quarta-feira, 5 de novembro de 2014

BRITTANY MYNARD Suicídio assistido: glória ou maldição?


Não é do desemprego, nem é da guerra, nem da fome, nem da inflação, que venho propor o nosso habitual colóquio do  dia ímpar. É de algo aparentemente muito mais ténue, silencioso, mas estremecedor!
Refiro-me à morte assumidamente optada por essa jovem de 29 anos, em Portland, Estado do Oregon, USA. Nem custo de vida, nem fome, nem algemas serão mais impressivas  e dolorosas à sensibilidade humana que este gesto de alcance ilimitado. Que pensar ou que dizer acerca dele? Para começar, talvez seja  útil aproximá-lo de nós, da nossa família, trazê-lo para dentro de casa. Acontecesse a um dos nossos familiares. Ou a nós próprios. Qual a reacção, qual a resposta? Um cancro no cérebro… incurável…já no términus dos seis meses de vida  permitida pelo “monstro” assassino!
Deixemos livremente correr o pensamento, as incógnitas, os palpites. Primeiro, escutar a ciência, a neurocirurgia, a psicanálise, o acervo orgânico em causa. Depois, o sujeito passivo, o seu universo espiritual, depois a morte, o suicídio e o seu contraponto, a vida. Não embarquemos em dogmatismos de cátedra, mesmo que do Vaticano venham:  Será a vida um valor absoluto?  Parafraseando J:Cristo acerca do sábado: estará o Homem ao serviço da vida ou a vida ao serviço do Homem? 
Para o efeito, ajudar-nos-á a monitorização de  casos similares no decurso da História:

+  Na Grécia Antiga. o fundador da filosofia, Sócrates, mestre de Platão e Aristóteles, tomou ele próprio a cicuta letal na Primavera de 399 a.C.. Porquê? Condenado à morte  por irreligiosidade e perversão da juventude a quem ensinava a superioridade do conhecimento e a universalidade das normas morais, não permitiu que as sádicas mãos dos poderosos ditadores lhe tocassem: executou, ele mesmo, a sentença com a dignidade do seu carácter.

+ + Já antes, na história judaica, uma mãe de sete filhos incitou-os a preferirem deixar-se morrer antes que obedecer ao tirano pagão que os queria obrigar a comer carne de porco, o que significaria renegar a religião de Moisés. E todos  (a própria mãe, por fim) entregaram a vida, torturados e queimados. Para defender a dignidade da sua crença. (II Livro dos Macabeus, cap.7).

+ + +  Para definir a morte de J:Cristo, Jacques Paternot escreveu a obra O assassinato de Jesus. Sobre o mesmo facto Pierre-Emmanuel Dauzat  deixou-nos um outro título: O Suicídio de Cristo.  Em que ficamos? Num ou noutro caso,  fica de pé a honra da Palavra e da Mensagem.

+ + + + Na Primavera de Praga, como classificar a atitude de quem assumidamente lançou o corpo, a própria vida, às chamas?

+ + + + +  No romance de Gilbert  Cesbron  Les Saints vont en enfer  (« Os Santos vão para o inferno », alusão aos padres operários que, contra as ordens de Roma,  decidiram viver com os trabalhadores nos subterrâneos das minas) o autor conta que um destes trabalhadores, a quem o padre incutiu a fé em Cristo-Irmão dos mineiros, esgotado pela miséria da família e pelos pulmões já carcomidos, foram encontrá-lo morto numa das cavernas da mina, com um bilhete apertado na mão: “Irmão Cristo, não aguento mais, quero ir já contigo”.  Ao lado, os resquícios da dose fatal.

+ + + + + +  Em 2005, após longo litígio judicial entre os pais de Terri Shiavo (41 anos) e o marido, que pedia o fim daquele  martírio, foi retirado o tubo a que esteve ligada durante 15 anos.

******** Sábado passado, 1 de Novembro, dia da Grande Família Humana, Todos os Santos, foi a data escolhida por  Brittany Maynard, uma jovem esposa, bela, com um sorriso cativante, realizou o seu desejo, despediu-se da família reunida à sua volta: “My life, My death, My dignity”,  foi o seu testamento.

Quid juris?  A vossa opinião.  Cada qual pondere, discuta, interrogue. Para ajuda, podem recorrer ao precioso Livro do Prof.Dr.Pe. Anselmo Borges, Corpo e Transcendência,  (pag. 317 e sgs.)

