quinta-feira, 19 de outubro de 2023

DANÇA DAS ILHAS NO CÍRCULO DO AMOR

 


Desde quando se agitaram as ilhas do vulcão

E no mar alto

Abraçaram as ilhas de basalto?

E quem lhes trouxe a espuma  perfumada

Daquela  areia dourada

De outra ilha madrinha?

 

 

 

Sonhado já estava na alcova marinha

Escrito já vinha na cambraia das estrelas

Cheiro ao azul das hortênsias e  à flor de ananás

Sabor ao verde ramo açúcar e mel

 

Da gávea cimeira foi São Miguel

No bergantim dos amores

Quem abriu a dança

Entre Madeira e Açores

 

                             Terceira de nome, de amor a Primeira

                              Deixou enfim as terras de bruma

                              Bebeu o sol

                              Num Porto que é Santo e nunca se esfuma

 

 

                              Oh dança inteira

                              Milagre novo

                              De um sonho antigo:

                              A Quadratura das Ilhas

                              No círculo de Amor

Da bela Suzy e do mago Rodrigo !

 

 

  Em

        07..Out.23

        Martins Júnior


terça-feira, 17 de outubro de 2023

A 9ª SINFONIA DE BEETHOVEN E O ÚLTIMO CONCERTO DE ÓRGÃO DO PADRE JOÃO MENDONÇA

                                                                                  


        Descem do alto os acordes plenos, percorrem as paredes brancas do templo dedicado à Senhora do Guadalupe, mergulham no soalho-caixa de ressonância e penetram no cérebro, coração, vasos capilares, corpo e alma dos muitos participantes que enchem o sacro recinto.

           O director do XII Festival Internacional de Órgão da Madeira, João Vaz, ao apresentar o programa, dedica-o ao grande entusiasta da Arte dos Deuses, o anterior pároco Padre João Mendonça, restaurador do órgão local pelas mãos do abalizado organeiro Dinarte Machado. Coincidência dramática: a essa mesma hora, João Mendonça era já cadáver  na lousa fria  da câmara mortuária. Falecera poucas horas antes de começar o concerto do instrumento ao qual tinha dedicado o mais encendrado empenho. O “seu” último concerto!...

Enquanto se evolavam na grande nave do templo porto-cruzense as sonoridades da tradição sinfónico-teatral da Itália da primeira metade do século XIX, com o sacro belocanto, na voz de Rosana Orsini Brescia e o órgão de Marco Brescia - ali desfilaram Donizetti, Morando, Rossini, Bellini, Davide de Bergamo – ao mesmo tempo também voava o meu pensamento até junto do colega e amigo João Mendonça e (estranha conjunção!) visualizava o grande Teatro de Viena de Áustria, onde decorria a estreia da 9ª Sinfonia, a última do genial compositor: ali estava Ludwing van Beethoven!

Qual a lógica de tal convergência e paradoxal similitude?

Ei-la na sua inteira nudez, tão dramática quanto comovedora:

Beethoven já não conseguiu ouvir a sua obra-prima, atacado que estava pela inexorável surdez. Foi a sua última Sinfonia! E, neste domingo de outono quente, 15 de Outubro,  o Padre João Mendonça também não conseguiu ouvir o inspirador concerto de órgão, saído do instrumento-rei que ajudou a restaurar na sua igreja. Bem podia ele dizer: “Foi o meu último Concerto”!

Hoje, 17 de Outubro, João Mendonça foi a sepultar na sua sua terra natal, Santana. Após o longo percurso ascensional até ao cemitério, ali ficou sob uma colcha polícroma, feita de flores nascidas do chão verde da mais jovem cidade da Madeira.

Aos meus ouvidos ficam ecoando os acordes do órgão do Porto da Cruz e, com eles, em perfeita sintonia, o “Hino da Alegria” – o testamento musical do Padre João Mendonça!

