segunda-feira, 13 de março de 2017

QUADRIÉNIO HERÓICO EM TRÊS ACTOS: 13 de MARÇO 2013 – 13 de MARÇO 2017 --- Poema de todos os dias, sempre repetido e sempre inacabado

                     

                
                 ACTO I

Do princípio ou do fim
Um sopro o trouxe do outro mundo
E logo os rios correram para norte e o mar do fundo
Subiu às nascentes doces da montanha
O balido das ovelhas
Aqueceu-lhe o berço de uma Glória estranha
Vieram vagabundos párias sem abrigo
Vieram mulheres do ofício mais antigo
Náufragos dos Cabos das Tormentas
E de todos os mediterrâneos
Os do lixo humano e os
Olhos sedentos de Sol e de Esperança
Das ilhas-longe que a vista não alcança
Também vieram reis
Rainha de Sabá foi a primeira
Teceu-lhe de ouro a passadeira
Para esconder espinhos e adoçar quebrantos
Que na véspera lhe servira à mesa estreita

O Velho-Menino a todos abraçou
Na praça universal
O sorriso terno de avô
Vestiu de infância
O mármore frio e morto
Das pálidas estátuas da distância
 Finou-se o longo tempo da espera
Ao mundo enfim chegara a Primavera
                                        

                       ACTO II


Mas os muros solenes soturnos
Do império sem pássaros nem buganvílias
Rangeram nos escombros
Abutres de fino escarlate
Demónios asados como anjos em secreto
Lavraram o satânico decreto
‘Venha um Judas que o mate’
Trinta dinheiros de trinta milhões
E outros mais
‘Temos os bancos prenhes de canhões
De ouro e de sangue
Branqueados de orações’

Lado a lado à mesma ceia
Do mesmo pão do mesmo vinho
São lobos em alcateia
‘Vamos depressa
Que amanhã é Sexta-Feira


                   ACTO III


Quem veio do fim do mundo
Traz o princípio a manhã
Em rebento sempre e sem ocaso
E o Velho-Menino afronta o Satã
Dos soturnos abutres
Ilumina o campo raso
Parte as lousas tumulares
Das fétidas ossadas
E traz de volta os argênteos ‘Bons Ares’
Que fazem abrir o sonho e as madrugadas
De novo o sorriso
De  octogenária criança
É Páscoa toda a noite e todo o dia
De quem luta e nunca desespera
Por essa antiga e nossa Primavera

