quarta-feira, 13 de julho de 2016

ÉS BOA ALUNA?...LEVAS!

          Que resposta mais absurda para uma pergunta tão pertinente!
Qual o professor e de qual colégio seria capaz de chegar agora ao fim do ano lectivo e desfechar tamanho murro em cima de um aluno ou de uma aluno, pelo único crime de terem sido reconhecidos, na opinião do próprio mestre, como exemplares perfeitos durante o ano inteiro?  Esse não era um colégio: era um manicómio.
E, no entanto, ele existe. Junto de nós. Aliás, todos nós andamos nesse colégio. Matricularam-nos, sem o nosso inteiro consentimento, nesse internato de lunáticos.
Vou ser breve na decifração desta charada pegada, porque não se fala de outra coisa nos jornais, no audiovisual, nas redes sociais. Outros analistas, tecnicamente  competentes e seguros, têm apontado para a injustiça de que Portugal está a ser vítima. Faço-o conscientemente,  para ser mais um a solidarizar-se com a causa e para traduzir numa linguagem mais empírica e acessível a incongruência desse absurdo.
Refiro-me a essa espada de Dâmocles com que do terraço mais alto de Bruxelas os agiotas sem lei ameaçam os portugueses. É a ameaça das sanções que a Comissão Europeia  descarrega contra nós e contra este governo porque o governo anterior excedeu, em duas décimas, a quota do deficit orçamental.
A nossa contra-argumentação já foi largamente expendida pelos governantes e pelos observadores. Afinal, quem mais do que o governo anterior, às ordens da Troika, sorveu até ao tutano o sangue, o suor e as lágrimas de Portugal?... Quem é que mandou um vice-Primeiro Ministro bradar até à exaustão que só faltava uns dias para nos vermos livres da Troika?... E que, após a saída dela, tudo correria na mais pacífica normalidade?... Afinal, repito  (e assim esclareço o título) quem chamou à nossa  ministra das Finanças “uma boa aluna, uma aluna exemplar”? Quem? O Mestre da “economia que mata”, o sr. Schauble , o todo-poderoso ministro germânico da guerra-fria financeira!... E é agora, ele mesmo, assessorado pelos seus pares europeus, que vem desfechar um murro cego e surdo em cima da “aluna perfeita”. Nela não. Em todos os portugueses de hoje e de amanhã! Não há critérios de equidade,  de mínima  justiça, nesse tentacular colégio europeu.
Sempre me apercebi de que o polvo de Bruxelas traz-nos no bojo como uma mãe desnaturada sente prazer em amarrar no ventre um nado-morto ou um hipotético nascituro, sempre moribundo e mal formado , sem esperança de ver-se livre e saudável,  respirando a luz do dia. Dizem que nos ajudam, mas com uma cláusula imperativa: a de ficarmos sempre na maldita condição de pedintes devedores.
 O queixume que sentimos transforma-se em grito de revolta. Não terá este Povo  o direito de “tomar uma refeição quente”, como recompensa de quatro longos anos de gélida ementa “a pão e água”?...  Está visto que os talhantes de carne humana, espojados no divã do capital sem rosto,   não nos querem ver em paz dentro da nossa própria casa, dando as mãos, separadas que estavam há quarenta anos. Preferiam um parlamento irremediavelmente dividido, para reinarem a seu indomável instinto.
Que desorganizada União é esta, traidora dos ideais de Monnet, Shuman e Adenauer,  os pais fundadores do nobre projecto europeu! De que servem cimeiras, tratados, Livro Verde e Livro Branco,  convénios, turbilhões de fortunas, arrancadas ao Povo, para envernizar palácios,  faustosos hemiciclos,  viagens intercontinentais, “voos cegos a nada”?... Rasguem esse campanudo rolo de papel que dá  pelo pomposo  nome de “Estratégia Europa 20/20”, onde (cinicamente, digo eu) se apregoa o tríplice “Crescimento:  inteligente, sustentável, inclusivo”.  Que inteligência, que sustentabilidade e que inclusão, quando comprometem legítimas expectativas,  destroem a economia e o nosso prestígio perante os investidores?!    
         Uma situação explosiva esta, que nos leva a uma dupla tentação. A primeira, a saída, na esteira do Brexit. A segunda, positiva e militante: participar nas Eleições Europeias, aquelas em que a abstenção costuma ser rainha. Agora é que vemos a força decisória da nossa atitude. Que saibam os avaros funcionários do capitalismo  sediados em Bruxelas e saibam-no os juízes metalizados  do Ecofin:  Em Portugal há um Povo firme, vigilante, participativo!   

