sexta-feira, 15 de abril de 2022

“VIA-SACRA” SOB PROTESTO

Aguardei que morressem as vinte e quatro horas para poder saudar o fim de um pesadelo – a Sexta-Feira – a qual, por ser Santa, não deixa de ser pesada. Pesadíssima, não pela amostra exterior que dela fazem, mas pela hediondez do crime que esconde – e que escondem – no teatro dos tempos.

A Cruz tem dois rostos.

De um lado, o mistério da salvação, a súmula de todas as dores, o lenitivo para todas as depressões, o oceano de todas as lágrimas.

Mas  há o outro lado. E é para lá que eu vou. Descubro então que a Cruz é o crime arvorado em bandeira, é a ignomínia sacralizada, o maior ultraje à condição humana.

Nunca deveria ter sido dado palco à maior injustiça praticada contra um Homem Bom. Nunca mereceria trono nem altar o culto de uma religião corrupta e assassina,   a do Templo de Jerusalém, a do código de Anás e Caifás,

Recuso-me a adormecer na Cruz. Recuso-me branquear o crime, muito menos a fazer dela um espectáculo nu.

Não será para mim ponto de chegada, mas cais de partida.

 

  

 15.Abr.22, Sexta-Feira Santa

Martins Júnior

quarta-feira, 13 de abril de 2022

A SERENIDADE PLENA NO MEIO DA TORMENTA !

                                                                  


         -Manda calar essa grntalha, isso é uma vergonha, Jerusalém é cidade nobre, a cidade de David, Sacerdote Profeta e Rei.

         - Se eu os mandar calar, então vereis as próprias pedras da calçada levantarem-se em alvoroço, saudando Aquele que vem em nome do Senhor.

         Nesta intimação formal do poder sócio-religioso de Jerusalém e a imediata resposta do Nazareno está incisivamente consignada a luta de uma vida inteira, a de Jesus, em confronto aberto com a ditadura obsessiva do Templo. Podem os místicos conventuais subir ao sétimo céu e pintar de escarlate o manto do Mestre, as sandálias do Peregrino e os olhos seraficamente lânguidos do doce Rabi – podem fazer e sofisticar tudo isso, mas nunca conseguirão fugir ao dilema fatal que definiu a vida de Jesus de Nazaré: de um lado, a sua resiliência inquebrantável e, do outro lado, a opressão, camuflada de hipocrisia devocionista, da classe dominante: os sumos-sacerdotes, ao fariseus e os escribas, doutores da Lei.

           Toda uma vida nesta tensão, dia e noite. Mas o epílogo estava à vista. Jesus pressentiu-o mais que ninguém. O povo também. E juntam-se as forças. Está decidido: “invadir Jerusalém numa magna, enorme, poderosa manifestação que faça tremer os alicerces da cidade”.

         Dito e feito! Ao abrir da manhã, surgem como meandros de um vasto rio milhares de galileus - do norte e do sul, do ocidente e do oriente – todos numa explosão de júbilo incontido, aclamando o seu Líder e Defensor. Jesus montado num jumentinho desafiava os altos potentados do reino, os seus exércitos, os carros e cavalos, enfim, toda a armadura bélica do país.

         Ninguém lhe tocou. O escudo humano da multidão que o protegia era gente anónima, provinda das margens do Lago de Tiberíades, dos campos semeados de trigo, camponeses e pastores de gado, homens, mulheres e crianças, habitantes da periferia da cidade.

         Era Domingo – Domingo de Ramos, das Palmas, dos Arbustos, dos Alecrins. Era uma festa, A festa do povo que trabalha e faz o mundo novo. O povo soltou-se, perdeu o medo e venceu o seu direito à palavra, à acção. Além da vitória de Jesus, foi sobretudo a vitória e a páscoa libertadora do povo.

         No entanto, o poder maquiavélico do Templo e respectivos espiões tudo moveram e em Quinta-Feira, o fim estava iminente.

         E aqui é que se viu a super-estatura do Mestre. Sabendo que era a última noite da sua vida, organiza um Banquete e chama os doze colaboradores mais próximos. Oh prova suprema de auto-domínio, superioridade moral, doação sublime! Diante dele, o próprio delator que iria traí-lo daí a poucas horas. Apesar de tudo, convidou-o, conversou amistosamente, sorriu-lhe… mas não se inibiu e disse-lhe: “Mais valia não teres nascido”

Apraz-me ver e sentir a personalidade de Jesus de Nazaré, o seu rosto acessível, a sua sensibilidade humana. Para, depois,  entrar e assimilar a essência da sua mensagem.

