sexta-feira, 9 de setembro de 2016

FESTAS, ARRAIAIS E FESTIVAIS


         Em fim de verão e com o abrandamento das temperaturas quentes que o caracterizam, queimam-se os últimos morteiros e esfumam-se as euforias das festas,  festivais e arraiais , tão férteis como cogumelos sobrepostos  neste pedaço de poio que é a ilha, povoada de lendários patronos e divertidas padroeiras. Só não esmorecem, neste entardecer de estio, aquelas iniciativas nascidas do húmus original da terra-madre. Por que é o seu Povo quem as organiza.
Para sintetizar esta evidência não vejo melhor súmula, nem mais expressiva, como o refrão de uma cantiga,  de há  décadas cantada e coreografada,  no sítio suburbano onde habito:

Na festa que o Povo organiza
Há mais alegria e verdade
Por isso trazemos a estrela
A estrela da felicidade

Neste fim de semana  aí  navegam  em cardume festas, arraiais e festivais, cada terra com seu uso como  roca com seu fuso. E então é ver o patriotismo bairrista de mordomos e festeiros rivalizando em luxo, arrebitados em estrondo ou   descobrindo “cabeças de cartaz”, de bom ou mau gosto não importa, desde que peçam mais uns “milhes” pela actuação.
Da minha parte, ouso partilhar aqui a minha predilecção por tudo quanto emana dos genes endémicos das populações. E é nos meios rurais e suburbanos que se aquece o coração na chama da produção popular, quer cantada e rimada, espontânea ou ensaiada, quer ainda na evocação da história local, suas raízes e tradições litúrgicas ou artesanais. Quanto me divertem e ensinam os despiques populares,  não os empolados em palcos concursais, mas os de rua junto às barracas - genuínos discursos dos romeiros pedestres, em que a pitada de humor picante se mistura com adágios da sabedoria de antanho, transmitidos na oralidade de gerações e a que o rajão, a rebeca e o pandeiro dão ritmo e pesponte inigualáveis. A riqueza poética das gentes rurais, a dada altura,   fez-me  puxar da viola e do acordeão e dar corpo cantante às rimas de redondilha maior que camponeses e camponesas me traziam à mão.
Foi-me doada por circunstâncias fortuitas a graça – sublinho graça enquanto dom gratuito – de “cair” num  ambiente marcado por esta identidade telúrica, pura e livre, ainda não deturpada pelas tais megalomanias “estrangeiradas”,  requentadas, besuntadas de verniz mal cheiroso e em que o opulência  de dinheiro é proporcionalmente inversa à cultura, à “alegria e à verdade das festas que o povo organiza”. Desde há quase cinquenta anos que me é concedida esta dádiva, que se fez maior por ter-me proporcionado a oportunidade de ver a diferença entre festas, arraiais e festivais.    