13.Mar.17
Martins Júnior

sábado, 11 de março de 2017

CR7 – CANCELADO 20, ATRASADO 7, DESVIADO 7, FALHADO 34, PÚBLICO IRRITADO 5.000


Não seria assim a ementa da nossa ceia sabatina. Mas, “porque hoje é sábado, amanhã domingo”, vem mesmo a talho de foice esta espécie de reportagem em jeito de rábula prosaica.
Há muito tempo andávamos a comentar o delírio diletante do nosso ‘Ilhéu Primeiro’ quando numa noite de nevoeiro proclamou ao reino insular a irrevogável decisão de paramentar-se de João Baptista para rebaptizar o aeroporto dos madeirenses. Entre amigos, solidários com o CR7 e não com o ideólogo peregrino,  passava de mão em mão um estranho pré-anúncio difundido pelos altifalantes do aeroporto da Madeira:” Senhoras e Senhores passageiros, lamentamos informar que hoje o Aeroporto CR7 está fechado, voltem amanhã que o CR7 está aberto … ou não se prevê quando é que ele abre… Messieurs, dames … Ladies and gentlemen”…    
E hoje foi o dia. Na minha deslocação ao aeroporto, fiquei estarrecido com o mare-magnum de passageiros que faziam rebentar pelas costuras a sala de embarque. Consultei os horários dos aviões e dei-me com uma repetida informação: Cancelado, Delayed, Desviado, New inform… Saltou-me logo à vista a aludida graçola dos vários amigos. Se hoje fosse o 29 de Março – a Grande Festa do Maior Feito do nosso “Primeiro Ilhéu” – os altifalantes morreriam de espasmo e de fadiga:
“Ronaldo–Cancelado 20 vezes… Ronaldo-Atrasado 7 vezes… Ronaldo–Desviado 7 vezes… Ronaldo-Incerto  n vezes” . Ao todo, Falhado o Ronaldo 34 vezes”.  E uma multidão de 5.000 almas de todo o mundo ali  ‘ao deus-dará’, umas de corpo estirado no ladrilho, outras a bater com o nariz nas vidraças e todos irritados por causa do ‘Ronaldo’, que tinha falhado naquele dia”.
         Até os jornais, nacionais e estrangeiros, ficaram empancados, amarrados com cordel cruzado, porque o CR7 continuava fechado. E nem escaparam os 'camaradas da bola' do Paços de Ferreira que  foram obrigados a marcar passos no Sá Carneiro das Pedras Rubras porque o CR7 'deu-lhes tampa'. E por cá ficaram os ambiciosos nacionalistas trajados de luto no banco da Choupana. Ai CR7, CR7! Abre-te mais depressa. Ou manda vir o 'mandarim' meter chave à fechadura.
         CR7, o Grande Ganhador, o Portador das Bolas de Ouro, o Infalível Marcador, o Herói da estatuária desportiva, o Monumento-Museu  da entrada da Cidade --- posto ali ao desbarato no formigueiro de quem chega e de quem sai, ‘Aeroporto CR7 práqui, CR7 práli, Cr7 prácolá’, se ainda está fechado, quando é que fica aberto?!...
         No regresso a casa, em roda de amigos de fim-de-dia, por entre as opiniões contrárias ao rebaptismo do aeroporto da Madeira, sai-se um miúdo adolescente com esta cintilante ressalva, à maneira de douto  advogado de defesa do CR7: “Mas o Cristiano Ronaldo não tem nenhuma culpa de porem lá o nome dele”. E todos concordaram com o petiz, que lamentava a inspiração delirante do ‘Nosso Primeiro’. Que não se estragasse o nome do maior jogador do mundo… que pusessem o seu nome no Estádio dos Barreiros, por ex., no dia em que vai alinhar no Portugal-Suécia… que o aeroporto é só um na Madeira e não precisa de trocar de roupa nem de nome…
         Se o ‘Primeiro da Ilha’ deixar arrefecer a cabeça que lhe ditou tão desajeitada originalidade, lembre-se do dia de hoje em que umas rajadas de 89 Km de ventania foram suficientes para varrer a sua febril inspiração. E ria-se dela, que nós já nos rimos há muito tempo.

         11.Mar.17
         Martins Júnior


quinta-feira, 9 de março de 2017

SEM TÍTULO!


