quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

A MAIS AMPLA E BRILHANTE MENSAGEM DE ANO NOVO !!!

                                                              


Aconteceu Ano Novo na RTP/M!

Quando digo Ano Novo, quero dizer mais que novo ano, novo calendário, fogos fátuos, balonas e estrelas cadentes que saem do chão e mais depressa ao chão regressam. Aconteceu Ano Novo – verdadeiramente  Novo! - na grande paisagem da Ideia,  da Acção, da Saúde física e mental, da Crença, enfim, da Vida.

Quem no-lo trouxe foi o Padre José Luís Rodrigues, secundado pela excelente condução do jornalista Paulo Santos que soube interpelar com mestria o  distinto entrevistado, abrangendo uma polícroma diversidade de temas e problemas do mundo actual, desde as questões sociais às ideológicas e religiosas, com tal realismo e sensibilidade que parecia responder a todos e a cada um dos telespectadores que tiveram o privilégio de ver e ouvir a histórica entrevista do Pároco de São José, no Funchal.

Bem andou a RTP/M em abrir novos horizontes a crentes e não crentes, através da palavra lúcida, segura e transparente do padre romancista, poeta, contista e ensaísta, orador e blogger de merecido reconhecimento público. Ele identifica a metamorfose necessária à Igreja na Madeira, onde o imobilismo intelectual e o exibicionismo processional enfermam a religião católica nesta ilha, desde a hierarquia ao presbitério e aos fiéis em geral.

Corajoso e polémico para alguns, mergulhados que estão no obscurantismo oportunista, gerador de resquícios de poder  anti--evangélico, o Padre José Luís Rodrigues nos dias que correm incarna a personalidade – também corajosa e polémica – do Papa Francisco, cujo lema pastoral é o de “UMA IGREJA EM SAÍDA” ao encontro da Humanidade, no seu sentido holístico, esteja onde estiver o ser humano.

          Estamos perante um discurso intelectual e um programa comportamental idênticos ao de Jesus de Nazaré que, sem prejuízo da verticalidade da fé, pautou os seus actos  pela horizontalidade humanista, tal como o saudoso Padre Mário Oliveira definiu quando titulou o texto eminentemente clarificador no seu livro “Do Cristão ao Humano”.

          Ao mesmo tempo que nos congratulamos com a luminosidade esperançosa que o Padre José Luís Rodrigues jorrou jubilosamente na alvorada do 2025, fica-nos – a todos nós que queremos um mundo novo – fica-nos, sim, a mágoa e a desilusão de ver a hierarquia e a sua casta de mini-satélites subalternizarem, senão mesmo proscreverem, os lídimos valores representativos da genuína espiritualidade humana e cristã.

          Força, Padre José Luís, deste amigo e veterano das mesmas causas, cientes que estamos de não poder salvar o planeta – nem o próprio Jesus o conseguiu – mas activos e conscientes de que, por nós, o mundo não andou para trás!

 

          15.Jan.25

          Martins Júnior

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

DO RIO ALVA À ESTRELA D’ALVA

 


Foi de alvura inteira a paisagem toda – de corpo e alma – nesse outonal fim de semana no distrito de Coimbra. AS baladas e guitarras da velha Academia deram lugar aos bandolins das Tunas emergentes das águas cantantes nas serranias do Açor, à beira-rio, avistando as cumieiras da Serra da Estrela.

Na Região Centro de Portugal viu-se a centralidade humaniforme de gerações e territórios. Aconteceu no auditório da Tuna Penalvense, anfitriã do XX Encontro de Tunas do concelho de Oliveira do Hospital. Em palco, desfilaram os acordes do  quaternário compasso geracional que define o curso da vida: infância e juventude, maturidade e senectude. Assim mesmo.

