quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

ANTES FOSSEM PÓS-VERDADES, ANTES SEJAM “FAKE-NEWS”

                                                                    

Aeroporto fechado… Aviões parados,,, 3000 passageiros em terra… Ventos a mais de 100Km… Árvores arrancadas… Estruturas destruídas… Açoites da chuva e negrume das nuvens…
Oiço o eco repetido de Pessoa – Ó Portugal, hoje és nevoeiro!
Para onde vamos”… Onde é o caminho?... se é que há caminho.
Hoje sou o aeroporto encerrado, o avião parado, o passageiro amarrado, o vento sem norte, o açoite, o negrume.
As “bombas” que hoje rebentam com os ecrãs e encharcam as remas dos jornais deixaram-me assim, de mãos atadas. Amanhã, talvez se desatem sobre o teclado expectante.
Vou esperar que o vento amaine para transpor a ponte que me leva do último dia ímpar de Janeiro até ao primeiro dia ímpar de Fevereiro.
Passo a noite em claro, na ilusão de que o furacão da notícia não passe de mais um estalo das fake-news, de mais outra pós-verdade.

31.Jan.18/01.Fev.18
Martins Júnior  

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

MADEIRA : TERRA DE FENÓMENOS E FANTASMAS – 4 PERGUNTAS À ESPERA DE MILHARES DE RESPOSTAS

                                                        

Nunca foi tão curta a minha mensagem dos dias ímpares. Perante os últimos desenvolvimentos na ilha, (aos quais não  tecerei por enquanto  qualquer comentário) vou pôr a descoberto quatro perguntas, reduzidas a uma única incógnita. Digo “pôr a descoberto” porque as guardo, desde que alguém da escrita e do jornalismo, fora da ilha,  mas colocou, há um certo tempo, e às quais tenho de responder.
E lá vão as 4 reunidas numa só:

Que território é Madeira que produz fenómenos tão estranhos e “audazes” como estes:
1
Um bispo lisboeta da área salazarista vir inaugurar o 25 de Abril da Igreja madeirense e nomear um presidente da ilha?

2
O mesmo presidente aguentar-se no governo da Madeira tantos anos como  Salazar no  governo de Portugal?

3
Três padres madeirenses integrados em partidos comunistas/marxistas?

4
Um padre brasileiro, secretário particular do bispo da        Madeira, evadido da  prisão, depois de condenado por pedofilia (e não só) a 17 anos de cadeia?

Porque tenho de responder ao meu interlocutor, ajudem-me,
Outras perguntas haverá,  mais recentes e, talvez  por isso, o jornalista não juntou ao cardápio quadrangular.
E fica a incógnita: Que segredos traz no seio esta ilha tão pequena para produzir frutos tamanhos?

29.Jan.18
Martins Júnior

    

sábado, 27 de janeiro de 2018

27 DE JANEIRO - HOLOCAUSTO E CÂNTICO

Separados pelo abismo de quase dois séculos, não consigo dissociá-los de mim mesmo: o fim do  Holocausto (1945) e o nascimento de Mozart (1756).Nada mais reconfortante que imaginar o violino de Mozart quando se abriram os férreos portões de Auschwitz.

                                                         


Foi preciso que as metralhas
Caíssem mudas no chão
Foi preciso que as fornalhas
Devolvessem aos ossos em cinza
O brilho da carne reluzente
Que engoliram

Tinhas de estar ausente
Desse deserto-jaula de horror e gritos
Ninguém te ouvia
Nem te sonhava sequer
A etérea sinfonia
E aquela maga flauta
Escrita na futura pauta
Da tua mão a haver

Tendo vindo antes
Chegaste depois
Da tragédia infernal 

Vem de novo
Alça o estro de outrora e lavra
O Requiem para Israel, a cruel
A assassina
E tece a Marcha Triunfal
Para a ainda e sempre mártir Palestina

27.Jan.18

Martins Júnior

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

“O PRAZER DE VER TRUMP A DERRETER-SE”

