sábado, 13 de junho de 2015

VARIAÇÕES SOBRE O “SANTO ANTÓNIO POPULAR”

E viva a festa!...
A marcha é liiiinnnnnda!...
Olha o balão! Venha mais  cor e mais tambor, soltem balões ou balonas, seja pelo Santo António, seja pelo São João, seja pelo São Pedro! O que interessa é que haja marcha, sardinha assada, sangria caseira, pão de trigo da terra. E vozes, muitas vozes, afinadas, esganiçadas, soltadas dos pulmões e dos corpetes das folclóricas raparigas, desfraldando a liberdade na grande avenida em Lisboa, ou nas ruelas do santo na Madeira e em todos os santantoninhos que há no mundo português. E se não for pelo santinho, que seja por Vénus, Júpiter e Baco, pelo brinquinho ou pela massaroca. O que importa é unir o povo, novos e velhos, moçoilas e rapagões, exorcizando com o missal de rua e por um dia, ao menos,  os pesadelos forrados na pele, as depressões que saem das grades sem pulseira nem polícia.
É o mês dos santos populares. Vibro e salto para a marcha,  saúdo toda essa euforia sem preço de que tanto precisamos. Mas soa-me sempre ao ouvido “esta frase batida”: Populares estes santinhos, porquê? E como? Quem abriu a cabeça ao povo para meter-lhe tanta simpatia, tanta popularidade a 1.000% pelos santinhos de junho?
E aqui volto atrás, sento-me, rebobino o filme e já não me apetece apanhar os marchantes sem responder-me a essas perguntas. Ah, é o Santo António, o que tem o GPS para encontrar os perdidos e achados, o engraçadinho de menino ao colo, o caçador dos namoricos furtivos, o santo casamenteiro… E agora é que não me dá mesmo nada alinhar nessa alienação das massas, à conta do santo. Nem do São João nem do São Pedro, que nada têm a ver com foguetes e balões. Mas então, a popularidade trimilenária  dos “festeiros”?
Falando claro, confrange-me topar e tocar o vazio de mentalidades avulsas que nada sabem dos homenageados da noite. António de Lisboa, o sábio do pensamento, não apenas bíblico, o mestre das humanidades, o acérrimo “opositor aos usurários, à prisão por dívidas, o defensor do proletariado” (leio no devocionário litúrgico que uso há mais de 50 anos)., E ainda: o inigualável cultor da eloquência do verbo, quer em Lisboa, quer em França, quer em Pádua.  Bem  lhe acertou o nome, cinco séculos mais tarde, ao “Príncipe da Língua Portuguesa”, o Padre António Vieira que,  tal como este, teve de abandonar a sua pátria para dar testemunho da Palavra no estrangeiro, mais precisamente em Itália. Volta, António de Lisboa, vem bradar aos usurários do século XXI, do FMI, do BCE e outros que tais, contra a sofreguidão dos magnatas desta “economia que mata” os povos do sul, os de aquém e além-mar!
Que sabem disto os ingénuos e sinceros foliões das marchas? Que entendem por António de Lisboa ou de Pádua os devotos de “círio de altura” na mão, tamanho mínimo comparado com a monstruosa pantominice que os pregadores lhes ditam do alto dos púlpitos neste dia, engrolando lendas milagreiras para tapar a portentosa fisionomia do grande protótipo da Sabedoria e da Coerência?!
Mas então deve riscar o preâmbulo-supra --- dir-me-eis vós. Eu digo que não. Continuem a folgar, não desistam de gatinhar versos como demónio, toca o harmónio, viva o pandemónio, tudo fixe desde que rimem com Santo António.
Mas… eu não esqueço a cantiga que o Estado Novo nos obrigava a decorar na escola : ”Lá vamos cantando e rindo, levados, levados sim…”, a que os parodiantes do teatro de revista acrescentavam “lá vamos pagando e rindo”. Ai, a força e a convicção com que nós, pobres crianças cantávamos, sem saber,  a própria sentença de condenados à miséria! Não esqueço a (melhor  desqualificativo não acho) “safada” exploração da mentalidade popular quando, antes do 25 de Abril, o fascismo incentivava o povo a construir  palhaços no 1º de Maio, o “saltar à laje”, para encobrir aos portugueses a gloriosa e dolorosa luta dos trabalhadores pelos seus direitos.
MORAL DA HISTÓRIA: haja festa e diversão, a pretexto dos Santos Populares, mas não se perca de vista a sua essência, a histórica estatura humana, intelectual e operacional dos Homenageados.
Termino, em “Post-Scriptum”, cedendo lugar à lenda transformada em poética beleza de Augusto Gil no  seu tão pitoresco e bucólico Passeio de Santo António, que o meu amigo Alexandre tão bem sabe recitar, como ontem o fez em Sesimbra e aqui, em Machico, nos nossos saraus de outrora:

