quinta-feira, 13 de outubro de 2016

“MISSÃO IMPOSSÍVEL” PARA UM FUTURO NOBEL DA PAZ – Ele passou por aqui!


Imperdoável seria deixar bater as vinte e quatro badaladas deste 13 de Outubro sem convidar para o coração da nossa cidade o aclamado hoje, em Nova Iork, Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres. Não pelo patrioteiro rótulo de ser português, mas pelo clarão de esperança que ele traz ao mundo. Antes de chegar à magna Assembleia da ONU, já ele passara por cá, como a foto documenta.
Mais que palmas e panegíricos, apraz-me reter desta aclamação as ilações que dela derivam.
Primeiro, a oportunidade de ouro, sabiamente aproveitada pelos países eleitores para prestigiar a Sociedade das Nações, numa altura periclitante em que  ia resvalando  na mais repugnante promiscuidade de interesses, quando a Srª Merkel atirou para a cena a candidata Kristalina Georgieva. Felizmente a transparência e a honestidade impuseram-se aos oportunismos nacionalistas.
      Já foram internacionalmente elencados os altos predicados de António Guterres que o tornaram o supremo candidato ao majestoso trono para que foi eleito. Eloquentes foram as duas palavras com que subiu à tribuna: “Humildade e gratidão”. Relevo, porém, a primeira. Se este deve ser o estado de alma de quem é designado para o mais  modesto pódio de uma autarquia, junta, câmara, governo regional ou nacional, quanto mais para quem lhe cai aos ombros toda a estrutura do planeta. Não é apenas de finanças que lhe impende a responsabilidade, nem da fome, nem da saúde, nem das alterações climáticas, nem da crise identitária, nem da religião, nem dos conflitos rácicos, nem das multinacionais. É de tudo  isso, ao mesmo tempo  que  será amassado o seu pão-de-cada-dia. Podem cognominá-lo de “Senhor dos Anéis”, Dono do Mundo, Juiz das Nações. Mas nada disso o conforta ou acende sequer um lampejo de dominadora ambição. O conteúdo funcional e final de cinco anos de mandato é o de um Arcanjo Pacificador, quase que um  Extra-terrestre,  que irrompe entre as hostes do ódio e da guerra e aí serena ventos e furacões, cala as armas e transforma-as em altifalantes da Paz.
         O quanto de labor insano, dias e noites aos pés de guerrilheiros e refugiados, o quanto de paciência expectante e, aí, frustradas expectativas, enfim, uma odisseia imparável que nem uma vida inteira seria capaz de levar a bom porto! A diplomacia, com toda a habilidade que lhe é reconhecida,  não vai chegar. Virão os meridianos inultrapassáveis em que será inadiável fazer opções, decidir. E é neste nó crítico – a hora de decidir - que, dizem os analistas, Guterres não brilha. Abandonou o poder, quando Primeiro-Ministro, antes que  Portugal se tornasse num “pântano”, disse então.  Mas o que ele vai encontrar não é um pântano, mas um bravio vulcão incandescente. E não queremos vê-lo no papel intransitivo de um Ban Ki-moon ou nas diplomáticas indefinições de um  Kofi Annan. Segundo a visão dos especialistas internacionais, assumir-se como  Secretário Das Nações Unidas é, hoje, muito mais problemático e penoso que nos tempos da Guerra-Fria, em que o mundo estava identificado no confronto de dois blocos: URSS e EUA. Não assim, agora, porque os focos de rebelião deixaram de ser entre duas potências, para se tornarem em guerras regionais, conflitos dispersos no terreno, reacendendo-se em locais antes imprevisíveis.
         Restam-nos as auspiciosas qualificações que vêm de longe, desde os tempos de estudante universitário em que ocupava as férias no apoio aos bairros da periferia lisboeta. Conforta-nos a simpatia do Papa Francisco  com esta eleição. Tenho para mim que António Guterres será o braço civil do Papa Francisco, o seu estratega operativo no mundo actual. Será ele, António Guterres, no final do mandato, o mais convincente Prémio Nobel da Paz.
         Quando chegar esse dia, Machico poderá aclamar e proclamar: ELE ESTEVE AQUI, no coração da nossa cidade!

