quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O IMPOSTOR QUE PEDE ESMOLA E MATA


Não vi o” debate do ano”, por excessiva acumulação de afazeres na preparação da festa da Ribeira Seca, dedicada ao seu Orago, a Senhora do Amparo --- o sobrenome que mais condiz com a Mãe do Cristo.Libertador --- a realizar-se no próximo fim de semana.
Mas não preciso de nenhum travesti com que se  revista o Primeiro Ministro para salivar palavras gastas. Quem  sabe o que bateu e bate sempre nos portugueses, dispensa qualquer debate. Devo dizer que, pessoalmente, sinto um asco intragável pelo requinte viperino de um falsário que maneja o embuste com uma agilidade simiesca, direi mais (e aqui não me engano) finta o irmão, o amigo, o colega, com a mestria do assassino que vai depor uma coroa de flores na tumba da sua vítima.
E é tal a repulsa que não me demoro na tinta e no papel. Não consigo apagar da minha retina aquela resposta pronta, timbrada e virgem, como a dos eunucos da corte, quando na campanha eleitoral de 2011, alguém o questionou sobre se iria cortar nas pensões e aumentar os impostos: “Não, nada disso. Quem lhe disse isso?... foram os socialistas que lhe meteram isso na cabeça. Não senhor, fique descansado”. A peçonha licorosa de uma consciência calçada de pedra-pomes aferiu-se depois pelas medidas tomadas, logo na primeira esquina do pobre transeunte, o Povo português. Tudo ao contrário. E não se diga que foi por causa da troika. Porque com ou sem  troika, era isso que estava na  mente do impostor desde a primeira hora. A prova está no desplante de proclamar, “urbi et orbi” que propositadamente foi além da troika. Destruir o Estado-Nação e o seu constituinte originário, o Povo, eis a cizânia virulenta, desde sempre incrustada  na epiderme seráfica de quem , chegando ao governo, vendeu o corpo produtivo de um Povo e envenenou-lhe o espírito. O instinto genético de passar ao privado o que era de todos acompanha-o até à pedra da morgue, como se tem visto ultimamente. Se  chamar maquiavélico é o mínimo que se lhe pode dizer, pois que foi o autor de “O Príncipe” quem advogou que: o fim justifica os meios.
Mas não vale tudo na vida! Há limites. Menos para as consciências sem consciência, lobos devoradores sob a veste de cordeiros.
E o outro sócio não lhe faz por menos. Acho desprezível, hilariante mesmo, aquele ar herodiano que lhe cresta o nariz adunco, quando pretende relampejar faísca e ribombar trovões de pólvora seca aos jornalistas e interlocutores. O episódio herói cómico do “irrevogável “ diz bem da esperteza  saloia de um e da fraqueza vil do outro. Em nenhum casamento  se viu tão requintada traição. Só para trepar mais um piso.
Não tenho estômago para ouvir gente desse pano cru  que,  parecendo vestir o usuário, despe-o até ao tutano! Aceitem os meus amigos ou  não aceitem,, quero fazer uma declaração de fé, que mais parece uma abjuração fatal.  E é a seguinte: ainda que essa raça mandasse dourar as auto-estradas, ainda que fartasse os famintos à beira da inanição, ainda que oferecesse (digo “oferecesse”, porque lá prometer, promete) o céu e a terra, EU NÃO ACREDITARIA em semelhante espécime. E o que mais me apavora é a memória curta de tanta gente míope que se contenta com um par de botas para abrir, não o  caminho, mas a vereda espedaçada.
Roma, a antiga,  não pagava a traidores. Não sei como, no século XXI, ainda há  quem pague  aos impostores que lhe devoram os dias.
Por isso, sem  seguir o debate de  quem, do alto de São Bento,  bate  e rebate num Povo inseguro,  já o entendo desde 2011. Chega de pantominice!