13.Junho.2015
Martins Júnior

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PASSEIO DE SANTO ANTÓNIO

Saíra Santo António do convento,
A dar o seu passeio costumado
E a decorar, num tom rezado e lento,
Um cândido sermão sobre o pecado.
.
Andando, andando sempre, repetia
O divino sermão piedoso e brando,
E nem notou que a tarde esmorecia,
Que vinha a noite plácida baixando…

E andando, andando, viu-se num outeiro,
Com árvores e casas espalhadas,
Que ficava distante do mosteiro
Uma légua das fartas, das puxadas.

Surpreendido por se ver tão longe,
E fraco por haver andado tanto,
Sentou-se a descansar o bom do monge,
Com a resignação de quem é santo…
.
O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
O Menino Jesus baixou do céu,
Pôs-se a brincar com o capuz do frade.
.
Perto, uma bica de água murmurante
Juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.
.
De braço dado, para a fonte, vinha
Um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
Ele trazia… o coração no peito.
.
Sem suspeitarem de que alguém os visse,
Trocaram beijos ao luar tranquilo.
O Menino, porém, ouviu e disse:
- Ó Frei António, o que foi aquilo?…
.
O Santo, erguendo a manga de burel
Para tapar o noivo e a namorada,
Mentiu numa voz doce como o mel:
- Não sei o que fosse. Eu cá não ouvi nada…

Uma risada límpida, sonora,
Vibrou em notas de oiro no caminho.
- Ouviste, Frei António? Ouviste agora?
- Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho.
.
- Tu não estás com a cabeça boa…
Um passarinho a cantar assim!…
E o pobre Santo António de Lisboa
Calou-se embaraçado, mas por fim,

Corado como as vestes dos cardeais,
Achou esta saída redentora:
- Se o Menino Jesus pergunta mais,
… Queixo-me à sua mãe, Nossa Senhora!

Voltando-lhe a carinha contra a luz
E contra aquele amor sem casamento,
Pegou-lhe ao colo e acrescentou: - Jesus,
São horas…
........................E abalaram pró convento.


