terça-feira, 5 de abril de 2016

CONTRA O GENOCÍDIO ENCAPOTADO – Os ladrões envernizados e os migrantes de luxo


Por mais vistosos ou sugestivos que fossem outros temas,  nenhum deles poderia abafar neste dia o clamor que irrompe das profundezas do mundo neste dia de Abril. Junto-me, pois, ao coro gritante que os jornais, as TV’,s e as redes sociais levantam contra o crime organizado dos malditos paraísos que um punhado de demónios escavou nos subterrâneos do planeta. E faço-o, porque me estala a consciência a palavra de ordem, tantas vezes proclamada: “Vimos, ouvimos e lemos/ Não podemos ignorar”!
Todos nós vimos, ouvimos e lemos a descoberta, talvez a maior até hoje nos “media”, do tenebroso escândalo que dá pelo nome de Panama Papers, esse memorável trabalho de jornalistas coligados, a nível internacional,  que durante quase um ano investigaram, sob sigilo comum, a orgânica dos offshores naquele país. Milhões, biliões, fortunas sem rasto, filhos de ventres incógnitos e herdeiros do sangue, suor e lágrimas dos pobres da Terra! Tudo isso trancado em, para eles, paraísos e, para nós, infernos abrasadores! Agora percebe-se aquela cruel equação que envergonha a condição humana: só 1% da humanidade detém a riqueza do mundo, à custa dos 99%  que dela carecem.
Remeto os meus amigos para a comunicação social justa e competente, por onde ficamos a saber os tais  “herdeiros–donos disso tudo”, desde reis e presidentes das nações, banqueiros, gestores, cineastas, deputados e até futebolistas super-milionários.  Tudo gente importante, gente “séria”, raça de eleitos, ladrões de smoking envernizados, a quem nos mandavam beijar as mãos e os pés.   Oxalá não apareçam sotainas de bispos e  cardeais, embaixadores do Vaticano, o velho Vaticano, aquele que antes de Francisco Papa lavava dinheiro sujo nas catacumbas de Roma…
  De um único escritório de advogados – o Mossack Fonseca – sediado no Panamá, surgiam e cresciam como cogumelos venenosos empresas ocultas sem conto, que escondiam (e escondem) em cofres  frigoríficos, tão gelados e insensíveis como a consciência dos seus detentores, os corpos e até as almas dos que mourejam de sol-a-sol, curvados sobre a terra, presos à penosa ferramenta do trabalho que (talvez, alguns não)  têm, enfim, descapitalizam o erário público e obrigam os contribuintes indefesos a pagar duros impostos. Só de Portugal saem dois milhões e meio por dia, a caminho de bancas-fantasma.
É insuportável conviver com os “jihadistas” do dinheiro. Em que difere o sofisticado  terrorismo capitalista, agora posto a nu, do bárbaro terrorismo bombista   de Paris, Bruxelas, Madrid e quejandos? É com  dinheiro dos offshores que se compram as armas assassinas. E  são eles, os financiadores sem escrúpulos,  que sadicamente e impunemente praticam o mais sangrento genocídio encapotado, em morte lenta,  de pessoas e nações inteiras. Os autores da lei são os autores do crime. Ainda por cima, alguns deles são considerados beneméritos sociais, organizam promoções comerciais, oferecem donativos a instituições… enquanto, á socapa e protegidos pela lei, furtam-se aos impostos na sua pátria, ufanam-se de pagá-los noutros países onde lhes pinga mais doce o “cacau”, enfim, outros até negoceiam drogas, recrutam combatentes e proxenetas, traficam seres humanos. Que execranda, malfadada sorte nos coube! Em pleno século XXI.
Não haverá maneira de exterminar o crime organizado, falsamente legalizado?  Vamos assistir indiferentes e enxutos a esta contradição nuclear: enquanto os miseráveis migrantes refugiados de guerra imploram uma nesga de paz na Europa, os  multifundiários da alta finança fazem vida de migrantes de luxo, saltitando de offshore em offshore conforme a avidez dos seus apetites?!


