sábado, 11 de abril de 2015

ROSAS BRANCAS – HOMENAGENS FRIAS

 
No turbilhão caótico dos dias, instantes há que nos levam por atalhos e veredas onde a emoção e a razão se fundem numa claridade, a um tempo, repousante mas terrível. E daí, do alto da colina, a paisagem ganha aquela amplitude que só a verdade consegue transmitir. Esta semana arrastou-me para dois cenários que se diluem numa única e mesma conclusão: a vacuidade e, no limite, o cheiro nauseabundo de certas e muitas flores que se oferecem aos mortos.
Cito o caso particular do amigo e conterrâneo Tolentino de Nóbrega. Imaginar que ele emigrou e não volta mais atinge os neurónios de quem com ele privava todos os dias.
Mas não menos dói o branqueamento que as rosas mortuárias tentam (mas não conseguem) fazer das nossas cobardias, dos nossos silêncios conspirativos, quando a  pena do amigo comunicador brandia, certeira e pesada, no dorso dos arrogantes poderes instalados. Agora, mais do  que nunca, surgem de todos os arsenais da comunicação loas, épicos morteiros, girândolas multicolores ao “jornalista heróico”, ao “combatente sem medo”, enfim, ao “maior do jornalismo português”. Tudo bem. Mas onde estavam esses pássaros canoros quando o Tolentino comia o pão que o diabo do poder amassou… quando a Quinta Vigia o caluniava até ao tutano… quando lhe moviam processos judiciais?... Calados, na sombra, na indiferença que mata aos poucos. Quem se levantou, de cara erguida, a defendê-lo nas horas mais dramáticas ou a alcandorá-lo no aceso da luta?
Devo confessar que não me conforta nada, muito ao contrário, participar em funerais envernizados de oficialidade. Até porque, na tela dos cinemas como no filme da vida, não raro é ver-se  o assassino, aperaltado e grandes óculos escuros, depositar coroas de flores na tumba da vítima…
Mais que homenagens, mesmo em vida, os lutadores precisam é de operacionais solidários  na hora.
Pior fiquei hoje, “Dia do Combatente”, com as cerimónias religiosas, civis e militares em Machico e para as quais já tinha recebido convite que, mandou-me a consciência terminantemente rejeitar. E recusei porque tenho gravada ainda a tragédia de tantos jovens que lá caíram em combate, das suas famílias, dos estropiados, dos inválidos prematuros, dos deprimidos para sempre.  Quem e quais instituições se pavonearam nestas homenagens? Precisamente os titulares acobertados no camuflado do Estado, do Exército, da Igreja. Todos co-autores de assassinatos sangrentos contra vítimas indefesas, de um lado e de outro. Heróis, sim, mas à força, todos os que, a meu lado, pagaram com o corpo ou com a vida, os monopólios petrolíferos, o ouro e os diamantes daqueles cujas sôfregas ambições não sentiam nenhum pejo em mandar saquear aquilo que não era seu. Clandestino mas furioso era o “pó” (sinónimo de ódio surdo) de furriéis, sargentos e oficiais milicianos contra os altos estrelatos que, assim se comentava, “ganhavam mais uma comenda ao peito por cada militar  morto em combate; e por cada comissão de dois anos arranjavam dinheiro para comprar mais um prédio de luxo na Avenida de Roma”.
E são essas instituições que hipocritamente vêm emproar-se, a toque de clarim, quando o que deviam fazer era desaparecer dali envergonhados ou, no mínimo, ajoelhar-se e pedir perdão às vítimas inocentes de outrora. Pranto e dor para elas. E, na mesma medida, o nosso apreço por todos os que se manifestaram contra o regime então vigente, jovens, muitos deles, universitários, que abandonaram o país, outros que foram presos em Caxias e Peniche, padres e mestres que ousaram denunciar em Portugal e no estrangeiro o genocídio colonialista.
Perdoem-me este desabafo, mas hoje a emoção e a razão encontraram-se e mandaram que falasse assim. Porque só  pode falar em HOMENAGEM quem  contribuiu ou ainda  contribui, em tempo oportuno, para a vitória das causas em que se empenharam os homenageados.
Para terminar, vou pôr a rodar a toada plangente do grande Luís de Góis naquele fado coimbrão que vem de longe:

Quando eu morrer, rosas brancas
Para mim ninguém as corte
Quem as não teve na vida
De que lhe servem na morte?...

