segunda-feira, 13 de julho de 2015

TODO O PAU TEM DOIS BICOS: CAUSA E EFEITO


Precisaria eu de três ou quatro “dias ímpares” para interpretar cabalmente o mais cáustico e imprevisto episódio deste périplo do Papa Francisco à “sua” América Latina, mas vou tentar sintetizá-lo neste 13 de Julho.  Aconteceu na Bolívia, quando o presidente Evo Morales presenteou o argentino com aquele insólito, inaudito Crucificado num martelo suportado pela elíptica foice, ícon do Partido Comunista. Provocatório para a grande tribo de jornalistas e comentadores, mas muito mais “escandaloso” quando se soube que essa era a reprodução fiel  do crucifixo usado pelo missionário jesuíta, Luís Espinal, encontrado morto em 1980 numa montanha distante, logo a seguir ao assassinato de Óscar Romero, arcebispo de El Salvador. A ambas as vítimas dos cartéis organizados tinha Francisco proclamado o seu heroísmo evangélico em prol dos camponeses e mineiros cruelmente explorados.
Dispenso-me de catalogar a “dádiva” de Evo Morales. Detenho-me apenas nos dois explosivos significantes da efígie: Um padre jesuíta católico e um símbolo da bandeira marxista apertada ao peito em oração. Tremenda contradição, clamam furiosos os fanáticos da ortodoxia dogmática. Confesso que não me causou nenhum estremeção, pois recordo que em 1972, em Volta Redonda, Rio de Janeiro, o bispo Duarte Calheiros contou-me que um dos quatro processos movidos pelo governo da ditadura federal teve como matéria de acusação o facto de, numa Semana Santa, ter mandado pintar no altar a  figura de Cristo Crucificado. Com esta particularidade: a face do Cristo era o rosto de Che Guevara.
Casos paradigmáticos, no mesmo território sul-americano. E em África. E na Ásia. E em Portugal. Quantos mártires algemados e torturados, julgados e exilados sob as garras do mais primário anticomunismo, por terem abraçado os  ideais da esquerda!
Os puritanos hipócritas atiram a primeira até à última pedra: que traidores esses falsos apóstolos do Evangelho, que medonha aberração, que diabólico efeito da sua vocação! Esse, sem dúvida, o efeito. E as causas?  Ninguém lhe investiga as causas. É nesta incógnita que reside o outro, o verdadeiro polo do bastão acusador.
Para ajudar a perceber a resposta, socorro-me de uma das afirmações produzidas em Itália por Francisco Papa, há cerca de dois anos: “Deixámos os pobres aos comunistas”. Por outras palavras: entregámos  a defesa dos pobres ao Partido Comunista. Aqui está, pelo testemunho supremo, a causa que empurrou muitos cristãos, muitos sacerdotes, muitos mártires para os braços de ideologias aparentemente desviantes do espírito evangélico. Perante uma Igreja