Tudo para encontrar alguma luz ao fundo destes três túneis:
-  A medida e o objectivo do Sacrifício
-  O Homem ao serviço da vida ou a vida ao serviço do Homem
-  Quem decide que o que é crime num Estado e num outro já não é.

   E mais um  destes desconcertos que a vida tece: No mesmo calendário  em que os 29 anos  do CR7 sobem, triunfantes,  ao podium da 3º bota de ouro,  há (houve) uma jovem bela, olhar transparente, amante  da vida e do futuro, cujos 29 anos a transportam  à imensa  noite do sepulcro.
Para terminar, trago aos meus amigos e amigas o anúncio que o maior teólogo vivo Hans Kung, companheiro de Bento XVI no seminário, na universidade de Tubinga e no Concílio Vaticano II,  exarou no seu III Livro de Memórias, consignando o desejo de que, no momento certo,  pediria ao médico que lhe passasse para a mão e estivesse consigo no seu suicídio assistido.
        
A fragilidade e o heroísmo do ser humano!  Isto não fica por aqui.

5.Nov.14
Martins Júnior

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A evidência científica e o nosso conforto: “SEM MORTE NÃO HÁ VIDA”


         Na roda gigante de todas as vidas, há um repetido stop que no nosso calendário civilizacional se pode definir como “duas em uma”: é o Dia da Apoteose, 1 de novembro, e o Dia da Saudade, o que imediatamente se lhe segue. Reúne-se o grande fórum da família universal, o incomensurável abraço do antes, do agora e, presuntivamente, do depois. Abrindo a necrologia dos jornais, vemos que todos os dias são 1 e 2 de Novembro.
         É neste círculo envolvente que trago esta reflexão sobre o que, sendo tão banal, se nos torna tão estranho. Pelo pavor e pela dor. Há quem lhe chame o último acto da nossa vida, há quem o classifique como a nossa última reforma, e até Fernando Pessoa vê o caso tão normal que até reconhece  que “morrer é só deixar de ser visto”.
         Pois bem, devo confessar que, de entre todas as intuições e definições --- e são tantas para quem, como eu, acompanha vezes sem conta o itinerário final de amigos e conterrâneos --- um dado empírico esboçado por um cientista de renome, o Prof. Dr. Carlos Fiolhais, tocou-me mais intimamente quando lhe ouvi em recente conferência: “Cientificamente, sem morte não há vida”. 
         Tanto basta para serenar os nossos ânimos perseguidos pelo espectro da morte. A nível da física, da química, da biologia, a conclusão é essa.
         Olhei então para o milagre da terra, para as mutilações a que são sujeitas as árvores, a vinha e, colocando-me na “pele” do ramo amputado, gritaria para o agricultor: “Por que me cortas, por que me matas?” . E a resposta está lá na raiz e no tronco. E que beleza maior que o rebento das folhas, as amendoeiras em flor, as cerejeiras mimosas branqueando a paisagem?! Mas a flor terá de cair para dar lugar à plenitude do fruto. E quantos grãos produzirá um grão de trigo entronizado num relicário sacro ou no mais rico guarda-jóias?... Zero. Mas “se morrer e se sepultar na terra dará muito fruto” (Mt. ) brotarão espigas douradas, pão farto para o banquete da vida.
         Transpondo a evidência biológica para o domínio da antropologia e da sociologia, quão diversos seriam os comportamentos e que de transformadoras e reconfortantes partilhas seriam tecidos os nossos dias?... De pais para filhos, de governantes para governados, de empregadores para assalariados, de mestres para discípulos. E que paz interior saber-se que a nossa finitude individual é a factura do inquilino transitório em prol do crescimento global projectado na História futura!  É inevitável dar o lugar a outros. Inevitável, mas glorioso!
         Deixo ao recôndito de cada consciência o fluir personalista deste filão inspirador.
         A este propósito, dei hoje com os olhos numa reportagem  (inquéritos e testemunhos) do “Libération”, edição de 2 de Novembro, intitulada “Mourir et Chansons”,  onde se lê:_”Entre os ateus e os crentes, tanto nos crematórios como nas igrejas, a música pop, rock, electro e demais variedades são cada vez mais convidadas para os ritos fúnebres”. Acrescenta ainda que, normalmente, as músicas são aquelas que o defunto mais apreciava, desde Time to Say goodbye de Andrea Boticelli e Sarah Brightman, Tears in Heaven  de Eric Clapton, Goodbye My Lover de James Blunt até a histórica Candel in the Wind de Elton John.
         Pela minha parte, jamais esquecerei aquele funeral, há muitos anos na igreja da Ribeira Seca, de uma mãe de seis filhos, ceifada por dolorosíssimo e prolongado sofrimento. Antes da cerimónia fúnebre, aproxima-se a filha mais nova, dez anitos, e diz-me ao ouvido: “Sr. Padre. A minha mãe, antes de morrer, disse-nos que ao sair o caixão pusesse o CD “Festa do Povo/ O Povo é que trabalha/ E faz o mundo novo”.  Arrepiei-me, pois nunca tal acontecera e perguntei-lhe o porquê  “É porque  essa canção era a que a mãe pedia, e aliviava-lhe as dores  mais fortes”. E assim se fez, com o espanto e a comoção de todos os presentes.
         “Sem morte não há vida”.
         Quando chegar a hora, não serão apenas os olhos e o coração que vamos doar aos que ficarem. É a vida toda que se transmite como um facho olímpico às futuras gerações. E aí, misturado com o orvalho da saudade, será maior o Cântico do Amor - entrega  total.
   