 

13.Abr.22

Martins Júnior  

segunda-feira, 11 de abril de 2022

DESNUDAR A SEMANA – REVER O PROCESSO

                                                                                  


É, sem dúvida, a Semana Maior da História e à qual se juntam as grandes histórias da Humanidade. No entanto, com a pretensão de torná-la ainda mais opulenta, gerações a fio cobriram-na de sete saias de seda lilás, calçaram-na de coturnos esotéricos, transparentes, polvilharam-na de nardos e míticos unguentos, encheram-na de acordes monumentais, quase sepulcrais, enfim, e o resultado foi que apoucaram-na, encobrindo-lhe o rosto e a mensagem.

         Falo da, assim designada,  Semana Santa, o acontecimento polimórfico de tantas e repetidas roupagens, desde as mais sumptuosas às mais folclóricos que até já ganharam palco na mundana propaganda turística. E com isso, ficou menos límpida e menos eloquente a Semana Maior.

         Há as conotações teológicas para todos os gostos, entre as quais, a de que Deus Pai exigiu a cabeça do seu próprio Filho para reparar a ofensa de um terceiro, supõe-se que de Adão, tornando-se assim um Deus violento e um Pai justiceiro. Noutra versão, Jesus entregou-se voluntariamente à morte, passando então à condição de suicida. Uma terceira versão sugere que, quisesse Ele ou não, teria de ser assassinado por ordem do Pai, pelo que alguém deveria encarregar-se do crime letal. Nestes termos, o assassino (neste caso, Judas) teria de ser canonizado, pelo bem fez à salvação do mundo”.

         Todo este emaranhado, mais estonteante que o labirinto de Creta, porquê e para quê ?...

Para branquear o horrendo crime, desde há muito tempo maquinado pelas classes dominantes de Jerusalém contra Jesus. Em termos fácticos, foi isto que se passou, um processo judicial ilegítimo, sem provas, idêntico a tantos outros que mais tarde e até hoje (e até sempre) o poder ditatorial é capaz de cominar com a pena capital. Tudo o mais não passa de cenários excedentários, prantos sacros, espectáculo vistoso que enchem os olhos mas esvaziam o espírito.

É nesta direcção que farei o percurso da semana. De há algum tempo a esta parte, já interiorizei que, neste âmbito, é preciso desnudar a semana (pôr a nu a tragédia do Calvário) monitorizar o processo de Jesus, porque o seu “caso” ultrapassa o fenómeno puramente cultual e mergulha no mais sensível e verdadeiro da história humana. Suponho ter sido neste sentido que René Pascal escreveu: “Jesus continua em agonia até ao fim dos tempos”.

Assim como a emoção perturba a razão, assim também a emotividade inerente à religião (mais intensamente nesta masoquista sucessão de episódios) prejudica a racionalidade interpretativa dos factos.

Neste percurso sinto-me apoiado e acompanhado no pensamento do sábio teólogo Schillebeeckx:

“A morte de Jesus na cruz é a consequência de uma vida de serviço à justiça e ao amor, uma consequência da sua opção pelos pobres e excluídos, de uma opção pelo seu povo que sofre sob a exploração e opressão. Num mundo mau, qualquer compromisso com a justiça e o amor é fatalmente perigoso”.

 

11 .Abr.22

Martins Júnior

sábado, 9 de abril de 2022

A SEMANA ONDE COUBE TODA A HISTÓRIA HUMANA

                                                                     


VIOLANTE, 95,  utente da Santa Casa.  

MANUEL, 83, agricultor.

LUÍS, 72. motorista.

PEDRO, 69,  calceteiro.

ANDREIA, 56, filipina, empresária.

       

A um, comeu-o a terra.

A outros, guardou-os a gaveta.

À outra, a chama purificou-lhe o corpo e transformou-o em nuvem de incenso alado perto das estrelas.

 

SEMANA SANTA antecipada…

E todos no mesmo porto – de chegada e de partida.

Todos na mesma estação ferroviária – de chegada e de partida

Todos na mesma aerogare – de chegada e de partida.

 

No meu abrir e fechar de olhos, ao longo do percurso do carro negro,  percorri todas as estradas do planeta, transportei comigo os homens e mulheres de todos os tempos. E, ainda vivo, fiz a mesma viagem, abri todos os túmulos e  voltei à vida. Para saber que só há alma se houver corpo.

Aprendi que o corpo é o instrumento para toda a arte do espírito.

Amar o corpo é o primeiro mandamento da alma.

Sem o corpo nunca me mostrarás a tua alma.