Romana, faustosa, corrupta, perante uma Igreja diocesana, seja ela qual for, de braço dado com o poder injusto e totalitário, como não revoltar-se para encontrar o “arco de uma nova ponte” que salve os indefesos, que lhes dê oportunidade de ganhar o pão para a boca e a cultura para a sua digna emancipação? O mesmo se há-de dizer das Igrejas nacionalistas russa e chinesa, serventuárias incondicionais do totalitarismo comunista: quantos sacerdotes e bispos,  perseguidos e proscritos por se recusarem ao jugo do sacro imperialismo sino-soviético!
Poderíamos percorrer muitos outros registos da História antiga e moderna e perguntar: Como apareceu o Protestantismo e seus derivados, senão porque o Papa de Roma excomungou, em vez de escutar a argumentação lógica e teológica de Lutero sobre o sacrílego negócio das Indulgências?!  Os legítimos protestos de há mais de 500 anos perpetuam-se até hoje nesta absurda proliferação de igrejas divorciadas.
Por que se separaram de Roma, em 1054, os milhões de  cristãos de Constatinopla,  os ortodoxos, senão porque se recusaram a admitir o dogma da infalibilidade pontifícia?! Aí, as excomunhões Romanas foram “agraciadas” com idênticas excomunhões por parte do Patriarca do Oriente, Miguel Cerulário. E até aos nossos dias, nunca mais foi sanada a separação.
Por que foi expulso de Portugal o bispo do Porto António Ferreira Gomes, com o abjecto consentimento do cardeal Cerejeira, senão por ter-se batido contra a opressão dos camponeses do norte do país sob o peso da ditadura salazarista?!
E aqui tão perto, como é possível suportar uma Igreja amorfa, “bos mutus” (boi mudo) ao serviço do governo que lhe dá ordens para marginalizar há mais de quarenta anos uma comunidade de cristãos que vivem serenamente a sua fé?! Por essas e outras razões é que, no Funchal, foi implantado o maior templo de uma preconceituosa crença religiosa, precisamente a seis metros da Quinta do Paço Episcopal. E o insensível inquilino do Paço nem dá por isso!
         Não há efeito sem causa nem causa sem efeito. São os dois bicos  daquele bastão que, para uns, é vergasta inquisitorial e, para outros, fonte de denúncia e justa rebeldia. Os erros de hoje pagam-se amanhã. E quem os sofre são os incontáveis inocentes herdeiros.
Não foi, pois,  por um acaso  sensitivo que Francisco Papa, primeiro com espanto e depois com um sorriso concordante, olhou o crucifixo do irmão jesuíta, defensor dos mineiros, Luís Espinal,  que lhe ofereceu Evo Morales.
É caso para lembrar  a canção de Vinicius de Morais “Você que olha e não vê”, complementando-a com a velha máxima: “Quem tem ouvidos de entende--- que entenda”!    
13.Jul.2015
Martins Júnior

