domingo, 7 de fevereiro de 2016

ARCO-ÍRIS EM MACHICO


Falei, falei, quase me insurgi contra a vacuidade do descartável, o limbo escorregadio em que nos balanceamos no dia-a-dia que passa. E eis-me hoje caído de bruços no vaivém dos carnavais. Deixai, então, “passar esta linda brincadeira, que a gente vai-se bailar o entrudo da Madeira”. Em vez de “Madeira”, leia-se “Machico”.  Porque é da produção de cerca de mil e duzentos passeantes que hoje vou ocupar-me. Ligeiramente, como convém ao entrudo ligeiro.
         O que mais admirei nos diversos grupos foi a simplicidade sadia com que desfilaram ,  os volteios populares, o pitoresco  dos figurinos, oriundos da imaginação criativa de todos quantos, vindos das várias  freguesias e associações do concelho, desde crianças até à “terceira idade”, trouxeram um colorido genuíno  às ruas de Machico, enxameadas de milhares de sorrisos  francos, felizes. Parabéns a todos, por igual, e à Câmara e Junta de Freguesia que partilharam a responsabilidade da iniciativa. Perante a descontracção organizada do desfile, só me acudiu ao pensamento aquela canção  nascida em Machico e que aqui corre de boca em boca: Na festa que o Povo organiza / Há mais alegria e verdade / Por isso trazemos a estrela / A estrela da felicidade. Se as entidade promotoras me permitissem --- e sem quaisquer pruridos de regionalismo exclusivista --- ousaria observar que, perante a beleza nativa dos grupos locais, dispensar-se-ia a opulência esmagadora das trupes que ontem, sábado, fizeram as galas do cortejo do Funchal. Mas tudo bem.
         Na impossibilidade de transcrever as letras de todas as colectividades,  algumas delas com o piri-piri adequado ao dia, reproduzo a daquela  que me toca mais de perto, a  Ribeira Seca, sob o lema “ARCO-ÍRIS EM MACHICO ” ,  em que foi visível a mensagem inter-geracional dos seus participantes, muitos deles, pais e filhos, numa simbiose de amor e pedagógica convivialidade. A letra entrosava-se, como luva na mão, com a música, também original.
É Carnaval
Carnavalão
Se tem moleza jogue a moleza p’rao chão
É Carnaval
Já está na hora
Se tem tristeza mande já tristeza embora

É Primavera em flor
Juventude em botão
Ribeira Seca avança
Viva o Carnavalão

À frente vai a luz /  A luz da cor do sol
Machico todo canta / A vida é um girassol

A cor branca da paz    /  De todas a primeira
Machico todo canta / Viva a nossa Madeira

E Viva o céu azul / Viva o azul do mar
Machico todo canta / A vida é para amar

Nós somos o amor / Nós somos a paixão
Machico todo canta / A vida é uma canção

E nós somos o verde / Do sonho e da esperança
Machico todo canta / A vida é uma criança

A flor da laranjeira /  E a rosa do jardim
Machico todo canta / Machico é sempre assim

Somos o arco-íris / Somos todas as cores
Machico todo canta / A terra dos amores  (ou a baía dos amores)

Já sabe ao alecrim / Já cheira a manjerico
O Carnaval mais lindo / Está hoje em Machico
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07.Fev.16
Martins Júnior



sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

CARNAVAL A BORDO COM MUNIÇÕES NO PORÃO


Enquanto batucam no ar os tambores das trupes, vem-me ao pensamento uma estranha trupe naval que largou do cais da Rocha em Lisboa, no dia 4 de Fevereiro de 1967. Chamo-lhe estranha trupe, porque na altura era tropa que se chamava. E tinha  no aparato exterior  toda a cor, todo o ritmo cadenciado e triunfante das marchas que enchem as ruas, com os metais a reluzir de espanto sobre o betão do molhe onde estávamos atracados. A encenação era solenemente a mesma. Os figurões lá estavam perfilados como cavalos ajaezados para o festival. Eram brigadeiros e generais, eram ministros, o das Colónias à frente, era o Cardeal ou o Bispo com  seus cónegos de meias vermelhas, religiosamente paramentados a deitar água benta ao casco que nem a via. Era um delírio de lenços brancos brandindo a brisa e a luz multifacetada das oito da manhã.
         Destoando da apoteose malévola da parada em terra, uma multidão incontável de velhos, adultos e até crianças --- os jovens já estavam no convés voltados para terra --- erguia os braços pesados num último adeus que enegrecia o meu olhar. Pareciam-me os lábios trémulos de quem carpia lá dentro a fatídica esperança: “Adeus, meu filho, meu neto, meu pai, meu noivo… será que voltarás vivo aqui à nossa casa”?!
         Fez ontem, faz hoje, durante trinta dias --- os da longa viagem que nos  separava do Norte de Moçambique --- sim, faz cinquenta anos menos um.  Partíamos como cegos para o abismo,  no bojo do velho “Niassa”. E foi lá o nosso carnaval. Passámos o Cabo Bojador, dobrámos o Cabo das Tormentas que, para a maior parte foi da Esperança mas, para outros foi o naufrágio da vida que nunca mais voltou, porque lá ficaram com os ossos mirrados nas sepultas plagas da mata africana.  Ainda hoje, passado quase meio século, aproveitamos (os que éramos jovens garbosos e hoje somos velhos encanecidos)  para enviar mensagens e confraternizar via telefone, recordando o primeiro dia do resto da nossa comissão em Moçambique.
         4 de Fevereiro de 1967! --- Véspera do ímpar dia 5.
         Vou passar adiante e deixar não sei para quando episódios de uma campanha suicida que nos apertaram ao pescoço. Esquecerei, de momento, até as armas e munições que, longe dos nossos olhos, escondiam os porões do navio. Cinco décadas depois, fixo-me apenas na resignada, mais do que isso, quase-entusiástica aceitação desta sentença colectiva de pegar  em centenas, milhares de jovens, no maior esplendor da sua força física e mental, e empurrá-los forçadamente para o matadouro de carne humana. Em terra alheia!  Talvez se pudesse encadernar esta paradoxal contradição na capa do livro de João de Melo Gente Feliz com Lágrimas.
Ao mesmo tempo que se tratava de uma fatalidade inelutável, dou comigo a pensar  nessa passividade a que chamavam patriotismo, amor à bandeira e à Nação. Para isso também  contribuíam Nossa Senhora de Fátima, o bispo-brigadeiro sediado em Santa Apolónia, os capelães que benziam o estandarte do batalhão, coisa que me recusei a fazer e pela qual fiquei desde logo marcado no Índex das altas patentes militares. Como foi possível anestesiar um Povo inteiro até ao ponto de considerar traidores à Pátria os jovens esclarecidos que se recusaram a pegar em armas contra os legítimos possessores das terras africanas e, por isso, se exilaram por esse mundo fora…  Que droga, sobretudo a do medo e da tortura, nos dobrou a cerviz sem um pingo de resiliência?!...
Talvez aqui se assemelhe o 4 de Fevereiro de 1967 (e os de antes e depois) à alucinação colectiva de um entrudo etílico que nos encobre furtivamente a realidade. E aproveito o momento  --- cá está o perene no efémero --- para despertar os ânimos da gente afim de não permitirmos que o decurso dos anos e o deslizar imperceptível de certas  ideologias tomem conta de nós. Ceder um milímetro da nossa identidade é entregar ao carcereiro a chave da nossa liberdade. Quando acordarmos da anestesia global  chegaremos ao degradante cúmulo de  beijaremos as botas cardadas que nos esmagaram a cabeça. A nossa e a dos vindouros.
É por isto, também, que escrevo o SENSO&CONSENSO. É por isto que leio até à exaustão os SENSOS&CONSENSOS que, sob diferentes títulos,  muitos outros mensageiros amigos, como você, semeiam neste campo aberto e fértil das redes sociais.
A terminar: tencionava juntar um outro 4 de Fevereiro, o de 1961, véspera do ímpar dia 5. São intensas as fulgurações que daí emanam. Ficarão para outra oportunidade.
05.Fev.16