         13.Out.16
         Martins Júnior

        

terça-feira, 11 de outubro de 2016

O GENERAL, O PROFETA E O MERCENÁRIO – Um filme desde a Síria de há 3.000 anos até à ilha de hoje


       Foi deslumbrante, de 8 para 9 de Outubro, ver a noite em Machico transfigurada pelas luminárias, tantas, que até ofuscaram a rede pública da Empresa de Electricidade. Lembram, todos os anos, os nocturnos da longínqua idade medieval, povoada de fantasmas e mistérios. Mas o epicentro de toda essa galáxia de cera mole foi a palavra redonda, redonda e vermelha, vermelha, da cor da túnica oriental, saída  do “sol” diocesano: Bem vindos vós, romeiros, que viestes pagar ao Senhor dos Milagres as vossas promessas.
         Nesse mesmo domingo, 9 de Outubro, anteontem, as leituras bíblicas desdobravam diante dos nossos olhos um filme heróico e comovente: a cura do comandante-em-chefe das Forças Armadas da Síria (lá, onde hoje agoniza a martirizada Alepo) o general Naamã. Vem no 2º Livro dos Reis, capítulo V.  Tentarei resumi-la neste breve (?) esboço, de uma possível peça de teatro.  
  
ACTO  I
Sala escura, cheirando a carne moída e malsã.  Ao fundo, encovado no divã,  jaz Naamã, com a lepra a tomar conta dos braços e do rosto. Entra o lugar-tenente.

 LUGAR-TENENTE
Mau general, acabou-se a maldição. Cedo serás livre da fatal doença, se fores ter a Israel com um tal Eliseu,  o homem  de  Deus. Profeta e curandeiro.

NAAMÃ
Juro que não irei a Israel. Será esse profeta maior e mais sábio que os físicos do nosso Império Sírio? Não vou

LUGAR.TENENTE
Tente V.Senhoria, meu general. Toda a corte irá consigo.

ACTO II
     Santuário de Ihaveh: um humilde casebre onde se acoita Eliseu. Na liteira, suportada por quatro eunucas da corte, entra  o general, suplicante.

ELISEU
Não fales mais. Tem confiança. Vai mais além,  ao rio Jordão e mergulha sete vezes.

NAAMÃ dando ordem de retirada aos eunucos
Juro que não vou. Temos na Síria rios mais famosos que esse reato Jordão de Israel. Não vou.

LUGAR-TENENTE
Nosso general, atenda a este vosso servo. Siga o caminho do homem de Deus.

NAAMÃ
Não vou. Esperava eu que esse profeta fizesse oração, que me deitasse a bênção a este corpo que se desfaz. E manda-me lavar ao rio! Está dito, não vou. Palavra de general.

LUGAR-TENENTE
Por vós, Senhor. Pelo poderoso exército sírio. Por todo o povo do nosso reino. Vamos todos. Avante, eunucos.

ACTO III
Rio Jordão. Manhã clara, sol de primavera. Aias e eunucos envolvem o corpo de Naamã, pousam-no na margem do rio que, entretanto, o  afasta para o leito da corrente mansa. Mergulha uma vez. E outra. E a terceira. Na ponte do rio, a comitiva agita-se, ansiosa, num crescente entusiasmo.

VOZES
Será possível? …Que vemos nós?...  A carne toma cor… os braços a abrir. Outro mergulho. E mais dois. E com que energia estranha! … Só falta mais um… E já nada sozinho. Palmas, hossanas ao Profeta de Deus, ao Deus de Israel.

AS AIAS
Quero ser a primeira a tocá-lo… E eu quero beijar aquela pele, agora macia e leve como uma criança recém-nascida.
Naamã sai das águas do rio. Parece acordar de um sonho. As aias e os subalternos trazem vestes novas, limpas, reluzentes. Todos gritam de alegria incontida.

NAAMÃ  
Fora de si, instintivamente  ajoelha, ergue os braços ao alto

Não há outro Deus, senão Iahweh de Israel. Levantemo-nos todos, vamos ao santuário de Eliseu. Trazei-me os cofres das moedas de ouro, os sacos das moedas de prata, as vestes especiosas do mais rico tecido  de Damasco.

ACTO  IV

Casebre-santuário de Eliseu. Ao chão térreo chega, primeiro, Naamã.  Depois, todo o seu séquito, as aias, os eunucos que deixaram fora a liteira, o lugar-tenente. Manda aos oficiais subalternos que  tragam  os presente. Há vivas e cantares. Prostrado por terra, o general, em altos brados, diante de Eliseu.

