sexta-feira, 9 de outubro de 2015

ESTUFAS DE MITOS MILAGRES E ROSÁRIOS


Quem se der ao gosto de viajar na redoma do sonho há-de pairar, extasiado, no melhor dos mundos e daí evolar-se, desfiar-se e multiplicar-se em miríades de estrelas, mais numerosas e esotéricas que as que compõem as galáxias supralunares. Esse extenso  mundo, sem linha de horizonte, é a crença religiosa. Peço aos meus comensais nesta mesa do dia ímpar a paciência de não mudarem de canal, porque não é de teses teológicas que componho hoje  a minha ementa. Pelo contrário. É da imaginação criativa, de uma certa consciência onírica,  que vos dedico estas (que desejaria breves) linhas, mereçam ou não o vosso consenso.
Porque hoje é o dia 9 de Outubro e é do fundo côncavo do vale de Machico que vos escrevo. É o tradicional Dia do Senhor dos Milagres.
Diga-se, desde logo, que esta á uma comemoração doméstica, nada e criada nas paredes centenares deste vale. Em nenhum outro lugar da cristandade tem o “9 de Outubro” semelhante designação. É também uma festa recente, com início em 1803. Em bom rigor, nem deveria falar-se de “festa”, mas sim de tragédia, pois as barragens celestes abalaram-se num ápice e arrastaram para o mar casas, terras, vidas, cerca de 600 a 1000 pessoas. As zonas mais “castigadas” foram Machico e a baixa do Funchal, com a avalanche voraz caída dos altos da freguesia do Monte, em proporções incomparavelmente superiores às do 20 de Fevereiro de 2010.
Depois, vem a lírica composição narrativa de uma galera americana --- tinha, logo,  de ser americana --- que achou intacta, no alto mar, o cruzeiro que havia na capelinha da Misericórdia, depois da “Ordem de Cristo” do Infante e, finalmente, cognominada de Capela dos Milagres. Esta a versão que a oralidade popular foi passando de geração em geração.
            E aqui começa a liberdade de sonhar. Um amigo meu telefona-me, espevitado e de dedo em riste, “então, não ouviu na RDP aquela versão de que a imagem tinha sido recolhida por uma barca, de nome “Áquila”, a qual se encontra no litoral do Funchal, estou de cabelos em pé…e você não diz nada”.  Posta a água na fervura, esclareci que não tinha ouvido o noticiário, ao que ele, conhecedor da matéria,  insiste: ”mas foi alguém aí de Machico, com responsabilidade religiosa”, etc.,etc.. A “Áquila” era a embarcação que fazia o transbordo dos passageiros do hidroavião que  amarava na baía do Funchal, na década de 50 do século passado. Bom, o caso é de “lana caprina”, mas se a versão pegar, por mais anacrónica que seja, deixa de ser a galera americana para ser a barcaça inglesa a salvadora da estátua. Assim se misturam lendas sobre lendas, qual delas a mais engenhosa. Basta meter crenças religiosas e mitos pelo meio.
            Outro caso não menos interessante ocorreu anteontem, 7 de Outubro, dia de Nossa Senhora do Rosário. Roça as raias do inverosímil, do absurdo mesmo, o que se conta acerca deste dia. Foi em 7 de Outubro de 1571 que se deu a trágica batalha naval de Lepanto entre a esquadra da Liga Santa e os turcos otomanos que se tinham apoderado da ilha de Chipre pertencente, então, à República de Veneza Oriental e, daí, avançariam sobre Veneza Ocidental, seguindo-se-lhe os territórios do Vaticano. O domínio do Mediterrâneo era a ponte estratégica do comércio de então, encarniçadamente disputado por europeus e muçulmanos. Veneza pede auxílio ao Papa que congrega os diversos reinos dos Estados Papais, Reino de Espanha, Cavaleiros de Malta, com o apoio financeiro da Casa dos Habsburgos e lançam-se, com 108 naus, no embate contra a armada turca, numericamente superior, composta por 186 naus.  