Martins Júnior

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

“OPERAÇÃO STOP”


Há-as para todos os gostos e (des)gostos. Para controlar a velocidade, para soprar o balão, para apresentação de documentos. Umas com sentido pedagógico, outras como sanção punitiva.
Assim na auto-estrada do pensamento e da vida. No turbilhão inelutável  de todas as vidas, lá estão perfilados em cada esquina agentes de serviço diário, diria horário, “minutário” que nos agarram por inteiro e aos quais nos deixamos entregar, com tanto ou mais prazer consoante a cor da farda e a apetência dos nossos olhos. Em cada dia, em cada hora, em cada minuto somos levados, inconscientemente ou lucidamente, por este facto, por aquela figura, aquela notícia espectacular, os quais tão depressa nos prendem quão vertiginosamente se afastam. E aqui está exactamente a medida de nós próprios: superficiais, inconstantes, comidos e comestíveis numa palavra, descartáveis. Por gosto. Por leviana e quase imperceptível  opção.  Diverte-me e questiona-me o afã dos leitores do café que, no seu primeiro ímpeto,  é desdobrar a página dos desastres e de imediato saltar para o necrológio do dia.
É também o risco de quem escreve: deixar-se tentar pelo periférico, pelo imediato e tangível (sobretudo se tangível  à multidão) e abrir as torneiras do computador, encher as terras de perto ou de longe com os chuviscos e os aguaceiros da estação, do dia, da hora, do minuto.  Com “aquilo” que está a dar.
Ora, não é essa a minha opção. É certo que, segundo o Mestre Filósofo Aristóteles, “nada do que é humano me é estranho”, impõe-se o nosso olhar crítico, o direito (e, nalguns casos, o dever) de opinar. Mas escrever na correnteza do efémero é algo que está condenado às fissuras dos canais de rega, devoradoras de energias que bem mereciam  ser canalizadas para um pensamento constructo e, daí, consistente na sua produção e suficientemente aberto para a síntese de todas as hipóteses. Permitam-me este desabafo: leio avidamente, imperativamente, livros ou artigos de opinião, contanto que não se limitem a seguir o guião de cordel do vulgo indiscriminado, apenas para figurar nas vidraças partidas do calendário.
É a minha “Operação Stop”.
Desde longa data aprendi, em Charles Péguy, aquela máxima imbatível: “O jornal de ontem é mais velho que a Odisseia de Homero”. A voracidade dos “media” anda por aí, desenfreada, como os milhares de espermatozóides à procura de um óvulo, o mais desprevenido que se lhes apresenta. E nós,  por curiosidade congénita ou mau paladar deixamo-nos fecundar pelos batedores do costume, os interesses privados da rádio, da estação televisiva, o açambarcamento por parte dos banqueiros-donos-do-papel impresso. Quem escreve deveria estar atento ao perigo de destilar a diarreia incontrolada do inútil, do efémero. Em tudo. Cito, para amostra entre muitas, determinados programas de literatura em que se dá primazia a textos efémeros em vez de propor, eu diria, impor a leitura dos mestres da Língua Portuguesa. Bem sei que se le style c’est l’homme, também cada época tem a sua marca distintiva, a nossa também. Mas nem por isso deveria relegar-se para o museu de cera o rio vivo que emana das nascentes e mantém a perenidade e a identidade de nós mesmos. “A minha Pátria é a Língua Portuguesa”, sempre Mestre Pessoa, perene, semper vivens.
O segredo é detectar o perene no invólucro do efémero. Mesmo ao tocar a superfície dispersa na chamada “espuma dos dias” é possível fixar o ADN que perpetua o duradouro passaporte do Homem na volta aos mundos de ontem, de hoje e de sempre, afirmando-se como o eterno “operário sempre em construção” .
STOP! 
 Para seguirmos em frente.