Ninguém encolha os ombros, julgando-se impotente. Primeiro que tudo, é preciso saber disto, seguir a boa informação, conhecer os meandros dos terroristas financeiros. Mesmo perto de nós. Ainda está por esclarecer cabalmente  se aquele “negócio”  da chamada Zona Franca e respectivo paraíso fiscal , onde um escritório, sediado no Funchal, é susceptível de acolher ou receptar dezenas e centenas de firmas,  configurar-se-á  (ou não) com outros  Mossack Fonseca em miniatura.  Ainda está por  saber se, com  aquele empreendimento, ficaram os madeirenses a ganhar ou a perder. Estaremos nós, a troco de tostões,  dando passagem a contrabandistas que lucram milhões?  Fica no ar a grande incógnita.
Temos também outra arma contra o banditismo legalizado: peguemos nela, aquando do acto eleitoral, rejeitando os encobridores-legisladores do crime e votando naqueles que proclamam a abolição dos paraísos fiscais, à escala mundial.
“Vimos, ouvimos e lemos/ Não podemos ignorar”!
O editorial de Le Monde, pela mão de Jerôme Fanoglio, classifica de  vertige et nausée (vertigem e náusea) esta torrente de dinheiro sujo,  sem cuja proibição jamais serão credíveis os programas governativos de qualquer país. Entre nós, ocorre oportunamente recordar, para combate-los, Os vampiros que bebem o sangue fresco da manada, Comem tudo e não deixam nada, repetindo Zeca Afonso, o precursor e construtor do nosso Abril.
Contra o genocídio encapotado e lento, contra a geo-corrupção, abrir os olhos e… marchar, marchar!

           05.Abr-16
         Martins Júnior      


domingo, 3 de abril de 2016

O OUTRO “MENINO DA SUA MÃE” – Cinco anos depois

Foi em 2 de Abril de 2011. Após a morte súbita, aos 20 anos de idade do Luis Filipe, nosso amigo, colaborador e elemento da nossa Tuna, escrevi esta mensagem que nunca tinha tido coragem de entregar à  Natália, sua mãe.  Neste dia (ontem), passado o primeiro lustro,  na comemoração comunitária do 5º aniversário do trágico acontecimento, entrego finalmente a uma mãe, até hoje inconsolável,  a antiga mensagem, extensiva ao marido e ao novo rebento,  a Vitória, renovada primavera daquela casa.,


Ele era o cordão umbilical
Que te ligava à terra
E onde corria o ar que respiravas
Era ele que trazia
Cada noite cada dia
O arco doce
De uma manhã de Abril
Por mais negro que fosse
O basalto das montanhas circundantes

E mesmo que o sol se finasse
E o sangue já não corresse
No seu passo de menino
Na sua face
Os trilhos ficavam de luz
O basalto era ouro fino
Que se abriam à tua passagem
E por ser único
Nenhum outro se te dava

Mas um dia – e ontem foi –
O menino fez viagem
O mar largo sem retorno
Veio buscá-lo

Na manhã de Abril
Levou consigo todas as manhãs
A mãe-terra e o cordão

Cortaram-te a respiração

Vi-te  então
Imagem sagrada
 Olhos ausentes pele inteira de lilás
A maior das Pietás
Com um filho morto nos braços

Amanhã
Vou ajudar-te a deitá-lo no berço branco e breve
Do universal navio
Que atravessa aquele rio
De lágrimas lavrado
Em demanda inacessível
Da Ilha do outro mundo

Deixa-o ir
Não chores mais
Talvez a encontre, a Ilha inexistente
Aos olhos dos que esperam
Na amarração deste cais

Tão novo
Deixou-te o testamento
Das vinte estrelas gigantes que lhe acendeste

Abre as mãos e vê
Galáxias, vezes vinte  mil,  renascidas
Das estrelas que voaram
Entre as cinzas de outras vidas