Mais uma vez neste fim de semana, serei parte deste  “caldo” preparado pelas mãos calejadas de um “Povo/ um Povo  que trabalha e faz o mundo novo”.  Quem aqui vier, sábado e domingo, fruirá por certo da fragrância emanescente dos nossos campos, da autenticidade ornamental do nosso recinto de festas, onde é fresco e natural. Verá  desfilar a candura das crianças,  o viço da juventude e a feliz serenidade dos adultos, interpretando em palco as tradições laborais traduzidas em verso e ritmos dançantes: o Tear, as Vindimas, a Paisagem , a Colonia, a Emigração, os picos altos e as árduas lutas que este Povo viveu e vitoriosamente ultrapassou. Páginas gloriosas de Machico, desde a primeira hora, perpassarão diante dos nossos olhos. A nossa Tuna, remoçada agora com  jovens executantes, será o abrir das cortinas da nossa Festa, que do Amparo se chama.
Momento  de rara emoção será o da “revisitação” da velhinha Capela do Amparo, mandada erigir por Francisco Dias Franco em 1692 no próprio coração do sítio da Ribeira Seca. Ali juntar-se-á a comunidade para sentir o percurso sofrido dos seus antepassados, desde há 324 anos. Subir à Capelinha do Amparo é fazer uma peregrinação mais longínqua que ir a Fátima, a Lourdes, à Aparecida do Norte, no Brasil. Muito antes dessas, a Senhora do Amparo já era!
Reconstituir o “sangue, o suor e as lágrimas” que as altas montanhas do Vale da Ribeira Seca outrora viram correr será o mote de esperança e de coragem perante o futuro, calcorreando as novas estradas até alcançar o templo actual. Passado, Presente e Futuro – eis o GPS do nosso cortejo, com início às 16 horas de domingo.
A festa em que o Povo não ocupa a centralidade da inspiração e da acção não poderá ser nunca a “Festa do Povo”. Sentimo-nos bem assim. Mesmo sem parangonas publicitárias, sem estouros piroténicos, (ajudámos as vítimas dos incêndios) e sem estrelas convidadas, a Festa é nossa. E de quantos nela querem participar e conviver, ”se vierem  por bem”.
Volto à terra e seu uso, à roca e seu fuso. Mas, respeitando a roca, a terra, o uso e o fuso, não me cabe na testa como é possível estampar na primeira página de um matutino a vistosa notícia de que um determinado cantor (para mim e  para muitos, “pimbalheiro” já gasto) que vem à festa de uma determinada freguesia rural “para manter a tradição”.  Mas, qual tradição?... O mínimo que se pode dizer é exclamar: É obra!
Fiquem todos com todas as “estrelas” do Mundo, cadentes e não cadentes. Nós ficamos com a Estrela da Felicidade, Porque nas festas que o Povo organiza, há mais Alegria e Verdade.

