sexta-feira, 7 de agosto de 2015

HIROSHIMA, MEU HORROR – “HIROSHIMA, MEU AMOR” (1945-2015)




“No chão onde houver baionetas
Sombra ou sinal de canhão
Vamos plantar violetas
Cravos, rosas em botão”

Sei bem que  nesta descontraída estação gostamos de ver e  desenhar o sol na areia que a espuma breve  leva e já não traz.. Gostamos de ler versos escritos  em cima da água das “levadas” que contornam o nosso dia-a-dia. Preferimos (mais claramente) assuntos ligeiros, se possível hilariantes, sobre a última ocorrência da tarde, à espera da próxima notícia da manhã seguinte. Mas…há sempre alguém que não se contenta com os fogos-fátuos dos arraiais de  verão, alguém com a sensibilidade à flor da pele e por onde circulam as rodas dentadas da máquina da história.  Esse alguém é  a minha amiga,  é o meu amigo que me fazem companhia à mesa vespertina do SENSO&CONSENSO.
Quero dizer-vos que,  desde o dia de ontem,  continuo invisual e atónito com “aquele clarão, mais brilhante que mil sóis, a que se seguiu uma ventania ciclónica e a formação de um cogumelo de nuvens carregadas de partículas radioactivas, em cuja explosão desintegraram-se pessoas, objectos, edifícios” (Robert Yungk, testemunha ocular).   Foram 70.000 as vítimas instantâneas, seguidas de mais 35.000 na cidade vizinha. Já adivinhastes, certamente, que evoco nesta hora a tragédia de Hiroshima e Nagazaki, de  6 e 9 de Agosto de 1945. A roda dentada da memória passa por aqui e não deixa ninguém indiferente. Setenta anos se passaram, mas a bomba atómica lançada sobre Hiroshima  pelo   “Enola B-29”  (nome com que maquiavelicamente o piloto assassino Paul Tibbets o baptizou, em homenagem à própria mãe!!!) ainda hoje explode em cima das nossas cabeças, apesar do silêncio estratégico dos americanos nesta bárbara efeméride.
Particularmente no lugar de onde escrevo, é incontornável esta data, pois que em 1985 aqui, no palco  aberto da Ribeira Seca, comemoraram-se os 50 anos sobre o crudelíssimo atentado e aí deixámos em verso e canto (como assinalei no início)  e respectiva coreografia uma sentida homenagem às vítimas e um veemente protesto à mortífera  potência agressora. Tanto mais veemente quanto --- soube-se mais tarde --- uma das causas associadas  a tal decisão foi a desenfreada veleidade do presidente Truman  em demonstrar aos soviéticos que os EUA já tinham descoberto a arma mais poderosa do mundo, a bomba atómica.
Bem desejaria  eu reproduzir aqui  as tremendas e palpitantes páginas d’Os Sinos de Nagasaki, legado perpétuo de Paulo Nagai, médico e vítima do vendaval radioactivo que marcou gerações. Deixo à vossa sensibilidade essa busca imperativa. Por hoje, no meio do turbilhão de emoções que tal genocídio me faz recordar em cada ano, respigo dois pensamentos:
O primeiro vou exprimi-lo,  transcrevendo o desespero de Kenneth Bainbridge, ele próprio director do teste da bomba experimental em Almogordo,  Novo México,  em 16 de Julho anterior:  “Agora vejo que somos todos uns filhos da…” (com todas as letras).  E disse-o na cara do cientista norte-americano Robert Oppenheimer, responsável executivo do execrável Projecto Manhattan, ao constatar os horrorosos efeitos do teste.
O segundo, remeto-o para as evidências que todos os dias abrem e fecham os noticiários --- robots, vírus, ADN --- e de que a imprensa especializada hoje nos dá conta: Noel Sarkey, informático, especialista em inteligência artificial  e robótica, alerta o mundo para as ameaças das armas autónomas e dos robots-assassinos. Michele Mosca, matemático, avisa do perigo iminente dos ciber ataques. Médicos, biólogos, especialistas do genoma humano, previnem os investigadores para que, sem prejuízo da pesquisa científica, não ultrapassem as linhas vermelhas que levam aos perniciosos abusos sobre a espécie humana.
Com mais ou menos requinte, alinham-se na mesma fila outros tantos destruidores de uma vida, de milhões, de biliões de vidas, esses monstros impunes, cujas cabeças  emergem ainda hoje do pútrido pântano que criaram. Foi pensando neles que  Pierre Accoce e Pierre Rentchnick   escreveram o curioso volume  “Estes Doentes que nos governam”. Eles andam por aí, talvez à nossa beira. A bomba caída em  Hiroshima navega no oceano da história contemporânea e traz até nós as ondas da prepotência dos mais fortes sobre os mais fracos, dos todo-ricos sobre os todo-pobres, dos que governam a bel-prazer do amiguismo ou das antipatias pessoais. E estou a lembrar-me de quem. desde o Funchal,  quis esganar Machico em tempos idos, para depois ser esganado por Lisboa e agora vir Lisboa, de novo,  lamber os tutanos ao Funchal. Lembro-me também da violência doméstica, lembro-me das guerras de género…
Enfim, há sempre uma bomba de Hiroshima à nossa espera. Basta adormecermos  ou deixarmo-nos  anestesiar. Por isso, é útil tocar o alarme de 6 a 9 de Agosto de 1945. Por isso, tal como em 1985,  traduzimos hoje  o grito de alerta  na citada canção:
                                     
