sexta-feira, 3 de junho de 2016

À CRIANÇA DE HOJE E DE SEMPRE: Perdão e Desagravo


Foi esta a Semana da Criança. Não apenas o Dia. E por aquilo que se viu, aqui e acolá, nos pátios das escolas, nas ruas, até no teatro dos santuários,  atrevo-me a dizer que foi o Mês – e talvez mais  -  da Criança. Acompanhei apaixonadamente reportagens, declarações, artigos de opinião, muitos até contraditórios, mas todos ostentando na testa – no coração é que não – o superior interesse da Criança.
Desejaria eu, hoje, em fim-de-semana, guardar o  tilintante chilreio sem compasso da pequenada a divertir-se anteontem, seu Dia oficial. Ao contemplá-las, as crianças, no buliçoso balancé sem amarras, recordei-me do pensamento de Pasteur: “Diante de uma Criança, sinto-me cheio de ternura por aquilo que ela é,  mas cheio de respeito por aquilo que poderá vir a ser mais tarde”. E face a esta incógnita, “O que poderá vir a ser mais tarde”, sinto que “a ternura e o respeito” tomam outra dimensão: um tremendo bater no peito, um inadiável pedido de perdão.
Pelos abusos subreptícios que dela fazem as empresas publicitárias sem escrúpulos – Perdão. E Protesto.
Pela exploração infantil levada a cabo pelos  proprietários de colégios e afins – Perdão. E Protesto.
Pela lavagem dos seus frágeis cérebros em catequeses estéreis, quando não preconceituosas e perturbadoras, em escolas profissionais do obscurantismo religioso e anti-cultural – Perdão. E Protesto.
Pelo insolente arrebanhamento que docentes-funcionários (as) do regime fazem das crianças, levadas inconscientemente para massificadas missas de fim-de-período escolar – Perdão. E Protesto.
Pela miséria que obriga miúdas e miúdos a rastejar nas vias da mendicidade pública e da desonra degradante para matar a fome aos irmãos mais novos. Perdão. E Protesto.
Pela monstruosidade de pais que, cúmplices de violência doméstica, usam as crianças como arma de arremesso, dentro e fora de casa – Perdão. E Protesto.
Pelos criminosos de guerra que afogam crianças na praia ou as condenam a vegetar na lama dos charcos-abrigo de refugiados – Perdão. E Protesto.
Pelos olhitos recém-nascidos que têm por berço as grades da  prisão onde “mora” a ré progenitora. Perdão. E Protesto.
Oh cortejo silenciado, mas acusador e gritante por dentro, que perpassa diante dos nossos olhos doentes e coniventes desta cruel “globalização da indiferença” (Francisco Papa). Escusei-me a nomear muitas outras vítimas inocentes, inquilinos forçados dos subterrâneos da vida, que é morte!
Ternura e respeito! Para nós, os que descemos a encosta, alivia-nos este preito de Perdão. E Protesto. Mas para os jovens e adultos, não vai bastar o pedido de desculpa. Não! Esperem pelo mundo de amanhã, porque a Criança de hoje vai cobrar a factura a quem lhe amputou o futuro.   
Bate-me, outra vez, na cave do subconsciente o  ofegante sobressalto de Antero de Quental: “Não há nada mais terrível que o olhar de uma Criança”!
Enquanto me debruço no muro da esperança gravando o concerto matinal da pequenada no seu “Dia”, leio a partitura da alvorada – um mundo novo, projectado por nós e  realizado pelas mãos promissoras das Crianças de agora.

03.Jun.16

Martins Júnior    

quarta-feira, 1 de junho de 2016

BABILÓNIA SEM ROSTO ONDE NASCEM AS CRIANÇAS

Elegia e protesto perante as dramáticas  assimetrias em que  nascem, vivem e morrem as crianças deste planeta



O carrossel andante baloiça
Por entre os jardins suspensos desta Babilónia
Sem que ninguém o sinta e oiça        
Deitar dez berços de oiro no alto éden
Cem alcovas de seda no pomar de sumaúma
Mil estrelas cadentes e nenhuma
Que chegue acesa até amanhã
Milhões de pupilas negras no canteiro
Onde não medra o lírio nem cresce o medronheiro

O carrossel  dinossauro sem coração
Abre o porão
E caem braços infantis
De armas na mão
Escravos gerados no ventre do próprio país

