domingo, 13 de dezembro de 2015

NOVO LIVRO DO GÉNESIS

 Ao jovem casal que ontem se enlaçou nas ameias da velha fortaleza



Nos jardins do castelo antigo
Onde outras eras se somem
Ergueu-se o Primeiro Homem
Nasceu a Primeira Mulher

Chame-te Ulisses quem quiser
E a ti Penélope a fiel dama
E até Shakespeare vos chama
Julieta e Romeu
Mas eu
Ancião vidente mesmo no meio da treva
Não tenho outro pregão
Senão chamar-te o Novo Adão
E em ti saudar-te a Nova Eva

Convosco
A História toda recomeça
Dentro de vós a promessa
Rubra esperança  verde grito
De um novo mundo a abrir
Em cânticos de festa
E acordes de Infinito

Aqui entrastes
Namorado cavaleiro
E mítica princesa


Aqui fez-se o milagre
Que eu tanto  procurei
E o castelo todo sente e adivinha:
Doravante sereis vós
Sua Alteza
Nelson - Rei
Sua Beleza
Sandra – Rainha

13.Dez.15

Martins Júnior

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

CLIMA DE CORRUPÇÃO E CORRUPÇÃO DO CLIMA --- onde são arguidas as religiões

           
              Imagino que o mesmo se deve passar convosco: é que há instantâneos na vida que nos chocam como um relâmpago. E, como um relâmpago, projectam um raio de luz tão fugaz quanto impressivo no nosso subconsciente adormecido. Do susto inicial passamos  descoberta de  pistas que umas vezes confortam, outras vezes perturbam. E interpelam-nos até à medula dos nossos conceitos ou preconceitos.
         Foi um dia destes. Atravessava eu a corredora,  quando um rádio-ouvinte da Antena Aberta sobre o cancro da corrupção que corrói a sociedade, chama à liça o problema religioso e, sem titubear, emite esta estranha opinião: “Quem muito tem contribuído  para o vício da corrupção é a Igreja Católica, porque na religião luterana as coisas não se passam assim. A educação católica ensina a devoção mas não dá a formação às pessoas”. Parei, atónito, com o relampejar  seco desta afirmação, sentei-me e pus-me a matutar num facto que atravessa o  quotidiano dos nossos noticiários e respectivos comentadores: enquanto entre nós, no sul, os corruptos e corruptores continuam nos cargos e até chegam a ser promovidos,  sucede que nos países nórdicos, por muito menos, demitem-se ou são demitidos imediatamente. A história mostra que os anglo-saxónicos optaram pelo luteranismo e, em contrapartida,  os do sul-europeu pelo catolicismo,  supostamente evangelizador.
Como num caleidoscópio efervescente passaram-me pela retina as cenas dos  cristãos-novos, a Inquisição, os escritores e cientistas que tiveram de sair de Portugal e exilaram-se na Holanda, na Alemanha, onde foram bem recebidos, caso do nosso Damião de Góis. Logo de rompante, acudiram-se à memória as “Conferências do Casino”,  em 1871, com a famosa (e fatal para o projecto) dissertação crítica --- Causas da decadência dos Povos Peninsulares ---  em que Antero de Quental acusa a pusilanimidade e a dependência de Portugal e Espanha aos dogmas de Roma, em vez da plena libertação da criatividade do espírito humano. A tudo isto chega e  cai-me nas mãos, esse duplo “atentado” ao sagrado mito do Vaticano. Refiro-me aos dois livros “malditos” --- Avareza, de Emiliano Fitipaldi e Via Crucis, de Gianluigi Nuzzi, ambos jornalistas --- cujos testemunhos, cópias de documentos oficiais sigilosos, denunciam a ganância e a corrupção nas entranhas da sede do vicariato de Cristo,  abusiva designação esta  que nos tem sido martelada ao longo de séculos.
         Não poderei pedir às escassas dimensões desta página intermitente a exigência de um estudo comparado das religiões. Tão-só, responder ao assalto que o relâmpago daquela frase causou dentro de mim. Será que nos subterrâneos da corrupção correm, porventura, os lençóis freáticos da religião, que lhes dá forma e fundo?... Contra factos fenecem os argumentos. E eles aí estão escancarados na via pública, em proporções diversas, sendo certo que os pesos pesados impendem sobre a Igreja, como instituição.
         Seja qual for a opinião de quem me lê, deixo aqui alguns tópicos para ulteriores reflexões. Em primeira mão, é consabido que as teses com que Lutero cimentou o seu código religioso incidiam contra o luxo e a megalomania do Papado que, a troco de dinheiro, vendia, aos talhões (ou alugava, a prazo) as mansões do Além, tal qual os que fazem contratos  promessa de  compra e venda dos terrenos da romântica lua. Excomungado, sistematizou o seu “corpus” doutrinal, integrando conceitos e valores de filósofos, seus contemporâneos, aperfeiçoada por correligionários subsequentes. Sem perder-me em longas citações, recortarei  o nobre conceito de consciência profissional, expresso  no normativo: “ O exercício da profissão é uma verdadeira ‘vocação’ (Beruf), em ordem ao bem comum”,  como soberanamente expressa Cromwel  na famosa carta, escrita em 1650  ao Longo Parlamento: ”Queiram acabar com os abusos de todas as profissões. E se houver uma que faça muitos pobres para dar origem a poucos ricos, isso não serve a comunidade”.
         Nisto converge também  a doutrina social da Igreja. E os factos?...        
Cabe aqui citar Vianna Mog, consideradas as devidas distâncias, no livro Pioneiros e Bandeirantes  (1958):  “A doutrina calvinista que dignifica a riqueza e aquele que sabe honestamente conquistá-la, está na base da superior prosperidade dos Estados Unidos… Nós parecíamos crer na  hipérbole  evangélica: ‘É mais fácil a um camelo passar pelo fundo de uma agulha  do que a um rico entrar no Reino dos Céus’. E, compadecidos dos pobres, por todo o mundo português se espalhavam as misericórdias, reveladoras da nossa caridosa humanidade --- mas também dos defeitos que a tornavam particularmente necessária, na Metrópole como no Ultramar”.
         Façamos uma pausa final. E frontalmente interpelemo-nos: “Não será que, a coberto de misericórdias e sofisticados assistencialismos, estaremos a consentir  e a multiplicar defeitos (corrupções), em vez de proporcionar a cada um o direito de recolher dignamente o fruto do seu trabalho?...  
Imperceptivelmente, o clima de corrupção torna-se tão  ou mais  danoso  que a corrupção do clima.

