segunda-feira, 27 de julho de 2015

PEQUENAS-GRANDES GALAS MUSICAIS

Foi de uma enternecedora emoção que, ao abrir do dia, levantei o auscultador e, do outro lado, da linha: “É por uma boa notícia que o incomodo logo de manhã. A Carolina ganhou   o Prémio Internacional dos Pequenos Cantores, realizado ontem na Figueira da Foz, com a canção “Ginasticar”, interpretada pela pequena Beatriz”.
Era o meu amigo Victor Caíres a descrever-me o incontido júbilo de pai ”mimado”  perante a distinção maior “arrebatada” pela música de sua filha..
A propósito deste pódio internacional, tem-me perseguido e galvanizado durante todo o dia, uma descoberta idêntica ao de  EF Schumacher, em The Small is beautiful. E porquê? Em primeiro lugar, pela simplicidade do tema “Ginasticar”; depois,  pelo sortilégio desta conjuntura: a autora, embora já com provas dadas,   não pertence à galeria oficial,  protegida, estereotipada, dos profissionais da composição. Pelo contrário, a sua música nasce  do olhar dos seus  doentes, das compressas e seringas com que lhes injecta renovada esperança de vida, enfim, nasce à beira de corpos gementes e almas doloridas. Quem havia de imaginar que das mãos de uma profissional de enfermagem saísse tanta energia, tanta beleza, tanta magia de transformar o sofrimento circundante em melodias de sonho. A Carolina pertence àquela estirpe da ciência médica  que usa a música no tratamento de certas patologias.
Devo dizer quanto me dói e quanto detesto certo figurino de concursos televisivos em que as crianças entram  em pleno e saem em pranto,  traumatizadas,  por vezes,  enxovalhadas pelos doutorais juízes que tratam petizes de palmo e meio como concorrentes de arena adulta. E em proporção geométrica, quanto me confortam e deliciam os espectáculos soltos, em que as crianças entram leves como pássaros e saem do palco felizes, aplaudidas, mesmo que a sua prestação nem sempre seja  a desejável.
Incluo neste elenco, as audições didácticas, as efemérides tradicionais do Dia da Mãe, do Ambiente, de final de ano escolar. E das festas tradicionais de cada localidade. Não é só nos concursos da grande ribalta que se mostram vozes dotadas, acima da média.  Nem de propósito! Ocorreu ontem, na Festa da Ribeira Seca, mais um episódio da  “Descoberta de Talentos”,  protagonizado por  quase-anónimos intérpretes da zona, sob iniciativa  da rádio local. Fiquei extasiado com o timbre, a afinação, a segura interpretação de vozes caídas dos altos montes e cristalizadas como jóias  no coração do vale!  Gente que mora à nossa beira, crianças e jovens que,  se lhes dessem oportunidade de ir mais longe,  em nada desdiriam daquelas que passam e repassam nas estafadas manhãs da nossa rádio. E o que mais admiro e não me canso de exaltar é a acção persistente de quem, nas escolas,  nos ajuntamentos ou grupos corais, nas igrejas, nos meios mais recônditos, sem dar nas vistas, teima em descobrir talentos e valores que, certamente, não serão cortejados pelas televisões e demais órgãos de informação. Falo não só da Ribeira Seca, mas de muitos outros movimentos afins que,  humilde mas decididamente,  sem o mínimo apoio institucional (e nem falo de dinheiro)  cumprem um tão nobre serviço público de valorização das comunidades. Chega-me, no entanto, a notícia de uma intérprete, voz poderosa, nada e criada no nosso  meio e que, agora, terá recolhido promissoras indicações no casting do programa “The Voice”.
Será recriminável que se fechem escolas, sementes de valores culturais e, daí, peças vitais para a construção do monumento fértil que é a população rural. Recriminável, também, que se olhe apenas para o sector profissionalizado (escandaloso, o sorvedoiro do futebol) deixando na valeta do mundo vocações natas para as artes e para as ciências. As recentes vitórias  concursais  de alunos madeirenses, a nível nacional,  nas áreas da matemática, da biologia, da música,  esclarecem e clamam pelo seu lugar ao sol, sem preconceitos opcionais de índole política e provinciana. Outro nome não terá senão o de assassínio humano o desprezo a que são votadas certas franjas da periferia madeirense.
Nunca se sabe o que de grandioso estará  encoberto sob os crepes tímidos  e frágeis que escapam à “nomenclatura” oficial. Em qualquer profissão e no mais humilde lugarejo, escondem-se talentos à espera de ver a luz do dia. Voltando  a Fernando  Pessoa: “Em quantas mansardas e não mansardas do mundo/Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?”
É preciso fazer sair das mansardas talentos e génios encobertos pela névoa opaca da mediocridade reinante.
Parabéns à pequena Beatriz
Parabéns à Carolina que, com a saúde do espírito, a música, faz regressar à vida os que mergulham nas cisternas da depressão!   
Parabéns e força a todos quantos entregam a vida para que outros a tenham!