Nagasaki. Hiroshima,
Chernobil e nuclear
Sempre a rebate e acima
Vamos os sinos tocar
             *
Bate o sino pequenino
A canção de terra em terra
Venham jovens pela Vida
Pela Paz e contra a guerra

7.Ago.2015
Martins Júnior



quarta-feira, 5 de agosto de 2015

CARAS, CUNHO E CARÁCTER


É, sem dúvida, o primeiro passaporte da pessoa. E, paradoxalmente, deve ser o último a ser usado, seja pelo portador, seja pelo observador. Ajuizar alguém por “um palmo de cara”  é o que de mais falacioso se pode fazer. No entanto, cada qual maneja o argumento conforme a cor do próprio olhar. E assim surgem as expressões “Tá na cara”, é “de caras”, é um “sem-cara” , "duas-caras" e ainda "cara-de-pau", "cara-de-feijão-frade" o que tudo resumido significa o carácter e o cunho identitário  de quem está na berlinda do apreço público. Mantenho, pois, a convicção de que classificar o carácter de alguém, além de sair falacioso, torna-se terrivelmente perigoso.
No entanto, hoje vou embarcar nessa nau. Vou fazê-lo por um imperativo de cidadania face à grosseira e apoucada visão do timoneiro, ou dos timoneiros,  da nau governativa deste país, quando sentenciaram, alto e bom som: “Vejam quem agora se apresenta para governar. Os mesmos de 2011, os que foram derrotados, os que levaram o país à bancarrota. Nem sequer tiveram o cuidado de mudar as caras”.
Era o último argumento que se esperava da boca de  quem, em plena campanha eleitoral, afirmara: “Nós nunca recorreremos aos erros da  governação anterior para justificar as nossas posições e as nossas decisões”. Mas, bem pior que isso, é quem  recorre ao carácter do adversário para fazer valer a hegemonia própria. Porque nessa altura --- e aí está o perigo --- pode voltar-se o feitiço contra o feiticeiro. E é aqui que urge levantar a voz para evitar a esclerose múltipla com que a actual coligação pretende apodrecer a racionalidade dos portugueses.
Correndo o risco de repetir os juízos comuns a tantos observadores e, sobretudo, evidentes na praça pública, alguém se lembra  da “cara” que, em Abril e Maio de 2011, respondeu a um vulgar cidadão que a interpelou sobre o corte de salários, pensões, subsídios: “Nada disso, nunca. Isso é o medo que vos querem meter os nossos adversários. Jamais faremos isso”?! E lembram-se também da “cara” que fez precisamente o contrário, logo que chegou ao poder?... Lembram-se da “cara”, a mesma, que  agora promete enriquecer o país, com a devolução de IRS aos contribuintes? Façam as contas e  digam lá se “qualquer semelhança é apenas pura coincidência”. Recuso-me a acreditar que o país tenha cegado completamente e perdido a razão, ou viva numa paranóica amnésia colectiva.
A outra “cara” ainda mais cara se afigura, na sua grotesca desfaçatez. Lembram-se daquele trapezista de circo feirante que, para “subir às costas” do irmão siamês, esticou-lhe o pescoço e esganiçou a mais não poder: ”Vou largar-te de vez. É absolutamente  IRREVOGÁVEL  o que te digo”. E daí a oito dias, com um salto de coelho bravo, lá trepou as costas do “coelho manso”.  E o que era “irre” ficou “re”, o que era “sim” ficou “não”, o que era verdade virou mentira, o que parecia  feio e sujo passou a bonito e limpo. O que era “cara” ficou “sem-cara”. Enfim, estranha lavagem de caras sujas! 
E viu-se um  país suspenso, paralisado,  internacionalmente ridicularizado, ainda por cima  com um  Presidente estremunhado de sono falso, a suturar outra vez os restos das “caras” dos siameses que hoje se apresentam no topo, orgulhosos e inconscientes, como se nada tivesse acontecido.
De que “caras” está a falar esta gente “sem-cara”? Sem carácter. Sem cunho. Sem identidade fiável.