                                                      

“O arco sempre tenso perde a elasticidade” – já o descobriram os filósofos epicuristas da velha Grécia. Por isso e para que ele não perca  a  capacidade  propulsora que lhe é intrínseca, torna-se necessário descomedi-lo, destemperá-lo de vez em quando para que, ao retesá-lo de novo, ganhe a energia de uma flecha afiada.  Traduzindo em linguagem nossa, de animais sensitivos, é saudável descontrairmo-nos, dar largas à ‘insustentável leveza’ da brisa que povoa o nosso crânio, enfim, soltarmos uma gargalhada vadia. Porque a rir também se aprende.
É o caso. Devo confidenciar que uma das mais subtis formas do talento humano vou encontrá-las, imaginem, nos chamados cartoon’s dispersos em jornais e revistas. Acontece, até,  comprar uma publicação só pela imaginação criadora do cartoonista de serviço. Se uma imagem vale mil palavras, posso afiançar que, em certos traços de génio, uma caricatura vale mil imagens.
É o que transcrevo, hoje, do El País, com o mesmo título que lhe deu o jornalista. Tudo por causa de uma vela. “O prazer de ver Trump  a derreter-se”.
As voltas e retortas que uma vela pode dar. Símbolo da fé, velório de saudade, canção felicitante de aniversário natalício, chama de amor romântico na mesa de namorados – tudo isso, tudo, reduzido a uma escancarada gargalhada de caserna… A metamorfose semântica de um nobre  significante e o verrinoso sarcasmo do seu significado! Aí está o talento de Curro Chozas  e Juan Oubina, criativos publicitários, ao espalharem por milhões de americanos, milhões por todo o mundo, o busto de Trump, moldado em cera maciça, ostentando na cabeça o pavio cerebral, símbolo da esquizofrenia megalómana e da sua mais requintada auto-destruição.  Enfim, um bobo, nada  devendo à boçalidade de Nero. Para ‘iluminar’ a cena e a sua mensagem, uma ingénua legenda: “É só uma questão de tempo”!
                                                       

O poder da ironia! Esse toque de estética e virulência que imortalizou o ‘nosso’ Eça! “Sete gargalhadas e meia à volta da muralha  da cidade bastam para deitá-la ao chão”…  Quando trabalhada com mestria,  a sátira é mais poderosa que um exército.
Tenho para mim que a “vela de Trump” fez mais estragos que as tentativas de empechment  já ensaiadas, sem êxito, do Senado americano. Ouso mais: o “Trump de cera” já o destruiu mais que os ameaçadores mísseis do atarracado  norte-coreano. Aquele pavio erecto tem a potência de uma implosão silenciosa, em que o protagonista é autor e vítima de si próprio.
Resta saber se, enquanto duram as 170 horas de lenta combustão do ‘bolo’ encerado, o homem terá tempo de vingar-se de Curro Chozas, cartoonista espanhol, residente em Los AngelEs…  Risadas à parte, não deixa de ser deprimente para o nosso mundo a vela – e, mais que a vela astuta, o perigoso  vexame do país mais poderoso do planeta.
“É só uma questão de tempo” – oxalá  seja assim. Para a salvaguarda civilizacional do século XXI.