27.Jul.2015

Martins Júnior

sábado, 25 de julho de 2015

AO NOSSO “COMODORO” FRANCISCO JOSÉ


Foi um encontro de amigos, sem protocolo nem guardanapo, como compete à “Malta do calhau”, mais vivida que fundada em jantar histórico de 24 de Julho de 1966. Cinquenta anos a navegar... De todos nos recordamos:  o  Comandante Afonso Coelho, sósia de Heminguay, muitos nautas que já lá foram, mas com maior emoção o nosso “Comodoro” Professor Francisco José, cuja esposa, filhos e netas, estiveram connosco na caldeirada de outrora do calhau de São Lázaro, Funchal, agora comemorada no Club Naval.  Deixo aqui reproduzida a saudação que então dediquei ao saudoso Francisco José, situando-o no seu habitat natural, acompanhado pelas muitas embarcações , sinalizadas em aspas no texto.



Onde houver uma nesga de azul marinho
Há sempre um marinheiro
E dentro dele um Comodoro
E onde  houver um veleiro
Ou bem perto ou mais distante
Há sempre um mareante
De coração-astrolábio
Lobo do mar,
Rude mas sábio
Em demanda de outra ilha mais além

Bem te assentam as dragonas
De brilhante Comodoro:
Trouxeste ao colo
Gerações de cadetes  apaixonados do mar
Foste pai e foste mãe dessa antiga juventude
Que contigo aprendeu
A viver em plenitude

Conheceste a força do “Tufão”
Andaste na crista do “Vendaval”
Mas  trazias a canção
De uma “Maré” matinal
Onde a “Brisa” e  a “Calma”
 Serenavam corpo e alma
De toda a tripulação

A bombordo e estibordo
Cruzaste “Maria Ângela”, “Simbad”  e “ Magalí”
 “Atlântida”, “Açor” e “Tainha”
Uns já longe, outros aqui.
Sentiste a aventura e o bisturi
Naquele velho Albatroz
Madre-nau e berço –mestre
De todos nós
E, por todos, abraçando
Viste dar à costa  gargalhadas mil
Da afonsina “Susangil”.

Partiste na linha do horizonte
E como o mar é redondo
Ficamos à tua espera
Esta homenagem compondo

E até chegar a derradeira viagem
Desta antiga marinhagem
Deixo aqui o nosso canto:
Seja qual o hemisfério onde navegas
No areal Porto Santo
Ou em Machico onde moro
Serás a eterna Guia “Andrómeda”
Alto e nobre Comodoro

E como a todos dizias
Puxa a escota, olha o leme,”Põe-te-a-Pau”
Recebe agora o abraço
Desta tua e nossa
“Malta do calhau”.

25.Jul.2015

Martins Júnior

quinta-feira, 23 de julho de 2015

NA RIBEIRA SECA, MACHICO, UMA FESTA QUE NÃO É MAIS UMA!