13.Jul.16
Martins Júnior

segunda-feira, 11 de julho de 2016

POR-TU-GAL, POR-TU-GAL: OS VENCEDORES E OS GANHADORES


Na véspera do grande “derby” europeu, escrevi: “Dos empates às vitórias!”, prenúncio do feito memorável que ontem alvoroçou Portugal e todo o  mundo português, ao mesmo tempo que levantou as estradas e as colinas desta Lisboa capital. O fenómeno colossal, igual talvez só a esplanada de Fátima, merecer-me-ia uma escrita múltipla e mais vasta  que as cores da bandeira nacional.
Hoje, só os tópicos essenciais-
O Primeiro: A história é a versão dos vencedores. Desde os mais remotos tempos, a narrativa das guerras e sucessos é escrita pelos  e  para os que  triunfam. Tivesse o “improvável” Éder falhado o remate e a música em Portugal seria hoje em tom menor. A confirmar esta velha conclusão, leiam-se os jornais estrangeiros e logo ver-se-á que onde não houve vencedores não houve manchetes. Os jornais  alemães, à excepção do Bild, preferem dar em grande plano o triunfo do tenista Andy Murray em Wimbledon. Os ingleses  e reportando-me ao Daily Mail,  comentam: Crying  game for Ronald as injury wrecks his big night. Em Gazeta del Spots, diário italiano da especialidade, mereceu honras de 1º página a foto de CR7 empunhando a taça. E o nosso mais próximo El País vai bordejando assim: Sin Ronaldo, sin el domínio de juego, sin crearr  apenas ocasiones, aun asi Portugal logro ayer un éxito sin precedentes en la prórroga. Os franceses, até agora, não chegaram até nós, nem tiveram braços nem tinta para alcandorar,  o troféu que a si mesmos tinham prometido. A história do Europeu não teve glória nos outros países. Por onde se prova que são os vencedores que fazem a história.
Mas há os vencidos. Se há cenas que emocionam qualquer espectador isento, uma delas é o cenário após o último apito de qualquer competição decisiva. Ninguém, por certo, ficará insensível ao abismo que separa vencedores e vencidos. No mesmo cenário e com os mesmos gestos. Aqueles fazem das lágrimas notas sonoras, brilhantes; estes derramam sal de um “mar morto” a seus pés. Aqueles beijam a relva como quem aperta ao peito a mulher amada; estes comem, mastigam, vomitam o verde acintoso que lhes cavou a sepultura. Do desespero dos vencidos não se ocupa a história. Aqui ressalvo a magnífica atitude dos galeses que receberam em apoteose os jogadores-quase amadores do País de Gales quando, mesmo derrotados, chegaram à sua pátria. Teríamos nós feito o mesmo?  Quero crer que sim.
O misterioso enigma da Unidade! Que estranho gérmen consegue unir, num só feixe, ramos verdes e gravetos velhos, intelectos criadores e espécimens vulgares de Lineu, gente grada da grossa finança e magros esqueletos sem eira nem beira?!... Roleta russa esta para os líderes maiores e menores…  Não será apenas o futebol: na minúscula Madeira não haveria nunca (pelo contrário!) a mesma sensibilidade unitária entre Marítimo e Nacional.. Pior ainda no campeonato nacional entre Benfica’s, Sporting’s ou Porto’s. A evidência está no objectivo, dir-me-ão. E é certo. Mas o mesmo objectivo,, sendo comum, não deixa de ser individualista, diferenciando-se apenas na dimensão dos círculos que gravitam na mesma galáxia.
E os ganhadores? “Nesta altura do campeonato”, há-os directos e indirectos, Além dos artífices - os vencedores e a Federação Portuguesa de Futebol – adiantam-se os poderes oficiais, cultores ou não do desporto-rei. Entram por outra porta, mas lá estão: os políticos credenciados pelo voto e também as fés religiosas, sejam quais forem o seu Deus e a sua religião. Estas últimas suscitam uma análise mais séria e profunda, que não cabe neste lugar, mas que muito me interessaria  investigar. Cuidado não meter a Divindade  nas chuteiras dos goleadores.          Respeitando a crença de cada qual, é meu imperativo de consciência colocar no mesmo altar esta contradição, à espera de resposta: As mesmas razões que levam os portugueses a agradecer a Deus pela vitória, são as mesmas que levariam os franceses a imprecar e repudiar Deus pela derrota. O Deus português será adversário do Deus francês? "Pelo amor de Deus" não O metam  onde  não é chamado! Mais a mais, sabendo das contingências a que está sujeito um desafio de futebol, a começar pelo árbitro…
Vencedor e ganhador é o nome de Portugal. Em qualquer recanto onde viva um português.!  Machico, também,  do alto da varanda do Município e por todo o largo envolvente, festejou patrioticamente o grande feito.
Parabéns também  ao quinteto medalhado do atletismo europeu, recém chegado de Amesterdão 

