terça-feira, 13 de outubro de 2015

QUEM SABE SE DENTRO DE TI NÃO ESTARÁ UM NOBEL DA PAZ ?


           São tantos e de variegadas  cores as preciosas corolas que nascem nesta colina  de outono. Chamo-lhes corolas,  aos troféus  com que  por esse vasto mundo são galardoadas proeminentes figuras contemporâneas. E chamo-lhes  preciosas, não tanto pelo “vil metal” com que se apresentam, mas pela prata, pelo ouro e pelo diamante que trazem dentro de si os felizes contemplados. São os prémios Leya,  são  festivais de Veneza, de Cannes, são .as “bolas de ouro” e, por todos, os prémios Nobel.
         No entanto e  como fazem questão de sublinhar nos seus discursos, os agraciados, mesmo que singulares, reportam sempre o troféu a uma pluralidade de indivíduos, ambientes e circunstâncias, seja à família, aos colegas de equipa, aos mestres, aos alunos, aos pobres, aos mecenas e, por fim, a toda a nação, os quais, todos juntos, proporcionaram a subida ao pódio único do seu  “único herói”. E, entre toda a gama de medalhas e condecorações, uma há que sobressai como o vértice de toda uma pirâmide de esforços, tentativas  e até de vítimas anónimas: é o Prémio Nobel da Paz.
Analisadas as circunstâncias, na sua génese e no seu crescimento, o galardão da Paz nunca é fruto exclusivo da árvore que o ostenta, antes pertence ao universo telúrico de onde emerge e onde  mergulha as suas raízes no húmus difuso de genes, sangue fertilizante  e, quantas vezes, ossadas mudas de sofrimento e morte. A PAZ é um PIB universal que não cabe nos manuais da contabilidade pública nem se afere pela magra fita métrica deste ou daquele artífice, por mais místico que se julgue.


 Perguntar-me-eis  o porquê de inscrever hoje neste correio o Prémio Nobel da Paz. Por dois motivos. Primeiro, porque perfazem-se nesta noite, de 13 para 14 de Outubro,  50 anos + 1 sobre a sua  atribuição a Martin Luther King, em 1964, quando tinha apenas 35 anos de idade, considerado por isso o  mais jovem galardoado de todos os tempos. Segundo, porque o Prémio Nobel da Paz de 2015 foi concedido a um grupo de quatro promotores, pertencentes a quatro ONG’s,  pelos esforços desenvolvidos  para que na Tunísia a “Primavera Árabe” não resvalasse no tormentoso inverno de sangue, como malogradamente aconteceu noutros países vizinhos.
E é aqui, precisamente, que pretendo incidir o núcleo desta minha reflexão. Sem prejuízo do justo mérito das personagens singulares que o receberam, entendo que o Prémio Nobel  da Paz há-de pertencer sempre, ou preferencialmente,  a um colectivo. Pelos considerandos supra-enunciados, mas também porque a PAZ guarda, dentro de si, um rosto multifacetado, onde convivem sorrisos, rugas e lágrimas, traumas e estigmas e, por mais estranho que pareça, bênçãos e ameaças. Dando razão ao velho axioma “Si vis pacem  pare bellum” --- Se queres a paz prepara  a guerra ---nem sempre é fácil distinguir os enigmáticos atalhos que conduzem à Paz, sendo certo que para lá chegar é preferível  a luta fragosa  ao “descanso eterno”  dos cemitérios ou, como dizia alguém recentemente, antes um franco debate  nacional  que  a “estabilidade da Coreia do Norte”.
A geração dos “Quatro Coroados” da Tunísia vem de longe: vem dos cárceres da guerra contra a ditadura, cresce com os fulgores e as incertezas da primavera, fortalece-se  no exercício paciente do debate,  na dialéctica do diálogo,  aperfeiçoa-se na liberdade partilhada e, ao fim,  alcança a planura onde todas as armas se calam  e todos os ódios se apagam. Caminho sem termo, “missão impossível”,  pois que as águas paradas levam ao pântano e o pântano gritará, de novo, por mãos corajosas que agitem as águas. Retomando Vinícius de Morais, diria que a Paz, tal como o “Operário, está sempre em construção”.
Obreiros da Paz são “os que sofrem perseguição por amor  da Justiça” (Mat. 5,10), os que lutaram contra a ditadura de 48 anos de fascismo e apodreceram nas masmorras, os que combateram os “Vampiros”,  os que enfrentam a barbárie do “Estado Islâmico”, os jornalistas assassinados,   os 95 mortos  e 246 feridos em Ankara na manifestação pela Paz, os jovens presos em Luanda juntamente com o “rapper” Luaty Beirão em greve de fome. É infinito o sudário vermelho, de sangue e luta, daquela multidão anónima que nos subterrâneos do  silêncio constroem,  pedra a pedra, o monumento da Paz. Entre nós, obreiras dela são também os que afrontaram as arbitrariedades de 38 anos de repressão disfarçada de autonomia! E os que denunciam os criminosos procriadores da pobreza, os que, na Europa e no mundo, gritam contra os usurários dos “offshores”, enfim, toda essa marcha triunfal  de heróis, voluntários jornaleiros da Justiça, parcelas indissociáveis do Grande Nobel da Paz.
E tu também o és, quando abres uma clareira na escuridão, quando bates o pé pelo interesse comum e pela Razão, quando vences o medo e, “em tempo de servidão, sabes dizer Não”!    
Dentro de cada um de nós mora o Nobel da Paz.
      13.Out.2015
         Martins Júnior


