segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

VIGÍLIA DO NAMORO, PROMESSA DO AMANHÃ : Namorados toda a vida!


No bico do vento-correio
Voaram goivos de longe
E o mar emudeceu
Pousado no gineceu
Da namorada ilha
Aberta em cobiçoso seio

E o sonho começou

Antes de ser flor e fruto
Foi alcova promessa anseio
Sem tracejado nem fim

Toda a vida o Livro
De um ignoto São Valentim

Porque o namoro é o mistério
E no mistério está o ganho
Onde tudo o que é estranho
Fica perto e verdadeiro

O sol namora a lua
Namora a lua as estrelas
Namora a montanha o abismo
E o mar bravo já é espuma
Nos dedos da areia à espera

Namoro é primavera
Jardim moço de virgem  buganvília

Sempre a vigília
É mais bela que o dia
Aquela abre a alvorada
E o dia na noite se esfuma

Namoro só tem vigília
E todo o mundo é namoro

Deus-macho namorou Eva
E fê-la Mulher e Mãe
Deus-fêmea olhou Adão
E fê-lo Filho varão

Rio selva astro nuvem húmus
E quanto lá existe
Cumprem unidos os rumos
Ardentemente traçados
De arfantes namorados

Por isso
Namora
Todo o tempo toda a hora
Trá-lo contigo aprende-lhe a arte
Se te esqueces do namoro
Vem a morte namorar-te

Manda-a embora
Sonha sempre com a manhã

Serão prata e diamante
O trono  e a glória vã

Mas ouro
Ouro fino de garante
Radioso expectante
O namoro
Só o Namoro


13.Fev.17
Martins Júnior

sábado, 11 de fevereiro de 2017

DESALINHADO E ABUSADO – NO ENTANTO, DIVINO!


“Bom-fim-de-semana”… Normalmente é este o envelope com que endereçamos aos outros um voto repousante de higienização física e mental: uma paisagem, uma leitura, uma peça de teatro, um concerto de boa música, nalguns casos um jogo de futebol, uma corrida pedestre, enfim, um alibi para alívio da rotina habitual – cansativa por ser rotina. Na minha condição, tenho sempre à espera uma carta que vem de longe, de milhares de anos, sempre antiga e sempre nova: um texto bíblico que se me oferece para reflectir e, depois, para transmitir àqueles que me acompanham mais de perto na jornada da vida.
Não é meu hábito trazê-lo para esta página. Mas hoje não resisti. Precisamente porque vem na correnteza do escrito anterior, em que comentei a transparente coragem do Papa Francisco no seu magistério docente e, daí, as arremetidas, umas vezes surdas e baças, outras primárias e insolentes, vindas de colaboradores directos que, conhecendo a luz  da Verdade, tudo fazem para que os outros não a vejam. Acusam Jorge Bergollio de erro doutrinário, de tendencioso, desestabilizador, desalinhado e até de ter sido um “erro do Espírito Santo” a sua eleição para Pastor da Cristandade. O mesmo ‘destino’ tiveram e têm muitos teólogos, muitos sacerdotes, cujos nomes também citei.