É sangrento o relato que fazem dessa guerra os cronistas da época, cujas descrições de esmagamento de homens, crianças, mulheres, em terra e violentos duelos no mar ao aproximar das barcas, os quais pouco diferem das crueldades que hoje “vemos, ouvimos e lemos” nos Estados Islâmicos. Da parte dos turcos caíram 30 a 40 mil mortos, 8 a 10 mil prisioneiros, a cabeça do almirante otomano   Ali-Pachá cortada e posta na ponta de uma lança  e, para cúmulo do pavor, uma “Senhora de Aspecto Majestoso e Ameaçador” no mastro alto de uma das naus cristãos, que pôs os “inimigos” em fuga, etc.,etc..
            A surpresa vem a seguir. Foi nessa altura que o Papa Pio V mandou espalhar por toda a Cristandade a devoção do rosário a Nossa Senhora. E eis que, após tão tremendo massacre, dispêndio de vultuosos investimentos financeiros, desgaste das populações, a batalha saldou-se com a vitória da Santa União contra o Império otomano. E também para toda a cristandade proclamou-se o seguinte édito: ”Non virtus, non armas, non duces, sed Maria Rosarii Vitores nos fecit” --- Nem as tropas, nem as armas, nem  os comandantes, mas  somente foi a  Virgem Maria do Rosário que nos deu a vitória”. E assim começou a festa de Nossa Senhora das Vitórias, assim fizeram caminho os arraiais do Rosário, como o da Madeira, em São Vicente, este ano transferido para o próximo domingo.
            Como foi possível associar a Senhora à cobiça capitalista do reino da Veneza de então e à disputa dos monopólios comerciais no Mar Mediterrâneo !
Que blasfémia inaudita dizer àquelas pobres velhotas da província que cada conta do seu terço, rezado todas as noites, funcionava como um granada de mão (um míssil, em linguagem actual) para matar vítimas indefesas, seres humanos e, quase sempre, os mais frágeis…
Quem julgará os criminosos sacrílegos?!
            Sem mais comentários, até onde nos levará a escaldante criatividade  pseudo-religiosa? Michel de Montaigne, já no século XVI, classificara a nossa imaginação como “La folle de la maison” --- a louca da casa. E não há chão mais fértil para tais derivas como o devocionismo febril da crença desenfreada.
            Não espero consenso geral para estas propostas de aprofundamento, feitas com todo o senso, para mim, e não menos coragem intelectual. Para serenar-me nesta dolorosa incursão, encosto-me a uma das árvores da nossa ribeira de Machico, neste 9 de Outubro, e imagino ver, na outra margem,  o Cristo em pessoa olhando as ondas revoltas da enxurrada: à sua frente rolam, lado a lado, uma cruz de madeira e uma criança, um pai, uma mãe devoradas pela torrente. Quem irá Cristo salvar primeiro?  A cruz de madeira (que depressa se substitui) ou a criança, aquele pai, aquela mãe, aquelas vidas sem retorno?... Da resposta a esta pergunta depende toda a interpretação do Senhor dos Milagres, das Senhoras do Rosário, enfim, da limpeza de olhar com que lemos o nosso código ideo-espiritual.
 9.Out.2015