NAAMÃ
Jamais curvarei meu corpo diante de outros deuses.  A Iahweh, o Deus de Israel adorarei e só a Ele para sempre servirei.  (Sem parar, fala a Eliseu). Profeta de Deus, eu te saúdo e dou-te graças. Rogo-te que dês a este teu servo o dom de aceitares estes presentes que te trago.

ELISEU – dando as mãos a Naamã.
Pelo Deus vivo que tenho servido, sou eu agora que te juro: Não aceitarei, seja o que for que trouxeres. Levanta-te, segue o teu caminho, cumpre os mandamentos do Deus de Israel.

NAAMÃ
Não, Profeta de Deus. Eu agora sou o teu vassalo e Iahweh o meu soberano. Só irei em paz para a minha amada Síria, se aceitares estes singelos presentes.

ELISEU
Não aceitarei. Nem eu, nem o meu ajudante Giesi. Está dito. Palavra de Profeta. Segue o teu caminho.

ACTO V

Perante a recusa, o general pede para  transportar um pouco de terra de Israel, para levantar em Damasco um templo ao Deus de Eliseu. A despedida de Naamã e de todo o séquito faz-se entre lágrimas, clamores e cânticos de festa. Entretanto, recolheu-se o Profeta em oração. E Giesi, sempre  atento e de olhar sequiosos em todo o Acto anterior, deixou que a comitiva dobrasse uma das dunas do deserto e, às escondidas de Eliseu, galopou a toda a brida no encalce de Naamã, que mandou parar a sua escolta.  

GIESI
General do Grande Império! Digna-te perdoar a este teu servo… O meu amo e senhor Eliseu acaba de receber em sua casa dois mancebos, filhos de profetas  da montanha de Efraim.  E não tem nada que lhes dar.  Poderá V. Senhoria dispensar uma ou duas porções do presente  que ele recusou?... Iahweh te agradece e o Profeta te abençoa.

NAAMÃ
Viva o Deus de Israel! Aias e eunucos, oficiais meus subalternos, devolvei a Giesi  todo o ouro, toda a prata, as vestes reais e tudo o mais que eu trouxera  ao Profeta.  (Para Giési).  Não te esquecerás de dizer ao teu amo e senhor quanta honra e felicidade  destes  a este seu vassalo e para sempre  sequaz do Deus do Profeta de Israel.

ACTO VI
Giesi, radiante como nunca, depois de guardar ciosamente em casa a fabulosa oferta de Naamã, apresenta-se, nesse fim de tarde, a Eliseu, no templo-casebre onde ficara.

ELISEU
Giesi, dizei-me  por onde andou este meu servo bom e fiel, toda a tarde deste dia.

GIESI
Por lado nenhum, meu amo e senhor

ELISEUEm tom severo e ameaçador.
Pensas, acaso, que o meu coração não foi contigo., quando saíste na tua montada?...  Pensas que eu não te vi receber desse homem riquezas sem conto?... Pensas que o Deus de Israel não te viu quando  as escondeste  em casa?... Recebeste dinheiro e mudas de roupa real em nome do Deus vivo, que eu sirvo!!!
(Giesi, transido de pavor, escondia-se no desvão da escada).

ELISEU(No mesmo tom de voz)
Não fujas, Giesi, hás-de ouvir-me até ao fim. Hás-de saber a sentença que te reserva  Iahweh. Agora, estás rico, riquíssimo. Podes  à vontade comprar terras, vinhas, gados, bois, carneiros. Terás tudo o que Naamã  te  deixou. Mas, ficarás com algo mais. (expressão mais grave e austera). Sim, ficarás com algo mais. Ficarás  com a lepra de Naamã!... Tu e toda a tua geração!

                                   (Cai o pano)
                          _________________________________________

O texto do 2º Livro dos Reis, capítulo V, versículo 27, termina assim :
“E naquela hora Giesi retirou-se, com o corpo coberto de lepra”.
                       _____________________________________
 E agora termino eu:
“Vem, Eliseu Profeta de Deus, olha em teu redor e em nosso redor. Hás-de encontrar, decerto,  muitos Giesi’s, locupletados . à custa do Deus de Jesus  e Sua Mãe, comprando quintas e quintais, carros e carruagens, bolsos e bolsas bancárias. Não com o dinheiro de generais, mas com as promessas ‘pagas a Deus’ pelos pobres crentes,  explorados no corpo e na alma”.
 Será que o mundo anda todo leproso sem darmos por isso?!