sábado, 11 de julho de 2015

POPULISMO E PAPULISMO (2) “ISTO É MUITO DIFERENTE DE UMA TEORIA ABSTRACTA OU DE UMA INDIGNAÇÃO ELEGANTE”

        

             Os teóricos da exaltação nacionalista e os românticos da revolução elegante, que tanto empenho põem em chamar o Papa Francisco para os seus clubes privatísticos, ficaram a saber que o homem atira ao caixote do lixo todas as parangonas  de quantos querem alcandorá-lo em “vedeta” planetária. Seja qual for a bandeira política do país visitado, ele não se coíbe de, por palavras e gestos, defender os seus ideais contra quem quer que seja. Ontem e anteontem, na América Latina, húmus onde as ditaduras da minoria proliferam ao lado da luta hereditária das maiorias escravizadas, Francisco não teve meias-medidas nem escolheu palavras ambíguas. Na Bolívia, foi directo, do alto da sua magistratura pontifícia: “Vós, os explorados, os excluídos, não subestimeis  a vossa condição. Vós sois os semeadores da mudança”! Muitos não tardarão a traduzir as palavras do Pastor noutras paragens e noutras ideologias, como o histórico grito de Lenine:”Operários de todo o mundo, uni-vos”.
A Francisco Papa pouco ou nada lhe comovem os plágios ou  apropriações da sua mensagem universal. O seu rumo inflexível é a justiça distributiva e a fraternidade entre as nações. Rejeita terminantemente que classifiquem de “papulismo” (populismo do Papa) porque isso só aproveita aos usurpadores da sua palavra. Nele, a diplomacia submete-se à verdade dos factos, mesmo quando é “obrigado” ao protocolo fugaz  das relações internacionais. Utiliza-o apenas como tribuna solene para promulgar, mais alto e mais enérgico, o seu Código de Conduta para a humanidade. Ninguém pense “lamber” a sotaina papal em proveito de interesses de grupo e lobis calculistas. Sirva de exemplo a relação  tensa  com o regime argentino, chefiado por Cristina Kirchner,  já como Sumo Pontífice, tê-la escolhido como primeiro representante  governamental a ser recebida no Vaticano.
Este Papa não quer palavras, quer acção. Outro caminho não tem traçado  e cumprido senão este. A verdade factual acima dos devaneios românticos! Ele próprio o reafirmou com toda a transparência e vigor: “Isto que vos digo é muito diferente de uma teoria abstracta ou de uma indignação elegante”! 
Não foi preciso ir muito longe para constatar quanto tem sido “chique” citar o Papa Francisco, em registos tão diversos quanto divergentes. Vi-o claramente naquela excelente iniciativa, em boa hora promovida pelo Pe. José Luís Rodrigues,  no Teatro Baltazar Dias, sobre a mensagem ecológica da última encíclica “Laudato Si” pata todo o   mundo.  Intervenções suculentas, tanto do promotor, como dos seus convidados, Dr. Raimundo Quintal, Dr. Marques Freitas e Prof.  Dr. Nélson Viríssimo. No final, confirmou-se o que trago atrás dito: a auto-promoção dos três convidados e respectivas associações: o presidente da Câmara Municipal do Funchal, o vigário geral da Diocese e o presidente do Governo Regional, os quais, à uma, vieram ali só para pôr à janela as colchas da casa-sucursal dos seus interesses. Nenhum deles se reconheceu visado ou  criticado na encíclica, nenhum “confessou” os atentados ambientais dos seus pelouros. Então o presidente do GR foi de um superior trapezismo de circo quando foi buscar, a talho de foice “snob”, umas arengas sobre o trigo no Brasil, rematando que o seu governo corre de camisola amarela na defesa ecológica da ilha. Os três mosqueteiros que fecharam o colóquio estragaram, a meu ver, a seriedade e a elevação das doutas intervenções ali produzidas. Mais uma vez, ali vieram montar na encíclica “Laudato Si” como no cavalo do Sancho Pansa de Cervantes.
O pior, porém, foi a cobertura que  o DN/ local deitou à luz  no dia seguinte  Três quartos da reportagem foram para as palavras serôdias do novel presidente madeirense. Quanto aos oradores convidados, apenas umas linhas furtivas para Raimundo Quintal. De Marques Freitas e Nélson Viríssimo que cuidadosamente prepararam as suas brilhantes exposições, nem um fonema, nem uma sílaba. Jornal da Madeira não faria melhor. Com “independentes” destes, não precisamos de jornais subsídio-dependentes.
         Assim levam o Papa Francisco no faustoso andor que ele próprio varreu do Vaticano: são os jornais, os áudio-visuais, os governos, os maxi e  mini-imperadores que, a todo o custo e na mais desavergonhada hipocrisia, arvoram a bandeira da “supervedeta” Francisco para servirem os seus interesses políticos, nos antípodas da transparência revolucionária de Jorge Bergollio.
         Resta-nos a certeza que Francisco nunca será nas mãos dos poderosos o bobo que fazem de bispos e cardiais. Ele nunca aceitará a lisonjeira quanto ofensiva alcunha de “papulista”. E a quantos tentarem o sacrílego assalto à sua personalidade e às suas palavras ele ribombará com o vigor da sua autenticidade: “Isto que vos digo é diferente de uma teoria abstracta ou de uma indignação elegante”!

11.Jul.2015
Martins Júnior  
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quinta-feira, 9 de julho de 2015

UMA AUSÊNCIA DE INSTANTES – UMA PRESENÇA SEM TERMO



 “VOLTO JÁ”!