Primeira barreira: Não pago bula aos homens do poder. Segunda: Perigoso e provisório é sempre transportar alguém ao vértice da glória, sobretudo a quem já se situa no trono do reino, pela sábia razão do risco que se corre perante o dia de amanhã. Terceira: Detesto a adulação, ainda que dissimulada, aos que  nas mãos  guardam  hipotéticas reservas  de benesses prontas a sair.
         Mas hoje, por um imperativo incontornável de análise global, decidi saltar as barreiras para ver ‘claramente visto’ (Canto V,18) um lampejo de alma nova no berço desta presidência-bebé de um ano de existência. Aliás, tudo foi novo neste país - a inimaginável simbiose de forças, até então, antagónicas e, como que a cereja em cima do bolo, uma presidência vigilante e aglutinadora, síntese de quarenta anos de antíteses radicalmente obtusas no seu relacionamento partidário. É nesta conjugação astral numa  nesga do planeta – Portugal - que se ajusta com toda a evidência aquela máxima tão difícil de alcançar: o Homem certo na Hora certa!
         Juntaram-se as peças do puzzle e, do que antes era um mini-pântano de sapos em suicida ‘batraquiomaquia’, passou-se a um estádio superior onde agora falam mais alto os interesses da nação do que os coaxares exclusivistas de cada partido. E tinha de surgir alguém que não deixasse apagar esta chama iniciática, tridimensional, a salvo daqueles que só ganhavam porque os outros – a maioria -  se dividiam. É preciso ter os olhos vendados para não descobrir o exercício de permanente solicitude do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa (MRS), a fim de evitar que fique em cacos o que tanto custou a erguer. Nisto se traduz a pacificação das lideranças políticas rumo ao maior bem da população. De fora, só navegam os conspiradores sem êxito que persistem em atirar pedras às vidraças para deitar abaixo todo o prédio.
         Nesta campanha de todos os dias sem trégua, MRS derrubou os andaimes dos poderosos encapuzados num palácio, despiu as escamas viscosas que afeavam uma presidência falsamente solene, humanizou a relação entre governante e governados e, sem amarras que o prendessem, soltou-se para o seu meio ecológico, o povo, sentou-se no chão com as pessoas chãs, correu alegremente com as crianças traquinas, condoeu-se com os que sofrem e choram, andou de bairro em bairro, de “Cais” em cais (hoje mesmo,  dia do primeiro aniversário) para acolher os-sem-abrigo, foi docente na universitas académica e na universidade da vida, enfim, abraçou ilhas e continentes. E por muitas beliscaduras que lhe queiram dar, ele aí vai, pássaro livre sabendo, como António Aleixo, que “mais vale pardal na rua que rouxinol na prisão”. A rua é também o habitat de um verdadeiro presidente.
         Podem catalogá-lo de excêntrico, inconveniente e outras sombras estrábicas que só existem nos olhos de quem o critica. Mas tudo isso cai por terra perante a leveza, a transparência, a quase-ingenuidade, a tal ‘difícil facilidade’ de trato de MRS. Só ele poderá fazer isto, acho que mais ninguém seria capaz de fazê-lo. Porque sai-lhe de dentro. É o seu ADN, com que está educando politicamente o povo português. É preciso ser-se verdadeiramente grande para saber estar com os pequenos!  E nem por isso  tem medo de confrontar-se com  o adversário. Quando é preciso repor a locomotiva nos carris, é capaz de fazê-lo, sem peias. Frontalmente. Já o demonstrou.
         Reconheço que não era essa a minha previsão, aquando da sua eleição, embora nunca me tenha saído da memória aquele seu gesto imprevisível em Machico, na década de  90. Presidia eu ao município e, a um domingo, estava eu em despacho particular no gabinete, quando de rompante  entra  o Professor para dar-me um abraço. Eu não o conhecia, senão dos media.  Fiquei positivamente assombrado.  Por dois motivos: pertencia ele à direita ou centro-direita  e eu à extrema-esquerda. O segundo: era o tempo em que o governante madeirense, da mesma área política, enxovalha-me raivosamente (o advérbio peca por defeito) a mim e a Machico também, classificando-nos de 'terceiro mundo'. Ali vislumbrei a coragem, a cordialidade e, sobretudo, a independência de homem sem medo, face ao regime totalitário da ilha.
         Que as minhas felicitações neste dia-aniversário signifiquem continuidades promissoras no presente e no futuro de Portugal!

         09.Mar.17
         Martins Júnior  

                              

terça-feira, 7 de março de 2017

No grande teatro do mundo: Acto único – FALA DA MULHER PARA TODAS AS MULHERES


Recusa pegar as mesmas armas
Dos que te cortam o passo
E o voo
Deixa-lhes o cepo de aço
Cego e bruto

Trazes contigo o fio diamante
Cortante  cantante
Que em teu ventre é flor e fruto


Nem te consuma a ambição
De erguer pilares colunas e torres
Porque mais altas que a catedra e o trono
E mais belas são
As ameias do castelo que tu és