11.Abr.2015

Martins Júnior

quinta-feira, 9 de abril de 2015

DA MEMÓRIA PASSADA PARA A MEMÓRIA FUTURA OU DE COMO SE FABRICARAM MAIORIAS ESMAGADORAS


Da parte do “Senso&Consenso” ainda não saiu nem ai nem pio sobre aquela monumental estátua à mais supina ignorância aritmética de onde emergiu a maioria absoluta da mesma tribo política de outrora, fazendo-nos lembrar as urnas do fascismo em que a sempre velha União Nacional tinha de ficar nos “cornos da lua”, como bem define a nossa gente.
Pois bem: vou tentar hoje exumar, em tom jocoso, aquilo que na altura foi dramático, para ver-se, a olho nu, como é que as tais urnas do salazarismo continuaram a parir maiorias gémeas no regime da Madeira Nova, tradução do extinto Estado Novo.
Apenas dois casos:
Decorria o acto eleitoral em determinada freguesia do meu concelho. Era aí o baluarte, o bunker agrilhoado do PPD. Sabíamos quão difícil seria a presença da oposição, visto que aos nativos incutiu-se-lhes um ódio visceral, fruto de uma catequização cerrada: eles, a oposição de Machico, “comiam criancinhas ao pequeno almoço e davam uma injecção na orelha para matar os velhinhos”. De onde, tornava-se impossível fazer uma sessão de esclarecimento público, dificílimo formar uma lista completa de residentes na área e, aqui é que é o cúmulo: não era permitido aos delegados de lista permanecerem na sala para a contagem dos votos, sob pena de não saírem vivos. Eram, deveras, assustadoras as ameaças e os esgares gritantes que vinham do exterior, dos pobres populares da zona que o PPD transformava em embriagados e tresloucados “jagunços”, capazes de tudo. Os nossos delegados lá tinham de sair, injuriados e maltratados pelos tais, as viaturas eram apedrejadas. Ou, em alternativa, tinham de fugir, na escuridão, por atalhos e veredas que mal conheciam, até que, por mais de uma vez, surgia um elemento do CDS (honra lhe seja feita!) figura grada e senhorio no sítio, que, envergonhado com aquelas barbaridades,  transportava os nossos delegados para Machico. No dia seguinte, apareciam os resultados: maioria absolutíssima do PPD.
Este e outros humilhantes cenários passaram-se como vos descrevo e tem nomes de lugares e pessoas. Só os não menciono aqui para não as magoar e porque, sobretudo, a referida freguesia, feudo enjaulado do PPD, libertou-se e infligiu a pior derrota ao partido tirano nas últimas eleições autárquicas.   
Outro episódio e noutra freguesia:
Era presidente da Junta um sujeito, comerciante endinheirado recém-chegado da Venezuela. Espadaúdo, bigodaças tribais, transmitia a imagem inteira de que tinha a profissão de “boxeur”. Apresentei-me na sala da assembleia de voto, mostrei ao presidente da mesa a minha credencial como candidato à Câmara Municipal de Machico. Nessa altura, alguém segredou uns sussurros ao ouvido do dito cujo. Estava lá também o subchefe da PSP de Machico, comparsa da farsa. O “vilão”, coitado, levanta-se como um leão endiabrado: “Ah, sim?.. Então põe-se-no já na rua”, bradou. E avança, tudo sob os olhares cúmplices do subchefe, tenta manietar-me os braços atrás das costas. Aí, levantei a voz: ”Sr. subchefe, vou participar de si ao comando e ao tribunal!” Foi, então, que o homem, mais um que o PPD virou “jagunço”,  perdeu o fôlego, ao sinal da polícia.  E lá continuei, impávido e atento, até ao fim da votação.
Para azar dele e sucesso meu, foi o ano em que o PPD saiu derrotado e ganhei a presidência da Câmara. Visitei-o, uma semana depois, no seu estabelecimento comercial e o homem desfez-se em desculpas, tartamudo, alegando que fora enganado, pois nem sequer me conhecia. Tornámo-nos amigos e, com grande surpresa minha, vi, uns anos mais tarde, o seu filho na vanguarda da luta como sindicalista presidente. As voltas que o mundo dá!
Não tenho qualquer dúvida nem pestanejo se afirmar que as vitórias esmagadoras (que esmagaram, de verdade, a honra desta Região) vitórias ebriamente festejadas pelo PPD, foram forjadas nas oficinas enfumaradas do obscurantismo e da exploração do povo crente destas ilhas.
Mas o que confrange e revolta é a impunidade com que tudo isto se passa diante dos nossos olhos. Não houve sanções, reprimendas, não houve nada. Por isso, respeitando, embora “vencido”, a justiça formal do Tribunal Constitucional, entendo que deveria apurar-se a verdade material dos factos, fosse qual fosse o vencedor. continuamos com a sensação de que nesta terra tudo fica impune. Pior ainda: este governo toma posse sob protesto  abafado da opinião pública.

