sexta-feira, 7 de abril de 2017

A CRUZ: SINAL E CONTRA-SINAL


É sexta-feira. De um tempo maior.
Ambos – tempo e sexta - trazem um estigma que marca e abarca templos, cidades, caminhos, lugarejos remotos, onde quem é crente reconstitui a chamada Via Crucis, memória evocativa de um percurso pedregoso, ingrato, lá para os lados de uma Jerusalém de há mais de dois mil anos. O estigma é o símbolo da Cruz, perante a qual o povo se comove, se entretem e, não raras vezes, se compraz, atribuindo-lhe uma conotação mítica, a roçar a magia e a superstição.
Se os meus acompanhantes dos ‘dias ímpares’ tiverem paciência e lugar, partilho a breve incursão que ensaiei, hoje mesmo,  nesta comunidade onde vivo. Chegaremos à conclusão de  que o sacralizado símbolo da Crus destrói-se a si próprio e torna-se o anti-símbolo. ´Contradiz-se a si mesmo, devido ao uso e abuso que dela se tem feito.
A Cruz domina a estatuária, a arquitectura soberana e entra no coração e na carne dos seus utentes. Ela pula, gigante e altaneira, para a ogiva das catedrais, guarnece os alçados palacianos, adormece na tumba dos cemitérios, emoldura a heráldica dos brasões monárquicos e os medalhões  dos laureados famosos,  Por fim, ela cola-se ao peito daquela jovem que mais prendada fica se a trouxer em fio de ouro puro. Chega a ser ‘chic’ usá-la e ostentá-la.
E há um mercado-super de matérias primas para construí-las, as cruzes. Há-as de pinho da terra, e  de ferro forjado; há-as de plasticina e de bronze cinzelado; há-as, ainda,  de marfim e porcelana. É um santuário de cruzeiros a sala de coleccionadores agnósticos. Incomoda-me mais, porque me repugna, ver gente veneranda e devota transportar, de semblante  compungido, um crucificado de prata banhada em ouro, arvorando-o em comemorações de calvário. Como se a carne e os ossos do martirizado Cristo se mudassem em metal precioso, após a sua morte.
Mas a Cruz . aquela que se conhece – nada tem de especioso, mítico ou espectacular. Pelo contrário, ela é a prova mais acusativa da violência dos poderosos, o simulacro horrendo do quanto é capaz a malvadez humana que sadicamente mata os inocentes. A Cruz é o equivalente à fogueira da Inquisição,  à guilhotina, à corda de enforcar, ao forno crematório, enfim,  ao gaz ‘sarim’. A Cruz nunca foi motivo de orgulho, porque  é o símbolo da nossa vergonha comum. Por isso que nunca será peça de adorno, muito menos joalharia sacra ou cereja altaneira no cimo dos campanários. É neste contexto que se interpreta o sermão que o grande Padre António Vieira fez na Capela Real, diante da corte imperial ali reunida, os fidalgos brasonados na primeira fila: “Antigamente, eram os ladrões que pendiam do alto das cruzes. Hoje são as cruzes que pendem do peito dos ladrões”.
Assim seria sempre o simbolismo da Cruz se não fosse o corpo que lá cravaram  os  poderes de então: o poder religioso do Templo, aliado ao poder político-judicial do governador Pilatos.. Absolutamente! Assim como aos grandes abismos correspondem grandes altitudes, assim o patíbulo da Cruz serviu para demonstrar a autenticidade e a palavra de honra de Alguém que pagou com a morte a factura da Sua palavra. Antes quebrar que torcer! Foi o Corpo agonizante do Mestre que, de coração benfazejo, destruiu a malvadez dos assassinos  que maquinaram e levantaram aquele instrumento de ignomínia. “Pai, perdoai-lhes, porque (os autores materiais, estes pobres soldados) não sabem o que fazem”.
Derrubar as cruzes, libertar os crucificados: quem quer alistar-se nesta campanha?...