VIVA PORTUGAL UNITÁRIO !

         11.Jul.16
         Martins Júnior   

    


sábado, 9 de julho de 2016

DOS EMPATES ÀS VITÓRIAS!


Cá vou eu, de malas aviadas, correndo asinha,  ansioso por chegar a  Paris. Confesso que não estava nos meus planos. Mas o coercivo acelerador  das    telefonias, dos  telefones, televisões, telejornais e tele-multidões, enfim, o vendaval da pressão pública e publicada arrastou-me. E lá vou eu, olhando o grande teatro do estádio de França, onde nos querem convencer do futuro de Portugal. Na Torre Eiffel começa o grande cordão verde-rubro que abraça Versailles, Les Champs  Elysées e avança desabrido pelos vastos continentes onde vive um português. Digamos que o cordão ibérico amarra todo o planeta. E um potente e tracejado trissílabo, “POR-TU-GAL”, faz tremer o universo.
Quem ousará negar o assombro que nos traz o futebol, mais precisamente a Euro copa? Não há quem lhe resista ou lhe seja sequer  indiferente. Em Portugal e no estrangeiro. Vejo uma enorme página do super-gaulês Le Monde, .dedicada  à nossa selecção e onde se classifica o capitão como “Le sauveur du Portugal” (o salvador da pátria portuguesa), enquanto “nuestro hermano” El País põe-lhe água na fervura e diz que “há mais ruído que futebol… e que França já se bateu com um campeão, Portugal ainda não se bateu com nenhum”. Dos jornais portugueses, é “A BOLA” que vai à frente quando, sobre Ronaldo, escreve assim “UM DEUS PORTUGUÊS”. E os protagonistas do estádio não fazem por menos. Foi impressionante ouvir Quaresma, após marcar o penalty: “Ao avançar para a bola, senti Portugal todo aos ombros”. Talvez fosse anatomicamente mais “científico” se dissesse que sentiu o pais inteiro nos pés.
Há quem veja em tudo isto um testemunho eloquente de patriotismo, de genuína portugalidade arvorada em todo o mundo. Entretanto, um espectador do programa televisivo questionava: “Será que se Portugal ganhar o Euro Futebol,  a Comissão Europeia ou o Ecofin  dispensar-nos-ão das sanções com que nos ameaçam a todas as horas?”. Ironia subtil esta pergunta, que nos remete para  outra maior: Será este o patriotismo que faz falta a Portugal? Não estaremos perante um momentâneo pico de alienação colectiva, o qual, 24 horas volvidas, obrigar-nos-á à mesma lassidão, à mesma modorra de sempre, sem força para reagir aos abusos do poderio  do Banco Central Europeu, do FMI, dos salteadores bancários?”...
É belo, belíssimo ver os estádios, as praças, as esplanadas, as avenidas regurgitarem de gente alvoroçada. E, sem querer esfriar o entusiasmo das multidões, perguntaria: Teríamos o mesmo ânimo em massa para protestar contra os monstros dos offshores, do desemprego, da doença, da incultura?
Relevemos, no entanto, a coesão uníssona dos portugueses no aplauso aos valentes guerreiros do rectângulo. Não há divisões, nem Benfiquistas, nem Portistas, nem Sportinguistas. Isso fica para depois de amanhã. Agora, o lema é: “Um por todos e todos por um”! Isto também é patriotismo. Mas já não é patriotismo, senão paranóia pegada, ouvir as ondas sonoras em cachão, “esclarecendo” e arrastando o público na rádio e TV: “Qual Cabo Bojador, qual Batalha de Aljubarrota, qual Revolução dos Cravos, em comparação com o Portugal-França?”… Ridicule, mais charmant, sublinhe-se. A prova por excesso vale tanto como a prova por defeito, ditado antigo.
Moral desta historiazinha inofensiva:  Que a transição dos empates iniciais da nossa Selecção  para as vitórias finais sirva para alcançarmos ganhos efectivos no grande estádio onde em cada dia se defronta Portugal na Europa e no Mundo!
Com este desejo, vou-me deixar ficar por cá, à espera que Paris passe à minha porta...

