sexta-feira, 13 de novembro de 2015

QUEM PODE DORMIR ESTA NOITE?



“Quanto ao mais, só poderemos ver quando os parisienses acordarem amanhã de manhã”  --- assim falava o repórter nos ecrãs da TV.
E eu pergunto: “Mas quem é capaz de dormir esta noite”? Não apenas em Paris, mas em todos os continentes, em todas as ilhas e lugarejos onde chega a informação!... Aqui na Madeira, aqui na Ribeira Seca e aí onde você se encolhe diante do televisor!
François Hollande, há pouco,  pedia  calma aos franceses. Mas como? Um turbilhão de emoções desconexas  e conclusões inconclusas confrontam-se no nosso psíquico.  Uma delas, a que mais me assalta neste momento, vem da  memória da guerra subversiva dos tempos coloniais, em que os que ali andávamos não  sabíamos  onde rebentaria a mina letal, se debaixo de um “unimog”,  se nos carreiros do capim, se à beira da caserna. Vejo, aterrorizado, que a estratégia da guerrilha clandestina da selva passou para as grandes cidades, para os estádios de futebol, para os oásis da cultura, as salas de espectáculo. Apetece gritar: “Este mundo não é para humanos, é para monstros ferozes”. E onde param os “turras”? … Talvez perto de nós, sentados à mesa do mesmo café, no mesmo apartamento! Doravante, já não cantaremos “em cada esquina um amigo”, mas tremeremos de pavor pensando desconfiados  “em cada esquina um terrorista”. O Mundo que os homens fizeram!
Transido de espanto  e desnorte, leio --- você também --- a notícia de que são muitos os jovens, homens e mulheres, não tanto dos bairros degradados mas da classe média, intelectual, que são recrutados em França, na Inglaterra, em Espanha e até no nosso Portugal, prontos a lutar ao lado das fanáticas tropas do Estado Islâmico. Mas porquê? Porquê? Quem explica tão abominável desiderato, ainda por cima, sublimado em mística existencial?
         Os analistas arrumam teses e hipóteses, o passado colonialista dos europeus, a falta de articulação dos serviços de  informação entre os países do Ocidente, a desenfreada  indústria armamentista, as arremetidas bélicas dos EUA, enfim, tudo certo e muito mais. A mim, o que mais me revolta e atormenta é ver uma Europa dividida, líderes cegos, de coração de pedra, entretidos em jogos prefabricados atirando os povos entre o eixo norte-sul, os “negrejeiros” exploradores (assim os classificava o nosso Eça)  assolapados nos bancos, nos BCE’s, FMI’s, nas multinacionais,  nos paraísos fiscais,  enfim, na “economia que mata”.  E, mesmo entre nós, as tramas do poder, as birras partidárias, os empates  tacanhos do Presidente. Esta gente onde é que tem a cabeça, onde pensam eles que estão seguros?... Podem arregimentar-se por detrás das muralhas do regime ou do dinheiro, enquanto o terrorismo entra-lhes furtivamente pelas traseiras do palácio, minam a sala do tesouro e esperam a hora da sexta para lhes estourarem os crâneos. O pior são as vítimas inocentes, duplamente estranguladas sem culpa nenhuma.  Como os 153  mortos desta noite fatídica em Paris.
         Por mais que nos queiram iludir com o “espantalho”  (até  disfarçam a pílula chamando-lhe  mito)  da religião, seja muçulmana, seja judaica, hindu  ou qualquer outra, o grande pomo da discórdia universal está no cofre da finança, o vírus de todas as guerras,  que torna, segundo o velho princípio, Homo lupus lupior, “o Homem é o pior lobo de si mesmo”. Do seu mais próximo.
         Quando --- talvez nunca! --- descobriremos que sem justiça distributiva, não haverá paz nem sossego e  nenhum de nós dormirá seguro no travesseiro a que tem direito?

13.Nov.15
Martins Júnior

   

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

VITORIOSO E LIVRE !