Voámos nós da Ilha da Madeira, desceram outros de Vila Real de Trás-os-Montes e outros ainda subiram desde o Algarve até à Civitas Splendidissima,  onde todos se abraçaram no regaço da inspiradora Matrona Universal e Intemporal, a Música. Abriu o programa a Tuna de Câmara de Machico, em cujo elenco primaram a infância e a adolescência dedilhando a primavera dos sons, seguindo-se a Tuna Panalvense, a anfitriã, a quem retribuímos a participação dos seus experientes e prestigiados elementos nos concertos do Centro Cívico-Cultural e Social da Ribeira Seca e do Festival Internacional de Bandolins no Teatro Municipal “Baltazar Dias”, no Funchal. Encerrou o espectáculo a nortenha  Banda de Vila Real,  mais de uma vintena de músicos sexagenários, septuagenários e octogenários que brilhantemente  demonstraram ao numeroso auditório que a ‘Arte dos Deuses’ não conhece ocaso, seja qual for a idade dos seus executantes.



No público assistente, foi notória  a presença entusiástica do Presidente da Càmara Municipal de Oliveira do Hospital, ladeado pela simpática Vereadora da Cultura e do eloquente Presidente da Junta de Freguesia de Penalva, os quais provaram ao vivo que o progresso de um povo constrói-se não apenas de obras megalómanas, betão sobre betão, mas fortalece-se com o cimento anímico do crescimento cultural, sobretudo na formação musical que educa a sensibilidade e o sonho  de uma comunidade saudável.

A visita de estudo, embora transitória,  à “Bobadela Romana” (a supra-citada Civitas Nobilissima) culminou a viagem do presente a um passado longínquo proficientemente esclarecida pelo director do museu, que nos fez regressar à ocupação do território luso pelos Romanos, bem patente no arco triunfal, na pavimentação das rotas terrestres e na arena circular das lutas dos gladiadores.



Daqui, irregular e distante rectângulo insular, o CCCS-RS e a TCM pedem ao imenso azul Atlântico seja a ponte transportadora do nosso penhorado agradecimento à Tuna Penalvensee pela mensagem de humanismo e cultura que nos trouxe à Ilhae, com maior ênfase, pelo carinho e pela  fidalguia com que nos recebeu em sua casa de Penalva.

Se o rio Alva leva saudades da terra, a Estrela d’Alva ficará sempre a brilhar em todas as manhãs da nossa memória.

BEM HAJAM !

 

13.Jan.25

Martins Júnior

sábado, 11 de janeiro de 2025

OLHAR PORTUGAL PELO MONÓCULO DE EÇA

                                                                             


 Ao homenageado de um século e uma quarta não pergunto o que estariam suas cinzas a desenhar com a pompa e a circunstância envolventes naquela soleníssima abside de Santa Engrácia. Peço-lhe apenas me recorde e faça reviver aqueloutra paisagem – “Portugal é Lisboa, o resto é paisagem”, ele o disse - que o seu vidente monóculo vislumbrou na família d’Os Maias.

         Abalizados analistas já o fizeram, Carlos Reis, Isabel Pires de Lima, Pinto Correia, Miguel Real   e, já antes, João Gaspar Simões, Aubrey Bell, Hernani Cidade, Fidelino de Figueiredo, João Medina, entre muitos outros. Da urna, assente na dourada essa  (que estranha homofonia!) e abraçada pela bandeira nacional,  uma resposta breve ressumava aos meus ouvidos: “Abre esses Episódios da Vida Romântica,  observa  duas cenas e isso te basta: o Capítulo X e a dupla “Maria Eduarda/Carlos da Maia”.

         Sem desdouro dos panegíricos palavrosos e  dos mais inflamados e/ou repuxados à cintura patriótica dos oradores de turno do Panteão, os dois episódios sintetizam  de forma genial o estertor civilizacional e a decadência do Portugal dos fins do século XIX: o Hipódromo e o Incesto.