domingo, 11 de outubro de 2015

JORNALISTAS: árvores que morrem de pé!


Não me sai do pensamento “aquele espesso negrume” que pousou,  anteontem, no campo santo de São Martinho. O 9 de Outubro de 1803, passados que foram 212 anos sobre a aluvião que inundou Funchal e Machico,  parece ter feito  furtiva aparição para escrever sua elegia em cima do berço último de Luís Miguel França. Mais eloquentes e longas que as pesadas bátegas da chuva cadente eram os passos e as emoções da multidão envolvente.   Entrava no subterrâneo de uma liberdade sem termo aquela voz sonora e quente que sustentou quem cá ficou nas grades sem paredes da terra dos vivos.
Quarenta e quatro anos!
Associei-o a outro seu companheiro de jornada que, saído de Machico, voltou às raízes, precisamente no Abril dos Cravos de 2015, Tolentino de Nóbrega.
Evocando o pungente poema de Soares dos Passos, quanto desejaria eu saber o que porventura estarão dizendo eles nos corredores invisíveis   que ligam  a primeira à segunda capitania da Madeira! Mas eu adivinho-lhes o eco da mensagem  e ouso transmiti-la a todo o mundo:
“AS ÁRVORES MORREM DE PÉ”!
E os --- estes!  --- JORNALISTAS TAMBÉM.
         Estes ... e aqueles que foram proscritos pelos regimes totalitários, seja em Pequim, Moscovo, Angola, Guiné Equatorial, Zimbabué…E os que são barbaramente decapitados. Todos morrem de pé!
         Porque morrer de pé é manter firme e altaneiro  o tronco  “de antes quebrar que torcer”. Morrer de pé é ripostar que “não há machado que corte a raíz”  à minha pena nem o brilho da minha voz. Morrer de pé é cantar por entre as cordas liquidas da chuva cadente: ”Eu estou aqui”! E morrer de pé é saber que os pássaros da memória vão disseminar do fruto da árvore novas e promissoras sementes de esperança que tornarão a terra mais verde.
         Não vou reproduzir aqui o seu percurso profissional no jornalismo e na intervenção social. Outros já o fizeram  proficientemente. Apenas pretendo juntar à sua acção o sublinhado de Thomas Merton quando escreveu “Homem Algum é uma Ilha”. Sem sombra de dúvida, o que sucede a um indivíduo não se esgota na singularidade da sua pessoa. Toca a todos. Porque não é o acaso que provoca a boa ou má “sorte” de quem quer que seja, sobretudo de quem traça uma linha recta no horizonte do seu sonho. É toda uma sociedade, um contexto e um regime que tomam  nos braços os seus constituintes, umas vezes  para afagá-los, outras vezes para afogá-los.
         Luis Miguel França e Tolentino de Nóbrega podem, ainda hoje, fazer suas as palavras do editorialista do jornal britânico The Times,  em 6 de Fevereiro de 1852(!): “Para nós, a publicitação e a verdade são o ar e a luz da existência. Não pode haver maior desgraça do que recuar perante a divulgação, franca e exacta, dos factos, tal e qual como são. Somos obrigados a dizer a verdade, tal e qual como a encontramos, sem medo das consequências”. Isto, em 1852!
         Ousar, mesmo sabendo que sairá cara e violenta a factura vital! Quem afronta o monstro da repressão?  Afrontou-o corajosamente o presidente do Sindicato dos Jornalistas Franceses, George Bourdon, em 1931 (!), dirigindo-se aos seus associados: “O jornalistas não é ninguém se não for ou não se esforçar por ser, na intimidade da sua consciência, um servidor da verdade e da justiça e se não dedicar toda a sua energia a defender honestamente o interesse público”.
         Na esteira deste brilhante líder da nobre profissão de informar, não será difícil descortinar a razão por que tantos e tão competentes jornalistas têm sido estrangulados,  decapitados aos poucos, sadicamente silenciados, despedidos  ou postos nas prateleiras dos arquivos das redacções. Não falo das longínquas ditaduras asiáticas. Falo daqui, desta ilha de corcundas-escribas (os mais perigosos,  sob o verniz de “independentes”) vergados ao poder, dando umas pinceladas de tintura “mercurocromo” para disfarçar a piscina aquecida do patrono onde molham a pena.  Não há censura, é certo. Mas também não há liberdade. E, como dizia Jefferson, “nunca  haverá democracia se não houver  liberdade de imprensa”.
         Em consonância com Luís Miguel França e Tolentino de Nóbrega, permitam-se transferir para esta página, uma das cenas do filme de John Ford, datado de 1962, “O Homem que Matou Liberty Valance”, o  pistoleiro do reino, cena essa protagonizada pelo director do diário local, que vai dando ânimo à  população aterrorizada, dizendo: “Sou um jornalista… Sou a vossa consciência… Sou uma pequena voz que atroa na noite… Sou o vosso cão-de-guarda que uiva aos lobos… Sou o vosso padre confessor…”
         Bernardo Santareno, ao escrever  “A Traição do Padre Martinho”(1969), fecha  o drama com o frustrante e revoltoso desabafo do sacerdote, várias vezes preso pela Pide: “Não é possível ser-se padre em Portugal”. Justaponho, sujeito embora a todas as críticas, o meu desabafo, fruto do descrédito, com provas de sobra,  pelos responsáveis oficiais e oficiosos da comunicação cá da ilha: “Não é possível ser-se jornalista nesta terra”. E acrescento: “Que preço custará a coragem de sê-lo?” Numa ulterior távola deste SENSO&CONSENSO, quando achar oportuno, reproduzirei aqui o que então, frontalmente, em 1985, afirmei em plena ASSEMBLEIA Regional da Madeira.
         Que havemos de fazer em memória das ”árvores que morreram de pé”,  os JORNALISTAS Luís e Tolentino, senão cuidar e fazer frutificar as sementes que nos deixaram?!
11.Out.2015
Martins Júnior
    
   


