quinta-feira, 13 de julho de 2023

MILAGRE EM MACHICO, 24 ANOS DEPOIS !!!

                                                                                    


Voltemos a casa. Após o voo periscópico a bordo deste blogue-done em que visitámos Lisboa, Ucrânia, Roma, vamos ficar por aqui, na Ilha, mais precisamente em Machico, para ver, observar, concluir. E talvez divertir, afinal é também  para isto que vêm as férias.

Embora esteja definitivamente longe das arenas político-partidárias, não me enclausurei nos antros da cegueira analítica, pelo contrário, mantenho-me mais atento que nunca à trajectória dos acontecimentos, quer regionais, quer mundiais, no cumprimento do veredicto do fundador da filosofia clássica, o ateniense Aristóteles: “Nada do que é humano me é estranho”. Por isso, lá vou eu hoje remar entre as ondas locais que oscilam entre o anedótico e o deprimente.. Em Machico.

Na azáfama pandémica que atacou os titulares da administração regional que os faz andar de terra em terra, como nómadas peregrinos – até parece que já cheira a eleições -  coube ao avantajado senhor Secretário da Saúde vir a Machico perorar largamente (sintomático, numa dependência eclesiástica) sobre  assuntos da sua não menos avantajada área. E o mais animado clímax da sua farta retórica foi o anúncio da instalação de um equipamento de ‘Raio X’ no Centro de Saúde de Machico.

Eureka! – terá repetido, alto e grosso som,  com Arquimedes, o generoso benemérito da secretaria regional. Mas bem depressa envergonhar-se-ia se alguém lhe recordasse que o Centro de Saúde de Machico foi solenemente inaugurado em 8 de Setembro de 1999, portanto, só 24 anos depois é que foi possível (aliás, é só promessa ainda) o laboratório radiológico, o que obrigou centenas, milhares de utentes a recorrer a serviços externos.

Como é relativamente novo no posto, ao mesmo titular regional ninguém lhe disse quantas – inúmeras – vezes na Assembleia Legislativa chamei a atenção do governo insular para a inexistência do serviço de radiologia naquele estabelecimento de saúde. Lembro-me eu da reacção histriónica, boçal,  dos deputados da maioria (um deles, de Machico, que hoje ocupa um lugar proeminente na escala sanitária da Região) ao ponto de ouvirmos da boca da   Senhora Secretária Regional, Conceição Estudante, predecessora do actual Secretário Ramos, esta tamanha e tremenda confissão: “Vou-lhe ser franca, sr. deputado, ‘Raio X’ há, o que nãohá é um técnico especializado”.

 Até hoje!!!

O nosso Secretário, na conferência feita na dependência eclesiástica em Machico, já que é tão rico e perdulário no verbo, em vez de acender promessas poderia aproveitar o ensejo e pedir perdão ao povo de Machico por deixá-lo privado do serviço de radiologia 24 anos após a arraialesca inauguração!

Ridicule, mais charmant – Ridículo, mas Encantador, Divertido! Encaixa como uma luva nas férias de verão! No mínimo, haja maneiras… Ao menos em Machico, Primeira Capitania da Madeira.

 

13.Jul,23

Martins Júnior

 

terça-feira, 11 de julho de 2023

JMJ… ou…JMP? – ALVÍSSARAS PARA O PROGRAMA RTP DO JORNALISTA ANTÓNIO MARUJO

                                                                            


        Quem fizer o balancete do primeiro quartel do século XXI, há-de defini-lo como a nebulosa da “pós-história”, em que entram em cena as ondas da ‘pós-verdade, da pós-modernidade’, dos pós-fácios e de todos os ‘pós’ que, bem monitorizados e, mutatis mutandis, ficam perto daqueles ritmos de outrora, da época medieval, das Cruzadas, das invasões anti--soberanistas da Roma Imperial e, regressando mais longe, dos povos nómadas, recolectores, enfim, da pré-civilização. Todos diferentes na forma ou no fundo, mas todos iguais no impulso genético, a que se dá o atributo de instinto gregário. Unir a tribo, a aldeia, a classe, a cidade, a nação como escudo de defesa ou arma de ataque! É caso para ver-se ‘ao vivo’ a lógica do velho axioma: “os extremos tocam-se”: os da Antiguidade e os do século XXI.