          11.Dez.15

         Martins Júnior

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

AO JOÃO - IRMÃO CÓSMICO - QUE SEMPRE FEZ E SEMPRE FARÁ ANOS EM 9 DE DEZEMBRO




Partiste na Semana Maior
Foi a tua paixão e morte …
Ressuscitar-te
É agora a nossa parte

Deixar de ver-te
E ouvir-te
A voz estóica e meiga
É o preço de sentir-te
Em cada pedra
Em cada quarto
Em cada manga  do teu quintal

Cavaleiro andante
Por mar e ar e terra
Em ti se cruzaram continentes,
Oceanos, corações,
Pulsações abissais, frementes:
Deu-te o Lobito as capas negras a haver
Chamaram-te os Meninos de Huambo
E tu subiste ao Planalto

Aprender  cantar e ensinar
Quanto custa a Liberdade
Depois,
Falou mais alto
O chão de Malangatana
Onde ambos sentimos
O apocalipse das cores
Naquela catedral feita cabana

Chamou-te Caveirinha,
E tu vieste, asinha,
No rasto do velho tambor
Da floresta
Por enquanto só tambor…

Irmão João
Irmão cósmico
Irmão de todos os nus
Como nos disse o Zeca
A tua e a minha mão
Dentro da sua mão


No dia do aleluia
E do hossana
À mulher moçambicana
Levam-te aos braços
As mulheres que te amaram
A suprema e nossa Maria Calaça
A sempre tua Aldovanda
Toda a mulher eterna:
Mãe negra
Mãe branca
Mãe sol
Mãe  Lua – Mãe Terra
Mãe África
Que tudo te deu
E a quem tudo deste
Com mais gosto que custo

E mais que o Código de Direito
Interpretaste o Cânon maior
A Bíblia de ser justo

“Lembras-te, irmão Zeca,
Assim me perguntavas,
Do que dizia a nossa mãe:
Deixa o ter e ganha o ser
E o mal que te fizerem
Paga-o sempre com o bem

Mas não  respondes
Nem te escuto
Irmão obreiro de infinitas pontes
Raiz atlântica das ilhas
Flor e fruto
Em terras de Maputo

Quando encontrares o cais
E se houver cais
Espera
Conta comigo
Já faltou mais…

Daqui a pouco
A tua cinza
Poalha de estrelas
Levará nas ondas do Índico
O universo do teu corpo…

Ressuscitar-te
Agora e sempre
Será a nossa parte!