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

ESTUFAS DE MITOS MILAGRES E ROSÁRIOS


Quem se der ao gosto de viajar na redoma do sonho há-de pairar, extasiado, no melhor dos mundos e daí evolar-se, desfiar-se e multiplicar-se em miríades de estrelas, mais numerosas e esotéricas que as que compõem as galáxias supralunares. Esse extenso  mundo, sem linha de horizonte, é a crença religiosa. Peço aos meus comensais nesta mesa do dia ímpar a paciência de não mudarem de canal, porque não é de teses teológicas que componho hoje  a minha ementa. Pelo contrário. É da imaginação criativa, de uma certa consciência onírica,  que vos dedico estas (que desejaria breves) linhas, mereçam ou não o vosso consenso.
Porque hoje é o dia 9 de Outubro e é do fundo côncavo do vale de Machico que vos escrevo. É o tradicional Dia do Senhor dos Milagres.
Diga-se, desde logo, que esta á uma comemoração doméstica, nada e criada nas paredes centenares deste vale. Em nenhum outro lugar da cristandade tem o “9 de Outubro” semelhante designação. É também uma festa recente, com início em 1803. Em bom rigor, nem deveria falar-se de “festa”, mas sim de tragédia, pois as barragens celestes abalaram-se num ápice e arrastaram para o mar casas, terras, vidas, cerca de 600 a 1000 pessoas. As zonas mais “castigadas” foram Machico e a baixa do Funchal, com a avalanche voraz caída dos altos da freguesia do Monte, em proporções incomparavelmente superiores às do 20 de Fevereiro de 2010.
Depois, vem a lírica composição narrativa de uma galera americana --- tinha, logo,  de ser americana --- que achou intacta, no alto mar, o cruzeiro que havia na capelinha da Misericórdia, depois da “Ordem de Cristo” do Infante e, finalmente, cognominada de Capela dos Milagres. Esta a versão que a oralidade popular foi passando de geração em geração.
            E aqui começa a liberdade de sonhar. Um amigo meu telefona-me, espevitado e de dedo em riste, “então, não ouviu na RDP aquela versão de que a imagem tinha sido recolhida por uma barca, de nome “Áquila”, a qual se encontra no litoral do Funchal, estou de cabelos em pé…e você não diz nada”.  Posta a água na fervura, esclareci que não tinha ouvido o noticiário, ao que ele, conhecedor da matéria,  insiste: ”mas foi alguém aí de Machico, com responsabilidade religiosa”, etc.,etc.. A “Áquila” era a embarcação que fazia o transbordo dos passageiros do hidroavião que  amarava na baía do Funchal, na década de 50 do século passado. Bom, o caso é de “lana caprina”, mas se a versão pegar, por mais anacrónica que seja, deixa de ser a galera americana para ser a barcaça inglesa a salvadora da estátua. Assim se misturam lendas sobre lendas, qual delas a mais engenhosa. Basta meter crenças religiosas e mitos pelo meio.
            Outro caso não menos interessante ocorreu anteontem, 7 de Outubro, dia de Nossa Senhora do Rosário. Roça as raias do inverosímil, do absurdo mesmo, o que se conta acerca deste dia. Foi em 7 de Outubro de 1571 que se deu a trágica batalha naval de Lepanto entre a esquadra da Liga Santa e os turcos otomanos que se tinham apoderado da ilha de Chipre pertencente, então, à República de Veneza Oriental e, daí, avançariam sobre Veneza Ocidental, seguindo-se-lhe os territórios do Vaticano. O domínio do Mediterrâneo era a ponte estratégica do comércio de então, encarniçadamente disputado por europeus e muçulmanos. Veneza pede auxílio ao Papa que congrega os diversos reinos dos Estados Papais, Reino de Espanha, Cavaleiros de Malta, com o apoio financeiro da Casa dos Habsburgos e lançam-se, com 108 naus, no embate contra a armada turca, numericamente superior, composta por 186 naus.  