Guardo na memória mais longínqua um professor que, para escândalo meu na altura, fez aos alunos esta abstrusa revelação:  “ a cultura de um povo mede-se pela confecção dos molhos que serve à mesa”. E ficámos boquiabertos, senão mesmo desiludidos, perante uma tão prosaica tirada de um mestre poeta e homem de literatura. Levou muito tempo a perceber que a pedra de toque ou, por outras palavras, a quinta essência  de  uma sociedade reflecte-se  nos usos e costumes que, por repetidos e banalizados, não nos apercebemos  da sua real dimensão .
Estão neste caso as festas com que o calendário marca o ritmo e a face descoberta, porque descontraída, de cada Povo, muito particularmente nestes fins-de-semana espalhados por vilas e aldeias em honra de Santos e Santas.
Distorcendo um velho adágio, apetece-me  confidenciar seja  a quem for: “Diz-me a que festa vais e eu dir-te-ei quem és”. Olhemos em redor: há as festas delirantes das modernas drogarias, vulgo dicto, estádios de futebol. Há os festivais de verão, os “Alive”, os “Paredes de Coura”, os da Zambujeira, onde os jovens despem os protocolos e encharcam-se em cerveja e “shorts” e disso ficam de alma cheia. Há as festas dos Santos Populares em que       se  serve de tudo à mesa menos  o legado histórico que nos deixaram. Há também as festas de promessas, muitas promessas, círios, braços, pernas, cabeças e quase todos os compêndios de anatomia, esquecendo-se os romeiros que tratam a Senhora-Mãe como a pior madrasta, banqueira gananciosa, que só nos faz uma dádiva se lhe apresentarem o cheque, a meu ver, sacrílego, que levam nas mãos, untadas de  pingos de estearina.. Há também  o ribombar dos morteiros rasgando a paz do firmamento onde está o Invisível Protagonista da cena devocionária..
Mas o Zé-povo gosta. É por isso que eu concluo que as festas espelham a mentalidade de um Povo, o seu gosto estético, a sua idiossincrasia, aparentemente  imperceptível, mas no fundo  reveladora da sua global sensibilidade. E aqui é que vi a lógica do meu professor de literatura com que iniciei esta mensagem. Na realidade, as festas  são como que os molhos, mais doces ou mais picantes, mais energéticos ou mais dormentes, da doméstica mesa  das sociedades. Não é por acaso que na velha Atenas, os Jogos Olímpicos eram a consagração dos valores atléticos, éticos  e  estéticos aos deuses do Olimpo; e em Roma, a pedagogia anestésica do Império entretinha o povo com os famosos panem et circenses, comida e diversões do circo, excessos inebriantes, a começar e a acabar nas orgias imperiais. E --- que contrates ! --- vi eu no norte de África e até, por gentileza dos nativos, participei  nos rituais batuques, em que os tambores da floresta chamavam ao culto os negros das sanzalas, reunidos em profunda envolvência com a sua noção do sagrado.

Escrevo estas linhas porque respiro nestes dias a atmosfera antecipada que viveremos neste fim de semana, com a realização das Festas da Ribeira Seca, mais precisamente aquela que dá pelo nome antigo de Festa do Senhor. Nela também se reflecte a alegria destas gentes num módulo que tem tanto de tradicional como de inovador. Inovador, em primeira mão, na dispensa do foguetório grotesco de outras eras, bélico e estranho  símbolo para celebrar a paz oriunda do campanário do templo. Continuamos a tradição litúrgica da vigília vespertina e a celebração eucarística solenizada  no domingo, mas pusemos  no sótão das velharias as précieuses ridicules de “pagar”(!) promessas, porque recusamo-nos  a fazer do Senhor ou da Senhora  feirantes de arraial.
Cá fora, no palco aberto, desfila toda a comunidade, representada por crianças, adolescentes, jovens e adultos --- nalguns casos, pais e filhos --- exprimindo , em versos seus originais e música minha, o ritmo baloiçante das  alegrias, dos anseios, das carências e protestos, tudo numa simbiose, perfeita na ideia, mas desculpável na ruralidade das  danças e cantares. Mais que os batumes dos altos decibéis dos conjuntos, os espectadores de dentro e de fora  permanecem impecavelmente atentos enquanto a arte intergeracional se desdobra no palco. Neste ano, não faltará a evocação da Escola Nova, fruto da luta do Povo em 1976,  mas agora ameaçada por  governantes economicistas, de olhos vendados para o desenvolvimento integral desta população.   
Enfim, uma festa do Povo, pelo Povo e para o Povo --- delicioso molho psico.biológico no banquete nupcial de uma igreja que faz juntar  os seus filhos, como “rebentos de oliveira”  em redor da mesa comum  de cada dia!
Termino com uma das canções alusivas ao dia,  da responsabilidade cénica do grupo de jovens:
“Não há quem detenha   não há quem destrua
O sonho gigante desta mocidade
A nossa romagem quando sai à rua
Traz este pregão de amor e liberdade”

