terça-feira, 13 de dezembro de 2022

LUZ E FESTA NUMA ESCOLA DE MACHICO

                                                                


Abrem-se as cancelas adventícias, rangem os gonzos dos portões natalícios e logo se atraem, movidos por uma subterrânea força centrípeta, amigos, colegas de trabalho, amaradas associativos em esfuziante confraternização. Logo pelo meio junta-se a tecnologia feérica e empresta à paisagem uma espécie de embriaguez luminosa descendo em cascata o dorso das montanhas, cambaleando em ziguezagues virtuosos até estatelar-se no chão das cidades. E se alguém perguntar quem faz anos, a resposta segue imediata: É festa, é a Festa!

Mas há outras parcerias, ocultas ao vulgo em trânsito, há outros repuxos iluminantes, invisíveis àqueles que não ultrapassam a casca dos dias e o batente das horas.  Mas, parecendo impossível, são essas parcerias e esses jactos luminosos que penetram nos cérebros atentos e vigilantes, são esses momentos que não se confinam ao Natal, mas enchem os dias, os meses e os anos, a vida.

É precisamente ao prazer de um desses momentos que dedico a  saudação deste dia. Dirigentes, professores e alunos da Escola Secundária de Machico (11º ano) reuniram-se para, sob o signo “Semana das Línguas”,  surfar (passe o estrangeirismo) sobre o Natal e suas variantes. Os responsáveis pelo evento entenderam dar a palavra, prioritariamente, aos alunos, que formularam as perguntas que quiseram (atingindo o número recorde de 48) projectadas no ecrã do auditório. Embora convidado (o que gratamente registo) a proferir uma conferência, para a qual me preparei com gosto, vi-me ali na condição de aluno ou, com uma ponta de ironia, no estatuto de réu da causa e a ter de responder aos meritíssimos juízes, os alunos. 


Devo dizer que apreciei a versatilidade das questões, muitas delas marcadas pelo timbre de uma certa ousadia/atrevimento, características louváveis da juventude e para cuja liberdade interventiva contribuiu a não identificação do/da interpelante. Apreciei, repito, o acervo das matérias `propostas e fiquei elucidado sobre os conteúdos mentais e emocionais dos jovens que, não obstante o conceito medíocre que, na generalidade, deles tem uma certa sociedade, eles são mais, positivamente muito mais do que parecem.  É intimamente reconfortante para um adulto, neste caso, para um octogenário, verificar que no ânimo destes jovens participantes há preocupações de saber a verdade, sem medos nem preconceitos, sobre o mundo que os rodeia e no qual irão viver, sobre  instituições supostamente intocáveis - como a Igreja, o Sacerdócio, o culto, a Mulher.

Logicamente não poderei desdobrar, num apertado ‘blog’, os diversos assuntos tratados e espero não ter surpreendido ou “escandalizado” nem alunos nem professores, sendo certo que aos jovens de hoje não nos é lícito dar “papas de maizena” ou pílulas sintéticas, anestesiantes. Com a devida vénia e sem agredir anquilosados processos de desinformação no passado, é urgente servir à juventude actual o prato suculento da Verdade, enfim, o GPS possível das estradas do futuro, para que, ao menos em nossa legítima defesa, amanhã não digam que os enganámos. Tomo aqui a palavra de ordem do Evangelho e dos seus primeiros bandeirantes; “A Verdade vos liberta”!

Uma palavra de reiterada simpatia aos alunos da mesma Escola e são também elementos da Tuna de Câmara de Machico, pelo brilho que deram ao encontro com a execução de melodiosas canções de Natal.    

 

 

13.Dez.22

Martins Júnior

domingo, 11 de dezembro de 2022

NATAIS DE ISAÍAS, NATAIS DE MARIA – O CONTRASTE QUE NOS DESAFIA

                                                                           


Há 600 anos que na Madeira se fala da ‘lapinha’, desde que os padres de São Francisco – o inventor dos presépios – chegaram ali à baía de Machico e ali celebraram a primeira missa na Ilha. Desde mais de 900 anos em Portugal, o Menino dorme e sonha nas palhinhas. Desde há 2000 anos e  mais, o mundo se mexe e remexe com os vagidos do Divino Infante. Que mais faltará dizer sobre o caso?... Pregadores, eloquentes oradores sacros, onde iremos achá-los para nos dizerem algo de novo?...