9,Set,2015

Martins Júnior

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

COMO EU VI A “INDEPENDÊNCIA DO BRASIL” HÁ 43 ANOS




Na mesa redonda do SENSO&CONSENSO não há lugares marcados nem inscrições protocolares. E aí, no aconchego do ecrã, a ementa surge ao ritmo da vida, detectando no particular e no imprevisto a leitura do universal que permanece. Por isso, deixei para outro repasto o prometido  “III Acto” e enchi os pulmões do perfume telúrico da floresta amazónica, desbravei da memória as ondas de Copacabana, ao som do samba saltitante da Baía.
         Porquê?
Porque hoje é o 7 de Setembro, Dia da Independência do Brasil. E, daí, dei comigo em Olinda e Recife, comemorando uma outra Independência do Povo Brasileiro.
Foi em 1972, durante uma viagem em que, como é meu indomável instinto, guiei-me pela  agulha magnética de Fernando Pessoa, quando afirma: “Vi como um danado”.  Posso afiançar-me que foi neste íman que se concentrou a infinidade de lugares e quilómetros percorridos, interessando-me, muito impressivamente, a situação da América Latina, onde, segundo  ouvira falar, estava ao rubro a Teologia da Libertação. Foi assim que, depois da audiência com o afável e tangível arcebispo de S. Paulo, o cardeal  Evaristo Arns;  depois do militante activista bispo Duarte Calheiros que, em sua humilde casa em Volta Redonda, me apontou as coberturas de zinco das fábricas espalhadas à nossa frente e satisfez a minha curiosidade quando me ia  informando: “Olha, padre português, aquelas são as catedrais da minha diocese” --- depois, ainda, de atravessar os enormes celeiros verdes produtivos entre S. Paulo e Brasília, onde contactei um homem, na aparência, serrano, o grande bispo Tomás Balduíno,  andando no terreiro de uma habitação sertaneja , era a residência episcopal --- depois de tudo isto, alcancei a meta do meu sonho brasileiro: encontrar-me pessoalmente com o famoso pela luta, eloquente pela mensagem, corajoso como o vento do  nordeste, o bispo Hélder da Câmara. Além da beleza indescritível de toda a fímbria costeira que une as duas cidades, calhou-me nas mãos a coincidência ideal: era o 7 de Setembro e na quinta do Paço Episcopal ia comemorar-se a Independência do Brasil. A meio  da tarde, pedi audiência ao homem que todo o dia recebia  entidades de todo o mundo ( estavam saindo nesse momento, três jornalistas americanos) e o veterano bispo falou-me do Brasil, da Igreja, do governo da ditadura então vigente, sei lá, num instante abriu-me o planisfério da América Latina, “vítima das ambições capitalistas  do Pentágono”. Convidou-me, no fim, para as comemorações da noite, nesse mesmo local.
Fica-me pena não ter suficiente espaço na paciência de quem me lê, para poder descrever a beleza única, a inspiração genuína, enfim, o fogo patriótico que emanava daquele chão. Tentarei sintetizar.
Para começar, devo esclarecer que o Paço Episcopal era um daqueles monumentos senhoriais, talhados à medida dos imponentes palácios da era dos latifundiários coronéis e governadores, Mas  Hélder da Câmara  ( a quem, horas antes, o vendedor da banca de jornais mo tinha catalogado de “bispo comunista”) não era inquilino do palácio: entregara todas as dependências e os vastos territórios anexos para fins sociais e culturais, onde estavam instaladas as sedes de movimentos de jovens, idosos, assistência social na doença e na pobreza, enfim, doara o palácio diocesano e foi viver para uma casa rasteira (eu, comovidamente,  bem a vi)  junto a uma estrada secundária da zona.