   07.Abr.17
Martins Júnior


quarta-feira, 5 de abril de 2017

"DEIXEM ABRIL EM PAZ"…


Ninguém como Mestre Tempo para valorar pessoas e factos!
À luz deste guião percorro os 86 anos daquela que foi a maior afirmação de Portugal contra a ditadura nascente de Salazar: o “4 de Abril de 1931”. E à luz do mesmo critério escrevo na primeira oitava das comemorações ontem celebradas na Madeira.
O contraste entre o registo fotográfico de ambos os acontecimentos não podia ser mais eloquente: Em 31, foram as massas populares que abriram as hostilidades  contra o monopólio da farinha (o “decreto da fome” emanado do governo central) e a falência do banco madeirense “Henrique Figueira”.  Depois, os oficiais de Lisboa deportados na ilha integraram-se no caudal revolucionário que inundava o Funchal e  deram-lhe uma expansão mais incisiva, organizando-se contra a ditadura que começava a crescer no governo de Salazar. Foi uma avalanche gritante que jorrava do coração das gentes da ilha, com maior visibilidade no Funchal. Tal como, mais tarde, em 1936, na “Revolução do Leite”, outra vez contra os monopólios decretados por Salazar. Os ditadores chegaram a tremer perante a resistência do povo.
Ontem, “autoridades civis, militares e religiosas”, obedecendo  sem sangue nem alma  a um ritual  anémico,  ali para os lados do cemitério de São Martinho, acompanharam um ofício de altos dignitários regionais, em rigorosa fatiota de cangalheiros oficiosos,  que, à maneira dos seus progenitores políticos, fizeram o que se faz a um morto: depositaram coroas de flores. E os rapazes audazes só souberam perorar e bradar: “Mais Autonomia, mais Autonomia”  eles que, nos alvores da Autonomia, ainda estavam a sair da incubadora da adolescência, depressa aprenderam a cartilha dos velhos!
E aqui começa a mais atrevida desvirtuação  do 4 de Abril de 31, o equívoco insuportável que se foi propalando aos megafones da Quinta Vigia: “O 4 de Abril foi  o princípio  da luta pelo separatismo contra Lisboa, pela nossa independência, pela nossa autonomia”. Tudo baralhado para destroncar o cérebro do povo! Nada mais errado e desonesto, sob o ponto de vista estritamente  histórico. O “4 de Abril” não foi contra Lisboa, pois os militares que o lideraram eram cidadãos vindos de Lisboa e aqui deportados, entre eles, o general Sosa Dias, o capitão Freiria, o tenente Camões. A Revolta foi  contra a  ditadura salazarista.
Vejamos agora o truque de prestidigitação levado a cabo pelos corifeus do regime salazarista que, logo na manhã de “25 de Abril de 74” mudara de pele. Sigamos as semelhanças e as diferenças:
1)  Salazar mandou de Lisboa furibundos efectivos militares que sufocaram a Revolta. Na Madeira, o primeiro governador civil e militar pós-25 de Abril  e, logo depois, o presidente “vitalício” da Região não fizeram outra coisa: atiraram as tropas madeirenses contra o seu próprio povo, nas justas lutas da hotelaria, nas justas reivindicações dos produtores de cana sacarina. Os sucessivos ataques ao povo de Machico são a mancha mais ignóbil dos autoproclamados donos açambarcadores da Autonomia.
2)    Salazar vingou-se dos madeirenses cortando-lhes as verbas durante décadas. O autoproclamado chefe da Autonomia fez exactamente o mesmo: “Para Machico nem um tostão. Machico é do terceiro mundo” - “quarto mundo”,  acrescentava-lhe um decrépito secretário de todos os departamentos do governo de então). O actual titular não faz por menos: “As populações dos concelhos da oposição vivem pior que as dos concelhos do PSD” – como se não fossem os concelhos todos  da responsabilidade do governo regional!... E quanto a Machico, só agora o mesmo titular saiu da hibernação sonolenta, agora  (vésperas de eleições) é que promete  ressarcir as vítimas das intempéries, três anos depois !
3)    Se mais dúvidas subsistissem sobre as semelhanças dos insaciáveis esfomeados da autonomia ( só para eles!) e o regime ditatorial que esmagou a Revolta da Madeira, basta este blasfemo, antidemocrático e despudorado arroto do protótipo tentacular dessa Autonomia: “Eu bati o recorde do dr. Salazar no governo”.