Ora, nem de propósito. A literatura bíblica deste  Domingo traz-nos a resposta, o esclarecimento iniludível, a síntese que define toda a dialéctica. O Logos, a Palavra por excelência, o Mestre J:Cristo foi considerado pelos Sumos ‘Pontífices’ de Jerusalém como um  marginal incorrigível, um perigoso agitador da ordem pública. Para comprometê-lo perante as instâncias políticas acusaram-no de rival de Herodes e Pilatos, representantes do Império Romano. Para condená-lo no Sinédrio (a Inquisição de então) não fizeram por menos: “Ele é um blasfemo, um bêbedo, o pecador, o da má-vida. Ele é o Belzebú, príncipe dos demónios”.  Enfim, um desalinhado, repudiado pelos senhorios da lei e da opinião pública. Amado e apaixonado pelo Mestre, o Povo, só o Povo.
Mas o que mais me perturba e revolta é que, além de “desalinhado” para o seu tempo, Ele foi e continua a ser “o abusado” pelos que tomaram conta do seu legado e dizem-se seus representantes. Leio o excerto do texto de Mateus, 5, 13-16, indicado oficialmente para este domingo:
“Se o vosso código de justiça não superar o dos escribas e fariseus (os ‘Doutores da Lei’) não podeis pertencer ao meu reino… E tu, se vieres trazer uma oferta ao altar e, aí, te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, vai lá fora (sai do templo) reconcilia-te com o teu irmão (fala com ele, pede-lhe perdão) e só depois disso é que estás apto a entregar a tua dádiva”  (só então, estás absolvido).
Onde está aqui a inauguração da confissão eclesiástica?... Quem vê neste normativo as tabuinhas de pinho e as misteriosas grades dos confessionários?... Afinal, quem é o juiz desta causa?... Um personagem estranho, um terceiro que não é parte no processo?...
Como foi possível decretar (e mais lamentável) aceitar tamanho atestado de irresponsabilidade  criminal, impunidade gratuita  e  humilhante inimputabilidade?!... Compulsando o Livro do Ben-Sirá (a primeira leitura de hoje), escrito duzentos anos antes de Cristo, aí se afirma que “Deus concedeu ao homem  o dom da liberdade e pôs nas suas mãos o poder (a responsabilidade) das suas decisões”.  Como foi possível, então, entortar a Verdade original?
Este é apenas um caso entre muitos, trazido hoje à colação por se me afigurar oportuno para este fim-de-semana. E em forma de desabafo, apetece-me dizer: De que serve, ó Cristo, te cansares tanto com quem não quer ver nem aprender?... Mas sempre  vale a pena seguir-Te as pegadas:  a vida é tão breve que seria um crime enchê-la de cegueira e escuridão.