Sei que este não é o melhor aperitivo para os dias mornos de verão. Mas é meu dever alertar e publicamente bradar que, enquanto o Povo dorme  ao relento macio das praias, os noctívagos “sem-cara” destas noites tropicais andam  pelos gabinetes “tratando da saúde”, do dinheiro, da mente, enfim, da cara dos portugueses.
Martins Júnior

06.Ago.2015

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

TODOS OS ANOS, MACHICO NA ALVORADA DE AGOSTO

Dias jocosos e felizes estes com que Machico  recebe o mês de Agosto  desde há 30 anos!
Na primeira semana do mês oitavo e apesar da mais desencontrada diversidade de programas lúdicos, folclóricos, metalizados, distribuídos por toda a ilha, Machico, Pórtico das Descobertas, torna-se nesta data a mais ampla encruzilhada onde todos os caminhos se cruzam e todos os corações se encontram. Nesta rosa aberta dos ventos estivais, Machico vai na proa, repetindo aquele refrão que comandou as Festas de um  Verão diferente,  em 1982.
Se alguma vez a verbalização semântica se abraça com a factualidade ou se, por outras palavras, a ficção se enlaça na realidade, é exactamente --- perdoem-me a ambição patriótica --- o meridiano que se pode resumir neste título:  O Dia Ímpar na Terra Ímpar. Por isso que dedico a crónica do dia 3 de Agosto a esse evento que, sendo igual, torna-o diferente de todos os outros: A SEMANA GASTRONÓMICA DE MACHICO.
Primeiro, porque foi pioneira nesta Região,   iniciada em Agosto de 1985. Todas as outras “semanas ou fins de semana gastronómicos” vieram a reboque. Segundo, pela imensa largueza espalmada desde o Cais do Desembarcadouro até à Praia de São Roque, um anfiteatro  plano, iodado pela brisa do baía de linha contínua  (infelizmente não tanto como outrora, devido às intersecções que lhe introduziram) mas mesmo assim a lembrar-me,, em miniatura, a monumental baía de Luanda. Enfim, espaços largos, sem becos nem pregas, que bem se os pode classificar de espaços da liberdade franca, onde os convívios familiares à roda das mesas, pais e filhos, levam-nos a imaginar que toda a zona ribeirinha de Machico se transformou no Congresso aberto da família madeirense e não só.  Num terceiro retoque, tão original quanto civilizador, o cuidado impecável da organização nas diversas tendas dos restaurantes e bares, nos preçários e nos horários,  de modo que não há lugar para cenas degradantes, fruto de excessos estranhos ao ambiente. Finalmente, a selecção musical de 2015, predominantemente extensiva a todos os gostos, sem a preocupação das “bombas” publicitárias de artistas pimba. Sirva de exemplo a abertura das festas com o sempre inigualável Júlio Pereira e seus cordofones, um espectáculo memorável, para mim intensamente emotivo, recordando-me da sua primeira vinda à Madeira, a convite da festa da Ribeira Seca, em 1982, o  momento inicial de  uma amizade que nesta semana se reencontrou aqui. Além de João Pedro Pais, a mensagem da mais fina inspiração, colada ao mais íntimo da alma humana, de Jorge Fernando, o criador do melhor que cantam os nossos consagrados fadistas.  A participação de grupos locais, oriundos de todo o concelho, faz desta iniciativa, aparentemente gastronómica, a corporização daquele sonho que se chama o consenso dos povos, na identidade das suas diferenças e na simbiose das suas coincidências.
Se a organização me permitisse, deixaria aqui uma sugestão: para coroar a síntese lúdico-cultural do grande evento: criar um espaço às artes onde os muitos criativos locais exporiam ao vivo a expressão do seu talento, à semelhança do que fez a Junta no Dia da Freguesia, 2 de Julho.
Um reparo final (sei que vou estragar a ambiência quase poética do escrito)  mas entendo dever fazê-lo, face ao estilo de reportagem, irritante porque  estafado, em que o repórter dos arraiais costuma  fazer aos comerciantes a mesma prosaica  pergunta: “como vai o negócio, melhor ou pior que no ano passado”? Embora feita também por eles, esta Semana não se deve aquilatar apenas  pela “caixa” das barraqueiros  presentes. Vai muito mais além: fica no pódio do melhor que a convivialidade humana é capaz de produzir.
Parabéns à Organização. E faço-o, com pleno conhecimento dos esforços expendidos,  tendo em conta  que  também me coube tal tarefa nos oito anos consecutivos à frente do Município, entre 1990-1997.