Martins Júnior

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

TESTAMENTO MATINAL





QUE ME DEIXOU UM AMIGO QUE NÃO MORRE




Se “morrer é deixar de ser visto”  
ficou-me a tua voz
transparente e poderosa
como o teu olhar                                     

Isso me basta
para ver o invisível

Nas sombrias pregas do desgosto
fica-me também  o gosto
de te ter dito face a face
quando ainda eras visto
o que trago aqui escrito

No renovado ecrã
De cada manhã
Vejo sempre a tua voz
Relógio d’água a despertar
Transparente e poderosa
Como o teu olhar

                        À Basília e sua filha
                            Com os cravos vermelhos que ele tanto amou

7.Out.2015
Martins Júnior

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O PARADOXO ELEITORAL: A MAIS INSTÁVEL ESTABILIDADE


         Não é objectivo do SENSO&CONSENSO arvorar-se em manual de análise política nem muito menos de panfleto  partidário. Tão-só o que pretende é captar o instantâneo do acontecimento e nele detectar –lhe a raiz e o fruto, ou seja, os antecedentes e os consequentes. É o que proponho nesta segunda-feira, a qual, semelhantemente ao de sábado, poderia classificar-se de “dia da reflexão” . E fá-lo-ei porque o fenómeno eleitoral é  --- deveria sê-lo --- o eixo nevrálgico do “corpus” colectivo de um povo, por outras palavras, o momento soberano que nos torna únicos e exclusivos responsáveis pela condução do país.  Ninguém tem aqui o direito de lavar as mãos na bacia de Pilatos.
Ora e por mais contra-natura que se nos afigure, a constatação está diante de todos os olhos:  o fantasma com que a maioria mais esconjurou  o seu mais directo concorrente --- a instabilidade política --- foi precisamente esse o fosso que cavou diante dos próprios passos. Ficou à mercê, não só deste e do futuro presidente da república, mas também  dos seus opositores, paradoxalmente daquele que mais intentou destruir: o PS.  Agora, cúmulo da cegueira, é do PS que a coligação mais precisa para garantir a estabilidade governativa. Quem cospe para o ar…
Mas, do outro lado da trincheira, sai o mesmo apelo gritante, qual seja, o de formar governo de esquerda. Tem todo o travo de humor negro ouvir de quem, orgulhosamente só, se ufanava de ter o monopólio da candidatura “patriótica” , venha agora ao terreiro do segundo partido mais votado --- que durante toda a campanha  ensandwichou  entre os dois  da coligação --- propor, em jeito de subreptícia  petição, a ponte movediça de um convite a uma coligação do avesso. A política tem destas piruetas tão ardilosas quanto hilariantes! E é entre o antes e o depois da eleição que certos partidos são hábeis em semear o descrédito do cidadão comum perante a  política do seu país.  O que antes era --- deixou de ser, depois.
E eis-nos, agora,  confrontados  com este absurdo  parto  saído do ventre de toda a barafunda eleitoral:  a  mais  “instável estabilidade”. Ao ponto de deitar a pique o mandato de quatro anos de governação constitucional.! Substituindo os termos da equação, viver na mais instável estabilidade significa estar condenado a navegar na mais estável (leia-se, contínua) instabilidade política. O que nós fizemos! E a que  nos “forçaram”  os partidos,  no confuso maranhão de uma campanha em que os eleitores ficaram perplexos face a este desconcerto: quem nem sequer tinha programa que se visse passou todo o tempo a metralhar quem apresentou um programa, técnica e politicamente elaborado. Não se discutiram causas, mas tiques emocionais, estados-de-alma sem alma.
 Foi manifesta a estratégia omni-perfilada, maquiavélica, cujo alvo consistia em derrubar, fosse como fosse (“o fim justifica os meios”)  a esperança nascida das famosas primárias de   28 de Setembro de 2014. Logo à cabeça, a exploração psico-sociológica do medo do amanhã, “aí vem o papão”. Depois, factores exógenos como a vitória de David Cameron no Reino Unido,  a nova cirurgia política do Sirysa-Tsipras na Grécia,  a ama seca da Europa que veio a correr e sem que ninguém a chamasse, “explicar” que essa coisa do deficit de 7,2%  era  uma corriqueira “operação contabilística”, nem mais nem menos a versão do governo.  Ainda, a “vantagem” (para o status quo) dos quase 500.000 “ refugiados” portugueses, os que emigraram nestes quatro anos, de não poderem manifestar no voto a sua indignação… Neste elenco perdulário, situam-se os 295.695 votos (pessoas) que optaram pelos pequenos partidos sem sucesso…Outros factores menos perceptíveis mas muito mais arrasadores, de ordem endógena, as querelas internas à própria família e, ainda não sanadas, que conduziram o voto a outras urnas… Acresce a tudo isto, uma certa inabilidade retórica por parte do intérprete da esperança nascente --- quem é sério não pratica o mimetismo camaleónico nem tem préstimo para  malabarismos “irrevogáveis”. E assim, não foi difícil à voracidade partidária --- em que os extremos se tocam --- comparecer à parada da arena, todos com o mesmo furor como  quem se atira ao mesmo osso...
Moral da história: é para o “osso odiado” que os extremos, da direita à esquerda, voltam agora o olhar impetrante para dar carne e forma às suas endémicas ambições políticas! Não se vai chorar sobre o leite derramado. Está feito, está feito. E oxalá não seja “sem emenda” futura.
Tão cedo voltarei a estes temas pois, repito, tenho para o nosso  SENSO&CONSENSO  uma mesa  mais suculenta e respirável . Termino, endereçando daqui uma saudação aos madeirenses, particularmente ao Partido Socialista, na pessoa de Carlos Pereira,  e ao Bloco de Esquerda (relevando aqui a brilhante prestação de Catarina Martins em todo o país) por  terem corajosamente  afrontado o medo dos fantasmas coligados. No mesmo Voto de Congratulação, envolvo o meu concelho, Machico, que soube honrar nobremente as suas tradições democráticas. É a nossa forma de comparecermos no Dia da República Portuguesa, para apagar a nódoa presente de um  presidente ausente.