Augusto Gil

quinta-feira, 11 de junho de 2015

DIA DE PORTUGAL QUE NÃO FOI DOS PORTUGUESES

As solenes datas oficiais são como estátuas jacentes. “Estão prá  ali!”, dizem os transeuntes: insensíveis, mudas, olheiras sem brilho, quanto mais vetustas e lodosas melhor. Na sua base poderia escrever-se: “Aqui jaz 1385…Aqui jaz 1640…Aqui jaz o 10 de junho de 1580”… De vez em quanto servem  para pombos e gaivotas ali montarem o seu trono real e delas fazer o que Maomé não fez ao toucinho.
Foi assim o glorioso Dia de Portugal. Em Lamego, no Funchal e outros lugarejos. Muitos turistas estrangeiros e poucos madeirenses, informava em directo o locutor de serviço. Um Portugal mudo, amarrado ao mastro, tão lodoso e incerto, por onde filhos seus vão escorregando num limbo de mágoas curtidas cá dentro, os jovens lá fora, os velhos encostados a um canto, perguntando aos dedos se a mísera reforma chega para pagar à farmácia. Sem ganas nem forças de cantar o “Esplendor” de outrora.
No entanto --- para ironia amarga e para revolta latente --- o Portugal empalidecido  veste-se de gala, farda e gravata, clarim metálico descido à terra e marcha contra canhões. Porque fazem do povo carne de canhão, o povo foge e deixa-os, como gaivotas de arribação, no palanque do Fala-Só, piando charadas e berlengas sem tradução para o povo. Por isso, o povo deserta, porque esse ´não é o seu Dia, é a Hora deles, dos amos e comensais. Então, “O Inteligente” (estou a lembrar-me de Fernando Tordo e Ary dos Santos) completa a farsa, entaramelando umas coisas como esperança e optimismo mas com uma máscara tal de mini-adamastor que mais parecia o semeador de maus agoiros.
Depois veio  o desenterro das cruzes e das medalhas,  com cheiro a naftalina. A poucos meses de deixar a casa de 10 anos, o inquilino teve de esvaziar o baú dos tesourinhos que ficaram e até foi buscar o último retalho ao fundo do guarda-fato de D. Maria  para  dá-lo ao estilista da primeira-dama. Poderia inventar mais um ou dois para oferecer ao “menino” Jesus, ganhador  do campeonato,  e ao roupeiro do Gil Vicente que tanto suou e desceu de divisão…
Com o devido respeito para o mérito de quem as aceitou, manda a experiência desvendar o que pretende o generoso doador:  à cabeça de todo este aparato cerimonioso está o puro  exibicionismo do juiz supremo e supremo benfeitor das lapelas ilustres. É também o cinismo estratégico de quem quer dar a terceiros a bofetada de luva negra com a mesma mão que enlaça o cordão ao pescoço do medalhado. E aqui na ilha das rosas, os caloiros governantes não fazem por menos no 1 de Julho, a Hora deles, que não o Dia dos madeirenses.
Poder-me-ão censurar o estilo verrinoso deste escrito. Mas outra coisa não faço senão traduzir em palavras o desprezo e o repúdio do povo por ver-se manipulado por aqueles que montam em cima da pátria para espalhar perdigotos político-partidários a favor de uns, num dia que deveria ser de todos. E ainda por cima, sem direito ao contraditório.
Nada mais ofensivo  que as condecorações, sobretudo quando o anfitrião pretende limpar a cara com que  enxovalhou, cuspiu, retalhou aquele que  hipocritamente vem agora homenagear. Bem fizeram Zeca Afonso, Herberto Helder e outros heróis que se recusaram a tão degradante humilhação!  
Faço aqui o meu registo de interesses, para justificar-me de não ter feito o mesmo, quando o então Presidente da República, Dr. Mário Soares (já lá vão 21 anos) me concedeu comenda em 10 de junho, na cidade do Porto. Recebi-a, não como o falacioso golpe de misericórdia em fim de linha, mas no aceso da luta contra a bárbara ditadura político-financeira que a governação regional moveu  ao Município de Machico, então sob a minha presidência. Os lutadores querem apoio é no campo e na hora da luta.
A propósito de condecorações e sem referir-me aos galardoados (estaria eu no mesmo saco), apraz-me terminar com aquele rasgo de eloquência do sermão do  Padre António Vieira na Capela Real de Santo António de Lisboa perante o Rei e os brasonados da corte: “Antigamente eram os ladrões que pendiam do alto das cruzes. Hoje, são as cruzes que pendem do peito dos ladrões”.
Foi a guia-de-marcha  para o exílio no Nordeste Brasileiro!
Mas a ironia ficou. E o “antecipado grito do Ipiranga”  no coração do Império!
Queremos um Dia de Portugal, mas que seja o Dia do Povo --- nos parlamentos, nas praças públicas,, nos tribunais, no conselho de ministros, nas empresas, nos hospitais. Todos os dias, Dia de Portugal!