03.Fev.16
.Martins Júnior


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

1º de FEVEREIRO – DE SANGUE SE FEZ A PONTE


Estaria dispensado quem me lê, porque hoje, sendo ímpar o dia, acaba por ser dia par. Se em linguagem matemática “menos com menos dá mais”, também aqui se pode agregar que “ímpar com ímpar dá par”.
         E porque a história do 31 de Janeiro ficaria incompleta sem o 1 de Fevereiro, eis-me hoje aqui sentado a folhear convosco os anais de um país sempre em evolução. E componho assim a tríplice gradação do saber: se  o último do mês ficaria incompleto sem o segundo, os dois  ficariam vazios sem um terceiro, o 5 de Outubro. Nestes três patamares desperta desde logo o método científico: tese – antítese – síntese. O 31 de Janeiro foi a tese, o 1 de Fevereiro a antítese e o 5 de Outubro a síntese. De modo que o 1 de Fevereiro --- hoje --- surge como a ponte decisiva entre  dois pilares. Mas que ponte!  Em vez de pedra romana aparelhada --- ossadas régias.  E em vez de agua dos rios --- golfadas de sangue azul derramado na praça pública. E foram precisos  19 tumultuosos  anos para  fechar o círculo paradoxal, a um tempo vicioso e virtuoso.
         Decerto que já chegastes à decifração desta metáfora encadeada. Mas tenho o dever de  torná-la transparente. Em 1891,  o  31 de Janeiro foi o primeiro clarão da República a haver, clarão depressa entenebrecido pela prisão, degredo e morte  dos que afrontaram a monarquia vigente. Em 1908, 1 de Fevereiro, é assassinado às portas de Lisboa o símbolo maior do poder absoluto, o rei D. Carlos I, regressado do Palácio Ducal de Vila Viçosa. O rumo silencioso mas inexorável da Ideia, como diria Antero de Quental!...   Digamos que a tese  imperial (os escorraçados de ontem)  encontra  agora  a sua antítese com a morte do Rei que (como a História se repete!) tinha assinado no dia anterior a prisão dos novos revoltosos  anti-monárquicos, gente de primeira água, como António José de Almeida,  Afonso Costa, Egas Moniz  e, entre outros,  o visconde da Ribeira Brava.
         A ponte, argamassada de sangue real, deu lugar, dois anos depois, à descoberta e  à conquista da outra margem. o 5 de Outubro, a gloriosa metamorfose do poder de um homem só (que é o que significa Monarquia) no poder como emanação pública de algo que é bem, coisa, comum, Res Pública. Terríveis tempos esses da mudança de uma mentalidade secular para  o miradouro de um tempo novo!...
         Ficar-me-ei por aqui, deixando para quando for oportuno (e sê-lo-á sempre  imprescindível) um olhar atento sobre  as convulsões sociais, políticas e culturais que marcaram os primórdios da República. Hoje quis tão-só assinalar o 1 de Fevereiro, neste que é o 108º aniversário da ponte, sangrenta mas decisiva,  construída entre 1891 e 1910.
         E porque em 25 de Abril de 1974 redescobriu-se uma Nova República  em Portugal --- a passagem de nível entre a ditadura e a Democracia --- não  pode deixar de marcar-se  em letras de oiro o processo de transição sem derramamento de uma só gota de sangue, símbolo do crescimento evolutivo de um Povo que procura, em cada socalco da caminhada, alcançar o cimo da montanha, a sua plena realização. Nós somos também desse Povo!

