sábado, 15 de agosto de 2015

CEREJAS VERMELHAS NUM BOLO CINQUENTENÁRIO – ACEITO E AGRADEÇO

(Na entrada para a Missa Nova)

Era bem outro o tema  que me havia proposto trazer hoje à nossa roda de amigos: o popularmente designado por “Dia das Sete Senhoras”, com todo o polivalente recheio que ele sintetiza. Fica para outra oportunidade.
Porque, sem nada fazer por isso, ao fim da tarde  vi-me inundado nesta rede de comunicação pelas muitas saudações e abraços endereçados a propósito dos 53 anos do meu percurso sacerdotal.  Registo e agradeço: entram como ar puro, inebriante, dentro de mim  e saem, enternecidos e calorosos, ao encontro de quem, imprevistamente, mos enviou.
Olhando em retrospectiva, nada de excepcional realizei: foi o amor com que  os meus pais me trouxeram ao mundo  e foi Mestre Tempo --- foi e continua a ser  esta dupla afectiva e cronológica que merece brilhar no vértice da pirâmide que constitui a vida, a minha e a de cada um de nós.
Coube-me ainda  o supremo conforto de encontrar, ao fim de tantos anos, um  novo “Pedro, Pescador” em Francisco Papa, cujos ideais e cujas lutas sempre nortearam os meus passos, desde a primeira hora.
“O caminho faz-se caminhando”, não no vácuo indefinido, mas na mira de um horizonte, sempre mais próximo e sempre mais distante, com a convicção de que sozinhos nunca lá chegaremos. São as palavras e os gestos --- os vossos --- que me acompanham ao longo da picada e são também os espinhos e as armadilhas que outros tecem no percurso --- é neste dialéctico binómio que se arrumam e consolidam os nossos ossos, as nossas veias, as emoções, os sonhos, enfim,  o composto neurovegetativo --- embrulho ou tesouro? --- dos 20, 40, 70, 90 ou mais anos desta viagem datada no calendário da história.
Tal como sucede com os mestres concertistas do piano, a nossa realização pessoal é sempre um concerto a-várias-mãos, tantas quantas nos surgem na partitura breve da vida.
Entrelaço, pois, as minhas nas vossas mãos pela melodia com que me quisestes brindar no meio desta ponte que une o 15 de Agosto de 1962 ao 15 de Agosto de 2015.