11.Jun.2015

Martins Júnior

terça-feira, 9 de junho de 2015

DESPORTO-REI E DESPORTO-ESCRAVO


Na estação das cerejas  surgem, aos punhados,  factos e pessoas e coisas que povoam e quase rebentam as rotativas dos jornais e os rectângulos do audio-visual. Deixo no congelador  todos os outros temas e ocupo hoje este espaço (porque sempre me tem ocupado e preocupado) sobre o mais rasteiro e mais poderoso rectângulo que tem dominado a opinião pública: o futebol. Longe estava do meu pensamento gastar um pingo de tinta com as botas do relvado. Mas os casos do cochicho quotidiano têm atingido proporções tais que não podemos ver deixar passar um monstro à nossa frente como se fora um “mosquito nas Desertas”.
         Não me restam dúvidas de que o desporto-rei criou o desporto-escravo. Tornou-se a mitológica Hidra de sete cabeças cujos tentáculos se deixam ver na sua virulenta fealdade quando atinge as cúpulas supremas da sua arquitectura. Ainda o mundo está transido de espanto e nojo perante esse covil de gente emproada por fora e podre por dentro, os corruptos das altas esferas da FIFA, como atempadamente denunciou o nosso Luís Figo.
“O Ronaldo foi vendido por tais milhões, o Sulemani vai ser comprado por outros mais ou menos milhões, o Nani vai para o mercado por tantos”  e, por fim,  (ai jesus!) o Jesus troca de cor por mais um milhão e meio de luvas ou sei lá o que seja, tal como os Mourinhos e os Vilas Boas mudam de pátria. O amor à camisola, o patriotismo clubista, os murros da honra na cara do adversário! Tudo lérias, tudo fumaça. “Cacau” é o que marca ou, parafraseando o humor de Francisco Louça sobre o antigo  rali afro-asiático: “País, dá cá”. A amigos meus, quando os oiço discutir à brava pelo seu contra o outro clube, também entro ao barulho e limito-me a dizer:”Vocês estão aí a esgaçar-se, sem nada lucrar. Os que estão em campo e a ganhar milhões são os que menos amor têm à camisola. Mais uns trocos e mudam de camisola mais depressa do que vocês mudam de camisa”. E lá vem o sacratíssimo caso do benfiquíssimo Jesus!  Mesmo que a moeda de câmbio sejam biliões, não deixa de ferir os ouvidos  de quem tenha um mínimo de sensibilidade: “O homem vai ser vendido, o sujeito vai ser comprado”, como se ouvia antigamente no mercado negro dos escravos. Terminologia degradante.
E as fortunas em numerários e em tempos com que nos massacram os media, sobretudo as TV’s, com esses nauseabundos debates, mesas redondas, prolongamentos, dias seguintes, todos repetidamente sobre o pobre Jesus?! Mas o que me repugna sobremaneira é ver políticos, deputados, gente de responsabilidade na “respublica” sujeitar-se a esse vexame, a essa baixeza de discutir as arbitrariedades do apito, as rasteiradas, as caneladas em campo dos, para mim, novos gladiadores do circo moderno! Mais útil seria assentar os árbitros, os centrais, os pontas-de-lança para analisarem as injustiças, as votações parlamentares, os cortes e as agressões que os políticos fazem ao povo português…
         Finalmente --- finalmente, porque o pouco capital que perdi com isto já foi demais --- o “bezerro de ouro” cresce e empina-se como touro frente ao poder político.  Basta citar o que disse o brasileiro João Havelang,  antecessor de Jepp  Blater na FIFA, ao jornalista David Yallop   (Wuo They Stole The Game,1999): “Os Estados têm o seu poder e eu tenho o meu, mas o poder do futebol é o maior”. Para quê mais testemunhas?
Aproveito para relevar publicamente a atitude do anterior presidente da CM do Porto, Rui Rio (e estou longe das suas opções políticas) face à basófia e às megaloruaças  do chefe dos “dragões”.
Se é ponto de honra separar o poder governativo do poder dos negócios, não o será menos cortar com as corruptas alianças entre o poder político e o poder do futebol. Entre nós é o que se viu e o que se vê: os quadros superiores dos clubes da ilha são tomados por serventuários do regime: eles são ou foram deputados e/ou governantes (um deles afiançou que será presidente do governo em 2020…), todos muito bem servidos  neste que pode considerar-se “reino das Arábias”  por ter três clubes no escalão máximo  do futebol português.
Pelo vírus estrutural dos futebóis profissionais, pelo esbanjamento de capitais públicos e perante o arrepiante espectáculo da entrada e da saída das claques frenéticas nos recintos desportivos, escoltadas pela polícia de choque, mais parecendo as antigas hordas de selvagens arianos contra os bárbaros do sul europeu, permitam-me reproduzir aqui o desabafo que faço várias vezes aos meus amigos: Ligar o televisor para ver cenas destas sinto que é uma traição a mim mesmo, um erro, uma cedência, um pecado!
 Razão tinha   Sylvie Kauffmann  para, na edição de ontem de Le Monde, classificar este gigantesco labirinto anti-desportivo como um “psicodrama geopolítico”.

Maior que todo este libelo acusatório, deixo a minha mais entusiástica homenagem a todos quantos educam a infância e a juventude, não para a arena mercantilista vigente, mas para a  verdadeira cultura atlética, como era apanágio da civilização greco-romana, universal: “Anima sana in corpore sano” --- formar uma alma sã num corpo são.