3.Ago.2015

Martins Júnior   

sexta-feira, 31 de julho de 2015

QUANDO O “ASSASSINO” CHORA NO FUNERAL DA VÍTIMA

Centrado na paisagem do calendário, falei ontem  da estranha coincidência entre as férias relaxantes do Povo e  as manobras calculadas dos estrategas da sociedade. E decidi hoje voltar à mesma janela, porque cheguei à conclusão de que nunca, como agora em 2015, foram as férias tão fantasistas,  falaciosas e fatalistas. Usei a mesma consoante inicial para aproximá-las daquela trilogia tão sobejamente conhecida quanto deprimente para a classificação mental de uma população: Futebol, Fátima e Fado, as drogas com que se anestesiam  as multidões, sobretudo nestas férias. Férias fantasistas com os chutos que nos traz todos os dias a comunicação social, seja o futebol, o mercado de compra e venda de jogadores, o golfe, o rali e tudo o mais. Férias falaciosas em que, a pretexto da fé, os peregrinos multiplicam os percursos do turismo religioso para Fátima, na preparação do solene  13 de Outubro. E férias fatalistas com o nosso Fado choradinho, resignado, curtido de portas adentro. Este último “F” está a cargo dos actuais governantes. Querem saber como?
Pois bem, já mostrei anteriormente quanto detesto aquela encenação hierática, imponente e fria com que das suas majestosas cátedras os donos das nações accionam  guerras  e lançam incendiárias bombas sobre vítimas inocentes. Hoje,  mais veemente é a minha indignação perante uma outra maquiavélica  manobra  dos que durante quatro anos secaram as veias do Povo  com a mais sádica  impiedade  e agora vêm oferecer o ombro aos miseráveis que criaram. Parafraseando a velha canção “Encosta a tua cabecinha no meu ombro e chora”,  vêm agora os carrascos passar a mão ao pelo, verter lágrimas de dinossauro: “Nós sabemos quanto os portugueses sofreram, é verdade que lhes impusemos duros sacrifícios, mas eles compreenderam, aceitaram de bom grado os cortes, as emigrações (“ocasião de novas descobertas no estrangeiro”) o desemprego (“um pretexto para novas oportunidades”), enfim, ninguém mais do que nós sofre as dificuldades dos nossos compatriotas…mas agora tudo vai mudar… os portugueses sabem que valeu a pena”… Enoja-me este discurso prenhe de hipocrisia democrata-cristã, seja em Coelhos ou Portas, mas sobretudo no feminíssimo exemplar de super-ministras, Assunção Cristas, que deitou da boca  para o chão e repetiu até à náusea estas postas de fígado mal cheiroso, na última entrevista à RTP1. Ninguém duvide: será este o segundo “round” da táctica da coligação: anestesiar os incautos, os ingénuos, os indecisos. Fazem que já não se lembram do pão e do leite que roubaram à boca das crianças… esquecem-se  da casa que muitos tiveram de entregar ao banco… das famílias da classe média que obrigaram a estender a mão à caridade pública… dos corações cortados de dor naqueles que nos aeroportos tiveram de separar-se dos filhos , enfim, das bastonadas nas costas de quem gritava o seu drama frente à Assembleia da República… E agora vêm fazer que enxugam as lágrimas do Povo --- pedindo-lhe  mais força para fazer o mesmo depois do 4 de Outubro. Ao vê-los só me ocorre aquela cena dos filmes da Máfia em que o assassino, fato preto e grandes óculos escuros,  se posiciona  logo atrás da vítima a quem matou.  
Tenham um pingo de vergonha, já que o não têm de dignidade!
Toda a razão tinha Francisco Moita Flores, correlegionário do PSD, em atribuir recentemente a Passos Coelho o (des)qualificativo atributo de “cínico”.
Da minha parte, entendo que é meu dever alertar os cidadãos --- também o sou --- para que não deixem embotar a sua sensibilidade e reajam energicamente quando essas múmias de naftalina (serventuários  e beneficiários  dos imperadores do dinheiro, sem dó)  depois de terem subscrito “o Povo aguenta, lá isso aguenta, aguenta mais”,  oferecem agora lenços e lençóis de enxugar o pranto. Afastemos definitivamente  essa raça de “padres da Inquisição” que rezavam preces e cantavam ofícios em redor dos condenados  que eles próprios mandaram para a fogueira!

Provemos que ainda temos Memória!

31.Jul.2015/1.Ago.2015
Martins Júnior   

quinta-feira, 30 de julho de 2015

É NAS FÉRIAS DO POVO, QUE OS ABUTRES ESTÃO MAIS ATENTOS E VIGILANTES!