         Não obstante a vertigem hodierna para o isolacionismo que a tecnologia nos proporciona (o mundo todo está neste teclado e neste écran, dentro das quatro paredes do meu quarto) a realidade diz-nos que “o que está a dar” na hora presente é a fúria multitudinária, o volume da encomenda, os mega-decibéis que estremecem o chão e sobem da planta dos pés até ao palanque do olhómetro. O resto é paisagem invisível. Nem é preciso demonstrá-lo, está ao virar da esquina dos dias estivais: são os estrondosos Queenes of  Stone Age, no delírio místico do NOS-Alive, depois a Zambujeira do Mar e afins, a apoteose rubra do ‘filho pródigo’ Di Maria regressado à farda materna, os estádios a rebentar pelas malhas da argamassa, os congressos confessionais, desde ‘Seca e Meca’ até aos Jeovah’s em relvados pujantes de esperança verde-crente.

         E por este atalho, venho a cair na Super-Hiper JMJ.

Logo de entrada, a pergunta não poderá ser outra, senão “Estará a JMJ propositadamente intercalada no maranhão publicitário dos grandes reality show´s que animam o verão quente de 2023?...  E nós, os espectadores, estaremos perante um campeonato mundial de Sub-21, com a Igreja a rivalizar quem leva mais jovens ao luso rectângulo, recém-instalado no Parque Tejo?

Deixando a resposta para outra reflexão, importa considerar os conteúdos  que a JMJ traz para o grande cartaz promocional: a logística, os palcos, o trânsito, a segurança, o milhão de ‘peregrinos-turistas’, os mil bispos, os padres, as freiras, os cardeais, os paramentos, os 150 confessionários, o cadeiral para tantos consagrantes e, no topo, …o Papa!

É caso para uma outra questão: Neste Grande Teatro do Mundo, onde estão os protagonistas, ou, melhor quem são os protagonistas?...Por outras palavras, que lugar ocupam os jovens, além de figurantes, peças de xadrez, degraus de cena para alcandorar aos ombros e promover generais eclesiásticos, marechais da Nação?!

Suponho ter sido esta a preocupação do abalizado jornalista do Sete Margens,António Marujo, ao trazer para o grande público seis programas televisivos, (RTP) sob o expressivo genérico Crandes Esperanças, nas tardes de Domingo. Até que enfim, os jovens ocupam a centralidade de um palco que é seu. que lhes pertence como inspiração originária, motivação e, sobretudo,  desenvolvimento futuro, visto que será deles o mundo de amanhã e deles dependerá a marcha da humanidade. Até porque, conforme anunciado pelo líder da organização, a JMJ, sendo de iniciativa católica, está aberta a todos os jovens, de todas as nacionalidades e todos os credos.

Assim se apresentaram as Grandes Espperanças, com três jovens em cena, um deles muçulmano da Guiné Conakry. António Marujo espelhou aqui pela voz dos jovens (e certamente nos restantes programas) uma visão planetária sobre Guerra e Paz -  o tema proposto – a abrangência ecuménica do magno acontecimento.  Parabéns, por isso.

Para lá das etapas preparatórias de cada região ou país, este programa vem recentrar a essência e os objectivos da genuína JMJ. A não perder!

Na minha interprnetação, ultrapassado está o equívoco em epígrafe. Não é a JMP – Jornada Mundial do Papa ou de Portugal, como querem alguns – mas a auspiciosa alvorada dos jovens para um Mundo Melhor!

11.Jul.23

Martins Júnior  

domingo, 9 de julho de 2023

OS MONSTROS AUTOFÁGICOS – DE ONTEM E DE HOJE. QUE FAZER?...

                                                                      


Que mau gosto esse para um início de verão! – dirão todos os que virem aqui reproduzida a primeira página do Charlie Hebdo. E mais estupefactos ficarão se eu disser que escolhi esta tremenda - mas genial ilustração do cartoonista do corajoso periódico francês – escolhi-a como fundo de reflexão inspirada no LIVRO, esse manancial inesgotável que me puxa para os blogues de fim-de-semana.