Mas vamos ao Dia da Independência. Um ambiente de apoteose esfusiante como só os brasileiros sabem fazer. Protagonistas: a multidão em massa apinhada na base dos degraus típicos dos solares coloniais e, no largo patim superior, o palco improvisado, envolvido pelo ondear de uma enorme bandeira, “meu coração é verde e amarelo-branco-azul do mar”. Artistas: grupos de todas a idades, representando os diversos bairros e núcleos daquele território, cada qual na sua vez, um colorido de vozes e trajes de encantar. Foram quatro horas inesquecíveis que, sendo longas, pareceram-me tão breves! Brancos, negros, mestiços traziam no canto e na coreografia original, a exaltação do seu país, as emoções, o orgulho do seu Brasil, à mistura com muitas mágoas, muitos dramas, mas tudo num ritmo fascinante e numa linguagem metafórica --- não aparecesse por ali algum espião da ditadura.
Um pormenor que não resisto a partilhar convosco: estou a ver o bispo Hélder sentado numa cadeira, junto ao palco e, num ápice, vejo-o descer, ágil no seu corpo franzino, dirige-se a um homem alto, esguio, ali de pé,  tez  morena do sol nordestino sob um chapéu de abas largas. Era um velhote, entrado seguramente na casa dos 80 anos. Pois o “ nosso”  bispo pega-lhe pela mão, fá-lo subir os degraus e senta-o na sua própria cadeira especial. E ficou de pé, junto do veterano, todo o tempo que durou o espectáculo. Que ternura, que simplicidade, que transparente suavidade de espírito para quem presenciou!
Vou encurtar este longo relato. Mas deixo para o fim, a cereja em cima do bolo daquela noite. Aconteceu quando Hélder da Câmara encerra a festa da Independência. E aquele que parecia um insignificante emaranhado de ossos, não de média mas de baixa estatura, ocupa o meio da cena e, como num misterioso relâmpago, todo ele se ilumina, a voz  transcende-o, o pequeno corpo  frágil  parece alcandorar-se acima da terra e entra, humilde e avassalador, na mente e no coração de  todos quantos ali estávamos. Sem medo, alto e bom som, levanta o ânimo das gentes e afronta o poder da ditadura, num misto de defesa de ideais e ataque aos detractores da sua luta, os poderosos do reino brasileiro. E fala assim:
“Dizem eles que eu ou que nós não queremos o progresso do Brasil. Não é verdade. Queremo-lo e muito mais do que eles. Só com esta tremenda diferença:  É que nós queremos o progresso do Brasil, sim, mas com os brasileiros, pelos brasileiros e para os brasileiros”.
Em ponto final: que estilo tão autêntico de comemorar o Dia da Nação! O Dia da Região! Tão longe e tão diverso daqueles ambientes de rígido protocolo, insípidos, molengos, fastidiosos e, por isso, tão alheios aos verdadeiros soberanos do país: o Povo! Aqui apetece citar a tirada de Eça de Queiroz na famosa carta a Pinheiro Chagas, onde verbera, forte e sarcástico, os falsos patriotas, quando os define como “patriotaças,  patriotarreiros,  patriotarrecas”.
Onde quer que esteja o pó desfeito do bispo de Olinda e Recife, aqui deixo ao seu espírito perene a gratidão de quatro décadas ao sempre imortal libertador do Povo, o magno Hélder da Câmara, precursor de Francisco Papa e caminho aberto para bispos infantis, padres inconscientes, cristãos dorminhocos, todos os que, afivelando patriotismo nas palavras, não passam de malfeitores “patriotaças,  patriotarreiros,  patriotarrecas”.  
 7.Set.2015
Martins Júnior