11.Fev.17
Martins Júnior


            

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

DO VATICANO… À MADEIRA


“Nosso Mundo, Vasto Mundo”!
Não podia encontrar melhor prelúdio do que o título da obra do grande teólogo Yves Congar – “Nosso Mundo, Vasto Mundo” – para tentar compor um hino triunfal a todos aqueles que fazem  da consciência o seu estandarte e do seu peito uma bandeira  na grande marcha da história ao serviço da Verdade e do Bem, seja nos himalaias soberanos, seja nos humildes recônditos da aldeia.  Porque os grandes feitos e os grandes líderes tanto podem emergir na extensão do Vasto Mundo, como podem florir no terro escasso  do “Nosso Mundo”, por mais remoto que pareça.
Referi-me, há uma semana, à estatura moral do Papa Francisco, à sua coragem inquebrável e ao desassombro do seu magistério de Pedagogo e Guia do Homem contemporâneo, usando  por única estratégia o regresso às origens, ao Evangelho do Cristo histórico. E por isso, à imagem do Mestre, tem sido  malsinado pelos inquilinos purpurados do Vaticano, até ao cúmulo de ficarem indiferentes (senão cúmplices) de cartazes ofensivos nos espaços públicos da cidade de Roma.
Na monarquia mais estranha da instituição católica  (e em todas as outras religiões) quem enfrenta o dogmatismo vigente paga-lhe tributo. E a factura exigida é a humilhação, o opróbrio público, o ostracismo, o martírio enfim. E o mais estranho, ainda,  e contra-natura  é que os autores do crime são os familiares, os de dentro de casa, os que comem à mesma mesa. Por outras palavras, os correligionários, participantes da mesma crença, mais dogmatistas que o dogma, mais papistas que o Papa, mais evangelistas que o Evangelho. Já o Nosso Cristo alertara: “Vai haver quem vos mate, pensando que está fazendo um serviço a Deus”. Digam-no os muçulmanos. E digam-no os bispos cruéis da Inquisição. E digam-no os cegos, fanáticos tribunais eclesiásticos. “Perdoai-lhes, Senhor, não sabem o que fazem”. Mas fazem sangue e afogam a voz dos inocentes.
No entanto, “podem prender-me a mim, mas a Verdade é que não pode ficar presa nem encadeada” – clamou Paulo Apóstolo perante o tribunal. No mesmo tom, Policarpo, António Vieira, Luther King, Óscar Romero e tantos outros, “Felizes por serem perseguidos por amor da Justiça”.
 Vêm estas palavras a propósito das acintosos  comentários  dirigidos, um dia destes no ‘facebook’, ao Padre José Luís Rodrigues, por comunicadores que se apresentam como arraigados defensores da Religião, chegando ao desplante de o apelidaram de ‘demónio’, conforme desabafo do próprio.
E porquê?... Porque o Padre JOSÉ LUIS RODRIGUES é um pedagogo, um mestre, um guia que tem a coragem de sair à rua, através das redes sociais, serve à mesa do seu suculento “Banquete da Palavra” todos quantos têm fome e sede da Verdade, desdobra publicamente as novas descobertas de outros pensadores, as vivências e as ressonâncias de tantos homens e mulheres que corajosamente desbravam as florestas do obscurantismo para que a luz transbordante do conhecimento penetre em cada um de nós. E acima de tudo, um homem de acção, intrépido, coerente e consequente. Dele bem poderia dizer  o nosso clássico Sá de Miranda aquilo mesmo  que, no século XVI, escreveu em Carta a D.João III:
 “Homem d´um só parecer/ dum só rosto e d´uma só fé/ d’antes quebrar que torcer/ Outra coisa pode ser/ Mas da corte homem não é”. (Hoje diria: “Mas da cúria homem não é”)…
Contrariamente aos detractores, “iluminados” pelas trevas da ignorância,  ele tem o merecido apreço de milhares de leitores que o seguem atentamente e já não passam um só dia sem alcançar a nascente da água da sabedoria que generosamente flui da sua escrita. Da minha parte e da parte da população da Ribeira Seca, jamais esqueceremos a sua surpreendente coragem em denunciar o atentado da diocese quando,  em 8 de Maio de 2010,  o responsável eclesiástico não deixou que a Imagem Peregrina entrasse no adro e na igreja desta porção do Povo de Deus. Agradecemos a sua disponibilidade sincera em participar e ensinar à nossa gente a Palavra nas celebrações festivas do Orago. Gesto nobre, eminentemente cristão, como o fez o falecido escritor Padre Alfredo Vieira de Freitas, como o fazem o Padre Tavares Figueira, o Prof. Dr. Pe. Anselmo Borges, o benemérito Padre Jardim Moreira, o teólogo Frei Bento Domingues, o Padre Armando Rodrigues.
No meio da apagada mediocridade da paisagem diocesana, a começar pela cúpula, a Madeira pode justamente ufanar-se de ter alguém que possui a estatura de  Moisés para subir à montanha e daí lançar sementes de estrelas e “canções ao vento que passa”!
Padre JOSÉ LUÍS RODRIGUES!  Que nunca a voz lhe doa nem essas mãos afrouxem na tribuna da palavra e no estendal da escrita! Ao Papa Francisco também o contestam. E ao Nosso Cristo os donos da religião disseram que tinha o demónio no corpo. O Povo esclarecido é quem vai segurar o inspirado “chef” do “BANQUETE DA PALAVRA”!

 09.Fev.17

Martins Júnior

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O CHORO DAQUELA CRIANÇA – Esboço de frustrações infantis…