Estranhos jardins suspensos
Do tecto que habitamos
Onde risos de cerejas pendem dos ramos
E gemidos de sufoco rastejam o chão

Que Babilónia é esta
Que fizemos
Natal sem festa
Barco sem remos
Num mediterrâneo sem porto
Menino de ouro  nado-morto

Quando virá o dia novo apolíneo
Em que os tenros braços da Criança
Um dia será - quem almeja sempre alcança
Façam baixar à terra os andaimes sobrepostos
Desta Babilónia disforme
Monstro anémico que procria e dorme

Um dia virá
E o que é suspenso e desigual
Será plano
E todo o ano
Será Dia da Criança
Dia todo de Natal

1.Jun.16 – Dia da Criança
Martins Júnior

terça-feira, 31 de maio de 2016

O QUE ESCONDERÃO AS ALTAS MITRAS NAS ESCOLAS? Um vazio de argumentos


Terá de ser forçosamente breve este olhar de quem vê a banda passar. A banda – entenda-se, a amarela – febril,  estridente,  ululante,  pela estreita Rua de São Bento abaixo. Breve e magra esta nota, como breve e magro é o argumentário que lhe deu origem.
Explicando:
Congratulo-me com a atenção das largas  centenas de acompanhantes do meu último texto, o tal da febre amarela. Aí, referi-me apenas ao processo da “cruzada asiática” -  fardadinhos todos da mesma cor com que Kim-Jong-Un  veste os seus pupilos na Coreia do Norte. O que eles andaram para  ali chegar… os becos sem saída, as artimanhas… os hissopes de água benta… os pulos de saltimbancos, como anteontem  demonstrei.
Hoje, sem correr o risco de repetir as duras, mas justas, críticas dos defensores da escola pública, transcrevo dois dos argumentos dos “camaradas amarelos”. O primeiro é que os contratos devem ser respeitados. O ministério também o diz. Se há divergência de interpretações, entregue-se  o caso ao poder judicial. E aguarde-se o veredicto. Não queiram fazer da rua o que sempre condenaram: um   tribunal popular. E mesmo que entendam ter razão (na base do brocardo pacta sunt servanda – “os pactos são para cumprir” ), opõe-se-lhe  um outro  axioma  latino : non sunt multiplicanda entia sine necessitate – “ não se devem multiplicar os entes (as coisas, os instrumentos de trabalho, os prédios e os gastos) sem  que haja necessidade”. E, sem mais delongas: quem é que, tendo casa própria, vai deixá-la ao abandono para ir  viver em casa de aluguer? Só de um lunático multi-milionário! E  Estado que se preze não é louco nem perdulário.
O outro argumento abana-se como um espantalho de melros na horta: “queremos liberdade de escolha”. Na melhor das hipóteses, que o façam, mas entre  iguais, entre duas escolas públicas, ou entre duas escolas privadas, nunca entre  concorrentes ao mesmo lugar e aos mesmos destinatários. O “ideal asiático” seria escolher um professor de serviço em cada casa, ao gosto do cliente! Volto a lembrar que na zona suburbana de Machico, há uma escola privada que tem mais alunos que as duas escolas públicas existentes. E estas, que têm capacidade para o dobro dos alunos, estão em risco de ser abandonadas pelo governo regional.
Resta sublinhar o normativo constitucional que “impende ao governo prover ao ensino universal e tendencialmente gratuito”. Se faltarem escolas, é ao Estado que os cidadãos vão pedir contas,  não aos privados, que apenas andam por conta própria e para interesses fechados.
Comentando, agora, a observação de um amigo de longa data, o Duarte Caldeira – “faltou referência ao papel da Igreja Católica”. Oh, o que eu tinha a assinalar nesta “romagem de agravados”! Nem imaginam. Mas já me doía a cabeça e fugiam os dedos do teclado para ter que cheirar a neftalina bolorenta, manhosa, farisaica das sotainas sacristas que, como dizia o Mestre, “enojam-se d os que comem um mosquito, mas são capazes de engolirem um camelo” . Ou, como bem traduziu Sophia de Melo das pessoas sensíveis, que “são incapazes de matar uma galinha, mas são capazes  de  comer cem galinhas”. Há alguma dúvida que esses colégios, ditos “de élite” – até já se esgotou o cardápio dos santos para baptizá-los – são uma coutada tenra e fértil toda-a-vida  para o episcopado e suas tropas, com mordomias, capelanias e que tais e que tias?!… Conheço relativamente bem o terreno. Lamentável que no marasmo de um silêncio sepulcral perante dezenas de milhares de professores anteriormente lançados no desemprego, venha agora a mitra patriarcal, vazia de argumentos sérios, empunhar o báculo dourado para condenar quem procura o bem geral da população em vez das benesses doadas a privados.  Sempre foi assim. Ainda estou sob a emoção daquela  jovem, Joana d’Arc, condenada à fogueira pelos bispos, só pelo crime de defender os direitos colectivos do povo a que pertencia. Fez ontem, 30 de Maio, 585 anos!
Aconselho a leitura do “Banquete  da Palavra” de 30 de Maio, em que o  Pe. José Luis Rodrigues reproduz o pensamento do  Papa Francisco nesta matéria das escolas privadas, de matiz clerical. ´Diz tudo.
Não resisto, porém,  a citar aquele apoteótico linguado de uma quarentona, agitando a cabeleira como bandeira despregada. em cima do palco improvisado diante da AR: “Somos uma minoria, mas somos de uma perfeita excelência. Somos uns grandes professores”! A tanto chega a arrogância elitista.
Só me apraz ver o folclore e dizer: Deixa a banda passar.. para gáudio do zé-povinho. Porque ainda há quem governe Portugal.