11.Out.16

Martins Júnior

domingo, 9 de outubro de 2016

MACHICO - NESTE SEU DIA - ESTÁ EM FESTA


Bem sei que há outros assuntos de maior projecção no horizonte do mundo actual e, daí, de superior e abrangente mais-valia para a comunidade global. Mas não podia deixar em branco este dia, pelo peso histórico daquele que foi o Pórtico das Descobertas da era quinhentista e, mais intensivamente, pelo que falta escrever no roteiro futuro deste concelho. O mote, quem fundamentadamente o deu foi o Secretário
Regional Sérgio Marques, quando iniciou o seu discurso:  “Se há lugar que se possa chamar berço da Madeira é Machico e a sua baía”.
Na mesma linha e obedecendo às minhas raízes, escrevo este afectivo  “auto de notícia”,  saboreando aquela quadra de sabor tipicamente popular, até na (des)concordância gramatical:
                            Sou daqui, não sou dali
                            A minha terra não nego
                             Minha terra é  Machico
                             Onde os meus olhos navego

É, pois, um tributo à terra-mãe este feixe de notas, em forma de reportagem para memória futura. Refiro-me, tão-só, à efeméride “Dia do Concelho”, deixando para o foro íntimo de cada crente a celebração religiosa do “Dia do Senhor dos Milagres”.  E o miradouro de onde melhor se avista este dia é a sessão solene, cujas intervenções reflectem o palpitar do coração de Machico  no panorama ecléctico - leia-se, democrático - dos intervenientes, enquanto legítimos representantes da população.
Logo à partida, será justo assinalar a retoma de uma tradição iniciada pelo signatário destas linhas: libertar dos recintos fechados e reservados a pseudo-élites a comemoração e devolvê-la ao grande público num amplo espaço aberto, neste caso, os jardins do Solar do Ribeirinho, de ancestrais pergaminhos da nossa história local.
Identificando-se com esta abertura social, é da maior relevância democrática a iniciativa do actual “Corpus” autárquico em dar a palavra a todas as formações partidárias com assento na Assembleia Municipal – este, um gesto nobre e um direito indeclinável que, durante quase 40 anos, foram negados  até na própria Assembleia Legislativa Regional da Madeira. Mais uma vez, Machico foi pioneiro nesta marcha para a Democracia plena que motivou da parte do deputado, representante do CDS-PP,  um rasgado elogio ao presidente da Assembleia Municipal.
No domínio das intervenções, apraz-me salientar o discurso de Alberto Olim, presidente da Junta de Freguesia  e deputado municipal pelo PS, que levantou uma esperançosa onda de força e optimismo, rumo ao futuro do concelho, convocando para isso todos os responsáveis a entrar na mesma nau de compromisso em prol de Machico.
A dialéctica político-operacional coube aos dois representantes, cujas formações partidárias  (PSD-PS) têm alternado na gestão camarária. Sem sombra de dúvida, o extenso – mas excelente - discurso de Ricardo Franco, presidente do município, marcou o solene evento,  exercendo ali  o seu magistério  de líder e pedagogo e explanando, ponto por ponto, o estado das finanças e os planos de acção, os já vencidos e os vincendos.
 Coube a Sérgio Marques, em nome do governo regional, trazer a boa-nova do Funchal, anunciando obras no concelho, no valor de 15 milhões,  para o próximo ano. Sendo pública e notória a reiterada retaliação dos governos da Quinta Vigia em relação a Machico, as promessas douradas trazidas hoje à ribalta do “Dia do Concelho” dificilmente escamoteavam objectivos eleitoralistas, o que, no fim da sessão e em ambiente cordial,  fez-me observar ao orador: “Com que então, Senhor Secretário, para o ano o ‘Senhor dos Milagres’ vem mais cedo: antes  das eleições”…
A encerrar, o Representante da República para a Madeira, Ireneu Barreto, muito pertinentemente julgou, do alto da sua cátedra de juiz, o Povo de Machico, cognominando-o  de “gente rebelde” e porfiada na defesa da sua dignidade, citando como paradigma das gerações vindouras o grande Francisco Álvares de Nóbrega, “Camões Pequeno”, paladino dos ideais do seu e de todos os tempos: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Enfim, uma rara manhã de sol primaveril em pleno outono, que culminou com a entrega de insígnias aos trabalhadores que, por limite de idade, terminaram funções. Neste item, será justo relevar a oportuna homenagem à Banda Municipal de Machico, na pessoa do seu director, professor Manuel Spínola, pela comemoração, em 1 de Novembro p.f., dos 120 anos de serviço à cultura de Machico e da Madeira. Merecido preito de louvor a uma colectividade que continua sempre segura da sua missão e sempre revigorada com novos executantes! Esta aclamação da Banda Municipal de Machico, por parte  da edilidade, ganha tanto mais brilho e sentido quanto se sabe da marginalização (que eu considero tribal e criminosa) a que tem sido votada pela instituição eclesiástica local e diocesana, numa outra mostra de “racismo” unilateral,  arcaico e deseducativo  para toda a população. Enfim, infantil e ridículo.


