quinta-feira, 7 de julho de 2016

ESCOLAS OU DEPÓSITOS DE CRIANÇAS ?

        

          Fechou-se mais um ano lectivo. Abrem-se agora dois meses livres de horários, de monótonas campainhas. Mas dois meses, também, de preparação para novo campeonato. Portanto, é neste descontraído teleférico entre um ano e outro que nos dá para olhar e monitorizar a grande e sinuosa  paisagem da Educação.
         Permitam-me colocar na tabuleta desta minha  reflexão aquele sábio axioma de outros tempos. “Para educar uma criança é preciso uma aldeia inteira”.
         Ao falar da “aldeia inteira”, situo a Escola na sua omnímoda dimensão: o local, o ambiente social, a família, as instituições, enfim, o habitat ecológico do educando. Sem a conjugação de todos estes ingredientes, dificilmente sairá uma criança segura, auto-confiante, receptiva ao conhecimento, numa palavra, uma criança educada, na completa acepção do conceito. Porque a Escola não pode reduzir-se a uma “loja de atacado” ou a um depósito de embrulhos, hipocritamente rotulados de “as nossas crianças”.
 
         Nem de propósito, hoje na imprensa diária, o abalizado mestre da arte de ensinar (educar), o Prof. André Escórcio, em consonância com o presidente do Sindicato dos Professores da Madeira, insistia (como de resto faz nos seus escritos) na necessidade de “melhores condições de trabalho e na maior aposta no acompanhamento do aluno”, constatando que “nas turmas em que podemos fazer um trabalho concreto e individualizado temos bons resultados e reduzem-se as taxas de reprovações”.  E conclui que é urgente “questionar as razões substantivas do insucesso escolar  no enquadramento organizacional e pedagógico”.
         Agora sou eu que sublinho: “condições de trabalho … acompanhamento … trabalho concreto e individualizado … razões substantivas … enquadramento organizacional”. Aqui está a síntese de todo um tratado objectivo, porque experiencial, do sistema educativo. Entram nesta súmula as mais amplas coordenadas conducentes ao sucesso na Educação.
         Da minha parte, vou incidir a reflexão que se impõe face ao dilema com que pais e alunos se confrontam neste momento crucial de transição: a fusão de escolas. Assentados nas poltronas dos gabinetes, os especialistas em autópsias sociais cortam, recortam, entortam até às costelas o corpo e a vida de crianças e adultos. Por instinto exclusivamente economicista, dividem o organismo social, de  régua e esquadro em cima do tabuado, insensíveis àquilo que mexe e faz sofrer não apenas pais e filhos, mas toda a arquitectura da Educação. Fazem das crianças embrulhos descartáveis em cima de contentores e atiram-nas para onde virarem os ventos da incompetência governativa.
         Se um dia pais e filhos e educadores entrarem pelos gabinetes assépticos, gritando que não são os prédios que arrastam as crianças, mas são estas que determinam e dão sentido às construções escolares – dirão eles que se está diante de uma revolução de arruaceiros analfabetos. E, de ricochete, ouvirão a resposta: Analfabetos, esquartejadores sois vós, que roubais  “as turmas, as condições de trabalho, a aposta no acompanhamento escolar”, enfim, desenraizais de suas famílias e da sociedade envolvente as crianças desde a mais tenra idade!
Amputais do  “habitat” do seu crescimento natural  a infância carente da proximidade inter-geracional para encaixotá-la em monstruosos paredões, descaracterizados, despersonalizados, enchouriçados. De muros gradeados em volta, mais parecem prisões que sedes de Educação, onde fermentam como larvas os complexos da anomia na psique de quem se sente como um estranho. Na sua escola de origem, tinham pátios de recreio, campos de jogos, amplos espaços de lazer.
         Não menos censurável é a desertificação  a que ficam condenadas as zonas altas, olhando para a  sua antiga escola como quem tem sempre diante si um cemitério de crianças varridas do seu berço. Quem pode suportar tamanha cegueira, senão mesmo, tão desumana crueldade?!... As estradas que fizeram tanto trazem como levam. As grandes superfícies comerciais, os centros de saúde, os equipamentos desportivos e culturais, as delegações bancárias, as repartições públicas, os correios -  tudo está previamente delineado para a debandada das populações. Só lhes restam a igreja e a escola. Mas, agora, nem a escola!... A pouco e pouco, desenraízam quem aqui nasceu e tem amor à terra-madre dos seus antepassados. E lá vêm depois as mágoas das carpideiras dos gabinetes da capital sobre a “lamentável” desertificação dos meios rurais… Grandes trastes!
         Voltarei a este assunto até que as mãos me doam.
Mas não podia deixar passar em claro esta afronta à Escola, precisamente hoje, 7 de Julho, Dia Internacional da Educação. Um grande Salvè a todos os homens e mulheres que abraçaram a nobilíssima missão de Educar!