31.Mai,16

Martins Júnior

domingo, 29 de maio de 2016

“O PERIGO” DA FEBRE AMARELA

     Oxalá não salte para a Madeira. Já por aqui temos a aedes aegypti. Chega de pragas afro-asiáticas!
Deixem-me começar assim, porque a epidemia que empestou Lisboa neste domingo à tarde não merece outro trato. Diz-me como andas e dir-te-ei quem és – assim poderá traduzir-se o sábio ditado popular. Nem pergunto o que andas a fazer, apenas vejo a corda bamba em que te movimentas. É disto que vou ocupar-me  – sem prazer nenhum, muito pelo contrário! – nesta nossa convívio epistolar.
Os corifeus da “tragicomédia” amarela, caída em Lisboa  como um vespeiro, espremem-se no torno do varão  em piruetas  tais que só degradam e arrasam os argumentos que porventura  pudessem apresentar. Vamos desbobinar o filme da sem-vergonha e monitorizar rapidamente os ingredientes inenarráveis deste bosão de falácias e desonestidades que se destroem em cadeia.
A 1ª - a mais abusiva e escandalosa de todas, é fazer das crianças carne para canhão, pondo miúdos e adolescentes como escudos à frente dos adultos vociferários sem destino, num claro descrédito da sua função de educadores. Porque é destes que se trata. E dos seus interesses privados ou corporativos.  Quanto às crianças, elas já estão protegidas, pois  terão sempre a escola garantida no serviço público.  
 A 2º - tem a ver com os milhares de cartas escritas ao Senhor Presidente da República “pelo próprio punho dos meninos” … quando se sabe, por denúncia dos pais, que o texto foi escrito no quadro preto para cada aluno copiar durante a aula.
A 3ª – não merece comentários: “Já os pais destes meninos estudaram aqui, agora são os filhos e também ficamos à espera dos netos para se  matricularem cá” – diz a directora à repórter da TV.  Olha o passarinho amarelado: as dinastias da monarquia colegial!
A 4ª – esta só de garoto insolente:  “O Senhor Presidente da República está do nosso lado” … o que levou Belém a um desmentido formal.
A 5ª – mais uma da mesma ninhada: “O Tribunal de Contas deu-nos razão” --- quando, afinal, se tratou apenas de um parecer de um consultor da instância, mas sem qualquer homologação do mesmo Tribunal.
A 6ª – cheira a magia negra, com manifestantes desfilando em cortejo nocturno e velas – também amarelas – nas mãos,  em honra sabuja à Senhora de Fátima na Cova da Iria! Arrepiante pelo que tem de repugnante: entregar a Nossa Senhora o Ministério da Educação, ou seja, a “5 de Outubro” (Lisboa) recambiada para a Capela dos Pastorinhos”. Incrível!
A 7ª – violentar, ou ao menos, jogar crianças para o turbilhão da manif, frente à AR – crianças do norte de Portugal que nunca tinham vindo a Lisboa e “praxá-las” no meio daquilo que os seus promotores, os adultos piedosos, antes classificavam de gritaria e barbárie. Quem os viu e quem os vê!
A 8ª – muito original: “É a primeira vez que se vê (sic!) em Portugal dezenas de milhares de pessoas a lutar por uma causa”. (Reportagem TV)…  De que estância polar terá vindo este professor-profeta com cara de menino do coro? A amnésia já não é deficiência, é o cúmulo do ridículo!
A 9ª – é um ramalhete, cerejinha amarela num bolo desbotado: os senhores  deputados do PSD e do CDS à frente do “rebanho” na escadaria da AR! Afinal, os parlamentares trouxeram para a rua as bancadas do Parlamento. Belíssimo! Agora falem do Jerónimo, do Louçã, da Catarina… Quem cospe para o ar……….
A 10ª e a 11ª e outras mais. Já me cansa a cabeça e fogem-me os dedos de todo este novelo de “aprendizes de feiticeiro” que, como Maquiavel, não olham a meios para atingir os fins.  Camuflados, dizem defender o superior interesse do aluno, mas no fundo, o que está é a inferior cupidez dos adultos e respectivos privilégios.
Da febre amarela e da cólera-morbus – Livrai-nos, Senhor!  

