sexta-feira, 13 de março de 2015

OS ADEUSES AMANTES E SIAMESES


         Não é com prazer que perco tempo e gás voltando ao mesmo tema, pelo contrário, é com desgosto, contragosto e “des-fado” ocupar-me de cenas que mais são de esquecer que de lembrar. Mas seria uma “enorme perda” para a memória futura este teatrinho de cordel, espécie de cinema mudo,”não há declarações”, do impagável Charlot e que dá pelo nome de despedida do rei, mesmo que saia nu.
         Depois do bispo (e com toda a justiça, porque o homem deve tudo à Igreja que o pôs e impôs no trono) foi a vez do sisudo e “mal amado” Representante da República e, ainda, do, agora anafado e almofadado,  Presidente da Assembleia Legislativa Regional. Que macieza e que hipocrisia o abraço derradeiro de dois amantes siameses! Foi este último que, já lá vão alguns anos, jurara publicamente: “Quando o presidente do governo sair eu também saio”. Mal se percebe, pois, esta liturgia fúnebre para com alguém que, mais dia menos dia, também estará na rua ou nas ilhas Seichelles gozando as “justas” mordomias adquiridas em 37 anos  de fidelíssima companhia. Fidelíssima, ma no tropo, dado que o ainda ocupante do cadeirão da ALR entrou no Parlamento pela mão do Partido Socialista, como simples deputado: eram os tempos do PREC e da Constituição para o socialismo, mas depois,  com a subtileza do réptil, foi-se deixando deslizar  para o PSD e ali ficou embalsamado e perfumado em  secretário regional e, mais tarde,  presidente parlamentar. “Viver não custa, o que custa é saber viver”, já o avisou a filosofia popular.
         Sei lá o que, no recôndito do gabinete, disseram a fome e a vontade de comer. Nem me interessa. Agora, o que me obriga a consciência cívica e política é uma saudação ao futuro Presidente da Assembleia Legislativa Regional. E faço-o, em contra-luz, para que o público, ao  revelar o negativo da fotografia, veja o negrume que durante anos manchou o assento da primeira jila dos órgãos autonomia insular:
         Que o futuro Presidente da ALR não seja:

1. Uma marionete invertebrada nas mãos do inquilino da Quinta Vigia.
2.    Um joguete de um qualquer anão, físico ou mental, mesmo que investido nas funções de líder parlamentar do partido mais votado.
3.    Um corrupto político, de satisfação alarve, que se delicia com os dislates dos deputados do seu partido contra as minorias da Oposição indefesa.
4.    Um cobarde vira-casacas que se faz forte com os fracos e fraco com os fortes.
5.    Um vilão “rural e autoritário” que interpreta como fraqueza a educação comportamental de um deputado da Oposição.
6.    Um enfatuado simulacro da autoridade que precisa de um valente abanão quando um deputado da Oposição o afronta e responde à-letra com a mesma agressividade da Maioria protegida.
7. Um subserviente acocorado que jura fidelidade canina aos desmandos da segunda figura da Autonomia.

         Finalmente, agora pela positiva, que seja vertical, justo, imparcial e julgador em caso de prevaricação de qualquer deputado, quer da Maioria quer da Oposição e faça da Assembleia aquilo que ela constitucionalmente representa: o Primeiro Órgão do governo próprio da Região Autónoma da Madeira.
Se me for permitido, deixo aqui um alvitre ao ora despedinte e futuro ex-ocupante da Quinta: leve consigo ao beija-mão  os seus rapazes, os antigos e os modernos, a quem sempre tratou por “pequenos”, embora de vez em quando os alcunhasse de “delfins” para contentá-los e, depois, queimá-los em lume brando até ao churrasco final. É a vida…
         Caros amigos e amigas, entendamo-nos: o tédio que ressuma deste meu dia ímpar tem o mesmo tamanho que o imenso desejo de ver, a partir de 29 de Março, uma Autonomia renovada, uma vitória de Domingo de Palmas e o prenuncio de uma verdadeira Páscoa sócio-política, económica e cultural para a nossa Região.

