quinta-feira, 8 de junho de 2023

DIÁLOGO E LUTA ENTRE CORPO E ESPÍRITO EM TRÊS MOMENTOS: TESE, ANTÍTESE, SÍNNTESE

                                                                 


    “O meu corpo é uma verdadeira comida. O meu sangue uma verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem em si a vida eterna”.(Jo.6, 54-55).

“Isto é insuportável. Então, ele vai dar-nos a comer a sua própria carne?” – disseram muitos judeus que ali estavam a ouvi-lo.(Jo.6-59).

Seremos nós antropófagos? – interrogam-se  os homens de todos os tempos.

III

“Não compreendestes  as minhas palavras. Eu esclareço:

A carne não serve para nada. O espírito é que dá vida. As palavras que vos disse são espírito e vida” (Jo.6,63).

 

Daí em diante, pelos séculos fora, construíram-se mausoléus sumptuosos em Sua honra – E lá vem uma fala sentida: “A carne não serve para nada”.

Fundiram-se milhões de pepitas de ouro para aprisioná-lO em sacrários nobilíssimos – e lá de dentro vem uma fala repetida: “A carne não serve para nada”.

De prata e ouro ergueram-se custódias renascentistas, de raios flamejantes, âmbulas peregrinas que percorrem cidades e aldeias – e as mãos que O transportam não sentem o frémito daquela fala esquecida: “A carne não serve para nada”.

,  

E “Quem tem ouvidos para ouvir, entender, - oiça, entenda”. (Mateus, 13,9 - Lucas,8,8).

 

         07-08.Jun. Dia do Copus Christi)

          Martins Júnior

terça-feira, 6 de junho de 2023

SALMO DAS TEMPESTADES OU AVATAR DAS TREVAS – FRAGMENTOS DE TEMPOS IMEMORIAIS

                                                                        


Bendigam ao Senhor as nuvens supremas que desceram aos telhados dos homens para mostrar quão distantes e estranhos são os que vivem tão perto

 Bendigam ao Senhor os regatos, regatinhos anónimos das montanhas, cada qual cascalhando um ao outro: “Hoje, ninguém me cala, Ninguém me cala”

Bendigam ao Senhor as águas furibundas dos altos penhascos, gritando de socalco em socalco: “Afastem-se, Não paramos, Não paramos”

Bendigam ao Senhor os ribeiros e ribeiras que se vêem livres de destroços, cacos, dejectos, indesejados inquilinos dos seus aquáticos alojamentos: “Adeus, mundo cruel”

Bendigam ao Senhor as cerejeiras em flor (e sem flor) que foram poupadas às mãos dos predadores profissionais e deram aos governos o o altar das misericórdias e o bodo aos pobres cerejíferos

Bendigam ao Senhor os “estatísticos oficiais” que tiveram uma oportunidade soberana de demostrar o ‘boom’ turístico com os hotéis cheios, o aeroporto cheio a abarrotar, as noites cheias,  os milhares de amantes da ilha, ansiosos por sair dela e nunca mais voltar

Bendigam ao Senhor os ‘altaneiros’ do Funchal que levaram aos calados e opados ‘baixistas’ da cidade a notícia que há gente a viver insegura, esquecida lá por cima  

Bendigam ao Senhor os radares, câmaras, microfones, teclas de reportagem que ‘comemoraram’ o Dia do Ambiente sentados em estúdio à espera dos engomadinhos entrevistados da capital e provaram que a Madeira é o Funchal e o resto é paisagem.

Mas…

Maldigam ao Senhor as fozes das ribeiras condenadas a entupir com as fezes do planeta ilhéu

Maldigam ao Senhor as vagas marinhas que têm de engolir as carcaças da terra vizinha para depois vomitá-las e devolvê-las à procedência…

Enfim, bendigam, maldigam ao Senhor Eolo, ao Senhor Neptuno, ao Senhor Júpiter…  

Em DIA MUNDIAL DO AMBIENTE!

 

 05-06.Jun.23

Martins Júnior

 

domingo, 4 de junho de 2023

NA ILHA DE OURO - BODAS DE OURO !!!

 

                                                       


Num tempo sem memória

Soltou-se a Ilha azul-marinho

Partiu por incerto caminho

A caminho se um caminho certo

 

À mesma hora e no mesmo céu aberto.

