quinta-feira, 25 de junho de 2015

O QUE ME DISSE O CAMINHO DESCENDENTE DO “BARREIRO DA QUEIMADA”

Considerem,  se assim acharem, um passatempo esta minha digressão pedonal que começa  nos miradouros do alto da antiga Matur, Água de Pena, debruçados como varandas de sonho sobre o majestoso vale de Machico. Mas é da leveza do olhar que brota a profundeza do pensamento, como da paisagem singela emergem as mais ímpares  sensações.
Aproveitei o fim-de-tarde de ontem, após a comemoração do 479º  aniversário da freguesia de Água de Pena , para fazer a caminhada diária. Alcancei os miradouros e bem me apetecia ali ficar  perdido no vasto horizonte que abarcava a osmose perfeita entre o azulado e o lilás que definiam a silhueta das Ilhas Desertas e até do Porto Santo
Ali, onde o homem se sente o vértice da criação, o protótipo real do universo!  Ali, onde os nossos braços se abrem e parecem tocar as duas possantes muralhas do vale, ombro a ombro com os picos altaneiros. Lá ao fundo, o insignificante formigueiro dos telhados, dos carros-caixa de  fósforos e dos anões figurantes num rodopio de peões errantes.
Mas era preciso prosseguir viagem e fui descendo os carreiros ziguezaguantes  do velho “caminho do Rei” que há sessenta e setenta anos trepávamos em fuga  para jogar à bola no “Barreiro da Queimada”,  o local onde mais tarde viria a nascer a grande Complexo Turístico da Matur  Grão-Pará.  Para descer,  levei o triplo do tempo que nós, miúdos da escola, levávamos a subir, nessa época.
Mas  era  outro o olhar. Em cada passo, em cada curva , a ordem era “parar” e ver   que as coisas-perto, afinal,  tornavam-se longe e as coisas-longe faziam-se  perto. Após meia dúzia de voltinhas, estaquei e vi que os altos montes já não os abraçava, como no varandim do miradouro, e o breu da via-rápida , lá em baixo, era mais que um risco a tinta-da-china, Vi que o mar já não era distante, tinha subido de nível e o ar já prenunciava o afago da maresia do “calhau”.  Aí entrou em mim o espírito sadino de Sebastião da Gama quando escreveu: “O poeta em tudo se demora”.
Chegado ao sopé do promontório da Queimada, dei a última passada no “caminho do Rei” e já estava eu possuído pelo vaivém das viaturas rolantes, cuidado com as passadeiras alvi-negras, as  casas franqueavam largamente  as portas aos residentes, as saudações dos transeuntes tomavam conta das emoções, os restaurantes semi-iluminados traziam o tilintar da hora de jantar. E, no meio desta mini-arena do comum quotidiano, como lembrar-me  das montanhas?  Onde  estava o sortilégio da paisagem?  Para onde fugira a ampla e reconfortante respiração de quem “em tudo se demora”?... Afinal, a vida era esta, não a outra. Afinal, toda a poesia  se tinha alterado, senão mesmo desmoronado.
Tanto tempo, página e meia, para chegar à mais conclusiva evidência: o mundo, a vida, aquilo a que chamamos realidade, depende tudo do local onde nos posicionamos para podermos observá-lo. Consoante o chão onde colocamos o tripé da nossa objectiva, daí surge a nossa visão do mundo, das pessoas, dos acontecimentos. Daí se estrutura a nossa filosofia de vida, a visão sociológica captada pelo particularismo da situação que escolhemos ou fomos forçados a ocupar. E daí, também,  as contradições, os interesses conflituantes.
Isto, que não passa de uma verdade à Lapalisse,  bateu-me em cheio quando abri o El Mundo e deparo-me com uma bonita jovem jornalista do mesmo periódico,  cabeça envolta na característica mantilha, logo em 1º página: “Por que razão me questionam por ter abraçado esta fé?  O Islão não é o véu nem o Estado Islâmico nem nenhum terrorismo”. Onde assentou Amanda Figueras a sua objectiva  serena e convictamente contraditar a amostragem que todos dias nos aparece em casa nos écrans tintos de sangue?
Alguém viu, uma noite destas,  o arrepiante documentário sobre a indústria de curtumes no Bangladesh?  O realizador prevenia, lodo à entrada: “É para nós, europeus, vermos quanto sofrem os nativos para termos mais barato o calçado, as malas, os casacos”!  Rios contaminados, homens, mulheres e crianças enfiando pelos nossos olhos dentro o raquitismo e a imundície de vidas tão efémeras. Gente como nós.   De um lado, o preço barato, o lucro do empresário.  Do outro, a degradação humana. Onde colocaremos  as pupilas do nosso olhar?
Entremos num  arsenal de  armamento de guerra. De um lado, a produção de “riqueza”, milhares de postos de trabalho,  técnicos, criativos. Do outro, a destruição, o genocídio. Quem decide?  Em que ponto enviesado da encosta  estará o nosso observatório?
Aquela casa, comprimida num apartamento da cidade ou perdida na aldeia velha, alberga um casal, recebido segundo  o sagrado rito da Santa Madre Igreja, ajuramentado com o signo da fidelidade e da unidade  “até que a   morte os separe”.. Mas naquelas quatro paredes é a violência que impera e destrói mulher, marido, filhos, móveis, etc.. Que fazer? Que aconselhar? Onde colocar o microscópio? Na fidelidade mutuamente bombardeada, na unidade arrasada ou nos filhos, vítimas inocentes, afim de possibilitar a  separação entre os cônjuges?  O Papa Francisco pronunciou-se, há bem pouco tempo, pela segunda alternativa.
Seria um nunca mais acabar. O grande J:Cristo, que não sendo sociólogo “nem tinha biblioteca”, como nos informa o “Cântico Negro” de José Régio, prenunciou aos seus futuros mártires: “Há-de chegar um dia em que aqueles que vos matarem julgarão estar prestando um serviço a Deus”.
Com ou sem respostas às perguntas formuladas, é ponto assente que a sabedoria do julgador, como do eminente Salomão, consistirá em investigar qual o posto de observação garantidor da melhor equidade do juízo em causa. Peço aos pacientes topógrafos do nosso território  ensinem onde colocar o teodolito do meu olhar interior  para alcançar a tal visão holística do mundo, o mesmo que dizer da marcação menos incerta dos vários caminhos a percorrer nas encostas da vida.
Em que dão as voltinhas em ziguezague do velho “caminho do Rei” do “Barreiro da Queimada”

