sexta-feira, 7 de agosto de 2020

DE 6 a 9 - ENTRE HIROSHIMA E NAGASAKI

                                                                    

         Não é fácil ousar romper o mar nebuloso da história. Nem fácil nem pacífico. Muito ao contrário, doloroso, arrepiante e perturbador. Como se tivéssemos de atravessar o monstruoso cogumelo que arrasou Hiroshima, a 6, e Nagasaki, a 9 de um Agosto igual ao nosso que hoje vivemos.  Mais cómodo seria ignorar, tais a fealdade e o horror que vomitam na nossa própria cara de espécie humana. Mas é impossível esquecê-los esses três dias fatídicos, nem que seja, ao menos, nas suas datas mais impressivas. Fizemo-lo em Machico, no ano de 1985, 40º aniversário da tragédia, a cujo acontecimento dedicámos uma composição, letra e música, que ainda hoje perduram na nossa memória.

Repetimo-lo, aquando dos 50 anos em 1995 e voltámos a lembrá-lo em 2015, neste mesmo blog, sete décadas volvidas. Hoje, em 2020, batem cruelmente nos nossos neurónios e nas nossas consciências os 75 corrosivos estrondos, tantos quantos os anos que se passaram.

Certo que não há lugar para manifestações celebrativas, ainda que sob protesto. Nem sequer para veementes peças de retórica. Tão-só, o silêncio demolidor, incontornável, avassalador! Tudo foi posto ao serviço da morte mais fria e desumana: ciência, tecnologia, talento, engenharia, império.  É insuportável a contradição do mesmo ser humano, nas mesmas circunstâncias, na mesma estação: enquanto no Europeu Atlântico de 1945 as nações punham fim ao massacre nazi da Segunda Guerra Mundial, caíam indiscriminadamente  no Asiático Pacífico (só por ironia, pacífico) as bombas assassinas sobre vítimas inocentes.   E até se invocou Deus ( a religião) em apoio do crime.  Causa tremor e raiva a oração blasfema, cínica do presidente Truman: “ Eu percebo o significado trágico da bomba atómica… Mas agradecemos a Deus que nos entregou essa responsabilidade,  em vez de ir para os nossos inimigos e oramos para que Ele nos guie para usá-la em Seus caminhos e para os Seus propósitos “ . Só no fanatismo muçulmano e na bíblia judaica sancionada pelo ‘Senhor Deus dos Exércitos’!

Está visto que, parafraseando o refrão, “hoje não me recomendo”. Nem quero. O bicho-homem, a cuja federação também pertenço (porque todos lhe pertencemos, de raiz) não é capaz de aprender, nem perante os mais cruéis manuais da sua história sangrenta. Continuaram as guerras. Continuámos nós em África com a mais injusta e anacrónica guerra colonial, chamando Deus e a Igreja para o vil terrorismo imperialista, dito  nacionalista. É a esperança que morre no coração da humanidade!...

Acabada a paranóia dos impérios tradicionais, outros surgem alapados na carcaça de certas mentes que o povo manda sentar no trono: impérios comerciais, impérios-paraísos fiscais, impérios comunicacionais e seus satélites: instagram, tik-tok, enfim, redes sociais.

Oportunamente (e felizmente, diria eu, se não fôssemos todos  nós vítimas fatais) chegou ‘Sua Sereníssima Majestade’ COVID/19,  para pôr na ordem, despi-los, quebrar-lhes as coroas imperiais a todos esses que se julgam DDT - donos disto tudo, de todo o planeta  e de toda a humanidade -   e  torná-los gente humana, “arrancar-lhes o coração de pedra que têm dentro do peito e, como diz Ezequiel Profeta, colocar em seu lugar um coração de carne verdadeira”, sensível e justo. Oxalá!

Sempre haverá, porém, uma réstia de luz ao fundo do túnel: Nos 75 anos da tragédia, entre o 6 de Agosto - Hiroshima - e o 9 de Agosto – Nagasaki - sirva o dramático momento que vivemos actualmente para que, ao menos, o Povo aprenda a entregar correctamente (e a quem mereça) as rédeas da história contemporânea.

 

07.Ago.20

Martins Júnior

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