Sei bem que em tempo de férias,  a leitura também as tira. O que quer dizer que o “SENSO&CONSENSO” também devia ir de férias, para bem de quem lê e, sobretudo, de quem escreve. No entanto, é nos bastidores do lazer que se tramam as armadilhas  e os cordelinhos que fazem do povo um desfile acéfalo  de marionetes. O trunfo dos manipuladores das nações e a sua sorte estão no sono do Povo, na inércia que o faz gozar endémicas férias sociais, culturais e políticas. Por isso, “senso e consenso” é o que sempre faz falta em férias e fora delas.
E porque, quer de inverno quer de verão, as pulsões da sociedade não param, permitam-me trazer hoje à mesa vespertina determinados cenários que se nos deparam em qualquer estação do ano nas ribaltas da comunicação social:
Um salão iluminado,  passadeira vermelha que dá acesso a exóticas carpetes orientais,  dois microfones, um friso de bandeiras multicolores, dois ou quatro “gendarmes-gorilas” perfilados na rectaguarda e logo entram em cena os majestosos títeres, solenes, feições enigmáticas, quase de extra-terrestres, com a palidez fria dos assassinos profissionais --- estou a ver a lunática  serenidade de Bush na TV,  em 2003, duas palavras, carrega no botão e logo os caças aéreos americanos  enchem de pavorosos clarões bombardeando Bagdad --- e, nesses “salões dourados”, dizia eu, assinam  desacordos disfarçados de acordos, accionam  máquinas mortíferas, arrasam corpos e nações. Eles são os El Assad, os Erdogan, os Putin, como eram os Hitler, os Estaline, os Aiatolá, os Jihadistas. Aquelas passadeiras vermelhas são o sangue empapado das fardas dos caídos em combate; aquelas vistosas gravatas são braços e pernas dos mutilados pelas minas; aqueles microfones mais não são que metralhadoras, canhões sem recuo com infalível efeito a milhares de quilómetros de distância. Tudo feito “salas ovais”, ricamente decoradas, aonde só eles, seguros e fleugmáticos, têm acesso.
 Quantas vezes, na zona militar norte de Moçambique, confidenciávamos à boca pequena: estamos aqui deprimidos, andam por aí esses desgraçados soldados tremendo sob as emboscadas e armadilhas, uns mortos, outros estropiados para toda a vida … e os senhores da guerra, lá  na capital do Império, trocando taças de champanhe, adulando o intocável estratega Salazar, nos salões de São Bento! Horrorizava-nos ver  os comandantes de batalhão, os brigadeiros, os generais, carregados de medalhas: “Quantos mortos e quantos paralíticos custou cada uma dessas comendas que orgulhosamente ostentam ao peito. Deviam era envergonhar-se delas” --- comentávamos entre oficiais milicianos e furriéis.