5.Out.2015

Martins Júnior

sábado, 3 de outubro de 2015

--------------------------------------------”SÓ EU SEI” POR QUE NÃO FICO EM CASA



Porque sinto bater à porta
Da minha rua
Uma criança esvaída no chão
Sem ter ninguém que lhe valha
Nem sequer a mão
De uma mortalha…
E da minha rua vejo
Todas as veredas, todos os charcos
Vejo sepulturas dentro dos barcos
Que chegam ao meu país
Com crianças no porão…
Deixa o torpor do colchão,
Gritam,
Empresta-me a tua mão!
         +++

Não fico em casa, não!
Oiço falir as braçadas
De quem lança ao mar as redes
Sempre vazias, sempre trituradas
Nas garras dos tubarões…
Vem, vê se largas
Salões sermões e serões
E vem aqui tornar mais doce
O pão
Que sai das ondas amargas…
            +++

Bem longe e bem perto  trovejam
Legisladores sem lei
Zombis nocturnos, inda há pouco os encontrei,
Tabeliões, talibãs
Estirados em divãs
Feitos da pele e do osso
De quem não tem onde cair morto…
Deixa a paz do mísero conforto
Traz a tua mão
Com a ponta do teu dedo
Esgana os zombis do medo
Os passos para o caixão
As portas da escuridão
E nasça o dia original
Em que se cante de novo
O hino de Portugal
          +++

Se fico em casa
Vem a selva de fogo e arrasa
A enxerga onde me deito.
Quero rasgar a encosta
Desbravar
O caminho desfeito
            +++

Na minha, na tua, na nossa mão
Vejo abrir
Meu país em construção

3.Out.2015

Martins Júnior

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

NÃO VALE TUDO EM POLÍTICA --- NEM “A MÃOZINHA DE DEUS”