É sangrento o relato que fazem dessa guerra os cronistas da época, cujas descrições de esmagamento de homens, crianças, mulheres, em terra e violentos duelos no mar ao aproximar das barcas, os quais pouco diferem das crueldades que hoje “vemos, ouvimos e lemos” nos Estados Islâmicos. Da parte dos turcos caíram 30 a 40 mil mortos, 8 a 10 mil prisioneiros, a cabeça do almirante otomano   Ali-Pachá cortada e posta na ponta de uma lança  e, para cúmulo do pavor, uma “Senhora de Aspecto Majestoso e Ameaçador” no mastro alto de uma das naus cristãos, que pôs os “inimigos” em fuga, etc.,etc..
            A surpresa vem a seguir. Foi nessa altura que o Papa Pio V mandou espalhar por toda a Cristandade a devoção do rosário a Nossa Senhora. E eis que, após tão tremendo massacre, dispêndio de vultuosos investimentos financeiros, desgaste das populações, a batalha saldou-se com a vitória da Santa União contra o Império otomano. E também para toda a cristandade proclamou-se o seguinte édito: ”Non virtus, non armas, non duces, sed Maria Rosarii Vitores nos fecit” --- Nem as tropas, nem as armas, nem  os comandantes, mas  somente foi a  Virgem Maria do Rosário que nos deu a vitória”. E assim começou a festa de Nossa Senhora das Vitórias, assim fizeram caminho os arraiais do Rosário, como o da Madeira, em São Vicente, este ano transferido para o próximo domingo.
            Como foi possível associar a Senhora à cobiça capitalista do reino da Veneza de então e à disputa dos monopólios comerciais no Mar Mediterrâneo !
Que blasfémia inaudita dizer àquelas pobres velhotas da província que cada conta do seu terço, rezado todas as noites, funcionava como um granada de mão (um míssil, em linguagem actual) para matar vítimas indefesas, seres humanos e, quase sempre, os mais frágeis…
Quem julgará os criminosos sacrílegos?!
            Sem mais comentários, até onde nos levará a escaldante criatividade  pseudo-religiosa? Michel de Montaigne, já no século XVI, classificara a nossa imaginação como “La folle de la maison” --- a louca da casa. E não há chão mais fértil para tais derivas como o devocionismo febril da crença desenfreada.
            Não espero consenso geral para estas propostas de aprofundamento, feitas com todo o senso, para mim, e não menos coragem intelectual. Para serenar-me nesta dolorosa incursão, encosto-me a uma das árvores da nossa ribeira de Machico, neste 9 de Outubro, e imagino ver, na outra margem,  o Cristo em pessoa olhando as ondas revoltas da enxurrada: à sua frente rolam, lado a lado, uma cruz de madeira e uma criança, um pai, uma mãe devoradas pela torrente. Quem irá Cristo salvar primeiro?  A cruz de madeira (que depressa se substitui) ou a criança, aquele pai, aquela mãe, aquelas vidas sem retorno?... Da resposta a esta pergunta depende toda a interpretação do Senhor dos Milagres, das Senhoras do Rosário, enfim, da limpeza de olhar com que lemos o nosso código ideo-espiritual.
 9.Out.2015