25.Jun.2015

Martins Júnior

terça-feira, 23 de junho de 2015

46 ANOS – O PROCESSO INACABADO II PARTE


Antes de completar  a razão de ter escolhido ontem a capicua “22”  para  meu  “Dia Ímpar”, devo confessar que não esperava tamanha receptividade àquela mensagem por parte de amigos e amigas  de dentro e de fora, inclusive do estrangeiro. É esse o objectivo nobre das redes comunicacionais: compartilharmos com os outros e, em troca, que os outros compartilhem connosco. E mesmo quanto às saudações endereçadas para mim, quero definir, sem sombra de modéstia, que elas só fazem sentido enquanto me assumo como sócio de uma colectividade, designadamente a Ribeira Seca.
Mas, precisamente neste particular, falta um esclarecimento essencial: “Porquê 46 anos? No mesmo lugar? E tanto tempo? Que interesses estarás tu a defender? Dinheiro? Poder? Palco? Orgulho? --- terão todo o direito a indagar, sejam os de fora, os de dentro, os estranhos, sejam os cépticos, os críticos.
Sei da veleidade e do ridículo que significa a quem quer que seja falar de si mesmo. Mas hoje impõe-se. Até para desvanecer dúvidas ou aleives de quem, ingenuamente ou malevolamente, pretenda equiparar o caso em apreço à sepulta longevidade de certos políticos fora-de-prazo.
Sintetizo este dever cívico em três item’s:
1º -  Porque sempre me repugnou a tremenda ambição de clérigos que, após a ordenação, renegaram a classe de onde vieram, passando de filhos de proletários a “príncipes da Igreja” e candidatos à passadeira vermelha dos que exploraram os seus próprios pais e avós.  Sempre  pertenci aos que habitaram os subterrâneos da opressão e da repressão e, como tal, achei indigno, em nome de uma vocação crística, ascender ao fastígio mundano dos hodiernos comparsas do assassinato do J:Cristo. Foi uma opção de vida. E mesmo quando me foi proposta a tribuna parlamentar, aceitei-a para puxar para cima os incontáveis “mineiros anónimos”, sofridos e amordaçados, com cujo estatuto   quero identificar-me até à morte. Dou graças por me terem enviado para o mesmo sub-mundo, onde a dureza dos trabalhadores do campo se cruza com a rudeza dos  trabalhadores do mar.