29.Mai.16
Martins Júnior

sexta-feira, 27 de maio de 2016

COISAS DO ARCO VELHA : o poder da GERINGONÇA e os trapezistas da IGREJA


É bem verdade que nos tempos que correm há fenómenos que enchem as praças públicas e os teatros da vida - tão estranhos e contraditórios, que até os  engolimos sem sequer os mastigar. No domínio da tecnologia, o que ontem era, hoje deixou de ser. Num só dia saltam para a ribalta realidades que equivalem a um ano inteiro. E há transformações sociais (mais retumbantes que as alterações climáticas) tão subtis que fazem de um ano uma sucessão de séculos.
Mas não só na tecnologia. Também no pensamento e na religião. O caso que acaba de passear-se diante dos nossos olhos, sem que lhe ponderássemos o significado, teve o nome de Dia do Corpo de Deus, nomenclatura que devia regressar ao original Corpus Christi, Corpo de Cristo.
Paremos um pouco diante da garbosa procissão de Quinta-Feira passada. Muita cor, muito espanejar de roupas brilhantes, cheirando a baú,  em que o vermelho era rei, anjinhos e saloias, bandeiras e generais, ministros e presidentes e, atrás do pálio medieval, a grande multidão, toda feliz, sacralizada e, paradoxalmente,  mundanizada. “Que bonito! Graças a Deus que voltámos a ter este dia! Graças ao Santíssimo que voltou a ser Dia Santo de Guarda”!
Graças a quem?...A Deus, não. Nem ao Santíssimo. Graças àqueles que  os profanadores, os destruidores do Dia Santo, apelidaram de “Geringonça”.  Não foram  nem os bispos nem os cardeais nem os padres nem as freiras, com todo o turbilhão de bênçãos e rezas. Foram os deputados da Assembleia da República (malevolamente taxados de genéricos  comunistas)  foram eles que fizeram o “milagre” de outras rosas: transformar em dia santo aquela Quinta-Feira que os outros – até a cristianíssima Cristas – profanaram, em 2013! Mais escandaloso foi ver  a própria Igreja, o Patriarca e a Conferência Episcopal Portuguesa que, sem tugir nem mugir,  até conluiaram com a  “beatíssima”  coligação que nos governava, para riscar do mapa o feriado do Corpus Christi e o de Todos os Santos. No entanto, foram estes mesmos, fariseus profissionais, que se pavonearam pelas ruas e avenidas, drapejando pendões e penduras…
 Não haverá por aí alguém que recolha o sumo da festa, o sentido mais íntimo deste estranho fenómeno? … Julgo que sim. Em primeiro lugar, a conclusão de que foi o Povo (menos o que votou na coligação PaF) que, através dos ilustres deputados,  restituíu ao Corpus Christi  a dignidade perdida. Em segundo lugar, as “fintas” cinzentas de uma Igreja oportunista que se alia aos detentores do poder, mesmo atraiçoando a sua matriz identitária. Como dizia o Mestre: “Quem tem ouvidos de entender, entenda”!
Sempre foi assim. A propósito da comemoração dos 40 anos de Autonomia Regional, recorto e recordo a quem me lê o “mimo” de contradição que marcou o dealbar de “Abril” na Madeira, 1974: para a direcção do matutino laico, Diário de Notícias, foi convidado um distinto  sacerdote madeirense, Paquete Oliveira. Para o diocesano Jornal da Madeira, o bispo expulsou um ilustre padre, professor, doutor formado em Roma, Abel Augusto da Silva,  e lá colocou um rapaz, quase imberbe, que mais tarde viria a ser líder do maior partido e presidente do governo regional. Para quê mais testemunhas?!
 Tal como na vida política de qualquer país, também será sempre o Povo esclarecido quem mudará as obsoletas  e matreiras  estruturas   da Igreja do circo e do trapézio.  Outra luta não tem sido a do Papa Francisco para limpar do Vaticano os “velhos abutres” camuflados de púrpura.
Sejamos dignos da nossa Hora.