Martins Júnior

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

TESTAMENTO MATINAL





QUE ME DEIXOU UM AMIGO QUE NÃO MORRE




Se “morrer é deixar de ser visto”  
ficou-me a tua voz
transparente e poderosa
como o teu olhar                                     

Isso me basta
para ver o invisível

Nas sombrias pregas do desgosto
fica-me também  o gosto
de te ter dito face a face
quando ainda eras visto
o que trago aqui escrito

No renovado ecrã
De cada manhã
Vejo sempre a tua voz
Relógio d’água a despertar
Transparente e poderosa
Como o teu olhar

                        À Basília e sua filha
                            Com os cravos vermelhos que ele tanto amou

7.Out.2015
Martins Júnior

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O PARADOXO ELEITORAL: A MAIS INSTÁVEL ESTABILIDADE


         Não é objectivo do SENSO&CONSENSO arvorar-se em manual de análise política nem muito menos de panfleto  partidário. Tão-só o que pretende é captar o instantâneo do acontecimento e nele detectar –lhe a raiz e o fruto, ou seja, os antecedentes e os consequentes. É o que proponho nesta segunda-feira, a qual, semelhantemente ao de sábado, poderia classificar-se de “dia da reflexão” . E fá-lo-ei porque o fenómeno eleitoral é  --- deveria sê-lo --- o eixo nevrálgico do “corpus” colectivo de um povo, por outras palavras, o momento soberano que nos torna únicos e exclusivos responsáveis pela condução do país.  Ninguém tem aqui o direito de lavar as mãos na bacia de Pilatos.
Ora e por mais contra-natura que se nos afigure, a constatação está diante de todos os olhos:  o fantasma com que a maioria mais esconjurou  o seu mais directo concorrente --- a instabilidade política --- foi precisamente esse o fosso que cavou diante dos próprios passos. Ficou à mercê, não só deste e do futuro presidente da república, mas também  dos seus opositores, paradoxalmente daquele que mais intentou destruir: o PS.  Agora, cúmulo da cegueira, é do PS que a coligação mais precisa para garantir a estabilidade governativa. Quem cospe para o ar…
Mas, do outro lado da trincheira, sai o mesmo apelo gritante, qual seja, o de formar governo de esquerda. Tem todo o travo de humor negro ouvir de quem, orgulhosamente só, se ufanava de ter o monopólio da candidatura “patriótica” , venha agora ao terreiro do segundo partido mais votado --- que durante toda a campanha  ensandwichou  entre os dois  da coligação --- propor, em jeito de subreptícia  petição, a ponte movediça de um convite a uma coligação do avesso. A política tem destas piruetas tão ardilosas quanto hilariantes! E é entre o antes e o depois da eleição que certos partidos são hábeis em semear o descrédito do cidadão comum perante a  política do seu país.  O que antes era --- deixou de ser, depois.
E eis-nos, agora,  confrontados  com este absurdo  parto  saído do ventre de toda a barafunda eleitoral:  a  mais  “instável estabilidade”. Ao ponto de deitar a pique o mandato de quatro anos de governação constitucional.! Substituindo os termos da equação, viver na mais instável estabilidade significa estar condenado a navegar na mais estável (leia-se, contínua) instabilidade política. O que nós fizemos! E a que  nos “forçaram”  os partidos,  no confuso maranhão de uma campanha em que os eleitores ficaram perplexos face a este desconcerto: quem nem sequer tinha programa que se visse passou todo o tempo a metralhar quem apresentou um programa, técnica e politicamente elaborado. Não se discutiram causas, mas tiques emocionais, estados-de-alma sem alma.
 Foi manifesta a estratégia omni-perfilada, maquiavélica, cujo alvo consistia em derrubar, fosse como fosse (“o fim justifica os meios”)  a esperança nascida das famosas primárias de   28 de Setembro de 2014. Logo à cabeça, a exploração psico-sociológica do medo do amanhã, “aí vem o papão”. Depois, factores exógenos como a vitória de David Cameron no Reino Unido,  a nova cirurgia política do Sirysa-Tsipras na Grécia,  a ama seca da Europa que veio a correr e sem que ninguém a chamasse, “explicar” que essa coisa do deficit de 7,2%  era  uma corriqueira “operação contabilística”, nem mais nem menos a versão do governo.  Ainda, a “vantagem” (para o status quo) dos quase 500.000 “ refugiados” portugueses, os que emigraram nestes quatro anos, de não poderem manifestar no voto a sua indignação… Neste elenco perdulário, situam-se os 295.695 votos (pessoas) que optaram pelos pequenos partidos sem sucesso…Outros factores menos perceptíveis mas muito mais arrasadores, de ordem endógena, as querelas internas à própria família e, ainda não sanadas, que conduziram o voto a outras urnas… Acresce a tudo isto, uma certa inabilidade retórica por parte do intérprete da esperança nascente --- quem é sério não pratica o mimetismo camaleónico nem tem préstimo para  malabarismos “irrevogáveis”. E assim, não foi difícil à voracidade partidária --- em que os extremos se tocam --- comparecer à parada da arena, todos com o mesmo furor como  quem se atira ao mesmo osso...
Moral da história: é para o “osso odiado” que os extremos, da direita à esquerda, voltam agora o olhar impetrante para dar carne e forma às suas endémicas ambições políticas! Não se vai chorar sobre o leite derramado. Está feito, está feito. E oxalá não seja “sem emenda” futura.
Tão cedo voltarei a estes temas pois, repito, tenho para o nosso  SENSO&CONSENSO  uma mesa  mais suculenta e respirável . Termino, endereçando daqui uma saudação aos madeirenses, particularmente ao Partido Socialista, na pessoa de Carlos Pereira,  e ao Bloco de Esquerda (relevando aqui a brilhante prestação de Catarina Martins em todo o país) por  terem corajosamente  afrontado o medo dos fantasmas coligados. No mesmo Voto de Congratulação, envolvo o meu concelho, Machico, que soube honrar nobremente as suas tradições democráticas. É a nossa forma de comparecermos no Dia da República Portuguesa, para apagar a nódoa presente de um  presidente ausente.

