terça-feira, 13 de janeiro de 2015

MORRER OU RENASCER SOBRE UM VULCÃO


Ninguém, nem nenhum acontecimento, por mais sobredourado que se apresente --- seja a baixa do preço do petróleo, seja o triunfo de Ronaldo, seja mesmo a  corajosa visita de Francisco Papa ao continente asiático --- nada conseguirá anestesiar o estremeção do “11-Setembro francês”, em 7 de Janeiro, a que o Le Monde, na sua edição de hoje,  encimou com esta manchete: “Cétait Le 11-Janvier” (era, seria no 11 de Janeiro) , fatídico numerário que tem amortalhado a humanidade em vários países. Impossível ficar sossegado em cima deste vulcão de múltiplas crateras.
Mais do que vociferações contra a “guerra santa”, mais do que dentes afiados prontos a devorar, mais do que milhões de manifestantes, o momento é de reflexiva descoberta de todo o tipo de minas e granadas subtilmente armadilhadas --- e tantas vezes consentidas, provocadas por aqueles que as fabricam nos paiós das próprias nações que dirigem --- e que desfilaram garbosamente em Paris, numa prova de emoção gregária, ao ponto de um jornalista da casa ter gritado: ”Eu vos  vomito a vós que empunhais “Je suis Charlie”!
O CASO É SÉRIO DEMAIS!
Recuso-me à ingénua interpretação que o ataque ao “Hebdo” tenha sido  apenas um puro acto de fanático desagravo à religião muçulmana.  Confesso que a minha cabeça tem-se tornado, nestes dias, um traumático caldeirão de ideias, conceitos e preconceitos, que me levam a sorver tudo quanto os analistas locais, nacionais e estrangeiros vertem sobre tamanha tragédia, não só  pelo número das vítimas, mas sobretudo pelo síndroma que encerra esta operação tremendamente cirúrgica.
Cada um de nós, por acção, omissão ou indiferença, está metido num dos lados da barricada. É o que procurarei desvendar proximamente e a que o esclarecedor debate ontem realizado no programa televisivo “Prós  & Contras” lançou algumas pistas. Ou me engano, ou começa a desenhar-se sobre os escombros o parto de um outro mundo,  onde, entre  décadas ou séculos até, se descubra a nova terra construída na educação e no respeito universais.

13.Jan.2015

Martins Júnior

domingo, 11 de janeiro de 2015

BAPTISMOS…HÁ MUITOS!