 

Indecifrável mistério da Sinfonia circular no concerto universal !

 

09.Abr.22

Martins Júnior

 

quinta-feira, 7 de abril de 2022

A GUERRA DE TODOS OS DIAS: A (DES)INFORMAÇÃO

                                                                           


Quem por mero acaso ou rotineira curiosidade tem acompanhado o meu repúdio – e maior o sofrimento – acerca das atrocidades ocorridas na Ucrânia, interrogar-se-á das minhas preocupações em fazer comparar episódios tangenciais entre o leste europeu e a paisagem insular, mais concretamente, a Madeira.

         Apresso-me a esclarecer, em forma de resposta, alegando que, na mundividência global em que vivemos, somos todos iguais e todos somos diferentes. Em consequência, chegamos à conclusão de que observando os outros é a nós próprios que estamos a observar-nos. É fenómeno recorrente não vermos ao pertos os nossos erros e só os descortinamos quando os detectamos no terreiro do vizinho. Descobrir a fealdade grosseira da nossa casa, nem que seja comparando-a com a dos estranhos, é a mais acertada estratégia para barrarmos o passo ao domínio do absurdo.

         Refiro-me à chamada guerra de (des)informação. O povo russo, tal como acontecia com o povo português durante a guerra colonial, é vítima da mais cruel ditadura: a ignorância. No império putinista, a grande muralha entre o ditador e o povo é a que se ergue nos órgãos de comunicação social. Ignorar, defraudar, rasurar a última centelha da liberdade que resta ao cérebro humano! É a arma mais poderosa em campo de guerra. TV, Rádio, jornais e até púlpitos fazem de um povo forte um rebanho acéfalo, anestesiado.

          Sou daquele tempo, pós 25 de Abril de 1974 – e afirmei-o na Assembleia Legislativa Regional – em que para lermos notícias da Madeira tínhamos de recorrer aos jornais do Continente, “exactamente como no tempo do fascismo salazarista, para termos notícias de Portugal era necessário ler e ouvir a informação estrangeira”.

         É assunto vasto, tão vasto e, nalguns casos, mísero, que não cabe neste breve apontamento. Que os jornais e os mendicantes de benesses oficiais façam passar a “voz do dono” – isso é água de charcos quotidianos. Agora, que intelectuais, professores, historiadores (assim se consideram) façam coro com a arraia-miúda da (des)informação caseira, isso já ultrapassa as fronteiras da dignidade de um povo.

         Falo de uma publicação que ostenta o pomposo título “História da Autonomia da Madeira”, com a desculpabilizante advertência de “Dicionário Breve”. Ao tratar do movimento separatista-terrorista denominado “Flama” (página 98) toca com punhos de renda ou jogo de marionetes no ataque à bomba preparado na Ponte do Seixo, Água de Pena, em 1976, para rebentar quando passasse a camioneta em que, entre outros, viajavam o cantor José Afonso e o candidato à Presidência da República, Otelo Saraiva de Carvalho, em campanha na Madeira. A caixa de explosivos reduziria a escombros toda aquela zona da freguesia.

         Mas a camioneta chegou ilesa ao aeroporto onde embarcaram para Lisboa o candidato e sua comitiva. Mas por que não rebentou a caixa assassina?... O ilustre historiador responde: “Não se concretizou, na sequência de alertas provenientes da ala politica, pelo facto de a camioneta que transportava o candidato estar repleta de crianças”.

         O investigador, capciosamente, não explicita nem identifica a ala política. Anos mais tarde, vieram a descobrir-se as fontes da informação: os operacionais da “Flama” numa conferência de imprensa dada pelos próprios. Assim se faz a história!... O historiador não teve a mínima consciência profissional, não consultou as partes envolvidas. Sem mais delongas jorrou pelos dedos fora esta imundície noticiosa e foi-se à vida. E ficou assim escarrapachada para sempre a versão do relator clandestino. Só lhe faltou dizer que a bomba mortífera ninguém a pôs ali, caiu do céu de “Santa Beatriz”, orago da freguesia!...

          Em menos de três linhas, um monte de embustes: Eram as nove da manhã quando a viatura seguiu para o aeroporto. Não viajava nenhuma criança, porque era tempo lectivo e as crianças estavam na escola. O que, porém, ainda não foi contado foi a história de uma outra criança da dita freguesia que, ao dirigir-se para a sua escola, viu a armadilha no trilho do caminho. O resto, investiguem os historiadores!