A memória sem tempo

Moveu montes picos castelos areias

De uma Ilha de Ouro

 

Ouro sobre Azul…

 

E o abraço de sonho

Aconteceu entre Madeira e Porto Santo

Sinfonias magas

Por entre o rumor das vagas

Daquele mar gerado nos búzios

Nos Calhaus Falantes

E nas Pedras Cantantes

Aquele atlântico oceano

De um Amor sem fim…

 

                         


Décadas cinco dobrastes neste Torna-Viagem

Longo e jucundo

E ao mundo novos mundos destes

Espinhos que se abriram em afectos…

Carícias filhos e netos

Ficou mais rica a terra que habitastes

Do mesmo tronco novas hastes

De orquídeas de ouro, cravos e malvas

 

Maior milagre fizestes

De descobrir a eterna Lua-de-Mel

Namorados toda a vida

Felizes José e Maria Isabel !

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Casamento no Funchal, cidade do José

Bodas de Ouro no Porto Santo, cidade de Isabel

C/ os parabéns  do Oficiante

Martins Júnior

3-4. Jun.23

sexta-feira, 2 de junho de 2023

TRÊS DIAS, TODOS OS MESES, TODA A VIDA COM A CRIANÇA PROTAGONISTA

                                                                            


    Passaram-se  os três dias ímpares e, dentro deles, a ponte que une um ao outro os meses do ano – de 29, 31 de maio a 1 de junho – e quem encheu o palco  das horas ininterruptas?... A Criança, a Educação dela e a Comunidade!

          Ao invés de ‘normalidade’ dos eventos  que se esgotam na espuma do efémero, o acontecimento que ocorreu no último fim-de-semana em Machico (com o modesto título de ‘Seminário’ na forma, mas merecedor da genuína definição de ‘Simpósio’ em fundo) deixou um rasto luminoso que se projecta pelos meses e pelos anos fora, por toda a vida, já porque a tríade ‘Criança-Educação-Comunidade’ é indissociáveel do algoritmo existencial, já pela amplitude e proficiência com que foram tratados os seus conteúdos.

          Em breves linhas tentarei sintetizar a magnitude da iniciativa que congregou  uma mão-cheia (uma prestimosa dezena) de docentes e promotores da Educação, a que se juntaram  os destinatários e protagonistas, as muitas dezenas de discentes, desde a mais tenra idade que, or direito próprio, ocuparam a ribalta privilegiada do palco, como que concretizando em música e dança o esforço pedagógico dos seus educadores.

          Nesta escala ascendente da descoberta evolutiva da personalidade, o Pro. Doutor Mário Fortes, da Universidade da Madeira, agitou o auditório com a ‘provocatória’ interrogação  ESTAMOS A MATAR TALENTOS? -  em cuja intervenção pôs em causa a didáctica expositiva do ensino tradicional, fechado nas quatro paredes da uma sala e, por isso, redutora, senão mesmo castradora, dos talentos naturais e da criatividade que toda a criança traz consigo desde o seio materno. Ao ouvir o Prof. Fortes, ocorreu-me o código ‘vanguardista’ do nosso conterrâneo Prof. André Escórcio, no seu livro “A ESCOLA É UMA SECA”, onde preconiza um outro, inovador e libertador, módulo de ensino, precisamente orientado para promover o desenvolvimento das aptidões inatas dos alunos. Neste entendimento, refere Mário Fortes, o professor deve despir a veste de ‘Magister’ para assumir a modesta, mas nobre, missão de ‘Tutor’.

          A actuação de várias turmas das Escolas de Água de Pena, Machico e Sant’Ana e o desempenho do ‘Grupo Cordofones A Caçoar’, de Santo António da Serra, confirmaram o espírito criativo, a graciosidade rítmica, a leveza infantil que lhes dão ânimo e nos transmitem saúde, esperança no futuro.

          A prova real da autonomia dos estabelecimentos escolares aliada à força afirmativa das populações ficou em evidência plena no testemunho vivo do Pro. Doutor Bravo Nico, da Universidade de Évora, que relatou ao ‘Seminário’  o potencial de resiliência de um restrito aglomerado populacional alentejano – São Miguel de Machede – desprovido, ambora, dos mais elementares equipamentos sócio-culturais conseguiu ultrapassar barreiras, suplantar dificuldades insuperáveis e catapultar-se até aos níveis do Ensino Superior, valorizando todos os segmentos da actividade local, desde a literacia à informação, à economia e ao trabalho - um programa totalizante que substitui o aleatório “eles” pelo personalizado “nós”, ou seja, o apelo à dinâmica endémica do local em vez da mão estendida à intervenção de terceiros alheios à comunidade.