       
      Embora  não praticante da escrita em cima  das águas correntes, hoje não escapo. Lá vai esta folha rolante , escrita  com a mesma transitória inspiração com que depressa vai diluir-se no fluxo breve do quotidiano. Mesmo assim, não posso deixar passar sem marcar na ponte um sinal, uma mensagem que perdure.
         Como eu, certamente não haverá aí ninguém que fique indiferente às lágrimas de uma criança. Seja por que motivo for. Já o nosso Augusto Gil, ao ver uma criança caminhando, descalça, sobre  a  vereda nevada, sentia uma infinita tristeza e uma funda turbação: “Cai neve na natureza e cai no meu coração”. O pranto de um menino que vai para uma cirurgia, uma menina vítima de bullying, uma criança que perdeu o ano escolar, outra que perdeu o pai, a mãe, um irmão. E, por todas, aquelas que procuram refúgio em terra estranha…
         Mas o choro que hoje vos trago deu-me para rir. E, logo depois, para mergulhar num mar de preocupações e de sofrimento até. Paradoxo! Decifro-o  em duas linhas. Sábado passado, entrávamos  num restaurante, quando subitamente demos com um petiz – não teria mais de 5/6 anitos – que saía da sala, com os seus familiares.  Encobrindo o rosto com o capucho de inverno, o miúdo arfava, aos soluços sufocados, escondidos, dentro do casaco do pai. E por mais carinhos que lhe dessem – não chores, amanhã  será melhor, p’rá semana vamos ganhar – nada estancava aquela dor indizível do menino, nervosamente abraçado ao pai. Perante o nosso espanto, o pai explicou-nos: “É que o Sporting acaba de perder com o Porto. E ele é sportinguista”.  Num primeiro impulso e porque nada de grave lhe tinha acontecido, sublinhámos a cena com uma saudável risada.
         Entretanto, o episódio trivial e, pode dizer-se,   humorístico, deixou-me perplexo. E tem-me acompanhado por estes dias. As mágoas, os desgostos, as frustrações das crianças!  Elas existem no seu subconsciente e, embora abafadas por timidez, de vez em quando vêm ao de cima entre lágrimas furtivas. Quem terá tempo, intuição e paciência para interpretar os silêncios doloridos de uma criança, nos recreios, nas aulas, nos amuos,  no isolacionismo instintivo ?...  Perscrutar o coração humano, muito mais o mistério da alma infantil, não é tarefa fácil. Digam-no os professores, os verdadeiros pedagogos. Eles sabem que um erro de cálculo na análise aos  anómalos comportamentos de um jovem pode ter consequências irreparáveis para toda a vida. Os professores, os pais, os colegas, os vizinhos, “uma aldeia toda”. Todos somos chamados a esta tarefa ingente, sempre inacabada.
         Por outro lado, subi a montante e tentei esquadrinhar as motivações do caso vertente. Um coraçãozinho recém-saído do berço e quanta convicção, quanta força, quanta paixão! A criança ama ou rejeita, liminarmente e sem sombras. Normalmente, não  teatraliza nem conhece os truques da prestidigitação adulta, matreira. Já o Mestre o reconhecia. “Se não vos fizerdes como crianças, não entrareis no meu Reino”.
         Aqui começa o Cabo das Tormentas, para transformá-lo no Cabo da Boa Esperança. Preencher o coração da criança, povoar a sua mente, introduzir no computador portátil, que é ela própria, os programas, os  ‘sites e megabites’, os conteúdos adequados à sua dimensão etária, mas sempre com a projecção do futuro, o seu futuro que chega a cada hora - eis o projecto ideal, a epopeia do amanhã. Quem se alista nesta cruzada?!
         Era neste segundo teclado que me propunha compor a partitura de hoje. Porque esta é a mais decisiva de todas: a programação do ensino, o código de estrada da vida, a sementeira de valores. Ficará para mais tarde. Recordo um pensamento da pedagogia infantil: “A alma da criança é como a cera mole. Qualquer vinco que se lhe faça ficará impresso para sempre”!
         Hoje é o Dia Mundial da Internet, do maravilhoso mundo novo que contém e, paradoxalmente, das múltiplas ‘overdoses’ que ameaçam sobretudo os mais novos. Na mesma linha vão certas nefastas  paranóias do futebol.  Nunca percebi aquela cena paternalista, tresandando a ridícula ‘pedofilia’ (entre comas) desportiva, que é  a de entrar em campo com crianças pela mão. Quem achar por bem, fique-se na sua. Só queria que me explicassem qual o simbolismo último daquele descabido teatro.
            

         Moral da história e que me desculpem os amigos Sportinguistas: Que o Jesus, o Grande (o Jorge) de cabelos grisalhos, deite as mãos à cabeça e se debulhe em lágrimas como uma madalena perdida, aceita-se. Agora o “Menino” pequenino… é caso para acompanhar Augusto Gil: “… Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor, porque padecem assim”?
         Aqui, o ‘Senhor’ somos nós!