 

 15-17.Out.23

Martins Júnior

         


quarta-feira, 4 de outubro de 2023

TOADAS-OITAVAS DA “NAU CAPOEIRA”

                                                                                  



Lá vem a Nau Catrineta

Outra história vai contar

Dentro dela uma opereta

Desafia o alto mar

À proa vai a vedeta

Põe tudo a cacarejar

Maravilha da Madeira

Chama-se a Nau Capoeira

 

A vedeta é uma pombinha

Sem orgasmo nem paixão

Inocente e maneirinha

Cabe na palma da mão

Ela sabe coitadinha

Que à popa vai o pavão

Tão astuto e tão bacano

Que ao leme toca piano

 

Ele toca, ela comanda

Ele canta, ela ameaça

Se alguma tranca desanda

Pianista perde a graça

E a menina do panda

Manda tudo prá desgraça

Ó pombinha do Divino

Vê lá não percas o tino!

 

A nau assim se acostuma

Neste estranho solidó

De dia sopra-lhe a espuma

De noite sobra-lhe o pó

Porque a batuta é só uma

E o maestro um fala-só

Mas há quem fuja do tom

E esqueça o Michel Dom

 

Capoeira na Travessa

E já aumenta o brouhaha

Do porão sai uma peça:

Rua com  ménage à trois!

Os que chegaram à pressa

Não têm direito a estar cá !

E o leme levanta o dedo:

“A mim ninguém mete medo”

 

Que é isto? – gritou um velho

Que infernal este banzéu

Tem as garras de francelho

Feiticeiro do Ilhéu

O  bico ficou vermelho

E debaixo do chapéu

Como Velho do Restelo

Soltou um tremendo apelo:

                                                      


“Quem é este galinheiro    

Roçando aqui ao meu pé

Cacarejo tão rafeiro

Nem na arca de Noé

Os que já estão no poleiro

Não maltratem a bebé !

Se seguem nesse vexame

Vai ao fundo o cavername

 

“Marinhagem anda à toa

Quem devia ir à popa

Bem galante vai na proa

Ao da ré falta-lhe um tropa

Chama  a armada de Lisboa

E atrás de montespretos

Vêm rochedos e tropedos

 

“Não tinhas medo, mas tens,

Diz o bruxo ao pianista

Não te dou os parabéns

Trocaste a estirpe tourista

Por uma de três vinténs

Sai mais barata a alpista

Mas não sabes ao que vens

Quem quer papinhos de penas

Há-de tê-las às centenas

 

“Vão-se já daqui embora

Afastem-se de ao pé de mim

Vão p’ràs ilhas Bora Bora

Com esse enorme chinfrim

E se alguém for borda fora

Deixai-o em Arguim

Se agora a coisa está feia

Que não será na Assembleia”.

 

Assim falou

O Feiticeiro-avô

E com o enguiço

Pôs-lhe o feitiço

                                                            Lá foi a Nau Capoeira

                                                           Desapontou ao ilhéu

                                                           Quando voltar à Madeira

                                                           Já cá tem um mausoléu

 

                                                           No galináceo vapor

                                                           Há preces, velas, incenso:

                                                           Que morra o Adamastor

Da Ponta de São Lourenço

 

                                                           Entre Setembro e Outubro

                                                           Outra história vai rodando

                                                           Madeira ficou ao rubro

                                                           Só não se sabe até quando

 

                                                                                                                     

                    29.Set-3-5.Out.23

Martins Júnior

 

 

 


segunda-feira, 2 de outubro de 2023

A DIVA MÚSICA TAMBÉM MORA EM MACHICO!

                                                               


           

Se nome algum pudessem ter a alma do mundo e o ritmo da história um só, mais que todos os demais, escrever-se-ia com seis letrinhas apenas; Música!

Nem literatura, nem filosofia, teologia, ciência ou tecnologia conseguem alcançar o poder mágico dos sons que tocam a epiderme e a intraderme (passe o neologismo) de tudo o que existe. Enquanto todos os vectores que dimanam da criatividade humana ou se esgotam ou se defrontam ou entram em colapso-beco sem saída, a Música penetra os ossos, inocula-se nas veias, fecunda o cérebro e, sem nunca abandonar a matéria corpórea, evola-se para o além, o mais alto e mais longe, a estratosfera do espírito , por isso, lhe chamam a Divina Arte ou a Arte dos Deuses.

Perscrutando-a na sua amplitude, constatamos que Ela partilha de dois atributos supra-humanos, apanágio da Divindade: primeiro, a infinitude produtiva, quer a criacionista quer a evolucionista: com sete notas apenas, quantas miríades de estrelas sonoras atravessam o tempo e o espaço, os de ontem, os de hoje, os de amanhã?! O segundo, a ubiquidade cósmica que faz da Música um habitante nómada, sem morada certa ou exclusiva, um ‘sem-abrigo’  bilionário que mora em todas as casas, tanto nos palácios reais como nos bairros periféricos  dos que até trazem no bolso o ‘radiozinho’ proletário!