         No Hipódromo, tudo transpirava a decrepitude mal disfarçada do país, desde a tribuna ao bufete:

 O bufete estava instalado debaixo da tribuna, sob o tabuado nu, sem sobrado, sem um ornato, sem uma flor. Ao fundo corria uma prateleira de taberna com garrafas e pratos de bolos. E, no balcão tosco, dois criados, estonteados e sujos, achatavam à pressa as fatias de sanduíches, com as mãos húmidas da espuma da cerveja… Por entre o alarido vibravam, furiosamente, os apitos da polícia; as senhoras,. com as saias apanhadas, fugiam através da pista, procurando espavoridamente as carruagens – e um sopro grosseiro de desordem reles passava sobre o hipódromo, desmanchando a linha postiça de civilização e a atitude forçada de decoro… Isto é um país que só suporta hortas e arraiais. Corridas, como muitas outras coisas civilizadas lá de fora, necessitam primeiro gente educada. No fundo, todos nós somos fadistas! Do que gostamos  é de vinhaça e viola e bordoada, e viva lá seu compadre! Aí está o que é!  

         Humilhante, porque degradante, o ADN do povo português, nesta ardilosa construção do ‘hipódromo’, tipicamente queirosiana.

         Mas há mais, na fértil imaginação criativa do romancista. Como fatídica decomposição genética – crâneo inerte nos ombros de um esqueleto amorfo – rebenta o escândalo familiar, ético-social: o incesto: Depois de tanto se amarem, Carlos e Maria Eduarda descobrem que são irmãos. Inexorável! Inelutável! Sem apelo possível! Nada a fazer ou a esconder:

         _ E aqui tens tu a vida, meu Ega! Neste quarto, durante noites, sofri a certeza de que tudo no mundo acabara para mim… Pensei em me matar. Pensei em ir para a Trapa. E tudo isto friamente, como uma conclusão lógica.

-Falhámos a vida, menino – exclamou Ega.

- Não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma.

- Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder.

Na vasta galeria das diversas tipologias sócio-culturais d’Os Maias, é o tédio visceral que enferma a sociedade portuguesa, contra a qual se insurge a “Geração de Setenta”, precursora da evolução republicana de 1910. “Os Vencidos da Vida” e o “Grupo dos Cinco”, com Antero na vanguarda, fizeram estalar o esfarrapado verniz de um Portugal no charco, genialmente patenteado no Hipódromo e no Incesto.

                                                   


Que escreveria Eça, 125 anos depois, sobre este seu e nosso país?

Aceitam-se propostas, desde as mais sérias e científicas às mais  hilariantes e mordazes. Matéria   prima não lhe faltaria. Bem asizado andou Aguiar Branco, presidente da Assembleia  da República, quando puxou para o seu discurso uma tirada pró-queirosiana, ao imaginar “os termos jocosos” com que Eça poderia descrever o  patriótico e sumptuoso ritual da transladação.

  Por mim, não duvido que, perante os 300 convidados, aperaltados como o Palma Cavalão  ou como a  Condessa de Gouvarinho, repetiria os mimos picarescos da Carta que escrevera a Pinheiro Chagas; “Seus Excelentíssimos patriotaças, patrioteiros, patriotinheiros, patriotadores e patriotarrecas”…

Ler Eça faz bem à saúde. E aproxima-o do extinto Bisnau, do regionalista Re-Nha-Nhau e da Charlie Hebdo , sobretudo da homenagem às vítimas do atentado ocorrido há 10 anos em Paris.

A falta que faz hoje o bom humor  de Eça de Queirós! 

 

 11.Jan.25

Martins Júnior

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

“QUEM NASCEU ???” QUEM MORREU ???

                                                                             


 

Todos os dias se nasce. Todos os dias se morre.

Um ano morre. Outro  ano nasce.

Uns foram. Outros virão.

Na aurora  nascente do Re-Nascimento do Bambino de  Belém e antes que o  ocaso sepulte no ‘mar morto’ do esquecimento os 366 dias de 2024, trago o abraço irredutível que vem do fundo da história: Mors--Amor, mais concretamente, entre a Morte e o Amor, a corrente circulante entre o berço e a sepultura, à qual está ligado todo o ser vivo que vem a este mundo.