09.Set.16

Martins Júnior

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

E BEM-AVENTURADOS TAMBÉM OS NÃO CANONIZADOS



Ainda pairam nos céus de Roma os ecos em revoada daquela manhã sonora de domingo. Nunca a modesta rapariga albanesa teria imaginado que as chagas sociais e as dores dos proscritos que ela ajudou a sarar ascendessem tão alto e tão sonante como no dia aniversário da sua descida às terras dos párias e dos marajás.
E chegaram até nós. Tenho seguido com interesse as opiniões que suscitou o meu último escrito. Bom sinal dos tempos, quando se interpretam e discutem temas tão marcantes como a canonização de alguém. Ao relevar a magnitude da obra de Madre Teresa de Calcutá, pretendi saudar o empenho pessoal, a doação inteira dessa mulher à nobre causa da Humanidade. No entanto sublinhei que, também na mesma medida,  é urgente analisar os gritos e as  fomes que perseguem o mundo, acentuando a dicotomia emergentes versus duradouras. É a diferença que nem sempre descortinamos entre pobreza conjuntural e pobreza estrutural, sendo certo que as soluções para estas últimas não podem ser as mesmas utilizadas para as primeiras. O que está em aceso debate é a eterna antinomia de sempre entre Caridade e Justiça. É verdade que não se prega a estômagos vazios, mas não é menos verdade que os paliativos de circunstância não resolvem a raiz do mal ínsito na medula das sociedades injustas.
Não foi por mero acaso que o próprio Papa Francisco no texto da proclamação da canonizada exclamou: “Ela fez sentir a sua voz aos poderosos da terra, para que reconheçam as suas culpas diante do crime  da pobreza que eles criaram no mundo”. É esta a maior “afronta” que dimana da obra de Teresa de Calcutá, embora muitos a desconheçam. E é precisamente neste “item” que alguns biógrafos, entre os quais o já falecido escritor Christopher Hitchen e os jornalistas Aroup Chtterjee e Donal MacIntyre, põem em causa o efectivo contributo da “Mãe dos Pobres” na erradicação da pobreza. Suponho que referir-se-iam à polarização dos conceitos: pobreza emergente - conjuntural - e pobreza duradoura - estrutural. A fome emergente requer Caridade de emergência, mas a fome estrutural exige  Justiça legislativa e Coragem sem tréguas..
Reflicto e partilho esta incógnita decisiva  e faço-o para trazer ao trono da consciência pessoal e colectiva tantos e quantos lutaram contra os regimes de opressão, contra as leis draconianas da escravidão que ainda hoje perduram a olho nu pelas nossas cidades. Gente de fibra que pagou nas masmorras o preço da sua sede de atacar as estruturas de uma  sociedade ruim, viciadas e assassinas, mas envernizadas de púrpura e incenso. Esses nunca conheceram o abraço ou o sorriso das multidões, mas foram tão sobrenaturais como as esculturas marmóreas beijadas pelos fiéis e alcandoradas pelas hierarquias. Não fossem os prisioneiros do Tarrafal, não lutassem os militares de Abril  e ainda hoje estariam os “velhos” de mão estendida aos filhos e netos para lhes darem uma côdea de pão. Não fosse a coragem dos salvadores do Povo, os criadores do Serviço Nacional de Saúde e ainda hoje estaríamos condenados a esperar a morte numa enxerga malsã. Não fossem os operários de Chicago, uns presos e outros mortos, e os homens, mulheres e crianças continuariam a moirejar de sol-a-sol, caídos de tísica no antro das minas.
E as Mulheres da estirpe de uma  Joana d’Arc, Catarina Eufémia! E padres e bispos, como Óscar Romero, assassinado no altar, António Ferreira Gomes, bispo do Porto, expulso de Portugal sob a ditadura  de Salazar e o silêncio cobarde do Patriarca Cerejeira, pelo “crime” de defender os camponeses da sua diocese contra os latifundiários e exploradores do Norte”
Seria um nunca mais acabar este cortejo de humilhados e ofendidos, mas gloriosos, Santos de maiúscula, que nunca foram canonizados. Lembro-me, sobretudo, daquele friso que todos os dias me acompanha, em lugar cimeiro, na biblioteca comunitária da Ribeira Seca – Padre António Vieira, Teresa de Calcutá ( já viu a sua hora de reconhecimento universal) Mahatma Gandhi, Nelson Mandela, Zeca Afonso, Luther King. E outros que quem me lê também reserva no altar da memória. É por eles que ainda sonho concretizar um Hagiológio  (Vida dos Santos) em que o testemunho sacro-cívico-social  constituirá a auréola trinitária que iluminou a face sempre viva da sua passagem pela terra. Uma auréola onde cabem todas as lutas, todos os calvários e todas as vitórias da Humanidade.
E se nosso Mestre chamou “Felizes os que Lhe deram de comer, os que O viram doente e O visitaram, os que  O encontraram sem abrigo e O receberam, também foi Ele – o mesmo! – que proclamou no Sermão das Bem-aventuranças: “Felizes os que têm fome e sede de Justiça… Felizes os que sofrem perseguição por amor da Justiça “!
Bem-aventurados os que lutaram contra a fome duradoura, contra o crime estrutural!