Foi com um uma pitada de humor que ouvi o comentário do jornalista de serviço à campanha da coligação --- “Passos Coelho conta agora com a ajuda divina” --- e que o interiorizara ao emocionar-se com aquela velhinha que lhe confidenciava “Vai ganhar, com a ajuda de Deus Nosso Senhor”.
         Era o último tiro de uma campanha feita à flor da pele, sem programa definido, e ao compasso daquilo que o principal concorrente ia esclarecendo sobre um compromisso assumido e contabilizado  no  programa  do seu partido,  previamente anunciado e debatido. Chamar entidades extra-terrestres  para uma disputa entre mortais, não sendo honesto,  passa as raias do ridículo. Deus não se mete nas lutas dos homens.
         No entanto, o episódio traz à colação uma realidade que, mais aberta ou mais sub-repticiamente, entra nesta “faena” cíclica: a Igreja. Acontece sobretudo nos meios rurais, de fraco aprofundamento cultural. E não são precisas sondagens para saber-se quanto a influência religiosa, por acção ou omissão, determina a direcção das vontades, exactamente  no acto de votar. E surge a pergunta: Deverá ou não a Igreja intrometer-se nestas batalhas campais, ser-lhe-á curial terçar  armas --- tomar partido --- a favor ou contra um dos dois ou mais contendedores? Para uma vaga comum de analistas, a resposta será não. Portanto, a Igreja ou os seus membros não devem pronunciar-se sobre opções de governação. É a linha da omissão. Outros há que advogam o seu contrário, argumentando com uma questão mais simplista: se os sindicatos e patrões, banqueiros e proletários,   intelectuais e operários entram nisto, por que não há-de a Igreja e seus acólitos usarem  do mesmo direito? Vai neste segundo sentido, a atitude corajosa do bispo emérito das Forças Armadas, Januário Torgal Ferreira, em recente e patriótica entrevista a um jornal diário.
Mas há quem discorde. Em que ficamos, então?
O assunto é tão vasto, levar-nos-ia tão longe, mas permita-se-me sintetizar uma saída deste intrincado labirinto de catacumbas sem fim. Primeiro que tudo, interroguemo-nos: de que Igreja estamos a falar? Da Instituição milenar, neste caso, vaticana --- ou de outra Igreja herdeira e multiplicadora da energia motriz que saíu, originária e viçosa, do seu fundador J:Cristo?
No caso da Instituição, ela apresenta-se, sem ambiguidades nem reticências:  é um reino, talhado à imagem do Império Romano, a partir de Constantino Magno, no ano 313 d.C., com uma hierarquia similar à estrutura militarizada de qualquer estado soberano, com títulos nobiliárquicos, cânones decalcados do Direito Romano, com tribunais próprios e embaixadores, eufemisticamente chamados “núncios apostólicos”, e até com um opulento  banco privado, onde chegam a camuflar  “offshores” de lavagem de dinheiro. Aqui chegados, é por demais evidente, imperativo mesmo, que a Igreja se abstenha de criar conflitos, manifestamente prejudiciais à sua estratégia diplomática, isto é, a de ficar bem com todos, prioritariamente com os poderes instituídos, ou seja, com os poderosos.