         07.Jul.16

         Martins Júnior  

terça-feira, 5 de julho de 2016

O QUARTETO DA NOITE DE SÁBADO


Os quatro violinos adormeceram para sempre no berço da partitura. Mas a melodia prolongou-se por quatro dias e quatro noites, até que os dedos do quarteto doaram às chamas o que restava do seu talento imorredoiro.
Eles aí estão, companheiros dos últimos acordes, quando embarcaram nesse cruzeiro de sábado, 2 de Julho de 2016. Quatro dias e quatro noites esperaram na amurada do cais até à hora em que definitivamente tudo se converteu em cinzas aladas a colorir o planeta.
Caso normal, comum a todos os mortais. E caso estranho o terem “combinado” o mesmo dia da partida! Aqui ficou selada aquela sina que marca a história:  Todos Diferentes e Todos Iguais.
      Diferentes no habitat que lhes coube viver:
         Elie Wiesel, romeno judeu, saído das negras portas dos fornos crematórios de Auschwitz depois de ver o pai espancado até à morte, a mãe e a irmã atirados à câmara da gás, foi marcado aos 15 anos pelas tropas nazis com o nº A-7713, que trouxe toda a vida no braço. Deportado juntamente com a comunidade judaica em 1945, estudou em França e, mais tarde, ensinou nas universidades americanas de New Iork, Yale e Columbia, tendo publicado mais de 40 livros, o maior dos quais intitulado A Noite, relatando os horrores do Holocausto, Foi agraciado com o Prémio Nobel da Paz, em 1986.
         O nosso Camilo de Oliveira, 91 anos,  totalmente diferente, encheu o país de gargalhadas sadias, anti-traumas, libertadoras, nas 47  peças de teatro de revista que marcaram os nossos palcos e que ainda hoje são recordados nas irrepetíveis interpretações do Padre Pimentinha  (na foto),  Lisboa é Coisa Boa (1951), Camilo na Prisão, Camilo Presidente, entre outras. Assente como uma luva, outro dia, senão o sábado,  poderia ter “escolhido” o criador do famoso programa Sába  Dá  Badu, com Ivone Silva  no dueto Agostinho e Agostinha, que tanta saúde física e mental transmitiram aos portugueses.
         Michael Cimino, realizador cinematográfico, 77 anos, vencedor de cinco óscares pela Academia de Hollywood, em 1978, com o filme Viagem ao fundo do Inferno ou  O Caçador,  contra a guerra no Vietnam. Desaires supervenientes, sobretudo após  a realização do  (1980) Heaven’s Gate (A Porta do Paraíso)  soçobrou às mãos de uma crítica implacável.
         Finalmente, Michel Rocard, 85 anos, Primeiro-Ministro francês no mandato 1988-1991, percorreu os mais diversos atalhos da política, conheceu vitórias e derrotas, terminando a carreira como deputado europeu, entre 1994-2009.
         Embora diferentes e distantes uns dos outros,  uma idêntica linha de rumo os conduziu: o espírito combativo, porfiado, diante dos obstáculos. Defensores da verdade íntegra, ( exigência moral na acção política, ideal de Michel Rocard) militantes  dos direitos humanos, (Nenhum homem é ilegal, proclamou Elie Wiesel) nimbados  de uma ambição perfeccionista, (Camilo de Oliveira) inconformados com o politicamente correcto ( Enfant terrible du Nouvel Hollywood, escreve “Le Monde” sobre Cinimo, denunciador  do selvagem capitalismo americano)  --- todos estes homens  marcaram a História.   
         Trago-os hoje, na mesma urna – o mesmo trono - da nossa homenagem, cumprindo o que sobre o Holocausto  afirmou  Elie Wiesel  na aceitação do Nobel da Paz: “Esquecer os mortos é permitir que sejam mortos segunda vez” E acrescenta: “Eu tentei manter a memória viva, tentei opor-me àqueles que preferem esquecer, porque se esquecermos somos culpados, somos cúmplices”.
         Trago-os também, porque muitos outros, homens e mulheres, gente anónima à nossa volta, vivem e sobrevivem da chama que animou os quatro combatentes, os “Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, irmanados em vida e companheiros na hora da partida.
Trago-os, finalmente, porque o que mais falta é continuar a ouvir-se, com o nosso esforço e determinação,  “essa linda, longa melodia imensa”, diria Sebastião da Gama. Até ao dia da Grande Viagem!