A Morte foi a de Jardim Gonçalves, presbítero, aos 92 anos de idade, em Lisboa. Transcrevo, com incontida emoção, a sua última mensagem, escrita precisamente oito dias antes do Natal e quatro dias antes da sua partida:

         “A minha Família e Amigos

         BOAS FESTAS, FELIZ NATAL

        Toda a sociedade se movimenta

        Luzes se acendem nas ruas e praças

        Trocam-se prendas e flores

Restaurantes e cafés enchem-se

        Concursos de presépios espalham-se

        Olhares piedosos bafejam pobres

        Tudo corre e o tempo foge

        Mesas postas para a consoada

        E mais e mais e mais…

        Mas pergunto-me a mim e a vós:

        QUEM NASCEU ???

       

Do: Agos, do Agostinho, do Jardim, do padre Jardim”

                         *******

Só o silêncio – um silêncio profundo e transbordante  - poderá acolher e condignamente responder a este poema iluminante  - cada verso o rasto de uma  estrela   - e, tudo junto, uma enciclopédia de sabedoria bíblico-sociológica, semelhável às profecias de Isaías, Amós e Miqueias quando anunciaram a alvorada de um Dia Novo e projectaram o Reino do Messias Libertador, plasmado no Direito, na  Justiça e na Paz Universal, valores constitucionais arredados dos detentores do poder nos tempos actuais.

Perante a indiferença dos comunicadores oficiais, outra mensagem não me ocorre senão aquela que completa o “QUEM NASCEU ???”,

traduzindo-a por uma outra que lhe é paralela, indissociável, irmã gémea: “QUEM MORREU ???”  

“Quem morreu, pergunto-me a mim e a vós”:

Um genuíno líder humano e cristão, um intelectual superior, pedagogo e psicólogo sensível, perscrutador nato da alma de quantos o procuravam, cidadão operante do mundo que percorreu na infatigável campanha iniciada por “Esse Desconhecido” Jesus de Belém.

Agos, Agostinho, Jardim, Padre Jardim – Ele dispensa panegíricos encomiásticos, como nunca os procurou em vida. Dono de uma escrita limpa, vigorosa e lapidar, o aluno mais brilhante do seu curso, que  tinha todo o talento e todos os predicados  para ascender a altos tronos  da oligarquia eclesiástica, podendo ocupar a ribalta dos palcos pontificais, preferiu os bastidores da acção, a oficina do operário discreto que produz e mobiliza os generosos compagnons de route dentro de Portugal e no estrangeiro na demanda do Santo  Graal da Verdade Clara e Íntegra, arrasando os pântanos do obscurantismo, quebrando os rochedos empedernidos do autoritarismo sacralizado.

Duas lâmpadas apenas deixarei acesas na sua tumba:

O optimismo resiliente com que foi “convidado” a abandonar a  Ilha, por manobras sub-reptícias do poder bicéfalo (sacro-político) vigente, com o sofisticado pretexto de “promoção eclesiástica” no Patriarcado de Lisboa.

A casa da sua residência, à “Grão Vasco” em Benfica  - a baía a que aportavam contentores problemáticos de mares distantes e onde desaguavam as mágoas de tantos colegas padres e ex-padres madeirenses, que o “Jardim” a todos recebia com um abraço fraterno e o conforto de um pai acolhedor, fazendo-me rebobinar a peça de teatro no Seminário do Funchal em que ele desempenhou, como se de um actor profissional se tratasse,  o papel de Pai do “Filho Pródigo”.

Finou-se um Mestre, Guru dos novos tempos e, para mim particularmente, fechou-se uma biblioteca, em termos de oralidade a maior fonte de consulta sobre o estudo que tenho programado concretizar acerca do estado da Igreja em Portugal, cuja ajuda já me tinha prometido. Helas!

Quem morreu? – Jardim Gonçalves!

Quem renasceu? – Jardim Gonçalves e o seu Legado!

 

30.Dez.24

       Martins Júnior

domingo, 3 de novembro de 2024

ENROLAR A CORDA AO PESCOÇO ENQUANTO AS MÃOS BATEM PALMAS ?!