Há um denominador comum estre o cartoon de 2023 e o texto de Zacarias Profeta, do ano 520 A.C. Separam-nos 26 séculos, mas é o mesmo o fio condutor que os une: a Guerra! Terrivelmente, a Guerra – sempre o mesmo monstro desumano, degradante! Mas ao mesmo tempo, parece, indissociável e congénito à condição humana. Aliás, a Bíblia (O LIVRO) a par de estâncias de altíssona ascese, é também um longo chão coalhado de sangue, escaramuças tribais, violências domésticas, enfim, despojos de guerra, dos quais os hebreus saíam quase sempre derrotados, invocando depois a mão poderosa de Deus Ihaveh para vingar os inimigos, caso do Saalmo 136, entre muitos outros.

Vamos então ao estranho paralelo: LIVRO-Charlie Hebdo, ou, mais precisamente, o elo que os liga, a conflitualidade beligerante, que marcou a época de Zacarias e do rei Dario, no século VI, A.C., e a invasão da Ucrânia pela Federação Russa, no século XXI. Tudo, para responder-se à dramática questão que se põe actualmente: Rendição ou Morte. Por outras palavras: quais os caminhos para a Paz: Resistir ou entregar as armas?!...

O texto bíblico dar-nos-á pistas e argumentos. Trata-se da alvorada  da Paz, após todos os tumultos e batalhas sangrentas. Surpresa maior é a vitória do mais fraco sobre o mais forte. O vencedor anunciará a Paz a todas as nações, o seu domínio irá  de um Mar ao outro Mar e do Rio até aos confins da Terra (Zac. 9, 9-

-10). Vaticinando a futura entrada de Jesus em Jerusalém, em Domingo de Ramos, descreve a humildade do vencedor nos seguintes termos: Exulta de alegria, filha de Sião, Eis o teu Rei, justo e salvador, que vem ao teu encontro, humildemente montado num jumentinho.

Um sonho cor-de-rosa, instantâneo mágico que fez brotar a oliveira da Paz sobre um rochedo de basalto impenetrável?!... Pura ilusão! Porque antes da conquista da Paz, o Profeta explicita, sem sombra de dúvida, a estratégia e a logística para lá chegar: Guerra, sempre a guerra. Sigamos a narrativa de Zacarias:

 

Ele, o vencedor  exterminará  os carros de guerra de Efraim e os cavalos de Jerusalém, quebrará todos os arco de guerra… A cidade de Tiro será consumida pelas chamas, o seu poderio lançado ao mar. Eu destruirei a soberba dos Filisteus. Farei desaparecer o rei de Gaza… Tirar-lhes-ei da boca  o seu  sangue e a abominação de entre os seus dentes… Serei Eu próprio uma sentinela contra os vadios e o tirano não passará, porque Eu atendi à  miséria do Meu povo.

Este o sudário cruento de séculos do povo hebreu que, por ironia da história, cantava o Shalom, Shalom, Cidade da Paz,, a canção hierolimitana ainda hoje propagandeada pela voz de Joshua Aaron. Comparemos os 500 dias de guerra russa na Ucrânea, ‘carros de combate e cavalos de guerra’ – tanques, drones, mísseis. A poderosa Jerusalém aproximemo-la do império czarista de Moscovo e o ‘pequeno e fraco’  Volodymyr Zelensky coloquemo-lo ao lado do possante tricéfalo Putin--Wagner-Prigozhin. E interroguemo-nos sobre quais as semelhanças e quais as diferenças. E quais as soluções. De um lado o assaltante indomável, sem escrúpulos, do outro o espoliado das suas terras e forçado a abandonar a própria casa.

Apetecível seria a solução construída por Gandhi, Mandela, ou mesmo a da nossa “Revolução dos Cravos”, sem derrame de sangue. Aliás, o sangue já vinha sendo derramado na guerra colonial. Sangue e ossos e vidas sepultas.

Que fazer, se o ladrão só propõe e aceita a Paz sob condição de continuar com o património, mais claramente, com os bens e a carteira, que roubou à vítima espoliada?...