Bem-vindos à Festa de Sábado e Domingo!    

23.JUL
Martins Júnior  




terça-feira, 21 de julho de 2015

DORES DE PARTO NAS MATERNIDADES PARTIDÁRIAS




Quem passa rente  a certas portadas das Ruas da Mouraria, das Ruas dos Netos, das Ruas da Alfândega, das Ruas do Bom Jesus, enfim, de todas as Ruas das maternidades onde vão parindo as parturientes das ortodoxias partidárias --- a repetição dos “pês” é intencional e polissémica --- não se apercebe do rodopio angustiante que lá reina. Se o nosso Zé-povinho soubesse exclamaria, sorrateiro, e logo fugiria: “Ai gritos que vai  naquela casa”!
Para deitar ao mundo as listas luminárias dos candidatos, o bloco operatório não chega para tanta cesariana. E o pior é que parturiente, nascituro, pai da criança, obstetra e lava-mãos  são,  para desdita sua,,  a mesma e única entidade: o directório,  ou mais precisamente, o seu líder.
Considerando que em Setembro a maternidade é pública --- o voto universal --- e. agora, por estes dias, a maternidade é privada --- tudo é feito à mão da  parteira doméstica  --- não  será difícil adivinhar que o “serviço” no privado é muito mais doloroso e hemorrágico que no público. Porque aí está aberto o alvará das facas longas, dos “direitos” por usucapião, de birras e golpadas infantis, ao passo que em Setembro/Outubro, a paridura tem um efeito inelutável, sem apelo nem agravo. É comer e calar o que o Povo lhes der.
Não esperava deitar cá para fora  este espinhel de humor semi-negro. Mas deixem lá passar. Porque  o que exclusivamente me move hoje é um voto de louvor (condicionado, é certo) aos nomes que os diversos partidos têm vindo a apresentar às próximas eleições da Assembleia da República. Dirijo este meu voto,  por junto,  a todos os nomes que vieram à luz do dia. Vejo uma nova aragem, uma  onda outra e galvanizadora, quer pelas competências naturais ou adquiridas, quer pelos “curricula” profissionais e serviços prestados, a que se adiciona um sopro de juventude (não me refiro apenas à idade biológica) que fazem augurar uma digna e renovada representação madeirense no Parlamento Nacional. Até que enfim vão voltar aos seus armários de pinho da terra aquelas velhas esfinges do PSD/M que lá  assentaram arraiais para devorar quem lhes quisesse ocupar a jaula. Sem desprimor,  mas devo dizer o que sinto: se fôssemos a avaliar a Região pelos calos rugosos e pelas cãs dos lá estiveram até agora, eu diria que o PSD/M , em todos este anos, ofereceu aos continentais os melhores exemplares de uma Madeira Velha.
Claro que não faço a apologia gratuita dos jovens na política. São necessários, mas na medida da sua fogosidade renovadora e no afã, intimamente assumido, em servir uma Causa. Limpa e exigente.  Pois, do que conheço,  as ambições imberbes de certos infantis, que já querem alinhar na Divisão Máxima do campeonato, fazem das Jotas (“vi claramente visto” nos caloiros  da maioria parlamentar regional) uma lagoa chã  e cheia de lagartixas sedentas de chegar a jacarés. Nem peço desculpa a esses garimpeiros, muitas vezes desistentes da sua formação académica e profissional. Sei do que falo.
Uma palavra aos “cromos”,  eminentes cardeais das cúrias partidárias, ora dispensados,  recomendo-lhes  olhar para  o retrovisor da  carruagem e ler pausadamente o velho axioma: “Quem a ferro mata a ferro morre”. É o inexorável movimento, tantas vezes suicida, da rosa dos ventos, são os constantes e repetidos  fluxo e refluxo das marés da vida política.  O que mais conforta é saber e sentir que aqueles lugares não são herança de família. São oficinas de trabalho que deixamos gostosamente quando chega o tempo da “reforma”.
Reitero o conforto que me traz o ver na comunicação os novos candidatos a “servidores” de causas --- as Causas do Povo, seu constituinte.
E nunca se esqueçam, (permitam-me repetir sem cansar uma variante perífrase de Sérgio Godinho): “ O dia em que fordes eleitos será o primeiro dia do resto do vosso mandato”!