Alargando o conceito que anteontem enunciei --- racismos há muitos e de  muitas cores --- aproveito hoje  o ensejo da comemoração do baptismo de J:Cristo por João, o Baptista, no rio Jordão, para pôr sobre a mesa da nossa conversação este tema que é extensivo a todos os credos, inclusive àqueles que estão na ordem do dia, os assassinos de Paris.
Vou discorrer livremente em carris simplistas, pedindo desculpa, desde já, a quem quiser tomar outros comboios e outros destinos. Em primeiro lugar, o baptismo cristão, sobretudo o católico, ao longo dos séculos, com início em Santo Agostinho com o dogma do pecado original, cometeu um crime da mais desumana difamação contra uma criança recém-nascida, ao proclamar que o baptismo tinha por função primordial limpar e absolver  o bebé daquela mancha fatal, o pecado original. Deviam ser processados em tribunal penal todos os papas, bispos e padres que ensinaram que uma inocente criança vinda ao mundo já trazia consigo o estigma de criminosa de uma  metáfora da maçã de Adão e Eva. Felizmente, já emendaram a mão, acabando com esse sádico “escorrega”, a que chamavam Limbo. Em segundo lugar, não parece curial nem justo que os pais e os padrinhos inscrevam, sem o consentimento dos interessados, o filho ou a filha numa colectividade, chamada, no caso, Igreja Cristã ou Católica. E eu, que tenho baptizado, centenas, milhares de crianças, brancas e negras, aqui e em Moçambique, respectivamente, obrigo-me a registar tal compromisso, alertando embora os pais de que “não se sabe se mais tarde esta criança estará de acordo com a manifestação de vontade dos seus progenitores”. Em terceiro lugar, não esqueçamos que o nosso J:Cristo submeteu-se desnecessariamente ao baptismo quando tinha trinta anos de idade! Uma opção de tamanha grandeza terá de assumir-se, preferencialmente, com a plena assunção dos direitos e deveres inerentes a um tal estatuto.
Mas a maior definição do baptismo foi aquela que João, o Baptista, escreveu de viva voz: ”Eu baptizo-vos em água, mas virá um outro, que é maior do que eu, o Messias, esse baptizar-vos-á no Espírito”. Fica bem visto que todos os rituais deste sacramento ficam como que anulados, supérfluos, perante o Espírito que lhe deve presidir. Ser baptizado no Espírito significa que é esta convicção e este sopro interior que comandam a vida de quem foi  baptizado. Pelo que, o baptismo é um projecto em construção contínua para toda a vida: é um renascimento, todos os dias actualizado, fertilizante e reprodutivo. E o que se vê mais é o baptismo de certidão narrativa, de cristãos de papel timbrado para as ocasiões de protocolo. O baptismo não o aceitamos gratuitamente: merecemo-lo, dia a dia, hora a hora, num repetido e quantas vezes denodado esforço para ser-se justo e autêntico.  É o Espírito que o mantém vivo,
Finalmente e em conclusão, nada mais ridículo que ouvir-se dizer “sou baptizado, mas não praticante”.  Em minha opinião, concluo ao contrário: “não é praticante, não é baptizado”, esfarrapou-o, mandou-o às urtigas.  O que me faz impressiva sensação é o facto de, lendo o Evangelho, o nosso J:Cristo nunca ter feito nenhum baptizado desses, formais, litúrgicos. Não consta. O seu lema era viver “em Espírito e Verdade”. Foi este o argumento que levou o heróico líder hindu, Mahatma Gandhi, a afirmar: ” Adoro Cristo, mas odeio os cristãos”. O mesmo se há-de dizer desses fanáticos infiéis a Maomé, os quais, mesmo formados nas madrassas ou professando a shahada, não têm o blasfemo direito de chamar Alá para justificar horrendos crimes condenados pelo Corão.
Lembrando-me de Vinícius de Morais, peço-lhe licença para exclamar que um cristão baptizado é como um “Operário em construção”!

11.Jan-2015

Martins Júnior

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

“LE 11-SEPTEMBRE FRANÇAIS”

Manda a sensatez que não se reaja a quente perante acontecimentos do dia ou da véspera, sob pena de nada se dizer ou, que é o mesmo, cair nos banais lugares comuns. Dado que, porém, no último dia ímpar, me referi aos racismos de muitas cores, peço licença aos meus inter-leitores amigos  para esclarecer  o Post-Scriptum  aí  formulado, onde dizia que um sopro da nossa boca pode desencadear tempestades impossíveis de amarrar, depois.
         Refiro-me ao sucedido  nesse tristemente ímpar, 7 de Janeiro, e a que o jornal  Le Monde  de hoje classifica de “le 11-Septembre français”. Ele foi e é sempre um monstro de mil cabeças que, de tão tenebroso., nem sabemos por onde pegar.
         Certo é que todos os opinadores do mundo civilizado sintetizam-no genericamente em duas direcções: o ataque à liberdade de expressão e o duelo sangrento inter-religioso. Mas seria ingenuamente redutor cingirmo-nos só a isto. Começando pelo segundo detonador enunciado --- o duelo religioso --- a argumentação não me convence. Concedendo que nada há de melhor e, paradoxalmente, mais pernicioso que a religião, tenho para mim que a religião nunca navega sozinha ao leme. Pelo contrário: ela faz parte do lastro indispensável à nau de outras bússolas e de outros valores que mais alto se alevantam.
         Assim foi nos anos quinhentos  das duas bandeiras dos Descobrimentos, a  Fé  e o Império, quando se sabe que na alta gávea das caravelas era o alargamento do território, o comércio das especiarias e do subsolo orientais que conduziam a estrela dos mareantes. A nossa cristianíssima civilização europeia é tecida de teias imperialistas, lutas fratricidas, arranjos casamenteiros para anexação de terras, e tudo isto abençoado umas vezes, outras excomungado (conforme as alianças) pela Santa Sé Vaticana, cujos resquícios este Pontífice corajosamente tenta erradicar. Leiamos, entre outros,   “A Santa Aliança” de Eric Frattini.
         Noutras paragens, atavicamente marcadas pela agressividade tribal, que, herdeiras do judaísmo e do cristianismo, se passaram para o Islão, não é diversa  a geometria de interesses, com o petróleo à cabeça: olhemos a carnificina entre irmãos da mesma fé muçulmana, sunitas, xiitas, Iraque, Afeganistão, Síria, ao ponto de a mesma fé unida num pólo, tornar-se rival num outro.
         E o maior erro da chamada civilização democrática foi o aventurar-se a resolver, com categorias ideológicas e estratégias bélicas exclusivas,  problemas e conflitos de contornos diametralmente opostos, esquecendo que (foi o que aconteceu na nossa “de má memória” guerra colonial) quem está em sua casa sabe os caminhos e veredas por onde caçar o invasor. Criminoso o ataque de Bush ao Iraque, com a conivência de Portugal, cujas sequelas estão a sangrar as populações indefesas que não passaram procuração aos decisores. É preciso não esquecer que o mesmo Bin Laden que fustigou os americanos foi o mesmo que os americanos tinham já armado contra o Afeganistão e a Rússia. Um dos pensamentos mais sensatos sobre esta melindrosa questão foi aquela que ouvi do Patriarca  José Policarpo, de Lisboa: “É tão perigoso entrar nesses conflitos como meter-se num vespeiro ou num formigueiro”.
         Ficar-me-ei hoje por aqui, aguardando ter ficado claro que aquilo que se classifica como exclusiva justificação dos sucessivos crimes praticados na nossa casa europeia, ou seja, o fanatismo religioso, não passa de um falso biombo para esconder hegemónicos interesses económicos, que os povos colonizados já conhecem desde a nascença.
         Dizem as notícias que acabaram mortos os dois irmãos assassinos. Oxalá que tudo isto seja mais uma ténue, mas trágica, tentativa para içar a bandeira da paz e da liberdade de expressão. Oxalá. É isso que o Alá de todas as religiões mais deseja. Mas é preciso que os homens o queiram!