3.Nov.14
Martins Jr.

sábado, 1 de novembro de 2014

118º ANIVERSÁRIO DA BANDA MUNICIPAL DE MACHICO

NO 118º ANIVERSÁRIO
DA BANDA MUNICIPAL DE MACHICO

Homenagem aos fundadores e antigos e actuais
directores, maestros e executantes



Oh marcha triunfal
Tão pura e virginal
Como a primeira
Recém-nascida
Da alma aventureira
Povo enorme, geração de outrora
E de quem sois agora
A geração herdeira

Que de sonhos
Ambição desassombrada
Desfilaram
Pelas ruas e vielas
Pelas praças em calçada
Na secular madrugada
Da novembrista alvorada

Como das Fontes Vermelhas
Brotou cantante
A ribeira transbordante
Que hoje corre aos nossos pés
Assim
Da antiga Fonte de Orfeu
Lá onde a Banda nasceu
Jorraram torrentes
Melodias movimentos
Os sons e os instrumentos
Que hoje tendes na mão.

Aí tendes o pregão
O tom
A clave a  canção:
Cumprir a marcha
É preciso
E é urgente
O “Da capo” do passado e do presente

Onde houver guerra
Desespero
Onde faltar o amor
Tragam a magia da trompa
E o saxo alto e tenor

Quando a noite teima em ficar
E prender-nos
Nos subterrâneos sem luz
Venha o sorriso infantil
Da flauta primaveril
Assobiem  clarinetes
Como  pássaros de Abril

E se chegar
A hora do combate
Pela Paz e pela Vida
Toquem depressa a rebate
Trombetas
Percussões
Trombones e contra-baixos
Mais acima
Mais acima
Até alcançar a colina
Onde há uma chama de todos
Que a todos aquece e anima

Linha a linha nasce a pauta
Nota a nota faz-se a parte
Parte a parte a sinfonia
E dela se faz a orquestra
Estrada longa
Infinita, musa e mestra.

Seja um de vós
Ou linha ou nota
Ou pauta ou parte
Todos fazeis a Grande Instrumental
Erguendo na alvorada de Novembro
Ontem, hoje, agora e sempre
A Marcha Triunfal
De Machico renascido
A Banda Municipal

1.Nov.14
Martins Jr.


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

DEUS E A CIÊNCIA: Caminhos contraditórios, paralelos ou concorrentes ?