07.Set.16
Martins Júnior


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

COMO SE FAZ UMA SANTA? As fomes emergentes e as fomes duradouras


        Os prelos de todo o mundo e as televisões de todas as cores rivalizaram em gordura gráfica para proclamar a grande nova: “Madre Teresa de Calcutá já é santa. A partir de ontem, 4 de Setembro/16”! Permitir-me-ão discordar em absoluto das manchetes mundiais. Porque ela já o era desde há muito, muito tempo. O que ontem ocorreu foi um festival sacro-profano, a que não faltaram governantes internacionais, sendo mais visível o rosto de presidente da Albânia, terra natal de Mãe-Teresa, apóstola das Índias mais periféricas da sociedade asiática. Nada aconteceu de singular nem astronómico que viesse emoldurar a face daquela mulher franzina, modesta e furtiva, cujo único desejo era fazer o bem e passar desapercebida por entre as bátegas da publicitária chuva mundana.
         Também me associo e intimamente congratulo-me pela Santa que ela era e não tanto pela santa que lhe chamam desde ontem. Ela própria é que me deu  o argumento justificativo quando colocou como palavra de ordem dos seus ideais. “O AMOR EM ACÇÃO”. Sob este ponto de vista, o Amor é movimento criador, é corporização, é dinâmica. Nunca poderá ser extático, passivo ou acomodatício.  O Amor não se demonstra – mostra-se. Detesta o trono e ama o chão rasteiro onde nasce, sangra e pulula a Vida. Leiam o capítulo 13 da II Carta de Paulo aos Coríntios. Que beleza, que frescura  e que eloquência ecológica se desgarra do texto Paulino que costumo seguir nas celebrações   de casamento e que enche a alma de quantos nelas participam! O Amor feito estátua ou talismã  não é mais que idolatria. Relembro Antero de Quental: “Na grande marcha da História o Santo é o que vai à frente”. Na frente do esforço, na vanguarda da luta, da intuição, enfim, é “o que vê o invisível”. E avança decidido.
         Mais um desabafo. E vale o que vale: Não me entusiasmam nem comovem esses arroubos apoteóticos, soberanamente proclamatórios das canonizações. Pelo que acima referi. E mais: Que dom de infalibilidade possui um homem para julgar outro homem e considerá-lo santo ou pecador?... Acresce  o emaranhado processo  miraculoso, de duvidosa força probatória, dado que o denominado “milagre” (condição sine qua non) assenta em pressupostos intimistas,  fortemente associados à conjuntura neuro-vegetativa do feliz contemplado com o “milagre”. Mãe-Teresa, venero-a e amo-a não pelos milagres feitos depois de morta, mas pelos que  fez em vida. A sua indomável tenacidade que não temia os obstáculos, alguns até vindos da própria hierarquia eclesiástica no início da sua actividade, a limpidez do olhar que descortinava a presença do Mestre no mais ínfimo do ser humano e que a levou  a entregar-se incondicionalmente aos indianos pobres e aos leprosos de Calcutá, as centenas de casas para os sem-abrigo e para doentes terminais, , orfanatos, hospícios, enfim, procuro as pegadas luminosas dos seus passos que galvanizavam multidões e “seduziram” milhares de obreiros para a sua causa. Curvo-me rendido à sua predilecção  para com os desfalecidos que  morrem abandonados na berma das estradas. Tudo isso ela realizou em vida sem esperar um panteão na basílica vaticana,  nem sequer o Nobel que lhe foi justamente atribuído pela Academia em 1979. Tudo isso fez J:Cristo e o seu trono foi o patíbulo,  a cruz  da ignomínia.
         E é também por tudo isto que me comovo – e não pelos 70 cardeais, 400 bispos e 1.700 padres que participaram na solene  glorificação de ontem, mais os 13 chefes de Estado e as 22 delegações estrangeiras. E por mais este testemunho do Papa Francisco: “Ela fez sentir a sua voz aos poderosos da terra para que reconheçam as suas culpas perante os crimes da pobreza criada por eles próprios”.
É neste 2º item que pretendo debruçar-me no próximo dia ímpar. E é por aqui que surgem apreciações menos optimistas em relação a Madre Teresa elaboradas por biógrafos seus, acusando-a de estar a defender o status quo de regimes injustos. A caridade, dizem os entendidos teólogos, não pode antecipar-se à Justiça. Não basta acudir às fomes emergentes. É preciso debelar as fomes duradouras. Desde a sua origem.
         O “Amor em Acção” toma vestes tão diversas umas das outras, mas está sempre vigilante para que a Justiça vá à frente, tal como o “Santo”,  de Antero de Quental,  na vanguarda da  grande  marcha da História. Há muito mais santos cá fora do que  os que têm assento oficial  nos altares.