2º - E como toda a lógica tem seu rumo marcado, a militância também tem a sua inesgotável consequência. Era preciso escutar o bater da alma dos que, dobrados sobre a terra, eram os “sem-terra” e tendo ganas na garganta, eram os sem-voz no céu da boca. Pregava-se do alto dos púlpitos  o lucro no além-túmulo com a paciência e a resignação neste mundo. Mas --- sentindo subir dentro do peito a chama de Vinícius de Morais “Um dia, o operário disse: Não!” ---  também aqui o “NÂO” foi estremecedor. Ao ponto de se virarem contra a Ribeira Seca as cegas baionetas do Funchal e os torturantes chicotes do templo episcopal.  Alguns episódios breves dessa guerrilha institucional já ficaram na I PARTE editada ontem. Aprendemos então que a fraqueza dos pequenos é a força dos grandes. E quando os pequenos formam maioria invertem-se os factores. À ofensiva sem tréguas dos poderes inimigos (são mesmo inimigos da condição humana!) é preciso responder com a firmeza sem tréguas dos humilhados e ofendidos. Até que saiam derrotados e avisados a não repetir os mesmos ataques. Foi esta a história da Ribeira Seca! Aqui, a ditadura política e a inquisição eclesiástica fugiram, cobertas de vergonha sem retorno. Valeu a pena resistir. Como é possível permitir que a Verdade seja sempre esmagada pela mentira?... Por que razão só há mártires (vítimas) entre os que procuram a luz e não os há nos semeadores das trevas? Basta de vitórias “morais”, porque fictícias. Tem de haver vitórias efectivas da Verdade e do Bem! Regozijo-me de ter sido um soldado básico nesta luta. O Povo é que esteve na vanguarda. Sempre!

3º - Há mais de quarenta anos, prisioneiro (voluntário!) da periferia canónica, aguardo pacientemente aquilo que tantas vezes, por escrito e por palavra, formulei aos bispos madeirenses do pós-25 de Abril, com redobrada insistência ao actual titular da diocese: Que abra o processo de julgamento da minha suspensão “a divinis!!!” Não querem fazê-lo. Preferiram em surdina pedir ao governo regional para processar-me em tribunal, mas perderam, já em 2008. Tenho dito e redito: A Justiça de Deus (dando de barato que seja a justiça da Igreja) não pode ser menos perfeita que a justiça dos homens, isto é, respeitando o direito ao contraditório. Nunca fui ouvido nem achado em processo do foro eclesiástico. Abram o processo: se ganhar, ganhei; se perder, perdi. Tenho muito que contar… Se possível, antes de partir definitivamente para o Além. Santo Agostinho definia a Igreja-Instituição como casta meretrix”, prostituta casta, prostituta fina. É um Santo, Bispo e Doutor da Igreja, quem o disse, no século V. Que diria ele hoje desta Igreja-Instituição madeirense, contra-testemunho da liberdade e da transparência evangélicas?
Imagino que ressalta da mente de muita gente de boa-fé a matéria de acusação: “É porque foste político, deputado, presidente de Câmara”. Dêem-me licença que explique, primeiro, com um argumento ex absurdo: O Vigário Geral da Dioceses, meu professor no Seminário, Padre Dr. Agostinho Gonçalves Gomes, foi deputado à Assembleia Nacional pelo partido de Salazar, juntamente com o Dr. Agostinho Cardoso, presidente-delegado da União Nacional na Madeira. E não foi suspenso “a divinis”. E agora pergunto, como lho perguntei face a face: “Por que é o senhor padre pôde ser deputado pelo fascismo e eu não poderei sê-lo pela Democracia?”
         Segundo esclarecimento: eu só optei pelo serviço público na Assembleia Regional da Madeira, sempre como independente, depois que o bispo F. Santana me suspendeu, sem processo formado, repito. Mas, ainda que fosse esse o entendimento do julgador, já estou fora de toda a actividade política há oito anos, desde 2007. Quid juris ?...Agora questiono eu os doutores em cânones, os juristas.
Mas que overdose (desculpem o estrangeirismo) ofereci hoje a quem me endereçou parabéns! É verdade, mas 21-22-23 de junho perfazem para mim a tríade perfeita do meu “Dia Ímpar”. E posso garantir-vos que isto é apenas a ponta do véu que nunca me deixariam abrir na Madeira se não fosse a portentosa invenção das redes sociais. Fá-lo-ei um dia em formato mais alargado.
Para fechar, a minha incomensurável gratidão ao Povo da Ribeira Seca. Foi ele o obreiro destes 46 anos continuados. E, para mim, felicíssimos. Lembro-me de tantos colegas, eruditos e exemplares sacerdotes, perseguidos pela Igreja diocesana e, daí, malsinados pelo governo, que não aguentaram a tormenta. Vi-os partir e desistir, com grande mágoa minha. Não tiveram o Povo que eu tive.
Agradeço a todos os ilustres sacerdotes madeirenses que tiveram a nobilíssima ousadia de vir oficiar e falar à comunidade da Ribeira Seca. Entre outros: O saudoso humanista, meu professor de literatura, Pe. Alfredo Vieira de Freitas, o cientista botânico Pe. Manuel de Nóbrega, o poliglota Pe. Rafael Andrade e, mais perto de nós, os monumentais arautos do Evangelho,  Pe. Mário Tavares e José Luís Rodrigues. De Portugal Continental, o abraço desta comunidade para os teólogos Frei Bento Domingues e Pe. Prof.  Anselmo Borges, o presidente de Rede Europeia contra a Pobreza, Pe. Jardim Moreira, o missionário redentorista Pe. Henri Leboursicaud, o pregador Pe. Manuel Couto e o Prof. Pe. Armando Marques, estes dois últimos colegas de curso do actual bispo do Funchal.  Chamei de “nobilíssima” a sua ousadia, porque a Diocese ameaçava suspender “a divinis” todo e qualquer sacerdote que fosse à igreja da Ribeira Seca.
Para atenuar o cansaço dos que tiveram a paciência de acompanhar-me até ao fim desta II PARTE, reproduzo aquela primorosa saudação de um dos últimos sacerdotes, que acabei de citar, ao seu colega Carrilho: “António, vim à Madeira e não te pedi licença para falar ao Povo de Deus da igreja da Ribeira Seca”. E, apontando para o brasão episcopal desenhado em azulejo na parede exterior do Paço, rematou: “Vim aqui cumprir o que tens ali escrito: Caritas Christi urget nos. “A amor de  Cristo chama-nos, com urgência” (S. Paulo).
Reiterando o meu pedido de desculpa, cito a perífrase daquele amigo que escreveu ao outro uma longa, longa, longa carta: “Desculpa, porque não tive tempo de fazê-la mais curta”.
E garanto nunca mais voltar ao assunto neste “blog”, por muitos que venham a ser os “46 anos” do Ímpar Dia 22 de Junho.