9.Abr.2015

Martins Júnior

terça-feira, 7 de abril de 2015

PARA QUEM NÃO MORRE!

Perante a inexorável autoridade da morte de um amigo, seca-se-nos a voz ao céu da boca, tolhem-se-nos os braços e as mãos em cima de uma folha pálida que nos chama a escrever.
E que morte!
A de um vizinho da mesma freguesia,  da mesma rua, porta com porta. A de um adolescente, meu aluno no seminário diocesano. A de um combatente que sempre fez correr  nas veias o ADN das gentes de Machico, de um outro Nóbrega, o Francisco Álvares.
Estranhei o silêncio dos nossos telemóveis  (agora sei o porquê)  nesse histórico dia 2 de Fevereiro, o do teu nascimento e o da minha mãe, da “vizinha Maria”, como carinhosamente lhe chamavas, mesmo depois da sua partida, anos (para mim, uma eternidade) antes de ti.
 Foi o teu “Adeus Às Armas”. Lembro-me de quando disseste naquela roda de cépticos que nos cercavam: “A minha arma é esta!”. E puxaste a esferográfica do bolso da tua camisa branca.
Obrigado por teres preferido vir morar em Machico, para sempre. Por isso, escrevo na porta-lápide do teu novo apartamento: ”O Repouso do Guerreiro”.  De uma outra guerra: da claridade contra o obscurantismo, da liberdade contra a escravidão.
Se as encontrares dá um beijo à “vizinha Silvana”, tua mãe; à “vizinha Maria”. a minha.  E não te esqueças do abraço meu ao José Júlio, por quem tanto choraste naquele momento fatídico que, sem o saberes, prenunciava o teu.
Por cá, ficamos com a saudade: a Elsa e os filhos. A Odete e a Ariete, tuas irmãs. Enfim, nós, a tertúlia informal do “encontro” de fim-de-tarde.
 Já que te coube viver  a  paixão e morte, em tempo coincidente com a comemoração do Combatente-Mór,  vamos trazer-te a Páscoa connosco, nas páginas que escreveste, na tua luta sempre presente.
E por aqui me quedo com este voto: que alguém, o “Diário”, o “Público” ou um “Mecenas”, reúna em volume, muitos de certeza, os teus escritos. Sem eles, fica incompleta a história das últimas quatro décadas da nossa Madeira!
E não te digo adeus, porque em 25 de Abril estarás de volta! Connosco!

7.Abril.2015

Martins Júnior

domingo, 5 de abril de 2015

VIVO-MORTO OU MORTO-VIVO?

Por tratar-se do tema fulcral deste Domingo, transcrevo as considerações que nesta data o funchalnoticias.net fez a gentileza de mo publicar.

"Faz a tua escolha"