05.Set.16
Martins Júnior

  

sábado, 3 de setembro de 2016

AINDA OS INCÊNDIOS NAS ESCOLAS E O CASO DA SERTÃ


Quem poderá ficar mudo e quedo perante o retalhar de uma comunidade inteira, consequência directa do êxodo dos seus filhos na mais tenra idade?   E como deixar impunes os talhantes avaros que, a troco de meia dúzia de cifras, pegam nas crianças e, logo nos primeiros passos da vida escolar,  as obrigam a deixar mais deserta a casa-mãe onde foram nadas e criadas?!
         Nas vésperas do início das aulas, outra preocupação maior  não terá quem vive no seio desse agregado populacional e lhe sente os problemas familiares, afectivos, sociais.  Por isso, não me cansarei de afrontar publicamente  ( porque de reunir e conversar já estamos fartos) este insensível governo regional  que usa e abusa do que mais de sagrado tem um povo: o ensino, a educação, a cultura. A frieza e o à-vontade do adejar de braços com que trata as pessoas como números, não pode passar impune no julgamento da história.
         Professores – são números. É só cortar. “Só me deram este punhado de docentes – dizem mecanicamente  as comparsas do talho,  directoras escolares ou algo que o valho. “É com estes que tenho de dividir os alunos”.
         Alunos – números são, os mais frágeis, quando deviam ser respeitados como elos mais fortes da cadeia educativa. É medir, talhar, encaixotar e “sigam à minha frente”.
         Pais e encarregados de educação - números também, voluntários à força. Roça a mais vil hipocrisia dizer-se – como já sei a cartilha – que  as directoras reuniram com os pais e com as crianças. Como se não soubéssemos o papel manipulador da directora: “são ordens que recebi do sr. secretário”. E o secretário faz eco: “São ordens que recebi do presidente do governo”  ou de um secretário, sempre  em transe, de olhar ausente no dinheiro sempre presente. Lembra isto o ferrugento veio de transmissão hierárquica dos antigos regimes: O secretário é obediente cego ao presidente e a directora é  obedientíssima interesseira (e ambiciosa!) ao secretário. Quem paga? … As crianças, os mais fracos.
         Há uma deficiência, para não dizer perversão, de fundo: reduzir a escola a quatro paredes de armazém onde arrumar cabeças. Não entendem nem sentem os talhantes que a escola  é um dos maiores antídotos contra a desertificação rural. E que, por isso, vale tudo defendê-la.  Ponham num dos  pratos da balança os malefícios da desertificação  e, no outro, os custos de um professor ou de uma turma. Depois, façam as contas. E respondam-me, se souberem: quanto pesaria no orçamento regional a colocação de mais um professor nesta ou naquela escola que pretendem fundir e aniquilar?... Bastaria esquecer meia dúzia de balonas do fogo de artifício e ficaríamos todos a ganhar. Quem dá por falta de meia-dúzia de bombas de fim-de-ano? Ninguém. Sabem quantos dão por falta de uma escola ou de uma turma que dissolvem? Toda a comunidade.
         Perguntar-me-ão por que circunstância inédita trago hoje, mais uma vez, este tema à liça. Pois eu digo-vos: Fiquei intimamente tocado e intensamente galvanizado com a decisão que ontem anunciou o Presidente da Câmara da Sertã, a qual é tão sintética quanto eloquente: a edilidade do município vai inscrever no orçamento de 2017 a verba de 200.000 euros para manter em funcionamento quatro turmas em risco de dissolução numa das freguesias daquele concelho do distrito de Coimbra.
          Tem muitos e distintos contornos esta notícia, mas o que dignifica e exalta o município da Sertã é a justificação expressa da medida adoptada: impedir a desertificação daquela área. A isto chama-se mentalidade superior, sensibilidade inteligente, numa palavra, a isto chama-se  autêntica Autonomia do Poder Local, ao serviço dos seus constituintes.
         Este problema que, como eiró entre o lodo da maré, enrola-se primeiro como fusão administrativa até desovar na dissolução da primitiva escola,  não pode ficar por aqui. Quer se ganhe ou se perca este debate-combate,  é dever nosso denunciar, como já o fiz anteriormente,   que enquanto os incêndios destroem as serras os incendiários do governo ardem as escolas. E desertificam os nossos campos.
         UM VOTO: que os autarcas madeirenses sigam o município da Sertã.