Ele é o Príncipe da Paz, o Espírito de Sabedoria, de Fortaleza, de Inteligência, que vai transformar o deserto e a terra árida em jardins de delicadas flores e as agudas lanças de guerra vai transformá-las em enxadas, foices e arados para lavrar os campos agrícolas. Ele é o descendente do Rei David, Ele vai dominar o planeta de mar a mar e de rio a rio, vai acabar com as guerras!!! E daí, “Cantemos ao Menino Deus, Chantons tous son événement”.

Este é o Natal dos Profetas, os Natais de Isaías, de que nos falam hoje os textos dominicais. Estalem foguetes no ar, encham-se os mercados de lojas e lojinhas, embebedem-se as praças de luzes, luzinhas e lusões. Rivalizem os povoados e as cidades a ver quem dá mais fogo e lantejoulas esfumaçantes. É festa, é festa, o Menino nasceu.

Tudo bem. Não se vai estragar o brinco. O povo precisa de Festa, de descontração, de alegria, mesmo que não passe de um dia de ilusão.

         Mas há o outro Natal, o autêntico, o histórico. Conta-se em poucas palavras, vê-se-o a olho nu. Uma rapariga de 16 anos de idade, vai à terra dos seus antepassados, imprevistamente sente as dores do parto, ninguém naquele pequeno burgo a recolhe, o marido insiste (por amor da criança, ao menos por ela, arranjem-me um lugarzinho, um vão de escada, onde a minha mulher possa ter o filho).

         Ninguém. Nem maternidade, nem parteira, nem pensão doméstica, nada. Solução: “Vá parir para o palheiro de acolá acima ou na furna que fica atrás”. E assim foi. E assim se faz uma festa. Festeja-se por uma jovem, nessa altura, migrante por decreto imperial (o recenseamento), porque a pequena, quase uma adolescente teve que dar à luz uma criança na manjedoura dos animais. Interessante, divertido, não acham?... Fosse hoje, seria notícia de primeira página, entrada nos telejornais, um escândalo…  então não há maternidades, uma pensão, um vão de escada, sequer, para uma pequena grávida sem abrigo?!

         Este foi o Natal de Maria!

         É preciso que haja Festa. Qual festa? Ao Natal de Isaías, que nunca teve concretização ou ao Natal de Maria que significa, em contra~luz, a indiferença de um mundo perante a Mulher, a Criança, um Recém-Nascido?

         Os dois são úteis e até necessários. Mas não se faça do Natal um carnaval. E não se esqueça que os Natais de Maria repetem-se, de vários módulos, neste mundo que habitamos… Não é motivo de cantigas, mas de indignação geral.

 

         Onde nasceria, neste século XXI,  uma criança russa, por hipótese o “nosso”  Menino hebreu? Não tenho dúvidas: Ali mesmo, na Ucrânia.

         No entanto, ‘Lá vamos, cantando e rindo’… em honra do Manino e Sua Mãe!

 

         11.Dez.22

         Martins Júnior

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

DA “SÃO LOURENÇO” AO “SÃO LOURENÇO” NUM MAR DE CANÇÕES TUNEIRAS

                                                                   


 

      Nem “São Lourenço” mudou de género nem as canções ‘tuneiras’  têm algo a ver com os tunídeos migrantes que atravessam os mares da Madeira. No entanto, todos eles  conversam na amurada - o título - deste cais virtual dos Dias Ímpares.