Impossível esquecer a aragem musical,  fresca e matinal, do coro infantil das “Flores de Maio” do Porto da Cruz, a quem o nosso exímio Grupo Coral de Machico deu lugar, na abertura e no encerramento da sessão solene  -  prova inequívoca de descentralização e abrangência cultural, onde todas as freguesias têm assento por direito próprio.
Longe vai este apontamento de reportagem para memória futura. Entretanto, permitam-me expressar um voto que me parece correcto e útil. Faço-o através de uma pergunta: “Quando chegará o dia em que o ‘Dia do Concelho’ seja colocado no seu  pedestal autónomo e condigno? É que a história de Machico  é mais profunda e antiga que os 213 anos da trágica  aluvião de 1803, origem do “Dia dos Milagres”.  Machico  está à beira dos 600 anos de afirmação na historiografia regional e nacional. É uma velha questão que, na metodologia sociológica que vislumbro, bem poderia ser solucionada, para bem de todos. Por motivos históricos e por outros considerandos que não cabem nesta já longa nota evocativa.
Não me apetecia terminar. Porque quem ama verdadeiramente não se cansa de amar:  a sua terra, a sua história, a sua gente. Como denominador comum de tudo o que foi condensado na sessão comemorativa de hoje, ficou bem escrita, ao longo dos discursos, a melhor e mais bela investidura que Machico merece: “Machico, Terra de Abril”!

        09.Out.16
      Martins Júnior


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A CATEDRAL DA PAZ NA ACADEMIA DO NOBEL



Ui!... O  turbilhão de boas-novas que neste dia alagam de optimismo o portal das nossas casas e pedem para entrar nos nossos blog´s, os meus e os de todos os outros companheiros desta viagem comunicacional. De entre o fenómeno Guterres (que deixarei para outra altura até aos sucessos do Portugal desportivo, escolho hoje para estrela da manhã o Nobel da Paz atribuído ao Povo Colombiano  na pessoa do seu presidente, Juan Manuel  Santos.
Já, na hora própria, me congratulara efusivamente neste mesmo lugar, aguardando que o acordo assinado pelo presidente e pelo comandante “Timochenko”  visse a sua plena consagração no referendo popular, o que não aconteceu, embora por escassa minoria de votos Desoladamente, quem veio a ganhar foi o “Não”, em virtude da grande abstenção dos colombianas que, certamente, tinham como seguro o acordo firmada pelos dois líderes beligerantes.
Mas até nesta, de todo, inesperada decepção,  se avoluma o esforço heróico dos dois homens que desenterraram a Paz dos escombros sangrentos de 52 anos de luta armada. Feito memorável, agora reconhecido pela Academia. De fora, ficaram os sedentos de sangue humano, os carrascos da vingança, escravos ainda da Lei de Talião – “dente por dente, olho por olho”.
A brisa suave e pacífica que começa a soprar em países da América Latina, também fará a sua marcha triunfal em toda a Colômbia. Pouco a pouco – porque nada há mais difícil de ganhar que o conflito de mentalidades e gerações. Mas infalivelmente alcançará o tão almejado Monte Tabor!
No entanto, ninguém esquece que um acordo não é um monólogo de um actor, só,  em palco. Falta o outro polo para que se faça luz. Neste entendimento que, de resto, nem carece de demonstração, ouso aqui observar que o magno areópago norueguês ressentir-se-á, sem dizê-lo, da ausência de alguém que, por mérito próprio, deverá lá estar: o líder das FARC, comandante “Timochenko”, construtor ex aequo,  com Juan Manuel  Santos, do grande Monumento da Paz Colombiana. Tenho a certeza de que  a eventual não-convocatória daquele para a solene entregue do Nobel, por protocolares motivações da diplomacia internacional e para não ferir susceptibilidades atávicas, será prontamente aceite  pelo próprio, tendo em vista  um Bem Maior, a PAZ – gesto que mais e mais engrandece a estatura política e civilizacional do “comandante”.   
Devo, ainda assim, recordar um caso precedente, ocorrido naquele mesmo salão,  quando idêntico galardão fora entregue conjuntamente ao Bispo Ximenes Belo e ao comandante da guerrilha operacional, Xanana Gusmão,  nas montanhas de Timor Lorosae. Porque a Paz só é possível pelo encontro e pelo abraço mútuo entre as duas partes litigantes.
O mais importante e o que ficará eternamente para Memória Futura é que a Paz triunfou sobre a guerra. E, tal como em Portugal – assim o esperamos – da ponta das espingardas não sairão mais balas fratricidas, mas cravos vermelhos de um  imenso “Abril” Colombiano.