 
         É na correnteza dos dias deslizantes que se captam os grandes espaços do pensamento e as pistas seguras para o nosso agir.
         Foi o que sucedeu ontem e anteontem em dois acontecimentos fortuitos. Um deles foi o lançamento do livro-colectânea de teólogos portugueses, da responsabilidade de António Marujo, edições Gradiva, na Livraria Bucholz, Lisboa. O outro foi o discurso de Francisco Papa aos cientistas. Nos dois acontecimentos, está em causa a relação: Deus e Ciência. Perante um auditório de primeira água em que estiveram alguns autores constantes do volume publicado, tive o privilégio de ouvir o Prof. Dr. Carlos Fiolhais, da Universidade de Coimbra, dissertar sobre os dois conceitos, aparentemente antagónicos, focalizando a sua exposição em dois sacerdotes cientistas já falecidos: João Resina e Luís Archer (“o padre que vestiu a bata de laboratório”) chegando à conclusão de que não são contraditórias as duas fontes de conhecimento, mas o importante é que cada uma siga o seu curso normal, sem a tentadora ambição de uma sobrepor-se à outra. Porque quando se misturam indisciplinadamente ou, pior, impõem dogmas de todo falíveis, é a síntese que se perde, isto é, fica prejudicado o acesso à Verdade. Foram aduzidos os casos paradigmáticos de Nicolau Copérnico, Kepler, Galileu Galilei, este último condenado pela arrogância ignorante da Igreja. Mais recentemente, a repressão sobre o grande Teilharh de Chardin. No fim de contas, a Ciência prevalece, precisamente porque é essencialmente “mistério” que se ousa desvendar, mas uma vez desvendado, abre-se em novo e desafiante mistério. Por isso se diz que “a ciência cresce em espiral”.  Primeiro a ciência, depois a razão, citações de Galileu e do Pe. António Vieira.
         Dentro da mesma esfera do conhecimento vão as declarações de Francisco Papa, a que a comunicação deu ontem e hoje o merecido relevo, mais precisamente sobre a tão discutida “partícula de Deus” e o não menos imbricado dilema “Creacionismo-Evolucionismo”.
         É deveras considerável esta coincidência, sobretudo num tempo em que um exagerado e doentio misticismo pretende endossar à Divindade aquilo que é pertença e trabalho do seu humano, seja em verso religioso ou vela piedosa, seja em forçada sacralização do natural e positivo, seja em supostos milagres de duvidosa crença. Para clarificar os dados do problema, o Prof. Carlos Fiolhais discordou de uma das afirmações do Pe Tolentino Mendonça, quando escreve que “a poesia e a arte são questões religiosas”. O Homem é criador, por natureza. Prefiro, pois, a genialidade de Fernando Pessoa quando escreveu: “O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente a dar por isso”.
         Nem de propósito, o jornal “Le Monde”, na sua edição de hoje, citando John Donoghue, Professor na Universidade de Brown, Rhoad Island (Estados Unidos):  “Tenhamos a ousadia de interpretar  os sinais do cérebro”. E acrescenta: “O objectivo é fazer ver os cegos, ouvir os surdos, fazer andar os paralíticos”.
         É este um tema apaixonante e galvanizador a que valeria a pena regressar.

29.Out.14

Martins Jr.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

ABRIL NA PRAÇA ROMANA: “Preciso da vossa bênção!”

Está na moda citar e falar de Francisco Papa.

E com razão, pois que muito caminho e muita vereda falta percorrer até alcançar aquele nascente onde mora o tesouro do seu projecto de reencontrar-se com o mundo de hoje e de amanhã.

Da minha parte, convido os meus companheiros de jornada, via net, para compartilhar um escrito, redigido em 19 de Abril de 2013, na "lua-de-mel" do seu mandato, escrito esse a que nao foi dado o direito de ver a luz do dia, talvez por causa de um modesto parênteses intercalado no texto.

Não será presunção gratuita deduzir que, um ano e meio depois, confirma se a "moral" do texto: se não for o povo , o básico e o rásico, a apoiá-lo, será vão todo o esforço de Francisco Papa.