15.Ago.2015

Martins Júnior 

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

FESTAS DO OUTRO MUNDO: QUANDO A REALIDADE ULTRAPASSA A FICÇÃO


     Quem, ao meio da semana, se dá ao gosto de andar  à roda da ilha fica de olhos cheios de cor e som. De dois a três quilómetros de distância, lá surgem os mastaréus embandeirados, calçados de verde, os policromos plásticos  esticados ao longo das estradas ou abertos em pavilhão envolvente em todo o perímetro do adro e, ainda, o timbre das campânulas sonoras que chegam até  à  paróquia vizinha. Aqui, ainda o cheiro da festa que se despe, acolá o verde tenro da festa que se prepara. E o panfleto pregado às paredes, anunciando as procissões, as girândolas do meio dia, os conjuntos, os artistas lá de fora, quase sempre pimba, os palhaços, as bandas filarmónicas que farão o acompanhamento “às semilhas para a igreja e às ofertas para o bazar”.  Embora   com figurinos ligeiramente paralelos, cada freguesia celebra o orago imprimindo a sua marca  característica também ligeiramente distinta, podendo aplicar-se-lhes o velho ditado, “cada roca com seu fuso e cada terra com seu uso”. O certo é que cada Povo tem a festa que merece . E as festas --- todas elas respeitáveis --- revelam a identidade das suas gentes.
Mas há festas com estórias e, sobretudo, com história. Sumariamente satisfarei a vossa curiosidade pintando nesta tela breve a silhueta das festas profano-religiosas ( são assim quase todas  aquelas a que me estou referindo)   localizadas num meio, antes estruturalmente ruralizado, hoje semi-urbanizado, a Ribeira Seca. Estou certo que nunca ninguém vos contou uma --- esta --- realidade que ultrapassa a ficção.
Antes de 1973-74, quando não tínhamos iluminação pública,  as nossas festas eram alimentadas com geradoras, uma delas do famoso “Soares de Câmara de Lobos”.  Lembro-me de quando chegavam os velhos  motores: miúdos e graúdos acorriam curiosos à volta  das majestosas máquinas,  hoje diríamos as “bombas”, que prenunciavam o arraial.
Com o aparecimento  da energia pública, fruto também do esforço que os moradores fizeram para construir o transformador, tudo se alterou. Foi a magia da luz que se espalhava por caminhos e veredas, num abraço triunfal à aldeia inteira.
No entanto, foi sol de pouco brilho. A partir de certa altura, mercê dos acontecimentos ocorridos com as reivindicações do Povo da Ribeira Seca  (contra o regime da colonia, contra a exploração dos donos dos engenhos, depois, a minha suspensão “a divinis” pela diocese)   nunca mais a EEM deferiu os nossos requerimentos, alegando que a Câmara se recusava a passar a licença do arraial. Esta recusa implicava a proibição de qualquer mastro ou bandeira em caminhos públicos. Mais: os próprios comandos local e regional da PSP também denegavam o policiamento protocolar dos arraiais, apesar dos requerimentos feitos pela comissão de festas. Foguetes, nem pensar. Até eram censuradas as cantigas, as quais tinham de ser apresentadas previamente ao delegado da Inspecção de Espectáculos, sediada na Câmara. A própria “Pide” veio fiscalizar as canções e os bailados dos jovens e adultos.
Então, não havia festa ? --- perguntareis vós. Puro engano! O espírito da festa dava asas à imaginação popular: os mastros eram colocados na berma dos caminhos, mas em terrenos particulares. A luz eléctrica, fomos busca-la às empresas. Primeiro, ao velho “Soares”, depois (não há dinheiro que pague esse favor) por ex. às que operavam no vale do Porto Novo e na ribeira do  Faial. Nunca a Ribeira Seca ficou tão cheia, tão iluminada, em todo o perímetro da  paróquia. Era a apoteose do Povo e o ranger de dentes dos que juraram acabar com as festas da Ribeira Seca. Recordo o ano de 1985, o ano em que a igreja foi invadida  pela polícia. Fez-se na montanha do Barreiro, junto à Levada Nova, a mais alta de Machico, a perfeita silhueta da igreja da Ribeira Seca. Ai!, o esforço denodado dos jovens e  homens fortes que foram transportando, a pulso e durante a noite,  a enorme geradora até ao cimo, onde ficou a brilhar, feerico e altaneiro, o ex-libris do histórico templo. As pessoas choravam, comovidas mas felizes, por verem o que nunca tinham visto.


Quanto ao policiamento, tudo resolvido: homens de idade, os “homens bons” do sítio, de braçadeira vermelha, iam passeando entre as barracas e bares e bastava só a sua presença com a gentileza pura das gentes rurais para que todos se sentissem bem e seguros. Os foguetes, também  houve solução: substituímo-los por milhares de balões coloridos lançados ao meio dia de sábado. E no domingo, um helicóptero veio encher de milhões de pétalas todo o percurso da procissão. As romarias de cada um dos seis sítios saíam do seu lugar de origem cantando marcha própria e duas canções originais (perfaziam dezoito músicas) em direcção ao palco. Outros sítios circunvizinhos (e até um deles, do Caniçal) juntaram-se nesse ano à festa. Dias fabulosos, noites inenarráveis, expressas em quadras como esta, que faz parte de um dos CD´s já editados.

Na festa que o Povo organiza
Há mais alegria e verdade
Por isso trazemos a estrela
A estrela da Felicidade

  Fica, no entanto, uma amarga reminiscência. Foi no Ano Internacional da Juventude. Os rapazes e raparigas, com a ajuda dos pais, construíram um triplo arco monumental na entrada que dá acesso directo ao adro. Eis senão quando, estando tudo pronto e engalanado, surgem duas viaturas policiais  e um camião da Câmara de onde saltaram trabalhadores municipais para abater aquela obra-prima. Os jovens opuseram-se mas, perante a ofensiva repentina da força policial, tipo operação de guerrilha na mata africana, sentiram-se impotentes. Os gritos de revolta ecoavam no vale. E dos gritos passaram às lágrimas visto que --- maquiavélico cinismo! --- os destruidores, forçados pelo presidente da Câmara, eram precisamente familiares dos jovens que tinham construído aquele monumento verde. A esperança fez-se raiva incontida.
         Mas a festa fez-se! Com mais gana, com mais brilho e, sobretudo, com mais união. E cantavam, a plenos pulmões:

Quanto mais afastam a gente
Mais forte e unido
O Povo se sente

É tal o encanto que inunda a memória deste Povo que até nos dispensamos de comentar esse retorno à pré-história,  que os senhores da ilha nos queriam impor. E os senhores da diocese? --- indagará alguém. Bom, esses também fizeram a sua parte de especialidade: proibiram-nos a compra de hóstias. E também de qualquer sacerdote que viesse pregar à Ribeira Seca. Mas, mesmo assim, as hóstias fizeram-se e a Eucaristia cantou vitória.
E digam lá se é verdade ou não que a realidade ultrapassa a ficção?!