sábado, 5 de setembro de 2015

A IDA DOS NOSSOS PASTORES À “BRUXELAS ROMANA” – QUE NOVAS VIRÃO ?




No intervalo entre o II e o III Actos da peça que iniciei no último Dia Ímpar, surgiu um aparatoso anúncio publicitário: os bispos madeirenses vão até Roma, na protocolar visita “ad limina”, isto é, aos túmulos de Pedro e Paulo. E achei por bem aproveitar a notícia para aperceber-me da séria relevância (assim deveria sê-lo) desta digressão periódica. O seu objectivo é prestar contas ao Papa acerca da vida de cada diocese. Aí apresentam os bispos portugueses um relatório (exaustivo, deveria sê-lo) sobre o estado da respectiva  “Nação Diocesana”. Assim sendo, bem poderia comparar-se esta viagem àquela que os Primeiros-Ministros fazem a Bruxelas para dar conta da saúde financeira,  do estado social, da execução orçamental, enfim, da real situação do seu país.
Não sabemos que levarão na bagagem os nossos prelados regionais. Não consta que tivessem proposto à consideração dos órgãos representativos dos diocesanos o referido Relatório. Seria de suma importância tomarmos conhecimento, senão do texto integral, ao menos dos “itens” principais, a hierarquização dos problemas que à Igreja local se põem ou, por que não, propor as adendas de certos temas de interesse público para a cristandade regional.
Não é difícil imaginar os arcos triunfais de cada dossier,  sob as quais passarão as lusas mitras, como também é perfeitamente alcançável o estilo rendilhado das   iluminuras que ilustram as páginas untuosas, coloridas, como os vitrais das catedrais góticas, com que descreverão os bispos madeirenses a epopeia da  Fé  e do Império na sua diocese. Não faltarão os encómios do Congresso dos 500 anos ( pelo que se viu, melhor seria titular de Congresso dos 400 ou 300 anos, tal a premeditada orientação de ocultar a história da diocese, no que de mais  próximo tem dos nossos dias. Hão-de descrever a religião-espectáculo, as grandes procissões, a participação episcopal  nos arraiais de verão e, de inverno, nas Missas do Parto, com a avalanche de cristãos  a inundar os adros, as avenidas, as praças públicas. Não faltarão as referências aos afectos e edificantes relações dos bispos com o governo regional que lhes fez igrejas, sacristias e casas paroquiais.
Quanto ao mais, eles não levarão nada nem ninguém na bagagem que sirvam  de testemunhas. Ó perfeito segredo dos deuses, contando de antemão com “advogados” seus, nossos conterrâneos,  bem colocados nas cúrias e congregações ou dicastérios (tribunais) do Vaticano! Certamente, não virá a tona de água uns resíduos sequer do Jornal da Madeira e da sua entrega ao poder político regional. Pelo contrário, até dirão: “Foi o Espírito Santo que nos soprou a inspiração para nos retirarmos a tempo, isto é, antes da visita  “ad limina”. Perante o Papa da inclusão, esquecerão os nossos bispos de relatar a mais sádica exclusão a que sujeitaram uma paróquia, esquecer-se-ão de auto-incriminar-se por se recusarem hã mais de 40 anos administrar o Crisma  nessa igreja  e –oh suprema amnésia ! --- passará em branco e  negará , talvez, o actual bispo que não deixou a Imagem Peregrina entrar no adro dessa mesma igreja. Que dir-lhes-á o Papa da inclusão e  das periferias quando (e se) lhe disserem que mantêm um padre suspenso há décadas sem julgamento, nem sequer processo canónico formado?
Quanto ao prelado reformado, lembrar-se-á o senhor que, de parceria com o governo,  mandou a PSP em peso ocupar  um templo católico, durante 18 dias e 18 noites?  Certamente, tecerá como uma novela “brasileira”  o caso de  um tal padre Frederico, pederasta relapso, evadido da cadeia e comparado pelo próprio bispo a Jesus Crucificado e, por tal, nunca foi suspenso da diocese?...
Perpassa-me pela retina a reacção do Papa Francisco perante tamanha profanação, sobretudo porque foi ele, Francisco Papa, que deu ordens terminantes para denunciar aos tribunais judiciais os superiores hierárquicos que encobrissem casos destes. Acabou de falecer, imprevistamente, o cardeal polaco Joseph Woselonwky, de 67 anos, cujo processo estava já pronto para julgamento.
Enfim, espero que aos dois antístites madeirenses, não se lhes aplique, nesta viagem, aquele rótulo  com que o Papa Francisco criticou, no ano transacto, certa hierarquia, a quem chamou  “bispos de aeroporto”.
Vamos aguardar que novas trarão os nossos residentes embaixadores pontifícios. Integrar-se-ão, enfim, no caminho novo (porque antigo e autêntico) que traçou o Papa Francisco ou posicionar-se-ão ao lado dos 17 cardeais da Oposição, de que nos falou hoje Anselmo Borges, na sua crónica semanal do “Diário de Notícias” de Lisboa?
De Bruxelas sabe-se sempre qual o teor da apreciação que os órgãos decisores europeus fazem dos relatórios nacionais. Veremos se algum lampejo surgirá da “Bruxelas Romana” a iluminar ou a rasurar certas páginas do Relatório Diocesano. O nosso bispo disse que iria oferecer aos túmulos de Pedro e Paulo as suas orações pelos madeirenses. Esperamos mais,  o que nunca aconteceu, de há 8 anos a esta parte: ACÇÃO. Eis o lema de Francisco Papa, Acção!

5.Set.2015
Martins Júnior


quinta-feira, 3 de setembro de 2015

“MORRER É DEIXAR DE SER VISTO”