25.Jan.18

Martins  Júnior.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

A PARTIR DE AMANHÃ, SETE MULHERES NO TOPO DO MUNDO

                                                         
São assim os grandes eventos:  espectaculares no enunciado publicitário, mas camuflados, quase sigilosos nos seus meandros, nos bastidores da cena ou nos corredores dos palácios onde se realizam. É o caso de “Davos”, que receberá amanhã a visita de mais de 3000 personalidades, as mais poderosas e influentes na área da finança e na política, sob o signo do  “Forum Económico Mundial”.  Durante três dias plenos, estarão sobre  a mesa dos debates as grandes questões que afectam a Humanidade, este ano direccionadas para a saúde, educação e ambiente. No entanto, outros dilemas, desde os conflitos de soberania até aos de ordem empresarial e comercial, desfilarão mais ou menos discretamente entre os magnatas do mundo. Por exemplo, a presença de Donald Trump, contra o qual se preparam grandes manifestações. Para nós, portugueses, paira a dúvida sobre o que se há-de passar no encontro António Costa e João Lourenço, a propósito do processo Fizz,  com as perigosas consequências que poderão advir  para o relacionamento Lisboa-Luanda.
Mas o ponto alto deste areópago mundial consiste em algo de inédito e decisivamente imponente: a magna reunião dos mais poderosos do mundo será dirigida por um colégio de sete mulheres. O jornal madrileno El País, atendendo a esta circunstância singularíssima, titula: “A Hora da Mulher no Forum de Davos”. O prestigiado septeto feminino que tem a seu cargo a organização e direcção dos trabalhos  reúne um leque auspicioso marcado pela matriz universalista, quase ecuménica, desde, entre outras,  Erna Solberg, primeira-ministra da Noruega, Chetna Sinha, presidente da Cooperativa de Crédito Mann Deshi, Índia, até Chistine Lagarde, directora do FMI e Sharan Burrow, secretária-geral da Confederação Internacional de Sindicatos.
Mas a originalidade deste directório vai mais além: num forum de tamanha grandeza (basta dizer que é o próprio Rei Felipe VI que chefia a representação espanhola e usará da palavra) são as sete mulheres que dirigem os trabalhos, em total exclusividade, isto é, sem a participação masculina. Dir-se-á que é uma prova “por excesso”, em absoluta contradição com a praxis de Davos. Mas não é. Trata-se de uma luta que vem de longe, dentro da própria organização.  Actas de encontros anteriores relatam as insistentes intervenções e atitudes  das participantes contestando a usurpação machista dos centros de decisão e direcção do acontecimento. Pelo que, a maior revelação de Davos/2018 e aquela que, eventualmente, passará desapercebida do grande público, é a afirmação da Mulher, mercê da sua porfiada luta pela igualdade de género.
Em conclusão e desabafo, permitam-me justificar a presente reflexão. É verdade que Davos não representa o melhor da Humanidade, antes significando para alguns críticos um ardiloso instrumento para altos negócios em detrimento da grande massa trabalhadora. Mas, dando o benefício da dúvida, é forçoso reconhecer a vitória do poder da Mulher na organização do mesmo. E aqui vai a nota final, essencial: não me agrada mesmo nada  nem me convence quando vejo um  homem a defender os direitos da mulher. São elas, as mulheres, que têm de conquistar o seu lugar ao sol. No campo ou na cidade, na fábrica ou em casa, na escola ou na rua. Sem medo. Sem complexos. Com a coragem daquelas mulheres que se manifestaram corajosamente no Chile, diante do Papa, contra os crimes de pedofilia perpetrados por clérigos. Ou como “As Sete Mulheres do Minho”, brilhantemente cantadas pelo ‘nosso’ Zeca Afonso.  Ou até mesmo, como estas sete mulheres que, a partir de amanhã, estarão no topo de Davos/2018.

23.Jan.18
Martins Júnior
  
              

domingo, 21 de janeiro de 2018

1961 – 1974: ENTRE A NOITE DE HOJE E O DIA DE AMANHÃ VÃO 13 LONGOS ANOS!

                                            

À saída do porto de Curaçau,  os nervos  cortam-se no olhar furtivo dos 23 elementos da Direcção Revolucionária Ibérica de Libertação, embarcados juntamente com os 612 passageiros, quase todos americanos, e 350 tripulantes. O cérebro da arrojada operação, um distinto oficial do exército português, 66 anos de idade, Henrique Galvão, comanda em absoluta clandestinidade os movimentos, Dentro do navio “Santa Maria” o coração batia-lhe mais forte. Longa esta noite de 21 para 22 de Janeiro! Na casa das máquinas, Camilo Mortágua, dá o primeiro alarme. É então que estala a notícia: o navio, um dos maiores da Companhia Colonial de Navegação, passa a chamar-se “Santa Liberdade” e o seu destino é  Luanda, onde teria início a grande marcha para  derrubar o regime de Oliveira Salazar, sediado em Lisboa.
Alevantado e nobre era o sonho, o de libertar o Povo Português das garras opressoras do fascismo vigente! Mas circunstâncias adversas fizeram abortar o plano. E o caminho dos corajosos autores voltou a repetir-se: o exílio.
                                                