5.Out.2015

Martins Júnior

sábado, 3 de outubro de 2015

--------------------------------------------”SÓ EU SEI” POR QUE NÃO FICO EM CASA



Porque sinto bater à porta
Da minha rua
Uma criança esvaída no chão
Sem ter ninguém que lhe valha
Nem sequer a mão
De uma mortalha…
E da minha rua vejo
Todas as veredas, todos os charcos
Vejo sepulturas dentro dos barcos
Que chegam ao meu país
Com crianças no porão…
Deixa o torpor do colchão,
Gritam,
Empresta-me a tua mão!
         +++

Não fico em casa, não!
Oiço falir as braçadas
De quem lança ao mar as redes
Sempre vazias, sempre trituradas
Nas garras dos tubarões…
Vem, vê se largas
Salões sermões e serões
E vem aqui tornar mais doce
O pão
Que sai das ondas amargas…
            +++

Bem longe e bem perto  trovejam
Legisladores sem lei
Zombis nocturnos, inda há pouco os encontrei,
Tabeliões, talibãs
Estirados em divãs
Feitos da pele e do osso
De quem não tem onde cair morto…
Deixa a paz do mísero conforto
Traz a tua mão
Com a ponta do teu dedo
Esgana os zombis do medo
Os passos para o caixão
As portas da escuridão
E nasça o dia original
Em que se cante de novo
O hino de Portugal
          +++

Se fico em casa
Vem a selva de fogo e arrasa
A enxerga onde me deito.
Quero rasgar a encosta
Desbravar
O caminho desfeito
            +++

Na minha, na tua, na nossa mão
Vejo abrir
Meu país em construção

3.Out.2015

Martins Júnior

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

NÃO VALE TUDO EM POLÍTICA --- NEM “A MÃOZINHA DE DEUS”