A definição é do genial Fernando Pessoa. E, como é próprio dos génios, deixa ao interlocutor as linhas tracejadas para que este possa completar o espaço que coroa o pensamento. E o pensamento lógico e psicológico não pode ser outro: deixa de ser visto, mão não fica esquecido. Entre o ver e o esquecer medeia a capacidade interpretativa que define o olhar que condensa toda a realidade envolvente.
O “Jornal da Madeira” morreu. Deixou de ser visto, mas não esquecido. E aí, chega-nos a sabedoria popular:” Quem não sente (ou não se sente) não é filho de boa gente”. Se o colectivo da sociedade madeirense não tem suficiente sensibilidade para entender o drama e a traição da Igreja Católica ao seu ideário fundamental,  entregando  o veículo transmissor da doutrina ao mais sectário poder político,   então  é sinal de que  estamos todos  anestesiados, dopados até à medula, para não vermos e  sentirmos o “crime” que ali se perpetrou. A prova é mais que toda: ninguém denunciou. Todos se enfiaram nas suas tocas, nos antros do seu interesse e do seu comodismo.
Corrijo: todos, não. Eu, também não! E por isso paguei uma  considerável “facturinha ”, no tribunal do jornal e no subconsciente da opinião pública. Como prometi na última edição do SENSO&CONSENSO, vou contar em três Actos algo do muito que presenciei frente a um monstrinho, cara de santinho e garras de satãzão..
         I ACTO
No dia 1 de Julho de 1988,  já lá vão 27 anos, coube-me fazer uma intervenção na sessão solene do Dia Da Região na Assembleia Regional da Madeira, presidida pelo então Presidente da República, Dr. Mário Soares. Entre outros temas, abordei frontalmente, como é meu ADN, o problema do Jornal da Madeira. E disse:
Não se engane mais a população católica madeirense com um falso estatuto editorial, fazendo vender política em vez de transmitir a crença religiosa… Se o governo regional é o patrão de 80%  do Jornal da Madeira, por que permite o estatuto editorial e a direcção da diocese?...Que preço custa, meus senhores, esta coabitação? Só num país de terceiro mundo! Nunca a instituição eclesiástica deveria permitir que, sob as alfaias pontificais, se atraiçoe a população crente desta Região, transformando este órgão de comunicação social num panfleto partidário. Porque assim, em termos evangélicos, é um contra-testemunho e, politicamente, tornou-se uma barricada sem escrúpulos, onde o patrão (é esse o nome exacto) ataca ignobilmente pessoas, instituições, iniciativas,  até enxovalha esta casa e os próprios deputados do Parlamento Regional… Quando se ataca a imprensa estatizada do continente português e se reclama a sua privatização, aqui na Madeira, o governo estatiza aquilo que é privado. Pergunta-se: Que povo  sairá desta autonomia, desta organizada estratégia em fazer calar quem reclama o seu direito, em obscurecer a mentalidade colectiva desta gente e cujo objectivo é apenas opar, fazer crescer a máquina do poder?!... Sim, meus senhores, por mais paradoxal que pareça, a verdade é esta: vivemos numa terra pobre de recursos, mas rica, opulenta de poderes!”
Escusado será dizer que a minha intervenção foi repetidamente interrompida com protestos e “apupos por parte dos representantes das comunidades madeirenses” (refere o Diário da Assembleia) os quais tinham vindo à Madeira, escolhidos pelo presidente do governo regional.
II ACTO
A edição seguinte do jornal não referiu nem uma das muitas passagens do meu discurso. Em seu lugar, o senhor director, cónego Tomé Veloza ( Deus o tenha)  escreve uma longa catilinária, de que vou respigar alguns excertos mais expressivos:
“Vária pessoas, pelo telefone ou mesmo pessoalmente, pediram-nos para manifestar publicamente a repulsa pelo ascoroso discurso do padre suspenso… A deselegância, a grosseria, a desvergonha fizeram daquele discurso um escarro imundo na face da Igreja diocesana… O padre suspenso constitui uma anormalidade na vida da Igreja… e antes de mais devia pedir a sua redução ao estado laical… padre infeliz O seu discurso insultuoso é um gesto de ingratidão, Tudo quanto lhe foi dado para crescer na vida recebeu-o da diocese… Esta comunidade, perante o discurso ignominioso do padre suspenso lamenta o triste facto e todos queremos afirmar ao nosso Bispo a maior admiração e respeito e com ele colaborar, mesmo com as borrasca e ciladas do padre suspenso”.
Alguém soube, pelo jornal, uma única palavra do meu discurso?  Ninguém. E o sr. cónego-director deu-se ao trabalho  de contraditar alguma afirmação minha? Também não. O que lhe deu  na gana? Aplicar mimos literários como estes: “rancoroso…grosseria…desvergonha…escarro imundo…padre infeliz… uma anormalidade…ignominioso…padre suspenso (6 vezes).  Leiam a “Palavra de cada dia”,    de 3.Julho.1988, pág.3).
         É esta uma pequena amostra da literatura do “Jornal da Madeira”, dirigido por um cónego (Deus o tenha) às ordens do patrão governo regional.
Logo compreendereis vós  a razão pela qual eu não podia faltar ao enterro do “catolicíssimo” Jornal da Madeira. Deixou de ser visto, mas não esquecido. E vós, naturalmente, perguntareis em que ficou tão “interessante” peça de teatro de província?
É o que veremos no próximo Dia Ímpar.  Será o III Acto. Modéstia à parte, posso garantir o tal “clic” publicitário: “A não perder!”

3.Set.2015

Martins Júnior

terça-feira, 1 de setembro de 2015

"OS COVEIROS-VENDILHÕES DO ALHEIO"

"OS ILEGÍTIMOS HERDEIROS"

OS ENGANADOS E DESERDADOS DE SEMPRE


Ninguém foi ao funeral. Poucos até  deram pela morte dele. Talvez
os analfabetos que o agarravam de manhãzinha, à Rua Fernão de Ornelas,  depois iam ao mercado embrulhar batatas, chicharros, hortaliças. Quanto ao mais, julgo que até houve festa. Vêm-me à lembrança  os versos de Gomes Leal, dedicados à “Senhora Duquesa de Brabante”, aquando da morte do filho disforme,  pelos de fera, uivos de animal, fruto dos amores entre ela e Satã, vestido de uma armadura feita de um  brilhante:


Ora, o monstro morreu. Pelas arcadas
Do palácio retinem festas, hinos,
Riem nobres, vilões, pelas estradas,
O próprio pai se ri, ouvindo os sinos.