         03.Set.16
        Martins Júnior  
            

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A MÁQUINA DE FAZER DINHEIRO


Para quem gosta de olhar para dentro  de si e para fora, nunca lhe falta  inspiração nem escasseiam motivos de conversação. E são tantos e tão cheios nesta altura como as gigas que transportam uvas ao lagar. Hoje, precisamente,  ao ritmo dos mercados onde se exaltam pernas e cabeças, nada melhor que apreciar a fruta que o futebol nos oferece em hasta pública. É que em 31 de Agosto fecha o leilão das transferências. E o que se tem visto e ouvido na barafunda da praça do mercado nacional toma contornos dignos de uma peça tragicómica.
         No dicionário de sinónimos do futebol profissional está mais que visto que  o conceito de desporto foi substituído pelo de  máquina de fazer dinheiro. As transferências e as trocas de camisolas fazem um campeonato muito mais decisivo que os golos metidos nas redes adversárias. O que conta são os milhões que a equipa vendedora  amealha ou os mais que milhões que a  turma adquirente prevê arrecadar. Neste mercado livre, a inflação é campeã e rainha. Quanto mais alto subir a bandeirada mais prestigiado é o clube. E o clube mais que o jogador. Não são precisos parlamentos nem decretos nem válvulas de segurança para  as linhas vermelhas. É o reino pré.histórico do vale-tudo.
         Já uma vez tive ocasião de referir-me a toda uma linguagem do mercado da escravatura: “ O jogador de cá foi vendido para lá por 30, 40 milhões, mais tanto por ‘objectivos’… Outro está à espera de ser comprado pelos árabes… Por tantos dólares levas este, por tantas libras  ficas com aquele”. Senão quantitativa, ao menos qualitativamente, reinaugurámos o mercado pós-esclavagista. E o escravo ali está nas rotundas relvadas, desejoso de um cliente rico. que o meta na “limousine” de uma grossa carteira bancária.
Mas, ainda assim, o “candidato-a-comprado-ou- a-vendido” não é senhor do corpo que os pais lhe deram. Fica preso ao senhorio-vendilhão que  só o deixa sair se e quando bem entender. Mais precisamente ao cofre do comprador. “Tens que dar mais 5 ou 10  milhões, senão vendo-o a outro”. Berra o leiloeiro agiota.  Debalde, entristece, esperneia e protesta o dono do próprio corpo contra o dono da empresa. Nada o demoverá, senão a ambição do lucro fácil. “Ficas aí como refém”. E o leiloeiro e seus comparsas “empresários”, insaciáveis e frios, querem mais. Mesmo  contra a vontade do próprio, que só deseja valorizar-se e chegar mais além.  O caso Adrien  impressionou-me vivamente. Não o deixaram sair. Isto só me lembra, mutatis mutantis, o  tráfico de pessoas e não só, em que a presa fica irremediavelmente na mão do explorador de carne humana.
Dir-me-ão que tudo isso está coberto pela legalidade, pois  corresponde a relações contratuais de compra e venda. Mas é exactamente aí que se situa este meu desabafo. Adeus futebol-desporto, adeus expressão genuína do ideal atlético. Diante dos milhares de espectadores, entram nos estádios os novos gladiadores do circo moderno, manipuladores da “roleta russa” que atrofia liberdades e fabrica dinheiro nas arenas para fartar o bojo gordo dos ganadeiros.   
           Não está nos meus intentos desgostar os amigos aficionados pelo futebol profissional, apenas partilhar, se quiserem, o meu enfado perante os grandes “derbys” que passam nos televisores. Do exposto lamento dizer que, nessas circunstâncias, em vez do batimento do esférico no relvado, tudo me soa ao chocalhar do dinheiro caído na roleta. E desligo o programa.
         Enquanto isso,  para atravessar a ponte “impar” do 31 de Agosto e 1 de Setembro, deixo-vos as lágrimas de Slimani em Alvalade, as  quais, por um novo milagre do cartoonista, Carlos Laranjeira, transformaram-se em notas de milhares de libras com a efígie da Rainha Isabel II. É a mitificação do futebol-negócio. Não vou por aí.
.  
         31Ago-1Set.16
Martins Júnior
 


segunda-feira, 29 de agosto de 2016

MEIA NOITE DADA … E CALARAM-SE AS ARMAS!