Sem pretender formular tese sobre o princípio clássico: si vis pacem, para bellum – se queres a paz prepara(-te para) a guerra – trago à colação um excerto da Alocução de Pio XII, no Natal de 1948, citado pelo teólogo Bernhard Haring, na sua obra monumental Das Gesetz Christi- A Lei de Cristo – Edit. Herder, Brasiil, 1950:

 

Negar, categórica e incondicionalmente, ao Direito o apoio da força, é permitir que a força tripudie sobre o Direito, é entregar a Humanidade à mercê de desordem ainda pior, que é a violência moral.

À consideração superior.  Da nossa consciência colectiva. Que o horror da gravura em epígrafe suscite o horror aos monstros autofágicos das estepes russas.  Só espero que as reprováveis ‘ bombas de fragmentação’ nunca sejam utilizadas pela Ucrânea, sirvam apenas de ameaça e não mais.

“Shalom, Shalom” - vou, entretanto, ensaiando com Joshua Aaron a almejada Canção da Paz Universal.

 

09.Jul.23

Martins Júnior

sexta-feira, 7 de julho de 2023

DO AIJ (1985) À JMJ (2023)

                                                                     


         Descodificando o título, intenta-se atravessar a ponte suspensa entre o Ano Internacional da Juventude(1985) e a Jornada Mundial da Juventude (2023). De entre os cartazes promocionais e os cânticos  triunfais  do apoteótico encontro mundial, ora em vésperas, lembrei-me de uma canção – música e letra originais -cantada na Ribeira Seca e coreografada em palco pelos jovens locais, precisamente em 1985, por ocasião das festas tradicionais de verão, a Festa do Senhor e a Festa da Senhora.

À superior consideração de quem lê e de quem queira consultar, via internet, a faixa nº7 do CD “Terra da Minha Saudade”.

 

 

Todo o mundo canta os jovens

São um cartaz mundial

Mas falta quem queira ver

Se vão bem ou se vão mal

Os jovens de hoje em dia

Não podem formar um lar

Porque não têm emprego

Nem casa para morar

 

Para a nossa juventude

A vida vai muito má

Andam procurando emprego

Mas onde é que ele está

Se conseguem arranjar

E de pouco e só a prazo

Vivem com dificuldade

Com salário em atraso

 

 

P'ra que foi que eu estudei

Diz o jovem com razão

Se não arranjo emprego

Que possa ganhar um pão

 

O pai fez um sacrifício

Pôs o filho a estudar

Esperando que  mais tarde

Este o possa ajudar

 

Os jovens de hoje em dia

Sem saber o que fazer

Alguns vingam-se na droga

Outros vingam-se em beber

 

Também há quem desanime

Nesta grande confusão

Não conseguem um emprego

Tentam a emigração

 

 

 

Mas a nossa juventude

Hoje veio p'ra cantar

Bem merece parabéns

Quer a vida melhorar

 

Ajudar a sua terra

Com todo o seu coração

Sua terra é a Madeira

Portugal sua nação

 

 

07.Jul.23

Martins Júnior

quarta-feira, 5 de julho de 2023

DO CHÃO RURAL À SACRALIDADE DO ALTAR!

                                                                               


Chamam-lhe silly season (passe o anglicismo), a estação da superfície, do voo rasante das aves marinhas que debicam o oceano sem mergulhar na profundidade. Vou seguir-lhes a vertigem alada e surfar (perdoem mais uma vez) ao sabor da onda estival que agita Portugal, sobretudo durante estes trinta e seis dias dominados pela

pomposa capicua JMJ, Jornada Mundial da Juventude.

Cumpro hoje o compromisso do blogue de 29/06/23, ou seja, um olhar sobre um dos pormenores ornamentais do gesto diplomático do Presidente do Parlamento Regional aos pés do Papa Francisco: entregou-lhe em mão um jogo de paramentos litúrgicos, com a exclusiva originalidade de serem   confeccionados ao belo estilo do “Bordado Madeira”. A primeira e última nota – e bem merecida – é a de um forte aplauso por tão imaginativa e fidedigna dádiva em representação das bordadeiras locais, enfim, das populações da Madeira e Porto Santo.

Entretanto, o melhor que ficou no bico deste olhar atento foi um gosto a sal – o salitre saboroso das nossas praias, que tem tanto de divertido como de inspirador

. Explico-me em poucas palavras.