Escrita ao ritmo da estação – Primavera, Páscoa – esta minha reflexão ultrapassa-a e mete-se connosco, seja qual for o tempo e o lugar onde nos foi dado habitar enquanto caminheiros da história. Parto dela, a estação Páscoa, porque em todo o mundo ouve-se falar desse acontecimento que, aceite por uns e recusado por outros, fica a pairar numa névoa de indiferença crítica: a Ressurreição de J: Cristo.  
Para uns e para outros, sobretudo para os crentes comuns, basta-lhes a sucessão dos episódios: esteve sepulto, a lousa tumular abriu-se e Ele saltou para uma nova edição da vida física. E é o próprio Paulo, exaltante de inelutável paixão, que coloca o acontecimento na pedra de alicerce do edifício cristão: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé”. 
No entanto, não nos está vedado o direito de acesso à descoberta ou, pelo menos, ao debate essencial sobre as diversas segmentações semânticas do mesmo facto. De que falamos quando falamos em ressurreição? Será, no mínimo, uma aspiração inata a todo o vivente. Mas para quê e em que veste?... Os cultores da reincarnação exprimem o mesmo anseio, purificando a alma até alcançar o Nirvana: é uma interpretação empírica de ressuscitar. Para os cristãos trata-se de uma agregação de células que se animam no mesmo “continente” do mesmo corpo singular: é a ressurreição física. Mas há outra semântica rediviva: no conceito mais amplo e determinativo: a ressurreição ideológica. 
Sem pretender agitar o enigmático núcleo da questão, cabe aqui formular uma outra incógnita: das duas concepções de ressurreição, qual a mais vívida e, por isso, a mais determinante, a física ou a ideológica? 
Para quem se satisfaz com o enredo, a trama do acontecimento, de teor narrativo/novelístico, basta-lhe a ressurreição física. Mas para quem perscruta a profundidade renovadora dos factos, não tardará a descobrir que a ressurreição ideológica alcança o lugar cimeiro, precisamente porque é ela o íman propulsor do indivíduo na construção da História. De que serve um corpo vivo se apenas contém um espírito morto? Não será mais que um sepulcro ambulante, “cadáver adiado que procria”, diria Fernando Pessoa. 
Vai nesta mesma direcção a mística da versão dâdupanthis do hinduísmo quando estabelece a dicotomia entre o vivo-morto e o morto-vivo e de que se faz eco o poeta religioso Dâdûséc.XVIquando proclama o bânuas “palavras versificadas”, sucedâneas do estilo poético dos Salmos bíblicos: 
É só quando tu fores um morto-vivo que encontrarás o Bem-Amado…Os mortos-vivos caminham por Ele, o nome de Rama é o seu sinal…Tornado um morto-vivo é que estarás no verdadeiro caminho”.  
Onde pretendes chegar? Perguntareis. Tão simplesmente à conclusão de que mais importante que a ressurreição física do J; Cristo é a sua ressurreição ideológica, aquela que dinamizou milhares de homens e mulheres nos três primeiros séculos do Cristianismo, sobretudo os escravos, até ao ponto de darem a própria vida pela Ideia crística, o pensamento intemporal e universal de que todos “nascem iguais” e que não é suportável o abismo social entre senhorios e colonos, entre suseranos e vassalos, entre o Império e a servidão. “De que serviu ó Cristo teres regado com o teu sangue as urzes do Calvário? interpelava, angustiado, Antero de Quental. Direi de outra forma: De que serviria o corpo físico ressuscitado de J: Cristo se não fosse divulgada e assimilada a sua mensagem? 
Há gente grada que se apresenta na primeira fila dos fariseus a mostrar que celebra o Domingo de Páscoa, sabendo-se que toda a encenação, chamada solene, é casco luzidio por fora e montão de ossadas por dentro: são vivos-mortos, porque neles não mora uma fagulha sequer da Ideia ressuscitante do Grande Libertador. 
Uma sentida e eterna homenagem aos nossos pais, aos nossos mestres, aos combatentes patriotas madeirenses do 4 de Abril de 31, precursores do 25 de Abril de 74,  aos heróis anónimos, recordando os que, há bem pouco tempo, levaram apenas consigo a efémera veste dos dias fugazes mas deixaram intacta e cada vez mais acesa a sua chama ressuscitadora. 
Não posso terminar, sem associar-me à homenagem  ao folósofo-poeta funchalense Octávio Marialva,  hoje na Fundação Silvério Pires, citando-o e parafraseando-o: “Serás Jovem quanto a tua Ideia”. 
Serás vivo quanto viva e longa for a tua Ideia 

05/04/2015
Martins Júnior

sexta-feira, 3 de abril de 2015

SEXTA-FEIRA DE UM CRIME MAIOR

    