 9.Jan.2015

Martins Júnior     

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

LÁ FORA E AQUI – RACISMO DE MUITAS CORES


Dos jornais:

1..

Na pequena cidade de  Chambland, sul de Paris, o presidente da Câmara fechou o cemitério ao funeral de uma bebé de dois meses e meio pela única razão de pertencer à etnia cigana. Maria Francesca, assim se chamava a menina, falecera na noite de 25 para 26 de Dezembro e esperou dez dias para ser sepultada em Wissons, uma cidade limítrofe. Choveram críticas ao maire de Chambland, por maquiavélica ironia chamado Cristian Leclerc, críticas do presidente Hollande, do primeiro-ministro Manuel Vals (“uma afronta à própria França”) e até, pasme-se, de Marine Le Pen, de cujos cabelos louros escorreu uma furtiva lágrima de crocodilo-fêmea, (“falta de humanidade”) condenando o autarca, paradoxalmente, um eleito da extrema-direita.

2.
Na grande cidade de Colónia, um grupo de activistas organizou aquilo que esperava-se uma marcha gigante contra o Islão. Caiu-lhe em cima a opinião pública, Ângela Merkel ordenou que se apagassem as luzes dos monumentos e edifícios públicos e até a própria religião associou-se ao protesto contra os manifestantes, apagando os projectores luminosos à passagem  do fanático movimento.

3.

Belíssimas as reacções anti-racistas dos governantes franceses --- todos dirão --- e de Marine Le Pen e de Ângela Merkel. Mas quem poderá suportar tamanha hipocrisia da extrema-direita xenófoba de Marine, exterminadora dos imigrantes? E da Senhora Merkel, como e quando podemos esquecer o racismo económico-financeiro contra os países do Sul, mais recentemente os anátemas contra a Grécia?

4.

Nem é preciso viajar tão longe. Aqui, em casa nossa, vivemos quase quatro décadas sob um regime tribal, mais extenso no tempo e mais requintado e dissimulado que o negreiro salazarismo, em que o racismo político, não só inter-partidário mas também (pasme-se, outra vez!) o racismo intra-partidário, imperaram em estrebuchos da mais primitiva raiva contra quem  não se lhe pintasse da mesma cor. Se os herdeiros do regime não inverterem, mesmo camaleonicamente, a fúria cega do seu progenitor, o que restará para a história da Madeira será a máxima, em duplicado, da lei de Talião:”olho por olho, dente por dente”, traduzida pelo nauseabundo estribilho: “quem  não está comigo está contra a Madeira”.