Já lá vão quase cinco décadas, quando, na sequência das arremetidas do governo regional e da diocese do Funchal contra a Ribeira Seca e que levaram à  minha suspensão eclesiástica, fiquei surpreendido com uma dádiva das bordadeiras locais, aceite de comum acordo, precisamente uma “Casula” (a peça principal dos paramentos litúrgicos), sobre cujo tecido foram estampados e depois graciosamente bordados os motivos eucarísticos, espigas de trigo louro e cachos de uvas que sobressaíam lustrosos do fundo branco de linho puro. A arte fina saída das mãos doloridas das mulheres tornava-me mais dentro do espírito da verdadeira Eucaristia.

Por outro lado, foi o estratagema concebido para  contornar a acusação formulada em tribunal pelas entidades acima referidas– o que várias vezes fizeram, mas sem sucesso – alegando que se usasse os paramentos oficiais seria condenado judicialmente, com base na Concordata entre Portugal e a Santa Sé, do Vaticano. Desde então, abandonei as casulas  e as dalmáticas, confeccionadas em oficinas credenciadas pelas autorizadas diocesanas e ricamente decoradas, ao pesado estilo dourado romano-barroco. Abandonei-os definitivamente e passei a envergar os paramentos bordados, diversificados em distintos motivos ornamentais, sempre estilo “Bordado Madeira”.

Mas o sabor agridoce do episódio que motivou este bilhete postal ainda não o contei. Aqui vai, pois, servido em três cenários, situados no tempo e no lugar:  

    O primeiro durou várias décadas em que os  paramentos bordados da igreja da Ribeira Seca foram protagonistas nas más línguas oficiais e seus apaniguados devotos, políticos, sacristas, que demonizavam e por todo o lado ‘cuspiam’ os nossos inofensivos paramentos com os mais deprimentes baldões, repetindo que aquilo não tinha nada de religioso, que as missas celebradas assim não tinham valor, porque eram vestes profanas, anti-cristãs, comunistas até. No entanto continuámos imperturbavelmente e vários foram os sacerdotes – párocos, teólogos, professores, nacionais e alguns estrangeiros, nossos convidados - que celebraram a Eucaristia revestidos com as belíssimas ‘casulas’  e viam nelas uma especial  homenagem às mulheres bordadeiras da Ribeira Seca.

O segundo cenário aconteceu em 14 de Julho de 2019, quando o novo Bispo do Funchal, D. Nuno Brás da Silva Martins, após ter revogado a arbitrária suspensão de 1977, realizou a histórica visita à paróquia da Ribeira Seca – histórica, porque durante 50 anos os seus antecessores tinham-na proscrito e abandonado. Nesse domingo intensamente festivo e de aplauso geral, o Prelado evidenciou simpatia pelos paramentos bordados, a ponto de lhe preparamos um conjunto igual aos nossos, entregue em mão no Paço Episcopal no “Dia do Pão por Deus”, do mesmo ano. E tivemos a grata satisfação de ver, em Quinta-Feira Santo, o nosso Bispo envergar a casula e a mitra bordadas na Ribeira Seca.

O terceiro cenário leva-nos às longínquas paragens do solo brasileiro, onde um sacerdote, descendente de madeirenses, tendo celebrado no templo da Ribeira Seca, mostrou desejo de levar consigo um dos exemplares da nossa colecção, o que gostosamente satisfizemos. Lá longe, no sertão brasileiro, os paramentos bordados louvam o Criador que tão bela dádiva deu à terra pelas mãos doloridas mas carinhosas das bordadeiras da Madeira.

Perante tão expressivo ‘palmarés’ do histórico dos nossos paramentos, como não vibrar de entusiasmo solidário com a oferta do Presidente do nosso Parlamento ao Papa Francisco?!... Só nos resta desejar que o Sumo Pontífice siga o eloquente paradigma litúrgico do nosso Bispo, isto é, que na solene celebração da JMJ tome aos seus ombros a cruz e a beleza das nossas bordadeiras e, com elas, de toda a Madeira e Porto Santo.

Para nós, habitantes da periferia urbana, fica-nos o encanto e o sortilégio de vermos o produto das mãos rurais madeirenses, antes malsinado e proscrito, elevado agora ao supremo altar do mundo! E mais uma vez, The Small is Beautiful.