21.Jul.2015
Martins Júnior



domingo, 19 de julho de 2015

TREZENTOS ANOS NUM SÓ DIA


Hoje, 19 de Julho, serei tão parco em palavras quanto extenso na profunda interioridade desta efeméride, que terá passado indiferente à maioria de quem apenas se impressiona pelo imediato, pelo pitoresco, pelo descartável.
Acode-me ao pensamento a conclusão de que, idêntico ao movimento rotativo do planeta que habitamos, assim se apresenta a trajectória cíclica da História, com os seus pontos de encontro e desencontro, de coincidências e discrepâncias, de apogeus e  contrastantes eclipses. A roda do tempo traz no seu enorme mostrador factos e personagens que, separados por séculos ou milénios, reescrevem a mesma saga, como se um estranho fenómeno de reincarnação se tratasse.
É o caso de 19 de Julho. Duas figuras coincidem nos ideais, conquanto diversas no circunstancialismo que as caracteriza.
Falo de  Vicente de Paulo, que Roma canonizou e tem culto sacralizado nas aras dos templos. E falo de Aristides de Sousa Mendes, sacrificado na tulha da aliança fascista Hitler-Salazar.
Trezentos  anos os separam. O primeiro, nascido em França, no ano de 1581. O segundo, em Viseu, 1885. A ambos coube a nobre, mas dolorosa,  missão de alavancar a dignidade humana conduzindo-a ao trono que lhe é devido: o reconhecimento do seu direito à liberdade, à igualdade de oportunidades, o que, no seu reverso, significa a imolação cruenta ou incruenta da vida do libertador. Distantes no tempo, mas próximos do campo de batalha ---  região de  Dax,  Bordéus --- são hoje recordados ex aequo, embora oriundos de classes sociais diferentes, o primeiro nascido no berço pobre da ruralidade, o segundo, no palácio da aristocracia monárquica.  Vicente de Paulo, a custo, tentou subir os socalcos de uma sociedade injusta, sendo até vendido como  escravo, sucessivamente, a um pescador, depois a um professor de Química e finalmente a um poderoso agente financeiro, de religião muçulmana. Aristides de Sousa Mendes ascendeu, nos braços da fortuna, ao corpo diplomático português. Mas a ambos os esperava o mesmo “patíbulo”,  o de pugnar pelos mesmos ideais, Vicente arrancou às galés os escravos, levantou da valeta centenas de crianças e jovens abandonados, deixou raízes solidárias que ainda hoje perduram. Aristides, cônsul em Bordéus, afrontou o tenebroso regime nazi-salazarista, quando na noite de 16 de Junho de 1940, decidiu arriscar a vida e assinou nos dias seguintes passaportes de fuga  a cerca de 30.000 condenados aos fornos crematórios. É-lhe atribuída a decisão, coincidente com a de Pedro e João no sinédrio de Jerusalém : “Se há que desobedecer, prefiro que seja a uma ordem dos homens do que a uma ordem de Deus”— assim lhe ditavam as suas convicções e a sua educação de infância.
Não vou demorar-me nos dados biográficos de cada um dos  homenageados a  quem é dedicado todos os anos o 19 de Julho. É sobejamente conhecido o epílogo de um e de outro: Vicente viu os seus esforços compensados pela sociedade do seu tempo,. Aristides conheceu a despromoção do cargo, o ostracismo sócio-político do regime da ditadura, o abandono de todos. Apenas em 1966, um país estrangeiro, após o Relatório Yad Vaschem (“Memórias do Holocausto”) dedicou-lhe o preito de gratidão, plantando em Jerusalém vinte árvores em memória daquele que cognominaram de Justo entre as Nações. Em Portugal, só após o 25 de Abril é que lhe foi concedida a título póstumo (morrera em 1954) a Medalha de Oficial da Ordem da Liberdade, em 1986, pelo então  Presidente da República, Dr. Mário Soares.
Parecendo, num primeiro olhar, que estas são coisas do passado, desengane-se quem assim pensa. Para mim, é de eloquente coincidência e flagrante actualidade. E fica-me esta palavra de ordem, vibrante e madrugadora como o clarim que anuncia o novo dia ou o Dia Novo: “Tu não estás só. Na placa giratória deste minúsculo planeta, estão sempre a passar irmãos gémeos, sósias de ti mesmo, que desde tempos imemoriais viveram o teu sonho. Considera-te uma florescência viva dos troncos milenares que continuam a girar à tua volta”!
Tal como Vicente de Paulo e Aristides de  Sousa Mendes neste entrelaçado abraço de 19 de Julho.  