Descarna-te as jóias e os anéis
Atira-os bem longe
Aos pântanos dos sapos-reis
Rasga o testamento de escrava
Sepulta a bíblia da servidão
Com que te ataram ao corão
De sobrevivente nativa

Despe-te inteira e nua
E mergulha-te  na fundura que é só tua
Onde mora o Génesis fecundo
Que dá os novos  mundos ao mundo

No teu seio de eterna menina
Partícula-mátrix divina
Nascem estrelas galáxias constelações
Miríades de gerações
Que povoam hemisférios

Oh mistério dos mistérios
Mulher-Deusa Criadora
Ditosa Progenitora
Do Aquém e Além-História
É esta a tua armadura
E nela a tua vitória

Isso te basta
Para vencer a batalha
Saltar a muralha
Que ainda teimam erguer
Rebentos  desnaturados
Que te devem o ser

Mulheres de ontem de sempre
Aos  muros altivos
Que nos amarram os passos cativos
Brademos cantando
DE TODO O MUNDO MULHERES UNI-VOS

07.Mar.17
Martins Júnior



domingo, 5 de março de 2017

A BOLA TAMBÉM ENTRA NO CARNAVAL E VAI DE CARTOLA


4 de Março de 2017, a maior jornada sportinguista de todos os tempos! O maior campeonato do Sporting Club de Portugal! Record imbatível!
Olh’ó melro verde-branco! – dirá quem me conhece. Aliás, foi o comentário que alguns amigos me fizeram quando lhes confidenciei que o texto de hoje seria inspirado nas eleições de Alvalade: “ bora, bora, tu que nem sequer ligas ao futebol”.
         E é verdade. Amo tanto o desporto quanto detesto o futebol profissionalizado, por razões que já em tempos desdobrei  Neste mesmo correio. Mas hoje, porque é carnaval e, sobretudo, porque de tudo o que é efémero  podem extrair-se conclusões duradouras, aqui vai mais um escrito vogando em cima das águas correntes.
         Achei um fenómeno colossal a romagem porfiada dos sócios que aguentaram de pé horas a fio, à espera da sua vez. Nem num hipotético consultório do tamanho de um estádio ver-se-ia um tal monumento vivo à persistência e à mais masoquista resignação. A sublinhar a mole imensa que se arrastava a passo lento, as figuras gradas da colectividade não se cansavam de repetir aos jornalistas: “Isto é que é sportinguismo, vitalidade, amor, fé inabalável, 10 mil quilómetros de paixão", escreve o jornal A BOLA. Gostei muito desta sublime confissão – a fé inabalável que forneceu energia a muitas centenas de sócios que esperaram até às três da manhã para saber o resultado. E a imprensa e a rádio e as TV’s. É obra!
