terça-feira, 6 de dezembro de 2022

UM PEQUENO…GRANDE LIVRO !

 


Cativou-me desde a primeira hora: pela singeleza do título, pela dispensa do chamariz publicitário, a que se dá o pomposo nome de Prólogo ou Prefácio, feito por não menos pomposa figura de proa. Cativou-me ainda por duas outras faces da mesma singeleza: a desnecessidade de propaganda nos jornais e nos audiovisuais cá do burgo e, mais ainda, essoutra maior desnecessidade de convidar as brasonadas entidades oficiais para a sua apresentação pública, numa sala tão livre e modesta quanto eloquente na sua simbologia: o Sindicato dos Professores da Madeira.

         José Bernardino Gonçalves da Côrte, nascido em Aruba, filho de pais madeirenses emigrados, reside na Região e é docente de Artes Visuais na Escola da Ribeira Brava. Neste seu segundo livro, faz uma radiografia perfeita da idiossincrasia das gentes da Madeira, desde os meados do século XX. Numa bem arquitectada síntese  de cinco narrativas, conectadas sob o signo da tradição natalícia regional, o Autor faz desfilar um vasto cortejo da tipologia identificativa de personagens ilhoas, trajes, usos e costumes, de onde sobressai o linguajar endémico da nossa mais profunda ruralidade, características estas que nos aproximam do estilo do nosso maior romancista, o madeirense Dr. Horácio Bento de Gouveia.

         Merecem especial menção os recursos estilísticos disseminados ao longo de todo o texto, nomeadamente o manejo da antítese (um sorriso condoído nos lábios), a sinestesia (o assobio frio do vento), a personificação (os quatro peros arrepiaram-se; as pedras ajudaram a propalar a maledicência), os indícios, monitorizados nos nomes de algumas personagens tipificadas (Zé Carrega, Rafael Dedos-Leves, António Aqui-Vamos,) e nalgumas expressões peculiares (os 366 degraus da Vereda do Calado; a efígie de Custódio na estrela Sírius). O realismo queirosiano está bem patente na descrição de todos os cenários onde se movimentam os intervenientes. Noutro excerto, o desassossego esquecido e o esquecimento desassossegado  remetem-nos para o “Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa. De registar a utilização de uma apropriada terminologia técnica, sobretudo quando aplicada às alfaias de uso agrícola, às armas artesanais de defesa e à ambiência sócio-económica, cultural e religiosa das populações rurais. Neste  item, o Autor traz reminiscências de Saramago no rigor vocabular e, remontando mais longe, de Aquilino Ribeiro n’A Casa Grande de Romarigães. Por onde se prova que a estética literária não tem uma única direcção nem se identifica como um feudo reservado aos grandes épicos ou aos romancistas de eleição. Tanto se revela nos históricos temas de fundo como se espelha na ingenuidade nativa do microcosmos de uma aldeia perdida nas montanhas.

          Enfim, um pequeno livro, pelo escasso número de páginas. Mas um Grande Livro,  pelo alcance das matérias em jogo, desde a riqueza anímica de quem tem o berço e a sepultura na terra que cultiva, de sol a sol,  até aos escusos meandros dos instintos negativos da condição humana, nitidamente expressos no ofício d’Os Pilhas. Quem ler esta enciclopédia de bolso – Às Voltas – não ficará insensível à galeria de Mulheres, as vulgarmente designadas ‘mulheres de campo’, as viloas, todas iguais e todas diferentes na forma de estar, agir e reagir perante as circunstâncias do mundo rural, mais incisivamente em situações dramáticas, como aconteceu com Rosalina no confronto dos camponeses com as forças militares no Largo do Regedor: O coração puxava-a para um lado, o instinto de sobrevivência para outro.    