27.Mai.16
Martins Júnior

   

quarta-feira, 25 de maio de 2016

MACHICO E VENEZA - Recordações e desilusões

                                                    

Hoje vou deixar  a Ásia em paz e vou rumar até Veneza. Ao dizer “Ásia”, digo  os  calores do deserto, ontem calmos e hoje turbulentos, digo esgares destemperados em fila indiana, vermelhos de espuma e amarelos de sono e súbito pesadelo, em que “a força do público e o público à força”, tipo Salazar, vestem centenas de  alunos  com o mesmo amarelo doentio nas camisolas de colégio, formando as novas cruzadas do século para reconquistar os lugares de privilégio a que sempre se acomodaram, à custa do dinheiro dos contribuintes.   
Porque hoje está em Veneza o príncipe da arquitectura portuguesa, Álvaro Siza Vieira. Ele aí está como protagonista do Pavilhão de Portugal na Bienal daquela cidade. Aí está com a transparência  da luz oblíqua da sua obra que, multiforme nos tempos e lugares, revela-se tão perfeita  e una na verdade do  talento e no  olhar fiel ao real quotidiano da habitação social.  Apresenta-se com  o “Bairro da Bouça” (Porto), o “Bairro Schilderswij” (Haia), o “Campo de Marte”(Giudeca) e o edifício Bonjour Tristesse, em Schelsisches Tor (Berlim). Aí brilha o Homem, o Artista, severo na disciplina conceptual e sensível às sugestões, venham de onde vierem - o criador de braços abertos à totalidade da dimensão geo-antropológica, traduzida na arqui-arte do património construído!
Falo assim, porque ele também esteve aqui. Em Machico. Agosto de 1993. Por isso, ao vê-lo no Pavilhão de Portugal da Bienal de Veneza, transporto-o para a nossa cidade, primeira capitania da Madeira. Estou a vê-lo, debruçado sobre o Plano de Pormenor da zona ribeirinha de Machico, ouvindo (como um humilde aprendiz) as opiniões da vereação da CMM e de residentes locais, para depois manifestar a sua perspectiva de conjunto sobre a panorâmica da nossa baía. Era a altura em que os “batelões de cimento e betão”  com assento à mesa da Quinta Vigia  acusavam a autarquia de  “estagnação” e “terceiro mundo” só pelo facto de não permitirmos cá o assalto dos patos bravos à paisagem ímpar que pertencia, de direito, à população. Após três dias de  cuidada reflexão, partiu  para  uma região nos arredores de Paris, afim de fazer regressar à traça original o mercado da localidade,  que mãos vilãs tinham “destruído” com ampliações megalómanas e de mau gosto. Daí seguiria para Itália, onde lhe era pedido um plano de correcção de rede viária,  mal desviada por interesses privados que a transformaram num monumental aborto betuminoso.         
De tudo quanto nos disse, ficou-me este aviso, em forma de conselho amigo, como era seu timbre: “Presidente, trate-me esta zona com pinças. Mesmo que desagrade a terceiros”.
Cumpri. Hoje, porém, o que  confrange e até desespera é constatar que mãos daninhas, a soldo dos tais “batelões de cimento e betão”  fizeram rigorosamente o contrário: estação de águas residuais na entrada da baía; Forte-Promontório na falésia, abandonado, irreconhecível; estrangulamento do cais da cidade; o fórum-mastodonte feito muro agressor e encobridor do grande vale… Apetece mandar mensagem para Veneza: “Mestre Siza, não voltes a Machico, ao menos para poupar-te a esta enorme desilusão”.
         Trago assim esta aproximação de Machico a Veneza pela mão de Álvaro Siza, porque sabe bem recordar. E sobretudo porque reconforta  ver que ainda há vozes frescas que se levantam contra os ventos da “cidade velha” oriundos da Quinta,  priorizados pela cobiça de reeditar moendas de alcatrão populista na paisagem regional.