Mas há a outra Igreja, a que não tem palácios nem títulos, não conhece as passadeiras vermelhas dos monarcas, não se reveste da púrpura principesca,, pelo contrário, traja por vezes andrajosamente e anda com os “pecadores e publicanos”, como o seu Mestre, com os atirados para a valeta das periferias, com os que “não têm vez nem voz” --- não para mantê-los nos mesmos  ghettos, mas trazê-los à ribalta da humanidade e restituir-lhes a túnica estatutária da sua dignidade original, igualitária, solidária. O horizonte desta Igreja não é um trono, mas um cadafalso; não são as condecorações, mas os insultos; não são  as promoções mas as prisões. “Não podemos deixar de falar”, ripostaram Pedro e João diante dos juízes do Sinédrio, depois de serem sujeitos à humilhante tortura das chicotadas.  
         E agora, quid júris?  Que faremos desta Igreja anti-institucional? Como hão-de posicionar-se os seus membros?  Acomodados, acobardados, mudos e surdos perante os abusos do poder, das ambições coligadas, as falácias eleitorais, os cortes nas pensões, as emigrações forçadas, as fomes impostas, enfim, os atentados contra o corpo e contra o espírito?!... Aqui, chamo o citado bispo Torgal Ferreira para abraçá-lo, chamo o Padre António Vieira, o Padre Alípio de Freitas, o bispo Helder da Câmara, o bispo do Porto, António Ferreira Gomes (expulso de Portugal por Salazar), os madeirenses Padres Tavares e José Luis Rodrigues, o bispo Óscar Romero, da Nicarágua, assassinado em pleno altar por tomar a defesa dos camponeses oprimidos, enfim, toda uma legião de intrépidos lutadores, gente saudável, dinâmica, subindo a encosta dolorosa de outros calvários redentores da história.
         É com este J:Cristo que conta Passos Coelho  para ganhar as eleições ou é com o outro “Nosso Senhor”, da  velhinha crédula na Igreja-Império que lhe ensinaram?  Com a Igreja dupla, farisaica, que não suja as mãos na lama, que deixa morrer a vítima ensanguentada, à beira do caminho e passa adiante. É desta Igreja que os poderosos gostam e adoram, porque é dela que mais precisam. Tal como a da Madeira que, desde há 40 anos, tem servido, não apenas de bordão ou de almofada, mas de sórdida cama onde o governo se tem deitado e onde procriou a ninhada  de filhotes que hoje nos comandam!
         É à outra parada de “toca-a-marchar” que solidariamente me apresento. Não como militante de campanha --- as forças em campo que as façam --- mas para apurar o meu olhar de cidadania e colaborar numa terra em que todos temos o direito de viver, sorrir e amar. Também para derrubar essa blasfémia, seraficamente aceite pelo falsificador de promessas. Não chamem Deus onde Ele não deve ser chamado. Lutar, sim.  Inconformar-se, sempre. A este propósito, penso muito no Livro do Êxodo,  a Suprema Divindade a dizer: “Os clamores do meu Povo esmagado  no Egipto chegaram aos meus ouvidos”. Mas não desceu à mansão do faraó, para destroná-lo. Limitou-se a intimar Moisés: “Tu, Meu servo, vai depressa, te ordeno, vai lá libertar o Meu Povo”.
         Com o mesmo humor inicial, lembro aqui a traição de Maradona que, numa pirueta ilegal, marcou o golo da vitória com a mesma mão a que chamou “mãozinha de Deus”. Por favor, senhor candidato, cuspa para fora essa infâmia de contar com a “ajuda divina” para ganhar eleições! Qualquer que seja o resultado.

