domingo, 30 de julho de 2023

CISÕES E DISTORÇÕES NO GRANDE TEATRO DO MUNDO!

                                                                           


      Tem palco… enorme, aerodinâmico, espectacular?... Tem. E tem artista, conjunto, quantos’… Sim, muitos! E gente, adrenalina, barulho?... Ah, isso é o que menos falta. E dinheiro, lucro, retorno,?... Também, tudo previsto, um sucesso. Escuta, só mais isto: as televisões, os jornais também vão?... Claro, milhares!

Não há outro Manual Didáctico-Prático para as ambições de liderança na era em que vivemos: o sucesso a qualquer preço, a barafunda anestésica, o assalto às redes sociais, os campanários campanudos, os milhares e milhões aos turbilhões, tudo quanto tome conta do espectador próximo ou longínquo. Desde os projectos minimalistas dos arraiais de aldeia e dos híper-festivais tecno-comerciais e pseudo-confessionais até à projecção maximalista das campanhas eleitorais e da conquista do poder.

            Trata-se da ‘Tempestade Perfeita’, da Invasão Perfeita, do Estupefaciente Perfeito. Diria que não há nem nunca houve outro GPS para alcançar as rédeas do Império. Seja o das massas acéfalas, submissas aos mais insustentáveis  estímulos pavlovianos, seja o dos líderes feirantes de mil tons epidérmicos, sejam quais e tais, o que importa é a monumentalidade sonante do espectáculo ruidoso.

            Sempre foi assim, disse. Mas recuo, para monitorizar no percurso da humanidade excepções que chegaram até aos nossos dias. Convido a leitura do texto que faz parte deste fim-de-semana. Vem no LIVRO, mais precisamente, I Livro dos Reis 3, 5.7-12. Na investidura de Salomão para o trono do Povo Hebreu, o Senhor Deus Iahveh deu-lhe a oportunidade de pedir o que quisesse para o pleno sucesso da sua governação.

E Salomão implorou:

            DAI A ESTE VOSSO SERVO UM CORAÇÃO INTELIGENTE PARA SABER DISTINGUIR O BEM DO MAL, POIS QUEM PODERIA GOVERNAR ESTE POVO TÃO NUMEROSO?!

            A resposta foi directa, imediata:

            PORQUE NÃO ME PEDISTE VIDA LONGA NEM RIQUEZA NEM A MORTE DOS TEUS INIMIGOS, MAS A SABEDORIA PARA PRATICAR A JUSTIÇA, VOU SATISFAZER O TEU DESEJO. DOU-TE UM CORAÇÃO SÁBIO E ESCLARECIDO, COMO NUNCA HOUVE ANTES DE TI NEM HAVERÁ DEPOIS DE TI”.

            Perante o desconcerto do mundo que atinge o cerne das lideranças regionais ou internacionais,  indivíduos, instituições, sociedades inteiras – as apoteóticas e opadas manifestações ditas religiosas não fogem ao estilo – o Código de Justiça do Rei Salomão põe-nos em sentido. E faz-nos interrogar urbi et orbi:

            Que vos faz correr, pretensos líderes dos nossos tempos?

 

29-30.Jul.23

Martins Júnior      


quinta-feira, 27 de julho de 2023

MAGIA LUSA: UM PAPA INCENDIÁRIO E BOMBEIRO ?!

                                                                                


      De que estarão cheios os céus e as terras de Portugal senão da estadia do Ppa Francisco até 8 de Agosto de 2023,  segundo alguns cronistas, o maior acontecimento mundial, alguma vez realizado neste país ?! E é dele que se enche todo o universo comunicacional que nos domina. E lá vamos nós envolvidos na mesma onda de euforia e quase deslumbramento.

          É numa atmosfera de braseiro faminto que se revolve o nosso planeta, África, Austrália, Califórnia,  Grécia perto de nós, Itália que faz o Papa ‘fugir’ para Portugal, enfim, o mundo em combustão sem freio. Às labaredas vulcânicas juntam-se os furores humanos explodindo enxofre e sangue por onde passam,  A Ucrânia é a cratera mais visível.