De Natal foi o seio
De onde veio
De cravos
A mortalha que o levou

Acredita:
Um dia virá
De acordes alleluiah
E uma vitória infinita
Ao mundo proclamará
O que ainda não ouves nem vês:
Serás “Natália” de novo
E será Abril outra vez



03.Abr.2016
Martins Júnior

quinta-feira, 31 de março de 2016

NEM UM PAIOL DE PÓLVORA – NEM A SONOLÊNCIA DO CHARCO


“Guerra e Paz” – assim titulou Tolstoi o seu romance histórico. Hoje pego na capa para alterar-lhe  a sequência dos conceitos e formular uma outra dinâmica, inspirada no método científico: PAZ-GUERRA-PAZ, correspondente à clássica gradação: TESE-ANTÍTESE-SÍNTESE.
Embora estranha, à primeira vista,  vem esta equação a propósito do actual momento que Portugal atravessa. Após sucessivos anos de guerrilhas político-partidárias, quase sempre fratricidas, chegámos àquela estação do percurso em que se abandonam as sistémicas trincheiras de combate para retomar energias, de mãos dadas, face ao futuro. É uma nova filosofia de estar e servir o interesse comum. E de tal maneira que este ambiente de co-produtividade sócio-política incomoda  coercivamente aqueles que detinham as rédeas do poder e, na aparência, apresentavam-se como os promotores exclusivos da paz social. Hoje invertem-se os papéis: e é vê-los, os tais, nos parlamentos, nos congressos, ávidos de sangue (“temos de ser mais agressivos”, explodia esta manhã um dos  corifeus); de “bem- amantes”  passam-se a divorciados e rivais no “campo-pequeno” do grande poder.  Esta quase-alucinação atira-se de olhos atravessados, soturnamente estrábicos, quando vêm Presidente da República e Primeiro Ministro a remar para o mesmo porto do interesse da Nação.
Talvez que os mesmos que antes diabolizavam a CGTP e a UGT, quando juntas nas grandes  manif´s, agora fervam de impaciência quando as centrais sindicais parecem ter perdido (aos olhos deles) a vitalidade e o domínio da rua em peso.
Mas tudo não passa de um equívoco. Insanável, para quem assim se agita. Esquecem, sempre os tais, o percurso bio-social do Homem-em-situação, ou seja, a tríplice gradação existencial: PAZ-GUERRA-PAZ. Não se pode viver permanentemente em campo de guerra. Esta só vale como ponte instrumental  para a paz comunitária. Há tempo de resistir ao sono em combate, mas também há tempo de respirar o ar puro e justo que a grei conseguiu pela mão dos seus milícias representativas. Chamo aqui o pensamento de Arendt: “A violência pode destruir o poder, mas da violência nunca poderá nascer o poder”.  Tomo esta análise de filosofia política para, à sua luz, interpretar e medir o alcance de todo o  lugar da agressão, seja em que plano for da actividade humana.
Questionar-me-ão os meus “ímpares” amigos, acusando-me de fazer a apologia do contentamento fugaz, da inércia, enfim do ultra-liberal laissez faire, laissez passer.  A quem o dizem?!  É preciso desconhecer todo um passado (e um presente!) de luta  em que tenho navegado. O que me parece útil e necessário dizer é que um atávico e irresistível “cheiro a pólvora”  ( o termo tem direitos de autor bem conhecido) não segura nem o atirador nem o alvo nem o próprio campo de tiro. Quem assim pensa já está inscrito nas alas do Daesh, como suicida e assassino.
O importante e decisivo é a vigilância contínua. No esclarecimento,  na força motriz do pensamento, na denúncia, na voz, na escrita, nas redes sociais,  em casa e na rua, na escola e na igreja (assim faz o incansável Francisco Papa), no olhar atento e critico sobre as cúpulas do poder. É a isto que chamo o Poder Popular. Os governantes têm de temer (respeitar) os governados.  Nunca ceder um palmo à cobardia, ao jogo sujo de bastidores para salvar a pele. A pele somos todos nós.
Quando a solução única  for a “guerra campal”, a rua ou o assalto, então é sinal que,  no silêncio do oportunismo e da inércia, deixámos que nos amarrassem de pés e mãos. Não há outra estratégia eficaz que não seja a visibilidade coerente e consequente da meta comum, mesmo que por caminhos diversos.  Este é o sítio certo onde estamos e sempre estaremos: a Paz que nos segura, a guerra que nos redime e, de novo, a Paz no topo  da montanha – para depois recomeçar a mesma eterna  jornada, repetida no rotativo curso das gerações.
A vigilância operante de hoje será amanhã  a garantia da “Terra Prometida”.  Que ninguém perca o caminho!