Já se sabia.
E já se esperava que o árbitro da vida havia de soar e dar por terminada a partida. Contigo a puxar, a vitória era sempre nossa. Agora é toda tua!
Outros ficarão com a merecida imagem do Sá, ternurento e dedicado, gigante e calmo. “Leão com coração de passarinho”, dizia-lhe eu muitas vezes, repetindo o poema de  Guerra Junqueiro. Onde estava o Sá, a paz estava lá, De tão alto que era, seus olhos mansos desciam ao nível dos nossos,  com o mesmo sorriso franco, que umas vezes era festa, outras ironia fidalga, mas sempre serena e segura. Até nas horas amargas que ele, em finais da sua vida pastoral,  curtiu em silêncio perante a incompreensão de certas hierarquias. Só com os amigos desabafava, com mágoa mas sem rancores. Porque ele era maior que a vil baixeza dos mortais pigmeus.
Mas eu prefiro vê-lo na sua e minha juventude, alinhando nos “Maias”, o club rival do “Lusitano”, a que pertencia o Sumares, (saíu mais cedo do torneio da vida).  No parque de jogos do Seminário da Encarnação e, mais tarde, noutros campos de volley  da cidade com equipas oficiais, era o Sá o puxador  e  eu o seu inseparável passador/servidor. Estou a sentir-me mais leve só de lembrar-me quando lhe levantava a bola e ele, atlético,  vistoso e altaneiro, de braço esquerdo ou direito, de frente ou de costas, fazia estalar o campo adversário e enchia de aplausos as bancadas assistentes.  Ele era ali, de nome próprio, "Arcanjo" dominador na peleja construtiva entre amigos do desporto! Formávamos uma dupla tão perfeita, modéstia à parte, que o velho Nacional, então uma das melhores equipas da modalidade em Portugal (eram os tempos do famosos Serrão, do polivalente Teixeira, já transferidos para mais longe) pretendia incluir-nos  no seu plantel.  Dá-me gosto escrever este parágrafo para demonstrar a quem não saiba que naquela expressão de  pacifista nato morava uma central energética de força vital que, na hora certa, expandia fulgor e chama  à sua volta.
Deixou-nos no dia de São Martinho, numa  manhã clara e efusiva como ele queria fosse a vida de toda a gente.
Desta vez, foste tu que transpuseste a rede fatal do estádio da vida. E, por enquanto, fui eu a fazer-te o “passe” para o remate final. Até que um dia outros me passem a bola para alcançar o outro campo onde já te encontras vitorioso e livre. Como  saem os heróis anónimos na hora do apito final!

11.Nov.15
Martins Júnior

   