13.Ago.2015

Martins Júnior

terça-feira, 11 de agosto de 2015

ALEGRIAS DOMÉSTICAS QUE ESCONDEM “CRIMES PÚBLICOS”

Volto hoje a um daqueles temas que jogam bem com a feliz aragem da silly season (deixem passar esta brincadeira  do anglicismo) embora, confesso, não me agradem  particularmente as “ocorrências do dia” ou as esparrelas da casuística  bisbilhoteira. Mas este é um verdadeiro “caso” que merece a atenção do mais anónimo cidadão, pelo singular conteúdo que traz lá dentro.
Fiquei surpreendido, um dia destes, com dois simpáticos trabalhadores da Empresa de Electricidade da Madeira (EEM) que me apareceram logo de manhã na igreja e queriam saber onde estava o contador geral que alimentava a energia eléctrica do adro da Ribeira Seca. Perante a minha natural e embaraçada estupefacção (tínhamos os pagamentos em dia) responderam: “São ordens lá de baixo”. Mas… E antes que continuasse com outros “mas”… logo esclareceram: “É que recebemos ordem para ligar os projectores à iluminação pública”.
Para muitos,  para todos vós certamente, nada de extraordinário, visto tratar-se de um local público. Mas para nós, foi decididamente um momento de alegria. Doméstica, é verdade. Mas enorme, por tudo o que essa luz, paradoxalmente, esconde no dentro dos postes.
Explico, sem demora, este mini-melodrama, cenas de um teatrinho herói-cómico, em quatro actos:

PRIMEIRO ACTO:
O exterior do templo da Ribeira Seca foi sempre iluminado pelos holofotes que a EEM veio colocar, em 1998, certamente em compensação pelo esforço que o Povo desta localidade  generosamente tinha  despendido na construção do  transformador, sob orientação e com os materiais cedidos pela referida empresa. Como é da praxis normal em toda a Região, os encargos com o consumo de energia do espaço exterior ao templo, neste caso, da Ribeira Seca, por onde passam todos os dias numerosos transeuntes, sempre foi da responsabilidade dos poderes públicos municipais.

SEGUNDO ACTO:
Numa segunda-feira, tristemente famosa, estava eu no gabinete do meu grupo parlamentar no Funchal e atendo  o telefone:” Sabe, os homens da Casa da Luz já rebentaram os cabos do adro e levaram agora mesmo todos os holofotes”. Tudo feito em tempo-relâmpago e numa hora, a do almoço, em que no adro não havia  ninguém. Os “assaltantes” (forçados!) só foram vistos quando se puseram em fuga. A revolta subiu de tom quando as pessoas se deram conta dos motivos: é que na véspera, domingo, 17 de Outubro de 2004, tinha havido eleições regionais e o partido maioritário levou a maior derrota de sempre nas duas mesas da escola da Ribeira Seca. A democracia “joanina” no seu melhor!!!!
TERCEIRO ACTO:
Indignação quase incontrolável da população, não só da Ribeira Seca, mas sítios circunvizinhos perante tamanha agressão ao Povo! A comissão reúne-se, pede reunião ao presidente da EEM, sem êxito. Vigilas à noite,  iluminadas por velas transportadas nas mãos das pessoas por entre a escuridão. Nova reunião, desta vez, pedida por mim ao dito presidente, visivelmente agastado --- eu diria, pelo semblante, intimamente envergonhado e enxovalhado, por “esta ordem vinda de cima “ --- o qual, temendo o pior, faz-me a proposta: “O sr. padre compra-me os holofotes, vendo-lhe por metade do preço e acaba-se com isto. Por favor”. Suponho que não estou a cometer nenhuma inconfidência --- o senhor está vivo e pode confirmá-lo. Aliás, registei o seu tacto diplomático em resolver um conflito que ameaçava tomar  formas extremas. Reuni a população, em mais uma noite de vigília, tendo quase toda a assembleia popular aceitado  a proposta. Assim se fez. Foi com visível orgulho e não menos ironia que as pessoas  comentavam  aos funcionários: “Os mesmos que levaram os holofotes  vieram hoje repor a luz no seu lugar”.  E até os próprios agradeciam: “Vocês tinham toda a razão”. Este Terceiro Acto terminou com uma festa, em 7 de Novembro do mesmo ano ( data histórica,  evocativa do clamoroso dia 7 de Novembro de 1974, a contar noutra altura). A  impressionante cerimónia    começou com a vigília habitual, seguindo-se o reacender dos projectores e, no palco, canções e bailados pelos jovens e crianças da Ribeira Seca.  Por ofício formal, a Comissão da igreja convidou para o acto o presidente da EEM que, naturalmente, não compareceu.