Dito por mim na Sala Nobre de Maputo perante o esquife do meu querido irmão João, no ofício fúnebre que precedeu a cremação e o lançamento das cinzas no cais de Maputo. Era o Domingo de Páscoa de 2012.

09.Dez.15
Martins Júnior.



segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

1000 DIAS = 1000 ANOS = 2000 ANOS


Tal como as águas dos  rios que serão tão puras  e genuínas quanto mais se aproximarem  da nascente original, assim também há pessoas que se transcendem a si próprias e em todo o seu ser  reflectem a limpidez transbordante do grande rio da história. Por elas circulam as fontes de outras eras e nessa mesma dimensão ganham altitudes e latitudes como se de gigantes vivos se tratassem. Por mais paradoxal que nos pareça a sua estatura, afinal elas não são mais que o fio de água fresca saída da rocha milenar que lhe serviu de seio materno.
É nesta imagem longa que hoje vejo  Giorgio Bergoglio, a personalidade mais desconcertante e, ao mesmo tempo, mais imponente e admiranda deste século.  Porquê?...  É que na transição desta noite para o dia de amanhã  perfazem-se 1000 dias do pontificado de Francisco Papa --- “bispo de Roma”, como ele próprio quis chamar-se.
Rios de tinta e quilómetros de película estender-se-ão sobre a sua presença no mundo que habitamos. Panegíricos, marchas triunfais, poemas e hossanas já foram tecidos e muitos mais tecer-se-ão em homenagem àquele que parece ter vindo “de um outro mundo”. Não será hiperbólico dizer-se que para o grande universo de crentes e não crentes, ele surge com o brilho e espanto de um inquilino “extraterrestre” no palácio do Vaticano. Diria mesmo, de um intruso na colunata barroca de Bernini, corpo estranho  entre o génio aristocrático de Miguel Ângelo e Leonardo da Vinci. E volto à mesma pergunta: Porquê?
E a resposta deixa-nos vencidos, desarmados: é porque ele não é mais que o fio de água genuína saído da nascente originária. Nos 1000 dias das sua passagem estão escritos 1000 anos, 2000 anos, enfim todos os  séculos e milénios do que de mais belo e simples possui a condição humana. No que concerne à narrativa histórica da Igreja Vaticana, o que de mais claro se pode dizer --- e nisso está o “fenómeno Bergoglio” --- é que ele veio abrir  portas e janelas de um armazém bimilenar, dourado  por fora mas estruturalmente  poluído por dentro. O espanto está onde não deveria estar. Como já tive oportunidade de constatar, Francisco Pontífice --- etimologicamente,  “ponte” entre-rios --- não fez mais que o óbvio: raspar as paredes do Vaticano, caiadas de ouro e prata, ao longo de 21 séculos, e restituí-la à cantaria nua e pura da sua construção original.
Alguns outros foram os que --- rari nantes in gurgite vasto, “raros nadando  no imenso abismo”, como dizia  o poeta Virgílio --- tentaram e conseguiram fazer com que a sede romana fosse a casa universal, tornando habitável o lugar que deveria ser a  Belém  do Ocidente, onde o Mestre renascesse todos os dias.  Pagaram, porém, com o exílio e até com o próprio sangue tão nobre e tão evidente tarefa, porque outros, o grosso da manada, voltaram a desumanizar aquilo que era sagrado.
Aqui poderia cotejar o pensamento de Bergoglio com o de escritores e profetas, sábios e teólogos, mestres e mártires de outros tempos. Cito,  por todos, o paradigma imorredoiro que hoje, 7 de Dezembro,  se comemora:  Ambrósio, bispo de Milão, jurista brilhante, que, mesmo não baptizado,  o povo escolheu como pastor da sua diocese, tendo recebido no mesmo dia o baptismo, o sacerdócio e a sagração episcopal. Na história ficou para sempre a atitude intrépida de Santo Ambrósio que, no século IV, tendo tomado conhecimento que as tropas do Imperador Teodósio invadiram a população indefesa de Tessalónica, proibiu o Imperador de entrar na catedral sem que, primeiro, se penitenciasse durante meses, descalço, nas neves dos Alpes.
Se acreditasse nas teses budistas, não hesitaria em proclamar, sem peias de espécie alguma, que Francisco Papa é hoje a reincarnação viva  desses heróis de antanho, direi, do próprio Cristo --- os quais, se cá viessem, poriam os seus pés nas pegadas do Mensageiro da Paz --- a Paz, esse    almejado troféu, arduamente conquistado  na luta pela Verdade e pela Transparência sem medos.   
  Saúdo, pois, militantemente os  1000 dias  que são 1000, 2000 anos passados. E outros 1000, 2000 anos vindouros! Se houver quem lhe siga o corajoso percurso…