         As questões sociais, indissociáveis nestes aglomerados, não foram esquecidas pelo Autor, as mais penosas, a carência alimentar (uma cavala para dez pessoas de casa: nesse dia, o almoço fora milho cozido com cebolada e um cheirinho a cavala, um festim), o êxodo rural (tanta gente do campo a trabalhar na cidade), o contrabando local (Zé Preto Cabouco ia tentar comercializar a aguardente de cana, às escuras das autoridades, com os vendeiros locais  da sua zona ou particulares), as lutas, em 1936, contra os monopolistas da manteiga.

         Além dos dizeres comuns ao glossário aldeão esparsos em toda a narrativa, não resisto a reproduzir, em formato telegráfico, algumas expressões de fino recorte literário, tais como a gozadora cotovelada na comadre Justina ou Custódio bebeu mais um caneco para embriagar a frustração. E ainda, aquela dor que daí a pouco não saberia o porquê de estar a chorar e Ele recarregou-se de confiança e despiu-se do desânimo do acordar de hoje.   

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Aqui ficam, pois, estes breves apontamentos de homenagem e gratidão ao docente Bernardino da Côrte pela exímia radiografia que nos trouxe neste seu livro, bem como aos ilustradores: ele próprio e Francisco José Pereira da Côrte, Orlando de Abreu Ribeiro, Paulo Ladeira, Marta Condez e José Nelson Pestana Henriques. O Autor soube rodear-se de excelentes colaboradores, entre os quais Lília Maria Gonçalves Pereira e Vanda Mónica Gomes Caixas, às quais são extensivas as mesmas saudações e agradecimentos. A actuação de um selecto quinteto musical e a encenação de um dos episódios do livro abrilhantaram condignamente a apresentação ao público, sob a competente moderação de Marisa Silvestre. A palavra final coube ao Senhor Bispo D. Nuno Brás da Silva Martins, que criteriosamente enalteceu a obra e considerou-a como a “expressão da genuína alma madeirense na vivência do seu Natal”.   

                      

05.Dez.22

Martins Júnior

sábado, 3 de dezembro de 2022

ISAÍAS JOÃO LEONARDO – PROFETA E BAPTISTA DO PRESENTE E DO FUTURO

 

       


Semelhando três, eles não são mais que um só!

         Para quem não entendeu ainda o alcance da Trindade – cognominada A Santíssima – aproveite agora o ensejo e já fica sabendo e desvendando os labirintos do mistério: um nome apenas –Isaías João Leonardo – desdobra-se em três. Leonardo, século XXI, João, século I, Isaías, século VII-VI a.C..

Separam-nos cerca de 3.600 anos de corporalidade mortal, mas  une-os, funde-os num só a mesma chama imortal!

Abramos o LIVRO na palavra de Isaías, baptizando o futuro:

A Sabedoria e o Conhecimento encherão o país e o mundo, como os rios enchem o mar… Ninguém será julgado pelas aparências. E aos humildes da terra, os  oprimidos, será feita a justiça (que nunca se fez).

Abramos de novo o LIVRO na fala de João (junto ao rio Jordão) aos presentes de então e aos vindouros de todos os tempos:

Eu sou a Voz que clama no vosso  deserto: Preparai os caminhos (o futuro), corrigi as veredas (do passado). Não basta o baptismo na água, o que importa é o Baptismo do Espírito.

Para ouvir Leonardo – é ao enorme Leonardo Boff que me refiro – abramos outro LIVRO, o Podcast, publicado há uma semana.  Vejamos, oiçamos, interiorizemos um dos maiores Profetas e Pedagogos, sob cuja Palavra, a Palavra de João e de Jesus Nazareno, o mundo deve ser baptizado. Propositadamente dispenso-me de transcrever a sua suprema intervenção, para não empanar-lhe o brilho e a beleza do seu verbo. Insuperável a frescura intelectiva de um homem de oitenta e quatro anos de idade! Sem prejuízo dos mensageiros de outrora, já é ‘tempo’ de descobrirmos os Profetas do nosso ‘Tempo’. E se estes são ostracizados e vilipendiados, também o foram os do passado. A João Baptista cortaram-lhe a cabeça!