QUARTO ACTO
Vencido na sua ânsia  de reduzir este agregado populacional à escuridão de outros tempos, o autor da cena,  cobardemente refugiado  na Quinta,   impôs à sua subserviente  Câmara  laranja  ordem para não assumir os encargos  e obrigou-nos a pagar à EEM a iluminação daquele espaço público, excepção única que se conheça na Região. Fizemo-lo, sob protesto, mas  sempre firmes em viver na transparência e na luz que outrem queria subtrair-nos, em degradante represália pelas derrotas que até  hoje este Povo sempre lhe infligiu.
Finalmente, fez-se justiça! Ao fim de 11 anos de taxas injustas que exigiriam corresponde indemnização.
Ao fechar do pano, os aplausos para quem não desiste: quem luta vencerá sempre. Tarde ou cedo. Aplausos também e agradecimentos à actual gestão do Município de Machico. E ainda a grande conclusão: agora vejo em plena luz que, se “a memória é a faculdade de esquecer”, então torna-se urgente deixar escrito na dureza da  pedra ou num espelho de água todo um passado que só honra os valorosos e condena os criminosos.
Pairam ainda no ar e na alma das pessoas os versos que então cantaram nessa noite memorável:
“Nosso adro  está de verde
São de amor suas canções
Está tudo iluminado
Como os nossos corações”

11.Ago.2015
Martins Júnior




domingo, 9 de agosto de 2015

UMA ESTRANHA FESTA DE CASAMENTO E UM MILIONÁRIO NAVIO SALVA-VIDAS

Em pleno verão, falemos de optimismo, gastronomia, de serra e mar. São os consumíveis da estação, feita precisamente para  alargar pulmões e emoções positivas, algo que nos faça, após as férias,  rever com outros olhos a monótona paisagem do quotidiano e nos permita tomar as ferramentas do nosso trabalho --- escola ou oficina ---  com aquela frescura e perspectiva como se fosse o primeiro dia em que lá entrámos.
Só que este mar e esta areia não têm o azul afago das nossas baías. Os pratos típicos desta gastronomia estão longe das aprazíveis esplanadas, bem pelo contrário, trazem o cheiro agridoce (mais amargo que doce) de outras paragens.  No entanto há um  sublime interface, quase mágico, que faz da contraditória ementa de hoje um cântico de optimismo esperançoso de dias melhores.
Tem duas páginas o “poema épico” que vos venho contar. Digo “épico”,  porque a sua datada e localizada mensagem abre as clareiras desse “Maravilhoso Mundo Novo” onde todos temos o direito a viver.
A primeira página  faz parte dos noticiários de 4 de Agosto pp..
Os noivos Ali Uzumcuoglu, oriundos de famílias abastadas, no dia de casamento,  prescindiram da sumptuosa festa que todos os noivos almejam e, em seu lugar,  decidiram oferecer e sentar-se  à mesa com 4.000 refugiados, na  cidade de kili,  região sul da Turquia. Eles próprios ajudaram a servir a refeição aos acampados sírios, agregados pela organização humanitária KIMSE YOK UM. Dos pormenores, sabe-se que a iniciativa desta estranha festa  --- muito mais que gastronómica --- pertenceu ao pai do noivo, com a imediata anuência do jovem casal. Não consta, sequer, que se tratasse de um casamento católico, a avaliar pelo ritual da boda.  Comentários, para quê? É certo que nenhum de nós se ilude com este gesto, datado e localizado, repito, para resolver a tragédia de milhares de refugiados. Mas ampliemos  a objectiva particular e imaginemos que a mesma opção dos noivos turcos transformar-se-ia, não na refeição de um dia, mas no código de conduta dos parlamentos e dos executivos mundiais!
A segunda página, tão ou mais impressiva que a primeira, sabe a mar, mas àquele mar, mais duro e salgado que o de Pessoa --- “Quanto do teu sal/ São lágrimas de Portugal”. O mar-cemitério é também datado e localizado: o Mediterrâneo.. Ei-lo aqui, o “poema épico”, colhida na edição de hoje do jornal “EL Mundo”:

Christopher Catambrone, 34 anos,  norte-americano, Regina;  italiana da Calábria, 39;  e a filha  Maria Luisa , 19 anos, possuidores de uma enorme fortuna, foram de viagem, oceano fora, no seu super-iate de luxo. Em vez da romântica paisagem marinha, depararam-se com peças de vestuário à tona das águas e aí aperceberam-se “in loco” do que se passava.  Apavorados com o mísero espectáculo que se repete, dia-a-dia, diante dos nossos olhos parados, decidiram investir a sua fortuna numa “guerra sem tréguas” a tamanha maldição. Tocados pela pesada denúncia do Papa Francisco --- confessam os próprios --- contra a “indiferença globalizada”, compraram por cinco milhões de euros um antigo  barco militar nos EUA , o único no mundo pago por particulares para o salvamento marítimo, apetrecharam-no com “drones” e a mais moderna tecnologia e  ao qual deram o inspirador baptismo de “Phoenix”, a ave mítica que renascia sempre das próprias cinzas.  Contrataram uma tripulação especializada de 23 elementos, entre engenheiros navais, enfermeiros e médicos, capitaneados por um experiente conhecedor dos mares, o espanhol Gonçalo Calderon. A partir do Centro de Coordenação de Salvamento Marítimo, sediado em Roma, a esposa Regina controla, por informação dos “drones”,  e localiza as embarcações carregadas de africanos. A filha Maria Luisa  pediu um ano sabático na Faculdade para poder aliar-se inteiramente a esta causa. E declara-se “afortunada” por isso. São comoventes os testemunhos de toda esta gente, sobretudo perante bebés que encontram condenados precocemente à morte por afogamento! Só em dois anos,  já  salvaram   no Mediterrâneo  8.910 pessoas, sobretudo, da Nigéria, do Sudão e da Eritreia.
Tudo, a expensas suas, exclusivamente! Para operacionalizar mais  eficazmente a campanha, criaram uma ONG, da sua inteira responsabilidade, denominada MOAS (Estação de Ajuda ao Migrante por Mar)  articulando-a com a dos “Médicos Sem Fronteiras”.
“ Milhares de pessoas estão morrendo diariamente às nossas portas. Temos de fazer algo por elas …Salvamo-las no mar  e depois  encaminhamo-las para outras ONG’s  que as acolhem em terra. O que mais nos entristece --- desabafam ---  é ver a Europa a olhar para outro lado, à espera que o mar faça o trabalho sujo… E fatiga-nos quando alguém nos chama “milionários salva-vidas”. Tão pouco que nos chamem heróis”.
Dois marcos eloquentes, arvorando a confiança, o optimismo, o tal “Maravilhoso Mundo Novo” que vaticinou Aldous Huxley!
Não me canso de afrontar os FMI’s, os BCE’s, os  “offshores”, esses carniceiros do jogo sujo, que não temem apelidar de loucos os jovens noivos da Turquia e o casal Catrambone.
Quem nos dera que, à nossa porta, fizéssemos algo de transformador, ultrapassando as louváveis, mas insuficientes, chancelas do voluntarismo caritativo. É preciso educar as mentalidades. É preciso indignar-nos! Mesmo de longe, algo podemos fazer.
Consta que brevemente, numa das mais pobres freguesias da ilha, andam emigrantes (não se esqueçam que já foram imigrantes) preparados para repetir os ostentatórios e atentatórios arraiais religiosos com as ruidosas manifestações profanas do mais faraónico desperdício perante a miséria do seu Povo. Tudo (ofensivamente, em minha opinião) à sombra da religião. Não haverá  por aí  alguém que lhes proponha, em nome da mesma religião, algo que perdure a favor de idosos, crianças, doentes, enfim, náufragos neste mar em que navegamos?!
Quem estará disposto a seguir as pegadas dos noivos turcos  e do casal Catrambone?