07.Dez.15

Martins Júnior

sábado, 5 de dezembro de 2015

CANTEM-ME UMA CANÇÃO DE NATAL, MESMO DISTANTE!


“Porque  hoje é sábado, amanhã domingo” --- diria com Vinícius de Morais --- a leitura é breve e, com ela, breve será a escrita. E também porque há um quase-tédio deslizante nestes dias em que oficialmente só se fala de contas, cifras, deficits, tratados orçamentais. Sinto-me, pois, metalizado, cifrado, taxado. Em parlamentos e gabinetes executivos, só se ouve falar em Programas, Orçamentos e “almofadas” financeiras, mesmo fugazes ou inexistentes. Não sei se o mesmo se passa com o comum dos cidadãos, mas o facto é que chega a provocar carradas de tédio e descrédito o ruído sem tréguas que nos massacra  os ouvidos e a mente nestes que são os últimos dos trezentos e sessenta e cinco dias de 2015.
E se sairmos dos corredores  governamentais para a praça pública, o rumor dos  metais sonantes barra-nos o caminho para onde quer que vamos. São as IPSS, são as Misericórdias, são os Bancos, são as Empresas.  As tarifas,  os transportes,  as alcavalas à-última-hora sobre contratos já escriturados. Sempre o garrote dourado do lucro a passar-nos a laçada pelo pescoço!
É verdade que tudo isso é pão nosso de cada dia, sem o qual a vida não marcha.  No entanto, por favor, parem um pouco. Dêem-nos uma luz ao fundo do túnel. Soltem-nos desta prisão que tem tanto de prata como de imundície e corrupção. Cantem-nos, ao menos,  uma melodia dos natais longínquos…  Mas, que digo eu?!  Outra vez tropeço. No Natal, Porque o Natal, também ele, está inquinado de  polvilhos mercantis, trocas e baldrocas, fitas desencarnadas, meros formalismos comerciais. Aliás, o Papa Francisco foi quem, um dia destes, falou dos desperdícios supérfluos, fogos fátuos, em que se transformou o Natal.
E lá aparece  a religião ou as religiões a acompanhar a banda. Vem de longe este instinto da economia financeira apoiada em princípios religiosos. Recordo o “espírito do capitalismo” ou a “ética protestante” de que nos fala Max Weber, citando Benjamin Franklin: “O dinheiro pode produzir dinheiro que, por sua vez, produzirá mais dinheiro, e assim sucessivamente…. Um homem não pode negligenciar que as mais pequenas acções têm influência sobre o seu crédito financeiro”, a cujas máximas Kumberger acrescentou: “Do bezerro faz-se sebo, das pessoas faz-se dinheiro”.
Não pretendo ir tão longe nesta incursão sobre o “capacete” metalizado que governantes e especuladores nos envolvem e, se possível, nos querem sufocar. Apetece repetir a  velha máxima: “Nem só de pão vive o homem”. Vive de ideais, de sensibilidade, de amor, de  poesia. Enfim, alimenta-se de sonho e utopia. Mesmo que a turba ignara lhe chame “loucura”.  Faz falta ouvir um  outro canto novo, que nos traga nesgas de esperança não na barriga opulenta  ou no maço de notas avaras, mas no espírito que toca mais além, que “vê o invisível” e faz descobrir dentro de nós e no abraço universal um sentido maior de aqui estar. Sob pena de nos destruirmos, sem nunca alcançar o trono para que fomos feitos.
Já que falei em “utopia”,  ninguém como Fernando Pessoa poderá informar-nos:
          Minha loucura, outros que me a tomem
         Com o que nela ia.
         Sem a loucura, que é o homem
         Mais que a besta sadia,
         Cadáver adiado que procria?
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05.Dez.15

Martins Júnior

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A ESCOLTA EM PESO DO PAI NATAL