Agradeço publicamente ao colega e amigo Padre José LuísRodrigues o ter-me passado o lembrete de tão pujante mensagem.\

03.Dez.22

Martins Júnior

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

LISBOA, KIEV E MACHICO – A TRÍADE COMUM A TODOS OS POVOS LIBERTADOS!

                                                                              


Se de cada vivente se repete a clássica definição que nenhum deles é uma ilha, pela mesma razão dir-se-á que nenhum acontecimento vegeta isolado de tudo quanto mexe e circula nesta redoma planetária em que vivemos. Por muito longe que estejamos, tudo e todos ficamos tão perto. Queiramos que não queiramos, lá vamos carambolando ao ritmo das circunstâncias que nos embalam, que nos destroem ou, na melhor das hipóteses, nos reabilitam para a vida.

Ontem e hoje, nesta passagem de nível para o derradeiro mês de 2022, viveu-se em Machico a tríplice erupção  de acontecimentos - distantes no tempo e no território, mas coincidentes no denominador comum activo, no espírito que os anima. Com a mesma emoção que viveram os intervenientes em cada um dos três factos históricos, quereria eu transmiti-los também, de alma aberta e coração fremente, a todos os que  me acompanham neste veículo de comunicação virtual.

Primeiro de Dezembro – a notícia libertadora de um país e de um povo que sacudiram o jugo estrangeiro a que estavam condenados por via de calculistas alianças conjugais entre Portugal e Espanha. Não obstante o despudorado aproveitamento político desta gloriosa data por parte do fascista Estado Novo durante 48 anos, permanece intacta e firme a vaga avassaladora de 1640, reeditada em 25 de Abril de 1974.

Para que tais vitórias se alcançassem, muitos foram os que tombaram sob o ferrete inexorável de regimes totalitários, - muitos deles autênticos ‘heróis desconhecidos’ – que deram corpo e alma, talento e braços, enfim, a própria vida, para quebrar as amarras que sufocavam o povo a que pertenciam.

Entre muitos, erguemos Francisco Álvares de Nóbrega, o Poeta agrilhoado nas algemas da Inquisição, Cadeia do Limoeiro em Lisboa, vítima dos instintos insaciáveis do bispo de então no Funchal, José da Coata Torres e mais tarde libertado por diligências do novo bispo Luís Rodrigues Vilares. Cumprindo o preito de homenagem e gratidão ao talentoso vate de Machico, o Município, a Junta de Freguesia e a ‘EFAN-Estudos Nobricenses’ evocaram a efeméride do seu nascimento, o “30 de Novembro de 1773”, com o anúncio dos galardoados no concurso anual alusivo à vida e obra de Francisco Álvares de Nóbrega e a recitação de alguns sonetos, destacando-se aquele que dedicou `A Pátria do Autor’ (Machico) – o Hino  da Freguesia – com fundo musical pela Tuna de Câmara de Machico.

Como sempre, a Tuna encerrou a sua prestação artística com o Hino da Ucrânia, contributo anímico deste Município ao Povo Ucraniano, tendo então sublinhado a vereadora da Cultura, Dra.Mónica Vieira, que na Ucrânia e em muitos países haverá decerto outros ‘Francisco Álvares de Nóbrega’ lutando encarcerados pela emancipação das suas gentes.

E o insólito aconteceu. Três jovens entraram imprevistamente na Sala onde decorriam – e já terminavam – as comemorações. De momento, quiseram identificar-se. Eram ucranianas. E explicaram o porquê da sua presença. “Estávamos passeando na alameda – disseram em perfeito inglês – e ouvimos tocar o hino do nosso país. Entrámos logo, por isso pedimos desculpa”.