05.Jul.16

         Martins Júnior

domingo, 3 de julho de 2016

CÁ VAMOS CANTANDO, PAGANDO E RINDO : Breve radiografia das festas na Ilha


“Lá vamos cantando e rindo”…
         Era assim que nos tempos de Salazar se impunha  o  hino patriótico aos jovens, forçosamente agrupados  na  falange denominada  “Mocidade Portuguesa”. Os irreverentes estudantes de Coimbra nos cortejos de fim-de-curso, as  famosas latadas, ironizavam com a variante Lá vamos, pagando e rindo…
         Cantando e pagando cá vamos nós também, embarcados nos porões dos arraiais que pululam agora por toda a ilha. Finados os “Santos Populares”,  passamos aos Senhores e às Senhoras, oragos das mais 100 paróquias e capelas madeirenses. Tenho para mim que a invocação ou o título dos eventos é o que menos interessa para a comunicação social e, daí, para o  grosso da população. A avaliar pelas notícias e reclamos, tanto faz chamar-se  Festa de São João, António ou Pedro como apelidá-las de festas da cebola, do caramujo ou do mexilhão. O que é preciso é entrar na excursão, cantando, pagando e rindo.
         Foi o que me chaparam nos olhos as imagens e os comentários televisivos  de ontem acerca do São Pedro na Ribeira Brava. Os feirantes, as carradas de carne, os barris de poncha e, como cereja no bolo, a caixa: o lucro, o negócio - objectivo legítimo de quem arrisca, mas francamente redutor para quem faz reportagem. Então, a delícia e o “faro” do jornalista atiram o microfone para os laboriosos trabalhadores das barracas, com as ridículas e enfastiadas perguntas, do género “como é que vai o negócio, têm vendido muito, as pessoas aparecem mais que no ano passado?”… Até na religião: “Quantas girândolas de  foguetes, há  muitas velas de promessa, muitas cabeças e pernas de cera nas procissões?”… Tudo negócio! Do tamanho dele depende o brilho ou o escuro da reportagem. Factores culturais, vertentes artísticas, algo mais que os comes-bebes-e-pagas são os ausentes  e esquecidos dos comunicadores públicos.
         Ninguém pretenderá fazer das festas populares tertúlias académicas. Mas se, porventura, ocorrem determinados eventos em que o povo e a cultura assumem-se como protagonistas deveria dar-se-lhes o devido apreço.
         Refiro-me àquilo que vi nestes dias em Machico. Houve o cortejo de São Pedro, a que já aludi noutro texto, com  participações de qualidade, genuinamente endémicas. Associadas ao São Pedro seguiram-se outras actividades, integradas no Dia da Freguesia, sobressaindo o programa denominado Arte e Pesca na enseada leste da baía, desde provas náuticas, “24 horas a voleibolar”, padel,  construções na areia, passeios de veleiro e catamarã, atelier de artes plásticas, pintores ao vivo. Um teclado multiforme, de diversas tonalidades, extenso e sugestivo é como pode classificar-se o que se passou no palco. Música para todos os gostos: “Vozes do Concelho”,  Grupo Folclórico, Banda Municipal, grupo de fados e do “Prestige Dance”, António Câmara e a sua Guitarra, “Cantares da Ribeira” com o desfile coreográfico intergeracional da Ribeira Seca e outros artistas locais, a que se juntaram bandas convidadas (“Aoakaso”, “Punk D’Amour” “Fitness Team”, “Feed back”, “Dull N’Nouk White”, “Major Cafeina”) e os DJ’s no encerramento de cada um dos cinco dias que durou a 2ª edição da  Arte e Pesca, uma homenagem da Junta de Freguesia de Machico aos pescadores da localidade.na zona do Caus do Desembarcadouro, o seu meio ecológico.
         Todos quantos ali passaram, de diversos escalões etários e culturais, todos tiveram oportunidade de abastecer-se nas barracas em redor, mas ao mesmo tempo alimentaram a mente e a sensibilidade com uma ementa diferente. No regresso a casa, subia a vida em tom maior, por causa do ambiente pacífico, saudável e construtivo que encontraram na baia. Porque a Arte e Pesca  não serve para alienar e esvaziar o ser, mas para libertá-lo e dar-lhe força de interpretar e vencer as barreiras do quotidiano.
Há mais festa para além do cantar, pagar e rir!