          Integrante à “Educação em Comunidade” emerge  a incontornável VIA PARA A SUSTENTABILIDADE, focalizada neste concelho que o Mestree Marco Teless, da organização municipal ‘Ecos Machico’, cujo objectivo consistiu em chamar a atenção das camadas jovens para a preservação do património natural e arquitectónico do município.

          E porque, como dizia Louis Pasteur, “diante de uma Criança sinto-me cheio de ternura por aquilo que ela é e cheio de respeito pelo que poderá vir a ser mais tarde” – aqui ouso adicionar, cheio de espanto e medo – o Seminário trouxe um horizonte, a um tempo, estranho e  surpreendentemente inclusivo, titulado TRÉGUA:  A RECLUSÃO DE OLHOS POSTOS NO FUTURO, a cargo da Mestre Catarina Claro, da ‘instituição ‘Casa Invisível’, uma entusiástica viagem pelos caminhos desviantes da Criança de ontem, hoje Recluso de hoje, onde se  num condenado às prisões se descobrem talentos e anseios de uma vida nova na construção da Comunidade, expressos naquele sentido mural, à saída da cadeia da Cancela, “Nós não somos os nossos erros”..

          No crescimento civilizacional das nossas gentes, a Profª. Doutora Luísa Polinelli, da Universidade da Madeira,  situou-se no patamar da CRIATIVIDADE E LITERACIA MEDIÁTICA, um acurado manual de ‘Didáctica Militante’, para escapar à pseudo-cultura da ‘informação em panados’ e ganhar a ‘capacidade de não perder-se na navegação total, observando o ‘princípio da relevância, pelo qual nos tornamos interacores críticos, conscientes’.. Na sua dissertação, senti-me conduzido às fontes inspiradoras do “Prazer do Texto” ou “Pazae de Ler”, na esteira de Roland Barthes.

          Quase no vértice da evolução educativa, os docentes participantes no evento foram brindados pela brilhante intervenção do Prof. Doutor José António Moreira, da Universidade Aberta, que através da EDUCAÇÃO DIGITAL PARA O EMPREENDEDORISMO provou a positividade da denominada Inteligência Artificial, explicitou, contra os opositores publicamente declarados, que a I.A. não má nem é boa, tudo ‘dependente do uso que dela se faz, bem como das múltiplas redes comunicacionais hoje existentes’.

          A culminar a iniciativa do Município, a Profª Doutora Liliana Rodrigues, da Universidade da Madeira, abriu as fronteiras da etapa maior da aprendizagem global, apresentando as linhas gerais do Mestrado e Doutoramento que dirige  na cátdra da  EDUCAÇÃO E DESENVOLVIMENTO REGIONAL, uma comunicação seguida com particular atenção pelo auditório e digna de mais ampla apreciação neste blogue.

          Ao Prof. Doutor Jacinto Jardim, da Universidade Aberta, líder do projecto “Piratas dos Sonho” que tem dinamizado desde o “I Seminário”, agradecem os docentes e a população de Machico o valioso contributo que tem dado ao magno Plano de construção do Futuro, a começar pelo berço da vida, as Crianças, “o melhor que o mundo tem”.

          À Câmara Municipal os parabéns por ter feito a opção mais alta e segura que todos os volumes de betão, qual seja a “EDUCAÇÃO EM COMUNIDADE, POR UM NOVO COMPROMISSO EDUCATIVO”,  o mais belo preâmbulo para as comemorações do Dia Mundial da Criança na Madeira, razão pela qual decidi ocupar os três dias ímpares na ponte pênsil que liga Maio a Junho.

         

          29-31.Mai. 1.Jun. 23

          Martins Júnior

domingo, 28 de maio de 2023

MAIOR QUE A ONDA VERMELHA – PORQUE AS ONDAS NÃO SE MEDEM AOS PALMOS

                                                               


    Foi vermelho o mar de Portugal. E mais que o mar foi todo o território português, desde o Continente às Ilhas. Neste fim de semana e princípio de outra, tanto a nível desportivo como na atmosfera pentecostal , brilharam as bandeiras rubras com asas, pombas, águias e açores dentro. Assim vai a nação.

          No entanto – e apenas em síntese – saúdo outras praias onde a onda vermelha, eufórica, efémera, deu lugar a um oceano multicolor, cujos búzios  sonoros encheram a terra de ciência, educação, teatro, poesia, acção com promesas de futuro.