         07.Fev.17
         Martins Júnior
         

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O 4 DE FEVEREIRO FEZ 50 ANOS! – o bolo feito de lágrimas e cânticos


No mesmo dia, na mesma hora e quase no mesmo local, à beira-Tejo,  em que partia para  a África  o porta-contentores com gente dentro – o extinto navio “Niassa” – marcaram formatura os protagonistas de outrora no almoço de confraternização, juntamente com as esposas e familiares.  Cinquenta anos voltaram a sentar-nos em redor da mesa da saudade. Antes era a marmita do ‘rancho geral’ e das rações de combate, agora é o licor da alegria borborejando nos nossos lábios molhados. Antes, os lenços brancos do Cais da Rocha misturavam-se com os bonés castanhos acenando do convés do navio, enquanto as águas do rio, insensíveis e cruéis, separavam dos filhos os pais chorosos, apartavam das  esposas os jovens maridos, os namorados das suas apaixonadas namoradas.  Agora,  perguntar-se-á, como  o autor da ‘Mensagem’: Valeu a pena?
Maior, porém, que a voz interpelante do nosso subconsciente, foi ontem esse encontro memorável, organizado pela Companhia de Comando e Serviços, da sede do Batalhão 1899, e a que outros se seguirão, pelos ex-militares das Companhias Operacionais, espalhados por esse Portugal fora. Só quem lá esteve é capaz de entender o desfiar de recordações, umas felizes, outras dramáticas; este episódio picaresco, aquele mais interiorizado. “Lembra-se, capelão, daquela canção que cantávamos com os nativos – “Ah ma-i-má  eh  tantzamá” – e do aldeamento da Milamba onde ia dar escola à petizada… e do nosso grupo coral… e da peça “A Velha Senhora” que fizemos em Mocuba e levámos a Quelimane… e das tristes vezes que não vinha a avioneta com os aerogramas da família … e do cemitério de Mocímboa da Praia onde ficaram os onze que iam para Nambude”… E de tantas outras cenas que para outros nada dizem, mas para nós amaciam  e comovem o coração. Das melhores recordações guardo a solidariedade especial do único madeirense no Batalhão 1899, o tenente Aldónio Fernandes, oficial do Serviço de Transmissões Militares, presente e apoiado pela esposa no encontro de ontem.

Foram dois anos de comissão em Moçambique, regiões de Cabo Delgado e Zambézia. Cumprimos, embora forçados-carne-de-canhão. Sem glória e sem proveito para a Pátria Portuguesa. Daí, por diante, recomeçou a nossa verdadeira comissão existencial, esta já com quarenta e oito anos de vivência e mais determinante para levantar o esplendor do Povo Português.
Cabelos brancos, cabeças “descapotáveis”, vozes roufenhas, abdómens  dilatados, enfim, hoje, todos septuagenários, também já fomos jovens, robustos, bonitos, corajosos. Mas somos os mesmos! Tal como fomos há cinquenta anos. Os mesmos…menos alguns (e não são poucos) os que já partiram durante esta comissão de serviço à comunidade. Um abraço para eles, as praças, os furriéis, os sargentos, os médicos, quer milicianos quer do quadro. Para nós, o apelo quente e dinâmico para nos mobilizarmos a nós próprios e mobilizarmos os que de nós dependem ou connosco vivem, neste Plano de Operações: A nossa comissão ainda não terminou. Cumpramos o nosso lugar, cumpramos o nosso País!
Foi de lágrimas e cânticos o bolo do cinquentenário que, como mais veterano, fui chamado a cortar. Lágrimas de saudade pelos que já abalaram, cânticos de esperança por nós que levaremos até ao fim o glorioso estandarte do Batalhão da Vida!