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

PRIMAVERAS NO OUTONO


       São de sol e azul os dias primeiros deste Novembro em flor. E é nessa onda aberta que me apetece surfar. Não para falar do clima que a tradição  chama “verão de São Martinho”,  mas para trazer à varanda da tarde três acenos de primavera que nos chegam, de perto e de longe. No meio de nuvens negras como aquelas que cada vez mais escurecem os nossos ecrãs domésticos,  é bom e é saudável encher os pulmões de ar fresco, sobretudo quando ele sopra de desertos longínquos…
O primeiro veio de Myanmar, antiga Birmânia, onde uma mulher, prisioneira da ditadura durante 21 anos, acaba de  ganhar as primeiras eleições livres do seu país  e abriu o caminho para ascender à cadeira de Primeiro Ministro.        É uma epopeia de luta e martírio a sua vida de 70 anos de idade. Defensora dos Direitos Humanos, foi galardoada em 1991 com o Prémio Nobel da Paz, mas impedida de o receber pessoalmente, o que só veio a concretizar-se   em 2012, após a libertação da prisão militar.  Lição de vida e bandeira de esperança para todos os resistentes como ela! Por muito que   custe subir a montanha é lá o lugar vitorioso do nosso Povo.
         A segunda aragem primaveril, lufada de ar puro sobre os antros da podridão, vem de Roma. Pensarão os puritanos do embuste “sagrado” que se trata de um escândalo indigno de apresentar-se à luz do dia. Mas não. Pelo contrário, fez-se luz nos hipócritas aposentos do Tesouro do Vaticano, onde campeia a corrupção, contra a qual tanto se tem batido o Papa Francisco, ao ponto de ver-se rodeado de lobos rapaces, travestidos de cardeais.  Os dois livros recém-publicados abrirão os olhos ao povo crédulo que nem imagina que as “esmolas”  que dão à Igreja não revertem para os pobres mas correm sigilosamente  para os cofres particulares, neste caso para os grandes bancos e para acções em companhias petrolíferas.  
O terceiro sopro de Primavera chega-nos da enigmática Singapura, onde dois povos irmãos, mas desavindos desde 1949, deram as mãos, quando os dois presidentes, Xi Jinping, da China, e Ma Ying-jeou, de Taiwan, puseram fim a quase sete décadas de hostilidades fratricidas.  Exemplo de conquista democrática dos valores que seguram a nação, os dois governantes descobriram o conteúdo da velha máxima: “É a união que faz a força”.
Não obstante a aluvião  das desventura que todos os dias nos atacam  os olhos e a alma, é consolador e construtivo para o corpo e para o espírito sentir passar pelo rosto a brisa suave de notícias positivas. No mesmo feixe de optimismo saudável,  junto a Aliança “Povo- MFE” (Movimento das Forças de Esquerda) que neste outono português nos brinda com a nova atmosfera política de merecida Primavera.

9.Nov.15

Martins Júnior

sábado, 7 de novembro de 2015

SAUDAÇÃO E APELO



Tinha  eu preparado esta minha saudação ao deputado Edgar Silva desde o dia em que se apresentou como candidato à Presidência da República Portuguesa. Na minha saudação, porém, estava implícito um outro desiderato de maior envolvência nacional. Hoje, sábado, com redobrado entusiasmo, retomo a iniciativa, pelos motivos que mais abaixo mencionarei.