Em Agosto findo…o Mundo ficou mais lindo!
Estas e outras rimas, no mesmo tom de clarim argênteo, poderiam  encimar  o Canto Primeiro de uma nova epopeia escrita no horizonte a haver!  Esse amanhã, cujos alvores a meia-noite sul-americana abriu hoje, ganhou forma e fundo no pregão veemente e solene  que o Comandante das FARC, Timoleon Jimenez, o “Timochenko”, lançou  desde Havana, a cidade herdeira da Sierra Mestra: “Ordeno a todas as unidades e a todos os comandos das FARC um cessar-fofo absoluto e  definitivo”.
O pré-acordo assinado em 12 de Julho pp., entre José Manuel Santos, presidente da Colômbia, e Timoleon Jimenez, encontrou esta noite  a cúpula triunfal onde foi içada ao mundo a bandeira da  Paz – uma suspirada Paz, após mais de meio século  de luta fratricida e encarniçada entre o auto-denominado “Exército do Povo” e o Exército colombiano. Os 7.500  guerrilheiros enterram as  metralhadoras assassinas e preparam-se para homologar o acordo histórico na próxima  Decima Conferência Nacional  Guerrillera, a realizar-se entre 13 e 26 de Setembro pf., a que se seguirá o plebiscito a toda a nação colombiana, marcado para 3 de Outubro.
Seja qual for o desenrolar dos acontecimentos e sejam quais sejam as desconfianças e os vitupérios contra esta decisão, ficam de pé as emocionantes afirmações conjuntas de Timoleon Jimenez e Juan Manuel Santos:
“Nunca mais os pais enterrarão filhos e filhas mortos na guerra… Começa a nova história da Colômbia…  Neste 29 de Agosto calaram-se os fuzis, definitivamente…  Acabou a guerra contra  as FARC”.
 Com uma visão optimista e catártica do fenómeno ocorrido, a correspondente do El Mundo em Bogotá, Salud  Hernandes Nora, descreve e enfatiza: “Nem o Papa Francisco, nem Ban Ky-moon, nem Barak Obama, (figuras que tanto apoiaram o processo de paz que se negociou em Cuba) lograram demover um centímetro  as hostes do anterior presidente Alvaro Uribe, opositor acérrimo a este acordo”.
 Verdade amarga que  a experiência comprova:  muitas são as tréguas que tão depressa se proclamam e mais depressa se apagam. Mas eu creio na alvorada que nasceu à meia-noite deste 29 de Agosto de 2016! A dura caminhada dos dois exércitos e o sangue derramado  entre a população camponesa e a oficialidade colombiana  terão sido a tinta rubra  que firmou este Acordo. É que não se pode viver e morrer sempre sempre  entalados entre quatro tábuas de baionetas de guerra. A luta ideológica, essa é interminável e é ela o antídoto mais eficaz contra o apodrecimento das sociedades. Mas a luta armada e  as facções irredutíveis, incapazes de  encontrar o senso e consenso indispensáveis ao meio ecológico onde se possa respirar, mesmo entre ventos adversos, - essa estratégia do “dente por dente e olho por olho” acabará pelo suicídio irreparável, tanto individual como colectivamente.
Em Agosto findo… temos o facho ardente  de dois luminares que vieram  acompanhar a meia-noite de hoje:
Em 26 de Agosto  é a albanesa “Teresa de Calcutá” que traz no berço o 106º aniversário do seu nascimento. E em 28 de Agosto foi o Grande Sonho de Martin Luther King que, em 1963, pela primeira vez,  nos degraus do Lincol Memorial, em Washington, D.C.,    proclamou  o hino à Igualdade  e  à Paz:  I have a dream!
Que enorme Padrinho e que fulgurante Madrinha para a Paz Colombiana! E que ela se expanda por  toda  a América Latina!