1.Out.2015
Martins Júnior

Agradecimento –  A todas as amigos e amigos que me acompanharam ao longo de um ano, no SENSO&CONSENSO.  Iniciei os “Dias Ímpares”, precisamente, em 1 de Outubro de 2014. Ininterruptamente, até hoje. É bom e é saudável conversar, em final de dia, no convés silencioso deste navio-écrã, chamado Blog.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

“SE VOTAREM NO MESMO, DEIXO DE SER PORTUGÊS E PEÇO PARA SER CHINÊS”----------- Será o 4 de Outubro um novo 29 de Setembro?



Ecoam nos meus ouvidos as emoções sonoras do 29 de Setembro de 2013, tão vívidas e tão imensas que começaram na Madeira e abraçaram o Porto Santo. Foi o derrube do muro da vergonha que cercava o Povo desta terra dominada pelo poder esmagador da maioria laranja ferreamente vigiada pela alta torre dos 11 castelos disseminados  por toda a Região --- as 11 Câmaras Municipais. Foram sete  --- número perfeito! --- as fortalezas que fizeram capitular a muralha monolítica  construída ao longo de quase quarenta anos. Parabéns aos lutadores representados nos seus autarcas, aos quais repito o que então disse e escrevi, ao ritmo da canção de Sérgio Godinho: “Hoje é o primeiro dia do resto do vosso mandato”.
         Congratulo-me e disso dou testemunho aberto, enquanto cidadão de corpo inteiro e alma atenta --- e com o  redobrado dever de o cumprir. Aqui, o cumprir tem toda a força semântica de alertar. E agir em conformidade.
Tomo como ponto de partida o  que, hoje mesmo, ouvi de alguém, após  comentar o último “blog” sobre a inteligente e estratégica concentração de vontades (leia-se, unificação de votos) para castigar o “inimigo” comum. E desatou com este desabafo, vindo do mais fundo da sua revolta:” Se os mesmos ganharem as eleições, renuncio à minha nacionalidade e peço  para ser chinês” . E lá foi descrevendo as malfeitorias desta governação que, houvesse ou não houvesse troika, executaria  o mesmo programa, com a mesma frieza com que Victor Gaspar prenunciava o “enorme” sacrifício dos portugueses ou com a mesma indiferença com que Passos Coelho proclamava “temos de empobrecer” e abria aos jovens a porta de saída do seu país, empurrando-os “para a boa oportunidade de emigrar”. Mais desabafava, incontido, o meu amigo: “Aqueles jovens, que a coligação amarra atrás de si nos comícios, pensarão eles nos 500.000 emigrantes, a maior parte deles da sua idade, que foram ‘expulsos’ de Portugal por este governo?” Coincidência ou descuido, por parte do jornalista  de serviço, fomos informados que eram sempre os mesmo que a coligação deslocava para toda a campanha.
O certo é que estamos na encruzilhada de dois mares: passar do Cabo das Tormentas para o Cabo da Boa Esperança. E aqui não há lugar para a dispersão das tripulações nem para derivas de bússola, que contentam o egocentrismo das suas claques mas nunca chegam a terra, nunca alcançarão a meta do poder. Há tempo de protestar e há tempo de reunir. Há tempo de sonhar e há tempo de cair na real. Há tempo de partir pedra e há tempo de construir.  Neste momento a hora é de reunir e não de dispersar. De agir e não de delirar. De levantar a casa e não de espalhar cascalho. Isto,  se decididamente  queremos apear quem cumpriu sadicamente a acusação que assacara ao governo anterior: “Pôr-nos a pão e água”!
Carlos do Carmo deu-nos ontem uma lição magistral, ao denunciar as  agressivas pedradas de todos os quadrantes políticos contra António Costa. “Não me lembro, em nenhuma campanha eleitoral, de um ataque tão violento a um candidato, fazendo dele “um saco de pancadas”.  No mesmo sentido, Rui Tavares do “Livre”.
Pela minha parte, limito-me a constatar e lamentar o monopolismo congénito de certos partidos, como se fossem  a única “candidatura patriótica”. Ou como se os trabalhadores e os explorados fossem um feudo, uma sua exclusiva coutada política, fazendo deles desgraçados pintainhos  debaixo das asas do único galo tutor e  protector, só porque se metem, vistosamente, esses partidos nas manif´s, retirando (a meu ver) a autenticidade e o protagonismo dos  promotores de base.  Bastou o PS  assumir, no seu programa  eleitoral,  posições iniludíveis contra o corte das pensões ou dos salários, para virem logo certos partidos empertigar-se: “Não toquem nisso. Advogado dos trabalhadores só um, o meu partido e mais nenhum”. É caso, no mínimo, para inverter o humor do Ricardo Araújo Pereira: Não é bonito, mas”… o que é  preciso é fazer tudo para que o PS não chegue lá, melhor ficar a coligação.  E é com muita mágoa, creiam,  que  redijo este parágrafo, mas factos são factos. E contra eles não há argumentos. E quando acima do supremo interesse dos portugueses se antepõe o supersticioso interesse do partido, nada feito!
De hoje  até domingo, é a hora da solene convocatória de subir ao alto da montanha, visualizar a paisagem global deste país e, sem que ninguém  perca a identidade da sua formação partidária, dispensarmo-nos de provocar eclipses inúteis que deixarão tudo na mesma “ austera, apagada e vil tristeza.”, como já se lamentava Camões ( Lus.X, 145) e  Fernando Pessoa deplorava o “Nevoeiro” da sua e nossa pátria.
Termino com o entusiasmo com que comecei: Será que, em 4 de Outubro, repetirá o Povo madeirense, repetirão os portugueses a retumbante vitória do 29 de Setembro de 2013?  Mesmo que fosse  contra toda a esperança, espero dar os parabéns  a um Povo “nobre” de clarividência, “nação valente” que não perde de vista o alvo da sua luta.

29.Set.2015
Martins Júnior  
    


domingo, 27 de setembro de 2015

ANTE O "NOVO" FANTASMA DA INSTABILIDADE O pior de todos os medos é o medo de ter medo