13.Mar.2015
Martins Júnior

quarta-feira, 11 de março de 2015

DESPEDIDAS SEM ENCANTO


Devem ter notado já os meus interlocutores que não me apraz debruçar sobre a casuística caseira e rasteira, protagonizada pelos olheiros e (mal) feitores cá da horta política ilhoa. Para esse peditório já dei. E muito. Prefiro agora abarcar as sínteses, o planisfério global em que se movimentam e armadilham as ideias, os artistas prestidigitadores e as marionetes deste palco breve que é a vida.
         Mas abro excepção neste fim de tarde, porque não é todos os dias nem todos os anos --- aliás, nunca se viu  nos últimos supra-salazarentos 37 anos --- assistir “ao vivo” a um espectáculo tão comovente: o inamovível inquilino da Quinta das Angústias andar, de corrico em corrico, batendo à porta dos seus comparsas, afilhados e padrinhos, no beija-mão da despedida. Ternurento e trágico: agora todas as portas se abrem, não para entrar mas para sair.
         Hoje foi a vez do Prelado Madeirense. Esta cena merecia bem a pena mefistofélica de um Eça ou a paleta pontiaguda de um “Charlie Hebdo”.  Aqueles suspiros de amados e amantes, aqueles olhos multifacetados confundindo o soalho com o tecto, gestos embrulhados em toucinho desde o pescoço até à cinta… Que terão dito aqueles corpos, que de juras de saudade eterna, que de prantos incontidos naquele palácio, que até os passos fugitivos não deixaram fazer declarações extra-muros?! “Graças vos dou, Senhor Bispo,  pelas sacro-profanas cerimónias em que fostes o mestre e patrono”, foi sem dúvida o lamento que ficou lá dentro, acordes lentos de um funeral anunciado.
         Mas o caso é muito mais sério. O gesto de gratidão não se dirigiu apenas ao actual inquilino do Paço, mas ao todo que aquela casa representou de cumplicidade, ambiguidade, roçando mesmo a criminalidade, na troca de inconciliáveis enriquecimentos. Desde a oferta dos altares aos pés do trono  político-partidário, em que as igrejas da Madeira tiveram de ajoelhar-se perante um herdeiro do fascismo português. Desde o abandono da cerimónia dos Crismas para juntar-se ao governo na inauguração de um hotel. Desde o envio da polícia armada para ocupar uma modesta igreja rural e, na mesma altura, ter comparado um pederasta brasileiro a Jesus Cristo pregado na cruz. Desde o pedido ao presidente regional para instaurar processo judicial (que veio a perder) contra um padre anti-regime. Desde a  traição de Judas na entrega do Jornal da Diocese ao partido e ao governo regional.  E o muito mais que um dia será descoberto e contado.
         As mãos que mutuamente se apertaram à despedida não estão limpas. Há nelas muito da  peçonha que aliou  Herodes e Anás. Pilatos e Caifás.  Nunca seria tão audível e maléfico o grito de um se não fosse o silêncio cobarde do outro!
          O pontífice da cruz dourada e cinta vermelha já não será mais o primeiro a chegar à mesa de honra e esperar pelo presidente para indicar-lhe o lugar central, como se revelou eloquente e reverentemente no primeiro acto oficial conjunto, a sessão do Dia do Concelho em Porto Santo, 24 de Junho de 2007.
         Nenhum deles se lembrou do esforço gigante que, no futuro, terão de fazer os titulares do Paço Episcopal e da Quinta Vigia para apagar o rasto viscoso e cúmplice que deixaram. Tal como o Papa Francisco para libertar-se dos “lobos” sem escrúpulo da Cúria vaticana.