      Servem estes apontamentos  (mais que desabafos, são constatações indesmentíveis) para ‘justificar’ os resíduos mortuários que ostentam nas mãos os autómatos depositantes de flores no dia “4 de Abril”  aos pés de uma Autonomia que parece cair em cima deles. É que eles não são dignos dos militares de outrora, lídimos exemplares do verdadeiro patriotismo contra o abuso dos ditadores. Nem dignos são  do Povo Madeirense que, em 1931,  abriu caminho aos valorosos militares, combatendo a exploração dos moageiros, os monopólios acobertados e protegidos por governos populistas e seus comparsas, entre os quais. as hierarquias eclesiásticas. Hoje como ontem. Lá estão todos, de braço dado.
    Apraz-me retomar aqui o que, muitas vezes e sob diversas formas, denunciei na minha passagem pelo parlamento regional, numa altura em que a bela estátua, da autoria  do nosso  talentoso escultor Francisco Franco, estava colocada à sua entrada:  “A Autonomia , até agora, resume-se  nesta breve  e evidente axioma: O Terreiro do Paço  mudou-se para o Terreiro do Semeador. O resto é  ilusão e ‘vã cobiça’ com que se engana o Povo”.
     Deixem Abril em paz!  


05.Abr.17

Martins Júnior 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

VITÓRIA É O SEU NOME !!!

 Desde ontem, domingo, vou escrevendo como quem corre pelos trilhos de uma maratona sem termo ou como quem canta em cima dos escombros da  própria casa esmagada  pelo furacão.  Porque é impossível viver sem olhar o pico alto, nem se consegue respirar senão abrindo os pulmões ao sol da madrugada, venha ela cedo ou tarde.
         Ontem foi a última passada para chegar às margens da Páscoa e onde se falou de soltar os cativos do túmulo e trazê-los à vida (Ezequiel,37, 12-14 ). Viu-se também o filme narrado de um tal Lázaro, ‘amigo do peito’ do Cristo taumaturgo, sair da tumba cavada na rocha e voltar aos caminhos reencontrados de Betânia, sua aldeia natal. (Jo,11, 1-41) .  Tocou-me as entranhas da emoção e da razão essa mensagem positiva, sublimadora, em manifesto contraste com os arroxeados crepes da chamada Semana Santa que tanto comovem as mentalidades tradicionais, secundadas pelos não menos tradicionalistas e taciturnos ritos que a acompanham.
         Que estranho fenómeno de masoquismo! Parece que os crentes deliciam-se na contemplação da derrota, na exploração mórbida do drama, do suor de sangue no Horto das Oliveiras, dos espinhos e das marteladas no Calvário,  a desnudação do manto inconsútil do Nazareno, enfim, alteou-se o Crucificado como símbolo e talismã supremo que importa ver e guardar a todo o momento. É o guião impressionista, até ao extremo insuportável, de Mel Gibson, cuja película muita e ‘boa’ gente adorou. Sem mais preâmbulos, o meu comentário cinge-se a uma simples pergunta: “Qual de nós gostaria de exibir, como único troféu ou ex-libris, a figura de seu pai, de sua mãe, de um seu irmão, publicamente humilhados num cadafalso, vilipendiados, quase-nús, irremediavelmente derrotados?”…
         Nem o próprio Redentor. Pelo contrário: o que Ele pretende é que O ajudem a transportar o madeiro, aliviar-lhe o martírio, como fez Simão de Cirene. O que Ele quer é que O  tirem da cruz, como fez José de Arimateia que até lhe ofereceu o túmulo da família,  estalagem transitória de sexta a domingo. E como a Mãe que,  já morto, O recolheu nos braços sustentados por uma força maior – a certeza da vitória, três dias depois.
         É por isso que os textos de ontem só falam do regresso à vida, à acção, à luta pelo triunfo da Verdade e do Bem. É por isso que o pico alto da Páscoa e a sua mais expressiva bandeira não são a cruz da derrota, mas o Cristo redivivo, libertador, triunfante, para fazer subir e triunfar toda a Humanidade. Assim fizeram protagonistas anónimos da história humana, companheiros de prisão, amigos debruçados sobre os abismos da depressão alheia, enfim, solidários activos, corajosos, com risco da própria vida,  desobedientes às leis dos ditadores,  mas salvadores de homens, mulheres e crianças, como  foram Aristides Sousa Mendes e Salgueiro Maia, comemorados  e ressuscitados hoje, 63 e  25  anos após a sua morte, respectivamente.
         Mas escrevo desde ontem, pensando e sentindo que há mais Páscoa a cantar dentro das quatro paredes da mesma casa e depois se alargam e projectam para o grande estádio desta comunidade.
Desculpar-me-eis este desabafo de estado de alma, mas não consigo ultrapassá-lo sem partilhar convosco. Seis anos selaram a urna branca do menino que brincava à nossa porta, que subia aos mastros engalanados das nossas festas e  que nos encantava a todos dedilhando as cordas do seu bandolim.  E nessa noite, foi paixão e morte antecipadas para seus pais que aceitaram nos braços um filho morto  – o único!  Vinte anos de primavera ceifados quando abria o mês de Abril…
Mas não quiseram os pais amortalhar-se nas lágrimas da campa breve. Ergueram-se à luz de um sol que os esperava por detrás da montanha abissal da amargura. E mesmo desafiando os imponderáveis da idade, pendente já para  a linha do  equador da vida, transformaram o luto em cânticos e dos espinhos fizeram pétalas de ouro, trazendo ao mundo essa mimosa manhã de Páscoa, a quem puseram o nome de Vitória! E o encanto voltou de novo à paisagem, encheu os nossos braços e agora  saltita feliz de mão em mão deixando sorrisos e ternuras infantis em todos os corações. Onde só havia uma cruz solitária levantou-se uma haste fina e bela  que se junta agora  às cerejeiras em flor  e aos aleluias pascais.
Desde ontem, estamos tecendo o hino à morte que se tornou Vida.  VITÓRIA é o seu nome.
É assim a Páscoa que queremos todos construir!