De que havemos conversar neste domingo último de Setembro senão no domingo primeiro de Outubro. Não tanto pelo circo tumultuante dos artistas na arena política, o que deve polarizar a nossa atenção é a Magna Assembleia dos Portugueses, a realizar-se já em 4 de Outubro, Dia D da libertação de todo um Povo.  É o Parlamento dos parlamentos, no grande triângulo que une o território continental e as regiões insulares. Para lá entrar é preciso deixar fora todos os medos, inclusive o pior de todos, como menciono em subtítulo. Digo isto, porque os caçadores de “bocas” desconexas (leia-se em brasileiro calão, “fofocas”) lembraram-se de espalhar agora o avejão nocturno a que chamam instabilidade governativa. Bastou ter ouvido a António Costa definir-se claramente, (embora politicamente incorrecto, dizem os comentadores de turno)  que não aprovaria um orçamento da coligação que cortasse nas reformas, para logo agitarem o agoiro fatal: o PS, desestabilizador da governação, provocará novas eleições. E quem é o “arcanjo exterminador” que traz essa mensagem do além?
Vale a pena dedicar-lhe um parágrafo.
Não há cena mais ridícula nesta campanha do que ver Paulo Portas afivelar uma tenebrosa carranca, desenhar na testa uma pauta de sete linhas e, qual adamastorzinho do Caldas, vociferar: aí vem a instabilidade governativa, aí vem o medo, o medo, ai o medo… Mas reparemos quem é ele. O desordeiro-mór, o mais atrevido conspirador, aquele que, em meio do mandato, afoga o país com o grito “irrevogável” da demissão, isto é, da queda do governo, do seu próprio governo! Não fora a intervenção do Padrinho Cavaco Silva que voltou a colar a pele dos dois irmãos siameses e o governo da coligação teria caído nessa noite. A troco de quê? De um tacho de lentilhas chamado “vice-primeiro-ministro”. E não há quem lhe solte na cara  uma bombada de escárnio, uma girândola de gargalhadas, perante um provocador nato, irrevogável incorrigível, capaz de deitar abaixo a própria casa onde se refugiou por empréstimo. Não há palavras! Apenas isto: tenho a percepção de que, se a coligação por má ventura ganhasse as eleições, o mesmo “fura-bardos” (aqui, o humor ajuda a ler) não deixaria que o mandato chegasse ao fim. Destrui-la-ia por dentro.
Voltando ao real quotidiano, isto é, à análise fria de todos os cenários possíveis, é minha convicção que o elenco governativo que melhor garante a estabilidade é, inquestionavelmente, o Partido Socialista. Permitam-me justificar. Na incompreensível, mas hipotética vitória da coligação, o seu programa e orçamento teriam os dias contados: António Costa votaria contra, já ele o disse corajosamente. A restante esquerda, CDU/BE/Livre e similares, pelo que se viu no batente da campanha,  não teria outro desfecho coerente. Num segundo cenário, o mais provável e necessário, com o PS no governo, ainda que minoritário, contaria no seu programa e orçamento com a aprovação ou, no mínimo, com a abstenção, das citadas forças partidária. Primeiro, por coerência com um ideário comum no essencial. Depois, por uma questão de decência política, visto que a experiência do chumbo do PEC4, em 2011,  saiu crua e dura ao país, pois foi aí que a esquerda levou ao colo o PSD/CDS até ao trono do poder que espremeu o Povo durante quatro longos anos.
Portanto e não obstante as críticas, tantas vezes infundadas, mas admissíveis numa praxe eleitoral, por parte de certa esquerda “versus” António Costa, a estabilidade política de Portugal estará inelutavelmente na vitória do PS. Eis o meu contributo, susceptível de contradita como qualquer outro, para uma serena reflexão, a partir deste domingo último de Setembro até ao domingo primeiro e decisivo de Outubro.
A terminar, fico a pensar com que estômago voltarão os portugueses a ver o  compulsivo “irrevogável”  naquela pose de olhos maiores que barriga, agitando o papão do medo.  Para amenizar o caso, terei de lembrar-me da rã da fábula, adaptada, de La Fontaine, ameaçando engolir o boi que calmamente pastava à beira do charco.
Mas o dilema é muito sério. A Magna Assembleia do Povo Portugueses, em 4 de Outubro de 2015,  nunca será presidida pelo medo de ter medo. Dos fracos e dos indecisos não reza a história! E não esqueçamos o velho aforismo: A força dos fortes é o medo dos fracos.
27.Set.
Martins Júnior