Riem-se os monges pelo claustro antigo,
Riem vilões trigueiros das charruas,
Riem-se os padres junto ao seu jazigo,
Riem-se os nobres e peões nas ruas.


Morreu ontem o “JORNAL DA MADEIRA”. Já ninguém mais se apoquenta com ele, nem a madrasta diocese, nem o padrasto João, nem os escrevinhadores-roedores autómatos (agora postos em fuga) nem sequer os deputados no parlamento… Acabou-se a relação incestuosa governo-igreja, acabaram-se  os filhotes distribuídos de graça e aos montões, finaram-se as participações de mortos, a pataco. Enfim, um arraial!


Só chora o monstro, em alto choro, a mãe…


Poesia ou ironia à parte, o caso não pode passar incólume. Há que chamar ao banco dos réus da consciência colectiva os “assassinos” de um filho dilecto da Igreja  madeirense, esses mesmos que o transformaram num monstro, irmão dos cerdos e dos ursos/ Aborto e horror da brava natureza.  


Serão sem conta as contas a fazer quando se proceder à exumação do cadáver. A história terá de registá-las, desde os autos-de-fé e condenação na praça pública de madeirenses honestos até ao sorvedouro das finanças regionais, pagas pelos pobres contribuintes.  Por hoje, fixar-me-ei exclusivamente no processo contorcionista da total deformação identitária do Jornal da diocese para órgão de  partido político.
Sigamos a trajectória resumida dos factos. Eu lembro-me, era a década de 50 do século XX, das grandes campanhas que a Igreja fazia em prol da Boa Imprensa, peditórios nas igrejas,  ofertas de  produtos agrícolas recolhidas por grandes camiões que percorriam a ilha inteira  Lembro-me das afervorados apelos da Diocese para suportar o seu Jornal.   Lembro-me, ainda, do período ambíguo em que à frente do Jornal esteve o prof. Basto Machado, comissário  da “Mocidade Portuguesa”,   do Estado Novo. Mas logo depois, a Diocese inflectiu o rumo e posicionou-se  energicamente como líder do seu órgão de informação:  entregou a direcção do Jornal e a chefia da redacção a uma plêiade de  sacerdotes de prestígio intelectual e moral, tais como Agostinho Gomes, Jardim Gonçalves, Maurílio de Gouveia, Paquete de Oliveira, Abel Augusto da Silva. Foi preciso chegar ao “25 de Abril”  para que um bispo lisboeta, colaboracionista confesso  do regime deposto, cometesse o criminoso, porque injustificado, acto de escorraçar da direcção do Jornal o Pe .Dr. Abel Augusto da Silva e lá colocar um imberbe e medíocre recém-finalista de Direito, mentor e assíduo colunista do  semanário “Voz da Madeira”, órgão oficial da União Nacional, o partido único da era fascista. Aí, começou a putrefacção do jornal católico para transformar-se em panfleto partidário, “bunker” do PSD e paiol do armamento político que levou o tendencioso, para não dizer, mafioso director até ao palácio da Quinta Vigia, onde permaneceu durante quase 40 anos.
Depois, “de grão em grão enche o papo o papão,  um outro bispo sem coluna vertebral nem o mínimo sentido de Igreja, o madeirense Teodoro Faria, entrega-se e entrega quase a total propriedade do Jornal ao governo, a pretexto de dívidas à Segurança Social. Foi o “xequemate"  não só ao Jornal mas à própria diocese. O mais grave, porém, e cúmulo da hipocrisia eclesiástica foi permitir a ridícula farsa de aceitar a pseudo-orientação editorial e a nomeação do director que mais não era senão uma “marionette” nas mãos do governo. Foi nessa folha híbrida, incestuosa, que o bispo publicou a, de má memória,  Nota Pastoral em que comparava a Jesus Cristo Crucificado o secretário particular, o jovem brasileiro Padre Frederico, pederasta, condenado a 17 anos de prisão e, mais tarde, misteriosamente, foragido da cadeia de Vale de Judeus. Era para barbaridades destas que servia o chamado órgão diocesano, Jornal da Madeira.
Neste fétido pantanal cai o terceiro bispo “de Abril”, o algarvio António Carrilho,  e --- o que mais repugna --- é o  ter-se sentido ali bem instalado,  sem o mínimo de verticalidade, pudor ou  fidelidade à matriz  originária da Igreja,  acomodou-se, inerte --- a troco de 10, 11 e 12 fotografias suas nas edições domingueiras --- sem ao menos ter a coragem de romper com essa maquiavélica aliança  siamesa. Até que, a partir da semana passada, foi ela mesma, a Igreja,   vítima de uma excisão forçada e, por tal, humilhante.
Tenho --- e muitos outros têm --- “coisas”  de contar e pasmar sobre o que significaram 40 anos de coabitação, direi mais, subjugação  do episcopado madeirense à governação política regional e de que o Jornal é dos mais cruéis libelos  acusatórios. Mas o que revolta, acima de tudo,  é o silêncio cúmplice, cobarde, dos católicos, a começar pelo clero, padres, freiras, cónegos, “cursistas da cristandade”, Acção Católica, docentes de religião e moral. Todos se encolheram, todos se calaram, afora raras e honrosas excepções nas quais me incluo, como brevemente terei oportunidade de contar.
Por isso, acho que ainda vai no adro  o enterro  do monstro, “filho do pacto amoroso entre Satã e a  Senhora Duquesa de Brabante”,  diria Gomes Leal. Levantem-se as testemunhas e chamem ao banco os responsáveis ainda vivos, porque os outros muitas voltas e muita cinza  já terão levantado no pó da sepultura!
Judas vendeu o Nazareno por trinta moedas. Os três bispos do Abril ilhéu venderam o seu espólio a custo zero. O grande Bispo de Hipona, Santo Agostinho,  definiu a Igreja como “casta meretrix”. Se ele hoje viesse à Madeira teria rasurado o qualitativo “casta”  e substituído por outro desqualificativo. Todos somos culpados!