A Ponta de São Lourenço (que desde 1419 tomou  o mesmo nome  da caravela : ´´O São Lourenço chega! bradaram Tristão e Zargo aos corajosos marinheiros) sim, a ponta-extremo-leste da Ilha e braço esquerdo de Machico, rude e revolta, a Ponta de “São Lourenço” rumou até ao Funchal e entrou nos salões doirados do Palácio que lhe usurpou a titularidade de registo, sem contudo ofuscar-lhe o privilégio de ter sido ela a franquear a entrada dos argonautas do Senhor Infante na nobre baía de Machico. O mar ‘tuneiro’ onde viajou levou consigo melodias eternas, as de Mozart, de Beethoven, Strauss e muitas outra que navegaram no convés (daí o nome) da Tuna de Câmara de Machico, TCM.

Está desvendado o pequeno enigma. A TCM teve a honra de abrir, anteontem,  o auspicioso programa “O Natal do Palácio” – o Palácio de São Lourenço. Em poucas palavras, os jovens manifestaram – e aqui não faço mais que prolongar o eco dessa mensagem – o seu muito apreço pelo convite que lhe foi formulado para apresentar ali, num meio eco-melódico adequado e perfeito a genuína ‘música de câmara’ própria do seu reportório. Original foi a participação presencial e efectiva da ‘Tuninha Infantil’ que emprestou ao evento uma graciosidade diáfana, condizente com os natalícios motivos ornamentais do salão, o que muito cativou o público assistente.

Duas notas ficaram gravadas no ânimo de quem lá esteve. Primeiramente, a circunstância, para nós inédita, de ver os jovens e crianças de uma zona rural, como é a Ribeira Seca, subirem felizes a escadaria do Palácio e apreciarem a beleza do mobiliário ancestral, de há quatrocentos anos (informaram-nos).

A segunda nota, essa diz respeito ao público mais adulto, com memória. Não posso esquecer-me de que, quando ocupada em 74-75-76 do século XX por um militar autoritário anti-25 de Abril, aquela casa representou os resquícios do já defunto fascismo, com ameaças e perseguições contra o povo madeirense. Foi dali, daquele Palácio, que foram apontadas armas e lançadas bombas lacrimogéneas e similares contra os camponeses produtores de cana de açúcar, uma enorme multidão de toda a Madeira, reivindicando o  pagamento de dois escudos e meio/Kg de cana. Jamais esquecerei esse triste cenário, o povo transido de medo, mas sempre a gritar pelo justo preço do seu produto.

Reminiscências de outros tempos, contraditoriamente o tempo da libertação do Povo Português! Ultrapassada hoje toda essa malfadada repressão, ao entrar naquela casa sentiu-se a atmosfera de uma simpática receptividade que a todos nos tocou. Por ser Natal e certamente ninguém terá levado a mal, improvisámos esta quadra, intercalada no refrão popular madeirense:

O São Lourenço Primeiro

É o que está no Caniçal

O São Lourenço Segundo

Veio morar p´rao Funchal

Ao Ex.mo Representante da República, Senhor Conselheiro Ireneu Barreto, os melhores agradecimentos da TCM, extensivos aos competentes serviços sob a tutela de Sua Excelência.      

  Feliz Natal !

 

09.Dez.22

Martins Júnior  

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

O CRIME ORIGINAL NA ÁRVORE PROIBIDA

                                                                                   


É do acto de conceber – portanto, de concepção ou conceição – que vou aproveitar esta vigília e este dia, 7 e 8 de Dezembro, chamados da “Imaculada Conceição, para formular uma questão e muitas dúvidas aos liturgistas, teólogos e biblistas ou, por todos, ao próprio Magistério da Igreja e respectivos dicastérios.

         A questão é esta: estará a Igreja disposta a continuar intransigente na doutrina do ‘pecado original’, aquele acto de Adão e Eva se terem atrevido a comer do fruto da árvore proibida? Conexa com esta questão está a comemoração do 7/8 de Dezembro, a Festa da Imaculada Conceição, em cujo dogma, promulgado em 1854, está o facto/privilégio que Maria, quando foi concebida, ficou desde logo isenta do ‘pecado original’. Não é um mero desvio doutrinal o que está incluso nesta questão, nem tão-pouco uma blasfémia herética de circunstância. Dizem os tratados que grandes luminares da Igreja, entre os quais Santo Agostinho de Hipona, século V,  São Tomás de Aquino, século XIII e, já antes, São Bernardo, século XII, puseram reticências relativamente ao culto desta isenção de Maria – mais tarde transformado em dogma pontifício.