03.Abr.17

Martins Júnior

sexta-feira, 31 de março de 2017

ZECA AFONSO E EDMUNDO BETTENCOURT NA BAÍA DA CALHETA



Nada mais belo que atravessar a ponte nocturna de Março-Abril em terras da Calheta! Chamemos-lhe a ponte do amor e da saudade, iluminada pela força astral que nos uniu a todos : José Afonso.
Um grupo de amigos do Zeca - companheiros  na ‘Lusa Atenas’ - juntaram-se e, tocados pelo espinho doce da saudade, fizeram um pacto histórico e juraram: “Passados trinta anos da sua morte, temos de pagar-lhe condigno tributo”.  António Macedo, José Júlio, Luís Filipe, João Dionísio (dispensam o DR) mobilizaram-se nesta nobre cruzada, pediram o consenso da associação “Calheta-Costa do Sol”, do “Grupo Madeirense Fados de Coimbra” e o apoio logístico das entidades e, surpresa de sonho, abriram-se as ribaltas da “Casa das Mudas”. E o sortilégio aconteceu!
         Tecido de canto e poesia, o encontro atingiu o clímax com o esvoaçar romântico das guitarras coimbrãs, o fado clássico, as baladas, os textos e canções de intervenção, nas vozes de Luís Filipe, António Macedo, Jorge Abreu, Carlos Bettencout. Subimos todos ao Penedo da Saudade, descemos ao Choupal, ouvimos o repique da “velha cabra” da Torre da  Faculdade, enfim, regressaram ‘os Amores do Estudante’, vieram ‘O  Cavaleiro e o Anjo’ e nem faltaram ‘Os vampiros, que comem tudo e não deixam nada”. Foi um momento de catarse e libertação poder ouvir e acompanhar, de pleno direito, mensagens e canções nascidas nos subterrâneos da ditadura  cultural e política. Hoje, felizmente - sublinhava o José Júlio -  já ninguém nos virá prender.