Mas hoje os descendentes da cruz gamada já não precisam de recorrer às armas ou aos fornos crematórios, basta-lhes a moeda, o euro, o empréstimo de milhares aos países pobres para de lá  sangrarem  milhões. E o FMI. E o BCE. E os offshores! Tudo caldeado e solenemente aprovado nas grandes salas e salões do poder. E o Povo não vê nem aponta. Dorme, está de férias…

E no nosso Portugal: os cortes nos salários, o desamparo total de milhares de desempregados, os condenados à emigração, a redução das pensões, as amputações na saúde, no ensino, o fecho economicista das escolas. Tudo feito nos gabinetes sinistros do Conselho de Ministros, ricamente alcatifados e na tribuna do parlamento, ali bem recachados, anémicos de alma, insensíveis cortadores de carne humana. Só me fazem  lembrar uma aula de Medicina Legal a que assisti com outros alunos, em Coimbra, a imagem que me ficou do médico legista responsável pela autópsia do cadáver na lousa fria: mandava o funcionário tirar o coração e pesar na balança, tomava nota, depois o fígado, depois os pulmões, tudo somado em gramas no boletim que friamente segurava nas mãos. Havia alunos, sobretudo as raparigas, que não aguentavam e tinham de abandonar a aula.
Todos esses sinistros ministros, sangradores do país, comparo-os  ao tal Professor médico, mas com uma diferença: é que enquanto o docente autopsiava mortos, estes homens e mulheres dos salões ministeriais fazem autópsia a corpos vivos, cortam almas e corações e famílias. Eles e elas, insensíveis, com um jantar de gala à espera. E o Povo a dormir, sempre de férias…
Pior: o zé-povinho madeirense de laranja rolante, esquentado pelo calor e pela poncha do Chão da Lagoa, a aplaudir e a abraçar quem  fez a promessa  pré-eleitoral de não cortar pensões ou subsídios de natal e acabou por levar couro e cabelo aos portugueses, mandou empobrecer e emigrar, a esses madeirenses  dormentes,  pobres marionetes afectados de alzheimer profundo. Mais me custou a bobagem do novel presidente da Madeira, feito manequim nas mãos de um tal Coelho… Ao ver tais cenas, tive vergonha de ser madeirense!
E, pelos vistos, vão pedir mais do mesmo. Vão despir a camisa para atapetar os corredores de São Bento, vão extrair da veia sangue ilhéu  para a caneta de tinta permanente com que o ainda-Primeiro vá assinar “decretos da fome”, como diziam e protestavam  os nossos antanhos da Revolta da Madeira em 1931 contra as leis monopolistas da República fascista de Salazar.  E eles sabem que é agora a hora da anestesia do Povo, enquanto duram as férias até Outubro chegar.
Perante tudo isto, o SENSO hoje deixou de ser CONSENSO, porque não dorme, não vai de férias hibernais em pleno verão. Porque está atento, para não perder o siso e o senso.