Num primeiro olhar, seja-me permitido registar --- lamentavelmente, reconheço --- a fraca repercussão na comunicação social regional  daquilo que deveria ter sido  notícia de grande plano: um homem ilhéu, madeirense de gema, escolhido pelos órgãos  da sua formação partidária para aceder, como candidato, à mais alta magistratura da nação. Para mim, este acontecimento insere-se na esteira gloriosa e dinâmica de certos vultos ilhéus na vida política do país, destacando-se, em primeiro lugar, a personalidade ímpar de Manuel de Arriaga que, embora natural dos Açores, foi deputado pelo Funchal em 1883, repercutiu o mandato nos alvores da República, em Abril de 1911 e  culminou o seu estatuto político na primeira eleição democrática pós-1910 como Presidente Eleito da República Portuguesa em 24 de Agosto de 1911. Outro nome ilustre foi Manuel Gregório Pestana Júnior, nascido no Porto Santo em 16 de Agosto de 1886, figura incontornável da luta contra a ditadura, tendo exercido o cargo de ministro das Finanças em 1924. No mesmo roteiro de políticos madeirenses de relevo nacional, vejo ainda o general José Vicente de Freitas, natural da Calheta, que chegou à Presidência do Conselho de Ministros em 1928.
Interpreto, pois, a candidatura de Edgar Silva nesta linha de afirmação da identidade insular promotora da unidade nacional. Creio firmemente que a sua escolha não foi o resultado de exclusão de partes, pelo contrário, constituiu uma prova da sua resistência a um regime opressor e injusto e, por isso, merece a nossa  melhor atenção. Viu-se na sua apresentação pública um político maduro, interventor  (q.b. a um Presidente da República)  que agitará, juntamente com outros que se posicionam no panorama português, uma nova consciência nacional e a necessidade de um voltar de página neste ambiente de promiscuidade, senão mesmo de proteccionismo a um executivo que não hesita em sacrificar o seu Povo para pavonear-se em Bruxelas, à custa do sangue, do suor e até de lágrimas incontidas dos portugueses.
E é precisamente nesta direcção essencial que tinha preparado a minha saudação:  Que o deputado Edgar Silva utilizasse a sua magistratura de influência (que já a possui por mérito próprio)  junto do seu partido afim de que selasse inequivocamente o apoio ao acordo de convergência de Esquerda na construção do novo Portugal que está a nascer. O Povo Português, consubstanciado nos partidos da oposição, votou absolutamente contra a coligação anterior. E nenhum de nós pode deixar perder esta oportunidade única, sob pena de traição à soberania popular. Verdade que já vimos a luz ao fundo do túnel com a manifesta anuência do BE e do PCP, através dos compromissos publicamente assumidos. Mas é estruturalmente imperativo que se não deixe nenhuma brecha por onde se queira introduzir  a enguia matreira do julgamento presidencial para fugir à Constituição  no que se refere à indigitação de um outro Primeiro Ministro. Está chegando a hora de criar a tão almejada   hora da  Aliança  “Povo-MFE” , isto é,  Povo-Movimento das Forças de Esquerda.  Ainda que seja preciso baixar as armas do “fogo amigo”, limar arestas, distribuir faseadamente  no tempo ideais e soluções estratégicas originais. Como já o afirmei, há um bem maior a defender: demonstrar que a Esquerda sabe unir-se mais que a Direita, quando está em causa o supremo interesse do Povo Português.
“Les jeux son faits” ou “os dados estão lançados”,  bem poderia dizer Sartre nesta hora de combate entre mentalidades e metas.  Hesitar é perder.
Se o candidato Edgar Silva promover dentro das suas fileiras este indestrutível “sentimento nacional”, então terá construído os degraus de basalto rijo para que suba a Belém um Timoneiro Ideal que leve a bom porto a “Jangada de Pedra” que é Portugal.