  No Dia Mundial da Música, a Diva volta a subir entronizada nos extremos polos do planeta e na horizontalidade do seu diâmetro, desde os concertos orquestrais dos seus maiores até aos mais ingénuos recantos onde floresce a alma dos povos, jovens, crianças, idosos, entrelaçados pela seiva intergeracional que os une através dos acordes saídos dos agrupamentos locais, tunas, bandas filarmónicas, corais, solistas e afins.

                                              


Incluo neste roteiro tão diversificado a tarde soalheira deste domingo, 1 de Outubro,  em Machico, mais precisamente na vetusta Capela de São Roque, sentinela e farolim da nossa generosa e inspiradora baía, onde a suave espuma das ondas ganha ritmo e sonoridade tocadas pela grande orquestra das pedras e areias que a circundam desde tempos imemoriais.

Num ambiente acolhedor, ladeado pela obra-prima da azulejaria dedicada a São Roque (o padroeiro oficial de Machico eleito pela vereação em 1728, conforme os Anais do Município), nesse recinto vocacionado para a Música de câmara, partilharam da Arte dos Deuses muitos circunstantes, jovens e idosos (é também o Dia do Idoso), madeirenses, nacionais e estrangeiros hospedados nas unidades hoteleiras locais. A TCM-Tuna de câmara de Machico fez as honras da casa, a convite da Câmara Municipal, registando-se o bom acolhimento por parte da diocese e da paróquia matriz.

A Diva – interclassista e musicalmente super-democrática – também mora aqui!... E todos os dias são Dias da Música|  

 

01-02.Outt.23

Martins Júnior  

terça-feira, 26 de setembro de 2023

UM FILME PERTURBADOR, AUTO-RETRATO DE UM MUNDO GLOBAL

                                                                     


             “Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos nem os vossos juízos são os meus juízos”. Vem de longe, desde o século VIII A.C., esta dicotomia programática que define linhas opostas  de pensamento. Séculos mais tarde, ficará  plasmada em acção concreta a mesma antítese  comportamental, quando um certo patrão pagou o mesmo soldo a dois operários com diferente prestação laboral; ao que trabalhou nove horas e ao que só prestou uma hora de serviço. O mesmo salário.

Foram as duas propostas do LIVRO para este início de semana, a última de Setembro. Consulte-se-o, em Isaías,  55,6-9, e Mateus, 20, 1-16. Dois olhares sobre a mesma realidade, duas sensibilidades diametralmente opostas e duas atitudes inconciliáveis, porque diversas na raiz e no fruto.

Durante vários dias – de 21 a 25 – tem sido este o guião interpretativo que me faz ver, rever, revisitar todas as noites a longa metragem do Realizador João Brás, exibida em ante-estreia, no Forum Machico, sucinta e expressivamente titulada de MÈRE.

De todos os ângulos e de todas as ponta por onde se queira medir

ou definir o trabalho de João Brás,  reconduzir-se-ão todas a um mesmo denominador comum:  O duelo dos contrates! E é a partir do microcosmos doméstico - as quatro paredes de casa – que tudo acontece: uma mãe ferida de um alzheimer profundo, o epicentro que desencadeia o ´terramoto’ privado,  e os dois filhos em duelo aceso, irredutível.

          Daquele recanto indiferenciado na paisagem o drama salta e reflecte-se no tecido social, relevando os contornos civilizacionais (ou o seu contrário) da sociedade global: a juventude vs maturidade, a saúde vs doença, a força vs fragilidade, enfim, a alegria exterior, arraialesca vs tristeza anónima, incurável, inelutável.

          De todo o acervo antitético que enformaa a narrativa, o núcleo dramático que sobressai condensa-se no duelo vivo entre a sensibilidade humanista, atenta ao sofrimento alheio, por um lado e, por outro,   a indiferença radical, autista e descomprometida, ambas as aitudes personificadas pelos dois irmãos, o mais velho e o mais novo, respectivamente.