5.

E a própria Igreja Regional, nos antípodas da autêntica religião ecuménica, não teve o mínimo pejo --- ainda por cima no pós-25 de Abril --- em sacralizar o mais rasteiro racismo intra-religioso contra uma  parcela  indefesa da população madeirense, recorrendo aos mais ignóbeis estratagemas, cujo sádico clímax aconteceu quando 70 efectivos policiais, em 27 de Fevereiro de 1985,  ocuparam selvaticamente durante 18 dias e 18 noites um modesto templo rural, que resistiu e ainda hoje se mantém de pé firme e fé inquebrável. Será que o “Secretário Regional dos Assuntos Religiosos” (agora que o regime a quem serviu está  em câmara ardente) será que vai converter-se à Igreja do Papa Francisco e apagar as sequelas do escandaloso racismo com que manchou a túnica  inconsútil do Cristo-Irmão?!

                                                *

Racismos há muitos e de muitas cores!
Parecerá estranha esta minha opção por um tema tão perturbador. É por isso que já afirmei preferir não escrever, por enquanto, sobre as águas residuais cá do burgo. Mas seria insensibilidade indesculpável da minha parte deixar passar em claro as duas recentes notícias lá de fora e, em paralelo, as duas velhas notícias cá de dentro, sobretudo nesta época dos (reis) Magos, em que sobressai o traço universalista da religião, o abraço de todas as etnias e credos, enfim, a abolição das ideologias e dos regimes que matam.

7.Jan.2015
Martins Júnior

Post Scriptum:
Ao tomar conhecimento do hediondo crime perpetrado hoje  em Paris, parece inútil tudo o que escrevi. Para que planeta teremos de emigrar?...Quantas décadas, quantos séculos, quantos rios de sangue serão necessários para alcançar a tão suspirada foz da vida e da paz?!... Só quando aprendermos que cada sopro nosso --- na casa, na rua, na ilha, no país ---  desencadeará, mais cedo ou mais tarde, redobradas tempestades sem que as possamos amarrar.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

“É NO DIA CINCO PARA O DIA SEIS”


Na noite em que por montes e vales, cidades e aldeias ecoam as reminiscências de outras eras, lembrando que “é no dia cinco para o dia seis que se cantam os reis”, e após ter também participado na tradição levada a cabo pela Junta de Freguesia no centro de Machico, tomo o rumo do viajeiro que procura mais longe as raízes desta comemoração. E porque não é noite de profundas cogitações, contento-me  com a conclusão que me parece translúcida,  de dentro das profecias bíblicas, com  Isaías na vanguarda: os judeus esperavam ansiosamente pela sua hora libertadora, após os quarenta anos de cativeiro no Egipto e setenta na Babilónia, alimentando um sonho de vitória,  misturado de incontida revolta contra os seus sucessivos opressores. “Um dia chegará em que o Deus dos Exércitos porá os inimigos, todos os reis da terra, de Társis, da Arábia, de Sabá, como escabelo debaixo dos pés dos hebreus, pagando tributo a um “povo rebelde, mas  povo eleito de Deus”.
E as profecias teriam de cumprir-se, com tudo o que contêm de mito e realidade. Só que, também aqui, a realidade ultrapassou a ficção: vieram os Magos, assessores letrados da corte real, mas não como reféns derrotados ou contribuintes forçados do Messias Omnipotente. Saíram frustradas as projecções do orgulho judaico
E é a grande, incomensurável revelação deste episódio chamado epifania: o Libertador, o Desejado, afinal, não veio para esmagar, excluir ou vingar insucessos de outrora. Precisamente, o contrário: veio abraçar ao peito, incluir, pacificar todos os credos e etnias do mundo conhecido: os brancos, os negros, os amarelos. Pelo que, na diversidade territorial e racial dos três Magos, vejo a síntese global, a unidade necessária, enfim, o desanuviamento anti-guerra fria, o desarmamento e a abolição de fronteiras.
Leio na idiossincrasia dos Magos os embaixadores de cada continente identificados com o valor mais alto que o poder  e o  dinheiro, a dignidade humana, representada, tangível e amada no corpo frágil de uma criança, ela mesma incarnação plena  da realização planetária do Homem em toda a sua História. Ali (admitam-me a hipérbole) ali foi inaugurada  a almejada, mas ainda inatingida Assembleia das Nações Unidas, presidida pela intrínseca omnipotência da justiça e da paz.
Nem de propósito: O Papa Francisco acaba de prestar a mais bela vassalagem ao “Dia de Reis” ao nomear trinta e cinco conselheiros, empoladamente alcunhados de cardeais  (uma nomenclatura alheia ao corpo e ao espírito evangélicos) e foi recrutá-los às periferias mais diferenciadas do mundo.
Hoje, como em Dia de Natal, é dia de ser bom e abraçar o mapa-mundi, que começa à nossa beira.