Previsto estava para hoje o segundo parágrafo  do título “Populismo e Papulismo”. No entanto, a lei da vida que, no fundo, também é lei da morte, obriga-me a dedicar o dia ímpar de hoje a uma Personalidade Ímpar de Portugal e,  na sua plena interpretação, do mundo e da História.
Participei no seu funeral, um digno preito de homenagem pública, cuja percurso geográfico sintetizou toda a sua vida: o trabalho e o espírito profético, simbolizados  no seu “Colégio Moderno” (onde decorreu o velório) e no seu pequeno oratório --- a igreja do Campo Grande, em Lisboa.
          Ali estavam o cardeal, o núncio apostólico (embaixador do Vaticano em Portugal) bispos, teólogos, sacerdotes. Ali se sentaram e ajoelharam, por formalístico protocolo, penso eu, as altas figuras da nação. Mas se ali não estivessem, uns e outros, pouca falta fariam à alma-mater daquela despedida. Porque tudo foi programado para a modéstia da decoração, para a simplicidade mais pura, imanente e transcendente, a começar pela escolha do templo, também humilde e envolvente: o local onde todos os domingos partilhava o pão com a comunidade do Campo Grande. Foi posta de parte  a habitual sumptuosidade das basílicas. Nem sequer foi autorizada a recolha de imagens televisivas ou fotográficas da cerimónia. Depois, ali tudo se passou como se de uma despedida familiar se tratasse,  em que foram intervenientes principais os filhos, os netos e os alunos do Colégio. Foi emocionante ver e ouvir os adeuses sentidos, traduzidos em verso e carta, à sua mãe, avó e mestra. Ali, ao vivo,  bem poderia repetir-se  o testemunho dos primitivos cristãos: “Vede como eles se amavam”.
           Não vou alongar-me  no panegírico à Drª  Maria Barroso Soares.  Tudo belo quanto se disse dentro e fora do templo! Relevo, pessoalmente, dois aspectos: um, do cineasta João Botelho, na imprensa de hoje, em que lhe associou a intrépida coragem político-social  da Passionária  e  a   grandeza humanitária de Teresa de Calcutá. O outro, recolho-o das páginas do Êxodo, onde se lê que Moisés, no meio da treva circundante, “via o invisível”. Ao conhecer-se a trajectória do jovem casal “Maria e Mário”, ela, actriz sublime  e exímia docente,  proibida, pelo regime salazarista, de exercer a profissão. Ele, na prisão do Aljube, pela mesma razão-sem razão. Apesar disso, casaram por procuração e foi ela própria à cadeia trocar as alianças. Outro golpe cruel, despedir-se, ela e os filhos, do jovem Mário que seguia deportado para as Áfricas. Mas nunca desistiu. Repetidas e mais destrutivas ameaças, mais perseguições e prisões. Mas nada  lhe destruía nem apagava a chama ardente da esperança que trazia no peito:  o “dia novo,  pleno e inteiro”, a alvorada do seu povo, o 25 de Abril de 1974.  Ela, mesmo no horizonte mais sombrio,  “via o invisível” diadema da Vitória. O seu eloquente testamento para nós viajantes, ainda,  e construtores deste país!
****************
           Mas este funeral teve, para mim, uma outra revelação, quando o ilustre pároco da igreja do Campo Grande, Monsenhor Pe. Feitor Pinto, me diz logo à entrada: “Ó amigo  Pe. Martins, queres concelebrar connosco?... Vai já para a sala de paramentações”. Lá esperavam, para a mesma função, o núncio apostólico, o cardeal Manuel Clemente, bispos, entre os quais, o anterior bispo das Forças Armadas, Januário Torgal Ferreira, teólogos, Bento Domingues, Victor Melícias, os nossos conterrâneos Jardim Gonçalves e Tolentino Mendonça e muitos outros que cumprimentei pela primeira vez.   
“Estou a gostar de ver-te aqui connosco”, segredou-me um deles quando se iniciou o cortejo de entrada. Considerei e ainda considero este convívio fraterno como mais uma prova do testemunho vivo de inclusão, que foi a vida da Drª  Maria Barroso Soares. Tão diferente do regime de exclusão que por cá ainda impera…
Como escreveu Fernando Pessoa, “Morrer é só deixar de ser visto”. Por isso, ela ainda está connosco para nos ensinar a “ver o invisível”! Mesmo “na noite mais triste/Em tempo de servidão”. Como ela!  
Por isso, , A minha e nossa gratidão deixei-as a seus pés, entre estrelícias e orquídeas da  Madeira.