31.Mar.16

         Martins Júnior

terça-feira, 29 de março de 2016

COMÉDIA SÉRIA, ONDE ENTRAM POLÍCIAS, BISPOS, PADRES E PORTAS SEM MISERICÓRDIA


  Não era  este o tema que reservei para terça-feira de Páscoa. Creiam, mesmo, que as mãos me pesam mais que noutros dias sobre este teclado de notas alfabéticas. A qual músico e a qual ouvinte agrada tocar ao piano repetidas dissonâncias ou escutar cacofónicas percussões?
         Por isso, quero  ser  breve. Desde logo, pela motivação circunstancial que amigos meus me trouxeram  acerca de um incidente ocorrido numa das pacatas nortenhas paróquias da Madeira onde foi  solicitada a PSP pelo respectivo jovem pároco.  Perante a minha quase indiferença em relação à notícia (para mim, mais do mesmo) fiquei amarrado à “provocação” dos meus amigos interpelantes: “Então não reage? Vai fazer o mesmo que a diocese que se esconde sempre nos silêncios cúmplices?”
         Aqui vai, pois, uma pequena amostra  do que penso e sinto.
         A Diocese, no feminino (em francês é masculino, le diocèse) é uma entidade abstracta, sobretudo entre nós, ilhéus. Não tem rosto, duvido que tenha alma, pelo menos, alma evangélica. Quando é chamada à colação,  não reage. Usa uma arma secreta: o silêncio dos cemitérios. Entretanto, ela  reconhece-se pelo corpo, nas suas estratégicas aparições,  nas paradas espectaculares, nos jantares e inaugurações governamentais,  nos arraialescos festejos de verão e nos partos litúrgicos pré-natais. De longe dá nas vistas pela anafada cinta vermelha e pelo régio brilho de uma cruz dourada, à imagem e semelhança dos brasonados oficiais do reino.
         Falo do que se vê a olho nu. E de mais alguma coisa que vi, sobretudo, nos três últimos titulares madeirenses, de entre os sete que conheci como inquilinos do Paço. Confrange-me -.mas não afecta a minha fé no Cristo Nazareno, anti-sinagoga e anti-diocesano – sim, confrange-me olhar a paisagem.  Numa ilha pequena, Madre das Cristandades de outrora, onde nos tempos mais recentes tem reinado a prepotência política, o favoritismo, a mediocridade e o nepotismo, esperava-se (e os madeirenses mereciam) um pastor verdadeiro, cuja mitra fosse cultura e talento e cujo báculo fosse “chicote no templo dos vendilhões” e, por outro lado, arrimo seguro para os mais débeis do seu rebanho, os proscritos dos poderes mundanos. Em vez disso, porém, coube-nos a sorte de uma diocese, corpo sem alma lá dentro. Diocese-Instituição. Há modestas autarquias rurais com melhor e mais responsável sentido de liderança, vigilante e humanista. Talvez até simples associações e colectividades de bairro, porque têm alma e dão o corpo às balas, em defesa da Verdade que professam.