7.Nov.15

Martins Júnior

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Nos bastidores da vitória da Esquerda Unida - ENTRE O MEDO E O LUCRO


Até ao dia 4 de Outubro, o futuro de Portugal estava directamente nas mãos do Povo. Após o 4 de Outubro, o poder passou para as mãos dos representantes do Povo soberano: a Assembleia da República. Enquanto se não perceber que a soberania originária popular outorgou procuração à soberania delegada nos deputados (o que alguns pretendem acintosamente baralhar) nunca se entenderá que estamos num mundo novo de oportunidades inimagináveis, capazes de alterar a visão estática da política até agora assentada em moldes imutáveis.
Para que os portugueses nunca vislumbrassem esta nova descoberta de estar na política, bem se esforçaram os velhos poderes em semear ao vento que passa os fantasmas do medo mais primário e pré-histórico: se nada for como dantes, se não for como nós, o mundo será um caos, não há alternativa,  teremos um  Portugal suicidário. Apesar de todo o anunciado terror, a soberania originária popular disse que não queria mais o “antes”, repudiou claramente o governo dos semeadores de fantasmas. É esta, entre muitas, a leitura global da votação do 4 de Outubro. A coligação pode ter a presunção, mas não tem o direito, de validar apenas os votos concordantes com a sua governação. Os que votaram contra essa governação são tão válidos e imperativos como os que votaram a favor. Tudo apurado, os que votaram “contra” são a maioria. Se essa maioria soberana, espelhada nos partidos da oposição,  quiser interpretar (como é seu dever) o sentido último da votação popular tem de  ser-lhe coerente e concluir: temos de dar as mãos e apear a coligação de Direita, sob pena de traição à vontade dos nossos constituintes, o Povo Português. É aqui que faz todo o sentido o pensamento de Toncqueville: “os deputados são representantes do Povo soberano, mas  não são representantes soberanos da vontade do Povo”.
Abro um parágrafo para insistir que a intencionalidade maior e conclusiva dos eleitores foi exprimir, pelo voto, aquilo que por tantas e incisivas manifestações em frente à Casa dos Deputados denunciaram assumidamente: derrubar as políticas duras e cruas deste governo. E não há mais volta a dar. É de um requinte mórbido o escrúpulo interpretativo dos insensíveis PSD/CDS que, com as mesmas unhas com que sangraram o Povo, procuram agora com pinças esterilizadas sarar-lhe as feridas, alegando que “quem votou PS não o fez para este juntar-se às outras forças de Esquerda”, como balbuciou o risonho Durão Barrosos, logo ele, em quem o Povo votou para Primeiro Ministro e quando viu a primeira aberta fugiu para a Europa, deixando ainda mais  “de tanga” o  país nas mãos do “voluntário-à-força” Santana Lopes.
Precisamente para serem fiéis à procuração que lhes passou o Povo soberano --- afastar a coligação e as suas políticas --- tanto se têm esforçado PS/BE/PCP em sucessivas reuniões de trabalho. Eles sabem que, maior que o eventual acesso de António Costa a Primeiro Ministro (como repetida e venenosamente tem insinuado a coligação) maior que essa episódica mas inevitável situação, está a vontade de cumprir o superior interesse do Povo Português. Daí, o medo (mas um outro, de sinal positivo) o medo de errar. Chegar ao alto do monte, por caminhos diferentes à partida, eis o grande esforço que a “maioria absoluta” dos eleitores pôs aos ombros dos seus legítimos representantes. Aproximar diferenças, limar arestas, adiar ou distribuir faseadamente os projectos  --- é esta a hercúlea tarefa dos responsáveis pelo futuro de Portugal. A Direita que nem apresentou programa eleitoral anda tresloucada por saber os termos do acordo.  A Esquerda responsável, porém, tem medo de errar  porque tem palavra e honra e não quer seguir o atrevido despudor de Passos Coelho que na campanha eleitoral de 2011 prometeu o “céu” aos portugueses e, logo a seguir, criou-lhes o inferno da mais vil austeridade.
Entre o medo de errar e os lucros adquiridos! Eis o drama e a glória das forças de Esquerda. Imagino os labirintos intra-partidários em que se debatem dirigentes e correlegionários, dentro da própria casa, para acautelar e, se possível, ampliar interesses, lugares, influências e até ideais e linhas de acção: uns quererão assegurar o posto e altear a bandeira do partido; outros, de mãos livres e alma inteira, querem ir mais além e demonstrar, pelo menos em quatro anos,  que governar não é monopólio da Direita, pelo contrário, governar para o Povo é apanágio e privilégio da Esquerda.
Quem me dera colocar esta toalha sobre a mesa das conversações ou no palco dos plenários de militantes. Para esconjurar os “zombies” da Direita que ameaçam com o fantasma da Europa e respectivos tratados, E em nome do Povo proclamar esta evidência: já que os deputados e governos da coligação foram  procuradores e advogados de Bruxelas em Portugal, doravante os deputados e governantes da Esquerda Unida serão os fiéis representantes e legítimos defensores do Povo Português na Europa.
Seria mais cómodo segurar a cadeira e ficar na oposição em perpétua vocação de protesto. Ir à luta, assumir riscos, inclusive o de pisar inertes linhas vermelhas --- isso é que custa. Mas isso “é o que falta”, aqui e agora. Com esta certeza, porém, no horizonte final:
Ganhando, ganhamos todos. Perdendo, perdemos todos.


5.Nov.15

Martins Júnior

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

NO CORAÇÃO DE LUATY BEIRÃO BATE O NOSSO CORAÇÃO!


         Irresistível e necessário revisitar Pessoa, a síntese de todas as fulgurações que emanam da infinita galáxia da história dos homens e das coisas:

                            Aqui ao leme sou mais do que eu
                            Sou um Povo que quer o mar que é teu