 07.Out.16

Martins Júnior 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

ESTÁTUAS MUDAS E FRIAS NO CONGELADOR DO PASSADO - Anatomia breve a todos os “5 de Outubro”


Múmias – em vez de estátuas – era o que pediam as teclas do computador, visto ter sido condenado o “5 de Outubro” à vala comum, de onde saíu agora, após três anos de hibernação, igual aos outros 365 sem rosto. Preferi chamar-lhes “estátuas” a todas as  datas sebastianistas que dão pelo desejado nome de feriados nacionais.  No entanto, apus-lhe os qualificativos “mudas e frias”. Porque é   assim que elas ficam quase sempre  no subconsciente das tradições, sem que a grande porção dos utentes se interesse minimamente  em perscrutar-lhes a raiz e os frutos. Por isso, aí ficam embalsamadas no “congelador do passado”.  Até que toquem as sinetas oficiais para saírem à rua em palanques vistosos e elas, não menos vistosas, vestidas de lantejoulas verbais que saem dos discursos de encomenda.
O Povo – a turbamulta dos beneficiários – esse dispersa-se pela praia soalheira, como a de hoje em todo o território nacional, ou pelos trilhos das montanhas ou,  a grande mole, pelo formigueiro dos  corredores dos centros comerciais.        Mas, que lugar ocupa então o “5 de Outubro”  no “animus” dos portugueses neste dia que é seu, “somente seu” e de nenhum outro país?... Que lhes sobe ao pensamento quando o despertador adormece e se esquece de acordá-los, como no ano transacto, chamando-os ao trabalho?...E o fim de um dia de mais saúde física e psicológica, quem ousa perguntar a quem devem esta folga?... Ao governo da coligação, não, porque já ultrapassou os cem anos a sua longevidade. Do céu também não desceu. Do acaso, muito menos.
Tantas palavras para chegar a uma conclusão, tão clara e única como esta: Alguém, gente como nós, arrancou do calendário a folha esquálida e disforme em que os portugueses, mirrados de abandono, apodreciam – e em seu lugar plantou o verde de uma árvore, regada com o sangue anónimo de toda população sofrida. Mais forte e vermelho foi o daqueles que tudo arriscaram para que o Povo Português deixasse de ser manta esfarrapada sob os pés de uma só família - o Monarca - e se tornasse bandeira verde-rubra flutuando sobre todo o azul do Mar Português, como expressão da Liberdade, Igualdade e Fraternidade comum aos países civilizados da Europa e do Mundo.
Necessário e útil será a pedagogia das escolas assinalar aos jovens os nomes, as passadas espinhosas, sangrentas até, de quantos fizeram a transição entre a Monarquia e a República, para nos identificarmos e saborearmos este dia memorável.
E a nós, adultos, compete-nos segurar o “5 de Outubro”. Porque sempre houve e sempre haverá um “5 de Outubro” –  quer no “1º de Dezembro” de 1640, quer no “25 de Abril” de 1974. E em qualquer esquina da história futura. Porque os genes da repressão e da ditadura, ínsitos num esconso labirinto do crânio humano, estão sempre em potência à espera da sua oportunidade. E ela surge quando nós adormecemos e acomodamo-nos.
Ser patriota é estar vigilante. Não o bajulado lamber da bandeira como a raposa à espera do bago de prata que cai dos anéis dos governantes. Deles falou e caricaturou  Eça de Queirós, quando os remeteu para o caixote dos “patriotaças, patrioteiros e patriotarrecas”.  Mas daquele amor pátrio que se traduz na vigilância inteligente aos rumos do nosso país, do nosso concelho, da nossa freguesia, do nosso sítio. Na escola, na oficina, no campo, na fábrica, no escritório, na rua.
Por outras palavras, foi essa mensagem do Prof. Rebelo de Sousa, Presidente da República no seu discurso, conciso e incisivo, deste “5 de Outubro”. Para que não seja mais uma estátua muda e fria, mas se alevante como o corpo vivo da alma de Portugal!