         Pelo que acabo de dizer, nada me espanta o “lavar-de-mãos na bacia  de Pilatos” por parte da Mitra. Ê mais do mesmo. Um eclesiástico    subalterno  entende transgredir as mais elementares normas urbanísticas, outro espuma retaliação contra uma instituição centenária e exclui-a da igreja-mãe a que sempre deu colaboração; este chama a polícia, aquele abre-se aos apetites políticos de um governo que lhe faz obras faraónicas, inúteis – e onde está a Diocese? No retiro dos cenóbios ou na paz dos sepulcros. Um bispo toma conta de uma quinta, legado pio para abrigo dos sacerdotes na sua velhice – e que diz o hierarca diocesano?  Zero!
         Termino já, porque não me conforta nada pôr a secar na via pública o estendal de roupa esfarrapada que não aquece a nudez de ninguém.
         Ficaria, porém, incompleta a mensagem aos meus amigos interpelantes deste dia 29, se não citasse a resposta da Diocese – a mesma entidade sem rosto, não se sabe quem responde, se o Chefe ou se o vice -  que ofereceu como antídoto e consolo, no caso da paróquia nortenha, uma receita de “misericórdia” perante duas devotas que, a  pedido do jovem pároco, a  polícia devia expulsar da igreja.. Misericórdia! É o que está na moda neste ano de abrir de portas. Nem me apetece comentar. Seria uma boa deixa para Dante escrever  uma outra versão da  “divina comédia”, revista e actualizada.
         Misericórdia! Não brinquem nem nos tomem por tolos. Terá sido por “misericórdia” que a Diocese deu aval ao Governo Regional para mandar 70 (setenta) polícias atacar e esvaziar a igreja da Ribeira Seca, em 1985?... Foi por “misericórdia” que cortou a essa igreja a venda das hóstias para a Eucaristia?... Foi também por Santa “misericórdia” que não deixou entrar nessa igreja, em 8 de Maio de 2010, a Imagem Peregrina?... E será por que carga “misericordiosa” os bispos da Madeira, há 42 anos,  não têm força para  administrar o sacramento do Crisma na igreja da Ribeira Seca?..
         Misericórdia, Papa Francisco – dizemos nós. Quem tem ouvidos de ouvir,  entenda. Quem tem olhos de ver, interprete os factos.
         O que nos dá força é que há mais Vida além da Diocese. O que nos vale é que há mais Cristo além da Mitra.   
          