Apraz-me citar a letra de uma canção de um dos nossos CD’s, editada em 2004:
“Em cada mar, em cada continente
À minha espera há sempre um coração
Por isso eu canto e digo a toda a gente
Em cada homem vejo o meu irmão”


5.Jan.2015

Martins Júnior

sábado, 3 de janeiro de 2015

BALADA DE SAUDADE A QUEM NUNCA PARTIU

Tal como o ar que respiramos e não se lhe pode ver nem tocar, assim também tu ficaste connosco inundando de luz e som a paisagem deste anfiteatro da vida que, por enquanto, é nosso. Um dia a outros pertencerá.. A saudade que deixaste traz-nos a varinha mágica com que dirigias a tua amada Tuna. E não só: também a nossa Tuna de Câmara, Machico, Ribeira Seca, que tanto nos apoiaste presencialmente, com o teu coração magnânimo quando nos emprestavas alguns bandolins, em tempos difíceis, para que nos mantivéssemos ainda de pé.
Não temos maior prova da nossa gratidão senão dedicar-te aquele poema do 4º aniversário da TCM, em que a tua presença estimulante e motivadora --- tinhas então 33 anos --- foi a cereja em cima do nosso bolo de aniversário. Jamais esqueceremos!
Para ti que partiste entre quatro tábuas sonoras, dedicamos estas

“Tábuas que sentem e cantam”

Arranca da Montanha o Lenhador
A tábua verde e rude sem feição
Que tanto dá pra seio de tambor
Como dará pra nau do meu caixão.

Mas o milagre da mãe-terra
Fez o milagre- virgem deste abraço:
Da lenha ardendo em seiva
Fundida em cordas de aço
Fez este coração …e este braço.

Já não sabe a suor
Já não se ouve o machado
Agora é valsa em tom maior
É sinfonia, “allegro”, é amor, é fado.

Veias de lume, o lenhador,
Sonoras mãos, o carpinteiro,
Génio de som, compositor,
Tão longe e belo foi vosso roteiro
Até encontrar a foz sem fim
Na concha frágil dos meus dedos
E na ternura breve deste bandolim…

Tábuas que sentem…
Tábuas que choram…
Tábuas que cantam…
Sentem o palpitar de corações
Choram saudades e noturnas paixões
Cantam “núpcias” e glórias de Nações.

                                 *

Bem-vindos, hoje, à nossa mesa
Brindando no mais fino cristal desta alegria
Jamais há-de morrer o fulgor da beleza
E a tábua-pauta da festa deste dia!


3.Jan.2015
Martins Júnior

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

NUNCA É O FIM E TUDO É COMEÇO – Dois dias ímpares no mesmo feixe: 31Dez-1Jan.


Escrevo no meio das horas como podia escrever em cima da linha do equador que separa a roda dentada do globo e da vida. Entre o 2014 e o 2015 não há tracejado sequer, tudo é linha contínua sem termo. Do novo se fez o velho e do velho se faz o novo. Na felicidade oficial do ópio da meia noite, fica a atmosfera e ficam as euforias das doze passas naquele “dolce far niente” de quem acaba de aterrar no planeta lilás onde as sombras se transfiguram em luz e os farrapos da memória breve reincarnam em míticos cortinados dos nossos imaginários tapassóis abertos para o futuro. E do mais fundo dos figurantes emerge um jacto de fogo que escreve em volutas ébrias de beijos e abraços : “Agora sim, agora é que é, agora é outro o ar e outra a vida. Ano Novo, Vida Nova!” 
Mas, ainda pairando no ar o eco das doze badaladas, começamos a despertar como numa manhã que segue à terça-feira de carnaval: “Afinal, é mais do mesmo, afinal é o chão que deixou de ser lilás para voltar ao breu da véspera, ao “trabalho” de desemprego, à casa devolvida ao banco, à vacina que o hospital nos manda comprar na farmácia, aos meios de informação que nos cortam a voz,  à autoridade que sufoca, enfim, nem tracejado se viu, só a mesma linha contínua, prosaica, se não mesmo hostil que nos obriga a derrubar entulhos indesejáveis, para poder prosseguir viagem. 
É isto que se alcança do miradouro da uma da manhã e ainda melhor se descobre quando o sol nascente definir os contornos da paisagem. 