         Noutro âmbito do encontro, sugiram os testemunhos vivos de quem conheceu pessoalmente o Zeca, inclusive da minha parte, evocando episódios marcantes da sua passagem pela Madeira, em 1976, e da repressão a que foi sujeito, mesmo após o ’25 de Abril’. Incrível, mas verídico!
         Uma nota singular marcou este tributo: a coincidência de realizar-se na Calheta. Foi desta freguesia e concelho que saiu o grande compositor e intérprete  do Fado de Coimbra, Edmundo Bettencourt,  cujas criações José Afonso, mais tarde, viria a reinterpretar na sua voz inconfundível. Enfim, duas almas gémeas e duas praias distantes – Aveiro e Calheta – entrelaçadas nesta noite memorável!
         Tudo muito terno e mobilizador, impecavelmente sentido e interiorizado pelo público que encheu o auditório das “Mudas”!
         A saudação que a AJA (Associação José Afonso) endereçou desde o Continente para ser lida no final, coroou este inestimável monumento de pura fruição espiritual, artística e social. À mesma hora, realizava-se em Santarém o mesmo evento com memórias e canções, por outros intervenientes, irmanados no espírito de  idêntica mensagem.

         A Fala do Zeca, na lousa nº 1606 do cemitério de Setúbal, em homenagem ao 30º aniversário da sua morte, poema já lido em Machico em 23 de Fevereiro de 2017, foi como que a trombeta de campanha mobilizando-nos a todos para a mesma causa. “Eu não morri, porque vivo em ti”.
         Na ponte pênsil de 31 de Março para 1 de Abril de 2017, prolongou-se o abraço de gerações que, de pé e em espontânea  apoteose, cantaram a alvorada de Portugal/74, enchendo toda a sala com o intemporal Grândola, Vila Morena.
         Valeu a pena!

31.Mar-01.Abr.2017
         Martins Júnior
        

  