11.Mar.2015
Martins Júnior

segunda-feira, 9 de março de 2015

O CHICOTE EM CIMA DOS BANQUEIROS


         Pegou num azorrague improvisado e, furiosamente, correu com os negociantes, escorraçou o gado que vendiam, tombou as mesas dos banqueiros que ali trocavam moeda e bradou em alta voz:”Fora daqui! Fizestes da Casa do meu Pai uma casa de comércio!
         O sujeito activo deste sobressalto não foi um polícia nem um centurião romano nem um fanático jihadista. Foi, nem mais nem menos, o protótipo da tolerância, do diálogo, do perdão, o nosso J:Cristo, conforme vem narrado no texto de Marcos, ontem difundido nas cerimónias dominicais para todo o mundo. O cenário foi o Templo de Jerusalém. Mas poderia sê-lo hoje, aqui e agora.
         Hoje! Traz  o  “Le Monde”, em 1ª página, a notícia de cidadão francês  emigrado na Alemanha Thomas Bores  a quem o fisco cativou um montante de 550 € , ao abrigo do acordo entre  o governo e as  Igrejas, por força do qual o cidadão tem de descontar para o culto.  Não obstante ter-se declarado actualmente  sem religião, o bispo de Berlim mandou pedir ao episcopado francês que lhe mandasse a certidão de Baptismo do homem. O caso envolveu o deputado francês Pierre-Yves le Borgn que contestou a pretensão do berlinense com base na directiva europeia 95/46 CE que proíbe a divulgação de tal informação para fins de ordem tributária. Enquanto o litígio continua, refere o matutino que “o episcopado alemão, em confronto com  Roma, nega os sacramentos aos católicos incumpridores do dito imposto. Diz ainda que para “desvincular-se  da sua religião  será penalizado  numa coima de 30€”. Ninguém, por certo, deixará de censurar este estranho conúbio entre os dois poderes, degradante e contra-natura, de constituir-se o Estado em cobrador dos impostos que depois entregará às Igrejas.
Estamos perante o grave escândalo de uma religião, seja ela qual for,  que, em nome de um Cristo proletário, se apresenta majestosa e opulenta, quer na magnificência dos templos, quer no fausto dos seus “príncipes”,  dos seus palacetes residenciais e, pasme-se, na simoníaca invenção das suas instituições bancárias, o sacrílego Banco do Vaticano, onde os sacrifícios de muitos milhões de cristãos pobres se misturam com o dinheiro  sujo  das máfias. Que luta titânica tem enfrentado Francisco Papa para exterminar os corvos peçonhentos da Cúria financeira!
Neste  entretenimento fraterno com os meus amigos, fico-me bordejando em volta  da mensagem --- actualíssima ! --- do domingo, alargando para o  magno problema que a Igreja Romana ( e todas as outras, salvo raríssimas excepções particulares) tem de resolver e que a torna tão vulnerável e subserviente aos magnatas das finança, aos governos e seus apaniguados. Determinados templos madeirenses, afrontosamente alteados no meio de gente pobre, mais não foram que o passaporte para manter no poder os mesmos de sempre. Que será feito desses  garbosos monumentos daqui a  tempos? A quem leu hoje o DN de Lisboa não terá sido indiferente a manchete: “Livraria, cinema, Museu do Dinheiro: a segunda vida das igrejas”.  Citam-se, entre outras, a igreja de Santiago, em Óbidos, e a de S.Julião, em Lisboa.
Em conclusão: “Uma Igreja pobre para os pobres”, lema de Francisco, não pode habitar sob o mesmo tecto onde se chocalham sacos de esmolas em horas sagradas, onde se vendem (alugam-se) velas, caveiras e braços e pernas de cera pela mãos de funcionários que têm o desplante de autocognominar-se “funcionários de Deus”.

Não podia deixar de situar estes considerandos na comemoração dos 30 anos da ocupação da igreja da Ribeira Seca. É que este foi também mais um forte pretexto que levou o poder religioso a  ostracizar aquela  comunidade: a recusa em levar dinheiro ao Paço Episcopal. Para apoiar causas nobres, como foi o caso de Timor, de Moçambique, da Luta contra o cancro e similares, ela esteve  e está sempre presente. Para o mafioso Banco do Vaticano e suas sucursais nas dioceses, nem um cêntimo.  Pensamos estar na Verdade.