Foi com um uma pitada de humor que ouvi o comentário do jornalista de serviço à campanha da coligação --- “Passos Coelho conta agora com a ajuda divina” --- e que o interiorizara ao emocionar-se com aquela velhinha que lhe confidenciava “Vai ganhar, com a ajuda de Deus Nosso Senhor”.
         Era o último tiro de uma campanha feita à flor da pele, sem programa definido, e ao compasso daquilo que o principal concorrente ia esclarecendo sobre um compromisso assumido e contabilizado  no  programa  do seu partido,  previamente anunciado e debatido. Chamar entidades extra-terrestres  para uma disputa entre mortais, não sendo honesto,  passa as raias do ridículo. Deus não se mete nas lutas dos homens.
         No entanto, o episódio traz à colação uma realidade que, mais aberta ou mais sub-repticiamente, entra nesta “faena” cíclica: a Igreja. Acontece sobretudo nos meios rurais, de fraco aprofundamento cultural. E não são precisas sondagens para saber-se quanto a influência religiosa, por acção ou omissão, determina a direcção das vontades, exactamente  no acto de votar. E surge a pergunta: Deverá ou não a Igreja intrometer-se nestas batalhas campais, ser-lhe-á curial terçar  armas --- tomar partido --- a favor ou contra um dos dois ou mais contendedores? Para uma vaga comum de analistas, a resposta será não. Portanto, a Igreja ou os seus membros não devem pronunciar-se sobre opções de governação. É a linha da omissão. Outros há que advogam o seu contrário, argumentando com uma questão mais simplista: se os sindicatos e patrões, banqueiros e proletários,   intelectuais e operários entram nisto, por que não há-de a Igreja e seus acólitos usarem  do mesmo direito? Vai neste segundo sentido, a atitude corajosa do bispo emérito das Forças Armadas, Januário Torgal Ferreira, em recente e patriótica entrevista a um jornal diário.
Mas há quem discorde. Em que ficamos, então?
O assunto é tão vasto, levar-nos-ia tão longe, mas permita-se-me sintetizar uma saída deste intrincado labirinto de catacumbas sem fim. Primeiro que tudo, interroguemo-nos: de que Igreja estamos a falar? Da Instituição milenar, neste caso, vaticana --- ou de outra Igreja herdeira e multiplicadora da energia motriz que saíu, originária e viçosa, do seu fundador J:Cristo?
No caso da Instituição, ela apresenta-se, sem ambiguidades nem reticências:  é um reino, talhado à imagem do Império Romano, a partir de Constantino Magno, no ano 313 d.C., com uma hierarquia similar à estrutura militarizada de qualquer estado soberano, com títulos nobiliárquicos, cânones decalcados do Direito Romano, com tribunais próprios e embaixadores, eufemisticamente chamados “núncios apostólicos”, e até com um opulento  banco privado, onde chegam a camuflar  “offshores” de lavagem de dinheiro. Aqui chegados, é por demais evidente, imperativo mesmo, que a Igreja se abstenha de criar conflitos, manifestamente prejudiciais à sua estratégia diplomática, isto é, a de ficar bem com todos, prioritariamente com os poderes instituídos, ou seja, com os poderosos.