quarta-feira, 29 de março de 2017

DE DEMOLIDOR DE PONTES A DESTRUIDOR DE IDENTIDADES


É um ‘não-assunto’ que hoje vos trago. E sem vontade. Precisamente por isso: por ser um ‘não-assunto’. Mas já que se mexeu nos alicerces de Portugal e se empurrou meia ilha para o ‘não-assunto’, eis-me aqui a transformá-lo em assunto do dia. Aliás, já me dei conta do seu parto deleitoso na acta-rábula que o SENSO&CONSENSO publicou em 03/01/17 , para cuja leitura convido os meus amigos.
Dois sinais de trânsito quero colocar à entrada. Primeiro: viva o maior jogador do mundo do futebol, nosso conterrâneo. Segundo: o ‘corajoso’ inquilino da Quinta pode pintar a casa e o roseiral  da cor do craque, pode tatuar-se  da cabeça aos pés do mesmo jeito. Que até fica jeitoso. Mas o que não pode é carimbar assim a ilha secular e obrigar-nos todos à mesma tatuagem, concebida numa noite luarenta e fumacenta na inauguração de um solar do craque.
Quanto ao mais, poucas palavras, mas as suficientes.
A Madeira encolheu e o portador da Taça perdeu. O que antes abarcava um enorme colectivo agora espremeu-se num busto irrisório. Para apresentar a Madeira e reduzi-la a um  par de chuteiras - é preciso ter tanto de ‘coragem’  quanta a miopia de senso. 
Por sua vez, o craque perdeu. E perdeu, porque dele só se ouviam aplausos, vivas, “não há outro maior que o homem das bolas de ouro”. E agora, estragaram-lhe o nome,  obrigaram-no a trepar abusivamente  um pódio que não era o seu, espetaram-lhe a cara no beiral do aeroporto, onde fica ali suspenso, sumidinho. “Cada macaco no seu galho” – comentava-se – e o dele não era aquele. E ele sem culpa nenhuma. E quando a ‘oposição’  dos ventos cruzados chutar para fora os aviões que querem entrar, lá estarão as femininas vozes dos altifalantes moendo a paciência: CR fechado, CR aberto, CR cancelado e outros mimos. Podiam poupá-lo a esta tortura.
CR7 é grande – com ou sem a Madeira.
E a Madeira é maior – com ou sem CR7.
São de um raro preciosismo os novos nossos governantes. É tal a sua originalidade que não fazem o que o Povo pede e tão depressa fazem o que o Povo não pede. Pergunta-se: “Foi você que pediu um apêndice no pescoço do aeroporto”?... Porque o que lá está não passa de um remendo mal deitado no colarinho da aerogare.  Ao menos por coerência, senhores, fizessem  algo de imponente e vistoso, como quadra ao “homenageado à força”. Enfim, coisa de saloio… E abalam-se as estruturas do país – Presidente e Primeiro Ministro – para um improvisado e teimoso carnavalinho de feira, a que não faltou um bodo aos pobres espectadores, sobretudo criancinhas às centenas, fora das aulas, em feriado também obrigatório.
De demolidor de pontes a destruidor de identidades –   titulei este ‘não-assunto’, da autoria do novo chefe da Quinta. Deixe a Madeira em paz no frontispício do nosso pórtico primeiro. Ela é a nossa identidade genesíaca. Ela é maior e mais bela que qualquer um dos seus filhos! Quem sabe se, pelo mundo inteiro, virão reis do oriente e do ocidente, coreanos e lapões, em busca da “ilha CR7” e, por engano, ao aterrar, descobrirem que é a Madeira?!...
Não chega. Mas fica-se por aqui. Porque o “histórico feito” não passa de um vulgar ‘não-assunto’.  Só faltou ensaiar aos meninos (graúdos e miúdos) o hino da Mocidade Portuguesa dos velhos tempos em que o mudaram o “Estádio dos Barreiros” para “Estádio Marcelo Caetano”:
“Lá vamos cantando e rindo
Levados, levados, sim”
Levados, mas não todos. Eu também não.
         E quem pensar de outra forma tem também o seu direito.

  29Mar17
Martins Júnior
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segunda-feira, 27 de março de 2017