Martins Júnior
03/Mar/2015

sábado, 7 de março de 2015

NOITE E DIA DA MULHER/2015


       Acaso ou não, o certo é que o DIA INTERNACIONAL DA MULHER, em 8 de Março de 1985, intercalou-se no mais aceso da luta da comunidade da Ribeira Seca, tendo sido as mulheres uma força decisiva na construção da vitória contra as hostes invasoras ao serviço do governo e da diocese. Aliás, é consabido que ao longo da história elas ocuparam a vanguarda de muitas lutas, sobretudo, nas zonas rurais e nas vilas piscatórias, visto que os homens constituíam a única fonte de rendimento capital para os seus agregados familiares, enquanto às mulheres ficava reservado o papel de mães, educadoras, programadoras dos trabalhos domésticos, estatuto este que lhes conferia  uma posição de charneira no plano colectivo das comunidades. Lembremo-nos, em Portugal, da chamada revolução da “Maria da Fonte” e da corajosa ceifeira alentejana Catarina Eufémia.
         Neste dia ímpar que estende o seu manto sobre todo o dia de amanhã, quero homenagear as mulheres todas do mundo e, com particular afecto as mulheres da Ribeira Seca, umas ainda vivas, outras já falecidas,  que afrontaram perigos e ameaças, processos e prisões, de que saíram vitoriosas nesta página, a um tempo dolorosa e gloriosa, da história desta comunidade. Ei-las a bordar, na foto, guardando a igreja que construíram. Isto aconteceu quando a organização bombista “FLAMA” ameaçava fazer explodir o referido templo,
         À MULHER UNIVERSAL E INTEMPORAL dedico este poema, onde pretendo radiografar o cenário claro-escuro e o sabor agridoce da condição feminina, não só na vertente Mulher-Mulher, mas também na sua transfiguração soberana esparsa nos três reinos da natureza: o animal, o vegetal e o mineral. Em tudo mora o feminino.    
  

DONA DOS TRÊS REINOS


Mulher-águia imperadora dos ares
Prendada e predadora
Mulher-leão sentinela de juba armada
Ciosa e devoradora
Mulher-víbora onde o abraço é um sufoco
E onde a noite se abre em branca aurora


Mulher-pétala perfume
E embondeiro bravo
Que umas vezes é terna sombra-mãe
Outras ruim ferro que sorve em lume
O verde que a terra tem


Mulher-água, mar e mária
Pauta stradivária
E promontório, magma,
Que tanto rebenta
Quanto sustém
Os fantasmas da tormenta

Mulher-Mulher
Contradição e oráculo
De enigmática Pitonisa
No teu seio-receptáculo
Da vida
Outros mundos dás ao mundo
Milagre eterno que faz
Teu ser de mãos frágeis  imperfeitas
Que é sempre mais o que dás
Que tudo quanto aceitas

Nos três reinos naturais
Há sempre
Um coração de mulher
Dona e patrona dos mortais
Ou pedra ou voo ou malmequer
Cobiçada fémina Fénix
Nome doce de Mulher


7/8.Março,2015

Martins Júnior

quinta-feira, 5 de março de 2015

CARTA ABERTA DE 1985

Estamos em maré alta de recordações daqueles dias marcados há trinta anos pelos atentados perpetrados contra uma modesta igreja e um povo pacífico, cujo crime foi o de afirmar a sua dignidade e a sua autonomia perante os invasores, os dois invasores tão poderosos quanto escandalosos, o Governo e a Diocese.  Foi dura a prova. Mas no meio da luta os cristãos da Ribeira Seca contaram com amigos, de perto e de longe. Ontem os administradores da página da Ribeira Seca mostraram a solidariedade de artistas portugueses, os “Trovante”, Sérgio Godinho, Zeca Afonso, Pulido Valente.
Hoje vou dar a palavra a um Homem sem medo, o Padre Mário Tavares Figueira, então pároco de São Tiago, Estreito de Câmara de Lobos. que desde a primeira hora solidarizou-se com a população da Ribeira Seca e deu a cara, publicamente,  através de uma carta  endereçada nessa altura  ao bispo Teodoro Faria que tenho a honra de transcrever:




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“PARÓQUIA DE SÃO TIAGO 10 de Março de 1985
PARA ESTAR COM O BISPO
É PRECISO QUE O BISPO ESTEJA COM CRISTO

Ex.mo e Rev.mo Senhor D. TEODORO FARIA
BISPO DO FUNCHAL

Com imensa mágoa e depois de muita oração e de muito reflectir, eu, Padre da Diocese e com responsabilidades de uma paróquia, escrevo para dizer que V.ª Rev.ma  prestou um mau serviço à Igreja de Cristo, com o seu proceder para com a Comunidade paroquial da Ribeira Seca.
Faço de um modo público, porque o acto foi público e só publicamente se pode desagravá-lo.
É verdade que o povo tinha como “seu pároco” o Padre Martins que perante a Diocese estava em situação incorrecta e delicada, mas também é verdade que o povo o sabia e o queria. O Padre Martins nunca esteve na Ribeira Seca contra o povo, nem usou qualquer poder, imposição ou arte que coagissem os paroquianos ou roubassem a sua liberdade.
(…)
O Senhor Bispo poderia reclamar o direito da Igreja e Casa Paroquial. Mas quem construiu aqueles espaços senão o povo que reclama para si o direito de celebrar o seu amor para com o Senhor e quer responsabilizar-se por isso? Um Bispo que se apresenta como um proprietário diante de uma comunidade destrói a sua figura de representante dos Apóstolos que viveram sem bens, mas cheios de Verdade, Amor e Sacrifício.
Todos sabemos que o problema se gerou com a actividade politica do Padre Martins. Mas porventura a Ilha da Madeira conheceu algum politico mais activo do que o D. Francisco Santana, enquanto Bispo do Funchal? (…) E V.ª Rev.ma conhece algum órgão de comunicação social com maior informação político-partidária que o “Jornal da Madeira”, órgão da Diocese, com um sacerdote à sua frente?
Sou forçado também a reconhecer que este proceder na Ribeira Seca foi um acto político oportunisticamente aproveitado por V.ª Rev.ma e muito bem explorado pelo Partido Governante.
(…)
No dia 27 de mês de Fevereiro a força policial “recuperou” a Igreja da Ribeira Seca para entregá-la ao seu “proprietário”, conforme o pedido formulado pela Diocese, na base do artigo II da Concordata  entre o Estado “Santa Sé”  e o Estado, “A República Portuguesa”.
Não houve nem uma palavra de Evangelho!
Pareceram dois ladrões que se juntaram para fazer um assalto e repartir os despojos.
Há dois mil anos, o Sumo Sacerdote Caifás, com o apoio do Sinédrio e para repor a Ordem, o Direito e Unidade, condenou JESUS à morte. Mandou-O para Pilatos, o Governador da Judeia e este, com a sua força policial, crucificou JESUS.
Pela Idade Média além, a Igreja, com o mandamento “Não matarás”, muita gente matou na fogueira e de outros modos para a manutenção da sua Ordem, da Sua Unidade.
Nestas coisas, a Autoridade Eclesiástica não gosta que se fale, porque a ignorância dos crimes passados faz com que se não dê pelos presentes.
Fala-se  da não violência,  ataca-se a Teologia da Libertação. E no entanto, Vª Rev.ma Senhor Bispo aparece “armado?... Que grande contra-testemunho?
Tantos e tantos do meio do povo, convictos da VERDADE de CRISTO, pregam- nA entre os irmãos e imprimem no seu viver uma doação extraordinária pela Sua Liberdade e Amor. Se soubessem de tanto lixo que a Igreja transporta, como ficariam escandalizados!...
Estamos em período quaresmal, celebramos o Calvário de JESUS e sabemos que o Calvário continua no mundo.
Neste mundo, para compreendermos o sacrifício de JESUS de Nazaré, temos como imagem a História da Ribeira Seca.
Que pelo menos, Senhor Bispo, surja o sinal da Redenção.