         Mas o que digo da apoteose sportinguista, digo-o também de qualquer outro clube. Não me sai da memória o credo solene que ouvi ao reconhecido artista Artur Semedo: “A minha Religião é  O Benfica”. De onde se conclui  (e, ao mesmo tempo,  se interpela) que o futebol-espectáculo fomenta turbinas potentíssimas de coragem nas multidões e fá-las explodir mais que o Etna incandescente em lavas fumegantes, pavorosas até. Deliciei-me, frente ao televisor, com as juras eternas de amor à bandeira,  ao exclusivismo apaixonado,  ‘amor à camisola’ e à fidelidade clubista, nalguns casos desde a barriga da mãe.  Um poema homérico, maior que o maior pacto conjugal!
         Esbarrei, depois, com um monte de questões e constatações, incógnitas e contradições, entre as quais a seguinte: os sócios (que não jogam senão com as quotas que pagam) têm a camisola inseparavelmente colada ao corpo, mas os artífices do clube, as raízes que justificam os frutos da vitória - os treinadores e os jogadores - são a sua total negação. São eles os que menos respeito têm à camisola, só  desamor profissionalizado. Amanhã  estarão na primeira linha de ataque contra o clube da véspera. Usando a expressão popular, é a maior  facada no casamento! E, por mais ou menos “trinta dinheiros”, adeus paixão, adeus patrão. Não passam de um pelotão  de mercenários sem pátria nem coração. Por isso, ao lado do frémito  dos fiéis indefectíveis à bandeira, que até chegam a contagiar-me por momentos, surge-me logo o relâmpago da razão a comparar o mágico esférico do relvado com uma bola feita de notas milionárias, prontas a entrar imediatamente na grande baliza chamada cofre forte do Banco.
         Outra questão que me estragou o espectáculo televisivo: quais as garantias – sólidas, fiáveis – trarão para o país aquelas intermináveis filas de espera?... Em que é que influem na saúde pública, na paz social, no ensino, nas pensões e reformas, enfim, no estado da nação?... E, galopante, assalta-me outra interpelação: será que num referendo para bem do país, numa votação para a Região, para a República, para a Europa, onde se decidem o presente e o futuro de um povo, repito, será que mobilizar-se-iam as turbinas do entusiasmo e a mesma fonte de energias para uma idêntica participação?... Responda quem quiser.
         Está chegando o mês de Maio e, do velho Salazar, chega-me ‘aquela frase batida’ para anestesiar o povo, os tais três F: Futebol, Fátima e Fado.
O verdadeiro desporto - o exercício atlético - é saúde e é riqueza, nunca mercantilismo servil e doentio.  Falo de todos os quadrantes e modalidades profissionalizadas num contexto a que nos habituaram os donos dos clubes e os ‘media’. Compra-se tudo: jogadores, clubes, treinadores, camisolas, chuteiras, estádios. E muito mais que se pensa e não se diz. Oxalá não venha o sr. Trump cortar com o comércio globalizado  do mercado da bola.
         Entretanto, ‘lá vamos cantando e rindo’, ouvindo, brigando e bradando. É carnaval e ninguém levará a mal.