          Saúdo, de novo, o III Seminário de Educação, fonte inesgotável de fluxos e refluxos que remexeram critérios e linhas de pedagogia com vista a um mundo concreto e problemático para as crianças e jovens de hoje.

          A encenação dramatúrgica, levada a efeito pela Oficina de Teatro no Forum Machico, bem como as comemorações do 33º aniversário do Museu da Baleia, com a brilhante actuação do Coro de Câmara da Madeira, encerraram um fim de semana pintado de todas as cores que permanecem na mente e na sensibilidade destas gentes do Leste da Ilha.

          Um fim de semana que abre perspectivas para a o mundo de amanhã!

          Parabéns aos promotores deste ciclo perdurável e garantido no crescimento de Machico, Terra de Tristão Vaz!

 

          27-28.Mai,23

          Martins Júnior

sexta-feira, 26 de maio de 2023

ENTRE O BETÃO E A EDUCAÇÃO – MACHICO FAZ A MELHOR OPÇÃO!

                                                                            


    Por outras palavras: entre a “insustentável leveza” dos seres e a sustentabilidade duradoura da vida – eis a dicotomia perante a qual estão confrontados os indivíduos, as comunidades, as nações. Para um agregado populacional, como para o ser inculto, o que conta é a grandeza aparente da obra, o que os diverte, os fogos fátuos que enchem os olhos e esvaziam os espíritos. Pelo contrário, a uma sociedade estruturada em critérios de avaliação contínua, com objectivos seguros em meta futura, não lhe basta a teatralidade efémera do gigante com pés de barro, braços de betão e couraça de alcatrão.

          Outras palavras não me ocorrem para definir o paralelo irredutível existente nesta Ilha, que divide os líderes governantes e os leva a optar entre iludir os seus constituintes com a “insustentável leveza ” das coisas, empoladas pelas ruidosas inaugurações de circunstância ou, ao invés, muni-los com a substância das ideias e consequentes atitudes comportamentais face aos desafios do dia de amanhã.

          . Machico está na pista do futuro. E, de há muito a esta parte, tem  escolhido o melhor rumo. Sem descurar a implementação de equipamento técnico-logísticos os de interesse directo para os munícipes, não esgota aí o potencial do seu esforço e intencionalidade. É precisamente no âmbito de uma estratégia sócio-pedagógica que incide a sua acção, como forma de estruturar uma comunidade de cidadãos dotados de mentalidade e sensibilidade conducentes à segurança, à autonomia consciente, numa palavra, à felicidade, envolvendo todos os extractos sociais, todos os escalões etários.

          É o que está francamente plasmado no programa do III Seminário da Educação, ora em curso no Forum de Machico, sob a égide da Câmara Municipal. O subtítulo da iniciativa – EDUCAR EM COMUNIDADE: POR UM NOVO COMPROMISSO EDUCATIVO – sintetiza a amplitude da nobre ambição de construir o processo civilizacional adequado ao mundo de hoje, desde a mais tenra idade nas escolas até às conquistas tecnológicas da era digital.

          Comentarei no próximo escrito as linhas programática e respectivos oradores para demonstrar o rumo e o ritmo de um módulo organizacional que antepõe o munícipe como Pessoa e não apenas como consumidor do betão efémero e enganador. Secundando o promotor global do III Seminário da Educação, Pro. Dr. Jacinto Jardim, trata-de de uma verdadeira “Revolução Silenciosa”.

 

          25-26.Mai.23

          Martins Júnior  

quarta-feira, 24 de maio de 2023

GUERRA E ANTI-GUERRA, HERÓIS E ANTI-HERÓIS EM PORTUGAL - UMA REPORTAGEM DE ANTÓNIO MARUJO

                                                                        


        Se “de boas intenções está o inferno cheio”, de malditas guerras está a terra prenhe. Os armamentistas enriquecem, os pobres mirram de fome, do pão que o diabo amassou nas forjas dos fabricantes, os poderosos vomitam ódio pelas narinas fossilizadas e os media agradecem, não lhes falta ementa para entreter o vulgo.

E não se esqueça a religião pacóvia que, sem pejo nem pudor, chama Deus e Nossa Senhora ao campo da metralha, levando os crentes a fazer de cada conta do rosário outras tantas granadas de mão contra os “inimigos” que são também filhos do mesmo Deus e da mesma Mãe.