                1.Fev.16
Martins Júnior

   

domingo, 31 de janeiro de 2016

31 de JANEIRO -– 5 de OUTUBRO


Todos nascemos – os portugueses de hoje – debaixo desta ponte. A Ponte que começa em 31 de Janeiro e acaba em 5 de Outubro. Nove meses que duraram 19 anos. A Ponte que hoje completa 125 anos!
Trago esta reflexão, após a gratuita surpresa de ter ouvido de muita gente culta esta resposta: “Não faço ideia”. E a pergunta era a mais banal e inofensiva: “Sabes o porquê do nome 31 de Janeiro, dado à rua paralela à  5 de Outubro, no Funchal”?
         Pois é: a uma inofensiva curiosidade soltou-se uma crassa ignorância. Sempre que lá passamos  (e são muitos os dias ao ano) reconhecemos as lojas de roupa, os bares e cafés e, em frente, a casa das lotarias, as vitrinas de desporto,  tintas e ferragens, a nova canalização da ribeira.  E o BI da Rua? “Não faço ideia”. Seco e por favor.
         A Rua tem um nome maior do que ela. Estende-se por todas as cidades portuguesas, mais notoriamente em Aveiro, Braga, Sesimbra, Porto. Porque o “31 de Janeiro” constitui o berço primeiro da República. Um berço, incrustado no coração da cidade “Invicta”. Ele  ficou desfeito, logo na primeira hora,  à força de baionetas de guerra, cujas consequências foram mortes, prisões, deportações e  degredos nas costas de África. Assim fazem  os ditadores aos que se entregam de corpo e alma a uma causa que entendem justa e urgente. Salazar também inventou o “Tarrafal”, onde apodreceram, longe da Pátria, os que aspiravam restituir a liberdade à sua Mátria-Mãe.
         Destruíram o berço, mas não conseguiram afogar a criança que ali nascia. A criança, essa submergiu no rio Douro, mas numa manhã de Outono,  veio a renascer, pujante e sem retorno, nas margens do rio Tejo. Foi o 5 de Outubro de 1910, em Lisboa.  É que “não há machado que corte a raiz ao pensamento”!
          O entusiasmo fremente com que discorro sobre esta data faz-me supor que os meus amigos e amigas conhecem o significado enorme do “31 de Janeiro”. Foi no Porto. Um punhado de patriotas de várias classes sociais, desde médicos, engenheiros, lentes da Universidade, militares e até um chapeleiro da cidade, descontentes com o agonizar do regime monárquico à mão dos ingleses ( o famoso Mapa Cor-de-Rosa) decidiram no último dia do primeiro mês de 1891 avançar sobre o baluarte do poder e consumar  o derrube da monarquia, chegando mesmo a proclamar da varanda da Câmara  Municipal do Porto a instauração da República Portuguesa. Consequência da generosa  utopia  dos seus fautores que não mediram o risco de um sonho inquebrável, a Revolução morreu, pode dizer-se, à nascença. Ficou, no entanto, crescendo silenciosamente o seu gérmen no pensamento e na acção dos sobreviventes. Até que, em 5 de Outubro de 1910, também da varanda da Câmara Municipal, a de Lisboa, foi hasteada definitivamente a bandeira republicana.
         Quem conhece as duras passadas para alcançar o pico alto da vitória sentirá decerto  palpitar o coração neste dia perante o veredicto da História: a construção do sonho, até ao sucesso final, arrasta consigo mártires anónimos que irrigaram com o seu sangue o chão pedregoso que um dia cantará Vitória. Por isso, ouso afirmar: se foi grande e digno de registo pelos séculos fora o triunfo do “5 de Outubro”, não menos grande e solene foi o “31 de Janeiro”. Sem um, nunca haveria o outro. Tal qual aconteceu mais perto de nós,  com a investida, frustrada, de Beja e a marcha das Caldas sobre Lisboa, até chegar em plenitude a entronização da Democracia, no dia 25 de Abril de 1974. Assim aconteceu também neste nosso concelho, com tanta gente do Povo que sofreu persistentemente às mãos da ditadura regional, disfarçada de autonomia.
         É o axioma que vem de longe: “Um é o que semeia, outro é o que recolhe”! Mas vale a pena, porque quem luta por um ideal alevantado não olha o lucro individual, imediatista, no perímetro apertado do comum dos mortais. Vai mais além e vê no invisível a vitória de toda a comunidade futura --- a razão de ser da sua incondicional entrega. E batem-me na alma as ondulações do Mar Salgado:
“Quem quiser passar além do Bojador
Tem de passar além da dor”
Em nenhuma outra cidade ficou tão eloquente a simbiose das duas datas, estrategicamente concebidas  na geometria viária: as duas ruas são paralelas uma à outra, face a face, ligadas pela ponte sob a qual nasceram todos os herdeiros da República Portuguesa. De ontem, de  hoje, de sempre. Honra e mérito aos precursores da República!