Porque a memória dos homens é escassa, trago hoje a reminiscência  dos 57 anos, entretanto transcorridos - amaldiçoados pelo regime, alcandorados pelos verdadeiros patriotas e esquecidos por muitos. É verdade que o brilhante capitão Henrique Galvão não conseguiu ver o sol da manhã que tanto almejara. Ele e os seus companheiros de luta. Mas foi então que começou a tremer o império da ditadura até cair de vez em 1974. O plano daquela noite de 1961 continuou  clandestinamente nos trágicos efeitos da guerra colonial, nos quartéis, nas universidade, nas fábricas.
Nunca é vã a utopia, desde que ponhamos nela o melhor do nosso afã!

21.Jan.18
Martins Júnior

     

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

PEDAÇOS DE UMA ATRIBULADA VIAGEM AO CHILE

                                                   

Esta é mais uma das três igrejas incendiadas durante a visita do Papa Francisco ao Chile. Aproveito o registo fotográfico para continuar a  reflexão do último escrito e a que dei o título “Quando o protestar significa apoiar”. Junto, pois, este macabro episódio ao veemente protesto dos cristãos daquele país contra o silêncio conivente das hierarquias eclesiásticas face aos crimes de pedofilia na Igreja, perpetrados por bispos e padres. Aí afirmei que o protesto da multidão, tendo embora como  pano de fundo a passagem do Papa, não tinha por alvo a sua pessoa, mas a instituição que dirige, tendo em conta que ele, mais que ninguém, tem condenado até à exaustação tais crimes. Na veemência desse protesto o Papa viu um incentivo à sua luta contra os “corvos negros” que povoam o Vaticano.
O mesmo se passa com as igrejas incendiadas naquela região, outrora catequizada por missionários oriundos de Espanha – a Espanha dos “Reis Católicos, Fernando e Isabel”. Os bárbaros atentados contra três templos católicos ultrapassam a mera provocação circunstancial a Jorge Bergoglio, cuja personalidade moral e humanista é altamente reconhecida por todos os credos. O cerne da questão pretende atingir, denunciar e condenar uma Igreja que, aliada aos processos de colonização dos indígenas de África, Ásia e América, criou antros de exploração desses povos, sugando-lhes riquezas do solo e subsolo e cravando-lhes na pele o ferrete da mais desumana escravatura. E, ainda por cima,  toda essa caterva de criminosos sobas bafejada com a bênção aguada da Santa Madre Igreja Romana!
Trago hoje esta reflexão como toque de alerta para todos os que têm responsabilidade (e temo-la todos nós, parcialmente) sobre o tecido social ou cultural a que pertencemos. “Tudo se paga” – dizia a protagonista, a “Velha Senhora”, da peça de Francis Durrematt. As guerras anti-coloniais, os ódios raciais, as trágicas pègadas de tempos imemoriais aí estão para demonstrá-lo! Não é impunemente que se agride um povo ou se lhe causa algum dano. Cedo ou tarde – filhos, netos, bisnetos – pagarão a factura do dano. Ainda que os ‘pagantes’ sejam inocentes. Como este Papa que carrega, sem culpa,  o ónus de uma instituição que vem de longe. Daí, a sua dor e a sua indignação, as quais se traduzem para nós num forte estímulo  de honra e auto-vigilância no posto que ocupamos, seja ele um templo, uma cátedra ou um simples agregado familiar.
A História não esquece e a Natureza não perdoa!

19.Jan.18
Martins Júnior