 

05.Jul.23

Martins Júnior

terça-feira, 4 de julho de 2023

NO RESCALDO DO ACHAMENTO DA ILHA: ISABEL DA JUDEIA, ISABEL DE PORTUGAL

                                                                           


         

Início de férias, tempo de viajar – para a maioria de todos nós, viajar cá dentro – não apenas territorialmente, mas sobretudo culturalmente, acrescentando valor ao espírito e saúde ao corpo, pressuposto que no móbil de todos os roteiros figura sempre o princípio cartesiano da dúvida metódica, também traduzida pelo impulso da curiosidade positiva.

Nem de propósito! Uma questão que surgiu no agorá do convívio vicinal consiste em saber de que Isabel estamos a falar: se daquela judia, que foi mãe de João, o Baptista que percorria as margens do rio Jordão, se da outra, a Isabel aragonesa, que foi casada com o rei  D, Dinis.

Na raiz deste binómio qual será a razão do problema em causa?

Primeiro, porque é neste início de Julho que os dois homónimos vivem lado-a-lado, evocados festivamente: Isabel, mãe do Precursor Baptista, em 2 de Julho e Isabel, a Rainha Santa, em 4 de Julho.

Segundo, porque os cronistas do Reino, ao narrarem o Achamento da Ilha, são unânimes em afirmar que foi “em um domingo, 2 de Julho, Dia da Vsitação de Santa Isabel”, que as naus de Tristão e Zargo aportaram ao Cais do Desembarcadouro, na baía de Machico.

Terceiro, porque entre a Isabel bíblica, casada com Zacarias Profeta, e a Isabel, esposa de D. Dinis, distam 13 séculos: a primeira do ano zero da nossa era, a segunda do ano 1271, data do nascimento, falecida em Coimbra no dia 4 de Julho de 1336.

Está, pois, deslindado o enigma. A Santa Isabel referenciada nas crónicas refere-se à histórica visita quando Maria, a futura mãe de Jesus, uma jovem de 16 anos de idade, saíu da sua cidade e “dirigiu-se apressadamente à montanha”, onde vivia sua prima que, não obstante a  provecta idade, estava grávida.   permaneceu Maria durante três meses, ajudando Isabel nas tarefas inerentes a uma improvável maternidade, mas que veio a concretizar-se com o nascimento de  João Baptista, Assim falam os evangelistas.

São notórias as discrepâncias entre uma e outra. Isabel de Zacarias, mulher identificada com o povo, isolada na ruralidade mais profunda, Isabel de D. Dinis, a aristocrata, matrona de Palácio Real. Uma, a desconhecida da cidade. Outra, a famosa, celebrizada pelo ‘Milagre das Rosas’. Ambas, porém, aproximadas no bem--fazer,  gémeas na solidariedade humana, aquela em dar ao mundo o Precursor, esta em sintonia com os desprotegidos famintos que proporcionaram transformar rosas em pão para o corpo e conforto para a alma.

Para as duas Santas, na mesma ara da história, a nossa homenagem, sendo certo que aquela que nos diz respeito é a mais antiga, a Isabel bíblica, tal como Machico é a Capitania Primeira da Madeira, desde 8 de Maio de 1440.

 

03-04.Jul.23

Martins Júnior

domingo, 2 de julho de 2023

O DIA DO ACHAMENTO OU A HORA DO DESCOBRIMENTO?!... NÃO ESPERES ACHAR, LUTA POR DESCOBRIR !

                                                                                


“Ó São Lourenço, chega”! – assim gritou o capitão ao marinheiro-mór da nau ‘São Lourenço’ quando se aproximava  do ilhéu que tomou o mesmo  nome e, aproveitando a acalmia fugaz das  vagas alterosas, transpuseram as caravelas do Senhor Infante  o nosso ‘Cabo das Tormentas’ que hoje tem a expressiva alcunha de ‘Boqueirão’.

Assim se consumou a grande aventura dos mares definida como Descobrimento, para uns. Para outros, porém, não passou de um feliz Achamento. Aconteceu em 2 de Julho de 1419, segundo os cronistas coevos, entre os quais Gomes Eanes de Azurara, João de Barros, Damião de Gois. Por isso, Machico, a baía segura, aonde aportaram Tristão e Zargo, respeita a fidelidade histórica do acontecimento, mesmo que outros teimem em fazer a Nau “São Lourenço” vestir-se de amarelo, um dia antes da chegada.