         Muito há ainda por descobrir sobre o terrorismo “russo-flamista” na ilha azul…

         Entendo ser dever de qualquer cidadão denunciar os acontecimentos e erguer bem alto a verdade dos factos. E não permitir que, através do papel tintado de certas imprensas, a soldo dos mesmos empresários, se multipliquem os tentáculos do polvo dominador.

         Ainda não chegámos à Rússia!

 

         07.Abr.22

Martins Júnior   

terça-feira, 5 de abril de 2022

SEPARATISTAS RUSSOS E SEPARATISTAS ILHÉUS – AFINIDADES E COINCIDÊNCIAS

                                                                              


Breves palavras para desfazer equívocos. Mais do que equívocos: desenfreadas deformações oportunistas para torcer a verdade dos factos e fazer render dividendos aos vendedores de fogos-fátuos.

         Comecemos pela memorável data de “4 de Abril de 1931 – a Revolta da Madeira” – e que tem sido explorada até ao tutano pelos inflamados autonomistas  sediados nas poltronas do poder. Nos discursos martelados todos os anos junto a uma espécie de monumento à Revolução, lá vem ‘aquela frase batida’ proclamando loas e foguetes ao movimento militar chefiado pelo general Sousa Dias e pelo coronel Freiria, “paladinos da independência da Madeira contra Lisboa”. Nada mais falso. O movimento revolucionário de 1931 foi o grande precursor, não do “1de Julho”, mas do “25 de Abril”. Os revoltosos, líderes da intentona, eram militares de Portugal Continental deportados para a Madeira (uma espécie de colónia penal) por se terem manifestado contra o recém-empossado regime salazarista, revelador de fortes indícios da ditadura que veio a instaurar-se em Portugal. Outros dois acontecimentos – o monopólio das farinhas e a falência do ‘Henrique Figueira’, o único banco madeirense – arrastaram o povo para tumultos e legítimas reivindicações, que infelizmente fizeram abortar uma brilhante tentativa anti-ditatorial que durou 48 anos de repressão.

A Revolta da Madeira estava conectada com outras unidades militares dos Açores e Portugal Continental que tiveram o mesmo malogrado fim. Resumindo: o “4 de Abril de 1931” – sobre cujo pedestal ontem os encartados títeres ilhéus se empoleiraram para falsear as motivações e os factos – foi o antecipado grito de revolta contra a ditadura nascente.

Em direcção oposta, situam-se os separatistas russo-ucranianos e os ‘putinistas’ ilhéus, na Madeira e nos Açores. Enquanto os valorosos militares do “4 de Abril” tinham como ponto de mira o derrube da ditadura salazarista, os separatistas do leste europeu o que pretendem unicamente é  coligar-se ao novo czar de Moscovo e matar qualquer expressão de liberdade autonómica da Ucrânia.

Os nossos super-inFLAMAdos pseudo-autonomistas hibernaram durante quase meio século na barriga da ditadura, bem acasalados com as benesses do regime, e só acordaram estremunhados na tarde do “25 de Abril”, pegaram em armas, armadilharam casas e carros, provocaram mortes em jovens recrutas do seu paiol – tudo fizeram para destruir o Cravo da Liberdade e afogar a respiração de um povo que, com a ajuda pioneira dos militares, reconquistou o seu lugar ao sol.

Ainda está por fazer a tenebrosa história da FLAMA (Madeira) e da FLA (Açores). Consideradas as devidas proporções territoriais e políticas, os chamados ‘flamistas’ bem poderiam pintar na fronte o vergonhoso Z dos tanques e dos camuflados russos e marchar contra Mariupol ou Kiev. Foi isso que fizeram cá na ilha, sob o pavilhão protector de quem um dia será desmascarado. O Tribunal de Nuremberga poderá ainda chegar à Madeira.    

Aqui fica, pois, a clarificação necessária sobre acontecimentos susceptíveis de interpretações erróneas. Com este separar das águas, rendo a merecida Homenagem aos Homens do “4 de Abril de 1931”, aos de “1936” (a Revolução do Leite, contra o monopólio dos Lacticínios) e a todos quantos no seu local de trabalho, aprendizagem e acção têm contribuído para a vigência e consolidação da Revolução dos Cravos,

 

05.Abr.22

Martins Júnior

domingo, 3 de abril de 2022

A OUTRA GRANDE GUERRA – A DAS MENTALIDADES – GUERRA DE TODOS OS DIAS! À MARGEM DA ADÚLTERA.