29.Ago.16

Martins Júnior

sábado, 27 de agosto de 2016

O DEMOLIDOR E A SUA TRIBO


Longe estava eu de chegar ao Funchal e, de repente, cair da ponte abaixo. Por ironia, chamava-se a Ponte da Saúde. Bem me lembro de atravessá-la uma e muitas vezes, há quase setenta anos, quando descíamos do Seminário da Encarnação rumo aos “Viveiros”, à Fundoa e demais estâncias circunvizinhas nos nossos passeios pedestres de domingo.
Caí da ponte abaixo pela simples razão-sem razão de ver que fora ela esquartejada, desventrada, engolida pela fúria dos crânios pontiagudos que se passeiam na Quinta-Vigia. Eis como os novos “vigias da Quinta” vigiam a nossa Saúde e a saúde dos ombros que suportavam o arco da ponte centenária!
Venho associar-me à consciência vigilante  daqueles que  amam a cidade mais que a Quinta. Vozes patrióticas que não se deixaram trair pelo mais fácil, pelo verniz que luz mas não é ouro. Danilo Matos, Violante Saramago, Raimundo Quintal, Costa Neves, João Baptista, José Luís Rodrigues, André Escórcio e outros madeirenses de gema, funchalenses de fibra, para quem Ouro é a pedra secular, as mãos invisíveis dos construtores de outrora, o testamento vivo das “Pedras que Falam”! São estas as salvas diamantinas onde repousam os nossos pergaminhos. Mas aos herdeiros gratuitos e desnaturados turva-se-lhes a vista e embota-se-lhes a sensibilidade  para não verem que “um Povo sem Passado é um Povo sem Futuro”.
Custa-me, creiam, custa-me muito ter de recorrer a  um  estranho magnata Al – Bu - Keq  das arábias para definir e abjurar a surdez tacanha e a cegueira contumaz dos demolidores sem lei. Sem cultura. É caso para bater à porta da Quinta e abrir o protesto: De que serviu mudar o inquilino se é a mesma cama inculta e arrogante  em que se deitam?... Que insensatez foi essa de fazer orelhas de mercador aos mestres, técnicos, professores, arqueólogos, historiadores, que têm a nobre missão de ver mais longe que os decisores de bancada?!...  Recordo-me de um já deposto demolidor  que um dia em Machico, em zona histórica, ter-me  sentenciado com supina prosápia: “Devia-se tirar essa pedra daqui e deitar alcatrão em cima”. Escusado  será dizer que não lho permiti. É deprimente ver gente responsável – tão irresponsável e cega – que preza mais o betuminoso inaugurado na véspera do que a passadeira em pedra roliça que os nossos antepassados nos deixaram como legado inter-geracional. Ao menos, nos cenários que ainda restam do nosso passado histórico.
Do pouco que deixei escrito subentende-se o muito mais que tinha para dizer. Por isso, aqui me quedo. Desiludido. Concluo agora a sábia filosofia do ditado popular: “Por melhor ninguém espere”. É pena. Cultura não é só o cosmopolita festival de jazz ou os linguados parlamentares do fastio. É também a preservação do património construído, o qual segundo Pedro Serra, “é o passado que se torna presença e substantivação do presente”.
Perante atitudes tão grosseiras quanto incompreensíveis numa democracia cultural, não tenho outras palavras senão as de Almeida Garrett, já em 1835, quando nas  Viagens na minha Terra zurzia violentamente contra o vandalismo de certos administradores do país (e o caso da Ponte da Saúde está no mesmo índex)  culpando os governantes de Santarém pela destruição do seu património histórico  e  acusando-os de cederem ao “fanático camartelo da ignorância” . Lamentavelmente, ontem como hoje.
Ponte da Saúde que tornou mais doente a Cidade!

27.Ago.16
Martins Júnior