05.Out.16
Martins Júnior

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

“ÉRAMOS FELIZES E NÃO SABÍAMOS” – Belíssima entrada para o Dia de Machico


O estribilho, de pura inspiração pessoana,  percorre caminhos de outrora, povoa ritmos e canções, desvenda segredos e prazeres de outras eras em que a felicidade, de tão inteira e plena, nem dávamos por ela.
         Foi este o sabor e foi este o cheiro que  neste fim de tarde, no vetusto Solar do Ribeirinho, tomaram conta daqueles que seguiram o roteiro biblio-fotográfico de Machico nos alvores da Primavera de Abril. Aí desfilaram memórias, escaladas ascendentes e mergulhos empolgantes, uns gloriosos outros sofridos, numa atmosfera livre e saudável, colada ao corpo das pessoas e à  beleza do vale. Para quem como eu e muitos que ali estavam, maior foi esse perfume a felicidade, porque juntos fôramos sonho criativo e, ao mesmo tempo, pá, enxada e picareta – arquitectos e artífices braçais do que então foi feito.
         Pela mão do Dr. Bernardo Martins, também ele construtor do feito, percorremos o historial do denominado “Centro de Informação Popular”, nascido logo no coração de Abril de 1974.  Antes de certas “élites” madeirenses se organizarem em movimentos sócio-culturais ou políticos, já em Machico,  o chamado “Povo Unido”  (uma nomenclatura genuinamente local e mais tarde tomada por outras formações estranhas ao concelho) descobriu que tinha de estruturar-se colectivamente para alcançar o seu lugar ao sol, esse merecido sol que durante cinco séculos tinha sido negado a pais e avós.
         Não vou aqui inventariar o espólio – valiosíssimo, para quem tem olhos de ver – que nos mostra o salão de exposições do Solar. Apenas respirar de saudade e de íntima fruição de um mundo em que “éramos felizes e não sabíamos”.  O alinhamento lógico e cronológico dos acontecimentos é feito num estilo sóbrio e claro, como convém aos parâmetros da ciência histórica, não fosse este o resultado da Tese de Mestrado apresentada pelo Dr. Bernardo Martins na Universidade da Madeira.
         Bem poderia substituir a expressão “éramos felizes” por estoutra – “o que nós fomos capazes” de construir, as iniciativas concretizadas, perspectivas pioneiras que, sem outros meios que não fossem o ânimo da juventude e o desejo de um Machico Novo. Fomos visionários de tantos projectos que, mais tarde, os poderes e as finanças públicas vieram a dar mais amplo cumprimento.
         Sucintamente: a abertura de um Jardim de Infância nas instalações do Forte de São João Baptista sobranceiro ao cais de Machico: a abolição do leonino regime de colonia que escravizou gerações e gerações de camponeses; o semanário “O Caseiro”, a expensas da população; a luta dos engenhos de cana-de-açúcar por uma justa retribuição;  idem  na Fábrica de Conservas de Machico: idem na Fábrica Baleeira do Caniçal; idem quanto ao trabalho das bordadeiras da Madeira; o apoio ao alojamento dos refugiados-retornados das ex-colónias portuguesas; a estratégia popular para barrar o caminho aos bombistas da Flama separatista; a conquista do poder municipal;  a resistência a uma Igreja diocesana, ostensivamente aliada do fascismo salazarista e do “neo-fascismo” regional.
         Olhando daqui  - quarenta e dois anos volvidos – comovo-me e congratulo-me por redescobrir que o Machico de então, sem dinheiro e sem armas, foi a locomotiva que, por intuição e acção, transportou os sonhos do futuro.
         Bem fizeram a Assembleia Municipal, a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia de Machico em colocar a presente iniciativa no frontispício das comemorações do Dia do Concelho, 9 de Outubro de 2016.