19.Jul.2015
Martins Júnior

sexta-feira, 17 de julho de 2015

ESQUELETOS FAMOSOS DE MACHICO. QUE FAZER DELES?



Hoje desço ao mar de onde vim. Mergulho na orla ribeirinha da minha materna baía: Machico. E soam-me logo ao ouvido aquelas mensagens que rapazes e raparigas de há 40 anos cantavam nas romagens das festas das Ribeira Seca, dedicadas á, na altura, vila e hoje, cidade:

Baía que é um abraço
Montanha que é um sorriso
Em terras de Machico
Deus fez um paraíso

Mas depois da reunião entre os executivos local e regional, de que hoje fazem eco os matutinos, fico-me exausto e sem senso perante estes tremendos  “trabalhos de Hércules” dos cavadores da Quinta Vigia: os de ontem ergueram fatídicos “mausoléus” ;  os de hoje têm que exumar e  aguentar  os enteados monstruosos, os pesados  sem-abrigo que lhes caíram nas mãos. Oh hercúlea folha de trabalhos de gerações político-partidárias!  Não sabem que destino dar aos dois emblemáticos monumentos do GR espetados no coração de Machico: um amontoado de cimento escuro sobranceiro ao  cais principal  e o pomposo “Forum”, inaugurado em 2006, cujo custo apareceu como de 20 milhões de euros. Não sabem o que fazer: se um anexo da Câmara Municipal, se uma unidade hoteleira.
É tal o asco que a obra que o GR produziu em Machico nestes 40 anos, que nem me apetece gastar um pingo de tinta nesse “peditório”.  O rasto viscoso que deixou  passa pela destruição do que de mais belo e paisagístico tinha Machico, desde as milenares penedias do cais do Desembarcadouro, o desmantelamento do Forte de São João Baptista, a estação de tratamento de resíduos, a que os da terra chamam  (tapem o nariz) “hotel da m….”, o vazadouro das terras de um amigo partidário do Secretário Regional do Equipamento Social (por sorte ou azar, natural e residente em Machico) na marginal nascente da baía, até ao subsariano poço de areia amarela, à betonização  das marés e ao monumental mostrengo do “Forum”, toda esta cega-rega esbanjadora exige que se chamem à Justiça os devastadores do nosso património ecológico e do erário pago pelo Povo. Aqueles que ontem, por acomodação interesseira dentro do próprio partido, ficaram calados e subservientes, agora engasgam-se com a batata quente que, cobardemente, engoliram e lhes queima a garganta.
Ninguém, com um mínimo de cultura urbanística,  ignora que  o que foi feito na nossa zona ribeirinha foi um esquartejar às postas do corpo virgem e espaçoso que a Mãe-Natura nos ofereceu como dádiva primeira: a baía mais bem concebida e desenhada na ilha. A harmonia da traça original foi amputada aos talhões mais díspares e tortuosos.  Não houve a mínima estratégia de planificação.
Dou um testemunho, em contraciclo:  Mestre Siza Vieira, quando cá esteve três dias, a meu pedido, intimou-me diante do executivo municipal, com aquele seu característico tom de voz coloquial: “Presidente, trate-me esta zona com pinças”. E deixou recomendações escritas. Não pôde demorar-se mais tempo porque tinha de rumar  imediatamente a uma região da periferia de Paris, para quê? Imaginem! Para reconstituir o mercado original da cidade  porque a edilidade de então  decidiu derrubar o moderno hipermercado monumental que ali se tinha instalado sobre a antiga construção. Rememorando este episódio, há-de chegar o dia D --- já não será para os meus olhos, mas será para outros --- em que o majestoso e encantado anfiteatro da baía e da praia de Machico deixará ver-se na beleza atlântica do seu berço, livre das amarras e espantalhos com que a afogaram, 600 anos depois.
Pede-se a quem governa
Que esta lei se proponha
Acabar lá na vila
Com os muros da vergonha”