9.Ago.2015

Martins Júnior

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

HIROSHIMA, MEU HORROR – “HIROSHIMA, MEU AMOR” (1945-2015)




No chão onde houver baionetas
Sombra ou sinal de canhão
Vamos plantar violetas
Cravos, rosas em botão”

Sei bem que  nesta descontraída estação gostamos de ver e  desenhar o sol na areia que a espuma breve  leva e já não traz.. Gostamos de ler versos escritos  em cima da água das “levadas” que contornam o nosso dia-a-dia. Preferimos (mais claramente) assuntos ligeiros, se possível hilariantes, sobre a última ocorrência da tarde, à espera da próxima notícia da manhã seguinte. Mas…há sempre alguém que não se contenta com os fogos-fátuos dos arraiais de  verão, alguém com a sensibilidade à flor da pele e por onde circulam as rodas dentadas da máquina da história.  Esse alguém é  a minha amiga,  é o meu amigo que me fazem companhia à mesa vespertina do SENSO&CONSENSO.
Quero dizer-vos que,  desde o dia de ontem,  continuo invisual e atónito com “aquele clarão, mais brilhante que mil sóis, a que se seguiu uma ventania ciclónica e a formação de um cogumelo de nuvens carregadas de partículas radioactivas, em cuja explosão desintegraram-se pessoas, objectos, edifícios” (Robert Yungk, testemunha ocular).   Foram 70.000 as vítimas instantâneas, seguidas de mais 35.000 na cidade vizinha. Já adivinhastes, certamente, que evoco nesta hora a tragédia de Hiroshima e Nagazaki, de  6 e 9 de Agosto de 1945. A roda dentada da memória passa por aqui e não deixa ninguém indiferente. Setenta anos se passaram, mas a bomba atómica lançada sobre Hiroshima  pelo   “Enola B-29”  (nome com que maquiavelicamente o piloto assassino Paul Tibbets o baptizou, em homenagem à própria mãe!!!) ainda hoje explode em cima das nossas cabeças, apesar do silêncio estratégico dos americanos nesta bárbara efeméride.
Particularmente no lugar de onde escrevo, é incontornável esta data, pois que em 1985 aqui, no palco  aberto da Ribeira Seca, comemoraram-se os 50 anos sobre o crudelíssimo atentado e aí deixámos em verso e canto (como assinalei no início)  e respectiva coreografia uma sentida homenagem às vítimas e um veemente protesto à mortífera  potência agressora. Tanto mais veemente quanto --- soube-se mais tarde --- uma das causas associadas  a tal decisão foi a desenfreada veleidade do presidente Truman  em demonstrar aos soviéticos que os EUA já tinham descoberto a arma mais poderosa do mundo, a bomba atómica.
Bem desejaria  eu reproduzir aqui  as tremendas e palpitantes páginas d’Os Sinos de Nagasaki, legado perpétuo de Paulo Nagai, médico e vítima do vendaval radioactivo que marcou gerações. Deixo à vossa sensibilidade essa busca imperativa. Por hoje, no meio do turbilhão de emoções que tal genocídio me faz recordar em cada ano, respigo dois pensamentos:
O primeiro vou exprimi-lo,  transcrevendo o desespero de Kenneth Bainbridge, ele próprio director do teste da bomba experimental em Almogordo,  Novo México,  em 16 de Julho anterior:  “Agora vejo que somos todos uns filhos da…” (com todas as letras).  E disse-o na cara do cientista norte-americano Robert Oppenheimer, responsável executivo do execrável Projecto Manhattan, ao constatar os horrorosos efeitos do teste.
O segundo, remeto-o para as evidências que todos os dias abrem e fecham os noticiários --- robots, vírus, ADN --- e de que a imprensa especializada hoje nos dá conta: Noel Sarkey, informático, especialista em inteligência artificial  e robótica, alerta o mundo para as ameaças das armas autónomas e dos robots-assassinos. Michele Mosca, matemático, avisa do perigo iminente dos ciber ataques. Médicos, biólogos, especialistas do genoma humano, previnem os investigadores para que, sem prejuízo da pesquisa científica, não ultrapassem as linhas vermelhas que levam aos perniciosos abusos sobre a espécie humana.
Com mais ou menos requinte, alinham-se na mesma fila outros tantos destruidores de uma vida, de milhões, de biliões de vidas, esses monstros impunes, cujas cabeças  emergem ainda hoje do pútrido pântano que criaram. Foi pensando neles que  Pierre Accoce e Pierre Rentchnick   escreveram o curioso volume  “Estes Doentes que nos governam”. Eles andam por aí, talvez à nossa beira. A bomba caída em  Hiroshima navega no oceano da história contemporânea e traz até nós as ondas da prepotência dos mais fortes sobre os mais fracos, dos todo-ricos sobre os todo-pobres, dos que governam a bel-prazer do amiguismo ou das antipatias pessoais. E estou a lembrar-me de quem. desde o Funchal,  quis esganar Machico em tempos idos, para depois ser esganado por Lisboa e agora vir Lisboa, de novo,  lamber os tutanos ao Funchal. Lembro-me também da violência doméstica, lembro-me das guerras de género…
Enfim, há sempre uma bomba de Hiroshima à nossa espera. Basta adormecermos  ou deixarmo-nos  anestesiar. Por isso, é útil tocar o alarme de 6 a 9 de Agosto de 1945. Por isso, tal como em 1985,  traduzimos hoje  o grito de alerta  na citada canção:
                                     