31.Jan.16

Martins Júnior

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

NEGÓCIOS (de) “BÊBEDOS”


         Nada melhor que anedotas e caricaturas  para caracterizar estados de alma ou complexos atávicos. Vou dar quatro rápidos “anúncios”, para não dizer spots, suficientemente esclarecedores.
O primeiro, passado nesta nossa terrinha ilhoa, refere que um chorudo negócio de dois aldeões ficou marcado para o almoço, mas porque um deles só admitia à mesa  vinho seco e o outro  só vinho tinto, o negócio borrou.se… O segundo conta-nos que a secretária de trabalho  do competente notariado que registaria o contrato de compra e venda de um valioso prédio entre dois proprietários ricos, foi ela, a mesa, responsável pela frustração do negócio. Causa: o prometido comprador, educado por uma beata catequista, fugiu desabridamente  porque a dita mesa tinha um arranjo floral onde predominavam dois esbeltos antúrios ostentando garbosamente o seu natural “ex-libris”…  O terceiro caso diz respeito a um jogo de futebol feminino em que uma das equipas se apresentou de calções e a outra, que entrou em campo, de calça comprida  até aos pés e camisola afogada até ao pescoço, exigiu que todas se equipassem bem compostas, pois assim lhes ensinara uma púdica tia religiosa e solteirona. Lá se foi o campeonato…  O último caso fala-nos de dois compadres à roda de uma mesa, onde a garrafa de vinho  se encontrava numa situação tal que um deles dizia que ela estava meio-vazia e o outro teimava que estava meio-cheia. Foi tão acesa a discussão que nenhum quis provar o precioso conteúdo da  garrafa. No entanto, sempre lá concluíram o negócio aprazado.
         Mudem os nomes e os trajes e ponham em seu lugar o episódio grotesco do almoço protocolar entre Rouhani, o presidente do Irão, e François Hollande, de França, marcado para ontem, o qual acabou por ser cancelado devido à exigência dos muçulmanos que proibiram o seu presidente de sentar-se à mesa onde houvesse uma  garrafa de vinho, uma só que fosse. Ordens sagradas de Maomé!  Sem comentários. Aí é que se ouviram as paredes do Eliseu a rir, divertidas, enquanto ecoava o velho ditado: Ridicule mais charmant, ou então, encostando o caso às Précieuses Ridicules, de Molière. Apesar de tudo, fez-se o negócio de muitas dezenas de milhões, como de resto, um dia antes em Itália.
           É caso para dizer: a cada qual, o seu vinho e a cada qual a sua droga…
         Este pitoresco episódio levou-me até África, aquando da guerra colonial em Cabo Delgado,  extremo  norte de Moçambique, numa tarde em que o, aqui correspondente ao regedor da sanzala, veio ter comigo e balbuciou-me ao ouvido: “Tènenti, zungo (patrão), trá-me madji di lizebaua”. Perguntei a alguém o que era aquilo de ”água de Lisboa”, sendo então  informado que se tratava de vinho tinto. Lá comprei a garrafa na messe de oficiais, dirigi-me ao aldeamento (onde dava as chamadas “aulas regimentais” aos lindos  petizes negros… que saudades!), chamei à parte o dito “regedor” e pu-lo à prova: “Mas você é muçulmano e o Profeta proíbe você de beber vinho”, ao que ele, outra vez ao ouvido, depois de observar que ninguém topara a cena, respondeu baixinho: “Mas eu bebo de noite”.
         Percebi logo. Até neste esquelético cocuana (velho) se confirma a hipocrisia oficial dos quadros do poder --- lá e cá! --- em que  o mais importante é preservar as aparências, a letra da lei, enfim, o político-religiosamente correcto. Só queria saber  qual a marca do vinho e qual o éden em que  plantou Maomé as muçulmanas  parreiras, capitosas e fulminantes, que levam um homem a cinturar-se de granadas e fazê-las explodir, matando dezenas, centenas, milhares de vítimas inocentes…
         Até  onde é capaz de  levar-nos  o atavismo inquestionado! Voltando ao mesmo sítio, impressionava-me ver as crianças comer a feijoada que lhes levávamos do rancho geral e elas, escrupulosamente, separavam a dobrada e só comiam o feijão e a batata. Perguntei-lhes uma vez por que razão procediam assim. E a resposta veio directa: “O pai não deixa”. Lembrei-me do (já aqui  referido)  relato bíblico daquela mãe que se entregou à morte mais violenta, ela e os seus sete filhos Macabeus, só por se recusarem a comer a carne de porco que o rei Antíoco lhes oferecera. Há milhares de anos! A força cega das crenças não escrutinadas, diríamos, dos dogmas, também  impostos, mutatis mutandis, pela Igreja Vaticana!
         Há quem discuta se Hollande terá feito bem cancelar o almoço e o jantar. O Sim ou o Não  defensáveis são. Inclino-me, no entanto,  para o Sim: outro bem maior estava em jogo, ou seja, a histórica visita de presidente iraniano à Europa, após o acordo nuclear e o levantamento de sanções, prenúncio de um tempo novo na história das civilizações. Na senda da comprovada filosofia que fez escola, “ por vezes, é preciso dar um passo atrás para ganhar dois passos à frente”! Mas… sem tacticismos, apenas com vista à prossecução dos verdadeiros valores que dignificam a espécie humana.