Ridendo castigo mores --- dizia o velho filósofo da antiga Grécia, aquele que fazia do riso uma arma certeira contra os abusos dos seus conterrâneos, sobretudo dos condutores das quadrigas do seu país. Para ele a ironia era uma escola de vida e de virtudes, mote inspirador dos seus concidadãos.
Em termos actuais, lá vai um desses motes em farpela do século XXI para o vasto vulgo, a que todos pertencemos, poder dar-lhe os adequados desenvolvimentos.
Era uma vez…  a casa-mór da aldeia, palacete herdado de aristocratas falidos, mas que fazia o valimento de todos os fregueses que lhe batiam à porta. De quando em vez (doze a catorze  vezes ao ano, pelo menos) ali passavam benfeitores de perto e de longe, carregados de dádivas, uns traziam víveres, outros medicamentos e ainda outros abriam livros às crianças enquanto abriam os olhos aos pobres aldeões. Nunca “ninguém” lhes reconheceu prestígio, nem mesmo lhes deu a mínima atenção.  Por “ninguém”  entenda-se o clã daqueles “tais” oficiais que  falavam, discorriam, escreviam, numa mão a pena, na outra o badalo, estalavam os tímpanos das gentes, à força de escoar  banalidades, bonecos de feira, rodas manhosas, barracas de arraial.  Mas àquela casa, aos fregueses e respectivos benfeitores nem sombra de poiso. Eram carta fora do baralho na feira das vaidades dos “tais”.
Até que um dia…uma manhã deixou  a cidade em alvoroço.  A notícia espalhou-se:  o Pai Natal vai ao velho palacete da aldeia. Anafado, voz avinhada da noite, chega, descansa o cabaz dos presentes. Já à entrada, os olheiros da velha quinta aprestaram-se a estender uma esfarrapada  passadeira azul, onde uns pingos de leite branco deixavam a marca das ovelhas acabadas de ordenhar. Escusado será dizer que  “os tais”, megafones em traje de gente,  abalaram  em rajada  da  mornaça da cidade e teimavam em enfiar microfones e gravadores pelas goelas do Pai Natal, exausto do repasto da véspera. Os holofotes ofuscavam desabridamente sobre o saco do velho, até que o abriram sem pedir licença. Então o “São Nicolau”, que fizera a longa viagem desde as longínquas  terras nórdicas, começou a distender sobre a mesa da sala grande os sumptuosos brindes: uns pares de tripas, vinhos dourados e, sobretudo uma enorme bola de trapos, daquelas que a miudagem usa para  jogar futebol na esquina da rua. E foi uma festa. A festa da Festa. Abraços e beijos, juras de entrega mútua,  o velho fazia que chorava de contentamento, mas quem chorava mesmo lágrimas de ternura inaudita eram os feitores, os olheiros do palacete, ao mesmo tempo que “os tais”  --- feirantes comunicantes --- zarpavam para a cidade onde tinham a postos os quartéis e o armamento da propaganda.
Um fenómeno! Mais um extra-terrestre! O Pai Natal dignou-se descer à aldeia, antes esquecida e desprezada! Durante uma semana, o foguetório abalroou  as  praças públicas da urbe.
Mas quanto aos pobres aldeões, os caseiros da quinta, nada de novo: nem benesses, nem novas nem mandadas. Tudo como dantes. Os mais velhos, sábios da terra, meneavam a cabeça e olhavam com desdém o falso Pai Natal, à saída da quinta. E comentavam entre dentes e sarcasmos:  esta gente  não aprende nada. Tantos benfeitores por aqui passam, tanto nos ensinam e desenvolvem, mas “os tais” pouco ou nada ligaram, afogueados que andam sempre atrás das pegadas do Pai Natal das tripas. Quando é que isto acaba?... Acabou a cena, mas foi o Pai Natal que levou o saco cheio para casa.
         Por qui fica a laracha, que tanto faz rir como faz zurzir. Quem tem ouvidos de entender, enfim, que entenda. E dê largas ao mote  aqui deixado, na sequela do velho filósofo grego: Ridendo castigo mores!
03.Dez.15
Martins Júnior


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

HERÓI COMBATENTE COM AS ARMAS DA LUZ!