          É aqui que emerge  a, talvez exageradamente chamada, Economia de Francisco Papa, cujos parâmetros incidem contra a Economia que mata  e a Globalização da Indiferença. Aliás, a crueza de certas cenas, algumas repetidas (sem, contudo, raiar  os excessivos paroxismos de Mel Gibson ou Alfred Hitchcok) interpretei-a precisamente como sinal de alarme para despertar as consciências e libertá-las da letargia egoísta que mina a sociedade contemporânea.

          Sem prejuízo de análises ulteriores, estas de índole científica sobre as patologias neurodegenerativas e outras de teor específico reservadas aos cinéfilos e críticos da Sétima Arte, o mérito da MÈRE, o mais impressivo e duradouro, aquele que ficará para sempre inscrito no subconsciente latente activo dos espectadores será o  grito apolalíptico de entre-ajuda mútua, mesmo nada esperando daquele ou daquela a quem dedicámos a nossa sensibilidade e o nosso esforço gratuito.

A dedicação do filho mais velho roça o heroismo, tendo interrompido o seu caminho de sucesso na vida, sacrificando tudo quando trouxe a Mãe para a Madeira (a longínqua ‘lua-de-mel’ que ela sempre lhe recordara) e, sobretudo, o estertor inconsolável, desesperado com que termina a longa metragem.

Ninguém saíu como entrou naquela  sala: vi lágrimas nos olhos de quem ali esteve, lia-se nos semblantes o bater das emoções, enfim, o filme cumpriu a sua meta: um serviço à Humanidade.

Se me for permitido, observaria apenas a desnecessidade do recurso aos palavrões identificativos de uma juventude ‘rasca’, embora lhes reconheça a verosimilhança factual. Também, como confidenciei ao próprio realizador no fim da sessão, sentir-me-ia intimamente reconfortado se o drama intenso e realista terminasse, não direi com um protocolar happy end, mas com um halo de esperança e um sopro de optimismo prevalecente por sobre os dias e as noites de sofrimento inglório. Mas a opção nuclear foi aquela que, com nota superior, presidiu à realização.

Na pessoa do Produtor Diogo Teotónio e do Realizador João Brás, a nossa Gratidão e Homenagem a todos os artífices desta inesquecível MÈRE, iniciativa de dois promissores jovens madeirenses.

Reatando a matriz inicial desta singela apreciação da causa principal, tudo na vida depende do olhar com que se vê o mundo – global e local – do pensamento e do juízo com que se pega a realidade que nos cerca e define. Tinha razão o LIVRO. Desde o século VIII A.C.. E continua a tê-la na condução da história.

  

          21-25.Set.23

          Martins Júnior

 

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

RÁBULA DOS IRMÃOS GÉMEOS “NO ESTÚDIO E NO ESTÁDIO”


 

Em tempos que já lá vão

Havia na nossa rádio

Um programa tão catita

No Estúdio e no Estádio

 

No “Estádio” era uma arena

Corpo a corpo alta tensão

Mas no “Estúdio” só beijinhos

 Punhos de renda em acção

 

Em vésperas de entrar em campo

Atletas e treinadores

Desfaziam-se em manteigal

Elogios e primores

 

O campeão-maioral

Se enfrentasse o pigmeu

Dizia-lhe ao microfone

Tu és bom, melhor que eu

 

E mais lhe adocicava

Velha gatona  a miar

Amanhã caro ratinho

 És capaz de me ganhar

 

O Alverca coitadinho

Mal erguendo o galhardete

Ao Benfica confessava

Contigo ninguém se mete

 

E o Benfica  águia real

Ao pobre pinto dizia

Vocês têm qualidade

E garra e categoria

 

E assim brindavam os dois

Em redor da mesma pipa

Quem  os visse o que  diria:

Eles são da mesma equipa

 

Ora ora em certa noite

Antes de nascer o sol

Dois gémeos alguém pariu

A politca e o futebol

 

O puto era mais bruto

 A força tinha nas botas

Fintava como um ronaldo

Era craque em cambalhotas

 

Por isso indo ao “Estúdio”

Jogava sempre ao contrário

Só fazia elogios

Ao mais rasca adversário

 

A catraia era ladina

Finória como uma pega

Só sabia provocar

Atreve-te, chega chega

 

A verdade aqui se diga

Para que ninguém esqueça

Por mais pintada  e fumada

Não tinha pés nem cabeça

 

Tu chamaste-me de ladra

E tu o que és? Um pirata

Onde arranjaste, diz lá,

Tanto ouro e tanta prata?

