quarta-feira, 1 de junho de 2022

DIANTE DE UMA CRIANÇA…

                                                                      


É de Louis Pasteur – Diante de uma Criança… – e é ele próprio quem sintetiza a maior enciclopédia da Infância – Sinto-me cheio de ternura por aquilo que ela é … e cheio de respeito por aquilo que poderá vir a ser mais tarde.

         Ternura; carinho, enlevo, encantamento.

         Respeito: apreço, culto, homenagem. E, no limite, medo, pavor.

         Criança foi Moisés, recolhido do rio, amado e educado pela filha do faraó Ramsés II. Mais tarde, o herói libertador do povo hebreu cativo no Egipto durante 40 anos!

         Crianças foram Rómulo e Remo, os dois gémeos abandonados na selva, alimentados por uma loba. Mais tarde, os dois lendários fundadores da cidade de Roma!     

Criança foi Nero, mimado na corte imperial. Mais tarde, o crudelíssimo monstro, horror da condição humana!

Criança foi Joana d’Arc, nascida e crescida entre as papoilas da planície de Domrémy, uma infância moldada pela mais estrénua ruralidade. Mais tarde, heroína da Guerra dos Cem Anos, ‘comandante-em-chefe’ das tropas de Orléans que derrotaram os invasores ingleses. Queimada na fogueira pelos padres e bispos da Inquisição. Séculos mais tarde, entronizada nos altares e padroeira de França!

Criança foi Jorge Bergoglio, menino de bairro, filho de emigrantes, aficionado pelo futebol sanlorenzista. Mais tarde, o 266º Papa, acérrimo defensor dos Direitos Humanos, ‘Marechal Sem Medo’!

Criança foi Putin, nascido em berço de desassossego, nutrido de espinhos e carências tantas. Mais tarde, o hediondo assassino de jovens e crianças e populações indefesas!

Crianças, Crianças e mais Crianças – todos foram, desde a criação do mundo. E em que se tornaram! Santos e demónios, heróis e vilões, libertadores e carrascos.

Perguntam porquê.

Talvez Jean Jacques Rousseau já tenha respondido: O Homem nasce bom. A sociedade é que o corrompe!!!

  Já fomos Criança. Hoje somos a Sociedade! A tal Sociedade!

 

01.Jun.22

Martins Júnior

 

terça-feira, 31 de maio de 2022

PARA QUE OS HOMENS NÃO ESQUEÇAM O QUE A HISTÓRIA LHES REPETE…

                                                                        


Muito a contra gosto, mas forçado pela verdade dos factos e seus desenvolvimentos, transcrevo o VOTO DE CONGRATULAÇÃO aprovado pela Assembleia Municipal de Machico em 2019, subscrito pelo seu Presidente Dr. João Bosco da Costa de Castro e entregue em 8 de Maio de 2022, na sessão solene do  Dia do Concelho.

Reservo-me o direito de amanhã apresentar o teor da minha interpretação e resposta, tal como proferido na mesma sessão comemorativa.   

 

“VOTO DE CONGRATULAÇÃO

PELO DECRETO DE REMISSÃO DA PENA DE SUSPENSÃO “A DIVINIS” DO PADRE JOSÉ MARTINS JÚNIOR

“A Assembleia Municipal de Machico congratula-se pelo fim da suspensão ‘a divinis’ do padre José Martins Júnior por considerar que tal situação não fazia sentido, passados tantos anos, depois das consequências inflamadas do “verão quente” e dos entusiasmos exacerbados e próprios dos movimentos revolucionários.

Tal situação já se arrastava há demasiado tempo, tendo o atual Bispo do Funchal, D. Nuno Brás, há poucos meses a dirigir a Diocese do Funchal, resolvido o assunto com serenidade, sensibilidade e diálogo.   

No dia 27 de julho de 1977, o então Bispo do Funchal, D. Francisco Santana, decretou, administrativamente a suspensão ‘a divinis’ do Revdo. Padre José Martins Júnior pelo delito previsto no cânone 2401 do Código de Direito Canónico de 1917, então em vigor. Agora, revogado esse decreto, ficam o padre Martins Júnior e a comunidade pastoral da paróquia da Ribeira Seca, integrados plenamente na Diocese do Funchal e na comunhão católica, terminado o ato  discriminatório que muito prejudicava, segundo o Direito Canónico, a comunidade da Ribeira Seca.

A AMM considera que, finalmente, se fez justiça, pois a Republica é laica, o poder espiritual não deve interferir no poder temporal, estes devem ser fervorosamente independentes entre si.

Por isso, a  Assembleia Municipal de Machico congratula-se pela revogação da suspensão ‘a divinis’  do Padre Martins Júnior”.