9.Jun.2015
Martins Júnior

domingo, 7 de junho de 2015

ÀS CRIANÇAS QUE SÃO E ÀS CRIANÇAS QUE FORAM

No imenso anfiteatro multicolor em que se abre hoje a nossa ilha  ---  vistosas procissões, tipo paradas de realeza eclesiástica, fogos de artifício parisiense rasgando os céus do Funchal, ecos retumbantes de um passado quinhentista em Machico --- destaco, enterneço-me e faz-me vibrar as cordas da emoção e do pensamento vigilante um episódio tão singelo quanto avassalador que, à semelhança de outras locais, tive a felicidade de viver por dentro: a Primeira Comunhão na Ribeira Seca.
É verdade que, por toda a parte, a festa de certos sacramentos (baptizados, crismas, casamentos) foram-se deixando resvalar para a ribalta do espectáculo de variedades  sociais. A Primeira Comunhão também não escapa a esta deriva tentadora.
Mas, descontada esta tendência já estandardizada, o dia de hoje é um livro aberto onde podem ler-se as múltiplas dimensões da sensibilidade doméstica, o carinho com que todos lá em casa se aprestam para brindar à pureza original daquele “pequeno-grande ser” que hoje é protagonista. É ver a azáfama no atavio do menino e da menina, um quase stress que mobiliza a casa inteira, desde o ramo de flores ao diploma decorado pelo próprio neo-comungante, a preparação dos cânticos à sua conta, a tuna dos pequeninos,  enfim, uma agitação buliçosa mas tão aliciante. Depois, a envolvente familiar, com pais, avós, tios, primos, o cordão de gerações que se entrelaçam no templo cheio de luz, no palco, no salão de convívio em que todos partilham do pão e dos bolos que trouxeram de casa.
Para mim (aceitem esta abertura de alma) ganha um sabor e um pendor particularmente tocantes o facto de estar diante de pais e mães que há cerca de vinte/trinta anos  eram exactamente crianças que comigo, neste mesmo templo,  fizeram a sua Primeira Comunhão. Quem diria que tal viesse a acontecer. É esta, pois, a grande (re)descoberta, ali “ao vivo”, de que a criança de hoje será infalivelmente o mundo de amanhã. Bem dizia Louis Pasteur; “Diante de uma criança sinto-me cheio de ternura por aquilo que ela é, mas cheio de respeito por aquilo que poderá vir a ser mais tarde”!
Outro batimento interno que preocupa quem prepara crianças para este dia: Que ideias vamos transmitir à criança?  Que ensinar? Sabendo que a alma da criança é comparável à tabuinha de cera mole que grava indelevelmente os caracteres que nela se inscrevem, os monitores/catequistas deverão ponderar seriamente que conteúdos vão imprimir nessa folha intacta, expectante. Quantas palavras ocas, fórmulas estereotipadas, inalcançáveis para a mentalidade infantil, quantos temores vãos, como esse imperdoável atrevimento de forçar a criança a confessar-se. Permitam-me (mesmo com risco de ficar desacompanhado nesta minha convicção)  compartilho convosco a oração do perdão que as crianças formularam diante de toda a assembleia presente: “Meu Deus, peço perdão a quem ofendi em casa, na escola ou na rua. Ajudai-me a não tornar a ofender. De hoje em diante, quero ser melhor”.
Nesta matéria da pedagogia e da didáctica, tenho sempre comigo aquele aviso que um dia li em Antero de Quental, “santo Antero”. como lhe chamava Eça de Queirós:  “Não há nada mais terrível que o olhar de uma criança”.  Na singeleza do seu olhar assoma, por vezes,  a profundeza de perguntas tais que nos desarmam as prateleiras cheias de pó onde comodamente arrumámos  as nossas ideias e preconceitos. Pagam-se caro o embuste e as falácias com que empapelamos as nossas respostas. É este um tema muito sério para quem ministra a educação religiosa das crianças. Por isso, aqui me despeço neste dia de intensa vivência comunitária.
E ofereço-vos as duas quadras, em forma de oração e compromisso, que as crianças da Ribeira Seca hoje proclamaram em alta voz:

                                   Na Primeira Comunhão
                                   Nós desejamos, Senhor,
                                   Que no mundo haja mais pão
                                   Mais respeito e mais amor


                                   Por isso agora prometo
                                   Para quando for maior
                                   Lutar pela Eucaristia
                                   Fazer o Mundo melhor

7.Jun.2015
Martins Júnior

sexta-feira, 5 de junho de 2015

UM MERCADO DE CINCO SÉCULOS “FEITO” PELAS MÃOS DO NOSSO TEMPO!