                                                                       



        

Mais uma semana que se juntou à anterior. Na Semana Europeia dedicada à Pobreza, suas causas e consequências, acompanhei de perto as iniciativas sob a égide da Rede Europeia Anti-Pobreza, com particular atenção às intervenções do seu presidente, Monsenhor Agostinho Cesário Jardim Moreira, sobretudo no que concerne ao longo percurso geracional para erradicar uma só família desse degradado fosso em que caiu.

E, no mesmo meio comunicacional em que escrevo, terminei os meus considerandos com duas constatações pesadas mas tremendamente concretas, públicas e notórias e, a vários níveis,  perturbadoras. A primeira é a de que nenhum pobre sai da pobreza enquanto estiver passivamente à espera das migalhas que sobram da caridade dos seus exploradores, os magnatas. A segunda, pior, execrável, é a de quando são os pobres a assinar, pelas próprias mãos,  a inexorável sentença de ”miseráveis para sempre”. Assinam o documentam e alegremente entregam-no aos seus próprios carrascos.

É o que mais uma vez se comprova na actual conjuntura das eleições presidenciais da grande Nação Americana. Abstraindo-me da torrente vociferante e peçonhenta do candidato republicano, fixo a minha análise naquilo que enunciei no parágrafo anterior: O maior apoio, o mais maciço, a favor de Trump, provém das classes camponesas, desinformadas, das periferias suburbanas e aldeãs, a que se juntam as religiões, sobretudo as evangélicas. Ao passo que  a população urbana, informada e civilizada, de pensamento aberto e livre, posiciona-se ao lado de Kamela Harris. No primeiro  caso, é o assalto à pobreza bicéfala - a material e a cultural - ao serviço do grande capital, personificado em Trump, maquiavélico, capaz de moer milhares de pobres para fazer um rico, ele mesmo! É o vale tudo. E aí vem o cúmulo da prova: o super-milionário Elon MusK oferece um milhão de dólares por dia ao feliz contemplado que assinar o documento que ele propõe. E os pobres subscritores não vêem ou não sabem o velho ditado: “oferecer um chouriço para depois exigir um porco”. É a degradação do voto e a humilhação do votante.

Quanto à imigração - a bomba nuclear trumpista, que tem vilipendiado e escarnecido à exaustão  os imigrantes radicados nos Estados Unidos – fica o mundo estarrecido ao ouvir as respostas da maior parte desses imigrantes aos jornalistas : “Vamos votar Trump”. Diabolizados e agradecidos! Só na barbárie do Império Romano, em que os pobres condenados às feras desfilavam diante do Imperador, obrigados a dizer: “Morituri te salutant” - Os que vão morrer saúdam-te!

E que diremos nós ao tomarmos conhecimento da última notícia difundida pela comunicação social americana: o mais desenfreado apoiante trumpista, Elon Musk, “entrou ilegalmente nos Estados Unidos”. Foi, portanto, um imigrante ilegal. Fosse Trump o presidente, ele nem punha os pés em solo americano. A imundície de carácter de que é capaz um ser humano! E de que são capazes todos os acéfalos que vão atrás do cheque/milhões que ele sorteia todos os dias antes do 5 de Novembro!

Daqui de longe, faço um único voto:

Que o americano do século XXI dê ao mundo a imagem da sua verdadeira identidade, Democracia, Multiculturalismo, Ambição Maior, a de não correr mais atrás de um fardo de palha, dourado por fora, mas cheio de chumbo, cinismo e corrupção por dentro.

Por outras palavras:

Que o americano do século XXI apague o viscoso cartaz com que, no século XX, um escritor de renome titulou o seu livro: “América, Um País de Carneiros”!

Que seja um Natal Global o 5 de Novembro de 2024 !!!

 

21-31.Out.24

Martins Júnior

domingo, 20 de outubro de 2024

UMA SEMANA DE SEIS DIAS PARA UMA POBREZA DE MILÉNIOS !!!

                                                                           


 

          Foi uma semana de seis dias para albergar uma caterva interminável de milénios, os  vencidos e os vincendos: do passado, do presente e do futuro. Trazem na fronte esquálida e no traje andrajoso a marca da sua indisfarçável  identidade: os pobres. Em cena mais restrita esteve a Rede Europeia Anti-Pobreza, mas na rede vieram todos os guetos, cantos e recantos de todo o mundo, com maior espanto os que vivem connosco, à nossa beira, dentro e fora de cada um de nós.