03.Out.16

         Martins Júnior

sábado, 1 de outubro de 2016

ÀS PORTAS DO SILÊNCIO, O TRINAR DAS GUITARRAS – No dia novo do novo mês


À janela de Outubro, abro lentamente a cortina e leio o som escrito sem partitura na “Música Aquática” de  Haendel, sinto o verso branco sem linhas  lavrado no “Livro em Branco”  das horas felizes. Porque hoje escrevo sem corpo, tão forte  e possessiva é alma que me toma.
Música, Água, Idade longa! É essa  a alma que veste o corpo deste dia, numa tríade mágica que transforma tudo em páscoa renovada. Até das próprias cinzas nascem manhãs de primavera. Falo assim porque não me saem nem jamais sairão de dentro de mim os acordes de uma guitarra esvoaçando no terreiro da morte. Isso mesmo. Ontem, quando a urna da saudosa octogenária Professora D. Ivone preparava a entrada diante das portas do silêncio sem retorno, em vez de rezas perdidas ou ladainhas de prantos, soltam-se as cordas das guitarras sustentando a voz de Amália: Foi por vontade de Deus… Coração independente … Pára, deixa de bater… Eu não te acompanho mais…
Mais intensa e avassaladora que qualquer outra oração do ritual seco, inerte, dos funerais! Lembrei-me do Desfado que o amigo Paquete Oliveira escolheu para abrir a sua e nossa marcha comum, na Basílica da Estrela, rumo ao éden de Olivais Sul, a mansão adequada à sua identidade onomástica. Mais impressivo, ainda, o desejo expresso daquela mãe que pediu aos filhos, ainda adolescentes, nas vésperas do último suspiro: Quando o meu caixão sair da igreja da Ribeira Seca, digam ao senhor padre que ponha a tocar a nossa canção “Festa/ Festa do Povo/ O Povo que trabalha/ E faz o mundo novo”. E justificava: “É essa canção que me tem  aliviado as terríveis dores com que  vou morrer”. Que sereno estoicismo – mais que estoicismo – energia vital! E assim se cumpriu a última vontade.   
Enquanto, em 1 de Outubro, o último terço do ano aponta a porta de saída de 2016,  “os que da lei da morte se vão libertando” entregam-nos numa bandeja de prata  o testamento da vida, o respiro do optimismo e a força de saltar as barreiras desta pista onde todos corremos. É por isso que escrevo  mais com as asas da alma do que com os dedos do corpo. Das cinzas da  morte renascem centelhas da Vida!
É o que vi – todo o mundo viu e, julgo, muitos  nem queriam acreditar  –  no funeral de mais um obreiro da Paz, Shimon Peres, quando os dois inimigos figadais, Benjamin Nathanael e Mahmoud Abbas – apertaram as mão e balbuciaram, num fio de voz pacífico, inspirador – este  novo “grito do Ipiranga” entre a irredutível Israel e a massacrada Palestina: “Há quanto tempo… Há quanto tempo”…  Este  desabafo de saudade de dois povos irmãos, há tanto tempo desavindos, talvez seja a primeira página do testamento de Paz que lhes deixou Shimon Peres.
Para quem continue céptico diante deste gesto promissor relembro o aperto de mão – tão mal interpretado por muitos analistas – entre Barack Obama e Raul Castro, no dia do funeral do enorme génio do Consenso entre Povos desiguais, Nelson Mandela. Afinal foi esse o prenúncio do “inconcebível” Acordo de Paz assumido mais tarde entre Cuba e os EUA. Quem diria?...
É por isso que continuo a escrever nas estrelas e não nos epitáfios da morada dos mortos. É por isso que não nos deixa parados esta canção batida, à beira da tumba: “Festa do Povo que trabalha e faz o mundo novo”.  Na transição de 1 para 2 de Outubro, oxalá que o referendo do povo colombiano confirme o abraço, recentemente selado e proclamado, entre o “Timochenko” das FARC e o presidente da Colômbia, José Manuel dos  Santos.
E Oxalá – agora para nós – que o fio das lágrimas dê lugar às cordas de uma guitarra, como no dia claro do adeus à Prof. D. Ivone!

01.Out.16
Martins Júnior