são peças importantes em todo o processo. E é neste contexto que deverá tentar-se a compreensão aproximada dos factos.

         Por mais voltas que se dêem em redor da vida e obra do  Nazareno, dois polos inamovíveis permanecem em todos os seus passos: por um lado, a defesa e a elevação dos oprimidos e deprimidos da sociedade e, por outro, a hostilidade das classes dominantes, com a notória atitude de afrontamento mútuo, sobretudo por parte dos pontífices máximos da Sinagoga, os Sumos-Sacerdotes Anás e Caifás, aos quais se juntavam fariseus, doutores da lei, escribas. Politicamente, advogava insistentemente o primado do Direito e da Justiça, mas não se envolvia directamente nas tentativas do derrube do colonialismo romano, lideradas por Juliano, chamado o ‘Apóstata’. O seu ideário ultrapassava as raias do imediato .controlo político, visava antes a raiz do pensamento, a mentalidade vigente, imposta pelos poderosíssimos ditadores do Templo de Jerusalém.  Quem seguir atentamente o relato evangélico verificará as constantes permutas de arremesso verbal entre Jesus e os emissários do Templo, com acusações de uma rudeza primária, quase tribal: “Tu és o diabo em pessoa”, diziam contra ele. E ele logo ripostava: “Vocês são uns hipócritas, sepulcros caiados de branco por fora, mas podres por dentro”.

         Durou três longos anos esta animosidade sem tréguas, exacerbando-se o ambiente com incisivas atitudes de Jesus, a cura do cego de Jericó, a ressurreição de Lázaro e a portentosa manifestação de Domingo de Ramos, interpretada pelas instâncias superiores como uma intentona-golpe de estado em marcha. Aí começou a operação fatal, estratégias clandestinas, espionagem de todos os passos e lugares frequentados, subornos selectivos, de que é paradigma pidesco o caso de Judas. Ciente do  peso da sua magistratura de influência  em toda a Judeia, o pontífice Caifás (imaginemos o patriarca moscovita Kirilos)  não terá descurado conversações diplomáticas com o poder político, representante do Império, sobre a situação da colónia alarmada com o perigo público chamado ‘profeta agitador da Galileia’.  

         Montado o plano, segue-se-lhe a execução meticulosa: pela calada da noite, os guardas do Templo procedem à prisão no preciso lugar onde o ´procurado’ costumava retirar-se, tudo com o ‘guia-cicerone’ Judas a identificar Jesus na escuridão nocturna. Para que não fosse acusado de imiscuir-se na área da jurisdição política, reservada a Pilatos e Herodes, o Sumo-Sacerdote Caifás chama-o ao tribunal religioso e condena-o. Entretanto, usando a mestria da hipocrisia religiosa, reconhece que não está nas suas mãos o objectivo mais ambicionado - a pena capital – e envia-o a Pilatos.

         A abertura do Pretório, o tribunal civil, durante a noite (para os historiadores considerada ilegal) dá início ao julgamento, que corre mal às pretensões do poder religioso, quando Pilatos conclui: “Não vejo nenhum crime neste homem. Pelo Código Penal Romano,  não posso condená-lo”. Estava preparada a acusação para contraditar o juiz de Roma. “Se não o condenas, vamos acusar-te que não és amigo  de César Imperador, pois esse homem fez campanha contra o pagamento de impostos a Roma”  Pilatos abdica das suas competências de julgador e entrega-as aos acusadores – “Julgai-o, vós” – mas esses devolvem-nas de imediato, alegando que não querem “as mãos manchadas de sangue”. Tremendamente apertão entre Jerusalém e Roma, Pilatos tenta a última cartada – “Que o povo escolha entre Jesus e Barrabás” – mas mal sabia ele que a máquina do Templo de Jerusalém já havia mobilizado as suas hostes entre os marginais, os vagabundos, os mercenários, os condenados que, na ocasião e para o efeito, foram premiados com a saída das cadeias. Por isso, o grito obedeceu às ordens superiores: “Solta Barrabás. Ao outro, mata-o na cruz”. O povo da noite do Pretório não foi o mesmo Povo da manhã de Domingo de Ramos.   -    

         Um ponto de ordem: Da análise acurada do Processo, não foi Pilados o autor do assassinato de Jesus, tal como não é imputada ao Juiz a absolvição/condenação do Arguido. No caso vertente, é de uma evidência inquestionável a trincheira de onde partu toda a acusação/condução deste maquiavélico Processo: o Templo de Jerusalém, sede oficial do poder teocrático da religião judaica, herdeira de Abraão, Moisés e David “Sacerdote, Profeta e Rei”.  Quem matou Jesus?...

         O Processo continua.

 

         03.Abr.23

         Martins Júnior

 

sábado, 1 de abril de 2023

EM JERUSALÉM – SÉCULO I : “O POVO É QUEM MAIS ORDENA” !!!