29.Jul.2015
Martins Júnior
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Embora escrito em dia ímpar, só hoje, dia par, sai esta missiva, por motivos de falência técnica ontem ocorrida. O meu pedido de desculpas. 

segunda-feira, 27 de julho de 2015

PEQUENAS-GRANDES GALAS MUSICAIS

Foi de uma enternecedora emoção que, ao abrir do dia, levantei o auscultador e, do outro lado, da linha: “É por uma boa notícia que o incomodo logo de manhã. A Carolina ganhou   o Prémio Internacional dos Pequenos Cantores, realizado ontem na Figueira da Foz, com a canção “Ginasticar”, interpretada pela pequena Beatriz”.
Era o meu amigo Victor Caíres a descrever-me o incontido júbilo de pai ”mimado”  perante a distinção maior “arrebatada” pela música de sua filha..
A propósito deste pódio internacional, tem-me perseguido e galvanizado durante todo o dia, uma descoberta idêntica ao de  EF Schumacher, em The Small is beautiful. E porquê? Em primeiro lugar, pela simplicidade do tema “Ginasticar”; depois,  pelo sortilégio desta conjuntura: a autora, embora já com provas dadas,   não pertence à galeria oficial,  protegida, estereotipada, dos profissionais da composição. Pelo contrário, a sua música nasce  do olhar dos seus  doentes, das compressas e seringas com que lhes injecta renovada esperança de vida, enfim, nasce à beira de corpos gementes e almas doloridas. Quem havia de imaginar que das mãos de uma profissional de enfermagem saísse tanta energia, tanta beleza, tanta magia de transformar o sofrimento circundante em melodias de sonho. A Carolina pertence àquela estirpe da ciência médica  que usa a música no tratamento de certas patologias.
Devo dizer quanto me dói e quanto detesto certo figurino de concursos televisivos em que as crianças entram  em pleno e saem em pranto,  traumatizadas,  por vezes,  enxovalhadas pelos doutorais juízes que tratam petizes de palmo e meio como concorrentes de arena adulta. E em proporção geométrica, quanto me confortam e deliciam os espectáculos soltos, em que as crianças entram leves como pássaros e saem do palco felizes, aplaudidas, mesmo que a sua prestação nem sempre seja  a desejável.
Incluo neste elenco, as audições didácticas, as efemérides tradicionais do Dia da Mãe, do Ambiente, de final de ano escolar. E das festas tradicionais de cada localidade. Não é só nos concursos da grande ribalta que se mostram vozes dotadas, acima da média.  Nem de propósito! Ocorreu ontem, na Festa da Ribeira Seca, mais um episódio da  “Descoberta de Talentos”,  protagonizado por  quase-anónimos intérpretes da zona, sob iniciativa  da rádio local. Fiquei extasiado com o timbre, a afinação, a segura interpretação de vozes caídas dos altos montes e cristalizadas como jóias  no coração do vale!  Gente que mora à nossa beira, crianças e jovens que,  se lhes dessem oportunidade de ir mais longe,  em nada desdiriam daquelas que passam e repassam nas estafadas manhãs da nossa rádio. E o que mais admiro e não me canso de exaltar é a acção persistente de quem, nas escolas,  nos ajuntamentos ou grupos corais, nas igrejas, nos meios mais recônditos, sem dar nas vistas, teima em descobrir talentos e valores que, certamente, não serão cortejados pelas televisões e demais órgãos de informação. Falo não só da Ribeira Seca, mas de muitos outros movimentos afins que,  humilde mas decididamente,  sem o mínimo apoio institucional (e nem falo de dinheiro)  cumprem um tão nobre serviço público de valorização das comunidades. Chega-me, no entanto, a notícia de uma intérprete, voz poderosa, nada e criada no nosso  meio e que, agora, terá recolhido promissoras indicações no casting do programa “The Voice”.
Será recriminável que se fechem escolas, sementes de valores culturais e, daí, peças vitais para a construção do monumento fértil que é a população rural. Recriminável, também, que se olhe apenas para o sector profissionalizado (escandaloso, o sorvedoiro do futebol) deixando na valeta do mundo vocações natas para as artes e para as ciências. As recentes vitórias  concursais  de alunos madeirenses, a nível nacional,  nas áreas da matemática, da biologia, da música,  esclarecem e clamam pelo seu lugar ao sol, sem preconceitos opcionais de índole política e provinciana. Outro nome não terá senão o de assassínio humano o desprezo a que são votadas certas franjas da periferia madeirense.
Nunca se sabe o que de grandioso estará  encoberto sob os crepes tímidos  e frágeis que escapam à “nomenclatura” oficial. Em qualquer profissão e no mais humilde lugarejo, escondem-se talentos à espera de ver a luz do dia. Voltando  a Fernando  Pessoa: “Em quantas mansardas e não mansardas do mundo/Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?”
É preciso fazer sair das mansardas talentos e génios encobertos pela névoa opaca da mediocridade reinante.
Parabéns à pequena Beatriz
Parabéns à Carolina que, com a saúde do espírito, a música, faz regressar à vida os que mergulham nas cisternas da depressão!   
Parabéns e força a todos quantos entregam a vida para que outros a tenham!