         03.Jul.16

         Martins Júnior

sexta-feira, 1 de julho de 2016

DINOSSAURO DE OUTRAS ERAS, EU TE SAÚDO, NOBRE MACHICO!


Entre 1 e 2 de Julho repicam os sinos na vetusta torre da História. Enquanto o Funchal optou recentemente  por comemorar o 1º de Julho, como o Dia do Achamento da Madeira, a população de Machico, desde há várias décadas, tem sido fiel aos cronistas da época que relatam o mesmo evento, assinalando que ocorreu em “2 de Julho, Dia da Visitação a Santa Isabel”. Por isso, aqui deixo a minha saudação.

Não sei se é canto
Se é pranto
A cinta que amarra
A ilha toda  à barra
De um  horizonte sem cais

Mas sei
De um dinossauro de outro planeta
Veio de longe
E em basalto se fez
Terno e rude, vidente e cego
Antes que fosse português
Este mar onde navego

Aqui chegou
Cabeça dormente a levante
Seio túmido a montante
Prenhe de mundos futuros

Fosse Machim o amante
Quem te achou
Fossem as caravelas do Infante
Vejo-te sempre  terra e mar
Pico alto e abismo fundo
Fio de água agridoce
Mistura informe de ribeira e sal marinho
Abraçados no lençol cambraia
De todas as marés

Até o sangue  azul  que veste os calhaus da praia
Subiu córregos e atalhos
Tingiu de pastel real
As nascentes virgens da montanha

Estância de reis e escravos
Cepos  e brasões
Terro de cardos e cravos
Pátria do poeta gémeo de Camões

Porque és herdeiro
Do Capitão Primeiro
Da Ilha
E porque é de bronze
A quilha
Da nau “São Lourenço” que comandas
Quantas vezes te algemaram pés e mãos
Outras tantas as quebraste
Em  ciladas naufrágios e demandas
Que de todas triunfaste

Baía que é  um abraço Montanha que é um sorriso
Eu te canto Terra Nova que amo
Nervura polícroma  que piso:
Oh  agra geração de antanho
Oh lobos do mar bravo cavado
Oh mãos sedosas do bordado
Oh jovem estirpe de talento tamanho

Eu sei
Velho dinossauro de outras eras
Que é por mim por nós que tu esperas

Desde o Larano  ao  Desembarcadouro
Da Praia de São Roque ao alto dos Maroços
Eu sei e sinto e vejo
Erguer os braços - os teus os meus os nossos
Brilhantes como a Estrela do Centauro
E restaurar o sonho antigo
Do teu seio túrgido amigo
Nosso e novo Machico – Oh  Velho Dinossauro

1-2.Jul.16
Martins Júnior

quarta-feira, 29 de junho de 2016

VIVA A ROMARIA POPULAR


           É o Santo António, São Pedro e São João
           É a sua festa, é o seu belo dia
           A gente canta, canta de coração
          Viva Machico, viva a nossa romaria