  09.Jul.16
 Martins Júnior





quinta-feira, 7 de julho de 2016

ESCOLAS OU DEPÓSITOS DE CRIANÇAS ?

        

          Fechou-se mais um ano lectivo. Abrem-se agora dois meses livres de horários, de monótonas campainhas. Mas dois meses, também, de preparação para novo campeonato. Portanto, é neste descontraído teleférico entre um ano e outro que nos dá para olhar e monitorizar a grande e sinuosa  paisagem da Educação.
         Permitam-me colocar na tabuleta desta minha  reflexão aquele sábio axioma de outros tempos. “Para educar uma criança é preciso uma aldeia inteira”.
         Ao falar da “aldeia inteira”, situo a Escola na sua omnímoda dimensão: o local, o ambiente social, a família, as instituições, enfim, o habitat ecológico do educando. Sem a conjugação de todos estes ingredientes, dificilmente sairá uma criança segura, auto-confiante, receptiva ao conhecimento, numa palavra, uma criança educada, na completa acepção do conceito. Porque a Escola não pode reduzir-se a uma “loja de atacado” ou a um depósito de embrulhos, hipocritamente rotulados de “as nossas crianças”.
 
         Nem de propósito, hoje na imprensa diária, o abalizado mestre da arte de ensinar (educar), o Prof. André Escórcio, em consonância com o presidente do Sindicato dos Professores da Madeira, insistia (como de resto faz nos seus escritos) na necessidade de “melhores condições de trabalho e na maior aposta no acompanhamento do aluno”, constatando que “nas turmas em que podemos fazer um trabalho concreto e individualizado temos bons resultados e reduzem-se as taxas de reprovações”.  E conclui que é urgente “questionar as razões substantivas do insucesso escolar  no enquadramento organizacional e pedagógico”.
         Agora sou eu que sublinho: “condições de trabalho … acompanhamento … trabalho concreto e individualizado … razões substantivas … enquadramento organizacional”. Aqui está a síntese de todo um tratado objectivo, porque experiencial, do sistema educativo. Entram nesta súmula as mais amplas coordenadas conducentes ao sucesso na Educação.
         Da minha parte, vou incidir a reflexão que se impõe face ao dilema com que pais e alunos se confrontam neste momento crucial de transição: a fusão de escolas. Assentados nas poltronas dos gabinetes, os especialistas em autópsias sociais cortam, recortam, entortam até às costelas o corpo e a vida de crianças e adultos. Por instinto exclusivamente economicista, dividem o organismo social, de  régua e esquadro em cima do tabuado, insensíveis àquilo que mexe e faz sofrer não apenas pais e filhos, mas toda a arquitectura da Educação. Fazem das crianças embrulhos descartáveis em cima de contentores e atiram-nas para onde virarem os ventos da incompetência governativa.
         Se um dia pais e filhos e educadores entrarem pelos gabinetes assépticos, gritando que não são os prédios que arrastam as crianças, mas são estas que determinam e dão sentido às construções escolares – dirão eles que se está diante de uma revolução de arruaceiros analfabetos. E, de ricochete, ouvirão a resposta: Analfabetos, esquartejadores sois vós, que roubais  “as turmas, as condições de trabalho, a aposta no acompanhamento escolar”, enfim, desenraizais de suas famílias e da sociedade envolvente as crianças desde a mais tenra idade!
Amputais do  “habitat” do seu crescimento natural  a infância carente da proximidade inter-geracional para encaixotá-la em monstruosos paredões, descaracterizados, despersonalizados, enchouriçados. De muros gradeados em volta, mais parecem prisões que sedes de Educação, onde fermentam como larvas os complexos da anomia na psique de quem se sente como um estranho. Na sua escola de origem, tinham pátios de recreio, campos de jogos, amplos espaços de lazer.
         Não menos censurável é a desertificação  a que ficam condenadas as zonas altas, olhando para a  sua antiga escola como quem tem sempre diante si um cemitério de crianças varridas do seu berço. Quem pode suportar tamanha cegueira, senão mesmo, tão desumana crueldade?!... As estradas que fizeram tanto trazem como levam. As grandes superfícies comerciais, os centros de saúde, os equipamentos desportivos e culturais, as delegações bancárias, as repartições públicas, os correios -  tudo está previamente delineado para a debandada das populações. Só lhes restam a igreja e a escola. Mas, agora, nem a escola!... A pouco e pouco, desenraízam quem aqui nasceu e tem amor à terra-madre dos seus antepassados. E lá vêm depois as mágoas das carpideiras dos gabinetes da capital sobre a “lamentável” desertificação dos meios rurais… Grandes trastes!
         Voltarei a este assunto até que as mãos me doam.
Mas não podia deixar passar em claro esta afronta à Escola, precisamente hoje, 7 de Julho, Dia Internacional da Educação. Um grande Salvè a todos os homens e mulheres que abraçaram a nobilíssima missão de Educar!