27.Jul.2015

Martins Júnior

sábado, 25 de julho de 2015

AO NOSSO “COMODORO” FRANCISCO JOSÉ


Foi um encontro de amigos, sem protocolo nem guardanapo, como compete à “Malta do calhau”, mais vivida que fundada em jantar histórico de 24 de Julho de 1966. Cinquenta anos a navegar... De todos nos recordamos:  o  Comandante Afonso Coelho, sósia de Heminguay, muitos nautas que já lá foram, mas com maior emoção o nosso “Comodoro” Professor Francisco José, cuja esposa, filhos e netas, estiveram connosco na caldeirada de outrora do calhau de São Lázaro, Funchal, agora comemorada no Club Naval.  Deixo aqui reproduzida a saudação que então dediquei ao saudoso Francisco José, situando-o no seu habitat natural, acompanhado pelas muitas embarcações , sinalizadas em aspas no texto.



Onde houver uma nesga de azul marinho
Há sempre um marinheiro
E dentro dele um Comodoro
E onde  houver um veleiro
Ou bem perto ou mais distante
Há sempre um mareante
De coração-astrolábio
Lobo do mar,
Rude mas sábio
Em demanda de outra ilha mais além

Bem te assentam as dragonas
De brilhante Comodoro:
Trouxeste ao colo
Gerações de cadetes  apaixonados do mar
Foste pai e foste mãe dessa antiga juventude
Que contigo aprendeu
A viver em plenitude

Conheceste a força do “Tufão”
Andaste na crista do “Vendaval”
Mas  trazias a canção
De uma “Maré” matinal
Onde a “Brisa” e  a “Calma”
 Serenavam corpo e alma
De toda a tripulação

A bombordo e estibordo
Cruzaste “Maria Ângela”, “Simbad”  e “ Magalí”
 “Atlântida”, “Açor” e “Tainha”
Uns já longe, outros aqui.
Sentiste a aventura e o bisturi
Naquele velho Albatroz
Madre-nau e berço –mestre
De todos nós
E, por todos, abraçando
Viste dar à costa  gargalhadas mil
Da afonsina “Susangil”.

Partiste na linha do horizonte
E como o mar é redondo
Ficamos à tua espera
Esta homenagem compondo

E até chegar a derradeira viagem
Desta antiga marinhagem
Deixo aqui o nosso canto:
Seja qual o hemisfério onde navegas
No areal Porto Santo
Ou em Machico onde moro
Serás a eterna Guia “Andrómeda”
Alto e nobre Comodoro

E como a todos dizias
Puxa a escota, olha o leme,”Põe-te-a-Pau”
Recebe agora o abraço
Desta tua e nossa
“Malta do calhau”.

25.Jul.2015

Martins Júnior