“Todos os anos, pela primavera” --- lá estou outra vez pegado com Luís Sttau Monteiro --- Machico regressa ao berço de antanho, envolto no pergaminhos régios do foral manuelino, alcandorando as luminárias do poder que passa, ridente e solene, sob o pálio segurado por menestréis e cortesãos. E lá vêm as condessas e as donzelas da corte, as respectivas aias de saias em redondel, enquanto as charamelas, os alaúdes e os tambores enchem as ruas e os corações. É bonito de se ver a capitania virgem do Império, a nobreza de outras eras, os torneios e os saraus nos salões do “Tristão das Damas”. Fiel à história, não podia o cortejo esconder os magros artesãos, o coro dos escravos, os homens livres e os homens bons. Todos os anos, pela primavera, Machico volta a ser “uma nação”, como de há décadas dizemos nós em terras de Tristão Vaz.
Deste espectáculo que já vai na sua 10ª edição, pode afirmar-se  aquele refrão que “é sempre antigo e sempre novo”. E por sê-lo, de sabor tão denso e tão inspirador, recolho-me, mesmo no meio da imensa multidão, recolho-me sim e sublinho algumas conclusões que ficam para além do rasto efémero dos três dias de festejos.
Em primeiro lugar, o valor estrutural desta iniciativa não fica a dever nada às cúpulas da ilha ou das ilhotas pardas ou bastardas. Nasceu da raiz mais pura e livre: a sua população, designadamente, a comunidade escolar. Carregada de um nobre sopro de portugalidade, a partir desde logo da sua criadora, a distinta Professora Raquel Esteves  que no-la trouxe do território continental  e enriquecida com o profissionalismo do VIV’ARTE, a iniciativa ganhou seiva e fruto na força telúrica da juventude de Machico, com a  eficiente colaboração da autarquia.  E com tal pujança que a todos arrastou no cortejo e na praça de mercar os manjares cozidos e temperados pela criatividade dos nossos ancestrais. Embora a baixa de Machico fervilhe, a mais não poder, de gente de fora nestes três folgados dias, a sua grande  e  indissociável matriz está na comunidade local,  como protagonista integral do “Mercado Quinhentista”, com professores e alunos logo à cabeça. Num teatrinho de aldeia em que os “Donos Disto Tudo” transformaram e açambarcaram a ilha e a sua respiração, é meu prazer relevar o carácter autóctone da iniciativa e é meu dever pedir a quem a dirige a coragem e o bom senso de, sem prejuízo dos mais amplos apoios, nunca  deixarem que os habituais manipuladores do poder ou do dinheiro tomem o cadastro de tão rico caudal de cultura e património.
Outro índice que me  fica deste imenso Livro de História, ao vivo, é a trajectória que a Primeira Capitania da Madeira tomou ou foi obrigada a rumar neste cinco quase seis séculos de vivências legadas de pai para filho. O rochoso dinossauro que descansa a cabeça no cais do Desembarcadouro e os altos promontórios da Ribeira Seca e dos Maroços interpelam-me e interpelam-nos a todos, como que a perguntar: “Que fizestes do brilho deste que foi o Pórtico das Descobertas?... Onde paira a estirpe dos que desbravaram as terras e firmaram a nobreza deste Povo?... Que é feito deste mar, onde o sol nasce primeiro?...
Suspendo esta  auto-inquirição,  porque dói-me ver, de há alguns anos a esta parte, empalidecer o “esplendor” desta “nação” que é Machico. Porque daí surge um outro interrogatório: “E tu, sim,  que fizeste tu para reerguer esse esplendor? Conforta-me recordar Álvares de Nóbrega, intrépido defensor dos ideais da Liberdade, Igualde e Fraternidade. Consola-me a memória dos resistentes de Machico na luta entre absolutistas e liberais, na Revolta da Madeira, na “Revolução do Leite”, na Revolução dos Cravos, numa palavra, contra a subserviência, que lhes fora imposta.
Foi enternecedor ver os novos inquilinos do Palácio,  distribuindo abraços e beijos tão dourados e importados como a areia da praia amarela e, armados em novos descobridores, desafiarem os comparsas: “Agora digam que Machico não é uma nação!” Só agora! Não muito longe vai o tempo em que vituperavam a sete línguas que “Machico é terceiro mundo”,  a que um mais raquítico secretário acrescentava: “Isto é o quarto mundo”. Eles, quero dizer estes, também estavam lá,  sentados à mesa do Orçamento, mas ninguém os viu defender aquela que agora chamam “nação”. É urgente chamar a contas quem tanto fez sofrer  o  Povo de Machico. É chegado agora o tempo da reparação. É isto que espero ver  daqui a um ano no próximo “Mercado Quinhentista”.
 “Quidquid recipitur ad modum recipientes recipitur”.           Perdoem-me esta escorregadela para a “minha” tão gostosa língua de Cícero. Mas traduzo: “Tudo aquilo que é recebido toma a forma do recipiente”, ou seja, cada qual interpreta a mensagem segundo a sua sensibilidade.  Para mim, é este invisível sumo alimentício --- e muito mais --- que me fica do belo tríduo patriótico chamado “Mercado Quinhentista”, prestando em troca o meu reconhecimento pelo ingente esforço dos seus mentores e figurantes.
Termino, na mesma linha de responsável optimismo, retomando a palavra de ordem com que a Comissão Executiva, de que fiz parte,  encimou na década de 1980  as comemorações da Descoberta:  “NA ROSA DOS VENTOS, MACHICO À PROA!”