Mais surpreendidos ficámos nós, os participantes no evento. E de imediato, pedimos-lhes que fossem elas próprias a cantar o Hino da Urânia, acompanhadas pela Tuna, o que logo fizeram sem qualquer hesitação.

Foi uma apoteose, uma emoção indescritível, deixando-nos a impressiva  certeza de que nenhum de nós é uma ilha. E a sensação planetária de que nada acontece isoladamente. Mesmo longe, tudo está perto. E nós também.


01.Dez.22

Martins Júnior

 

terça-feira, 29 de novembro de 2022

VIVA QUEM VIVE !!!

                                                                           


Nós somos o que fazemos. O que não se faz não existe. Portanto, só existimos nos dias em que fazemos. Nos dias em que não fazemos apenas duramos.

Padre António Vieira

 

Por isso

TU VIVES

Ontem, Hoje e Sempre

Porque

Tu fazes

Levantas

Constróis um Mundo Melhor !!!

 


 

29.Nov.22

Martins Júnior

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

SANTOS E RELÍQUIAS – UMA LUMINOSA AUTOESTRADA PARA O ADVENTO

                                                                                  


No 1º dia do ano litúrgico – e foi hoje, 1º Domingo e Dia de Ano Novo  para a Igreja -  paira uma infância renascida no ar que respiramos, na iluminação serôdia trepando as árvores dos jardins urbanos, na decoração dos templos e das casas comerciais que nos enchem os olhos e trazem a ilusão de cobrir-nos todo o corpo.

No âmbito deste Senso&Consenso, é o LIVRO que serve  de inspiração e logo hoje com o sonho dourado de Isaías Profeta, um sonho malogradamente frustrado, diga-se de verdade, pois que após a anunciada vinda do Messias nada mudou no desconcerto das nações, continuaram os povos a adestrar-se para a guerra, enfim, um Advento gélido pela inflação e pelo solo da Ucrânia.

Entretanto, a atmosfera regional aqueceu-se e fez mover mentalidades adversas – e é aí que o mundo aquece e avança – cujo epicentro surgiu a partir de uma criteriosa reflexão do Prof. Dr. Nelson Viríssimo, secundada pelo Padre José Luís Rodrigues, um espírito sempre aberto ao sopro do Espírito. A par das muitas opiniões concordantes, outras tantas foram as divergentes, embora ficasse evidente a ligeireza fundamentalista e, daí, a fragilidade da argumentação das teses divergentes. Em causa estavam  - e estão sempre – questões relacionadas com os canonizados, os denominados “santos” canónicos, e o culto das chamadas “relíquias” dos mesmos, tão em voga itinerante na Madeira.

Não podia eu ficar indiferente a tão delicado quanto incisivo ‘item’ ético-cultual e cultural, dado que está em jogo, para o bem e para o mal, a fé de milhões, biliões de crentes em todo o mundo. Aqui estou eu, portanto, a apresentar, em linhas gerais e directas, a minha declaração de princípios sobre as duas questões.

Quanto ao culto dos Santos, apraz-me citar o grande historiador Fortunato de Almeida, na sua monumental História da Igreja em Portugal (1930) na edição dirigida e revista pelo Prof. Damião Peres (1967), onde se lê: “Os nossos antigos cronistas dão o epíteto de Santos a muitos varões que certamente se distinguiram pela sua piedade, mas dos quais não consta que fossem canonizados pela Igreja”. (Volume I, pág.258). Inteiramente de acordo. E o seu contrário, também. Não tenho o menor pejo em afirmar que os santos que estão nos altares não representam mais que uma gota de água no oceano de “uma multidão incontável” (como se lê no Apocalipse) de pessoas boas, os verdadeiros Santos, que este mundo produziu. São muito mais os Santos que não estão nos altares do que os que lá estão.