 

            31.Mai.22

         Martins Júnior

domingo, 29 de maio de 2022

REVÉRBEROS DE UM DIA DA ASCENSÃO

 

                                       


“Ânsias de subir, cobiças de transpor”

                            Goethe, in “Fausto”

“Uma alma que se eleva – eleva o mundo”

                                                   Madame Leseur

Todos trazemos nos genes o grito ascensional da vida. Ninguém se atreva a matar a génese da nossa própria sobrevivência.

 

         29,Mai.22

         Martins Júnior

sexta-feira, 27 de maio de 2022

DA MEMÓRIA PASSADA PARA A MEMÓRIA FUTURA - 27 FOI A VÉSPERA…

                                       


Todos acordaremos em 28 de Maio.

Mas poucos lembrar-se-ão que entraremos nos 96 anos daquela noite que abriu outra maior. Chamaram-lhe pomposamente a “Revolução Nacional”.

Fizeram-na os generais, o sacro simpósio da Igreja reunida em Braga abençoou e o Povo gostou. Nos três braços trouxeram a Portugal a Censura, a Polícia Política, a Ditadura.

Até Abril de 1974!

Foi quando os mesmos braços (menos o da Igreja institucional) romperam o “espesso negrume” e fizeram manhã de sol em Portugal: os Militares e o Povo!

O que faz falta é olhar com ‘olhos de ver’.

Os mesmos corpos por aí andam:

Os do Maio/26 como almas penadas esfaimadas de fósseis de sangue herdeiro.

Os de Abril e Maio/74 arremessando renovados cravos até tapar a noite toda já passada.

Nas ameias do castelo, não parem de tanger as trombetas vigilantes;

“Hoje somos nós os Militares e o Povo do Abril/Maio de 74” !!!

  “Vinte e oito de outros Maios” – Tão iguais e tão diversos !

 

         27.Mai.22

         Martins Júnior


quarta-feira, 25 de maio de 2022

90 DIAS, 900 ANOS, 9000 SÉCULOS, 900000 MILHÕES….. JEREMÍADA AO RÉS-DO-VENTRE MATERNO

                                             


Atiraste-me –me à ‘baía dos porcos’

quando sonhavas de azul o meu olhar

e o mundo que me deste            

 

mas o troar das ondas enrolou-me pés e braços

e enjaulou-me na furna do inferno

lá onde tridentes punham crianças espetadas

e delas faziam sua diversão

 

mais fundo me levaram para pegar em peixes verdes

que me fugiam entre os dedos

e logo desfaziam corpos encharcados em camuflados de sangue novo

 

e vi  mortos pútridos trocados

por outros semi-vivos colados às grades da prisão 

 

 num tombo de abismo toquei o sacro tubarão mitrado

torcer a cruz e o seu desnudo mártir

e transformá-lo em arma de canhão

nas mãos do monstro dono da terra do mar e do ar

 

Atrás de cada onda, outra maior

em cada fundo outro mais fundo

os dois, a véspera do futuro

e vi que as ondas eram também as minhas mãos

mãos iguais às minhas, ossos dos meus

 

Ventre de Mulher, por que não me fizeste pedra chã

cinza ou lama ou  réptil para não ver o breu sangrento

que trago nas mãos

- porque foram iguais às minhas as mãos que o fizeram ?!...

 

……………

Tapar o rosto e bradar como Jeremías Profeta:

Se foi para isto,

“Maldito o dia em que me pariste”!

 

25.Mai.22

Martins Júnior

 

segunda-feira, 23 de maio de 2022

COINCIDÊNCIAS, SIMULAÇÕES, CONTRADIÇÕES – A TRILOGIA DA CRUZ

                                                                                  


O azul cobriu-lhe o berço último e o sol de maio domingueiro abriu-lhe o caminho. Oitenta anos feitos e o dobro deles, vividos e sofridos.  Franzina e rija como as árvores que morrem de pé, deixou a terra mais verde, a comunidade mais forte. Tantas vezes lutou contra o anjo da morte e outras tantas venceu-o, regressando ao chão da vida, ressuscitando na manhã de cada dia, desfolhando cravos de otimismo por onde quer que passasse.

Mas desta vez sucumbiu. Foi o último combate.

Veio dizer adeus ao seu povo, ali no supedâneo do templo que ela ajudou a construir e que tanto amava. Ali, no mesmo lugar onde, semanas antes, estivera a Cruz-talismã das “Jornadas Mundiais da Juventude”.