         05.Mar.17
         Martins Júnior           

         

sexta-feira, 3 de março de 2017

ESTE CARNAVAL NÃO DÁ PARA RIR


      À primeira vista não há quem duvide desta espécie de ‘travesti’ para o divertido ‘enterro do osso’ neste fim-de-semana. E diverte. É carnaval, ninguém leva a mal.  Decerto que já todos descobriram os reis da trupe, animadores do corso, mas ameaçadores deste mundo em que vivemos. Nada menos que o sr. Trump, paramentado de cardeal Burke e este, o cardeal Burke, mascarado de Trump. Ambos americanos, ambos poderosos. Ambos diferentes e ambos iguais. Os dois diferentes no ofício, um político, o outro eclesiástico.  Mas os dois iguais,  no poder e na ambição prepotente de controlo. Dois poderes que, apresentando-se diversos no objecto – um sobre o corpo, o outro sobre a alma dos povos – acabam por trocar de papéis e formar um só tronco bicéfalo, explosivo monstro de duas cabeças contra-natura.
         Mas a  partir daqui,  o “par carnavalesco” já não nos diverte. Pelo contrário, faz-nos pensar e indagar o porquê desta minha opção caricatural. Estamos perante um dos mais perigosos incestos que têm dominado o mundo: a fusão de dois interesses que, devendo ser independentes e, nalguns casos, conflituantes, afinal abraçam-se, coabitam no mesmo paiol e, pela febre de  domínio, aliam-se no mesmo programa totalitário e castrador de consciências, ambos carcereiros do pensamento e da liberdade.
         É do conhecimento público a obstrução que o cardeal Burke tem feito publicamente para manietar a mensagem libertadora do Papa Francisco.  É ele que, no seio do próprio Vaticano e em conluio organizado de quatro cardeais ultraconservadores (a que não seria temerário de classificar de ‘quadrilha purpurada’) tem  fomentado, de forma desrespeitadora e insultuosa, a rebelião contra o argentino Jorge Bergollio,  chegando a propor  a hipótese de levantar um processo canónico contra o seu superior hierárquico, acusando-o de heresia. Um cardeal chamar herético (herege) ao Papa!. Ao ponto a que isto chegou!!!... São deste teor os cartazes que apareceram nos muros de Roma, da noite para o dia.  A história repete-se desde o berço do Cristianismo: foram os Supremos Sacerdotes (hoje, ‘os cardeais´) do Templo de Jerusalém que chamaram a Jesus de satanás e O assassinaram por blasfémia. Prova manifesta e insofismável de que Francisco está no caminho certo!
         Falta, porém, entrar em cena o segundo figurante deste estranho carnaval que, como se vê, não diverte,  antes perturba e  oprime. Transcrevo o excerto de um texto do abalizado teólogo Prof. Dr. Anselmo Borges, em recente edição do DN/Lisboa: “Segundo o New York Times, o cardeal ultraconservador Burke e sectores fiéis a Donald Trump na Casa Branca, concretamente o conselheiro Steve Bannon, conspiram contra Francisco, esperando que, com a vitória  de Trump,  o Papa  fique um pouco isolado”.
         Para quê mais argumentos, para quê mais testemunhas? Aquilo que, não há muito tempo, era atirado à face de um cristão  anti-ditadura, de um padre operário, de um pastor de almas que lutava também pela salvação dos corpos, aquilo que se  criticava num teólogo interveniente na área da justiça social ou, mais raro, num bispo verdadeiramente cristão combatente por uma sociedade mais justa e igualitária – todos esses baldões deprimentes, aleives soezes, senão mesmo suspensões, excomunhões e toda a espécie de anátemas, tudo isso é agora lançado em rosto ao próprio Papa, e por quem?... Pelos da sua casa, debaixo do mesmo tecto, outros Judas Iscariotes interessados apenas na bolsa e no poder, capazes de vender o próprio Mestre ou, então, liquidá-lO. Onde o respeito pelo ‘Sucessor de Pedro’?... Onde a defesa da infalibilidade do Sumo Pontífice?… Onde a fidelidade ao ‘Representante de Cristo na terra’?...
Está visto que o Papa só merece esses títulos encomiásticos quando se coloca ao lado dos poderosos do mundo! Mas quando se posiciona ao lado do Mestre, despertador de mentalidades e portador da luz que destrói o obscurantismo reinante, então, adeus Sumo Pontífice, rua Sucessor de Pedro, enfim, tirem-no da nossa frente, crucifiquem-no.
Do carnaval satânico que nos sugere o título de hoje, fique aquela conclusão que sempre me tem acompanhado: Só os cristãos de base, esclarecidos e corajosos, poderão segurar o Papa Francisco e todos os que  o seguem!

03.Mar.17
Martins Júnior


quarta-feira, 1 de março de 2017

CINZAS E CINZEIROS, SURDOS E CARNÍVOROS, BULAS E PERFUMES

                                             