         Não poderá cabalmente responder-se a esta questão inicial sem desentranharmos o labirinto do que se convencionou designar por ‘pecado original’. Mais embaraçosa se torna esta dúvida quando se diz ou sempre se disse que uma criança nasce com essa culpa ou pecado que “vem das nossas origens”, isto é, do tempo e do ‘crime’ de Adão e Eva. E preceitua a Igreja Vaticana que essa mancha e esse ‘crime’ só se resgatam ou desaparecem com recurso à pia  baptismal. Daí o Baptismo das crianças.

         Ora, o que está em causa é a explicação da deficiência humana. Desde os primórdios da humanidade, está em hasta teo-filosófica esta tremenda incógnita: por que estranha sina nascem os humanos marcados por tendências negativas, vertigens inatas para o mal, para a perversão, para as mal-feitorias?

         Aqui entra a ciência em debate: os biólogos, os psicanalistas, os neurologistas, sobretudo na vertente da hereditariedade. Em virtude dos avanços da ciência e da tecnologia, são eles que têm a palavra. E informam que nós somos herdeiros dos cromossomas dos nossos antepassados. Com o sémen masculino depositado no ovário feminino, os nossos pais transmitem-nos o somatório de tendências positivas e/ou negativas que marcarão o nosso futuro psicossomático. A infância e as reações comportamentais das crianças fornecem-nos um laboratório perfeito dos reflexos hereditários acumulados.

Perante toda esta fenomenologia, que interpretação tem a vertente cultual religiosa?... A mesma que tiveram os  hebreus, a começar por Moisés, que escreveu ou ditou o Primeiro Livro da Bíblia - o Génesis - milhares, milhões de anos depois dos ‘factos’ (?)  por ele narrados.  A solução é atribuir a Deus e ao sistema teocrático aquilo que  o homem não consegue explicar. É o que Augusto Conte classificou como o “estádio teológico” da evolução antropológica. Em termos práticos: a deficiência humana, que se transmite de geração em geração até ao fim do mundo,  é o castigo da desobediência de Adão e Eva. É nesse crime (e na maldição divina contra a  pobre serpente enroscada na árvore) que os dicastérios vaticanos atribuem ou atribuíram a razoabilidade das maldades congénitas dos ‘degredados filhos de Eva’. O mesmo fez a Igreja no século XVI, quando pretendeu sentenciar à morte na fogueira Galileu Galilei, porque o famoso astrónomo renascentista descobriu que a terra é que anda à volta do sol, e não o contrário, como pretendia a Bíblia.  Só não se consumou a sentença porque Galilei achou mais conveniente retratar-se, estrategicamente.

Postas na mesa estas dúvidas e estes dados científicos, permanece de pé a questão primacial: Que valor ou que influência determinista tem nos nascidos no século XXI  a teoria do ‘pecado original’?… Dando um passo em frente, é lícito perguntar: seria plausível (por mera hipótese) que  actualmente viesse o Papa Francisco definir como Dogma infalível o exacto  conteúdo doutrinário promulgado  pelo Papa Pio IX  em 8 de Dezembro de 1854 ?!...

O assunto não se configura com uma especiosa tese académica, tipo escolástica medieval. É um caso muito sério que nos remete para a evolução civilizacional e, mais, pata a dignidade do voluntarismo consequente na demarcação do futuro da humanidade. Um tema que merecerá melhor atenção.

 

7-8.Dez.22

Martins Júnior

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

UM PEQUENO…GRANDE LIVRO !