      Hoje o audiovisual oferece-nos um sádico paladar  do mais requintado masoquismo. O paradoxo é total: desde as grandes catedrais ao mais humilde reduto de crentes, desde os sumptuosos cortejos das cidades, no  “enterro do Senhor”  com os acordes da marcha fúnebre de Chopin, até ao paroxismo das representações cruentas das flagelações nas Filipinas, os nossos olhos enchem-se do sangue impresso em sudários especiosos e nos ecrãs televisivos. E o povo acorre, como um pagante contrito que vem saldar uma dívida pessoal a Quem “morreu pelos seus pecados”. E bate no peito, lamenta-se e chora. E sente-se absolvido de uma pena imaginária.
         Devo desde logo apresentar o meu registo de sentimentos e de interesses nesta matéria: preferia mil vezes que não houvesse sexta-feira santa. Na comunidade a que pertenço também fazemos a Via Sacra pública, mas fazemo-la sob protesto. Porquê?
         Porque o sucedido neste dia é um tremendo libelo acusatório contra um dos maiores crimes da história, perpetrado pela mão do Homem. E nunca haveria ter-se chegado a tamanha atrocidade: assassinar Quem veio abrir os olhos à multidão vítima da cegueira de séculos, de milénios. É aqui que se centra a matéria de crime.
         Que autores e que instituição urdiram e executaram o plano maquiavélico deste assassinato? Incrível, inimaginável: a Religião oficial da Judeia e os seus mais altos titulares, os Sumos Sacerdotes Anás e Caifás. Os restantes agentes, meros instrumentos compulsivos, até o próprio Pilatos, mais não foram que peões de circunstância no xadrez deste hediondo processo religioso.  Pode concluir-se que tudo se passou na linha programática de  um  teocrático Estado Judaico-religioso, uma Jihad antecipada. Não me parece corresponder estruturalmente à verdade dos factos dizer-se que Jesus entregou-se à morte. Na opinião de estudiosos biblistas  esta entrega voluntária configura-se, no limite, com um acto de suicídio. Pelo contrário, Jesus foi assassinado! Reduzir o caso a um simples relato de que “morreu na cruz” é muito pouco. Ele foi assassinado, chegando ao ponto de verter suor de sangue quando pediu ao Pai:”Afasta de mim este cálice”, ou seja, tira-me desta conjura e deste tormento.
         Por isso, percorremos a “Via Crucis” do Calvário sob protesto. Por nós, aqui e agora, nunca teríamos consentido em tão horrenda sentença. A cruz não é apenas o símbolo da generosidade e do perdão. É também o ignominioso padrão da criminalidade sócio-religiosa, igual ou pior que as forcas e os fornos crematórios de Auschwitz.
Não vou demorar-me nesta revolta interior perante o outrora sucedido. Fico-me com o pensamento místico e concreto de Blaise Pascal: “Jesus continua em agonia até ao fim dos tempos”. Ao rememorar as diversas estações, fomos evocando as vítimas que os tempos nos deixaram, Pe. António Vieira, Mahatma Gandhi, Teresa de Calcutá, Aristides Sousa Mendes, Luther King,  Catarina Eufémia, os bandeirantes da Justiça, os sindicalistas abatidos, os prisioneiros das ditaduras, as de ontem e as de hoje.
         Sexta-Feira Santa! Noite de luto histórico, de pesadelo universal, de revolta interior contra os legisladores iníquos, contra os criminosos públicos que ainda hoje continuam a matar!

3.Abr.2015
Martins Júnior

terça-feira, 31 de março de 2015

ABSTENÇÃO: UM DIREITO OU UMA FRAUDE?