9.Jul.2015

Martins Júnior

terça-feira, 7 de julho de 2015

POPULISMO E PAPULISMO


Variações sobre um mesmo tema                     
                        1
Nunca foi tão “chique” citar o Papa, desde cristãos a ateus,  políticos e plebeus, agnósticos, ecologistas, evolucionistas, enfim, Papa Francisco inscreveu  a Igreja Vaticana na ordem do dia. Para bem e para mal dela.  E se ainda traz aos ombros uns resquícios da velha-guarda é porque muita gente simples, ignara mas crente, ficaria ferida nos  seus conceitos ancestrais que, mesmo preconceituosos, são os elementos constitutivos da sua crença. Quanto aos “sábios-fariseus” e aos opulentos porteiros  do tempo do “bezerro d’oiro”, este veterano ganha o verve da juventude, tão contundente na mensagem quanto frágil na sonoridade da sua voz.
Mas que nos trouxe de novo esta “vedeta” argentina?
Nada que já não se soubesse. A denúncia da economia assassina;  a terra, o mar e o ar esquartejados por facínoras mascarados de industriais; o antro clerical de lobos vestidos de fina  pele escarlate, da cabeça aos pés; o embuste de crenças castradoras da genética ambição de voar sem peias nem medos. Todo este arsenal ideológico-pragmático tem sido exposto, descrito, quase que vociferado por dezenas, centenas, milhares de cientistas, biólogos, teólogos, professores, simples padres da província e da cidade, gente como nós, vizinhos de ao- pé- da-porta. Com uma diferença: é que o Papa tem autoridade herdada de uma instituição milenar. Os outros, não. Quantas vozes amordaçadas e quanto sangue derramado --- a matança dos inocentes --- ao longo da História!
Mas em Francisco Papa transfigura-se a autoridade herdade com a autoridade conquistada. Aí o seu valor. Os que o chamam de comunista deviam ler o catolicíssimo escritor Léon Bloy que lançou o brado da revolta contra a ordem capitalista vigente, com a publicaçã , em 1909,  de  “O Sangue do Pobre”.
Já aqui observei que este Papa é uma bênção e um enorme risco. E é este o seu drama. A bênção, ele a traz na veemência, fortiter ac suaviter, ( como ensina o mestre Paulo de Tarso) por onde quer que pise chão de terra. O risco é que ele é vértice e cúpula. Nenhum edifício se segura pelo telhado nem nenhuma catedral se sustenta pela abóbada. Nos alicerces, nas bases é que estão o ganho e o sustentáculo de qualquer sociedade. E aquilo que o Pontífice “Máximo” apregoa deveria ser a soma e a  síntese de tudo quanto dizem e fazem  os cabouqueiros “mínimos” da sociedade. Se a normal sucessão dos acontecimentos sociais constituísse  a realidade do nosso quotidiano,  ninguém esboçaria o mínimo espanto pelo que diz Francisco. Esse espanto, o nosso espanto, mais não é mais que a evidência da estrutural anormalidade que aproveita a poucos e subjuga a muitos.
É por isso que a este homem lhe repugna o estatuto de vedeta, fútil alcunha que  uma desorganização organizada da sociedade gosta de atribuir-lhe. É a diferença abissal entre Populismo e Papulismo, como inteligentemente escreveu Rúben Amon. Populista terá sido o homem-espectáculo, até à inanição,  João Paulo II, cujas viagens pelo mundo ( afirmaram os jesuítas) não eram as de um mensageiro da paz, mas um mero exercício de Papolatria, o culto do Papa.
Francisco não abençoa, abraça. Não declama, conversa. Não se ufana com o anel de ouro nem com a tiara de três  pisos cravejados de lantejoulas cruzadas. Que beleza intraduzível aquela quando, ao descer as escadas do avião, no Equador, uma rajada de vento levou-lhe o branco  solideo e deixou-lhe, despido e puro, o crâneo com que saíu do ventre da sua mão! Eis Francisco no seu melhor retrato.
    Quero esclarecer que consideraria inócua e superavitária esta digressão, de tão repetida por tudo quanto é sopro de comunicação. Ela aí está como introdução ao próximo “Dia Ímpar”. Vem também, enquanto ponte de aproximação ao corajoso sul-americano que está de volta ao seu depauperado, porque explorado, continente. Cada passo seu, cada gesto e cada  mensagem outra coisa não significam que “aquilo que eu faço e digo são vocês que devem dizer e fazer”. Se assim não for, caído o Papa, cai toda esta Primavera Global. Os abutres do capital internacional  e os corvos  da púrpura vaticana e diocesana estão morrendo de fome pelo cadáver de Francisco. Ele sabe disso. É connosco que ele conta!