                     Habituados e placidamente ancorados ao cais da nossa comunicação social - dominada pela minoria governante que se ufana de representar a absoluta maioria dos governados – ficamos em sobressalto quando as estatísticas nos vêm informar (e sacudir!) que as Pérolas Atlânticas, Açores e Madeira, vão nuas, despromovidas e, em vez dos propagandeados anúncios   de prostituta fina (como lhe chamou um dia o seu autocognominado ‘dono’ quase vitalício) afinal andamos nós, madeirenses, com 20.000 pobres às costas, todos os dias. E por ficarem nas nossas costas nem damos por eles ou nem sentimos o peso que carregamos.

                     Da avalanche noticiosa quotidiana, o som e o tom que nos chegam é o de que somos a nota máxima das Região Insulares turísticas  do mundo, a melhor rede cibernética dos media, a maior cobertura eléctrica, a mais rica  em termos aquíferos, o melhor clima, a mais vasta Laurissilva, a mais avançada assistência médica, o maior porto de  cruzeiros, o mais ‘genuíno’ carnaval carioca, a mais excêntrica Festa da Flor e – cereja cruzada em cima do bolo laranja-azul cerúleo – o melhor futebolista do planeta! Em tudo e arredores, somos os maiores e os melhores. E, para acabar com qualquer ruído adverso, a banda arrasa-o, ‘com brio e independência’, rufando até à surdez: A Economia cresce!

                     É aqui que entra - e remexe o lixo do palácio publicitário ilhéu – a denúncia feita em plena capital madeirense pelo presidente nacional da Rede Europeia Anti-Pobreza, Monsenhor Agostinho Cesário Jardim Moreira: “Apregoam que o crescimento económico está em alta, mas esse crescimento não chega às pessoas”.

                     Conheço suficientemente a personalidade e o pensamento de Jardim Moreira, a sua frontalidade positiva e construtiva, desde o dia em que o vi discursar em dia emblemático, 10 de Dezembro de 2010, aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos,  no salão nobre da Assembleia da República, perante ministros e deputados, onde sinalizou em termos vigorosos a trajectória e consequente estratégia para a erradicação da pobreza: “Sabendo-se que são necessárias cinco gerações para que uma família estigmatizada pela poreza saia dessa condição, não bastam políticas assistencialistas ou intervenções cirúrgicas sazonais. O que se reclama é uma estratégia de futuro, assente no corpus legislativo que sai desta Casa e rigorosamente aplicado pelo poder executivo”.

                     E aqui na Madeira, nesta Semana Anti-Pobreza, ousou mapear o caminho para a luta dos Direitos Humanos, nesta área social, impantando como indicador primeiro e último a seguinte  predisposição: “É preciso muita humildade para ver a Verdade e agir em conformidade”. Isto dito, no salão nobre da Assembleia Legislativa Regional, face a face de Presidentes, Deputados. Secretários e as chamadas forças vivas da governação.

                     “Não é vergonha ser pobre”, cantou a nossa imortal Amália, E eu acresento: pobre, sem culpa. Mas vergonha maior não há e mais desumana que normalizar assimetrias gritantes, estrangular mil almas para fazer um rico, deixar passar a céu-aberto o fétido esgoto da corrupção, abrir as comportas ao crime organizado nas off-shores em território incógnito.      

                     Pode o Papa enviar cartas a Deus e à sua Justiça, mas os tribunais divinos não têm sucursais neste mundo. Podem as instâncias caritativas matar a fome de um dia ou de uma geração, mas com isso não tiram da pobreza uma única família. É preciso mais. É preciso que os pobres atirem borda-fora as migalhas que caem da mesa dos ricos e, em vez disso, lutar, votar contra os arvorados benfeitores de circunstância. É  preciso ouvir e agir conforme o veredicto de Vinicius de Morais, no Operário Em Construção.