         De Ulisses ao Gama, de Moisés ao Cristo, de Joana d’Arc  a  Gandhi e Luther King. E de todos a Luaty Beirão! A causa de um só homem  torna-se o íman de todo um Povo. A sua luta atravessa  todas as latitudes da história humana e faz do planeta um inteiro e único campo de batalha. Em Luaty Beirão mora uma legião, cujo clamor --- ora clandestino e abafado, ora ostensivamente manifesto --- faz aproximar o tsunami perante o qual as ditaduras terão de vergar-se, a curto ou a longo prazo. Tal como a fatídica noite do fascismo em Portugal amordaçou, deportou e esquartejou centenas, milhares de resistentes anónimos, assim também todos os que têm pago (e muitos são, exemplar o do jornalista Rafael Marques) com  a prisão e a própria vida o posicionamento corajoso contra um neo-colonialismo, mudado de cor, politicamente identificado com a violência doméstica entre irmãos da mesma etnia, todos eles “fortalecem mais a independência de Angola do que o regime de José Eduardo dos Santos em 36 anos de regime”, escreve Alexandra Lucas Coelho. E acrescenta: “O que Luaty moveu em muitos milhares de pessoas é irreversível”. A greve de fome de Luaty, em 36 dias,  ultrapassou até os sucessivos jejuns de Gandhi, entre 1914 e 1948, sendo de 21 dias o mais prolongado, em protesto contra o colonialismo britânico e a supremacia dos brâmanes. Mas deixou raízes que se abriram em flores e frutos historicamente pujantes.
         Não vou reimprimir aqui a eloquente soma de apoios que, em África e em Portugal, têm surgido em prol da causa heroicamente propugnada por Liaty Beirão e seus companheiros. Não resisto, porém, a traçar em breve síntese o cenário sóciopolítico de uma África, onde são frequentes e sangrentas as investidas do poder contra quem se lhe opõe, as quais transformam  os imensos territórios desse continente em sudários de sangue .e horror, entre abusos inomináveis e guerras civis, mais devastadoras que as guerras coloniais. Será talvez o inevitável percurso de séculos da escravatura em direcção à conquista da autodeterminação e da independência. Mas eu que, mesmo metido forçadamente na guerrilha entre portugueses europeus e portugueses africanos, sempre aspirei no mais íntimo de mim mesmo e em atitudes concretas ao respeito e à independência desses povos, sou obrigado a reconhecer, com mágoa e revolta, que os africanos, uma vez no poder, herdaram do branco o pior que o branco tinha: a prepotência,  a ganância do dinheiro, a desumanidade  do “dente por dente, olho por olho”, enfim, o regresso às lutas tribais de outrora. Correndo o risco de desagradar aos poderes instituídos, manda-me a consciência atestar o que, de forma directa, observei no pós-independência. Temo que se esteja perante um estranho fenómeno de auto-racismo.
         Falei na luta entre tribos. Porque as vi com os meus próprios olhos.  E aí esteja talvez a explicação de determinados abusos do poder. É que muitos anos, muitas décadas faltarão ainda para que as diversas etnias africanas interiorizem o sentido de nacionalidade, naquele conceito de unidade de um povo sob a mesma idiossincrasia e a mesma bandeira. É este o parecer unânime dos sociólogos e antropólogos que se debruçam sobre a realidade africana, como refere o excelente trabalho de investigação de Joana Gorjão Henriques. Cito, por todos, Elias Isaac, nascido no Lobito e director  da ONG “Open Society Iniciative of Southern África, situada em Luanda: “Houve independência, mas não descolonização das mentes”.  Paulo Faria, cientista político, autor de uma notável análise sobre o mesmo tema, completa assim o pensamento: “Angola é um mosaico de vários grupos étnicos e matrizes linguísticas. Cada grupo tem a sua língua e estes grupos vão construir a sua identidade etnopolítica”. E continua: “A Angola pós-1975 vai ser o produto disso e uma das grandes bandeiras foi vender a ideia de “um só povo, uma só nação”, fazendo um corte com uma Angola que tem este mosaico multiétnico e racial”.
         Sobre estas milenares placas tectónicas, tentaram construir uma  generalizada independência  dos vários países africanos. Puro engano. As movimentações, de dentro e de fora, emergem de tal forma que o poder concentracionário tem de defender-se e arregimentar-se até ao último cartuxo,  afogando de imediato e por todos os meios ao seu alcance quaisquer tentativas de desestabilização do “império deles”. Em cada esquina, em cada livro vêem um conspirador. E assim se formam as ditaduras, abertas ou disfarçadas. Nós, madeirenses, temos no minúsculo território civilizado da ilha uma amostragem desses comportamentos autocráticos, quando, a pretexto de autonomia, mantivemos no poder um homem que, orgulhosamente só, se ufanava de estar no poder mais tempo que Salazar e, pelos vistos, mais que os 36 anos do presidente angolano…
         Mil vezes dobrada luta a de Luaty Beirão e seus companheiros de cela! Estamos com eles. E saudamos o fim da greve de fome. É imperioso que ele se reerga e avance decidido como bandeirante de uma causa que nos toca a todos. As ditaduras islâmicas e o dramático cortejo de refugiados que chegam à Europa aí estão para demonstrar que é a montante que se ganha a batalha pela liberdade. e pela universalidade dos direitos humanos neste globo que é cada vez mais aldeia.  Sublime, porém, é a carta que Nuno Álvaro Dala, um dos 15 prisioneiros escreveu em nome de todos e que a citada jornalista trouxe a público: “Não odiamos o Presidente da República nem aqueles que executaram a trama urdida contra nós. O perdão é o melhor caminho… Pedimos a todos os angolanos de bem que perdoem a essa gente”!
         Em homenagem aos resistentes aponho idêntica mensagem dessoutro prisioneiro lutador pela liberdade, o nosso, muito nosso poeta de Machico, Francisco Álvares de Nóbrega,  num dos seus sonetos:
                  