         29.Mar.16
         Martins Júnior

         

domingo, 27 de março de 2016

A FORÇA QUOTIDIANA DE UM PREFIXO: ---------- Reagir…Reflorescer…Ressuscitar!


Peguei-me hoje com o cardápio dos prefixos. São eles (mais os seus gémeos irmãos, os sufixos) que fertilizam a língua, criando infindáveis gerações de signos,  quando enxertados na palavra-mãe. De entre tantos e tão diversos, fixei-me naquele que este domingo particularmente sugere: o prefixo “Re”.
Compulsando o dicionário ou mesmo citando de cor e a esmo, o prefixo “Re” salta-nos diante dos olhos e, sobretudo, no terreiro das emoções, como o clic mágico que nos desperta e faz abrir manhã no meio da noite escura. Quem não se sentirá movido ao som do timbre de uma  renovação, de um repuxo de água viva, de um resplendor ou de um regresso à juventude existencial? Em subtítulo, dei acima uma trilogia representativa da energia que percorre a dinâmica do nosso ser: Reagir, Reflorescer,  Ressuscitar! Todos estes prefixos mexem connosco, impelem-nos a subir a encosta e a sair da “fossa” depressiva em que um dia cairmos.  
Este retomar do alento que revigora ideias,  músculos e nervos fica todo reintegrado intensamente no vocábulo que dá nome a este domingo: RESsurreição, o mesmo que ressurgir, renascer, reflorir. É um prazer e, ao mesmo tempo, um árduo “fazer”,  um programa de toda a hora, o “pão nosso de cada dia”.  Ninguém pode fazê-lo por nós. Somos nós que fabricamos (ou destruímos) o prefixo que  pode iluminar  muitas vidas: a nossa e a dos outros. Esse prefixo, filão invisível, tem a sua  nascente  (quantas vezes!) na pedra dura do nosso pensar e do nosso sentir, abrindo caminho para aquele Dia Novo que está connosco e, paradoxalmente, tanto tarda.
É a esta luz que vejo o Domingo de Páscoa. Reafirmando a vitória do nosso Cristo, importa ponderar que de nada adiantaria a ressurreição de um cadáver se não fosse maior a ressurreição da sua Ideia. “Serás jovem quanto a tua Ideia”. Não fosse a chama incandescente do pensamento libertador do Crucificado  e  Ele ficaria apenas como estátua de carne física arrumada na prateleira das antiguidades. “A carne mata, o Espírito é que dá vida” -  já o tinha proclamado anos antes. É por isso que a Palavra de Ordem e o apelo à Vida estão consignados no retábulo natural do templo da Ribeira Seca:
“QUEM TIRA JESUS DA CRUZ?...
QUEM O RESSUSCITA?... HOJE!”
 Propositadamente, às duas interrogativas, segue-se o reforço da exclamativa: HOJE! É aqui e agora que, com a Ideia, ressuscitamo-nos globalmente,  Corpo e Espírito. Deste filão inesgotável sai a força quotidiana do prefixo:  Reagir, Reflorescer, Ressuscitar! Em cada gesto, em cada reabrir das nossas pálpebras pousadas no horizonte longe-e-perto que nos chama! Tal como o som e o a alegria pascal das crianças que animaram o nosso Domingo Ressuscitado.
Na ementa deste domingo, ofereço um voto e um abraço: Comam e saboreiem o Prefixo deste Dia!  

27.Mar.16
Martins Júnior



sexta-feira, 25 de março de 2016

Na celebração do crime … ENTRO, MAS SOB PROTESTO!

 