1.Set.2015
Martins Júnior
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Temos agora a versão sincopada, envergonhada, assolapada, JM. Não me pronuncio sem ver. Até saúdo, só por isto: agora é que vamos ver a independência dos matutinos, até agora, rivais.  Porque, daquilo que conheço, há tanto de “independente” como de “irrevogável” tinha o andarilho das feiras Vai ser bonito de ver. Atenção aos próximos episódios.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

HOJE É DIA DE SER LIVRE! --- DIA MUNDIAL DO “BLOG”

 
    Hoje é Dia de Ser Livre!
 Há dias para tudo. Assim convencionaram os usos e costumes: o Dia de ser Bom (será o Natal), o Dia de Amar (será o 14 de Fevereiro), o Dia da Paz (1 de Janeiro), o antigamente designado “Dia da Raça” (10 de Junho) o Dia  da Criança, do Idoso e até do Direito à Preguiça,  tantos tantos que os 365 dias do ano ficam sobrelotados e obrigados a se desdobrar ou triplicar de apelidos, uns para bem, outros assim assim..
         Mas hoje é Dia de Ser Livre. É a liberdade reconquistada, um novo Abril, Revolução Global, em 1999, quando a Pyra Labs derrubou os monstruosos  fantasmas  “pré-históricos”  da Informação e abriu o Caminho da Liberdade a todos quantos se sentiam  aprisionados nas grades dos poderosos  manipuladores da opinião pública. Falo, como é evidente, do Dia Mundial do “Blog”, comemorado em  31.08, dizem que pela verossemelhança gráfica  entre os dois termos justapostos.
         Foi esse um histórico “Grito do Ipiranga” contra os magnatas das finanças, os banqueiros,  os regimes autoritários e austeritários, as instituições da Santa Aliança sacro-política, enfim, todo esse travestido “Estado Islâmico” de muita informação, que esconde criminosos, mata inocentes, fabrica ídolos  pés-de-barro,  depõe reinos e entroniza  sabujos serventuários  pela mão de muito escriba entregue ao sistema, a troco de  um “prato de lentilhas” e de “um par de sandálias”. É que, de outro modo, serão eles, os  sérios formadores do leitor,  quem figura à cabeça  da lista candidata ao desemprego. Não é preciso nadar fora do ilhéu para pescar  exemplares espécimens.
         A singular descoberta do “Blog” sobrevoou a mediocridade reinante no planeta dos anões e entregou aos mortais o fogo purificador, a arma higiénica  para  a desinfecção do pantanal informativo dos vários continentes.
         Dir-me-ão que o “Blog” serve também de húmus produtor de viroses, inutilidades infestantes, desmandos adúlteros da verdade. É certo. Mas, ao menos, tens na tua mão o poder de combatê-los em campo aberto, na praça pública, no átrio dos gentios. Ninguém te pode mais amordaçar. Já não tens de desembolsar somas vultuosas (como a mim me aconteceu, tantas vezes) para desmontar impropérios e calúnias que os órgãos oficiais e oficiosos do poder político-financeiro e eclesiástico tentaram  enxovalhar-me no bucho deste mafioso felino deitado, em que esses tais transformaram a ilha,   embebedando uma população indefesa, prisioneira atávica de 740 Km2 de terra e outras vezes mil milhas de obscurantismo forçado.
         E mesmo que certas  derivas do “Blog” resvalem para labirintos de duvidosa higiene mental,  eles acabarão por diluir-se, inanes,  no inelutável processo da selecção natural.. E aqui também há-de reconhecer-se o princípio geral da jurisprudência que “mais vale mandar absolvido um criminoso  do que condenar à cadeia um inocente”.  Haverá  sempre um atalho por onde possas alcançar  o alto da colina e  aí erguer, brilhante e liberto, o facho da Verdade.
         Tarde descobri este instrumento ímpar de comunicação. Talvez  por cepticismo ou inércia interpretativa. E por isso também decidi fazer jus  a tão singular instituição, lançando ao vento que passa  mensagens  em todos os “Dias Ímpares”,  pela sigla “SENSO&CONSENSO”. Mesmo que nem sempre consiga o  desejado “consenso”,  (o que tenho de aceitar e respeitar, em nome da liberdade constitutiva do “Blog”)  basta-me soltar a alma e a voz, sabendo que  mãos avaras e  olhos enviesados de certos censores internos  arranquem da múmia dos seus interesses pessoais o  pidesco “lápis azul” do ostracismo salazarento.
         Venham mais “blogers”,  juntemo-nos no vasto areópago gerador de discussão, verdadeira Assembleia dos Povos Unidos,  sem muros  cromados nem cadeirais  de veludo,  mas no terro comum da Praça da Liberdade, de onde sai a luz que ajuda a alumiar  os breves caminhos da nossa existência.