Ontem e hoje “Je suis Saint Pierre”. É o que me ocorre dizer, enquanto me embalam o peito as canções com que se abriu a noite de hoje em Machico. Certamente que em todas as cidades e lugarejos o mesmo  possam dizer  todos quantos viram e, sobretudo, os que prepararam e desfilaram nos cortejos. Há-os, sumptuosos, vistosos, quase carnavalescos, com batidas musicais  de outras paragens. Há-os, também, os que primam pelo requinte, na mira de um prémio dado pelo júri da feira. Todos satisfazem, mexem, “pegam na vida”.
Mas a homenagem garrida, hoje dedicada aos homens do mar, na baía de Machico, teve outro sabor. Porque foi genuína, fresca e leve, divertida. À sua passagem não havia o habitual crítico espectador das marchas, mas em cada olhar em volta sentia-se-lhe o ritmo contagiante da soltura  alegre que irradiava dos participantes. Eram pais e filhos, eram avós e netos, eram irmãos e colegas de estrada os que circulavam nos arcos coloridos que traziam nos braços. O cortejo brilhou, não pelas lantejoulas fugazes, mas pelo sorriso, as vozes, a sintaxe directa e cúmplice entre quem ocupava as bermas ou o palco da rua: a letra, a música, a coreografia saltitante de inspiração popular!

De inspiração popular foram as partituras, com especial menção a da Banda Municipal de Machico,  do Centro Cívico-Cultural e Social da Ribeira Seca e das “Flores de Maio” do Porto da Cruz, diferenciando-se  esta última  por trazer música e instrumental ao vivo, sem qualquer recurso a tecnologia sonora. Lindo e enternecedor ver e ouvir vozes claras enchendo as ruas  até ao cais da cidade. A participação do Jardim de Infância, da “Universidade” Sénior e até  Casa do Povo de Santa Cruz, todas  entrelaçavam  emoções e corações. O percurso pedestre dos três Santos Populares, com o Santo António ao vivo, de Menino Jesus ao colo, o São João e o seu cordeirinho a passo certo, as barbas de um São Pedro de carne e osso, com a enorme chave do paraíso - foram outros tantos motivos de expectativa e franca confraternização, Muito acertada a opção dos promotores  por não terem atribuído qualquer discriminatória atribuição de prémios, Participar foi o prémio maior.
São Pedro é o padroeiro
É o arrais da beira-mar
Aos pescadores da nossa freguesia
Um grande viva aqui viemos dar

Uma chave de ouro com que a Junta de Freguesia de Machico  fecha o mês de Junho e abre, até domingo, as iniciativas lúdico-culturais  “Arte e Pesca” e “Do calhau se fez Arte”, integradas no Dia Oficial da Freguesia, 2 de Julho, a data da Descoberta ou Achamento da Ilha!
Pela simplicidade sem peias, as minhas congratulações.


29.Jun.16

Martins Júnior

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Desde 27 de junho 1976 a 27 de junho 2016: PARTO A-FERROS DE UMA AUTONOMIA NA IDADE DA TERNURA