Esta é a crónica que nunca desejara escrever. Porque este é o crime que nunca imaginara “ver” sob os meus olhos nem muito menos no cenário da minha memória.
         À hora em que escrevo, sinto os passos daquela multidão que corria para as suas casas batendo no peito. Oiço o pulsar e a voz do oficial centurião romano, comandante da tropa que levou a cabo a operação “assassinato” do Nazareno: “Agora reconheço que esse homem era um justo” (Lc. 23, 47)- eco magoado, mas tardio,  do plenipotenciário Pôncio Pilatos que, antes de  lavrar a sentença capital contra J:Cristo, exclamou perante os acusadores em satânico delírio: “Não acho matéria de crime neste homem” (Jo. 18,38).
         E, no entanto, entregou-O  à sevícia dos carrascos. Então, como? Se o juiz Pilatos não encontrou matéria de acusação,  por que  O  mandou para fatal cadafalso?
É com este nó atravessado na garganta que me custa entrar no cortejo da chamada “Via-Sacra”. Entro, sim, mas sob protesto! Contra a tibieza de Pilatos que se acobardou à pressão do poder religioso. Protesto contra os Sumos Sacerdotes do Templo, instalados no  topo da hierarquia da religião judaica. Estes, os autores  principais, únicos, deste horrendo atentado: sob as vestes bafientas mas tenebrosas da “Lei” esconderam-se na sombra e mandaram para a arena das ruas de Jerusalém  os soldados, os marginais, os criminosos das cadeias que bradavam liberdade para  Barrabás. Protesto contra a subversão das normas processuais então em vigor, atirando J:Cristo de tribunal em tribunal, o religioso (Sinédrio) e o judiciário (Pretório). Foi a antecipação da Inquisição, sempre o poder religioso e o poder político maquiavelicamente  conluiados, não se sabendo onde acaba um e começa o outro, para queimarem na fogueira pública da mais vil hipocrisia aqueles que rompem a treva e levantam o facho purificador da Verdade e da Transparência.
         É um turbilhão de íntimos sobressaltos que tomam conta de mim nesta fatídica sexta-feira do crime histórico. Protesto contra todos esses poderes hierárquicos, a dois níveis, que fazem da Via-Sacra uma “diversão” para os olhos e um anestesiante da consciência crítica,  pomposamente  arregimentadas (nada de mais disforme da verdade dos factos!) percorrendo cidades e aldeias, fazendo crer que o nosso Cristo se deixou matar, como se de um suicida se tratasse, “pelos pecados do Povo”, quando é o Povo a vítima  constantemente sangrada e apetecida dos poderosos. Protesto!  Jesus foi assassinado pelos crimes dos  que  pervertem o Povo, distorcendo a realidade: os detentores do capital, da ditadura, do domínio, seja ele profano ou pseudo e atrevido domínio “sagrado”.
Faço minhas as palavras de Anselm Grun: “Para Luther King, a Paixão de Jesus indicava um caminho para os cristãos manifestantes  se revoltarem pacificamente contra a injusta  segregação racial e para destituir o poder estatal, frequentemente bruto e desumano”.
Perdoem-me a impaciência, mas não consigo prosseguir.
Na nossa Via-Sacra, acompanhou-nos uma cruz. Sem crucificado. Não se percebe a atracção dos crentes por um Cristo, quase nu, derrotado e vaiado, como se os denodados defensores da Verdade tivessem sempre como prémio a derrota e a ignomínia. Acabemos com o prazer mórbido de ver condenados os inocentes. O nosso J:Cristo quer quem O tire de lá, quem faça ressuscitar as causas pelas quais teve de suportar toda a vida os ataques dos barões da religião.
Naquele cruzeiro vazio estamos nós, estão  todos os que lutam contra as quotidianas condenações de tantos Cristos vivos.
 Para apaziguar  a minha mais profunda indignação, fui visitar amigos meus, presos a uma outra cruz, uma cama do hospital. Aí, recordei-me do “Príncipe da Língua Portuguesa”, o Padre António Vieira, em São Luis do Maranhão, há mais de 400 anos:
  “As imagens de Jesus Crucificado que estão nas igrejas são imagens falsas, porque não padecem nem sofrem. Imagens verdadeiras de Jesus são os pobres, os doentes, esses sim é que padecem”.
Que o protesto se transforme em força maior e manhã de Páscoa!

25.Mar.16

Martins Júnior

quarta-feira, 23 de março de 2016

"FAZEI ISTO EM MEMÓRIA DE MIM" ......................O QUE É “ISTO” ?