31.Ago.2015
Martins Júnior
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N.B -  Era outro o tema que me propusera para hoje. Imaginem: um funeral, há tanto desejado, onde em vez de pranto haverá foguetes a estralejar  na noite madeirense. Fica para amanhã, o primeiro Dia Ímpar de Setembro.

sábado, 29 de agosto de 2015

A ARMADA LUMINOSA DOS FACHOS DE MACHICO – Homenagem aos seus autores de ontem, de hoje e de amanhã


No princípio era a  lava
Sem rumo sem freio
Delírio marinho rasgava
O aquático seio
Da mátria-mária da criação primeira

Depois fez-se dinossauro vigilante
Guardador da fronteira
Da ilha

E o Povo seu
Maior feito fez que Prometeu
Roubou o lume novo
Não do Olimpo de Zeus
Mas das oceânicas magmas sem fundo

Voltou
Trazendo no porão
Tesouros e milagres
Mais que as caravelas
Do Infante de Sagres

Foram  de fogo virgem suas velas
De barbatanas vermelhas
O leme das naus
E de  cantantes  crepitantes  as centelhas
Com que o vento sul varou as quilhas
Até alcançar o dorso
Do dinossauro guardião das ilhas

Mãos rudes outrora já finadas
Sabendo a óleo bruto,  fumo, lama  e chama
Hoje mãos jovens e robustas
Ide correndo
“Per angustas ad augustas”
Compondo  sonata outra de Stravinsky
Que não do “Pássaro”
E sim  da nova, nocturna  e  alada
Armada de Fogo

 Jamais se quebrarão
 Os mastros altos  que a lua cheia
Viu e tocou nesta noite de Agosto

Mais doze  luas virão
E outras tantas marés:
Das cinzas caídas aos pés
Machico aceso, voltarás
Como a Fénix renascida
Da Filha de Tristão Vaz

29.Ago.2015
Martins Júnior

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Nesta noite, para nós, os veteranos, sempre memorável, não resisto ao apelo de outros tempos que sinto ecoar dentro de mim. São os versos que os poetas da Ribeira Seca fizeram, já lá vão quase 50 anos, os  quais tive o supremo gosto de musicar e o Grupo Folclórico de Machico quis incluir no seu reportório.
“Os fachos da nossa aldeia
Já vem dos nossos avós
Eles subiram aos montes
Agora subimos nós
         *
Os fachos na serra
Altos a brilhar
São a voz da terra
Que fala a cantar
 Cantigas de amor
Pão e vinho novo       
Bendito o Senhor
Pela voz do Povo”