          Vem o Papa Francisco a Portugal e, antes que cá chegasse para inaugurar os 3,5 Kms  do “maior mural do mundo”, aí, Cascais lança o pré-aviso das chamas que exigiram um batalhão de soldados da paz, aviões, viaturas de combate. Sem premonições, mas de pura coincidência, aí, em Cascais, cujo presidente, de entre os 2 milhões e meio orçamentados, destacou meio milhão de euros só para os paramentos do Papa e Bispos concelebrantes!!!

          Ao lado da invasão pacífica do milhão e meio de jovens à zona ribeirinha que a transformarão num super-Tejo das Nações, anunciam-se cercos urbanos, tipologia

cordões sanitários, na periferia papal, com singular predominância das forças de segurança, PSP, GNR, Guardas Prisionais, Guarda Marítima, a cujo concerto não faltarão certamente professores, médicos, enfermeiros e farmacêuticos, ferroviários, migrantes, reclusos, enfim, todos ajoelhados, perfilados, afervorados, em redor de Cristo reincarnado na pessoa do argentino Bergoglio.

          Para todos terá o Papa de Roma uma palavra de conforto, em duplas tonalidades. Para casos como as alterações climáticas, empunhará as agulhetas de bombeiro contra os perfuradores dos buracos negros. Para os clamores das vítimas do tráfico humano em Odemira, erguerá a voz de Moisés no Monte Sinai incendiando e iluminando a inconsciência dos exploradores, como fez em Lampedusa. Para os trabalhadores indiferenciados, os idosos sem voz por uma reforma digna, , os jovens casais sem hipótese de comprar/arrendar casa, o Papa ampliará a chama dos seus queixumes. Mas para os agiotas, especuladores da banca, dos paraíses fiscais, para os xenófobos – sem nunca lhes citar os nomes corporativos – que estatuto usará desde o alto de uma cátedra de milhões arrancados aos frágeis orçamentos familiares: de incendiário ou de bombeiro?!

          E quanto louvará a perspicácia dos portugueses em proporcionar-lhe o cardápio-espectáculo das mazelas nacionais, à boleia dos jovens da JMJ!

 

          17.Jul.23

          Martins Júnior

terça-feira, 25 de julho de 2023

ACERCA DE UMA “NÃO-NOTÍCIA” : GRATIDÃO AO ESTÍMULO

                                                                         


        Foi minha a opção de agregar os três dias ímpares, 21-23-25, pelo ‘espanto’ que me causou o que considero uma não-notícia: a aprovação de uma candidatura à aquisição e aprofundamento de conhecimentos, a que se dá a classificação académica de Doutoramento.

          Não obstante o caracter coloquial desde espaço comunicacional, jamais ousaria ocupá-lo com um episódio do meu foro particular, não fora o ‘alarme’ da Prof. Dra. Raquel Varela que incendiou a opinião pública madeirense e, daí, os principais órgãos de comunicação regional.

Serve, pois, este breve, mas reflectido, intercâmbio para expressar a minha gratidão a todos quantos, amigos e amigas, têm manifestado o seu regozijo, que eu interpreto como estímulo `à concretização de um objectivo que vem de longe, mais precisamente,   no ano lectivo 1979-1980, em que tive de interromper o curso de Direito na Universidade de Coimbra, em virtude do preenchimento de  centenas, talvez milhares, de peças instrutórias de processos para remissão de colonia,   solicitadas pelos caseiros da Ribeira Seca, de todo Concelho de Machico e de outras localidades que recorriam à minha colaboração, uma tarefa que se prolongou por vários anos.

          Transpostos os 53 anos de actividades múltiplas, prioritariamente ao  serviço da Ribeira Seca, bateu-me à porta a voz do “Príncipe da Língua Portuguesa”: 

Só existimos naquilo que se faz. Nos dias em que.

 nada fazemos, não vivemos, apenas duramos.

          E tomei a decisão: No pouco menos que muito que me resta, não quero durar, quero viver. Para isso, o segredo é fazer. Não com aquela força braçal da juventude nem com a versatilidade polícroma dos dias estivais, mas no aprofundamento dos saberes e sentires. Porque para a grande viagem não levarei – ninguém levará – ouro nem prata, nem coroas nem comendas, muito menos terras e cheques. Só o pensamento, o conhecimento, o espírito. Tal como o sábio filósofo que, na praia onde choravam clamorosamente todos os sobreviventes do navio naufragado, ele – o único – revestido apenas da pele com que tinha nascido, saltava de encantamento, bradando: Omnia mecum porto! – Não perdi nada, Trago tudo comigo!