Como quem conta os nós de uma soca adulta  da nossa cana de açúcar, um a um, até chegar à raiz, assim podemos percorrer os quarenta anos da autonomia madeirense, começando pelo húmus que a  fez nascer. Chamemos-lhe  “idade da ternura”, aquela que estamos hoje a comemorar, sendo certo que o organismo democrático  nunca poderá  crescer  na almofada fofa do contentamento narcisista. Pelo contrário. Porque está cercado  de  vírus pantanosos, pré-organizados nos camuflados antros de interesses corporativistas, o crescimento democrático exige sempre vigilância, frescura, água renovada, seiva corrente.
Faz hoje quarenta anos das primeiras eleições para a Assembleia Regional da Madeira e, consequentemente, do seu governo próprio. Foi uma cabazada de votos para a formação partidária que até agora nos governa. Dos 41 deputados, 29 foram para o PSD, 8 para o PS, 2 para a UDP e 2 para o CDS.
Este é  o testemunho de quem viveu dentro do furacão de onde saiu um corpo desequilibrado, atacado de  macrocefalia logo à nascença,  a que pomposamente baptizaram de Autonomia. A geração de hoje nem faz ideia do despudor e da barbárie de que foram capazes os auto-proclamados donos da “Madeira Nova”.
Dois foram os paióis onde se fabricaram as armas de arremesso fulminante: a barbárie do bombismo  flamista e o despudor de uma Igreja ajoelhada ao trono do antigo regime. Ao mais isento observador ocorrerá, de certo, esta pergunta: Como é possível uma aliança tão contraditória entre o altar e a matança de inocentes? Resposta imediata: só num regime muçulmano do jhiadismo, a “Guerra Santa” de Maomé e seus sequazes, em defesa de um sanguinário Alá!
Ainda está por descrever esse rasto de sangue, destruição e morte que o movimento clandestino “Flama” deixou no berço daquilo que chamam Autonomia. Isto, apenas, bastará de paradigma: 1) pela calada da noite, criminosos assassinos colocavam nas mãos de jovens, ainda adolescentes, os explosivos traiçoeiros que espalharam o terror, rebentaram  viaturas e construções, em nada proporcionalmente diferentes dos atentados bombistas do Daesh. Aconteceu, até, o suicídio de um rapaz, de certeza inexperiente, que viu rebentar-lhe mortalmente nas mãos a bomba destinada aos defensores da verdadeira democracia conquistada no “25 de Abril”.  2)  Um outro, a cujo julgamento assisti na comarca de Santa Cruz, viria a enforcar-se (ou ser enforcado) na prisão para que não fosse desvendada a  máquina infernal da “Flama”. 3) O bombismo terminou logo após a subida de João Jardim ao poder regional – testemunho de um operacional da “Flama”. 4) A bandeira oficial da Madeira foi decalcada, copiada daquela que a “Flama” usava, como sua,  nas inscrições murais
espalhadas por toda a ilha como pré-aviso de ataques bombistas. Acrescento que, nesse período escaldante, Machico viu-se livre desses atentados em virtude da constante vigilância popular, dia e noite.

Ao lado da “Flama” militava a Igreja, ocupada pelo bispo Francisco Santana,  promotor na Madeira do já derrubado regime fascista. “Eu trato  por tu os ministros do “Estado Novo” salazarista – confidenciou-me pessoalmente, ainda antes de ser bispo. 1) Chegado ao Funchal, demite da direcção do “Jornal da Madeira” o ilustre Pe Dr. Abel Augusto da Silva e entrega-o a um rapaz factualmente conotado  com o regime salazarista, a União Nacional, dirigida na Madeira pelo tio deste, Dr. Agostinho Cardoso. O dito rapaz usou o Jornal da diocese como trampolim  para chegar a presidente do governo regional, cargo que ocupou durante mais de 38 anos.  2)  Em vésperas de eleições de 76, o bispo desmultiplicou-se, sem tréguas, numa campanha religiosa manifestamente tendenciosa: publicou uma Nota Pastoral, lida em todas as igrejas,  alertando os cristãos contra o socialismo, que manhosamente qualificava  de “marxista”; promoveu o grande espectáculo da missa do “Corpo de Deus” no estádio dos Barreiros e, no domingo anterior às eleições, faz uma extensa homilia de teor marcadamente separatista, misturando a “barca de Pedro” e Portugal a afundar-se, não hesitando ele, lisboeta, a  regionalizar-se madeirense: ”Queridos ouvintes, que me escutais em Portugal e no estrangeiro, podeis ver como nós, Madeirenses,  sabemos conviver, sempre que nos deixam ser genuinamente Madeirenses”. (O negrito dos caracteres é  tal e qual o mesmo do Jornal da Madeira).   3) A anteceder as eleições de 76, o citado bispo levou o jovem, novo director do Jornal, a todas as paróquias, apresentando-o como o melhor para governar a Madeira. O Padre Tavares Figueira, conhecedor profundo deste período, retratou a situação, com humor mas com inteiro rigor científico, numa entrevista de circulação nacional: “O PPD nasceu numa sacristia e o  pai foi o bispo Francisco Santana”.
Muito mais poderia acrescentar sobre uma matéria que os jornalistas locais esconderam  e continuam a esconder em sub-reptícias reportagens que não passam de “larachas da Autonomia”.
Sirvam estas palavras,, que comprovo sem qualquer receio, para interpretar a entrada da chamada Autonomia na “idade da ternura”, desde o 27 de Junho de 1976 até  27 de Junho de 2016. Saibam os homens e mulheres de hoje com que mãos se fez o parto desta Autonomia: o altar transformado em quartel de guerra e, escondida sob as toalhas,  a pólvora clandestina que iludiu e matou.
Terei oportunidade, a seu tempo, de trazer a público o que ainda não foi descoberto.
Duas notas finais:
Foi eleito nas listas do Partido Socialista aquele que, pouco depois, guinou para o PSD como presidente da Assembleia Regional, Dr. Miguel Mendonça.
Recordo Paulo Martins,  hoje,  dia do seu aniversário natalício, eleito como eu nas listas da UDP e em cuja companhia escrevemos páginas concretas em prol da verdadeira autonomia dos madeirenses.
     