         07.Jul.16

         Martins Júnior  

terça-feira, 5 de julho de 2016

O QUARTETO DA NOITE DE SÁBADO


Os quatro violinos adormeceram para sempre no berço da partitura. Mas a melodia prolongou-se por quatro dias e quatro noites, até que os dedos do quarteto doaram às chamas o que restava do seu talento imorredoiro.
Eles aí estão, companheiros dos últimos acordes, quando embarcaram nesse cruzeiro de sábado, 2 de Julho de 2016. Quatro dias e quatro noites esperaram na amurada do cais até à hora em que definitivamente tudo se converteu em cinzas aladas a colorir o planeta.
Caso normal, comum a todos os mortais. E caso estranho o terem “combinado” o mesmo dia da partida! Aqui ficou selada aquela sina que marca a história:  Todos Diferentes e Todos Iguais.
      Diferentes no habitat que lhes coube viver:
         Elie Wiesel, romeno judeu, saído das negras portas dos fornos crematórios de Auschwitz depois de ver o pai espancado até à morte, a mãe e a irmã atirados à câmara da gás, foi marcado aos 15 anos pelas tropas nazis com o nº A-7713, que trouxe toda a vida no braço. Deportado juntamente com a comunidade judaica em 1945, estudou em França e, mais tarde, ensinou nas universidades americanas de New Iork, Yale e Columbia, tendo publicado mais de 40 livros, o maior dos quais intitulado A Noite, relatando os horrores do Holocausto, Foi agraciado com o Prémio Nobel da Paz, em 1986.
         O nosso Camilo de Oliveira, 91 anos,  totalmente diferente, encheu o país de gargalhadas sadias, anti-traumas, libertadoras, nas 47  peças de teatro de revista que marcaram os nossos palcos e que ainda hoje são recordados nas irrepetíveis interpretações do Padre Pimentinha  (na foto),  Lisboa é Coisa Boa (1951), Camilo na Prisão, Camilo Presidente, entre outras. Assente como uma luva, outro dia, senão o sábado,  poderia ter “escolhido” o criador do famoso programa Sába  Dá  Badu, com Ivone Silva  no dueto Agostinho e Agostinha, que tanta saúde física e mental transmitiram aos portugueses.
         Michael Cimino, realizador cinematográfico, 77 anos, vencedor de cinco óscares pela Academia de Hollywood, em 1978, com o filme Viagem ao fundo do Inferno ou  O Caçador,  contra a guerra no Vietnam. Desaires supervenientes, sobretudo após  a realização do  (1980) Heaven’s Gate (A Porta do Paraíso)  soçobrou às mãos de uma crítica implacável.
         Finalmente, Michel Rocard, 85 anos, Primeiro-Ministro francês no mandato 1988-1991, percorreu os mais diversos atalhos da política, conheceu vitórias e derrotas, terminando a carreira como deputado europeu, entre 1994-2009.
         Embora diferentes e distantes uns dos outros,  uma idêntica linha de rumo os conduziu: o espírito combativo, porfiado, diante dos obstáculos. Defensores da verdade íntegra, ( exigência moral na acção política, ideal de Michel Rocard) militantes  dos direitos humanos, (Nenhum homem é ilegal, proclamou Elie Wiesel) nimbados  de uma ambição perfeccionista, (Camilo de Oliveira) inconformados com o politicamente correcto ( Enfant terrible du Nouvel Hollywood, escreve “Le Monde” sobre Cinimo, denunciador  do selvagem capitalismo americano)  --- todos estes homens  marcaram a História.   
         Trago-os hoje, na mesma urna – o mesmo trono - da nossa homenagem, cumprindo o que sobre o Holocausto  afirmou  Elie Wiesel  na aceitação do Nobel da Paz: “Esquecer os mortos é permitir que sejam mortos segunda vez” E acrescenta: “Eu tentei manter a memória viva, tentei opor-me àqueles que preferem esquecer, porque se esquecermos somos culpados, somos cúmplices”.
         Trago-os também, porque muitos outros, homens e mulheres, gente anónima à nossa volta, vivem e sobrevivem da chama que animou os quatro combatentes, os “Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, irmanados em vida e companheiros na hora da partida.
Trago-os, finalmente, porque o que mais falta é continuar a ouvir-se, com o nosso esforço e determinação,  “essa linda, longa melodia imensa”, diria Sebastião da Gama. Até ao dia da Grande Viagem!