7.Jul.2015

Martins Júnior

segunda-feira, 6 de julho de 2015

O EURO-DRACMA SALVA O EURO-DRAMA! A PERSONALIDADE MILENAR DO POVO GREGO


Vem intensamente prolongado este Dia Ímpar porque intensamente vivido até ao último instante, mais concretamente, até à plena certeza de que um povo, miúdo na geométrica  do planeta, mas altissonante como a epopeia de Homero  ergueu-se e corajosamente disse NÃO!
E porque as grandes alegrias dispensam palavras que são sempre apêndices sem alma, também aqui resumo em três estádios crescentes a minha interpretação do fenómeno que, sendo local, vai repercutir-se à esfera global:

1º - Como escrevi, em tempo útil,  Tsipras e Varoufakis firmaram em rude mas eloquente escritura o maior cunho de coerência com a palavra dada ao seu  Povo. Deram a cara, exercitaram a mais paciente e consequente diplomacia político-económica, aceitaram com estóica valentia os olhares esquivos  e o desprezo  dos  todo-poderosos escondidos atrás das muralhas sem rosto do FMI, do BCE  e do offshore Merkel. Nunca baixaram os braços. E quando, com a corda ao pescoço, não o deles, mas o do seu Povo, disseram: se foi o Povo que nos mandatou para isto, então que seja o Povo a decidir isto. E aconteceu o referendo. Entenderam que o procurador sério  deve devolver a procuração ao seu constituinte. Que grandeza de carácter! Que coragem, sabendo que se o SIM vencesse seria a sua imediata demissão! No mísero  albergue que é Portugal, o que vimos nós? Gente cara-de-feijão-frade, que cá dentro chupa o sangue aos seus e apresenta-se lá fora  como rica matrona, tapando o pé rapado: ”Eu não sou dessas, da Grécia Eu cá. tenho os cofres cheios”. Devo dizer que tenho vergonha de ser português enquanto houver um só tuga que vá votar nessa gente. Quem, pelo passado recente, poderá acreditar numa única promessa desses títeres das feiras?!

2º - “Nobre Povo, Nação Valente, Imortal” --- não estou a cantar o nosso hino nacional mas o robusto Hino de Atenas e Esparta! Quantas ameaças de Juncker, do BCE, do FMI, dos sofisticados carteiristas  que descapitalizaram a Grécia, retirando-lhe milhões e biliões para os bancos da Suíça, enfim, o anátema de expulsão da EU, o apocalipse fatal --- e, não obstante tamanho arsenal bélico, o Povo serenamente disse NÂO.  “Se é para ficarmos mortos com o Euro-Hitler, preferimos viver pobres com o nosso pátrio dracma”: eis como entendi a mensagem dos herdeiros de Ulisses e Leónidas.

3º - Paradoxalmente, foi o pequeno David que fez voltar atrás a tômbola gigante do Golias sediado em Bruxelas.  Só o pigmeu portuga é que  ainda pensa que a “questão grega” é  um embrulho de circunstância para meter na prateleira. É toda uma nova revisão da União Europeia que agora salta ao de cima. Que “comunidade” é esta, quão distante do sonho de Monet e de Delors? Calaram-se as baionetas de guerra na Europa de 45. Agora são os petardos silenciosos da exploração do pobre pelo grande capital. Agora é que  dizem que a Grécia nunca devia ter entrado no euro. Mas quando a receberam, só o fizeram para dela tirar “leite de um pau seco” --- como diz o ditado popular --- para servir-se das tripas do pequeno para engordar o monstro obeso. Prevejo que nada será como até agora: ou a Europa se alevanta ou a Europa implode. Com todas as consequências daí decorrentes. Também para nós. Porque os implacáveis especuladores não têm bandeira e  outra senha não conhecem senão: “Bolsa ou vida”. Tudo pode voltar à estaca zero. E aí encetar a refundação da Europa. Para que não nos bata à porta uma outra guerra mundial.

Tsipras e Varouvákis terão de voltar ao chão pedregoso do seu calvário na mesa insensível das negociações. Mas agora com outra força. Cada um deles poderá bradar como o Homem do Leme: Aqui, ao leme, sou mais do que eu. Sou um Povo inteiro!
Haja o que houver, o Povo grego deu, como há milénios, uma lição de assombro a esta Europa decrépita e astuta.