23.Jun.2015

Martins Júnior

segunda-feira, 22 de junho de 2015

46 ANOS - I PARTE

     


      Ainda não havia o “Dia Ímpar” e este, sendo par, já lá estava de pé, à minha  espera. Cada um de nós tem sempre um  Dia Ímpar na curva da sua estrada.
         Era um domingo estival nascente,  9 da manhã, 22 de Junho, já lá vão 46 anos. O rapaz, trintão caloiro, nos olhos o viço da primavera em trânsito, na testa o sol do verão moçambicano que pouco antes deixara nas plainas africanas da guerra colonial. Desceu a estreita vereda que o levou, a ele e aos aldeões que o esperavam, ao templo-garagem incrustado no fundo do barranco alto. Ao iniciar a primeira celebração, depressa  conheceu a tez do sofrimento escrito no rosto daquela gente. Mais tarde seguiu as pisadas de “Eurico, O Presbítero”, subiu  ao miradouro serrano e de lá olhou o vale em redor:  estábulos de colmo onde habitavam os seus novos “fregueses”. Nem um caminho nem uma estrada. Água, só a das levadas. À noite, nem vivalma de uma lâmpada que exorcizasse a escuridão. De regresso a casa, caíu em si e caíram-se-lhe os braços sobre a mesa de pinho: “Afinal, vim de uma África para outra África”…
         Podia começar assim uma espécie de romance popular em prosa. E, tal como todos os romances, seria um nunca mais acabar.
Passemos aos factos.
         A Ribeira Seca era, ao tempo, um feudo de senhorios. Desde o fundo dos ribeiros até ao “poínho” da serra. Os camponeses, isolados no alcantilado dos montes, lavravam terras que não eram suas. Dividiam a meias com o olheiro-feitor do longínquo senhorio os frutos de uma canseira, de sol-a-sol. Deles, dos camponeses, só os filhos, a prole, a riqueza dos proletários. Sob uma aparente reverência, era o medo que lhes apertava o peito e os fazia curvar, de barrete na mão, à passagem dos senhores da vila.  
         Mas a revolta estava lá,  transfundida no sangue de pais e avós, tal como as grandes tempestades sub-oceânicas que depois rebentam à superfície. E foi o que se passou. Antes e, sobretudo, após o “25 de Abril” de 1974. Numa palavra, o Povo libertou-se.
         E aí começou a saga das suas vitórias, do tamanho e à medida das pancadas com que as pagou e continua a pagar: os atentados armados das forças governamentais contra a sua igreja, as retaliações contra o seu Povo, o ostracismo da Igreja Diocesana e o tratamento discriminatório de uma comunicação social, subreptícia ou claramente alinhada com os poderes reinantes. Mas continua de pé! “De pé firme e confiante, o caminho é p'ra diante”, assim continua a cantar-se na Ribeira Seca.

 *** Os velhos senhorios do regime fascista, massacradores implacáveis  de gerações e gerações  de “servos   da gleba”, caíram com a Revolução dos Cravos   

*** O ditador-mór da Madeira, que conspurcou  tantas e repetidas vezes o nome da Ribeira Seca e as suas gentes, também foi derrubado do trono ultra-autonómico.

***  O bispo F. Santana, que proibiu o fornecimento das hóstias da Eucaristia aos cristãos da Ribeira Seca, já está no “mundo da Verdade”, lá para onde todos caminhamos.