Não obstante os múltiplos e momentosos acontecimentos da segunda metade do mês de Novembro --- posse, a ferros cavaquistas, do novo governo;  ataques jihadistas em Paris;  cimeira de 140 líderes mundiais no COP21 sobre o ambiente; 1º de Dezembro da Restauração em Portugal; taça das nações e campeonatos nacionais e regionais que dominam a opinião pública --- apesar de tudo isso,  não pode ficar nos bastidores do grande teatro do mundo actual o périplo do Papa Francisco ao continente africano. Verdade se diga que  os braços e os dedos do argentino tocam todo o planeta e todos os dias mexem connosco, tornando-se quase que um lugar comum a evocação do homem mais corajoso deste início do século XXI. No entanto, SENSO&CONSENSO  não pode perder a visibilidade da grande paisagem e faz questão de colocar na ribalta do tempo essa aventura, símbolo vivo do que de mais nobre, vigoroso e construtivo é capaz de conceber a mente humana.
Apenas três breves  mas eloquentes gestos de entre a grande mensagem de Francisco Papa:
1º - A coragem de alguém que conhece bem  o risco da própria vida em que incorre,  acrescido de prenunciadas ameaças de morte. O atávico fogo posto, de há muitos anos, naquela região do continente africano, as “minas e armadilhas” secretamente escondidas no seu percurso, as lutas fratricidas entre muçulmanos e as rivalidades ideológicas contra os cristãos, nada nem ninguém conseguiram travar os passos decididos de um homem de paz. Deu o corpo à balas, afrontou os mitos, fez quebrar diante dos próprios olhos os ódios e as armas. Ele, o grande combatente, intrépido, confiante!
O episódio, verdadeiramente estremecedor, foi aquele, ocorrido em Bangui,  a capital massacrada da República Centro-Africana,  em que ele atravessa o cerco com que as milícias cristãs mantêm no mais vil cativeiro uma comunidade  muçulmana para abraçá-la e dizer que entre cristãos e muçulmanos deve imperar a relação entre irmãos e irmãs, num gesto ímpar que arrancou ao ancião Idi Bohari este desabafo público: ”Pensávamos que todo o mundo nos tinha abandonado. Ele (Francisco Papa) também nos ama a nós, muçulmanos, e estou muito feliz com isso”. Único e incomensurável!
2º -  Na pátria do Idi Amim, de execrável memória, nesse antro de gritantes assimetrias sociais, o sereno mensageiro das causas pacíficas não se conteve que não proclamasse à África toda, ao mundo inteiro,  a Lei  dos três “Ts”:  “Terra, Tecto e Trabalho. Não por caridade ou filantropia, mas por direito próprio”! Sobre o vulcão das desigualdades o Nosso Homem não hesitou em içar bem alto o pregão e a bandeira da Justiça. Aos ouvidos de muitos, aos meus também, soou como o grito clamoroso de outra época: “Proletários de todo o mundo, uni-vos”.  Pelo direito ao pão, à casa, ao salário justo. Simultaneamente, ecoou no meu subconsciente o normativo do Mestre na Montanha: ”Felizes os que têm fome e sede de Justiça. Esses são os do meu reino”.      

 3º - Como quem possui o dom da ubiquidade, o Argentino, incarnação  do intelectual jesuíta e do sensível franciscano, demonstrou a inteligência esclarecida e a mais fidedigna  coerência  quando enviou os seus sapatos para a Praça da República em Paris, afim de juntar-se aos 22.000 que lá  estavam, em silenciosa manifestação de apoio ao COP21, em defesa do clima.  Expressão inexcedível da grandeza de alma de alguém de quem  este Planeta precisa como de pão para a boca, como  de paz para o mundo. Coerência, aliás, com a proclamação do Código ecológico universal da encíclica Laudato Si, que ele próprio subscreveu na mensagem colocada sobre os “sapatos cambados”.
O entusiasmo e a  homenagem ao Profeta e Líder do nosso tempo contrastam com a passividade inculta  dos nossos bispos, mais escandalosamente a nível regional, que se deleitam em jantares com Cavaco Silva na Madeira e com o ofício de “festeiros” nas festas do verão e de “parteiros” nas regionalíssimas missas do parto no inverno?... Quando é que estes homens acordam para a vida e para a  missão?...  Quando é que terão a coragem de  concentrar-se  seriamente no seu mandato de abrir clareiras de Justiça por entre as trevas das desigualdades acobertadas pelo assistencialismo farisaico? … Quando é que, finalmente, se resolvem a alistar-se na militância de Francisco Papa?


01.Dez.15

Martins Júnior