UM PROCESSO COM MILHÕES DE VOLUMES E SEM FIM À VISTA


       Hoje sei que  vou em contramão. Vou para a ilha. Para uma outra ilha, indiferente à paranóia ululante dos’ circos  quadrangulares’  onde é rainha uma esfera de couro. Quem for comigo tomará conta de um processo milenar que continua na barra do tempo.
Ele era um operário trintão, tisnado do sal e do sol  lá das bandas orientais. De palavra clara e olhares contraditórios, ora ternos como os de uma criança,  ora faiscantes como brasa, , arrastava as multidões. Chamavam-lhe até “O Sedutor”. Com ele, os mares abriam-se à passagem e os penhascos do medo sucumbiam de espanto. E tudo era caminho chão, tudo manhã de aventura nos corações insofridos. O povo adorava o seu líder operário, que dava voz e força a quem as não tinha.
Mas não era esse o seu tempo. A ditadura dos homens devorava ossos e cabeças, sobretudo dos que ousassem afrontar a lei, o império, o templo. E foi decretado: “Quem disser bem desse homem é preso e posto fora do povoado” .
Ora, um dia o ‘sedutor das multidões’ encontra um cego de nascença e abre-lhe os olhos. E começou a ver. Mas antes que a notícia corresse, era preciso afogá-la na fonte,  na própria boca do feliz contemplado, agora vidente. É arrastado clandestinamente ao tribunal do poder absoluto e apertado com uma lista de quesitos, tudo para convencê-lo a dizer que o suposto  benfeitor era um falsário, um impostor, um criminoso público.. E, “termos em que” não podia ser o autor daquela cura mágica. E se persistisse nesse  seu ‘ embuste’ seria expulso do povoado. Tudo  em vão. O rapaz só contava os factos. E daí não saía.
Já que as ameaças não  resultaram, os pais são intimados ao tribunal para jurar que  aquele não era o seu filho cego e que, ao menos, pusessem em causa o acontecido. “Não sabemos como aconteceu, perguntai ao próprio que ele já tem idade de responder”. Era asfixiante, inelutável, tenebroso,  o medo de reconhecer a verdade dos factos e atribuir o feito ao seu legítimo autor. Porque pairava no ar a inexorável  guilhotina  do momento: “Será réu quem disser bem desse revolucionário impostor”.
Novo interrogatório, pidesco e torturante, ao cego, agora vidente, sujeito ao massacre de lavagem de cérebro para negar a evidência. “Aos costumes, disse nada” e manteve a palavra dada.  À pergunta do réu – será que quereis ser adeptos do homem que me curou? – saltaram os magistrados  de toga,  vociferaram os ministros do templo e caíram como lava os anátemas, as pragas, todas as maldições em cima do pobre cego. Até que o expulsaram do local, enfim,  proscrito e corrido  do próprio templo.
O Templo era, então, mais forte que o Trono. Saiu, pois,  o pobre mendigo condenado no tribunal de  Deus e no Juízo dos homens. Mas a sentença capital tinha outro destinatário, era outro o réu procurado, “Vivo ou Morto”. Acabaram por achá-lo, denunciado por um pérfido  delator, suposto amigo seu . Chutado da terra, assassinado a céu aberto, como um bicho repelente. Ele, o revolucionário pacífico, solidário com os conterrâneos e vizinhos, o construtor de pontes, o Sedutor das multidões!
_________________________
 Foi isto que os Autos bíblicos apresentaram ontem oficialmente  a todo o mundo, em João.9, 1-41. Muitas foram as interpretações, umas místicas, outras metafóricas, outras poéticas e sociais.
Mas a rudeza dos factos não suporta mistificações. É nua e crua. O poder totalitário e o furacão do obscurantismo, quando revestidos da aura religiosa, não olham a meios para chegar aos fins, sempre de um requinte maquiavélico: calar ou manipular a notícia, arregimentar a Censura, distorcer a realidade, formatar e deformar quem se lhes opõe, vale tudo – marketing, palavras de ordem, ameaças, suborno, corrupção – vale tudo até à exaustão. E a exaustão  (antes eram as arenas selváticas, a fogueira da Inquisição, os fornos crematórios) ) hoje é a liquidação fria, o ostracismo social, o assassinato e depois…”quem é o senhor que se  segue?”…talvez um sindicalista, uma mulher activista, um professor, um profeta dos tempos presentes e futuros… e, quem sabe, um Francisco Papa!  
Porque o “Processo de Jesus”  não tem fim à vista, enquanto o mundo não acordar. Enquanto nós, também…

27.Mar.17
Martins Júnior


sábado, 25 de março de 2017

RENASCER AOS 60 ANOS: ALVÍSSARAS, VELHA E NOVA EUROPA!