         29.Jan.16
         Martins Júnior

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

QUE NOVAS NOS TRAZ O DIA QUE PASSA?


Sentemo-nos lado a lado. Ou se preferir, deambulemos sob alameda das memórias que trazem consigo momentos felizes e também pistas de reflexão. É que, ao dedilhar as teclas deste meu e seu comunicador, dei comigo a pensar nas 238 publicações do SENSO&CONSENSO, surgindo-se logo este puxão de orelhas: “tens a certeza de que os teus assuntos interessam às pessoas”?  Com isto deixei cair os braços e soltou-se-me  estoutra  pergunta: ”escreves para ti ou para os outros? E conheces tu o que os outros esperam que lhes transmitas”?
Parafraseando o velho ditado, escrever não custa. Custa é tocar o dentro de quem  lê, a sua mente e a sua psique, a sua expectativa e as suas apetências. É o drama de quem escreve. Sobretudo este portentoso mecanismo de comunicar à distância, como  bolas de sabão sopradas à brisa corrente. E é o que hoje vou ensaiar perante os meus amigos e amigas, dependurando no estendal desta varanda as muitas e tão diversificadas opções para o 27 de Janeiro de 2016.
 1-  Para os que estão atentos à História do quanto é capaz este arrumo de ossos que nós somos, lembraria o 71º aniversário da luta ingente que pôs fim ao mais bárbaro  genocídio do género humano que dá pelo nome de Auschwitz, perpetrado por um monstro em traje de gente, cujo nome recuso para não  manchar esta página. Surpreendo-me com a indiferença dos nossos jornais, dos homens que aí escrevem. Não apenas uma vez ao ano, mas todos os dias,  deveríamos olhar de frente para que os homens não esqueçam. E o mais horroroso é que, sob outros camuflados, andam por aí os facínoras de Auschwitz.
2 - Para quem se ocupa e preocupa com a asfixia  que os decisores europeus  “oferecem” a Portugal, rebobinaria aqui o passo cadenciado e grave, como cangalheiros que ajudaram a matar o defunto, entrando na Assembleia da República com o vergonhoso brasão ao peito, onde figura a pitonisa Troika que vem de palmatória em riste  embolachar as mãos de quem fez o plano do próximo Orçamento de Estado. Não menos abjecta, patrioticamente falando, é uma outra brigada do reumático (a mesma que pôs o país a pão e água) vir agora restabelecer a farsa de um país “de tanga”, como essa rapariga brancaça, substituta de  Paulo Portas (aquele que lhe pôs nos braços quatro ministérios, do mar à serra) e que sai à rua, com uma graçola de rapazinho imberbe, dizer na cara da Troika que “o OE/16 é candidato ao Óscar de Hollywood”. Ficarão os portugueses indiferentes aos mercados que emprestaram dinheiro para, agora, nos oferecerem um garrote ao pescoço de  pais, filhos e netos? “Bolsa ou vida”! E já!