         27,Jun.16

         Martins Júnior

sábado, 25 de junho de 2016

“PORQUE HOJE É SÁBADO, AMANHÃ DOMINGO”




      Hoje é dia de ser diferente.
     De ser diferente este SENSO&CONSENSO.
   Apetece-me deitar a correr o rio largo que inunda os muitos dias de cada noite e as muitas noites de cada dia. Precisando melhor, é hoje que me dá para soltar o “Dia da Criação” de Vinicius de Morais.
   PORQUE HOJE É SÁBADO, AMANHÃ  DOMINGO!…
  Quem, de entre nós, não teve alguma vez o desejo de fruir até à seiva,  ser livre, abrir o paraquedas e voar sem amarras pela nuvem que nos leva ao ritmo do seu olhar despido?!
  Hoje prescindo do habitual jeito   de pôr a mesa, abrir a ementa, servir a fruta. Hoje entendo quão diversos e plenos são os manjares da escrita, do sonho, da sucção inata de cada indivíduo que viaja dentro de si e em redor do seu mundo. E neste caso o melhor que há a fazer é deixar cada cérebro planar a seu bel-prazer sobre aquilo que mais o deleita.
  Prefiro, pois, desprender a atenção, seja de quem for,  desta ou daquela abordagem em particular. Convido apenas a sentarmo-nos no chão da casa diante de vários ecrãs simultâneos, deixando ao critério de cada um a opção que mais lhe convier. É que, de tantos e ponderosos “casos”  ocorridos à nossa beira, resulta o desejo de pegar em todos eles, com a lucidez e a profundidade que merecem.
     Por exemplo, hoje Sábado, amanhã Domingo:   
        a) Um simples quadradinho, metido numa urna longínqua, abalou toda a Europa, a Bolsa, os vários continentes, porque, pelo Brexit, o Reino Unido voltou a ser uma ilha.
           b)   Dobrado abalo agita toda a Espanha, com o decisivo acto eleitoral de amanhã, 26-Junho, de repercussões imprevisíveis para a governabilidade do país vizinho.
           c)  A bandeira portuguesa salva-se, in extremis, na praia daquele mar meio-morto que foi a refrega contra os croatas, em  Lens.
         d) O rescaldo do “São João”  alaga de sardinha e sangria as ruas,  becos e esplanadas, desde as grandes cidades até às bucólicas aldeias.  
         e) A estrela polar de um novo mundo e de outra era civilizacional está hoje na Arménia “ortodoxa”, para mais uma vez denunciar o genocídio humano perpetrado pelos soldados do Império Otomano há cem anos. Francisco, bispo de Roma (como ele próprio se autodefine) mais uma vez mergulha as mãos  na trágica necrópole de vítimas inocentes que os poderosos teimam ocultar.    
     Sê livre neste fim de semana.
    Das tuas pupilas gustativas sairá o apetite singular que alimentará todo o teu ser e fá-lo-á caminhar com segurança na construção da tua personalidade. Aqui também se adapta a velha máxima:  Diz-me o que comes e dir-te-ei quem és!
    Bom apetite.
   Porque hoje é Sábado, amanhã Domingo!

25.Jun.16

Martins Júnior