Foi um espectáculo original aquele que nos proporcionou  a eleição de domingo pp.. Desde logo, pelo cardápio de hipermercado com que se nos apresentou o “lençol-boletim de voto”,  revelador da fome de participação dos concorrentes e por onde se dava a volta ao mundo: cabia a social democracia ao lado do socialismo e do comunismo, coabitava o “Podemos” espanhol encostado ao Syrisa grego, a direita próxima do véu azul de Marine com o tique do “tiririca” brasileiro ou o Peppe Grillo italiano, enfim, a fartura  em traje eleitoral.
Mas faltou assinalar em seu alto cadeirão o grande Ausente, esse fantasma paradoxal, omnipresente em todos os actos eleitorais: a  “Rainha- Bruxa Abstenção”.
Muitos têm sido os estudos sobre este fenómeno que, tal como certos procedimentos que distorcem a verdade desportiva, também este desvirtua a verdade do Estado. Desde o método de Michigan e a sua análise psicológica até ao de Lister  Milbrath e M.L. Goel que lhe atribuem um carácter sociológico, quer seja ela presencial ou não presencial, técnica ou real, a abstenção defrauda a genuína vontade decisória de um povo. Num país que estatuiu o voto obrigatório, o ministro Marco Aurélio, presidente do STE (Tribunal Superior Eleitoral) proclamou que  “é preferível pecar por acto comissivo do que pecar por um acto omissivo”. E o sociólogo  Paul Bourdieu sublinha que o eleitor votante exprime um sentimento profundo em “discutir politicamente os assuntos políticos que  dizem respeito ao próprio e ao país”.
Ora, os dados estatísticos em Portugal e na Madeira acusam uma deprimente demissão do eleitorado. A título de exemplo: nas eleições legislativas de 1975,  a abstenção foi de 8,34%.  Em 2011 atingiu a soma de 41,93%.  Quanto às eleições reginais de domingo, informou a imprensa que a abstenção bruta ( denominada  abstenção técnica) foi de 50,3%, acabando por dizer que, descontados os não residentes, ou seja, a abstenção real somou menos de 40%. Sejam quais forem as atenuantes e dado o factor decisivo, consubstanciado no acto eleitoral, apraz-me trazer ao debate duas vertentes essenciais à verdade política, quer a nível nacional. quer a nível regional e local. E até europeu.
Primeira: Quando a votação não for superior a metade dos eleitores inscritos no recenseamento deverá  considerar-se não vinculativa, portanto, sem efeitos jurídicos. Porquê? A CRP (Constituição da República Portuguesa) ao legislar sobre o instituto  do  Referendo  assim o determina (Artº 115, nº11) visto tratar-se de assuntos relevantes para o país.   Ora, por analogia e a fortiori deveria o legislador constituinte conferir idêntico tratamento ao Voto. E sublinho: Que há, numa nação,  de maior e mais relevante do que a eleição dos titulares dos  órgãos de soberania?  É verdade que a CRP define o acto eleitoral como um direito, mas logo a seguir qualifica-o de um dever cívico. (Artº49, nº 1-2)-  Exercer ou não um direito é algo que  permanece na esfera do seu titular, o cidadão eleitor.  Entretanto, o dever  cívico carece, no texto constitucional, da consequente cominação punitiva.
A segunda vertente  é o corolário da primeira: Deverá ou não conferir-se  o estatuto de obrigatoriedade ao dever de votar?... É uma velha questão, objecto de estudos, teses de doutoramento, manuais da ciência política. Mas é também uma questão necessariamente indissociável do cidadão, pois é ele o último destinatário de todas as assembleias de voto, cabendo-lhe, por isso, o direito de discutir, opinar e poder transportar o seu juízo acerca desta questão até às instâncias decisórias do seu país. Casos paradigmáticos há muitos, onde foi instaurado o Voto Compulsório: Bélgica, Austrália, Brasil, Luxemburgo, México, entre outros.
É verdade que o Voto e o seu oposto, a abstenção, apresentam-se de forma multidimensional, isto é, sob diversas vestes e interpretações, muitas delas legítimas e válidas..  Mas, de entre os três modelos de eleitor --- os “apáticos, os espectadores e os gladiadores”, como referem os supracitados autores ---  é possível, pela pedagogia política de um povo, transformar os “apáticos”  em “gladiadores”, enquanto participantes activos e construtivos na evolução do seu país. É que o laxismo crescente e impune,  traduzido na ausência às urnas, pode em toda a linha configurar uma fraude, uma vez que será uma minoria votante que, por desleixo de uma maioria, ou ignorância ou distanciamento territorial, determinará o rumo de toda a nação, ficando assim distorcida a sua verdade político-social. Seria um humilhante retrocesso ao segregacionismo do “voto censitário”  dos regimes tendencialmente totalitários de outros tempos.
À vossa consideração.