Assim se proclamava o protesto popular nas referidas romagens. Entre 1980 e 1985. Ainda lá estava o velhinho “pelado” Tristão Vaz  Daí para a frente, os governantes não aprenderam nada. Criminosos públicos perante as gerações vindouras!
O mar de história, não de estórias, que eu tenho para contar sobre o terrorismo que o camartelo da ignorância dos governantes (estou a recordar A.Garrett nas “Viagens na Minha Terra) fez estrangular a primeira capitania da Madeira…
Mas vou pôr já um ponto final, porque se me custa olhar, mais me dói reproduzir por escrito os mal cheirosos  esqueletos que os senhores têm ao colo sem saber como lhes dar um implante de carne precária. E sabendo, sobretudo,  os enormes esforços, repetida e  publicamente expressos,  para travar tais atentados suicidas, porque pagos pelos impostos do cidadão!
Fico devendo a quem me acompanha, nesta área, uma explicação sobre o famigerado processo do empreendimento com que a firma Saviotti  pretendia literalmente ocupar toda a superfície do citado campo Tristão Vaz.  Podeis crer que se trata de uma novela verídica (perdoem o paradoxo)  que toda gente devia saber, particularmente o Povo de Machico. Não deixeis que caia no esquecimento. Até depois!

17.Jul.2015
Martins Júnior


quarta-feira, 15 de julho de 2015

PAGA-SE TUDO! Anatomia de procedimentos revolucionários


Vou pegar na deixa que ficou do nosso último convívio epistolar. Chamo convívio epistolar, porque é assim que vejo um “blog”: um colóquio à distância, mais que uma videoconferência, pois são mais intimistas, mais sinceros e transparentes.
Acabei o texto com o título, hoje, em epígrafe --- Paga-se tudo! --- referindo-me especificamente ao significante e ao significado do “regalo” que Eva Morales fez ao Papa Francisco: um crucificado sobre a foice e o martelo. E tentei provar, por factos indesmentíveis que, ao longo da História,  os chamados revolucionários, os desalinhados, os padres “comunistas”, enfim, os homens e mulheres anti-sistema são sempre apelidados de desordeiros, loucos, os maus da fita. Percorri os caminhos da Igreja Católica e tentei demonstrar precisamente o contrário: os “maus da fita”, afinal, foram os únicos que vislumbraram o horizonte certo e desbravaram o pedregoso caminho para lá chegar.
Hoje e muito sucintamente, quero percorrer outros trilhos da História das nações, detectando neles o fermento criador de outras pistas, cujo preço é, tantas vezes, a imolação na fogueira dos seus ideais.  São aos punhados os casos de mentes brilhantes, visionárias, que “as gentes de bem”  atiram  para a valeta  da estrada, quando não para a vala comum dos proscritos. Serão sempre incompreendidos, marginalizados, obrigados mesmo a fazer opções chocantes, contraditórias.
Não é tabu para ninguém o que se passa com a tremenda vaga de jovens europeus que saem clandestinamente da sua área de conforto para  alistar-se  na fé  do Islão, alguns até na vanguarda do Estado Islâmico. E fazem-no, não por motivação religiosa, dizem os analistas, mas porque “encheram”, saturaram-se das políticas da civilização chamada de “cristã e ocidental”, onde campeia a exploração mais abjecta do homem pelo homem, a corrupção  capaz de transformar um continente numa enorme prisão, caso houvesse Justiça que julgasse, enfim, uma sociedade “organizada” pelo rosto  metálico de uma economia geradora de monstros. Basta seguir a comunicação social mais esclarecida para nos darmos conta deste desespero de causa que invade tantos jovens para quem a única estratégia possível é a luta armada contra os modernos Satãs que povoam as sociedades “civilizadas”. Contra-senso? Sem dúvida. Mas eles respondem com o conhecido estribilho  acusatório: “Vocês fizeram o mundo assim”. E pagam-se, cegamente, até  com a sangrenta moeda do sangue de inocentes!