05.Jul.16

         Martins Júnior

domingo, 3 de julho de 2016

CÁ VAMOS CANTANDO, PAGANDO E RINDO : Breve radiografia das festas na Ilha


“Lá vamos cantando e rindo”…
         Era assim que nos tempos de Salazar se impunha  o  hino patriótico aos jovens, forçosamente agrupados  na  falange denominada  “Mocidade Portuguesa”. Os irreverentes estudantes de Coimbra nos cortejos de fim-de-curso, as  famosas latadas, ironizavam com a variante Lá vamos, pagando e rindo…
         Cantando e pagando cá vamos nós também, embarcados nos porões dos arraiais que pululam agora por toda a ilha. Finados os “Santos Populares”,  passamos aos Senhores e às Senhoras, oragos das mais 100 paróquias e capelas madeirenses. Tenho para mim que a invocação ou o título dos eventos é o que menos interessa para a comunicação social e, daí, para o  grosso da população. A avaliar pelas notícias e reclamos, tanto faz chamar-se  Festa de São João, António ou Pedro como apelidá-las de festas da cebola, do caramujo ou do mexilhão. O que é preciso é entrar na excursão, cantando, pagando e rindo.
         Foi o que me chaparam nos olhos as imagens e os comentários televisivos  de ontem acerca do São Pedro na Ribeira Brava. Os feirantes, as carradas de carne, os barris de poncha e, como cereja no bolo, a caixa: o lucro, o negócio - objectivo legítimo de quem arrisca, mas francamente redutor para quem faz reportagem. Então, a delícia e o “faro” do jornalista atiram o microfone para os laboriosos trabalhadores das barracas, com as ridículas e enfastiadas perguntas, do género “como é que vai o negócio, têm vendido muito, as pessoas aparecem mais que no ano passado?”… Até na religião: “Quantas girândolas de  foguetes, há  muitas velas de promessa, muitas cabeças e pernas de cera nas procissões?”… Tudo negócio! Do tamanho dele depende o brilho ou o escuro da reportagem. Factores culturais, vertentes artísticas, algo mais que os comes-bebes-e-pagas são os ausentes  e esquecidos dos comunicadores públicos.
         Ninguém pretenderá fazer das festas populares tertúlias académicas. Mas se, porventura, ocorrem determinados eventos em que o povo e a cultura assumem-se como protagonistas deveria dar-se-lhes o devido apreço.
         Refiro-me àquilo que vi nestes dias em Machico. Houve o cortejo de São Pedro, a que já aludi noutro texto, com  participações de qualidade, genuinamente endémicas. Associadas ao São Pedro seguiram-se outras actividades, integradas no Dia da Freguesia, sobressaindo o programa denominado Arte e Pesca na enseada leste da baía, desde provas náuticas, “24 horas a voleibolar”, padel,  construções na areia, passeios de veleiro e catamarã, atelier de artes plásticas, pintores ao vivo. Um teclado multiforme, de diversas tonalidades, extenso e sugestivo é como pode classificar-se o que se passou no palco. Música para todos os gostos: “Vozes do Concelho”,  Grupo Folclórico, Banda Municipal, grupo de fados e do “Prestige Dance”, António Câmara e a sua Guitarra, “Cantares da Ribeira” com o desfile coreográfico intergeracional da Ribeira Seca e outros artistas locais, a que se juntaram bandas convidadas (“Aoakaso”, “Punk D’Amour” “Fitness Team”, “Feed back”, “Dull N’Nouk White”, “Major Cafeina”) e os DJ’s no encerramento de cada um dos cinco dias que durou a 2ª edição da  Arte e Pesca, uma homenagem da Junta de Freguesia de Machico aos pescadores da localidade.na zona do Caus do Desembarcadouro, o seu meio ecológico.
         Todos quantos ali passaram, de diversos escalões etários e culturais, todos tiveram oportunidade de abastecer-se nas barracas em redor, mas ao mesmo tempo alimentaram a mente e a sensibilidade com uma ementa diferente. No regresso a casa, subia a vida em tom maior, por causa do ambiente pacífico, saudável e construtivo que encontraram na baia. Porque a Arte e Pesca  não serve para alienar e esvaziar o ser, mas para libertá-lo e dar-lhe força de interpretar e vencer as barreiras do quotidiano.
Há mais festa para além do cantar, pagar e rir!