 


Cativou-me desde a primeira hora: pela singeleza do título, pela dispensa do chamariz publicitário, a que se dá o pomposo nome de Prólogo ou Prefácio, feito por não menos pomposa figura de proa. Cativou-me ainda por duas outras faces da mesma singeleza: a desnecessidade de propaganda nos jornais e nos audiovisuais cá do burgo e, mais ainda, essoutra maior desnecessidade de convidar as brasonadas entidades oficiais para a sua apresentação pública, numa sala tão livre e modesta quanto eloquente na sua simbologia: o Sindicato dos Professores da Madeira.

         José Bernardino Gonçalves da Côrte, nascido em Aruba, filho de pais madeirenses emigrados, reside na Região e é docente de Artes Visuais na Escola da Ribeira Brava. Neste seu segundo livro, faz uma radiografia perfeita da idiossincrasia das gentes da Madeira, desde os meados do século XX. Numa bem arquitectada síntese  de cinco narrativas, conectadas sob o signo da tradição natalícia regional, o Autor faz desfilar um vasto cortejo da tipologia identificativa de personagens ilhoas, trajes, usos e costumes, de onde sobressai o linguajar endémico da nossa mais profunda ruralidade, características estas que nos aproximam do estilo do nosso maior romancista, o madeirense Dr. Horácio Bento de Gouveia.

         Merecem especial menção os recursos estilísticos disseminados ao longo de todo o texto, nomeadamente o manejo da antítese (um sorriso condoído nos lábios), a sinestesia (o assobio frio do vento), a personificação (os quatro peros arrepiaram-se; as pedras ajudaram a propalar a maledicência), os indícios, monitorizados nos nomes de algumas personagens tipificadas (Zé Carrega, Rafael Dedos-Leves, António Aqui-Vamos,) e nalgumas expressões peculiares (os 366 degraus da Vereda do Calado; a efígie de Custódio na estrela Sírius). O realismo queirosiano está bem patente na descrição de todos os cenários onde se movimentam os intervenientes. Noutro excerto, o desassossego esquecido e o esquecimento desassossegado  remetem-nos para o “Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa. De registar a utilização de uma apropriada terminologia técnica, sobretudo quando aplicada às alfaias de uso agrícola, às armas artesanais de defesa e à ambiência sócio-económica, cultural e religiosa das populações rurais. Neste  item, o Autor traz reminiscências de Saramago no rigor vocabular e, remontando mais longe, de Aquilino Ribeiro n’A Casa Grande de Romarigães. Por onde se prova que a estética literária não tem uma única direcção nem se identifica como um feudo reservado aos grandes épicos ou aos romancistas de eleição. Tanto se revela nos históricos temas de fundo como se espelha na ingenuidade nativa do microcosmos de uma aldeia perdida nas montanhas.

          Enfim, um pequeno livro, pelo escasso número de páginas. Mas um Grande Livro,  pelo alcance das matérias em jogo, desde a riqueza anímica de quem tem o berço e a sepultura na terra que cultiva, de sol a sol,  até aos escusos meandros dos instintos negativos da condição humana, nitidamente expressos no ofício d’Os Pilhas. Quem ler esta enciclopédia de bolso – Às Voltas – não ficará insensível à galeria de Mulheres, as vulgarmente designadas ‘mulheres de campo’, as viloas, todas iguais e todas diferentes na forma de estar, agir e reagir perante as circunstâncias do mundo rural, mais incisivamente em situações dramáticas, como aconteceu com Rosalina no confronto dos camponeses com as forças militares no Largo do Regedor: O coração puxava-a para um lado, o instinto de sobrevivência para outro.    


         As questões sociais, indissociáveis nestes aglomerados, não foram esquecidas pelo Autor, as mais penosas, a carência alimentar (uma cavala para dez pessoas de casa: nesse dia, o almoço fora milho cozido com cebolada e um cheirinho a cavala, um festim), o êxodo rural (tanta gente do campo a trabalhar na cidade), o contrabando local (Zé Preto Cabouco ia tentar comercializar a aguardente de cana, às escuras das autoridades, com os vendeiros locais  da sua zona ou particulares), as lutas, em 1936, contra os monopolistas da manteiga.