Mas que enorme confusão  é esta,  qual “salada russa” destemperada,   que  trago para a ceia de uma quarta-feira, chamada “de cinzas”. Porque é destes ingredientes (e outros mais) que se compõe a tradição “cristã e ocidental” em que fomos moldados. Milénios de estereótipos ancestrais formataram gerações sem conta e das quais comodamente partilhamos, como se de uma segunda natureza se tratasse.
         Nas vinte e quatro horas de quarta-feira,  os sinos  tangendo quase  a finados,  gravaram aos ouvidos dos crentes a inexorável sentença: Memento, homo, qui es pulvis et in pulvere reverteris – “Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás-de tornar”  - encenada com a deposição de umas cinzas de palmitos na cabeça dos utentes e a que se pretende adicionar uma espécie de mítico talismã carregado de um ímpeto divino para melhor entrarem  no consciente o peso e a profundidade da pena capital, sem apelo nem agravo. Da minha parte, desde há muitos anos deixei essa cinzenta tradição, pela conclusão clara  de tratar-se de um sinal, outrora desenhado no cérebro do crente, mas que hoje apresenta-se-nos tão evidente e tangível que basta ver o fumo esvoaçante da chaminé crematória para concluirmos que aquele ou aquela a quem tanto amámos, a sua beleza, o seu talento, a sua força física, tudo ficou guardado numa minúscula caixinha que trouxemos para casa e que um dia será também  o cinzeiro da nossa frágil grandeza.  Aos surdo-mudos falamos por sinais, mas ao cidadão normal, os sinais são excedentários e, por isso, inúteis, senão mesmo prejudiciais.  Chega bem ouvir a voz de Vieira, o mestre da língua e do pensamento: Hoje és pó erguido, amanhã serás pó caído.
         Do manual de instruções desta Quarta-feira consta também um receituário original, a que se atribui uma carga devocional armadilhada de preceitos ultra-terrestres, divinos: o jejum e a  abstinência, sobretudo a carne e a sua interdição temporária. Deduzo, porém, que não é preciso altear tanto a joeira para trazer lá do trono sagrado aquilo que qualquer nutricionista/dietista nos descreve  sob os nossos olhos e na palma da nossa mão, isto é, que uma alimentação equilibrada, promotora da saúde estrutural do ser humano,  decreta militantemente a ingestão abusiva de carnes  e gorduras saturadas. Mesmo que renegues o cardápio quaresmal, não te inquietes por isso: no consultório médico lá o terás, sem cinzas nem mistérios. Em tempos de obscurantismo retardatário, Moisés pretendeu aplicar a famosa medida terapêutica – não comerás carne de porco – pelos suas nefastos efeitos na saúde pública, em climas quentes. Ele conhecia bem a índole daquele povo ignorante e rebelde, que só tinha medo do chicote  do seu  Deus justiceiro. Daí, a única estratégia para salvaguardar a saúde colectiva e evitar a lepra contagiosa, recorreu a um subterfúgio (hoje, manifestamente abusivo), o de sacralizar uma  natural medida profiláctica, colocando-a no altar de “mandamento divino”.  Não estamos  na Judeia de há quatro ou cinco milénios, para interiorizarmos inteligentemente que  os abusos alimentares não são ofensa a Deus, são antes suicidários atentados a nós próprios. Ademais, a ironia ou cinismo dos auto-proclamados representantes de Deus ensinaram ao povo um truque para  subornar  e fugir ao castigo sobrenatural,  como hoje se foge ao fisco: se pagares uma bula na igreja,  já podes refastelar-te de carne à vontade. Como foi possível chegar a esta barbaridade de considerar Deus como um ser venal, aparentado  aos banqueiros,  procuradores e governantes, a contas na barra da justiça, por suborno?!
         Onde quero chegar com todo este arrazoado?
         Muito longe – e muito perto! Longe, para despirmos os crepes bafientos e rasparmos as camadas de tinta grossa com que pintaram, caiaram, rebocaram a cantaria pura e bela do nosso intelecto, incomodando Deus – para  cómodo da nossa preguiça mental -  e fazendo-O legislador implacável de normas que já estão inscritas dentro de nós, da nossa condição de possuidores transitórios do mundo em que vivemos. Perto, quero chegar muito perto e aspirar o perfume do espírito em tudo quanto existe na natureza. Aspirar o espírito das coisas é  respirar Deus plasmado na atmosfera, no fruto, na água, na Terra  que é o melhor consultório e a melhor farmácia para a saúde universal.  Assim entendeu Teillard de Chardin. Assim nos aponta o Papa Francisco  naquele poema-panegírico à ecologia, intitulado “LAUDATO SI”. E assim nos ensina  o  Mestre, no texto de hoje: “Quando jejuares, lava o teu rosto, perfuma a tua cabeça” (Mt.6,17).  subtendendo-se nas entrelinhas: sê saudável, transborda de graça e alegria.  
É assim que vejo o Tempo de Quaresma… Quaresma é quando o homem quiser. É sempre! Como o Natal.

         01.Mar.17

         Martins Júnior