Achamento ou Descobrimento?!...

Quer em termos de hermenêutica histórica, quer em normas de interpretação semântica, deixemos o Achamento aos pioneiros da lusa marinhagem, aqui chegados após hipotéticos navegadores fenícios, gregos, genoveses, escandinavos. Para os povoadores e seus herdeiros ficou o Descobrimento. Porque Achar custa menos que Descobrir. Achar é o fruto casual de circunstâncias fortuitas. Descobrir exige o labor intenso da pesquisa, conhecimento, descrição analítica, empenho e determinação. E este resiliente somatório não se compadece com a improvisada surpresa do Achar.

Achada ou encontrada a jazida de ouro, falta o hercúleo esforço de descobrir o valor, a profundidade e a envolvente para dela extrair todo o seu potencial – falta tudo! – sob pena de condená-la ao primitivo estado selvagem. Vista a esta óptica a mundividência de uma sociedade ou de qualquer projecto civilizacional,  é lógico concluir que a tarefa de Descobrir assume as volumosas dimensões de um processo contínuo e sempre inacabado, a cuja realização são convocadas todas as gerações passadas, presentes e futuras.

Individual ou colectivamente, toda a vida não passa de um episódio ou de uma cena única no Grande Teatro do Mundo, da História. A cada figurante – pessoa, família, colectividade, ilha, continente – cabe o mandato de descobrir (leia-se, aprofundar e desenvolver) o Achado que lhes foi oferecido pela geração anterior.

Neste entendimento, coube a Tristão e Zargo a tarefa iniciática do Achamento. A Descoberta é o legado que deixaram para os sucessores, os futuros inquilinos e usufrutuários do tão cobiçado paraíso insular. E que fizeram dele os detentores de seiscentos anos de herança privilegiada?

Convenhamos que mais importante que Achar é o Descobrir, embora sem o primeiro não se consiga o segundo grande feito.  E aqui surge o grito apoteótico, galvanizador, na voz de Geraldo Vandré:

Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer

Esta é a nossa hora. De todos! Seja qual o estatuto, o lugar, a crença.

O estatuto é o de construtor, o lugar é a cidade ou a aldeia, a crença é a fé ou a determinação  de acrescentar valor ao Achado, chamado Ilha, Arquipélago!

Dois apêndices quase contraditórios, mas inversamente eloquentes, das comemorações do 1 e 2 de Julho/23:

No salão nobre do Parlamento Regional, foram entregues merecidas comendas a personalidades notáveis da Região, agentes do genuíno Descobrimento desenvolvimentista. No entanto, pergunto: quando chegará o Dia Nobre de condecorar os artífices da Ilha, desde o camponês que põe o trigo, o vinho e a fruta na mesa dos brasonados oficiais, até ao pedreiro que lhes faz casas e palácios, ao pescador que lhes traz o peixe e as lapas grelhadas, ao canalizador, ao serralheiro e ao electricista que  lhes põe o carro em marcha. E sobretudo à Muher que lhe engomou a camisa e lhe ajeitou a gravata para a magna cerimónia das medalhas?!... Numa palavra, o trabalhador braçal ao lado do trabalhador intelectual?! Porque ambos pertencem ao galarim dos “Descobridores”!

Em Machico, a Junta de Freguesia celebrou o Dia do Achamento, não na centralidade administrativa da autarquia, mas num sítio periférico, marcado pela ruralidade, mais precisamente no salão paroquial do Piquinho, por simpática cedência do seu pároco. Na simplicidade nativa daquele ambiente, ficou definida a homenagem à terra e a todos aqueles que da enxada e da foice fazem a caneta e o manual, o pincel, o computador vivo que alimenta os produtores dos grandes planos regionais. São eles também autênticos promotores do Descobrimento!

 Cada um de nós também lá está, para confirmar factualmente que:

                                       Quem sabe faz a hora (a nossa!)

                                       Não espera acontecer !!!

 

01-02.Jul.23

Martins Júnior