sexta-feira, 21 de agosto de 2020

“SOLDADOS DERROTADOS DE UMA CAUSA INVENCÍVEL”!!!

                                                                

Agarra-o, não o deixes fugir! Segura-o, não o deixes cair!

         Eis o clamor, a palavra de ordem dirigida a todos os migrantes que passam por este planeta, sobretudo os vindouros E hoje a cada um de nós, também.  Não deixem fugir Pedro Casaldáliga. Não o deixem cair. Se cair na terra, não  lhe importa nem lhe dói, porque toda a vida ele deu-a à terra. Não o deixem cair no esquecimento! Precisamos dele. É urgente que ele não morra! Esquecermo-nos dele é esquecermo-nos de nós próprios.

         Porque, se “A Liberdade é uma Luta constante”, como titulou o seu livro Ângela Davis, então precisamos dele ao nosso lado. Todos os dias. E todos os viventes. Não apenas os escravos indígenas do Mato Grosso, mas todos quantos têm direito à Vida e à Verdade. Os mestres e pedagogos que sentem nas mãos a força – e a tremenda fragilidade – de conduzir multidões. Refiro-me hoje àquela porção de humanos que decidiram entregar os verdes anos (e os maduros, toda a vida) à nobre causa de evangelizar, uma missão consignada à Igreja. “Evangelizar sem colonizar”, já advertia Pedro Casaldáliga!

         Por mais estranho que pareça, Pedro encontrou na Igreja oficial, estandardizada, um dos grandes obstáculos a vencer. Reflectiu, contestou, concretizou. Contrariou muitas decisões das cúpulas, recusou-se a certas praxes ornamentais (e deformadoras), ousando mesmo afrontar o Vaticano. sempre  com a dignidade que nele superava a coragem e a impaciência. Há, porventura, quem “se escandalize” por ver um eclesiástico, muito mais um bispo,  entrar em conflito ideológico ou meramente logístico com a Igreja. É a interpretação de ‘club’, de partido ou de associação com fins lucrativos que muitos devotos têm  da Igreja.

         Mas para Pedro Casaldáliga a Igreja não é clã de elites ou monarquia hereditária. A Igreja é um corpo vivo ao serviço do povo. Por isso tem de agir, tem de actualizar o seu código de conduta em função dos seus destinatários, que são ao mesmo tempo utentes e construtores da mesma Igreja. Tal como o Mestre ensinou e fez. O bispo de São Félix de Araguaia, Mato Grosso, começou logo pela base visível: Em vez de mitra usa chapéu de palha, como os nativos. Em vez do báculo banhado em ouro, transporta um bordão sertanejo. E em vez do anel de ouro ‘ostenta’ um círculo de  tucum (palmeira indígena), mas que se tornou símbolo da ‘Teologia da Libertação’.

Ele entende que os cristãos devem ser “fermento na massa” e constituírem-se eles próprios co-responsáveis e dirigentes dinâmicos das suas comunidades. Em consequência, ele é frontalmente contra o sistema de nomeação de bispos residenciais sem que seja escutada a comunidade a que se dirigem. Aliás, até ao século V, a lei e os costumes ditavam o seguinte procedimento: “O povo pode recusar o bispo que não escolheu”. Está bem expresso nos documentos da Patrística, como refere o grande teólogo Yves Congar. “A Igreja deveria envergonhar-se de usar o poder para condenar e excluir, quando o seu estatuto fundamental é incluir e escutar”- era um dos pontos altos do programa episcopal de Pedro Casaldáliga. Precisamente na linha evangélica da inclusão, Pedro ele defendia a ordenação sacerdotal de mulheres e fazia-o com sólida fundamentação teológica-pastoral. Para completar a sua visão holística da Igreja, ele advoga a abolição do celibato obrigatório dos padres, conhecedor profundo que era da biologia e antropologia e, ainda mais, da autenticidade da vivência da fé, bem como do futuro da Igreja.

Pagou caro a sua liberdade de pensar e agir, com maior incidência no âmbito da disciplina eclesiástica. Mas expôs ao vivo a contradição das estruturas da Igreja Vaticana, em dois momentos históricos: o primeiro, quando foi ameaçado pelos latifundiários, o Papa Paulo VI enviou à ditadura militar a seguinte intimação: “Quem tocar em Pedro toca em Paulo. Quem bate em Pedro bate no Papa, bate em mim”! Grande Paulo VI! O segundo momento, quando mais tarde foi chamado ao Vaticano (era já Papa João Paulo II) para receber a ordem de não falar mais em público, Pedro Casaldáliga recusou-se a assinar o documento de condenação sentenciado pelo Papa!...

Bispo Missionário, Vigilante atento à comunidade, Defensor dos Escravos contra a Ditadura económica, política social, Poeta das dores e dos cânticos do seu povo-irmão, Vidente do Futuro, Pedro Casaldáliga, Homem-Dom e Dádiva ao mundo, jamais o deixaremos cair. Ficará connosco, como bordão resistente na grande Caminhada! Para não fraquejarmos, nas horas de desânimo. Porque os nossos olhos, mesmo em lágrimas, fixar-se-ão naquelas palavras suas, quais estrelas fulgurantes a rasgar as sombras sazonais:

“Nós somos soldados derrotados de um Causa Invencível”!

         

         21.Ago.20

Martins Júnior

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