                            “Das almas grandes a nobreza é esta”.
          
         É na grandeza de alma de Luaty Beirão e de todos os “Luaty’s” do mundo inteiro que cada um de nós,  à semelhança do “homem do leme” de Fernando Pessoa, deveria bradar energicamente no rosto de todos os ditadores: “Aqui na cadeia ou no exílio, aqui na ilha ou mais além, sou mais do que eu. Sou um Povo que quer o reino que dizes ser teu, mas que  é  nosso e será sempre nosso”!

3.Nov.15
Martins Júnior

domingo, 1 de novembro de 2015

DIAS GÉMEOS DE OUTONO NA PONTE ROLANTE DO COSMOS



Três dias inseparáveis que reúnem a síntese ímpar da vida: 31 de Outubro - 1 de Novembro - 2 de Novembro. Neles se condensa a viagem do ser humano neste planeta: palmas de vitória e noites de amargura, gestos heróicos e atrocidades sem nome, génios e medíocres, são todos companheiros de jornada até ao “campo santo”, o cais da saudade




Não sei para onde vai a ria
Se para a foz se para a fonte
Só sei que hoje é a travessia
Daquela  ponte
Onde me perco e me encontro
E onde se parte e abraça
O círculo-mistério que traça
E comprime
O que não tem começo nem termo

Vem a terra toda comigo
O canto da cotovia
E o agoiro antigo
Das bruxas nocturnas soturnas
Ventres de ouriços abrindo em  castanhas e nozes
Do pão-por-deus das crianças em festa
E vêm génios farrapos de vozes
Coladas ao vento que as leva
Sem ter ninguém que as guarde

Nos degraus da roda dentada
Há uma tábua que arde
E outra gelada
Estalam foguetes à gargalhada
E gemem os gonzos nos ossos doridos
Nos dedos partidos

É o mundo todo que roda
Na cósmica ponte
Nova barca de Caronte
Rumando ao cais
De onde ninguém volta mais.
Ali entrega viajante e bagagem
Trocam lenços brancos 
Adeus adeus  boa viagem
Torno já  à outra margem
………………………………………………………

Mas um rio
Silencioso corre
Sob o chão frio
Onde se chega e se morre

É o pranto
desta e de outra idade
Que estende o térreo manto
Onde a mão da humanidade
Deixa viver a saudade

31Out.1-2.Nov.15
Martins Júnior