 É uma evidência o que acabo de afirmar, sobretudo se tivermos em conta a complexidade do processo de canonização no Vaticano, com sessões longas e onerosas, inquéritos multiplicados, disputas retóricas que exigem o denominado “Cardeal-Diabo”, oponente oficial à proposta de canonização, enfim, um ‘batalhão’ de intervenientes, todos pagos a preços consideráveis, o que pressupõe volumosos orçamentos e generosos financiadores de todo este processo. De onde se conclui que um cristão pobre sem sponsors, por muito virtuoso que seja, nunca chega à peanha de um altar. A própria Cúria Romana tem-se encarregado de criar plataformas especiosas e diferentes alcavalas que mais e mais complicam o processo.

A este propósito, convém consultar o Diccionario Teologico Enciclopedico (Editorial Verbo Divino, 1995, Estella, Navarra) que nos dá informações preciosas, tais como: “Durante toda a Idade Média não se conhece nenhuma distinção entre os títulos de ‘beato’ e de ‘santo’. Hoje a beatificação constitui um acto prévio à canonização. Os primeiros testemunhos de uma intervenção papal na canonização remontam aosfinais do século X. Na história, os procedimentos para as causas de canonização estão ligados aos nomes de Sixto V  (1588), de Urbano VIII (1642) e de Próspero Lambertini, mais tarde Papa Bento XIV. O procedimento actual está regulamentado pela Constituição Apostólica Divinus Perfectionis Magister de João Paulo II (1983). Nas canonizações a Igreja exerce  a sua autoridade, realizando-se, então, um acto do Magistério infalível e absoluto do Romano Pontífice”. (pág.125).

Não deixa de ser exemplarmente elucidativa esta evolução factual que cada Pontífice entendeu introduzir na casuística processual canónica para chegar a algo tão diáfano e transparente como isto: Tal homem é santo, tal mulher é santa!... Formidável sentença! Aqui dou toda a carga semântica inerente ao qualificativo “Formidável”. Perante toda esta versatilidade de métodos e requisitos, há quem se questione, em termos de dúvida cartesiana, à procura da verdade: ”Quem é um homem para poder nomear Santo um outro homem?”.

Por outro lado, ao compulsar o evangelista Mateus na narrativa do Juízo Final, sou obrigado a concluir que o que conta para o Julgador Supremo é única e exclusivamente o que fizemos neste planeta durante a vida terrestre. Ninguém será julgado pelo que eventualmente fizer depois da morte. Está escrito, Ele o disse “Tive fome e deste-me de comer. Tive sede e destes-me de beber. Era um sem-abrigo e vós recolhestes-me nas vossas casas”…É por este Código que um homem, uma mulher ganharão (ou não)  o estatuto de canonizado, por direito próprio. Segundo o que está escrito, não há Código B  Se os homens forjaram outro Código, outros cânones, outros normativos extra-vagantes, ainda que edificantes,. então é lícito e legítimo questionar. É o que está a acontecer neste início do Advento. Em tempo oportuno e adequado.   Paulo recomenda-nos hoje, como outrora fizera aos Romanos, que nos fardemos com o uniforme e as armas da Luz. E a maior arma é o conhecimento, não o fundamentalismo ignorante e, por isso, atrevido.

A terminar esta primeira parte (o caso das ‘relíquias’ fica para outro dia), seja-me permitido lembrar que os julgadores hierarcas também erram, ,caso de Jeanne d’Arc, condenada à fogueira pela autoridade eclesiástica e só mais tarde – 489 anos depois – foi declarada ‘Santa’. Ainda neste capítulo e para melhor esclarecimento, seria sumamente importante e talvez surpreendente analisar o processo de canonização, a sua génese e o seu desfecho, de Monsenhor José Maria Escrivá, patrono do ‘Opus Dei«, a organização dos católicos milionários.

Sem prejuízo das homenagens devidas aos santos canonizados, ergamos na ara do nosso pensamento e da nossa sensibilidade, a multidão apocalíptica daqueles e daquelas (talvez vivam à nossa beira) os Santos Anónimos para quem  foi instaurada a Grande Festa do 1º de  Novembro.