Escrevo em Abril. No clarão da Páscoa, no coração da Primavera.
É no centro desta trilogia que situo os acontecimentos ocorridos na sede oficial da Cristandade, podendo titulá-los, tanto de Abril em Roma, como de Páscoa Vaticana ou Primavera na Praça, dita de Pedro. Outra coisa não significam as parábolas gestuais com que Francisco Papa  se tem repetidamente identificado. Tal como todos os signos, as parábolas gestuais do argentino-bispo de Roma ultrapassam-se a si mesmas e dizem muito mais que todas as palavras. Haja quem as entenda e, sobretudo, quem lhes dê passagem, quem as fortaleça no conflituoso trânsito da história que todos nós vamos escrevendo! E aqui é que está o essencial dos seus gestos: quem quer vir comigo? Quem está disponível para acompanhar-me neste Abril nascente, nesta Páscoa nova, nesta Primavera rediviva?. Foi isto que ele quis dizer quando, em vez de rasgar a atmosfera com redondas bênçãos papais, pediu humildemente a bênção orante dos milhares de fiéis apinhados na Praça, como a implorar: “Sozinho, não vou lá. Nem com o ouro da tiara, nem com a omnipotente força do báculo papal. Sem vós. serei mais um desertor, um frágil desistente como o meu predecessor”.
O que falta e sempre lhe faltará é que os cristãos abram as suas mentalidades. Bento XVI, com a sua deserção, deixou entre-aberta a porta da Igreja. Francisco abriu-a de par em par, isto é, dessacralizou e desidolatrou o mito do Super-Papa e apontou o caminho para a redescoberta do Cristo e do seu projecto. Bem vaticinou Jean-François Bouthors, antes do conclave: “O próximo Papa não deverá ser necessariamente um homem providencial, porque a Igreja não precisa de ídolos --- e acrescenta --- enquanto perdurar a ilusão  de esperarmos do Papa um milagre salvador, a Igreja será incapaz de reencontrar o dinamismo da sua missão”. Esse dinamismo está  na grande massa que é o Povo cristão, como de resto se manifestava na vivência dos primeiros séculos da Igreja. Mais proximo de nós tive a dita de vê-lo e ouvi-lo pessoalmente em Olinda e Recife, o arcebispo Hélder de Câmara em 7 de setembro de 1972, na comemoração da independência do Brasil: “Diz o governo que sou contra o progresso do Brasil. Mas não!. O que eu quero é o progresso do Brasil,sim, mas com os brasileiros, pelos brasileiros e para os brasileiros”. Na mesma linha, em Portugal,  os teólogos Anselmo Borges, Bento Domingues, Henrique Pinto.
A história esclarece-nos que nenhuma Primavera chega a flor, muito menos a fruto, se a população lhe não servir de terra e água: vejam a Primavera de Praga, a Primavera marcelista, a de Abril, a Primavera árabe…
Quanto mais (ou quanto menos) estiver o Povo no dentro da alma transformadora da história tanto mais (ou tanto menos)  alcançarão sucesso os seus líderes.
É por isso que as parábolas gestuais de Francisco Papa não são apenas indícios de bonomia e  humildade: são, acima de tudo, um imperativo, uma convocatória  colectiva para a acção. Porque ele sabe que o seu mandato não será diverso das passadas do Mestre. Até agora, foi a Quinta-Feira Santa do Pão e do Vinho, a “agapé” dos abraços e dos perdões sem rosto nem fronteiras. Mas doravante começa a sua Sexta-Feira Santa da luta contra os imperadores-banqueiros do Mal, contra os príncipes das trevas montados no próprio Vaticano e disseminados por quanto é mundo. Não foi sem razão que recentemente  Miguel Boyer Arnedo produziu uma profunda reflexão a que deu o título: “O Papado como um inferno”. Aí é que Francisco vai interpelar os aparentemente mais chegados: “Quereis ajudar-me a beber deste cálix de amargura?” Aí é que ele perguntará aos cardeais se estão dispostos a trocar a púrpura mundana pela túnica do “Poverello?" Aí, é que ele vai chamar os núncios, ditos apostólicos de cada país: quereis de facto abandonar essa execrável fraude  de vos considerardes embaixadores estatais de Pedro, um pobre pescador da Galileia? E a cada bispo, (os do Funchal inclusive): até quando ficareis presos à subserviência dos poderosos da política, só porque vos dão um prato de lentilhas, o cimento e o telhado para as igrejas?…  Estais dispostos a sair dos vossos palácios para viver, como eu fiz, num simples apartamento de uma das ruas da cidade?...  
E a cada cristão de base, a cada um de nós, perguntará: queres libertar-te de velhos preconceitos, ver a luz, queres ser militante do Cristo verdadeiro e não das suas caricaturas?... Então vem comigo, aí tens abertas as portas da Vida.
Certo é que --- ele bem o sabe --- os precursores da Revolução, seja ela qual for,  nunca terão em vida o ceptro da vitória em sua mão. É o seu drama e a sua glória.  Talvez que o não deixem ultrapassar a agonia da Sexta-Feira da Paixão. Depende de nós, das nossas mentalidades. Por isso, nunca mais sairá da nossa retina e da memória colectiva o imperativo-súplica de 13 de Março de 2013: “Preciso da vossa bênção!”