                     É caso para lançar outro pregão: Pobres de Todo o Mundo, UNI-VOS”.

                     Os Impérios também caem. Como caíram o Império Romano, o Império Britânico, o Império Português. E como esperamos ver frito e condenado a pagar aos vassalos o ‘inabalável’ Império dos Salgados Santos Espíritos!

sexta-feira, 11 de outubro de 2024

DO FIM DO MUNDO NASCE O SOL PARA A EUROPA: MENSAGENS DO PRÉMIO NOBEL

                                                                        


Conforme o decidido nesta página de convívio total, trago hoje mais um lampejo de positividade e optimismo, que a Academia de Oslo deu a conhecer ao mundo, ontem e hoje: a atribuição do Nobel de Literatura à escritora sul-coreana Han Kang e o Nobel da Paz à colectividade japonesa Nohan Idankyo.

“Do fim do mundo” – foi a expressão timbrada pelo pacifista Jorge Bergoglio, hoje Papa Francisco, quando este, em 2013,  foi votado para  Supremo Pontífice da Igreja Católica e Chefe do Estado do Vaticano: “Foram buscar-me ao fim do mundo”. Pois, de mais longe, a extremo-nórdica europeia, a Suécia, foi buscar o sol ao extremo oriente asiático: Japão e Coreia do Sul.

Não é de um olhar superficial, anual e rotineiro, a outorga destes dois  Prémio Nobel/2024.

Na Literatura exalta-se a Mulher criativa e assertiva, ela é a 18ª Mulher, entre os 117 laureados, todos homens, desde a atribuição deste troféu. Acresce o espírito universalista do júri que ultrapassou as ‘vitalícias’ fronteiras dos hegemónicos monopólios autocognominados de  culturais e navegou até aos mares do Pacífico para daí extrair e fazer brilhar as pérolas escondidas nas recônditas pregas do tempo e do lugar. Por fim, ressalta com redobrado vigor a activista e denunciante da ditadura sul-coreana que, em 1980, mandou carregar barbaramente sobre os estudantes contestatários do regime. Os livros de Han Kang, traduzidos nas edições ‘D. Quixote’ – Atos Humanos, Vegetariana, entre outros – revelam o talento de quem sabe transmitir uma mensagem libertadora numa linguagem poética, contagiante e persuasiva.

                                                    


A Paz – o pão que a humanidade mais anseia porque  o não tem – onde foi buscá-la o júri do norte europeu? Não aos parlamentos ditos pacifistas, não aos areópagos das organizações mundiais nem aos arcanos dos templos de votos pios. Foi mais longe e mais fundo: aos cemitérios longínquos dos territórios nipónicos, onde estão sepultados, mirrados, pulverizados os cadáveres de milhares de seres humanos, vítimas da bomba atómica que os americanos fizeram explodir em 1945. Precisamente à ‘Nahon Hidankyo’ - uma organização constituída em 1956 pelas vítimas sobreviventes da criminosa tragédia de Nagazaky e Hiroshima.

Mais que qualquer discurso, tratado político ou proclamação ou oração pontifícia, falará mais alto este pregão silencioso, mas  omnissonante, do Prémio Nobel, qual glorioso Grito do Ipiranga global, a avisar esses fantasmas russo-norcoreano, iraniano e hipotéticos conspiradores do nuclear que, perante a barbárie de Nagazaky e Hiroshima (some-se-lhes Chernobil) não passam de loucos à solta num mundo que não é deles.

Parabéns à Academia Sueca pelo testemunho de coragem, de humanismo, dado aos inquilinos efémeros do Planeta.

Apraz-me, com sentida emoção, reproduzir agora em 2024 a canção que em 1986 os jovens da Ribeira Seca cantaram e coreografaram e, mais tarde, gravaram no CD: Machico, Terra de Abril”:

No chão onde houver baionetas,

Sombra ou sinal de canhão

Vamos plantar violetas

Cravos rosas em botão

 

Nagazaky, Hiroshima,

Chernobil e nuclear

Sempre a rebate e acima

Vamos os sinos tocar

 

            11.Out.24

            Martins Júnior