 

Falas, falas…fazes nada

E tu de bandeira à toa?

Assim debicam os galos

Da nossa política ilhoa

 

Aprenda a jovem política

Com o velho futebol

Viestes da mesma barriga

Dentro do mesmo lençol

 

Lutar bem p’rao Bem Comum

Basta do crude-arraial

É melhor deixar a farsa

Para o próximo carnaval

 

Desculpem senhores e donas

Estes vãos salamaleques

Por junto, votos a todos

Sargetos e/ou buqueques

 

Cantem alto os megafones

Mas não arranquem narizes

Digam no fim da campanha:

”Por favor sejam felizes”,

 

 

19.20.Set.23

        Martins Junior

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

AS LINHAS VERMELHAS DO “PERDÃO”

                                                                               


É do que menos se fala e do que mais o mundo precisa: perdão nas famílias, perdões nas traições, perdões de dívidas entre  devedores e credores da praça, entre Estados, entre governantes e governados, perdões entre gigantes e pigmeus, perdões nas igrejas, perdões místicos, emocionais, de longa ou curta duração.

            Numa época de contrastes – a Lei de Talião, da retaliação primária olho por olho, dente por dente, contra a Economia que mata e a Lei das Amnistias – o elixir de uma Era de Felicidade, o Perdão, merece um aprofundamento analítico tão isento e, ao mesmo tempo, tão seguro que nos faça distinguir os verdadeiros dos falsos perdões.  E, sobretudo,  não nos iludirmos com os doentios perdões pios dos confessionários ou dos mecânicos confiteor  das missas dominicais.

            Como nos restantes processos contratuais, o Perdão é um contrato bilateral: de um lado, o agressor que pede e, do outro, o agredido que concede. O Perdão unilateral e gratuito não cumpre o seu fim essencial nem produz o fruto a que está predestinado. Pode alguém perdoar a outrem sem que este lho peça nem disso se lembre. Pode perdoar por insensibilidade, por orgulho e até desprezo pelo agressor, segundo o velho aforismo: A mim não ofende quem quer. É frustre esse perdão porque simplesmente não envolveu o mínimo contributo do agressor. Dar-lhe-á até mais ganas de repetir as agressões.

            O Perdão autêntico tem um preço!

            Tudo quanto trago escrito serve de introdução ao texto que o LIVRO nos oferece neste domingo e que ilumina não só a semana inteira mas toda a vida, toda a história. Convém consultar a narrativa de Mateus, capítulo 18, 21-35 e logo veremos o preço do Perdão.

Um assalariado contraiu um volumoso empréstimo com o patrão e, não tendo com que pagar, apresentou-se com mulher e filhos aos pés do credor, impetrando-lhe amargurado o perdão da dívida ou o pagamento faseado. Comovido, o patrão perdoou-lhe na totalidade. No dia seguinte soube que o mesmo servo, ao sair do solar do generoso amo, encontrou um colega de trabalho que lhe devia uma irrisória quantia, nada comparável com a que lhe tinha sido perdoada. Agarrou-o, quase o sufocava, e exigiu-lhe o pagamento imediato. Ao tomar conhecimento do caso, o patrão-credor chamou-o e publicamente revogou o perdão anterior, mandou-o para a cadeia, mulher e filhos, até que saldasse toda a dívida.

A medida que usares para medir os outros será com essa mesma medida que tu serás medido também – disse um dia o Mestre do Perdão. Não façamos do nosso Mestre um derrotado, inerte numa cruz ou um buda bonacheirão que se diverte a emitír borlas semanais a burlões profissionais ou a meliantes sacristas de mãos para o céu. Ele perdoa, mas exige. Tal como no Direito dos humanos, a pena para ser ressocializadora integra na sua génese uma exigência factual que lhe corresponda.

O verdadeiro Perdão tem um preço! A introspecção da culpa, o pedido do infractor e o ressarcimento do erro. O resto é ficção Com que o povo néscio se engana!... Perdoe-me Luis Vaz de Camões o plagiato – casual mas coincidente.

 

17-18.Set.23

Martins Júnior