05.Fev.17
Martins Júnior


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

“DO MEDO À ESPERANÇA” – Ao vivo


Se alguma vez se pôde chamar ´”impar” a um dia do calendário, hoje foi. Foi o 3 de Fevereiro, ímpar na ordem cardinal e super-ímpar na alma que lhe deu corpo! Em redor da mesma mesa, 60 anos cronometrados viajaram com a leveza de um voo fraterno, ora rompendo clareiras nas alturas, ora baixando, rasante, ao chão do quotidiano, mas sempre com a procura da verdade no horizonte maior. Entre os 27 e os 87 anos de idade, do mais jovem ao menos jovem, ali ficámos, os cinco, degustando com a ementa do almoço “a esperança” que é nossa, contra o “medo” que vem de fora.
Ali precisamente, ao vivo e em franca confraternização, foi um dom inestimável ter ao nosso lado os autores dessa  sábia “Summa Sociológica” – DO MEDO À ESPERANÇA – o psiquiatra e psicanalista Prof. Coimbra de Matos e a historiadora Prof.ª Raquel Varela. Com a franqueza mais saudável e sem plano pré-estabelecido, as páginas do livro ganharam  sonoridade na voz e brilho no olhar dos seus ‘progenitores’. Filosofia, medicina, saúde, arte, questões laborais, religião,  eutanásia, afectividade, pedagogia, políticas da inclusão e da exclusão, a nível nacional e internacional – tudo isto e muito mais, temperado com o néctar da amizade, enriqueceu e sublimou as iguarias que a anfitriã preparou com o requinte e o carinho que se lhe reconhecem.
 Os contributos da psicologia e da economia, proporcionados pelo especialista José Paz e pelo mais jovem convidado, alargaram as dimensões daquela prestimosa mesa comum. Assimilar e interiorizar a ciência acumulada e o “saber de experiência feito” de um veterano “senador da psique humana”, o Prof. Coimbra de Matos – a frescura do seu humor  livre, sem pregas - é algo que jamais se esquece, porque  faz-nos “ver” e concluir que aos 87 anos seremos sempre jovens.
Pela minha parte, à definição “DO MEDO À ESPERANÇA”, ajuntarei e interpreto este ‘dia ímpar’, 3 de Fevereiro, como a ponte entre a expectativa e a realidade – a concretização de um desiderato que já vem de longe. Bem hajam!
  03.Fev.17
Martins Júnior

  

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

QUEM É QUE O SEGURA?... TALVEZ NENHUM DESTES!


Porque a um dia ímpar outro se lhe segue, retomo o relato de ontem,  31 de Janeiro,  para fazer o “passe” de golo e entrar confiante e auspicioso na baliza do 1º de Fevereiro. E é só isso – um toque, uma passagem de nível, em crescendo, sem perder o balanço do corpo e das ideias. A propósito da vitória dos “infantis” do Moreirense sobre os craques “internacionais” do Braga, reaprendi a estratégia de treino, aquela de que o mundo mais precisa: descobrir que é nas estruturas básicas da sociedade que se desenha e fortalece a solidez da pirâmide. Não é o vértice que a segura, tal como não é o telhado sobranceiro que garante a arquitectura da prédio.
Terminei a reflexão de ontem com uma evidência que tantas vezes a esquecemos e até negamos, ou seja, as transformações sociais nunca nascem nos tronos engalanados do poder, mas no chão anónimo dos campos lavrados, subindo até ao cume da montanha. Esse chão, húmus de pura seiva, somos nós.  No Deve-e-Haver dos contabilistas usurários, Donos Disto Tudo, cada um de nós não passa de mais um número a assentar à soma das parcelas do lucro vil.  Mas - e é deste trunfo que mais se precisa – cada um de nós é a soma partilhada, a riqueza produzida, a força e a alavanca do mundo. Quando um Povo perde (ou nem sabe sequer) o dom desta convicção,  já entra derrotado no estádio.
Mas quando, por  raro privilégio da história, surge alguém que no alto do pedestal é o primeiro a avançar e a fazer crescer o monumento vivo da condição humana, então é urgente segurá-lo, abraçá-lo, alcandorá-lo. Citei ontem o caso do Papa Francisco. Entretanto, os filhos das trevas,  com pele de  púrpura,  no Vaticano, os que nasceram dos ossos das múmias do poder cardinalício, querem afogar o sol renascente, mobilizador. O meu amigo Padre José Luís Rodrigues tem sobejamente descrito no seu “Banquetes da Palavra” alguns desses estranguladores da evolução espiritual e civilizacional, entre os quais os da chamada “Congregação para a Fé” (os tais da “Constituição Dogmática”) cujo corifeu dá pelo nome de cardeal Burke. Como é possível viver lado a lado, coabitar sob o mesmo tecto, sabendo que aqueles que juraram fidelidade ao Papa, afinal, são os seus mais vis detractores, os mais pérfidos traidores?!
É preciso segurar Francisco, “aquele que veio do fim do mundo” para nos fazer descobrir a beleza, a paz e a fraternidade do nosso mundo. E quem o segura?... O antecessor sucumbiu e desertou.  Quem o agarra pelo tronco para não cair?... E quem lhe levanta os braços para não desfalecer, como a Moisés no alto do Monte Sinai?...
Nós. Cada um de nós. Os cristãos de base. Mulheres e homens, nascidos da Terra e do Espírito!

         01.Fev.17

         Martins Júnior