Mas há a outra Igreja, a que não tem palácios nem títulos, não conhece as passadeiras vermelhas dos monarcas, não se reveste da púrpura principesca,, pelo contrário, traja por vezes andrajosamente e anda com os “pecadores e publicanos”, como o seu Mestre, com os atirados para a valeta das periferias, com os que “não têm vez nem voz” --- não para mantê-los nos mesmos  ghettos, mas trazê-los à ribalta da humanidade e restituir-lhes a túnica estatutária da sua dignidade original, igualitária, solidária. O horizonte desta Igreja não é um trono, mas um cadafalso; não são as condecorações, mas os insultos; não são  as promoções mas as prisões. “Não podemos deixar de falar”, ripostaram Pedro e João diante dos juízes do Sinédrio, depois de serem sujeitos à humilhante tortura das chicotadas.  
         E agora, quid júris?  Que faremos desta Igreja anti-institucional? Como hão-de posicionar-se os seus membros?  Acomodados, acobardados, mudos e surdos perante os abusos do poder, das ambições coligadas, as falácias eleitorais, os cortes nas pensões, as emigrações forçadas, as fomes impostas, enfim, os atentados contra o corpo e contra o espírito?!... Aqui, chamo o citado bispo Torgal Ferreira para abraçá-lo, chamo o Padre António Vieira, o Padre Alípio de Freitas, o bispo Helder da Câmara, o bispo do Porto, António Ferreira Gomes (expulso de Portugal por Salazar), os madeirenses Padres Tavares e José Luis Rodrigues, o bispo Óscar Romero, da Nicarágua, assassinado em pleno altar por tomar a defesa dos camponeses oprimidos, enfim, toda uma legião de intrépidos lutadores, gente saudável, dinâmica, subindo a encosta dolorosa de outros calvários redentores da história.
         É com este J:Cristo que conta Passos Coelho  para ganhar as eleições ou é com o outro “Nosso Senhor”, da  velhinha crédula na Igreja-Império que lhe ensinaram?  Com a Igreja dupla, farisaica, que não suja as mãos na lama, que deixa morrer a vítima ensanguentada, à beira do caminho e passa adiante. É desta Igreja que os poderosos gostam e adoram, porque é dela que mais precisam. Tal como a da Madeira que, desde há 40 anos, tem servido, não apenas de bordão ou de almofada, mas de sórdida cama onde o governo se tem deitado e onde procriou a ninhada  de filhotes que hoje nos comandam!
         É à outra parada de “toca-a-marchar” que solidariamente me apresento. Não como militante de campanha --- as forças em campo que as façam --- mas para apurar o meu olhar de cidadania e colaborar numa terra em que todos temos o direito de viver, sorrir e amar. Também para derrubar essa blasfémia, seraficamente aceite pelo falsificador de promessas. Não chamem Deus onde Ele não deve ser chamado. Lutar, sim.  Inconformar-se, sempre. A este propósito, penso muito no Livro do Êxodo,  a Suprema Divindade a dizer: “Os clamores do meu Povo esmagado  no Egipto chegaram aos meus ouvidos”. Mas não desceu à mansão do faraó, para destroná-lo. Limitou-se a intimar Moisés: “Tu, Meu servo, vai depressa, te ordeno, vai lá libertar o Meu Povo”.
         Com o mesmo humor inicial, lembro aqui a traição de Maradona que, numa pirueta ilegal, marcou o golo da vitória com a mesma mão a que chamou “mãozinha de Deus”. Por favor, senhor candidato, cuspa para fora essa infâmia de contar com a “ajuda divina” para ganhar eleições! Qualquer que seja o resultado.

1.Out.2015
Martins Júnior

Agradecimento –  A todas as amigos e amigos que me acompanharam ao longo de um ano, no SENSO&CONSENSO.  Iniciei os “Dias Ímpares”, precisamente, em 1 de Outubro de 2014. Ininterruptamente, até hoje. É bom e é saudável conversar, em final de dia, no convés silencioso deste navio-écrã, chamado Blog.