27.Out.14
Martins Jr.

sábado, 25 de outubro de 2014

AFRONTAR MAQUIAVEL E A INQUISIÇÃO HÁ DOIS MIL ANOS


“Porque hoje é sábado, amanhã domingo”, parafraseando Vinicius, este bilhete postal vai tentar fotografar um outro visual da personalidade  de J:Cristo, tanto para aqueles que o cultuam como para aqueles que lhe são indiferentes. O mais importante é o conhecimento, porque só se ama (ou detesta) o que se conhece.
Deixou marcas na sociedade  do sé.XX o livro do Prémio Nobel, da Medicina,  Alexis Carrel, sob o título “L’Homme, cet inconnu” (O Homem, esse desconhecido) , o mesmo podendo indagar-se de J:Cristo, a cuja temática correspondeu o grande teólogo Juan Macias, redobrando a incógnita na sua obra “Jesus, esse Grande Desconhecido”. Não nos podemos ficar apenas pelos olhos doces, românticos do Nazareno de Ernesto Renan, em “La Vie de Jesus”, nem tão pouco, como bem protestava Guerra Junqueiro, pelo que nos impingem os          

                    “……………………….funâmbulos da Cruz
Que andam pelo universo há mil e tantos anos
Exibindo, explorando o corpo de Jesus”

Nos dois últimos domingos tentei mostrar que um dos aspectos mais vincados da fisionomia de J:Cristo foi o afrontamento radical  mútuo entre o seu ideário e os poderes constituídos, o político e, mais ostensivamente, o religioso, inimigos figadais do seu projecto libertador. E porque (já então se impunha subrepticiamente o “Príncipe” de Maquiavel) todos os meios eram legítimos para o único fim --- liquidar a mensagem abatendo o mensageiro ---  fariseus, saduceus, sumos-sacerdotes desmultiplicavam-se em estratagemas e armadilhas, quais delas as mais viperinas. Primeiro, foi a questão político-financeira, os impostos. Neste domingo, estamos perante um auto-de-fé, manhosamente urdido. “Qual é o primeiro, o maior mandamento da Lei?”.
Que de peçonha larvar nesta “inocente” pergunta! É que a estratégia libertadora de J:Cristo insistia, até à exaustão, na centralidade da Pessoa vivente, existencial, telúrica mesmo, mais do que na exaltação da Divindade, pois essa não carecia de ser libertada. “Tudo o que fizeres a um destes mais pequeninos é a mim mesmo que o fazeis”.  Esta perspectiva antropocêntrica era objecto da polícia do Templo, que mandava  espiões por entre a multidão, para acusá-lO de “desestabilizador da sociedade, revolucionário do povo, divisionista da nação” Ele só fala nos marginalizados, come e bebe com eles, os pecadores, até as prostitutas, os coxos, os cegos. A rua era a sua Igreja. E onde estava então o “Primeiro e o Maior mandamento: amar a Deus e adorá-lO ?.”.. Quem ousasse desdizer ou alterar este artigo cimeiro das Tábuas de Moisés seria réu no Sinédrio. Podemos dizer que a Lei Judaica era a própria Inquisição “avant la lettre”. A resposta do Mestre foi lapidar, inapelável:”Esse é o maior, mas o segundo mandamento é-lhe semelhante”, igual, paralelo --- libertar a Pessoa.
Eis a luta, os passos diários de J:Cristo!
Tive o cuidado de pesquisar este afrontamento inexorável e encontrei-o  46 vezes em Mateus, 23 em Marcos,  46 em Lucas e 26 em João, os evangelistas.
É nesta veste que o Mestre se apresentou. Nunca perdeu de vista o horizonte pré-definido e convictamente aceite. Nem se contentou com aplausos, vénias, velas, com devocionismos supérfluos. Ele, penso eu, deve ser, hoje, o mesmo de outrora. Ele quer sair da prisão do sacrário e das douradas custódias em que O meteram. Ele quer que O tirem da cruz onde O amarraram e pregaram os donos do poder e da religião. Ele quer viver e quer para todos “a vida em abundância”.
Vamos procurá-lO: nos caminhos, nas aldeias, nas cidades, nos lutadores anónimos que andam à nossa volta, sem darmos por isso. E vamos descobri-lO, ao menos, hoje  naquele lugar de onde há quase dois mil anos esteve ausente: em Roma, em Francisco Papa!