Submisso, respeitador, mas muito triste
Padre Mário Tavares Figueira”
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terça-feira, 3 de março de 2015

“AQUI A DITADURA NÃO PÔS A PATA EM CIMA”


         A invasão tribal que a PSP fez hà trinta anos na igreja da Ribeira Seca, Machico, por ordem do bispo Teodoro Faria e do governo regional, merece uma análise mais aprofundada nos seus pressupostos e conclusões. É um daqueles acontecimentos que ficarão catalogados no clássico ficheiro de “ study case”.  Quem interpreta a ilegal e vergonhosa  loucura dos mandantes regionais apenas como uma vingança cirúrgica contra um homem ou contra um pequeno agregado rural engana-se redondamente. E corre o risco de não ver outra narrativa senão os carros policiais, os agentes invasores cacetando as pessoas, depois as reacções, os gritos, homens e mulheres jogados como rezes para dentro dos carros da polícia, prisões e tudo o mais.      Vistas,  porém, essas degradantes cenas locais com um olhar mais apurado, o do historiador, chegará à conclusão de que elas mais não são do que uma nova edição do eterno conflito social entre duas soberanias: a do poder e a do povo.
         É esta a questão de fundo e não os seus contornos mais visíveis.. Porque desde sempre os ditadores traçaram um maquiavélico plano binário: primeiro tempo, juntar-se ao povo; segundo tempo, neutralizar o povo. Cito, por todos, o sargento Hitler. Poderíamos adicionar os mini-aprendizes hitlerianos cá do sítio, brevemente em aparente extinção. Endossar gratuitamente a soberania popular a terceiros é o caminho aberto à manipulação e, por fim, à capitulação de toda a autoridade do povo. Passa-se na política, nos negócios, na banca. Faz parte da construção sistémica das ditaduras. O povo perde a voz, a personalidade crítica, enfim, a própria dignidade existencial.
         Não só no âmbito da política. Também e sobretudo na religião. Aqui, agrava-se o risco, porque no estádio de uma religião obscurantista, os crentes são atacados, desarmados, rearmados no que de mais íntimo possui: o pensamento e a sensibilidade. Os jihadistas matam por amor a Alá e ao seu Profeta. Os cristãos de outros tempos também foram vítimas de idêntica  escravatura. Volto a citar o cardeal Poluzzo Polluzzi, chefe da execranda “Santa Aliança”, no século XVII: “ Se o Papa ordena liquidar alguém na defesa da fé,  faz-se isso sem fazer perguntas. Ele é a voz de Deus e nós, a “Santa Aliança”,  somos a mão executora”.
         O que se está a comemorar  na Ribeira Seca é  isso mesmo: o fanatismo  do Estado Cristão Diocesano atirando  as tropas dos “jihadistas” políticos  contra um povo  cristão indefeso. Configura o regresso à barbárie pseudo-religiosa, reeditada no século XVII pela Inquisição.
Mas o povo resistiu. E ganhou a guerra com as “armas da luz” e da paz. É esta e só esta a grande lição do pequeno capítulo da história de um povo.  Aqui, foi derrotada a soberania delegada do poder político-religioso e venceu a soberania originária do Povo.  É este o Artº 1º da Constituição de todas as Repúblicas Democráticas.  E não é por acaso que o Papa Francisco tem lutado repetidamente contra o centralismo devocionista e defendido o respeito pelas periferias.
         A  periférica Ribeira Seca mais não fez do que exercer o seu direito constitucional. Porque o Povo não pode ser um farrapo agitado a bel-prazer  dos soberanos e não será nunca um catavento ao capricho de atrevidas mãos dominadoras. Parafraseando um inspirado poema de Ary dos Santos, direi: “Aqui, na Ribeira Seca,  a ditadura não pôs a pata em cima”! Nem mesmo a política despudoradamente travestida de religião. Nem a religião fardada de polícia.
         Por isso, toda a Ribeira Seca cantou e ainda canta no seu templo renovado “A Igreja é do Povo e o Povo é Deus”, acrescentando-lhe na hora: ”Que faz a polícia na Casa de Deus?”