***  O bispo T. Faria que ordenou, em conluio com o governo, o assalto (hoje, diríamos, talibã) de 70 polícias à igreja da Ribeira Seca, também já foi desarmado do báculo e da   mitra pontificais, ficou-lhe para sempre a satânica blasfémia de   ter comparado a Jesus Cristo na cruz um pederasta, padre, seu secretário particular, condenado a 17 anos de cadeia e, depois, evadido da prisão.

***  O bispo A. Carrilho, que proibiu a entrada da Imagem Peregrina no adro e na igreja da Ribeira Seca, aí está para confirmar a subserviência da diocese ao poder político, aguardando o fim de mandato, já próximo, como inquilino do Paço Episcopal. Levará consigo no baú as muitas cartas que recebeu da comunidade da Ribeira Seca, sem nunca  ter respondido a nenhuma delas.

      Mas a Ribeira Seca continua a sua marcha : viva, livre, tranquila e feliz. Aquele templo e aquele recanto na periferia da cidade ali estão para atestar que a Instituição hierárquico-monárquica da Igreja não está com Cristo E que quanto mais longe estivermos da Instituição mais perto estaremos  d’Ele.
       Ribeira Seca existe para demonstrar que a “A IGREJA É DO POVO E O POVO É DE DEUS”, como canta no CD, cuja mensagem a comunicação social capciosamente escondeu, aquando dos 500 anos da diocese.
    Ribeira Seca permanece para demonstrar que os bispos de cá não têm fé no sacramento do Crisma, pois há 40 anos recusam-se a ir dá-lo a uma igreja do Povo cristão. Ali está para provar que na Madeira a Igreja deixou de ser sacramento da salvação: as pessoas já interiorizaram que não precisam do bispo para se salvar. Quem nos salva é Deus e a nossa consciência, eis o código da sua fé.
       Ribeira Seca permanece como aquela exemplar personagem do Journal d’un curé de campagne (“Diário de um pároco de aldeia”) de George Bernanos: “Nela, a bondosa senhora, reflectia-se, como que em contra-luz, toda a maldade do mundo à sua volta”.
     Ribeira Seca também  está ali para que o mundo saiba a fealdade e a tacanhez “islâmica” de uma Igreja egoísta, rancorosa, incorrigível na sua hipócrita  ilusão de poder, quando nomeia sucessivos párocos para aquela igreja e onde nunca puseram o pé. Ribeira Seca existe para que se veja a arrogância de quem, servindo-se do mito e do obscurantismo religioso, ainda chama seu um prédio para o qual em nada contribuiu e uma igreja que abandonou há mais de 40 anos, comportamento este previsto e punido pela lei humana do usucapião. O cônjuge que abandona a casa perder-lhe o direito.
    A Ribeira Seca existe para que um dia lhe seja feita Justiça. Para que a irresponsabilidade de uma Igreja diocesana, cobardemente engenlhada sob o guarda-chuva do poder, acorde para a vida e veja os prejuízos irreparáveis que deixou pelo caminho. Foram precisos 500 anos para que a Igreja fizesse justiça a Joana d’Arc e revogasse a sentença do bispo inquisitorial Cauchon (que a condenou à fogueira) e a reconhecesse como santa libertadora dos franceses e sua patrona oficial. Esperemos que não seja tão longa a ditadura eclesiástica.
         Mas a Ribeira Seca não tem apenas 46 anos. É tricentenária. Desde 1692, data da construção da velha ermida por Francisco Dias Franco, capitão-secretário do Município de Machico, desde então já talhava nos  socalcos e veredas o monumento da sua história. E antes, muito antes, Já nos primórdios da colonização, o italiano  Diogo da Nóia,  negociante do ramo da tinturaria,  enriquecia o tesouro do Rei com um terço do  pastel extraído dos muitos tintureiros ali existente,  produto precioso que exportava para o estrangeiro.
        Mas em toda a história   há um Antes e  Depois. Durante séculos, a Ribeira Seca viveu sob o Velho Testamento da escravidão. Há quase meio século, despertou para o Novo Testamento da Liberdade.
      Embora muito mais haja por abrir na cortina do Tempo, fico-me hoje por este relato breve de um Povo que abraçou os cravos da Vida e deles fez a bandeira que flutua no verde da paisagem e no rubro dos corações.
         Deixo para amanhã, os contornos pessoais destes 22 de Junho de 1969, respondendo directamente à pergunta em epígrafe: “46 anos --- Porquê?”