Ao Prof. Dr. Nelson Viríssimo e ao Padre José Luís Rodrigues, as melhores congratulações por terem aberto a autoestrada do debate que nos levará  à conquista da Verdade.

 

27.Nov.22

Martins Júnior

    

 

                                                                

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

O CATAR…OS CATARZINHOS… E OS CATARZÕES… LÁ LONGE E AQUI TÃO PERTO !

                                                                              


Há notícias, fenómenos e epifenómenos que, de tão pedrados, desorganizam não só o percurso programático do quotidiano mas estilhaçam a estrutura serena do nosso psiquismo. E hoje é assim. Convosco partilho, se me derdes permissão, o desequilíbrio emocional (QUE NÃO APENAS EMOCIONAL, LÓGICO TAMBÉM) varrido de fora para dentro de mim com uma vassourada tão violenta como um míssil norte-coreano.

Em ‘fora-de-jogo’ do Mundial de Futebol, mas bem dentro das quatro linhas, a notícia que acompanha o grande fenómeno tem a ver com a sonegação estatal dos mais elementares Direitos Humanos, sobretudo no que concerne ao mundo laboral e à dignidade da Mulher.

Quanto aos direitos dos trabalhadores, é sobejamente conhecida a exploração de mão-de-obra de múltiplas etnias, roçando a escravatura e de mais de  6.500 operários mortos na construção dos estádios de futebol. Quanto às mulheres, é patente o efeito da aliança catar com  a auto-proclamada ‘polícia moral’ do Irão.

Deplorável, criminosa, insustentável – é o que ouve dizer do Catar e da sua administração repressiva !

Mas, catando o labirinto poroso deste pacífico tecido lusitano, somos logo batidos e derrubados perante o que se tem passado há cerca de três e quatro anos  com a criminosa exploração escrava de centenas de  trabalhadores migrantes, vítimas de associações clandestinas a operarem no nosso país e que motivaram já a medida mis gravosa de 32 pessoas detidas preventivamente. Quem tal diria, num Estado Constitucional de defesa dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, sobretudo dos trabalhadores?!.. Mais a mais, num território de históricas lutas reivindicativas, como é o Alentejo!                                          


Onde está o homem, aí está um Catar em potência, camuflado no seu subterrâneo. Juntemos a estatística dos assassinatos de mulheres em Portugal: até novembro, um mês ainda por terminar 2022, o número já ultrapassa o somatório de todo o ano 2021 !!!

Fico-me por aqui para não agravar este exercício de forçado  masoquismo. Mas se quisermos classificar de ‘catarzinhos’ o que se passa no nosso país, então que se há-de dizer do ‘Catarzão’ em que Putin tem transformado a massacrada Ucrânia, com milhões de vítimas inocentes !!!

 Vimos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”.

Nem podemos calar – contra o Catar, contra todos os Catar’s, estejam onde estiverem!

 

25.Nov.22

Martins Júnior

 

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

A QUEM AJUDOU A CONSTRUIR 84 SOCALCOS CONTADOS

 


Saudações, homenagens, panegíricos – em dialecto universal, parabéns – são pedras de fino jaspe que se dirigem ao vértice da pirâmide e aí ficam emoldurando a ara onde brilha o homenageado. Ou, se nos voltarmos para o rio que percorre todas as vidas, o somatório das felicitações é igual aos meandros que desaguam no oceano multicolor dos talentos, virtudes e prestígio do destinatário.

         Mas há um volume cantante de emoções e congratulações – os tais, vulgarmente ditos, parabéns – que seguem um ritmo inteiramente oposto: não desaguam na foz nem se diluem no mar, antes dirigem-se directa e ansiosamente para a montanha do Tempo  até encontrar a nascente e nela fundir-se num abraço comovente e sem termo. Estes são os parabéns, saudações e homenagens dos aniversários natalícios.