         Além dos dizeres comuns ao glossário aldeão esparsos em toda a narrativa, não resisto a reproduzir, em formato telegráfico, algumas expressões de fino recorte literário, tais como a gozadora cotovelada na comadre Justina ou Custódio bebeu mais um caneco para embriagar a frustração. E ainda, aquela dor que daí a pouco não saberia o porquê de estar a chorar e Ele recarregou-se de confiança e despiu-se do desânimo do acordar de hoje.   

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Aqui ficam, pois, estes breves apontamentos de homenagem e gratidão ao docente Bernardino da Côrte pela exímia radiografia que nos trouxe neste seu livro, bem como aos ilustradores: ele próprio e Francisco José Pereira da Côrte, Orlando de Abreu Ribeiro, Paulo Ladeira, Marta Condez e José Nelson Pestana Henriques. O Autor soube rodear-se de excelentes colaboradores, entre os quais Lília Maria Gonçalves Pereira e Vanda Mónica Gomes Caixas, às quais são extensivas as mesmas saudações e agradecimentos. A actuação de um selecto quinteto musical e a encenação de um dos episódios do livro abrilhantaram condignamente a apresentação ao público, sob a competente moderação de Marisa Silvestre. A palavra final coube ao Senhor Bispo D. Nuno Brás da Silva Martins, que criteriosamente enalteceu a obra e considerou-a como a “expressão da genuína alma madeirense na vivência do seu Natal”.   

                      

05.Dez.22

Martins Júnior

sábado, 3 de dezembro de 2022

ISAÍAS JOÃO LEONARDO – PROFETA E BAPTISTA DO PRESENTE E DO FUTURO

 

       


Semelhando três, eles não são mais que um só!

         Para quem não entendeu ainda o alcance da Trindade – cognominada A Santíssima – aproveite agora o ensejo e já fica sabendo e desvendando os labirintos do mistério: um nome apenas –Isaías João Leonardo – desdobra-se em três. Leonardo, século XXI, João, século I, Isaías, século VII-VI a.C..

Separam-nos cerca de 3.600 anos de corporalidade mortal, mas  une-os, funde-os num só a mesma chama imortal!

Abramos o LIVRO na palavra de Isaías, baptizando o futuro:

A Sabedoria e o Conhecimento encherão o país e o mundo, como os rios enchem o mar… Ninguém será julgado pelas aparências. E aos humildes da terra, os  oprimidos, será feita a justiça (que nunca se fez).

Abramos de novo o LIVRO na fala de João (junto ao rio Jordão) aos presentes de então e aos vindouros de todos os tempos:

Eu sou a Voz que clama no vosso  deserto: Preparai os caminhos (o futuro), corrigi as veredas (do passado). Não basta o baptismo na água, o que importa é o Baptismo do Espírito.

Para ouvir Leonardo – é ao enorme Leonardo Boff que me refiro – abramos outro LIVRO, o Podcast, publicado há uma semana.  Vejamos, oiçamos, interiorizemos um dos maiores Profetas e Pedagogos, sob cuja Palavra, a Palavra de João e de Jesus Nazareno, o mundo deve ser baptizado. Propositadamente dispenso-me de transcrever a sua suprema intervenção, para não empanar-lhe o brilho e a beleza do seu verbo. Insuperável a frescura intelectiva de um homem de oitenta e quatro anos de idade! Sem prejuízo dos mensageiros de outrora, já é ‘tempo’ de descobrirmos os Profetas do nosso ‘Tempo’. E se estes são ostracizados e vilipendiados, também o foram os do passado. A João Baptista cortaram-lhe a cabeça!

Agradeço publicamente ao colega e amigo Padre José LuísRodrigues o ter-me passado o lembrete de tão pujante mensagem.\

03.Dez.22

Martins Júnior

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

LISBOA, KIEV E MACHICO – A TRÍADE COMUM A TODOS OS POVOS LIBERTADOS!