Na fronteira de dois dias ímpares, 31 de Março e 1 de Abril, semeio ao vento estas notas, afinadas ou não, mas interpelantes, depois deste limbo-sobe-e- desce  das contagens e recontagens eleitorais. Comecei por aludir à “Rainha-Bruxa” da abstenção e depois fiquei suspenso entre a noite do Halloween do Palácio de São Lourenço e o Dia das Petas. Faço votos (este é um outro voto) de que não seja um mau presságio para os futuros governadores das ilhas…

31.Mar/1,Abr.2015
Martins Júnior

domingo, 29 de março de 2015

AS ELEIÇÕES VISTAS DO SOFÁ


Hoje, em fim de tarde, só vejo o filme. Sem paixões, nem sequer emoções de circunstância.  Ajeito apenas os binóculos da serenidade e da lógica, enquanto os ganhadores abrem garrafas de champanhe e os perdedores compram lenços de enxugar mágoas.
Primeiro grande plano: ao PSD foi-lhe oferecida a tal, para os madeirenses,  deficitária fasquia chamada Maioria Absoluta. Não de votos, mas de mandatos: 24. Não tanto pela apregoada “Renovação” , pois lá estão à sua ilharga pesos pesados (mas escondidinhos e tristonhos na foto da vitória)  os que estiveram no berçário do partido desde há 40 anos. Interpreto o triunfo alcançado como o prolongamento daquele tufão que saturou a Região e que até à véspera das eleições mais acentuou esse enjoo na vala comum das inaugurações, mal disfarçando os antigos resquícios de vingança contra o agora eleito presidente do GR. A ordenança ao Primeiro Ministro para não vir à Madeira em campanha completou o menu das ajudas. Tudo isto somado ao mérito dalguns quadros que compõem a equipa vencedora.
Aos jovens de Gaula só desejo que a euforia deste primeiro amor, preparado pelo trabalho sério nas autarquias do seu concelho, não esmoreça nem crie aqueles amuos palacianos que se agarram aos movimentos quando transformados em partidos. Cuidado com os “verdes anos”!
Ao Bloco de Esquerda, parabéns: a travessia de quatro anos fora do parlamento imprimiu-lhes vigor para recuparar o horizonte então perdido. O seu trabalho porfiado entre as populações e a  favorável divulgação pela comunicação social chegava a convencer-nos de que sempre gozavam do estatuto de representação parlamentar.
À CDU, “idem”, na pessoa do seu líder, cuja intemerata seriedade de acção não tem paralelo na história do Parlamento Regional.
Ao CDS, louva-se a capacidade de passar mais ou menos enxuto por entre as portas manhosas e as cristas de ondas salgadas onde se meteu na campanha eleitoral.
Ao PND, o bem merecido tributo pela frontalidade e persistência diante de muros e armadilhas que lhes passaram aos pés. Entendo que o seu humor, além de saudável e pedagógico, tornou-se mais corrosivo que muitos discursos tão inflamados quanto inúteis.
Relativamente ao PS, coro de vergonha por este ter deixado “entronizar” na sua sede aquilo que considero o paradoxo mais inconcebível da organização política: a junção obtusa  da infantilidade com a senilidade prematura. Há tanto tempo que vejo esta fita e, oportunamente, a denunciei. E não só eu. Não quiseram ouvir os pré-avisos da derrocada e aí a têm de presente amargo. A sociedade, os madeirenses têm de pedir contas à corte que o rodeia. Também ao anterior líder, actualmente na Assembleia da República que jogou fora das listas os três deputados de Santa Cruz. É ele também co-responsável pelo nascimento e pelo sucesso da JPP. Os erros de hoje pagam-se caro amanhã.
Finalmente, conforta-me o largo espectro do novo Parlamento: colorido, fresco, tocado por aquele timbre de que falava Goethe,  com “ânsias de subir, cobiças de transpor “ os obstáculos ao serviço dos seus constituintes, os eleitores. Faltou apenas a cereja em cima do bolo: uma maioria relativa, em vez da maioria absoluta, que refreasse os tiques hereditários de um passado, aparentemente enterrado neste dia 29 de Março.
A mudança da hora de inverno para a hora de verão seria um amistoso presságio, mas não foi. Os relógios adiantaram uma hora, mas a Maioria ficou parada no inverno do absolutismo. Assim ditou o Voto.
Termino da mesma forma como me dirigi aos autarcas vitoriosos de 29 de Setembro de 2013: Quatro anos passam-se depressa. E, parafraseando Sérgio Godinho, repito aos governantes e deputados eleitos: Lembrai-vos que hoje é o primeiro dia do resto do vosso mandato.  

29.Mar.2015

Martins Júnior