Ninguém pode destruir
A força desta união
Nós ganhámos esta luta
Que o Povo tinha Razão”

          N.B. Ao citar o termo “polícias” no texto, não envolvemos os agentes policiais, mas tão-só aos comandantes e graduados subalternos.

3.Mar.2015
Martins Júnior

domingo, 1 de março de 2015

O PRIMEIRO DOS DOMINGOS DE MARÇO DE 1985


           Cada um de nós é uma ilha diferente de qualquer outra. Porque diversas são a fauna e a flora, o clima e as constelações, os picos altos e as profundezas que povoam  a ilha que mora dentro de cada um de nós: são as memórias e as emoções que nos cercaram no largo arquipélago que nos coube viver. E é precisamente essa nebulosa, umas vezes clara, outras vezes pardacenta, que nos torna todos iguais e todos diferentes.

Peço desculpa, mas não me deixa  sossego nem  posso ficar  insensível perante o relembrado cenário vivido e dorido de há três  décadas na Ribeira Seca, aquando da ocupação da igreja, adro e residência pela PSP às ordens da diocese e do governo regional.
Percorrendo a página de facebook da Ribeira Seca (https://www.facebook.com/ribeirasecaterradeliberdade, ficamos a saber que um contingente de 70 policiais, dia e noites de plantão, impediam a entrada do povo na sua igreja, uma construção feita  exclusivamente pela mão do povo, sem qualquer subsídio do governo ou da diocese.
Era aos domingos que mais se notava o deserto daquilo que tinha sido sempre o cenáculo das celebrações e o “fórum” dos nossos convívios semanais.
“Exilado” na casa dos meus pais, vieram dizer-me que o povo queria a sua missa dominical. Na igreja era impossível. Como fazer então?... Vamos para os poios e montados em que é rica a nossa paisagem rural.
Aqui faço um intervalo para abrir o álbum das recordações eucarísticas que vivi ao longo da vida. Faço-o para vos transmitir a emoção que povoa esta ilha que sou. Que cada um é.
Antes de 1985, tinha eu já celebrado nos ambientes mais desencontrados e inimagináveis: para a marinhagem de um navio-escola francês atracado na velha “Pontinha” do Funchal;  no alto do Pico Castelo, Porto Santo. Celebrei para oficiais, sargentos e praças, entre mar e céu ( o mar era o chão e o céu a cúpula do templo) ao dobrar o (ali, com todo o aperto semântico) Cabo das Tormentas, quando o “fatídico”  navio Niassa nos transportava para a guerra colonial em Moçambique;. E aqui, quantas vezes celebrei, lembro-me especialmente  de uma bem marcada noite de Natal, sim, celebrei numa companhia do mato,  Nambude, o altar era uma tábua entre dois bidões, à luz mortiça de um candeeiro artesanal, não viessem os injustiçadamente chamados “turras” atacar-nos à morteirada. Cheguei ainda a celebrar trinta e dois baptizados de africanos macondes em Palma, junto ao rio Rovuma de onde se avistava o território da Tanzânia, mesmo defronte.
Mas para que fiz eu esta tão longa  tão longínqua viagem?... Só para ter convosco este desabafo: em nenhum desses locais me senti tão padre, pastor e irmão, como quando em 1985 percorria os montados da Ribeira Seca nos domingos da ocupação. Enquanto os polícias cercavam uma igreja fechada, o nosso templo, andávamos nós pelos campos fazendo a nossa oração dominical e reflectindo sobre o momento que então se vivia. Em todos os outros locais por onde andei, sempre havia um altar. Aqui, em terra nossa, não. Porque temia-se que a toda a hora viesse a polícia perseguir-nos.
O que então se dizia e meditava poderá ficar para outro dia.. Pelo menos, até 18 de Março. Por hoje, apenas e só um pensamento: tudo isto se passou no Portugal de Abril, na Madeira, em Machico, Se não houvesse testemunhas, ninguém acreditaria.

1.Março/2015
Martins Júnior