“Não perguntes a 2015 o que ele pode fazer por ti. Pergunta a ti mesmo o que podes fazer pelo 2015. Ofereço-te – diz o Ano Novo – ofereço-te 365 dias para viver,  produzir e amar!” 

Cito esta passagem do postal de Ano Novo distribuído no grande presépio da minha terra, Ribeira Seca, Machico. E faço-o na convicção de que nada muda se nós não nos mudamos. De que não haverá ano novo se nós não nos renovamos. De que tudo ficará na mesma se na mesma inércia da fantasia nos deixarmos ficar mastigando passas doces que bem depressa tornar-se-ão amargas. 
Exercitada a auto-metamorfose interior, é preciso intervir no “corpus” colectivo. Decididamente. Aqui na fatia de terra que nos coube viver. Nem vou mais  longe. A nível político, algo de novo está a surgir. Comentando Nuno Rogeiro que afirmou “estar agora a Madeira-PSD/M entregue em boas mãos, direi que estaria bem entregue nas mãos de qualquer um dos candidatos que obtiveram, no mínimo, um dígito dos votos, tal a degenerescência a que chegou a governação regional sob o império de quem politicamente se assumiu como um criminoso público quando teve o despudor de vociferar em noite de eleições: “Para Machico, nem um tostão”. Paz à sua alma, guerra à sua obra: é o que está escrito no epitáfio dos malfeitores. 
A nível de uma segunda fonte poluidora do micro-cosmos em que vivemos, é importante que a Igreja deixe de ser regional para afirmar-se ecuménica, promotora da inclusão, “Porta aberta da Casa do Pai” (Papa  Francisco, Evangelii gaudium). Para tanto, tenha um líder minimamente culto e vigilante , fiel à sua raiz etimológica: na literatura greco-romana, “episcopus”  significa o que está atento e “olha em redor”; que não se deixe enfeitiçar com o espectáculo mundano onde não faltam nunca os protocolares penduras e pendões; nem se iluda com a fartura indigesta de congressos seculares. Lembrando Camões acerca do frágil D.Fernando, (“Um fraco rei faz fraca a forte gente”) direi que um bispo inculto faz inculto um sábio povo. 
Num terceiro posto avançado, nunca haverá Ano Novo quando uma comunicação social substitui o lápis azul da censura salazarista por um sofisticado detonador interno que esconde, trunca e destrói a verdade informativa e mantém sistematicamente um olhar estrábico contra quem se lhe opõe, pessoal ou socialmente. Tenho a liberdade e os argumentos suficientes para afirmar que se não fosse o incestuoso Jornal da Diocese-Governo, havia de ver-se quem é o soi disant” jornal independente local. Basta de ilusionismo e piruetas de circo! E como é possível esperar um 2015 de transparência comunicacional quando o jornalista de serviço faz a reportagem do acontecimento, entrevista os promotores, tem o trabalho de montar a peça…e, lá dentro, o “inteligente” director televisivo prende tudo na sua gaveta de aprendiz de ditador feliz ?!  
Nada é o fim e tudo é o começo. 
Há quem entre no Ano Novo para torná-lo ano velho, acomodado, quieto, parasitário. E há, pelo contrário, quem tenha vivido o ano velho com o espírito novo de militância interventiva nos mais diversos tablados da vida, entre os quais os que, por hoje, acabei de referenciar. Quero alistar-me neste segundo pelotão no combate por um verdadeiro NOVO ANO! 
Aguardo pelo 31 de Dezembro de 2015 para julgar se o cumpri.  

31Dez.2014/1.Jan.2015 
Martins Júnior