                                                                              


Se de cada vivente se repete a clássica definição que nenhum deles é uma ilha, pela mesma razão dir-se-á que nenhum acontecimento vegeta isolado de tudo quanto mexe e circula nesta redoma planetária em que vivemos. Por muito longe que estejamos, tudo e todos ficamos tão perto. Queiramos que não queiramos, lá vamos carambolando ao ritmo das circunstâncias que nos embalam, que nos destroem ou, na melhor das hipóteses, nos reabilitam para a vida.

Ontem e hoje, nesta passagem de nível para o derradeiro mês de 2022, viveu-se em Machico a tríplice erupção  de acontecimentos - distantes no tempo e no território, mas coincidentes no denominador comum activo, no espírito que os anima. Com a mesma emoção que viveram os intervenientes em cada um dos três factos históricos, quereria eu transmiti-los também, de alma aberta e coração fremente, a todos os que  me acompanham neste veículo de comunicação virtual.

Primeiro de Dezembro – a notícia libertadora de um país e de um povo que sacudiram o jugo estrangeiro a que estavam condenados por via de calculistas alianças conjugais entre Portugal e Espanha. Não obstante o despudorado aproveitamento político desta gloriosa data por parte do fascista Estado Novo durante 48 anos, permanece intacta e firme a vaga avassaladora de 1640, reeditada em 25 de Abril de 1974.

Para que tais vitórias se alcançassem, muitos foram os que tombaram sob o ferrete inexorável de regimes totalitários, - muitos deles autênticos ‘heróis desconhecidos’ – que deram corpo e alma, talento e braços, enfim, a própria vida, para quebrar as amarras que sufocavam o povo a que pertenciam.

Entre muitos, erguemos Francisco Álvares de Nóbrega, o Poeta agrilhoado nas algemas da Inquisição, Cadeia do Limoeiro em Lisboa, vítima dos instintos insaciáveis do bispo de então no Funchal, José da Coata Torres e mais tarde libertado por diligências do novo bispo Luís Rodrigues Vilares. Cumprindo o preito de homenagem e gratidão ao talentoso vate de Machico, o Município, a Junta de Freguesia e a ‘EFAN-Estudos Nobricenses’ evocaram a efeméride do seu nascimento, o “30 de Novembro de 1773”, com o anúncio dos galardoados no concurso anual alusivo à vida e obra de Francisco Álvares de Nóbrega e a recitação de alguns sonetos, destacando-se aquele que dedicou `A Pátria do Autor’ (Machico) – o Hino  da Freguesia – com fundo musical pela Tuna de Câmara de Machico.

Como sempre, a Tuna encerrou a sua prestação artística com o Hino da Ucrânia, contributo anímico deste Município ao Povo Ucraniano, tendo então sublinhado a vereadora da Cultura, Dra.Mónica Vieira, que na Ucrânia e em muitos países haverá decerto outros ‘Francisco Álvares de Nóbrega’ lutando encarcerados pela emancipação das suas gentes.

E o insólito aconteceu. Três jovens entraram imprevistamente na Sala onde decorriam – e já terminavam – as comemorações. De momento, quiseram identificar-se. Eram ucranianas. E explicaram o porquê da sua presença. “Estávamos passeando na alameda – disseram em perfeito inglês – e ouvimos tocar o hino do nosso país. Entrámos logo, por isso pedimos desculpa”.

Mais surpreendidos ficámos nós, os participantes no evento. E de imediato, pedimos-lhes que fossem elas próprias a cantar o Hino da Urânia, acompanhadas pela Tuna, o que logo fizeram sem qualquer hesitação.

Foi uma apoteose, uma emoção indescritível, deixando-nos a impressiva  certeza de que nenhum de nós é uma ilha. E a sensação planetária de que nada acontece isoladamente. Mesmo longe, tudo está perto. E nós também.


01.Dez.22

Martins Júnior