Nagasaki. Hiroshima,
Chernobil e nuclear
Sempre a rebate e acima
Vamos os sinos tocar
             *
Bate o sino pequenino
A canção de terra em terra
Venham jovens pela Vida
Pela Paz e contra a guerra

7.Ago.2015
Martins Júnior



quarta-feira, 5 de agosto de 2015

CARAS, CUNHO E CARÁCTER


É, sem dúvida, o primeiro passaporte da pessoa. E, paradoxalmente, deve ser o último a ser usado, seja pelo portador, seja pelo observador. Ajuizar alguém por “um palmo de cara”  é o que de mais falacioso se pode fazer. No entanto, cada qual maneja o argumento conforme a cor do próprio olhar. E assim surgem as expressões “Tá na cara”, é “de caras”, é um “sem-cara” , "duas-caras" e ainda "cara-de-pau", "cara-de-feijão-frade" o que tudo resumido significa o carácter e o cunho identitário  de quem está na berlinda do apreço público. Mantenho, pois, a convicção de que classificar o carácter de alguém, além de sair falacioso, torna-se terrivelmente perigoso.
No entanto, hoje vou embarcar nessa nau. Vou fazê-lo por um imperativo de cidadania face à grosseira e apoucada visão do timoneiro, ou dos timoneiros,  da nau governativa deste país, quando sentenciaram, alto e bom som: “Vejam quem agora se apresenta para governar. Os mesmos de 2011, os que foram derrotados, os que levaram o país à bancarrota. Nem sequer tiveram o cuidado de mudar as caras”.
Era o último argumento que se esperava da boca de  quem, em plena campanha eleitoral, afirmara: “Nós nunca recorreremos aos erros da  governação anterior para justificar as nossas posições e as nossas decisões”. Mas, bem pior que isso, é quem  recorre ao carácter do adversário para fazer valer a hegemonia própria. Porque nessa altura --- e aí está o perigo --- pode voltar-se o feitiço contra o feiticeiro. E é aqui que urge levantar a voz para evitar a esclerose múltipla com que a actual coligação pretende apodrecer a racionalidade dos portugueses.
Correndo o risco de repetir os juízos comuns a tantos observadores e, sobretudo, evidentes na praça pública, alguém se lembra  da “cara” que, em Abril e Maio de 2011, respondeu a um vulgar cidadão que a interpelou sobre o corte de salários, pensões, subsídios: “Nada disso, nunca. Isso é o medo que vos querem meter os nossos adversários. Jamais faremos isso”?! E lembram-se também da “cara” que fez precisamente o contrário, logo que chegou ao poder?... Lembram-se da “cara”, a mesma, que  agora promete enriquecer o país, com a devolução de IRS aos contribuintes? Façam as contas e  digam lá se “qualquer semelhança é apenas pura coincidência”. Recuso-me a acreditar que o país tenha cegado completamente e perdido a razão, ou viva numa paranóica amnésia colectiva.
A outra “cara” ainda mais cara se afigura, na sua grotesca desfaçatez. Lembram-se daquele trapezista de circo feirante que, para “subir às costas” do irmão siamês, esticou-lhe o pescoço e esganiçou a mais não poder: ”Vou largar-te de vez. É absolutamente  IRREVOGÁVEL  o que te digo”. E daí a oito dias, com um salto de coelho bravo, lá trepou as costas do “coelho manso”.  E o que era “irre” ficou “re”, o que era “sim” ficou “não”, o que era verdade virou mentira, o que parecia  feio e sujo passou a bonito e limpo. O que era “cara” ficou “sem-cara”. Enfim, estranha lavagem de caras sujas! 
E viu-se um  país suspenso, paralisado,  internacionalmente ridicularizado, ainda por cima  com um  Presidente estremunhado de sono falso, a suturar outra vez os restos das “caras” dos siameses que hoje se apresentam no topo, orgulhosos e inconscientes, como se nada tivesse acontecido.
De que “caras” está a falar esta gente “sem-cara”? Sem carácter. Sem cunho. Sem identidade fiável.