                                                                       


De terramotos, revoluções, incêndios e guerras se faz o pão que o diabo amassou e nos serve, ele mesmo,  à mesa de cada dia. Sobretudo de guerras, de ucrânias e rússias transplantadas por tudo quanto é mundo. É de guerras cruentas, sangrentas, tiroteios, tanques e armadilhas letais que se pintam os nossos ecrãs e os jornais que nos caem debaixo dos olhos.

Mas há outras guerras, de outra tipologia invisível, sem dúvida a mais temível e decisiva, aliás, a mãe de todas as guerras: a guerra ideológica. Do ventre dela é que saem todas as armas, todos os planos bélicos, todos os generais-cabos de guerra e até as medalhas ´ganhas´ em combate. Foi o próprio Meigo e Terno Nazareno que o afirmou: “É de dentro do homem que sai tudo isso”. Consciente ou inconscientemente, é a Ideia (inata, adquirida, construída ou destruída) que acciona o detonador de todas as nossas guerrilhas, sejam elas familiares, vicinais, sociais ou colectivas, sejam nacionais ou transnacionais.

Ora, é precisamente neste Domingo que o LIVRO nos faz sinalizar, à saciedade, o axioma ou a verificação do que acabo de traduzir no parágrafo anterior. Em palco, três exemplares perfeitos de uma tríplice mentalidade: de um lado, o dogmatismo jurídico-social representado pelas classes dominantes, fariseus, escribas, doutores da Lei e, implicitamente, os sumos-sacerdotes. E agregado ao estatuto de superioridade, o charco da hipocrisia, das aparências, do obscurantismo imperante.  Do outro lado, a interpretação global da sociedade e do indivíduo, uma mundividência alternativa e personalizante com base na transparência e na auto-libertação ética e psicológica, todo este acervo consignado em Jesus de Nazaré. E no meio destas duas ideias-força antagónicas, uma Mulher. Não uma mulher indiferenciada, anónima, indistinta, mas uma autêntica “bomba-relógio” que a classe dominante colocou ali nas mãos do líder Jesus, ao rubro – uma capciosa armadilha - para caçá-lo em flagrante e denunciá-lo à poderosa ditadura  sócio-religiosa de Jerusalém.

Como sempre, sugiro o texto de João, 8, 1-11, cuja leitura iluminará as conclusões que sintetizarei nestas linhas: à Mulher, porque apanhada em adultério, devia ser aplicada a sentença da Lei moisaica, a lapidação.  “E tu, Mestre, qual a tua opinião?”, questionavam os fariseus e os juristas escribas doutores. Até Lhe chamavam “Mestre”, o cúmulo do cinismo calculista, quando tudo não passava de uma diabólica manobra para comprometê-lO.    

Em termos finais desta terrível acareação pública:

1.     Jesus toma desassombradamente a defesa da Mulher (“atirem-lhe vocês a primeira pedra”…) não apenas daquela, mas de todas as mulheres, contrariando a ideologia da época que tratava a Mulher como um ser inferior ao Homem, causadora, desde a bíblica Eva, de todas anomalias e desvarios do mundo.    

2.     Não fora a primeira vez que o “Mestre” tinha desmascarado os escândalos do Templo e a corrupção da classe dominante, mas aqui foi mais longe (Oh grande, pujante, gigante Jesus!) o seu discurso denunciador foi escrito no chão do largo do Templo, onde decorria a acção judicial pública. Contra o reino das trevas criminosas, Ele instaura o novo Reino da Transparência e da Verdade.

3.     “Porquê e para onde fugiram eles? – perguntou à Mulher. E acrescentou: “Nenhum deles te condenou?”, ao que ela respondeu: “Nenhum me condenou, Senhor”. “Eu também não te condeno. Adeus, Mulher, podes ir embora, mas o que te peço é só isto; Muda de vida”!

4.     Profunda lição de psicologia, extraordinária sentença ressocializadora, que deveria ser o móbil de todo o Processo Penal!

5.     Mesmo sabendo que esta sua atitude constituiria mais um libelo acusatório carreado pela dita classe dominante para o  processo no tribunal do Procurador Romano Pôncio Pilatos, o nosso Mestre não cedeu nem um palmo de consciência activa nesta guerra ideológica que veio a culminar no seu próprio assassinato.

 

Assim entramos na análise e na compreensão de todo o percurso de Jesus de Nazaré, uma luta de toda a vida em prol da regeneração da Humanidade, vislumbre de uma Nova Ordem Mundial que nos incumbe construir.

Em uníssono, evoco e curvo-me solidário diante do túmulo de Salgueiro Maia, neste aniversário da sua morte. Cumpre-nos Ressuscitá-lo!

 

03.Abr.22

Martins Júnior