Olhei o caixão de pinho, recuperei o cruzeiro jovem e veio-me ao pensamento aquele vendável de abismo e fé produzido pelo Padre António Vieira no imponente santuário de  São Luís do Maranhão, em pleno Nordeste Brasileiro: “As cruzes do crucificado que estão nas igrejas são imagens falsas, porque não padecem nem sofrem. Imagens verdadeiras de Jesus são os pobres, os doentes que padecem e sofrem”…

Então vi em plena luz que aquela caixa de pinho era maior que ela: era uma enorme Cruz que abraçava corpo e alma da Teresa, octogenária sempre jovem, sempre ressuscitada. Foi esse o seu percurso, uma Cruz física, psicológica, familiar, social, dedicada a uma comunidade que era sua, também marcada pela luta em prol de mais justiça, mais saúde e alegria. Ela transportou toda a vida a verdadeira Cruz de que falou o soberano orador português, há mais de quatrocentos anos.

A essa mesma hora, vibravam vistosos e altissonantes em terras açorianas os coros quase celestiais em merecida homenagem ao Santo Cristo, uma ‘imagem’ de Jesus  macerado e triste na efígie, mas ‘compensado’ pelo pesado  recheio de ouro em profusão que lhe pendia dos ombros a mais não poder. Opas guarnecidas, casulas bordadas a filigrana principesca, mitras flamejantes, oratórias salomónicas, enfim, tudo em honra do Flagelado coberto de joias - e em manifesto proveito de romeiros e figurantes…

Coincidências, simulações, contradições!

Nas sua pupilas de sangue poderia ler-se o que Ele, Jesus, disse um dia: “Quem tem ouvidos para entender – que entenda! Quem tem olhos de ver – que veja”!

Ontem, domingo, à mesma hora, no silêncio de um cortejo sentido, emocionado, seguia viagem para o seu apartamento final a nossa querida e saudosa octogenária, enquanto ecoavam no mais íntimo de nós mesmos ‘aquela frase batida’ há quatro séculos lembrada: “As verdadeiras imagens de Jesus são os que padecem”……..

  

23.Mai.22

Martins Júnior

sábado, 21 de maio de 2022

REVOLUÇÃO NA ESCOLA !

 

 


Ninguém viu, ninguém ouviu, ninguém sentiu.

Quando digo “Ninguém”  digo o vasto mundo, os guarda-livros do poder, os de ‘boa-vontade’ de desenhar e de tamanha ‘má-vontade’ de agir. E que neste embalo d’alma “ledo e cego” dormem descansados na almofada do dolce far niente, nada fazer e deixar correr, mesmo que seja o abismo. É a expressão grosseira do nefasto liberalismo escolar: laissez faire, laissez passer!

Não deu nas vistas, mas o que se passou nestes dois últimos da semana em Machico, foi um tumulto silencioso, um maremoto sacudidor das ilhas (a que chamamos escolas) onde se argamassa o mundo de amanhã. Digo bem – ilhas! – porque foi esse esse um dos grandes vectores-alvo de todas as intervenções produzidas neste que foi o “II SEMINÁRIO DA EDUCAÇÃO E COMUNIDADE”: o conceito de Escola que, no século XXI, ainda continua disperso, distante, desarticulado da vida, como se pernas, braços, coração, pulmões e cérebro, situados a léguas de distância uns dos outros, pudessem chamar-se corpo humano em normal actividade de funções.

Ilustres e experimentados mestres em Portugal e no estrangeiro aportaram às terras de Tristão Vaz e, mais que o navegador quinhentista, desbravaram “aquele espesso negrume” em que mergulha e se afoga o ensino das crianças e jovens de hoje, o mesmo que dizer os homens e mulheres de quem estamos à espera na primeira curva do amanhã. Reitero o elenco de primeira água que a entidade promotora, a Câmara Municipal de Machico, trouxe até nós: o Prof. José Pacheco (da famosa escola da Ponte) o Prof. Dr. Carlos Neto, o Prof. Dr. Jacinto Jardim, a Profª Dr.ª Cosme Ariane, a Profª. Drª. Maria João Beja, o Prof. André Escórcio, a Drª Emília Spínola, a Profª Alexandra Teixeira. Estes e outros ‘colaboradores dos que aprendem’ falaram, esclareceram o imenso auditório (maioritariamente docentes)  não só sobre a teoria do saber académico, mas sobretudo de “um saber de experiência feito” acerca dos métodos e objectivos que devem presidir à Escola – uma escola do futuro, intensamente inclusiva e que não corte às crianças as asas do sonho, que não faça delas ‘robots’ telecomandados, mas que as liberte para a vida, para a socialização, para a inteira formação humanista, telúrica, abrangente.

Educação telúrica!... Sem o contacto com a terra, a natureza, o corpo e, em perfeita simbiose, com a cultura, a escola e a família, nunca haverá Escola perfeita. Foi este o fio condutor destas jornadas que bem merecem o estatuto de “memoráveis” em toda a vida daqueles que tiveram o privilégio de as  acompanhar e sentir.

  A partir de hoje, em  Machico, um novo fôlego transformador da história nasceu: o despertar para a verdadeira Escola: a Vida !

 

21.Mai.22

Martins Júnior