Sei que este não é o melhor aperitivo para os dias mornos de verão. Mas é meu dever alertar e publicamente bradar que, enquanto o Povo dorme  ao relento macio das praias, os noctívagos “sem-cara” destas noites tropicais andam  pelos gabinetes “tratando da saúde”, do dinheiro, da mente, enfim, da cara dos portugueses.
Martins Júnior

06.Ago.2015

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

TODOS OS ANOS, MACHICO NA ALVORADA DE AGOSTO

Dias jocosos e felizes estes com que Machico  recebe o mês de Agosto  desde há 30 anos!
Na primeira semana do mês oitavo e apesar da mais desencontrada diversidade de programas lúdicos, folclóricos, metalizados, distribuídos por toda a ilha, Machico, Pórtico das Descobertas, torna-se nesta data a mais ampla encruzilhada onde todos os caminhos se cruzam e todos os corações se encontram. Nesta rosa aberta dos ventos estivais, Machico vai na proa, repetindo aquele refrão que comandou as Festas de um  Verão diferente,  em 1982.
Se alguma vez a verbalização semântica se abraça com a factualidade ou se, por outras palavras, a ficção se enlaça na realidade, é exactamente --- perdoem-me a ambição patriótica --- o meridiano que se pode resumir neste título:  O Dia Ímpar na Terra Ímpar. Por isso que dedico a crónica do dia 3 de Agosto a esse evento que, sendo igual, torna-o diferente de todos os outros: A SEMANA GASTRONÓMICA DE MACHICO.
Primeiro, porque foi pioneira nesta Região,   iniciada em Agosto de 1985. Todas as outras “semanas ou fins de semana gastronómicos” vieram a reboque. Segundo, pela imensa largueza espalmada desde o Cais do Desembarcadouro até à Praia de São Roque, um anfiteatro  plano, iodado pela brisa do baía de linha contínua  (infelizmente não tanto como outrora, devido às intersecções que lhe introduziram) mas mesmo assim a lembrar-me,, em miniatura, a monumental baía de Luanda. Enfim, espaços largos, sem becos nem pregas, que bem se os pode classificar de espaços da liberdade franca, onde os convívios familiares à roda das mesas, pais e filhos, levam-nos a imaginar que toda a zona ribeirinha de Machico se transformou no Congresso aberto da família madeirense e não só.  Num terceiro retoque, tão original quanto civilizador, o cuidado impecável da organização nas diversas tendas dos restaurantes e bares, nos preçários e nos horários,  de modo que não há lugar para cenas degradantes, fruto de excessos estranhos ao ambiente. Finalmente, a selecção musical de 2015, predominantemente extensiva a todos os gostos, sem a preocupação das “bombas” publicitárias de artistas pimba. Sirva de exemplo a abertura das festas com o sempre inigualável Júlio Pereira e seus cordofones, um espectáculo memorável, para mim intensamente emotivo, recordando-me da sua primeira vinda à Madeira, a convite da festa da Ribeira Seca, em 1982, o  momento inicial de  uma amizade que nesta semana se reencontrou aqui. Além de João Pedro Pais, a mensagem da mais fina inspiração, colada ao mais íntimo da alma humana, de Jorge Fernando, o criador do melhor que cantam os nossos consagrados fadistas.  A participação de grupos locais, oriundos de todo o concelho, faz desta iniciativa, aparentemente gastronómica, a corporização daquele sonho que se chama o consenso dos povos, na identidade das suas diferenças e na simbiose das suas coincidências.
Se a organização me permitisse, deixaria aqui uma sugestão: para coroar a síntese lúdico-cultural do grande evento: criar um espaço às artes onde os muitos criativos locais exporiam ao vivo a expressão do seu talento, à semelhança do que fez a Junta no Dia da Freguesia, 2 de Julho.
Um reparo final (sei que vou estragar a ambiência quase poética do escrito)  mas entendo dever fazê-lo, face ao estilo de reportagem, irritante porque  estafado, em que o repórter dos arraiais costuma  fazer aos comerciantes a mesma prosaica  pergunta: “como vai o negócio, melhor ou pior que no ano passado”? Embora feita também por eles, esta Semana não se deve aquilatar apenas  pela “caixa” das barraqueiros  presentes. Vai muito mais além: fica no pódio do melhor que a convivialidade humana é capaz de produzir.
Parabéns à Organização. E faço-o, com pleno conhecimento dos esforços expendidos,  tendo em conta  que  também me coube tal tarefa nos oito anos consecutivos à frente do Município, entre 1990-1997.

3.Ago.2015

Martins Júnior