          O prazer de viver, enquanto alegria de servir – na esteira de Rabindranah Tagore – é o que tentarei realizar se a tanto me ajudar este corpo que me transporta.

          E muito me ajuda – e quanto agradeço – o vosso estímulo.

 

          21-23-25.JUL.23

          Martins Júnior   

quinta-feira, 20 de julho de 2023

A BAGAGEM QUE NÃO ESQUECE

                                                                            


SE ALGO LEVARMOS  ALÉM-TÚMULO,

 NÃO SERÃO AS CINZAS NEM OS MAUSOLÉUS NEM OS METAIS SUPER-SONANTES,

MAS A CIÊNCIA, O CONHECIMENTO,

ENFIM, O ESPÍRITO.

         

          19.Jul.23

          Martins Júnior

terça-feira, 18 de julho de 2023

“HOMO LUPUS LUPIOR” – UM HOMEM PIOR QUE UM LOBO PARA OUTRO HOMEM

                                                                              


        Numa Europa de contrastes, enquanto os franceses acabam de festejar a  tomada da Bastilha, no histórico 14 de Julho de 1789, símbolo das conquistas das modernas democracias, assiste-se ao maior atentado à dignidade humana quando o regime putinista recorre ao mais cínico instrumento de tortura para fazer valer a sua sede de  domínio no mundo – o garrote da fome, matar por inanição.

          O contraste é tanto mais gritante ao contemplarmos os ondulantes  trigais ucranianos pedindo ao vento que os leve à mesa dos famintos, para consubstanciarem-se com o corpo e o espírito dos humanos. E o lobo exterminador, insatisfeito com as suas frustrações na arena  da chacina interna, vinga-se nas vítimas longínquas, indefesas e que nada têm a ver com os territórios e com os instintos sanguinários do predador.

          Diante da generosidade benfazeja dos solos da Ucrânia oferecida ao mundo inteiro, excede os limites da sensibilidade mais empedernida ver o poder  execrável de alguém que da terra arável faz betão sulcado de espinheiros e as promessas de pão fresco transforma-as em pedras tumulares.

          Quando acabará a raça dos assassinos à solta?

          Com que pão fabrica as hóstias o Patriarca Kirilos? Com granadas de mão ou com pólvora roubada aos infernos?

         

          Solos ardentes da Ucrânia, estremecei e soltai-vos!         

Bocas famintas de todo o mundo, uni-vos,  gritai até abalar as profundezas e fazer correr em catadupas os rios de trigo puro, presos às fauces dos monstros predadores!

 

17-18.Jul.23

Martins Júnior !

domingo, 16 de julho de 2023

PALAVRAS DE ÁGUA QUE SUAVIZAM, FERTILIZAM, ETERNIZAM!

                                                                     


       A terra seca grita por um fio de água e a epiderme estala de sede inteira. E ninguém como Florbela Espanca viveu e transmitiu essa angústia febril, naquele soneto dedicado ao seu Alentejo em brasa:

                    Árvores, corações, almas que choram,

                    Almas iguais à minha, almas que imploram

                    Em vão, remédio para tanta mágoa

 

                    Árvores, não choreis! Olhai e sede:

                    Também ando a gritar, morta de sede,

                    Pedindo a Deus a minha gota de água

 

          É desta água que nos fala o LIVRO neste fim-de-semana, reinício daquela sede que rói a terra e despedaça as almas. Água que suaviza o consciente, enquanto cá fora fertiliza a derme telúrica em sulcos gritantes. Dela, dessoutra água invisível, conforta-nos Isaías Profeta, quando anuncia às “árvores e às almas”:

                    Assim como a chuva e a neve que caem do céu não voltam para lá sem terem regado a terra, sem a terem fecundado e feito produzir, para que dê a semente ao semeador e o pão para comer, assim a palavra que sai da minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade, sem ter realizado a sua missão. (Is. 55, 10-11).

          Extemporaneo – dir-se-á – este pregão, dado que estio é tempo de colher

 e não de semear. Mas para a palavra, água e semente em enxertie perfeita, todo o tempo é tempo e todas as estações são o seu meio ecológico.