25.Mai.16
Martins Júnior

  

segunda-feira, 23 de maio de 2016

VITÓRIAS DO TRABALHO SOBRE A PREPOTÊNCIA


                                                      
“Porque nada de humano me é estranho”, muito menos sê-lo-á o que à minha volta se passa. E é  só por isso que hoje fico na bancada a olhar as últimas fintas do campeonato  2015/2016.  De entre as 297 mensagens do SENSO&CONSENSO, esta é a segunda vez que deixo entrar o futebol na minha praia. E tanto chega para o meu registo de interesses nesta matéria: amo o desporto naquilo que canaliza de  saúde e bem-estar global, mas detesto essa máquina sádica de moer cabeças e consciências que é, afinal. no que se tornou o futebol profissional. Mais que moer, triturar! O que aí vai de trapaça, imundície, “malas de jogo… jogo duplo… guarda-redes a vender frangos por 1.500 euros”, enfim, de despejo de água-suja e de offshores lavados em lixívia do Panamá e arredores! O que mais repugna é ver tomar conta dos nossos ecrãs produtos manipulados e cenas degradadas sobre uma actividade humana que se deseja – e para isso foi feita – como uma alavanca saudável para corpo e espírito.
É a morbidez atávica dos instintos: onde há dinheiro, aí está tudo: o mal disfarçado de bem, o desempenho à mistura de corrupção, a política embebida nas caneleiras dos estádios. E a encharca de comentadores e analista, gente grada e de  importância engravatada, que ora se emociona ora se exalta até ao tutano, a discutir a mão na bola ou a bola na mão, o milímetro do tornozelo do adversário em cima da linha, o apito do árbitro e as aleivosias à mãe do homem-de-preto. Chega! Ainda bem que, por algum tempo, os nossos televisores terão algo de diferente a servir-nos nas noites de domingo, manhãs e tarde de segunda-feira.
         Mas o impulso maior que me leva a abrir esta página ao futebol é o resultado das duas principais competições nacionais: a vitória do Vitório (o Rui) e a Taça de Portugal para o Paulo Fonseca. Definindo melhor: o triunfo dos atletas  contra a arrogância dos donos-do clube. Talvez mais precisamente:  a palma de ouro para os trabalhadores contra as ambições inconfessáveis dos exploradores. Nada mais bem feito!  Eu que não mexo um dedo de paixão clubista  (os que lá estão têm menos amor à camisola que os sócios e adeptos)  soube-me essa surpreendente  gesta, excitante, inimaginável e invejada pelos orgulhosos “Trump’s” cá do burgo, os que destilavam desprezo por “quem não era treinador nenhum”, os que mandaram para a prateleira o tal que agora lhes arrebatou o Troféu, com todo o mérito.  Aliás, sempre admirei a postura inquebrável,  realista e serena  de Rui Vitória e a cativante humildade de Paulo Fonseca, protótipos de lideranças firmes, vencedores no rectângulo e fora dele, sem nunca ripostar às provocações “sub-10” dos “rebenta-minas” que, desde o início,  julgavam-se já com o pássaro na mão.
Que passe de mestres e que estrondosa finta! Memorável lição para os dirigentes deste irregular rectângulo insular, em que germina a erva de certos dirigentes desportivos, arfando de protagonismo, senão mesmo candidatos falhados na cena política regional!
Não será preciso esclarecer  – mas faço-o expressamente – que o que escrevi nada tem a ver com as simpatias clubísticas de quem quer que seja. Os simpatizantes, acho eu, não partilham dos vícios dos dirigentes. Mas,
desta vez, parafraseando um antigo programa desportivo – “No estádio e no Estúdio” – também se pode afirmar que os estádios portugueses transformaram-se num estúdio e numa cátedra para o desportivismo e para a vida.

23.Mai.16
Martins Júnior