Rigorosamente, biologicamente, historicamente, embora se dirijam ao aniversariante, não se esgotam nele. Bem pelo contrário, ultrapassam-no, atravessam vales e  planícies, tantas quantas as anuidades vividas e vão prestar a grande homenagem aos progenitores do aniversariante, prioritariamente. Na travessia do rio, o volumoso cantar de parabéns cruza-se, subsidiariamente, com todos os momentos, circunstâncias e intervenientes do curso da vida do homenageado.

         Nesta breve alegoria introdutória, proponho-me cumprir o dever e o prazer de deixar nesta página a minha enorme gratidão a todas amigas e a todos os amigos que tiveram a gentileza de saudar-me nas 84 estações do meu trem existencial. Prioritariamente, ao meu Pai e à minha Mãe e, neles, a toda a árvore genealógica a que pertenço, Não fiz nada para nascer. Tão só, devo-o ao amor daquele José e daquela Maria que produziram este Júnior e, por isso mesmo, são eles os destinatários primeiros de todos os parabéns.

         Impossível citar todos quantos me ajudaram a erguer, pedra-a-pedra, os socalcos por onde circulam os meus passos. Mas guardo-os com muito afecto, entre os quais, mais de perto, todos vós que me endereçastes suplementos anímicos tão gostosos no décimo-sexto dia do mês décimo-primeiro.

Nesta tribuna de eleitos meus, não posso deixar de assinalar três presenças monumentais na Mesa Comunitária da Igreja da Ribeira Seca: o Professor Padre Anselmo Borges, vindo propositadamente de Portugal Continental, para estar connosco e dirigir-nos a sua palavra de teólogo, filósofo e amigo que, em tempos adversos, nunca abandonou o Povo de Deus, residente nesta localidade periférica. No mesmo plano de coragem e autenticidade, agradeço o contributo presencial do Padre José Luís Rodrigues, o mais lídimo exemplar da verdadeira Igreja de Cristo na Madeira, homem de causas, sem medo, solidário com a comunidade da Ribeira Seca, sempre, mas particularmente nas horas difíceis das perseguições do poder diocesano e do poder político da Ilha.

O terceiro monumento vivo, a quem devo a maior gratidão, é aquele que a lei da morte não permitiu estar fisicamente presente (bem impressiva esteve a sua efígie junto ao altar) mas garanto que enquanto houver Ribeira Seca, o seu nome e a sua personalidade serão sempre lembrados e louvados, por ter sido o primeiro – herói pioneiro – na defesa e na promoção da ruralidade local, a todos os níveis, sócio-cultural e religioso.   O meu grande amigo padre, Mário Figueira Tavares.                                      


As mais belas e sentidas palavras queria guardá-las para estas gentes da Ribeira Seca, originariamente exploradas e pobres, mas estruturalmente ricas e nobres nas suas convicções, na sua psicologia, nas suas lutas e nas suas vitórias. Não teria sentido algum celebrar 84 anos sem a sua presença e a sua alegria, decorrido que foi mais de meio século de companheirismo nas horas boas e nas horas más. Às gerações que já partiram, às de hoje, aos jovens e às crianças – o melhor que a vida tem – aos que mais se empenharam neste 16 de Novembro, aos que prestaram depoimentos, por vídeo e redes sociais,  aos grupos locais que desfilaram no palco os nossos bailados e canções, aos que ofereceram os concertos dos ‘conjuntos’, aos que prepararam as merendas abundantemente servidas a toda a multidão presente,  o meu MUITO MUITO OBRIGADO !

Em tempo: Quem passa o “Paralelo 80 do Equador”, já as festas não comovem nem se esperam. Só se as aceitam porque proporcionam a toda a comunidade episódios de saúde social, amizade vicinal, alegria global. Foi o caso, foi a festa.

 

23.Nov.22

Martins Júnior