Não podia fechar este 25 de Março europeu, prenúncio do 25 de Abril português, sem entronizá-lo dentro de mim. Porque eu também sou Europa. Queira ou não queira, ele mexe comigo. Mais que a Hora do Planeta, mais que todas as velas acesas no mega-apagão do mundo, a Criança-Infanta nascida em Roma no ano da graça de 1957 cresceu, fez-se jovem mãe, gerou no seu seio quase trinta rebentos de esperança, entrelaçando num mesmo abraço povos e línguas do norte ao sul, do nascente ao poente deste velho continente. Venceram-se barreiras atávicas de nacionalismos despóticos, abriram-se passagens de nível entre estados através do ‘espaço Shengen´, de uma família “a seis” evoluiu-se para a grande roda dos “vinte e sete” que fizeram crescer um aglomerado de 185 milhões para um total abrangente de 510 milhões de cidadãos-irmãos do mesmo tronco comum. De assinalar que o produto interno per capita subiu de 15.000  para 52.000 euros, segundo as estatísticas oficiais.
É verdade que nem tudo foi um mar de rosas. Por isso Charles Kupman, ex-assessor de Barack Obama, classificou esta comemoração como um “aniversário agridoce”. De  60 anos de progresso, é certo, sobrevieram 10  anos de crise, sobretudo desde 2007,  ao ponto de vermos proliferar o joio da desagregação iminente, a partir do mais recente  caso Brexit. Apesar de  nascida sob o firmamento da “Cidade Eterna”,  os sucessivos tutores têm-se desviado da matriz original impressa pelos seus progenitores. E de  um pacto de Europa Unida, foram-se degradando os seus genes, dando lugar a novos egoísmos centralizadores, a neo-nacionalismos exacerbados e à exploração do mais forte e mais rico sobre o mais fraco e mais pobre. Sempre o cancro insaciável do capitalismo, sobretudo o financeiro, a imperar, como outrora, num continente e num mundo que se previam igualitários e justos!... Neste parágrafo incluo uma outra vertente, a dos cidadãos – nós, os europeus – que deveríamos estar mais atentos e vigilantes nas decisões que, às ocultas, os presumíveis representantes nossos assumem  nos longínquos areópagos  ‘bruxelianos’ sem que deles tomemos consciência alguma. Refiro-me também, neste item, à aplicação dos chamados fundos comunitários que ficam quase sempre nas mãos dos mesmos comparsas do poder político de cada país-membro ou de cada região, com prejuízo do trabalhador anónimo, do camponês, do pescador, do funcionário público. Aqui, tem de haver quem desperte a vigilância popular, para que não se nos atribuam os baldões que o ‘super-tesoureiro’ da Eurogrupo, o holandês Dijsselbloem,  lançou contra os países do sul.
Não obstante este decénio de obstruções e perigos que, à semelhança de uma espada de Dâmocles, pairam sobre a Europa, há um recanto de ponderação e de conforto onde nos podemos abrigar e que se pode compor na seguinte reflexão: Só abraçamos decididamente um bem quando o comparamos com o mal onde vivíamos antes. E só o apreciaremos o suficiente  quando e se, algum dia, o viermos a perder. Aquela amálgama de territórios, separados como hordas ribais, de  ante-1945, essa Europa sangrenta e fratricida, NUNCA MAIS! Basta lembrar as duas grandes guerras (1914-1918 e 1939-1945) as quais  foram geradas dentro da própria Europa, com maior responsabilidade para o conflito franco-alemão. Adeus, guerras dos 10, dos 30, dos 100 anos! Saiam dos sepulcros os milhares e milhões de vítimas inocentes e bradem aos  eventuais povos delirantes,  desejosos de sangue!
Foi belo e comovente aos olhos de quem se sente tripulante destoutra “jangada de pedra” que é a Europa ver os novos timoneiros do Velho Continente -  herdeiros de Jean Monnet, Konrad Adenauer, Jacques Delors – voltarem  ao berço onde nasceu este sonho de uma Europa Unida, o Tratado de Roma! A coroar a Grande  Efeméride “agridoce” surge algo de novo: Francisco Papa, não tanto como o propagandista de uma Igreja, mas como intemerato e apaixonado bandeirante da Paz e da Fraternidade na Europa e no Mundo que, na sua exposição, apontou as pistas do futuro: Sarar as feridas do percurso e Marchar sempre em frente. Mesmo sabendo que o braço de ferro do capitalismo  financeiro não desiste de esganar os mais fracos, opúnhamos  a força maior do exército pacífico  de todos nós, participantes e construtores da enorme Família Europeia.  
A estes quatro parágrafos que, como o trevo das quatro folhas da sorte e da felicidade,  ofereço no 60º aniversário, junto mais uma  cereja  em cima do bolo – esta colhida no cerejal da minha crença bíblica:  o dia 25 de Março, no calendário litúrgico, celebra a Anunciação daquele que mais tarde surgiria como o Messias Libertador  da Humanidade. O voto que faço é que  o documento hoje assinado e reconfirmado pelos “27” em Roma  signifique o arcanjo anunciante de uma Europa Melhor  e de um outro Mundo Novo!

   25.Mar.17

Martins Júnior