5.Jun.2015

Martins Júnior

quarta-feira, 3 de junho de 2015

VISITAS DE COSTAS VOLTADAS

 

PPC=AJJ


Será a primeira vez e oxalá fosse a última em que vou abrir  este ferrolho “ímpar” com a chave mais ferrugenta e prosaica que guardei de uma peça de teatro da juventude em que o  protagonista bonacheirão comentava os tiques e os toques cosméticos de certa “dama de pé de cabra” com esta tirada prenhe de corrosiva ironia: “A limpeza em demasia já chega a ser porcaria”-
Falo da gentil visita que o Primeiro-Ministro se dignou fazer ao novo inquilino da Quinta Vigia. Uma gentileza camuflada  que mais cheirava a grosseria. E desprezo pelos madeirenses, O senhor não veio visitar os ilhéus, porque há anos que está no “trono do império” e soube lá sequer se havia gente nesta ilha!... Faz lembrar os três primeiros bispos do Funchal que nunca puseram pés na Madeira. Mas agora veio, porque a amizade epidérmica dos “jotinhas”  é coisa que não se deita a coelho bravo nem à gata borralheira. O velho jotinha PSD/Lisboa veio abraçar o seu contemporâneo  “jotinha  PSD/M”, nados e criados na mesma ninhada. Os madeirenses de gema deviam repudiar esta política suja do “amiguismo” que tem corrompido com uma impunidade descarada a vida deste país. Dava-se mal com AJJ e amuou, bateu com os pés nos terraços de São Bento e disse: ”Não vou lá”. E, como é já seu calejado calão, jurou ás beneditinas paredes: ”Que se lixem…que se lixem os madeirenses”! Mas agora veio. Porque já cá estava o seu parceiro da barra, apertadinho num marialvismo tão sopeiro como o sopeirismo vilão do antigo inquilino. Aliás, o “nosso primeiro” mais não fez que imitar o “outro primeiro” que nunca pôs os pés no Dia do Concelho de Machico enquanto foi presidente o subscritor destas linhas. PPC=AJJ! Quando a política é feita dos humores ou das trombas  dos seus actores, entrou-se no compadrio e na corrupção. Os madeirenses não tiveram culpa das diatribes entre o de lá e o de cá. Ao menos, por isto esta visita torna-se “non grata”, o mesmo que politicamente degradante.
Depois, o senhor vem no fim da linha. É curioso! Nunca a cova esteve tão perto do berço. Por outras palavras, nunca o princípio e o fim estiveram tão próximos.  O que, tudo espremido, resulta que  ele veio em busca dos chouriços perdidos por cá. Anda aí uma agência de aviões low-cost  numa campanha, espécie de  escapadela infantil, estilo peddy-paper urbano, a que deu o nome de “caça ao voo”. Intercalem a consoante “t” entre as duas vogais e logo verão os madeirenses o que veio fazer  o senhor cadente de lá  junto do caloiro governante de cá. É o meu segundo motivo de repúdio.
Finalmente, o homem veio prometer tanto tanto como os “cofres” que lá tem “cheios” do suor, da fome e das lágrimas dos portugueses, as nossas também. Mas quem, com um mínimo de respeitabilidade e memória, dará crédito a quem teve o seu mandato nascido de vísceras falseadas, caluniosas, intragáveis. Alguém já esqueceu, porventura, as auspiciosas promessas feitas há quatro anos na época da caça ao voto? Mas agora as promessas são ainda mais cínicas, maquiavélicas. Tem ele a certeza que será o próprio que as vai cumprir?  Será que  o povo vai cair na mesma esparrela de o eleger? É muito fácil prometer para outro cumprir. O último a sair que apague a luz. Mesmo que os madeirenses fiquem às escuras. Promessas e quimeras  levá-las-ão os ventos de outono.
Por estas e outras evidências, confrange-me ver franjas da nossa terra, amolecidas e babadas, perante uma visita de última hora que, desde há quatro anos e daqui para a frente, outra coisa não é senão o mesmo virar de costas. Mesmo que venha nadar nas tendinhas - laranja do Chão da Lagoa.

3.Jun.2015

Martins Júnior

segunda-feira, 1 de junho de 2015

DE 19 ANOS --- UMA MULHER DE ARMAS!