É disto que me ocupo hoje, desta insuportável, explosiva, repugnante  massa híbrida: fé e armas. Para quem segue a genealogia das religiões, nada de novo, a começar pelo nosso Portugal missionário e colonizador, com as duas faces na mesma bandeira: a Fé e o Império! Está no ADN das religiões oficiais, desde 313, a malfadada aliança entre o Imperador Constantino e a Igreja Católica, o mesmo monstro bicéfalo, umas vezes a cabeça do Império, outras a da (má)-Fé, ora em disputa pelo maior quinhão de poder, ora em conúbio incestuoso na mesma cama de interesses comunicantes. Basta rebobinar o filme e lá estão em pódios gémeos, a religião e o poder, a cruz romana e a cruz suástica, Pio XII e Hitler, mutatis mutandis.

  Mas hoje quero remeter os meus companheiros da estrada bloguer para uma reportagem do distinto  jornalista António Marujo, editor do programa “Sete Margens”. Vem numa recente “Revista” do semanário Expresso e tem por conteúdo o problema da nomeação e desempenho dos capelães militares na guerra colonial portuguesa, entre 1961 e 1974,

António Marujo coloca como protagonista o Padre Arsénio Puim, açoriano de origem e capelão militar – “capelão-à-força”, posso dizer – e mais tarde expulso do Exército, devido às posições tomadas, quer entre os combatentes do seu batalhão, quer pelo apoio social dado à população indígena da Guiné-Bissau. Foi o segundo capelão expulso – o primeiro foi o Padre Mário de Oliveira, de Macieira da Lixa – a que se seguiram outros casos de recusa e até de deserção dos próprios padres mobilizados para  assistência militar  em campo de guerra ultramarina. A consciência dos valores cristãos em litígio com os objectivos táticos e estratégicos das operações bélicas em causa foram o móbil das decisões assumidas pelo capelão Arsénio Puim e seus colegas contestatários. De entre muitas citações, aduzo a seguinte, retirada do seu ‘diário’:

          Celebrei hoje a missa a uma larga frequência de soldados. O Evangelho fala de amor ao inimigo, da misericórdia para com os outros. Mas que poderia eu dizer de amor e perdão a estes rapazes, horas  antes da sua partida para uma operação de destruição e morte, contra a verdade e a razão? Não vão defender nada, vão matar para calar, pondo também em risco a própria vida. Uma chusma de matadores inconscientes.

Sobre o papel da Igreja nesta conjuntura, declarou frontalmente:

Eu não escolhi vir para capelão militar. Fui mandado (sem qualquer palavra de consulta ou informação do meu prelado) para uma acomodação da Igreja e distorção do Evangelho e do sacerdócio, vestindo uma farda antievangélica.

Recusou-se a usar a G3, a arma distribuída aos militares combatentes. E a propósito de rezar o terço pelos ‘turras’ (nome dado aos africanos em guerra) a pedir a sua conversão, Arsénio Puim sublinhava:

O que será isto? Conversão a quê? Ao evangelho português segundo Salazar?...

Agradeço a reportagem de António Marujo, li-a com muita emoção, porque identifico-me com os colegas contestatários da guerra colonial, passei idênticos confrontos com a minha  consciência e com as estruturas político-eclesiásticas do Exército. Trago ao meu blogue a informação de António Marujo, por três motivos:

Primeiro, por ver que, mesmo após a guerra, ainda persistem resquícios do colaboracionismo da Igreja com as armas, ao insistir no instituto das capelanias militares e, mais ostensivamente, na consagração de um bispo castrense, como se de uma diocese autónoma se tratasse, equivalente ao ‘reino’ do Opus Dei. Mais impressiva, aqui na Madeira, é a peregrina devoção mensal, liderada  por um coronel-padre (que mistura explosiva!)  de arregimentar  as vítimas e, ao mesmo tempo, agressores na antiga guerra e misturá-los com bênçãos e espectáculos pios. Deveríamos envergonhar-nos em vez  de nos pavonearmos com o -que lá fizemos. .

Segundo, repudiarmos a sacralização da guerra da Rússia contra a Ucrânia, através da acção sacrílega do arcebispo-patriarca moscovita, Kirilos.

Terceiro, penitenciar-me por ter sido cúmplice da guerra colonial, ao ser enviado para Cabo  Delgado, Moçambique, como capelão militar, um “capelão-à-força”.  Nessa hora, o que deveria ter feito era a imediata deserção ou a recusa sem apelo nem retorno. Daí, o meu pedido de perdão aos portugueses e aos africanos!    .

 

23-24.Mai.23

Martins Júnior