                                                                                  


Esta é a semana do Processo – na sua tramitação mais aguda e decisiva. Porque, analisados os factos, o Processo arrasta-se por meses, anos, décadas e, por extensão, atravessa séculos de história.

O “Processo de Jesus de Nazaré” conheceu a primeira tentativa de assassinato quando Herodes mandou matar “todas as crianças do país, de dois anos para baixo”, o que motivou a condição da família (pai, mãe e filho) como  refugiados em terras do Egipto. Mais tarde, a condenação como ‘agitador público que sublevava as multidões’ fazia do Nazareno um indivíduo a abater às mãos do “statu quo”  dominante, sobretudo das estruturas hierárquicas do Templo de Jerusalém.

         A tensão entre os Sumos-Sacerdotes, aliados aos fariseus, escribas e doutores da Lei contra o Líder natural dos judeus e palestinianos foi ganhando notoriedade indisfarçável e Ele pressentia as maquinações secretas dos seus inimigos figadais prestes a ‘caçá-lo’ na próxima emboscada.

Aí, o Mestre inverteu a sua estratégia pacifista e decidiu desafiar os poderes públicos e os magnatas que faziam tremer toda a cidade. Ele, que sempre recusara as repetidas pretensões populares de aclamá-lo Rei, Ele próprio decidiu medir forças com a ditadura vigente: mobiliza o pequeno círculo dos seus colaboradores directos          que, como rastilho fumegante, passam a mensagem aos subúrbios da cidade e às povoações, desde as vicinais às mais longínquas, até que no dia aprazado estava pronta a manifestação espontânea, avassaladora, frente aos arcos romanos talhados nas enormes muralhas circundantes. Ironia das ironias, o desarmado carpinteiro de Nazaré manda buscar, por empréstimo,   o ‘carro triunfal’ – um jumentinho, cria do mais deprimido animal de carga - que o transportaria ao centro de Jerusalém rodeado da multidão, qual escudo impenetrável à cavalaria imperial da colónia de Tibério César.

         Ei-lo que avança, sereno no semblante, mas fogoso no seu íntimo, olhando em volta as estreitas ruas comerciais, de portas fechadas, precatadas de eventuais distúrbios pelo aperto dos eufóricos transeuntes. Aproximando-se da zona nobre, dos palácios, do Templo de Salomão, onde se tinham ‘refugiado’ os poderosos, ouviu de longe o recado dos emissários de Anás e Caifás, protestando contra a profanação da Cidade Santa: “Manda calar essa gente, que vergonha,  não estragues o legado do nosso Pai Abraão, do nosso Rei David”. Jesus fixou-os e, com um tom severo de uma voz agressiva e segura: “Se os mandarem calar, levantar-se-ão  as próprias pedras da calçada e clamarão ainda mais alto, Bendito o que vem em nome do Senhor.” (Lucas, 19, 28 sgs.).  

         Permitam-me este respiro d’alma: estou convencido que as sucessivas encadernações pias, revestidas de uma religiosidade suplementar envolvente, retiram a visibilidade histórica, pura e dura – direi pura, autêntica e digna de registo – que os textos bíblicos transmitem. Daí, considero o Domingo de Ramos um marco indiscutível da força colectiva do Povo, a afirmação da personalidade decisiva das massas populares, quando motivadas por ideais de Justiça e de Verdade. O episódio de Domingo de Ramos, sancionado, mais precisamente provocado, pelo “Doce Nazareno”,  atesta sem sombra de dúvida  a soberania efectiva da Nação versus dominação do Estado, em termos eclesiais diríamos hoje o poder da sinodalidade na Igreja versus primado da instituição hierárquica, sobretudo se tivermos em linha de conta o momento crítico da segurança física do próprio Jesus, indefeso perante a prepotência judaico-romana, mas confiante no apoio da multidão que sempre o acompanhara.

         A frescura primaveril daquela manhã inundou corpos e almas, numa demonstração desinibida dos gestos incontidos em lançar mão daquilo que os seus campos produziam, ramos de palmeira, oliveira, porventura alecrim e alfazema, enfim, a mensagem verde dos arbustos que exalavam o perfume de uma liberdade até então reprimida, expressão de cidadania plena outorgada em palavras e obras do seu Líder. Tão diferente dos cortejos enfáticos, das roupagens vistosas, da paramentaria ouro-escarlate, dos graciosos palmitos engrinaldados como tranças louras ao ombro dos pontífices máximos e mínimos!

         Ao Jesus histórico não chegam nem comovem os cortejos artificiais, porque deles não precisa. O que importa é erguer escudos firmes em defesa dos libertadores da humanidade, impedindo que os ditadores estendam as garras peçonhentas, insensíveis, contra os que habitam as valetas da estrada e aí continuam a lutar pelo direito à vida e ao progresso do planeta.

         Ao lado do Vencedor do Domingo de Ramos, podemos repetir com todo o seu apoio: “O Povo é quem mais ordena”!

O Processo continua.

 

31.Mar-01,Abr.23

Martins Júnior.   ---