Pegou moda o “Je suis Charlie”, mas por mim dispenso-o e não me sai crânio e dos nervos, sobretudo de 30 para 31 de maio, um outro refrão, bem mais alto e interminável: “Je suis d’Arc”. Porque ainda pairam no ar que respiramos as labaredas de há 584 anos, nessa lúgubre noite de Rouen quando amarraram a uma pilha de lenha aquela rapariga de 19 anos de idade, enquanto em redor  padres da Inquisição rezavam ofícios por sua alma. Ela era, ela é e sempre será viva e incandescente para a memória sem termo: Joana d’Arc.
Dia grande em França para comemorar a sua patrona, a reconquistadora da soberania francesa contra as investidas açambarcadoras da  Inglaterra na conhecida  “Guerra dos Cem Anos”. Dia Grande para a França. Dia Memorável para a Humanidade: uma jovem camponesa, vendo a sua pátria e a sua família acossadas pelos ingleses, quando tudo parecia perdido, apresenta-se ao príncipe Carlos VII e faz-lhe um apelo veemente, tal como Moisés no antigo Egipto:  Deus manda-me libertar o meu Povo! Indeciso, depois descrente dela e ainda depois confiante na forma e no fundo do apelo rapariga de Orléans, entrega-lhe  espada, armadura  e o comando do exército francês nessa ingente campanha fatal. E ei-la que surge na vanguarda de milhares de homens contra as hostes inglesas, comandante valorosa, montada a cavalo, trajando armadura de guerreiro,  mais que o Mestre de Avis e mais que o nosso Condestável Álvares Pereira, escorraça os invasores britânicos e faz coroar o dito Carlos VII, solenemente, na catedral de Reims, como o único e verdadeiro Rei de França, em1429. Dois anos depois, é queimada viva  na praça do Vieux-Marché da cidade de Rouen.
Como foi possível consumar-se no corpo desta jovem de 19 anos a sina maldita a que são condenados os libertadores da pátria, da ciência, da cidadania e da dignidade humana?... E quem a condenou a tão atroz suplício?
A história, particularmente com a investigação do douto mestre Jules Michelet,  no-lo explica, bem como os 22.000 documentos arquivados na Biblioteca de Orléans. E sobriamente aqui se reproduz o trágico  testemunho: era o tempo da Inquisição e o bispo presidente do “Santo Tribunal” pertencia à nobreza dos de Borgonha aliados da coroa britânica. Foram estes que, por meio de uma cilada ignóbil, entregaram Jeanne d’Arc ao referido  bispo Cauchon, o qual, sob a falsa acusação de bruxa e visionária, lavra, com o prazer sádico da religiosidade, a pena máxima: a fogueira! Não se sabe se fazia lua nessa noite, mas pode bem imaginar-se o mesmo tétrico espectáculo do enforcamento do general Gomes Freire de Andrade em S. Julião da Barra, magistralmente plasmado na peça “Felizmente há luar”, do saudoso Sttau Monteiro. Mais eloquentes ainda  Artur Honegger e  Paul Claudel no imortal oratório “Jeanne d’Arc au bûcher” (Joana d’Arc na fogueira”)!
E depois, como reagiu a Hierarquia da Igreja, auto-cognominada de Cristo? Vinte anos mais tarde, o papa Calisto III mandou rever o processo, detectou a injustiça do mesmo e ordenou a reparação do crime perpetrado pelo facínora bispo Cauchon.  Mas… só 500 anos depois, Pio XII proclamou-a santa e padroeira de França, em 1920.  Cinco séculos para reparar tamanha crueldade!
Para quem ainda tenha dúvidas sobre o passado negro da Igreja Vaticana, em nada dissonante  do actual Estado Islâmico (matavam-se inocentes sob a farsa da religião) as 24 horas de 30 para 31 de maio de 1431 e os 500 anos para  repor  a justiça e a verdade dos factos, fazem-nos tremer! Razão tem o Papa Francisco para limpar a podridão hereditária da Cúria Romana e muitos dos seus serventuários bispos e cardeais, disseminados pelo planeta,  da raça de Cauchon (por aproximação fonética “cochon”, ou “porco”, em tradução portuguesa).
É dia de beijar as cinzas da jovem de Orléans  que os ventos da História trouxeram até nós, ao arquipélago que habitamos. A Joana d’Arc poderá com todo clamor atribuir-se-lhe a épica homenagem de uma sua ancestral figura bíblica,  Judit, que arriscou a vida para libertar a sua gente sitiada pelo general Holofernes: “Tu és a glória de Jerusalém. Tu és a honra do nosso Povo”!
Falei em homenagem a Joana d’Arc. Mas a maior homenagem é a convicção de um Povo, persistentemente  vigilante e interventivo,  para não permitir que se queimem em chama brava ou em lume brando aqueles e aquelas  que sonham e fazem um mundo melhor  onde todos possam respirar sem medo das fogueiras dos poderosos!
Termino com a transcrição do pensamento de Bertolt Brecht citado, tão oportunamente, pelo recém-criado semanário francês, Le 1: “Felizews os povos que não precisam de ter heróis”. Por mais paradoxal que pareça esta análise do grande dramaturgo, é nela que está o pulsar justo e harmónico do organismo social: cada um de nós terá de ser esse herói anónimo na correnteza dos dias felizes.

 31.Maio/1 de junho 2015
       Martins Júnior
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N.B. - A CEFISA-RS ( Comissão  da Ribeira Seca) editou um CD intitulado “A Igreja é do Povo/O Povo é de Deus”, de onde consta a síntese do que foi dito acima. Colocá-la-emos amanhã no facebook desta comunidade.