21-22.Jun.2015

Martins Júnior   

domingo, 21 de junho de 2015

22 DE JUNHO - DIA ÍMPAR



      Entre 21 e 23 de Junho de cada ano, o meu Dia Ímpar chama-se “22 de Junho”- Em sendo par e em sendo capicua --- duas vezes par --- volto a dizer que se tornou, por excelência, O Dia Ímpar.              Enquanto hoje faço vigília, amanhã tereis vós a solução. Leva por título:


“46 ANOS --- PORQUÊ ?”

sexta-feira, 19 de junho de 2015

MEIA VITÓRIA SILENCIOSA – FALTA A OUTRA MEIA


Deixando para trás algumas peças inacabadas desta minha folha dos dias intercalares, retomo a meada última, a propósito da tempestade com que o nosso governo “imberbe”  ia levianamente  varrendo a quietude da população da Ribeira Seca e da anónima maioria pensante de Machico. Ainda bem que as crianças do sítio não serão forçadas a abandonar as amplas salas de aulas que seus pais e avós conquistaram a pulso, desde há quatro décadas. Já não serão “emigrantes” na sua terra natal. Bastou o pequeno sopro advindo da meteorologia funchalense para que os pais e encarregados de educação se pusessem em campo e, assim, ficasse anulada a guia de marcha subscrita nos gabinetes executivos. Parabéns para as bases e para as cúpulas.
Sem menosprezo da problemática que a baixa natalidade implica na economia dos espaços escolares já construídos,  há um “enorme pormenor” a juntar aos argumentos que desaconselham as medidas preconizadas pelo governo. Refiro-me à matriz vocacional dos edifícios escolares. Uma escola não é um depósito indeterminado para onde se atiram quantas crianças ou jovens lá couberem. As paredes de uma escola são um corpo vivo: são cabeça, tronco e membros de uma comunidade. Lá se aprende a ler, contar e escrever. Mas muito mais do que isso. A escola tem uma refracção pedagógica e uma função sociológica inestimáveis, pois dela emana uma onda purificadora da atmosfera, construtora de mentalidades e laços intergeracionais, com saltitantes vozes infantis nos recreios, como pássaros a chilrear, cânticos e peças teatrais nos palcos, nas festas, enfim, tenras espigas de trigo louro emergindo da terra que habitam, para gáudio dos pais e primavera dos que vão tombando nos outonos da vida. Sempre que possível, não desenraízem as crianças do meio ecológico a que pertencem.
Um outro apêndice paira no ar e, ao que parece, com tendência para ficar: a alteração da nomenclatura da “Escola da Ribeira Seca”. Querem apagar o bilhete de identidade original para lhe dar o nome de um pai incógnito no sítio.  E pergunto-me o que sempre me interroguei nos idos anos da luta política (que não partidária): Que estranho instinto o destes governantes que os leva a fazer o que o eleitor não pediu e recusam-se a fazer o que ele exigiu? Quem é que pediu ao sr. governo para riscar à Escola da Ribeira Seca o nome da terra onde nasceu? Preguiçosa devoção de baptizar e rebaptizar! Ao menos, consultaram os munícipes ou seus legítimos procuradores para esse efeito? É o mínimo que fazem as autarquias para atribuir  nome  às  ruas, caminhos, becos e veredas, nos termos da lei. E se e quando a jurisdição das escolas passar para as Câmaras Municipais?... Novo baptismo, novas alcunhas? Mau gosto e mau senso!
Já aqui me debrucei sobre a paranóica generosidade do anterior governo em deixar aos defuntos secretários o testamento-epitáfio em escolas, centros de saúde, etc.. E também referi o foguetório de pouca dura que o fascismo mandou para o ar quando retirou a nomenclatura “Estádio dos Barreiros” para “Estádio Marcelo Caetano”. Actualmente seria interessante saber (e aqui vai o repto para algum subsecretário estagiário) quantas tabuletas andam por aí perdidas, embaciadas, caiadas, rebocadas,  em muros, entradas e saídas de hotéis, escolas, centros cívicos, supermercados, tavernas e até igrejas, com esta certidão de narrativa incompleta: ”Inaugurado por Sua Excelência o Senhor…” , nem é preciso dizê-lo? Um bom trabalho para o(s) historiador(es) do regime. Ridícula saloiice de parecer o DDT, o Dono Disto Tudo!  Estou a lembrar-me do satírico cultor dos versos alexandrinos, Guerra Junqueiro, na Velhice do Padre Eterno, referindo-se aos novos clérigos tonsurados com uma coroa a meio do couro cabeludo, dizia: “Já está assinalado com a marca industrial da casa: zero”.

Senhores, respeitem a pureza genesíaca da terra-mãe onde se levantam os laboratórios sociais e culturais ao serviço dos seus povos. E, mais uma vez: Façam o que o Povo exige e deixem-se de mexer naquilo que o Povo não vos pede.