         03.Jul.16

         Martins Júnior

sexta-feira, 1 de julho de 2016

DINOSSAURO DE OUTRAS ERAS, EU TE SAÚDO, NOBRE MACHICO!


Entre 1 e 2 de Julho repicam os sinos na vetusta torre da História. Enquanto o Funchal optou recentemente  por comemorar o 1º de Julho, como o Dia do Achamento da Madeira, a população de Machico, desde há várias décadas, tem sido fiel aos cronistas da época que relatam o mesmo evento, assinalando que ocorreu em “2 de Julho, Dia da Visitação a Santa Isabel”. Por isso, aqui deixo a minha saudação.

Não sei se é canto
Se é pranto
A cinta que amarra
A ilha toda  à barra
De um  horizonte sem cais

Mas sei
De um dinossauro de outro planeta
Veio de longe
E em basalto se fez
Terno e rude, vidente e cego
Antes que fosse português
Este mar onde navego

Aqui chegou
Cabeça dormente a levante
Seio túmido a montante
Prenhe de mundos futuros

Fosse Machim o amante
Quem te achou
Fossem as caravelas do Infante
Vejo-te sempre  terra e mar
Pico alto e abismo fundo
Fio de água agridoce
Mistura informe de ribeira e sal marinho
Abraçados no lençol cambraia
De todas as marés

Até o sangue  azul  que veste os calhaus da praia
Subiu córregos e atalhos
Tingiu de pastel real
As nascentes virgens da montanha

Estância de reis e escravos
Cepos  e brasões
Terro de cardos e cravos
Pátria do poeta gémeo de Camões

Porque és herdeiro
Do Capitão Primeiro
Da Ilha
E porque é de bronze
A quilha
Da nau “São Lourenço” que comandas
Quantas vezes te algemaram pés e mãos
Outras tantas as quebraste
Em  ciladas naufrágios e demandas
Que de todas triunfaste

Baía que é  um abraço Montanha que é um sorriso
Eu te canto Terra Nova que amo
Nervura polícroma  que piso:
Oh  agra geração de antanho
Oh lobos do mar bravo cavado
Oh mãos sedosas do bordado
Oh jovem estirpe de talento tamanho

Eu sei
Velho dinossauro de outras eras
Que é por mim por nós que tu esperas

Desde o Larano  ao  Desembarcadouro
Da Praia de São Roque ao alto dos Maroços
Eu sei e sinto e vejo
Erguer os braços - os teus os meus os nossos
Brilhantes como a Estrela do Centauro
E restaurar o sonho antigo
Do teu seio túrgido amigo
Nosso e novo Machico – Oh  Velho Dinossauro

1-2.Jul.16
Martins Júnior