É esta uma noite ímpar, pela soma de contrastes que a vestem. Por um lado, os galopantes ventos cruzados que derrubam árvores e travam  aeronaves. Por outro, a lua cheia, viajando fagueira “como a alma de um justo”,  entra-nos em casa e na mente em acenos de paz e cânticos de Páscoa. Dormem no mesmo berço  nocturno, as bombas suicido-assassinas dos aeroportos  e  os prenúncios de uma Ceia, em cuja mesa  pão e vinho se misturam com o sabor do abraço e do perdão.
         E é nesta Ceia, chamada a Última, que debruço hoje o meu olhar para descobrir-lhe a ementa e desvendar-lhe o significado. Espero não ferir susceptibilidades e arquétipos interpretativos que sucessivas gerações nos transmitiram ao ritmo imponderado do tradicionalismo religioso.
         No derradeiro adeus aos amigos mais próximos, J.Cristo pôs a mesa e sobre a toalha dispôs pão e vinho da terra, dizendo: “Isto é o Meu Corpo, Isto é o Meu Sangue”. E como quem acentua o núcleo ideológico daquela estranha despedida, mandatou-os com este aviso: “Fazei Isto em memória de Mim”.  
         Que sentido maior terá o demonstrativo “Isto” no contexto da narrativa?
O conhecido e abalizado teólogo Bento Domingues refere, na sua  crónica de domingo passado, que a Última Ceia fica toda iluminada com o gesto simultâneo de J.Cristo quando decidiu lavar os pés aos comensais, pescadores e pecadores, seus amigos desde a primeira hora – uma atitude de intensa carga afectiva e de partilha igualitária entre todos, sublinhando a moralidade global daquela Ceia: “Também é Isto que deveis fazer uns aos outros”.  (Mt.26,26; Jo.13,1-17).  
         Os primeiros cristãos traduziram à evidência o mandato do Mestre: “Partiam o pão em  casa e comiam juntos com alegria e singeleza de coração…Tinham tudo em comum: até vendiam as suas propriedades e fazendas e repartiam com todos, conforme as necessidades de cada um”. (Act.2, 44-46).  Eis a genuína interpretação da Ceia do Senhor e do subsequente  Lava-pés, fielmente vivenciada pelos que receberam em primeira mão a narrativa do Cenáculo. Para eles, interessavam menos os rituais do que as acções concretas de solidariedade no terreno, demonstração dinâmica da sua fé na Eucaristia – a “Boa Graça”, etimologicamente.
         Assim não entenderam os séculos posteriores e os cristãos, doutrinados e dominados por uma hierarquia crescente em poder, luxo e majestade.  Passou-se a privilegiar o rito em prejuízo da seiva interior que lhe dava sentido e actualização. Fechou-se a Ceia no círculo apertado do formalismo litúrgico da “Consagração”. Depois, ergueram-se camarins e baldaquinos, cinzelaram-se sacrários, âmbulas e custódias, algumas delas de ouro precioso (lembremo-nos da sumptuosa custódia do ourives quinhentista  Mestre Gil Vicente) e guardou-se o “Senhor do Universo” numa perfeitinha hóstia circular, bem segura numa prisão que, por ser dourada, não deixa de ser prisão. E chegou-se a esta obtusa contradição: enquanto o Mestre e os primeiros cristãos tomavam o pão da Eucaristia para  abrirem caminho ao exterior, aos que viviam nas periferias, a Igreja usa prioritariamente a Ceia do Senhor para prendê-lO nas áureas teias do solenes rituais.
         Não está em causa o fenómeno da “transubstanciação” (um vocábulo dogmático que os crentes pouco entendem) mas a inversão dos factores-valores da equação entre os meios e os fins, entre o ritualismo e vida. Se alguém houve que repudiou o verniz dos cerimoniais e defendeu acerrimamente os valores da fé viva e actuante, esse alguém foi o nosso Líder e Mestre, atraindo, por isso, contra si a fúria dos sumos-sacerdotes sentinelas da religiosidade formalista oficial.
              Em síntese, todo o equívoco resume-se à frágil distinção entre significante e significado. Quanto menos evoluído é um povo, mais necessidade tem de significantes - repetidos, redundantes, asfixiantes até. Pelo contrário, um povo de olhos límpidos, não afectados por sombrias cataratas ideológicas, depressa intui o significado essencial dos gestos e tradu-lo em expressões factuais, prova transparente da sua crença.
         Quinta-feira Sã e Santa, porque criadora de solidariedades necessárias, dos perdões consensuais, embora tantas vezes doridos e sofridos, mas no fim sempre geradores de prazer e militância face ao futuro!
Não há Eucaristia sem Abraço!
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Seria “divertido” e produtivo se alguém quisesse desenvolver um tema que tivesse mais ou menos este título: “Ao fim de 50 anos de embargo a Cuba, o presidente adventista Obama visitou aquele Povo. Na Madeira, faltam só oito anos para a Diocese levantar o embargo decretado desde 1974  à comunidade cristã e católica, chamada Ribeira Seca”.
Viva Quinta Feira Sã, Saudável, Santa!
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23.Mar.16

Martins Júnior