3 - Para os aficionados da bola, perguntaria qual a sua opinião sobre o arquivamento, por parte da Comissão de Instrução e Inquérito da Liga,  do processo de difamação contra os árbitros, em que foi protagonista o presidente do Sporting. E daí, exigir à Justiça que investigue e não deixe a culpa solteira para sempre. E que não leve um ano e mais, noutro conhecido processo, a formular comprovada acusação. Ai, quem julga a Justiça?! E que dizer da mesa redonda da TVI24, agora à noite, em que a imagem dos quatro  comentadores desportivos foi escandalosamente abafada pela encenação gesticulada do dito presidente, numa reportagem de Outubro do ano transacto, exibindo repetidamente papéis baralhados ao repórter de então? O espectador não é propriamente um parvo.
4 - Aos que lhes toca mais dentro o problema das religiões, que belíssimo o frontispício desta peça, o encontro entre o presidente Rouhani, do Irão, com o Papa Francisco, prestimoso augúrio de outros compromissos europeus para a paz entre o Oriente e o Ocidente! Do lado oposto, a mancha negra, tão difundida  na comunicação social, do filme Spotlight, de Tom McCarthy, sobre os escândalos sexuais do clero católico de Boston, que tanto abalaram a América e o mundo. Ainda por cima, proposto para os Óscares da Academia. Na mesma linha, a humilhante posição em que ficou a Diocese do Funchal que, após sucessivos e dispendiosos processos judiciais pelo competente testamenteiro, foi obrigada na barra do tribunal  a mostrar os documentos relativos à “herança de D. Eugénia Bettencourt”, os quais passou tantos anos a ocultar. Já é voz corrente que o detentor do poder religioso regional outra coisa não faz senão esconder, encobrir e refugiar-se na sotaina cintada.
5 - Incontornável, impossível passar adiante sem evocar e reler Vergílio Ferreira, o talentoso romancista, ensaísta e filósofo português, cujo centenário o país está a comemorar. Que sabemos nós do Autor da Manhã Submersa, traduzida para a tela cinematográfica pelo realizador Lauro António? Ao constatar a irresistível superficialidade dos dias fugazes que nos absorvem, fica-me até ao fim esta mágoa: quanta gente escreveu para mim e para cada um de nós mensagens tão afectivas e eloquentes e nós nem abrimos o computador, nem sequer o telemóvel.     …………………………………………………………………………………………………………..............   
        Que mão cheia de lembranças para este 27 de Janeiro! E muitas outras deixei ficar para trás. Quanto me apeteceria e ajudaria saber a qual delas foi mais sensível quem me lê. Por onde se vê o drama interior que persegue aqueles que se predispõem a transmitir algo que interesse e não apenas gastar as  molas do teclado. E desculpem-me este extenso linguado, quando pretendia fosse mais sintético que os anteriores. Como no velho exemplo do estilo epistolar.  “não tive tempo de fazê-lo mais curto”.

27.Jan.16

Martins Júnior