19.Jun.2015

Martins Júnior

quarta-feira, 17 de junho de 2015

UMA ESCOLA VÍTIMA DO ANALFABETISMO HISTÓRICO

Não esperava uma tarde e uma noite de tanta levadia neste viçoso mês do São João. E, pela mesma razão, não esperava tão cedo apontar o dedo  a uma jovem que navega ainda na onda azul de uma lua-de-mel em fim de prazo. Mas o certo é que, perante o caudal de telefonemas e preocupações que me bateram à porta, sou obrigado a perguntar de que laranja mágica (leia-se, cabeça do noneto governamental) surgiu a peregrina ideia de colocar nas mãos do Senhor Secretário da Educação uma granada de mão que, se for desencavilhada,  vai  estilhaçar no próprio, ferindo muita gente à sua volta, muitas famílias da ilha, sobretudo  da  Ribeira Seca, algumas delas no estrangeiro, que em emotivas mensagens SMS recordam ainda o quanto lhes custou a luta por uma escola condigna.
Quero relevar, antes de tudo o mais, a gentileza do Senhor Secretário que, sem pedido prévio de audiência, me recebeu no seu gabinete e, ele próprio, inicialmente  surpreendido com a notícia que circulava de boca em boca, desvendou-me o enigma: “Não vamos fechar escola nenhuma em Machico nem na Ribeira Seca”. Mas acrescentou: “O que vamos proceder é a uma fusão de turmas, as que têm poucos alunos transitarão para a Escola do centro da cidade, em transporte assegurado pela Câmara Municipal, ficando sempre de pé a escola da Ribeira Seca como anexo”.
Não vou terçar armas, como outrora, numa refrega que compete genuinamente aos pais e à comunidade escolar. Mas, com o aditamento, o enigma transformou-se em anátema:  as crianças serão mesmo  “transladadas para a vila”,  embora não se sabendo ainda se do 1º, 2º, 3º ou 4º anos. Propus também que, na reunião agendada para 6ª feira próxima com pais e encarregados de educação, estivesse presente o Senhor Secretário, e não, como está previsto, as directoras e a Câmara Municipal que acabam por ser o elo mais fraco. Prometido ficou que viriam dois dos seus assessores.
Da minha parte, como animador socio-cultural e religioso desta comunidade e testemunha do quanto significou aquela construção,  limito-me civicamente  (e fi-lo presencialmente ao titular da pasta) a estes quatro considerandos:
I – A escola da Ribeira Seca tem uma população escolar estimada  em 80 alunos. Está inserida num vasto aglomerado populacional, o maior após o do núcleo central. Manda a boa estratégia que se confira a envolvente escolar da zona rural e suburbana e só depois  levantar-se-á a grande incógnita: Porquê a Ribeira Seca?
II – Embora se saiba que a vida não é feita só de memórias, mas a verdade é que aquela escola é um ícone, um monumento das gentes da Ribeira Seca e não só. Vem de 1978 a luta porfiada de pais, professoras e até de catequistas para libertar as crianças do pardieiro velho onde os alunos mais pareciam prisioneiros forçados na sua própria terra: as manobras, as dilações, as promessas adiadas,  as ameaças, as pancadas, os aleives que o governo regional publicamente vociferava contra este Povo, desejoso de cultura para os  seus filhos. Mas ninguém desistiu: greves às aulas, comunicados, manifestações, até culminar com a ida das crianças ao prédio da Junta Geral, onde estava e está hoje instalada a Secretaria da Educação.   Mas no fim cantaram Vitória:  começou a construção da nova escola. Tudo o que a Ribeira Seca conseguiu foi a peso duro e a um alto preço  de resistência. Aquela escola ficou como  um “santuário” da  luta de há quatro décadas. Não admira, pois, a emoção revoltosa das pessoas perante a notícia.
III – É verdade que governar é gerir a economia. Mas não, nunca o resvalar para o economicismo!  E aqui ninguém pode esconder o argumento, a-olho-nu, que as pessoas repetem: “Há dinheiro para uma escola privada, ali mesmo defronte, e só não há para a continuidade das escola pública da Ribeira Seca?!”. À consideração de Vossas Excelências.
IV – Em tempos de requalificação positiva e de reforço da “Autonomia regional face ao centralismo  do rectângulo”, como compreender e admitir a absorção da autonomia funcional de uma escola modelar na massificação do centralismo urbano?  Respeitem os corpos directivos da Escola e não os desqualifiquem como serventes despromovidos. Que direito e que ousadia malsã  será essa  de substituir por um nome qualquer o prestigioso nome de “Escola da Ribeira Seca”! Eu sou daquele tempo em que o fascismo substituiu o Estádio dos Barreiros por Estádio Marcelo Caetano. Mas  bem depressa o tempo se encarregou de restituir “o pai à criança”, voltando ao original Estádio dos Barreiros. Meus senhores, acabem com essas “lamechices”, deixem ficar o nome da Escola da Ribeira Seca e restituam o nome de “Machico” ou “Francisco Álvares de Nóbrega” à Escola Principal. Sejam coerentes com a cultura e a educação, isto é, com a verdade histórica e não com infantilismos ultrapassados.
         Muitos e mais inflamados considerandos andam na boca da população que esta noite não dorme descansada. Deixo à atenção do Senhor Secretário da Tutela este meu acervo argumentativo --- e faço-o publicamente --- porque já lho apresentei, em síntese,  na audiência que fez o favor de me conceder. E pela verticalidade que  lhe conheço, desde o tempo do seu propósito   demissionária de Director Regional do Desporto face à prepotência do seu antecessor,  aguardo e aguarda a população da Ribeira Seca a apurada sensibilidade e a melhor aquiescência às legítimas expectativas da comunidade.
E enquanto não chegar o dia de repor a serena racionalidade neste diferendo, deixo o refrão da “Escola Nova”, inserto no CD “A Igreja é do Povo, o Povo é de Deus”, originário da Ribeira Seca:
                            Viva a Escola Nova que se alevantou
                        Parabéns ao Povo que foi quem lutou
                        Uma Escola Nova dá-nos alegria
                        O Pão da Cultura é uma Eucaristia