5.Jul.2015

Martins Júnior

sexta-feira, 3 de julho de 2015

AS CINZAS DO "REI" PASSEIAM-SE POR LISBOA

      
      Devo confessar que não esperava dedicar o qualitativo de  “Dia Ímpar” àquilo que o não é. E se o for, sê-lo-á pelos mais frágeis argumentos. Sei que corro o risco de, hoje por hoje, contrariar a identidade deste “Senso&Consenso”  pelo seu antónimo: “Senso&Contrassenso”. Isto, porque tudo quanto  vou dizer é tão válido como o seu contrário. Paradoxo. Mas certo. Tudo depende, como já o reconheci no dia 29 de Junho, da encosta ou do outeiro onde cada qual coloca a objectiva para  melhor interpretar a imagem envolvente.
         Falo do fastio que me causou essa requentada ementa que nos serviram as TV´s na longa tarde de hoje e que deu pelo pomposo nome de “Transladação de Eusébio da Silva Ferreira (ESF)para o Panteão Nacional.”. Foi tudo um formalismo seco, de gravatas polvilhadas, mais parecendo um “frete” sem retorno, a começar pelos próprios ocupantes da casa-mãe que deitou ao mundo o sobrenome de tão ditoso filho: a Assembleia da República, Dos 230 deputados que euforicamente aprovaram a proposta, só 50 é que puseram os pés, como almas penadas, envergonhadas, alguns até escondidos atrás das grossas colunas no cimo da monumental escadaria, lobrigando a “banda passar”, a trote de cavalaria rusticana.
        Só posso interpretar correctamente o caso, se ponderar numa das mãos a carga semântica do pódio chamado “Panteão” e na outra o peso estrutural dos felizes predestinados ao Olimpo dos Deuses.
    Adianta-se, desde logo, o argumento que ESF foi o “Rei” da monarquia futebolística. Mas por aí, até o agora Verde Jesus bem poderia, com o sua  ruiva juba, levar ao alto “os cinco violinos de Alvalade”, Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano. Com maioria de razão, porque o valor colectivo destes heróis suplanta a distinção individualista de um só homem, que é o mesmo que um homem só.
       Depois, diz-se que ESF tornou Portugal conhecido no mundo. E eu pergunto: quais os valores substantivos e duráveis que daí verteram para o país? Também no mais primitivo tugúrio do mundo, seja na China, seja na Indonésia, o que de Portugal conhecem é o nosso Ronaldo. E que proventos navegam para cá, a não ser os magnatas asiáticos, exploradores de mão-se-obra miserável, vêm a galope rapar o melhor que temos, porque cheirou-lhes um governo que vende ao desbarato aquilo que não é seu, mas de todos os portugueses.
         Mais: ESF, dizem, deu imensas alegrias ao povo português. Se perguntarem aos vizinhos leões, aos devotos de Belém  ou aos tripeiros dragões, não sei mas adivinho que lhes terá dado o “Rei” com seus  assaltos de pantera negra: mais lágrimas que sorrisos.  E nisto de dar alegria, tem muito que se lhe diga. Há outras profissões (inclusive a mais velha do mundo) que por aí operam e  também divertem e aliviam corpos e almas, aos milhares…
         Poderia continuar neste arra-desarrazoado fado corrido, em que todos ralham e todos têm razão ou, pelo menos, as suas razões. Por este andar, o que é suposto prognosticar é que o dono do palacete terá de arranjar mais uns aposentos e reservá-los já para quantos ESF’s  e CR7’s este chão botar ao mundo.
      Finalmente, a coabitação de exemplares tão heterogéneos no mesmo “apartamento”, talvez não os deixe descansar em paz. Estou a ver a grande poetisa escrevendo que “as pessoas sensíveis são incapazes de matar uma galinha, mas são capazes de comer cem galinhas”. Do outro lado, o General Sem Medo ainda a clamar “Obviamente demito-o” (ao Salazar), mais a um canto, o “Pantera Negra” apronta a Grã-Cruz da Ordem do Infante, que lhe deu o mesmo governo da ditadura (do Salazar) e, lá ao fundo, a diva do fado entoando com repassada melancolia “Que estranha forma de vida”, querendo talvez dizer, “que estranha forma de morte”. Vai ser uma desatinada cacofonia. Não vai dar certo.
         O melhor seria construir uma imensa abóbada, tipo arco-íris,  onde coubessem todos os deuses do futebol profissional, de todas cores clubísticas, as taças, as chuteiras, os apitos dourados.  E mais umas prateleiras para os demónios da bola, os Blatter’s,  os corruptos das Fifa’s intercontinentais, regionais e locais, enfim, essa rotunda e imensa arena de traições às camisolas (o futebol profissional é a pátria dos apátridas), as luvas de milhões, os negócios obscuros,  toda essa deseducação em cadeia  com que se tem revelado o carreirismo do futebol profissional. Aplicando a filosofia do grande treinador que é o povo --- “cada macaco no seu galho” ---  dir-se-ia que a cada deus  seu panteão.
         Ressalvo, como ponto de honra, o “engenho e arte” de ESF e outros similares no exercício da sua profissão. Se algum remoque aqui vai é só para aqueles que, a troco de aproveitamentos políticos e quejandos, obrigaram a passear as cinzas do “Rei” pelas ruas de Lisboa, sem que ele o pedisse.
         E porque quem pensa ao contrário também tem a sua razão, conclui-se nesta hora  que está feito o grande milagre: o Contrassenso tornou-se Consenso, ficando cada qual com o seu senso.  