25.Out.14
Martins Jr.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

HOSPITAIS, GENERAIS, PROMESSAS E 400 ANOS DE PADRE ANTÓNIO VIEIRA


As amigas e amigos que têm gosto em acompanhar-me nestes encontros dos dias ímpares  em que vou monologando em voz alta, notaram que, a propósito de Outubro, promessas e Milagres, tento penetrar no íntimo das coisas e dos gestos, chegando à conclusão de que , em sociedades retardatárias, o gesto, enquanto signficante, desmente e adultera o verdadeiro significado das coisas. Pela trilogia dos  títulos anteriores --- “Onde se  fala do dicionário do lume e das velas”…“O Senhor “vendeiro” do Templo? E Sua Mãe feirante de arraiais?”… “Na torcida de uma vela poderá construir-se um monumento de egoísmo exibicionista” --- concluo (admitindo e respeitando aquilo que noutros é expressão fé viva e dolorosa)--- que o significante é uma afronta ao significado. Fecho hoje este ciclo de reflexões com dois casos” muito sérios:
O primeiro, histórico, actual, vivido em carne e osso: um amigo meu foi bater ao hospital com uma moléstia normal e aí agarrou uma outra, fatal, isso mesmo, uma infecção que o amarrou durante 17 meses consecutivos a a uma cama-prisão, completamente imobilizado. “Quase desesperei, mas uma força interior dava-me pés e asas para acreditar que venceria aquela batalha. Lembrava-me de Jesus de Nazaré. Mas, acredita, amigo Martins, nunca fiz nenhuma promessa, nem a Jesus nem à sua Mãe. Apenas me limitava a orar assim: “Divino Mestre, tu que atravessaste a Galileia e deste a cura ao paralítico e ao cego que encontraste à beira do caminho, só te peço que quando passares ao pé da minha cama te lembres deste pobre paralítico que é teu amigo”. Com as lágrimas a correr pela face (a dele e da minha) hoje estou curado. Sem fazer promessa nenhuma. Obrigado, Senhor, pela força que me deste, a mim, aos médicos, aos enfermeiros, aos auxiliares”.
O segundo “caso”, mais sério, porque tremendamente acusativo, vem no Livro dos Reis, capítulo quinto,   e resume-se: Naamã, o comamdante-general do exército sírio, tendo contraído a lepra, dirigiu-se ao Profeta Eliseu, depois de ter percorrido os melhores físicos (médicos e magos) de Damasco. E ficou limpo, “com a carne tenra como a de uma criança”  (5,14). A comitiva vinha preparada com presentes, ouro, prata, vestes sumptuosas para oferecer ao Profeta, o qual, em alta jura, protestou que não aceitaria nada, em nome do Deus Vivo. Entretanto, o seu ajudante, o levita Giési, tendo presenciado toda esta cena, deixou que o general e sua comitiva se afastassem a alguma distância, para logo se seguida , clandestinamente, a trote da sua montada, correu, correu e, com uma falácia ardilosamente engenhada, pediu as preciosas prendas e o “milagrado” ofereceu-as generosamente e em duplicado para acção de graças ao Deus de Israel. Ao fim da tarde, o Profeta chamou-o a contas e disse:Agora estás rico com o dinheiro com o dinheiro de  Naamã . Mas terás ainda mais uma coisa: “Vais ficar com a lepra dele, tu e a tua descendência. E assim se fez.” (5, 27).
Comentários, para quê?... Ficam ao vosso critério.
Termino com a sentença do Pe.António Vieira, no sermão da segunda dominga da Quaresma, em S.Luis do Maranhão, capital do nordeste brasileiro, diante dos altos comissários (altos e hipócritas) da Irmandade das Misercórdias: “As imagens de Jesus crucifiicado que estão nas igrejas são imagens falsas porque não padecem. Imagens verdadeiras de Jesus crucificado são os pobres, os doente, porque padecem e sofrem. Melhor que houvesse nesta cidade um hospital e não houvesse igreja. Mas, não havendo maneira, então que se converta esta igreja em hospital, que Deus ficará mui contente disso”.
Dito há mais de 400 anos!
       Onde cabem aqui as promessas vendidas e compradas para as igrejas?
Só regredimos, só nos enganaram!
E há povo que gosta de ser enganado.
23.Out.14

Martins Jr.