17.Jun.2015

Martins Júnior

segunda-feira, 15 de junho de 2015

QUEM ACODE A QUEM ?---NUMA “III GUERRA MUNDIAL”

Uma notícia-relâmpago brilhou sobre o fundo-a-negro dos nossos televisores. Primeiro, surgiu inteira, depois a-meias, para finalmente desaparecer num ápice. Uma singularidade que muito me surpreendeu, tendo em conta a monótona e incómoda repetição de certas banalidades noticiosas.
E lá vai o anúncio: “Portugal é o segundo país do mundo com maior percentagem de acolhimento de imigrantes e respectiva integração no meio, logo a seguir à Grécia, que ocupa o primeiro lugar”. No noticiário seguinte, figurou apenas a primeira parte da boa nova: “Portugal é o segundo país  no muindo”… No terceiro noticiário, esfumou-se de vez.
Gostaria de propor aos meus acompanhantes do “dia ímpar” a sua interpretação do texto, tal como hoje aconteceu nos exames a Português sobre outras questões de literatura. Sem mais delongas, a minha interpretação segue, também em três tempos. O primeiro serviria para o governo coligado embandeirar em “V”, mais uma estrondosa vitória contra os detractores do regime: “Nós é que somos os humanistas, os xenófilos, os benfeitores dos desgraçados. Chega-te à frente, Paulinho, ou o teu sucessor, o do Machete, e botem foguetes”.  Mas, logo logo,  vem o segundo tempo: “A seguir à Grécia?...Cruzes, abrenuncio! Compararmo-nos à piolhosa Grécia, isso é que não. Risca lá isso, da Grécia, risca tudo. Ponto final”.
O meu terceiro tempo interpretativo prende-se com o trágico espectáculo das migrações forçadas, quer pela guerra, quer pela fome. Actualmente, são cerca de 50 milhões os refugiados no mundo que habitamos. Mais que na II Guerra Mundial. Razão tem o timoneiro da Barca Apostólica para alertar os Estados face à iminência de uma III Guerra a nível planetário. Com este triste sudário de foragidos, não estaremos já na soturna consumação  de um genocídio silencioso?... E quem acode às vítimas inocentes, gente como nós, com o mesmo pulsar de coração e o mesmo direito â vida? Quem?... Os poderosos, os detentores da riqueza mundial?...Os anjos malditos “refugiados” nos paraísos fiscais? Prevêem  os economistas que em breve 50% da riqueza mundial estarão nas mãos de 1% da população!
Então quem acode quem?  Paradoxalmente, os países mais pobres, os mais sangrados pelos FMI’s, pelos BCE’s e quejandos: Grécia, Portugal, Itália. Espanha. No caso português, nada mais justo que assim se faça: é preciso pagar o preço de uma colonização de cinco séculos. Mas a Grécia, massacrada pela Alemanha nazi, agora mirrada pelas ameaças das “tróikas” ? É ela, mãe da filosofia humanista que inundou a Europa, ela a pobre Grécia, é  quem mais estende os frágeis braços para valer aos que menos abrigo têm…
Tema gritante que vem provar diante dos nossos olhos a insensibilidade das economias capitalistas, cujo apetite devorador consiste em beber rios de dinheiro, mesmo que isso lhes saiba ao sangue, ao  suor e às lágrimas de gente como nós! E é este também o grito lancinante da Itália perante a CE. E deverá ser esta a revolta de quem sente, contra o deboche exterminador dos tais 1% que têm de ser abatidos, como bem profetizou Isaías, para que os montes se abaixem e os abismos se elevam e haja a planura igualitária onde haja lugar para todos.
Em rodapé de página, não desconheço o maranhão de problemas em que está envolvido esta avalanche migratória. Mas ficar calado é crime maior, de lesa-humanidade. Uma coisa é certa: tudo isto vai ser pago! O férreo Império Romano caiu às mãos dos “bábaros”. Atenção!

15.Jun.2015

Martins Júnior