Oh, o poder genesíaco da palavra, a força propulsora que a língua humana é capaz de produzir e transformar o planeta, a história, os mares do futuro ‘nunca dantes navegados’! A Palavra perdida no vácuo do primevo universo habitável, a Palavra feita escrita na pedra, no papiro, no mármore, a Palavra de Homero, o discurso de Demóstenes, os oráculos da Pitonisa, Zaratustra, Confúcio, o Nazareno, a eloquência  de Vieira,  Lutero, Pascal, Kundera – e já me perdi na vastidão galáctica dos glossários astrais. E ainda a Palavra dos pedagogos nativos, dos mestres rurais, dos nossos pais que não tinham biblioteca, mas eram catedráticos da vida.

Palavras não nos faltam! Haja sede para subir às nascentes, haja boca e paladar para saborear o pão que tais sementes produziram!

Elas suavizam o braseiro do estio. Fertilizam as profundezas. Eternizam o genoma indefinido!

 

15-16.Jul.23

Martins Júnior

quinta-feira, 13 de julho de 2023

MILAGRE EM MACHICO, 24 ANOS DEPOIS !!!

                                                                                    


Voltemos a casa. Após o voo periscópico a bordo deste blogue-done em que visitámos Lisboa, Ucrânia, Roma, vamos ficar por aqui, na Ilha, mais precisamente em Machico, para ver, observar, concluir. E talvez divertir, afinal é também  para isto que vêm as férias.

Embora esteja definitivamente longe das arenas político-partidárias, não me enclausurei nos antros da cegueira analítica, pelo contrário, mantenho-me mais atento que nunca à trajectória dos acontecimentos, quer regionais, quer mundiais, no cumprimento do veredicto do fundador da filosofia clássica, o ateniense Aristóteles: “Nada do que é humano me é estranho”. Por isso, lá vou eu hoje remar entre as ondas locais que oscilam entre o anedótico e o deprimente.. Em Machico.

Na azáfama pandémica que atacou os titulares da administração regional que os faz andar de terra em terra, como nómadas peregrinos – até parece que já cheira a eleições -  coube ao avantajado senhor Secretário da Saúde vir a Machico perorar largamente (sintomático, numa dependência eclesiástica) sobre  assuntos da sua não menos avantajada área. E o mais animado clímax da sua farta retórica foi o anúncio da instalação de um equipamento de ‘Raio X’ no Centro de Saúde de Machico.

Eureka! – terá repetido, alto e grosso som,  com Arquimedes, o generoso benemérito da secretaria regional. Mas bem depressa envergonhar-se-ia se alguém lhe recordasse que o Centro de Saúde de Machico foi solenemente inaugurado em 8 de Setembro de 1999, portanto, só 24 anos depois é que foi possível (aliás, é só promessa ainda) o laboratório radiológico, o que obrigou centenas, milhares de utentes a recorrer a serviços externos.

Como é relativamente novo no posto, ao mesmo titular regional ninguém lhe disse quantas – inúmeras – vezes na Assembleia Legislativa chamei a atenção do governo insular para a inexistência do serviço de radiologia naquele estabelecimento de saúde. Lembro-me eu da reacção histriónica, boçal,  dos deputados da maioria (um deles, de Machico, que hoje ocupa um lugar proeminente na escala sanitária da Região) ao ponto de ouvirmos da boca da   Senhora Secretária Regional, Conceição Estudante, predecessora do actual Secretário Ramos, esta tamanha e tremenda confissão: “Vou-lhe ser franca, sr. deputado, ‘Raio X’ há, o que nãohá é um técnico especializado”.

 Até hoje!!!

O nosso Secretário, na conferência feita na dependência eclesiástica em Machico, já que é tão rico e perdulário no verbo, em vez de acender promessas poderia aproveitar o ensejo e pedir perdão ao povo de Machico por deixá-lo privado do serviço de radiologia 24 anos após a arraialesca inauguração!

Ridicule, mais charmant – Ridículo, mas Encantador, Divertido! Encaixa como uma luva nas férias de verão! No mínimo, haja maneiras… Ao menos em Machico, Primeira Capitania da Madeira.

 

13.Jul,23

Martins Júnior