Um outro fenómeno que pulula na epiderme dos confusos movimentos político-sociais é a febre alucinante do populismo de feira. Percorramos a geografia das nações, ditas estruturadas, dotadas de Constituição, Partidocracia, Parlamentarismo democrático estável. E que vemos nós? O descrédito de toda essa fictícia arquitectura política e a ascensão de erupções emergentes,  aglutinadas em pequenos novos partidos à volta de um “caudillo”, que dá pelo nome de líder carismático. Apraz-me registar o que hoje escreveu esse mestre da análise e do verbo, Baptista Bastos: “Os movimentos de contracção (Syriza, Podemos, Ciudadanos, e por aí fora) não são meras florações ou epifenómenos: vieram para crescer e multiplicar-se, porque os partidos do “arco do poder” só têm sentido para promover uma infindável série de  medíocres e oportunistas”. “Dura lex, sed lex”, esta inexorável  lei da natura que se  levanta contra os abusos que dela fazem!
Poderia chamar à colação o sôfrego imperialismo da  extinta URSS que anexou selvaticamente e amputou regiões da sua idiossincrasia genética e sociológica, para mais tarde pagarem  com genocídio a sua própria libertação. Para ver-se cair o Muro da Vergonha. Para, já hoje, volver um novo czar, Vladimir Putin, aniquilar a vizinha Ucrânia.
O mesmo dir-se-á do império tresloucado de Bush que, a pretexto de um sofisticado embuste, abriu fogo, assassino e gélido, contra populações  indefesas do Iraque e seu património histórico.  Abriu também caminho para mais tarde seguir o Estado Islâmico a mesmíssima barbárie,  destruindo memórias milenares de um passado irrecuperável. Paga-se tudo!
Sobre a recente visita de Francisco, o jornal “Le Monde” titulava, em 1ª página, a 3 colunas: “Un pape politique en Amérique du Sud”, sublinhando em subtítulo que  “ ele  distribuiu conselhos e reprimendas  aos governantes.  Eis a moral de toda esta arrazoado que venho fazendo. Porquê chamar-se “político” a um líder religioso, quando o que ele aponta é, nem mais nem menos, o antídoto eficaz às sociedades doentes e corruptas?
Regozijo! ---  por ver o alto representante da Igreja  abrir clareiras no meio da escuridão. Mas, acrescento, que pena! ---  ser necessária a sua voz, quando este clamor de protesto deveria sair da boca e da alma de cada cidadão, de cada  vítima  silenciosamente torturada pela chamada “Ordem Estabelecida”!
Peço, finalmente, a quem me acompanha nesta reflexão a lucidez e a coragem para “descobrir” neste dormente felino da nossa Ilha os atentados sociais, culturais, ambientais que o Povo foi alegremente consentindo, enquanto lançava as mais vis imprecações a quem defendia a terra que  é nossa. E agora, tarde e mal, é que se viu  uma “bocarra”, eufemisticamente chamado marina,  vomitar  pelo mar fora 100 milhões  que o mesmo Povo submisso teve de pagar. Paga-se tudo!

15.Julho.2015
Martins Júnior