3.Julho.2015

Martins Júnior 

quarta-feira, 1 de julho de 2015

“DIA DE MACHICO” --- PRIMEIRO QUE “DIA DA REGIÃO”


       Quis o governo autónomo da Madeira antecipar-se a Machico, não no rigor da História mas na infantil ambição de chegar primeiro à meta, marcando o 1º de Julho como o  Dia do Achamento da Madeira, quando, afinal, os cronistas da época --- Gomes Eanes de Azurara, João de Barros, Damião de Góis --- atestam unanimemente que esse foi o dia 2 de Julho . E, para que não pairasse sombra de dúvida, explicitam claramente, esse foi o “Dia da Visitação de Maria a Santa Isabel”, como marca o hagiológio litúrgico. Antes que o Funchal saísse à rua, já Machico, antes do 25 de Abril (sem quaisquer encargos para a Fazenda Pública e  a expensas de genuínos “patriotas” locais) içava a bandeira das Descobertas, com vastas iniciativas sócio-culturais, pioneiras nesta ilha: recitavam-se as oitavas de Camões, de Francisco de Paula de Medina e Vasconcelos, de Manuel Tomás, cantava-se o “Desde a primeira hora, Machico foi, Machico é…” 
         Se a iniciativa funchalense foi a de obnubilar aquela que foi a Primeira Capitania da Madeira, chegou tarde. Antes do Funchal, Machico já era! Ininterruptamente, em cada ano, Machico engalanava-se com o brilho das suas gentes para assinalar o seu Dia, considerando a nossa baía como o “Pórtico das Descobertas” ou “Na Rosa dos Ventos, Machico à Proa”, ficando gravado para sempre o espectáculo de luz e som nos baixios da enseada em que se representou o excerto da peça “O Infante de Sagres” de Jaime Cortesão. Tempos inolvidáveis para quem os viveu por dentro e por fora!
         Parabéns a esta Junta e a esta Câmara que, ao contrário de outras, dão continuidade à tradição autóctone, através de um programa condigno previsto para amanhã.
         Após este desabafo, com entranhado sabor telúrico, extensivo a todos quantos amam Machico, a “Pária do Autor”, assim lhe chamou o nosso vate Francisco Álvares de Nóbrega, quero aproveitar a presente comemoração para mergulhar no rio destes quase 600 anos de História, ficando também, paradoxalmente, nas suas margens como observador atento. Não irei vasculhar o alfarrábio ou o livro dos fiados de seis séculos, como ridiculamente o extinto dono da ilha sujeitou o historiador do regime, mas tão-só fazer luz --- “para que os homens não esqueçam” --- sobre a clamorosa dívida que o erário público regional tem para com Machico. Nem vou tocar a finados pelas atrocidades que uma “autodura”  (deixem passar o neologismo, que mais não significa senão a justaposição  ente autonomia e ditadura) que nos governou durante 40 anos e que tudo fez para esganar o progresso e destruir o prestígio da nobre “Vila de Machico”.
         Quero referir-me a um aspecto que não foi ainda suficientemente ponderado por quem de direito. E como entrada, declaro aberto o processo  de causa-efeito inerente ao historial de todas as sociedades: os homens passam, mas as  dívidas ficam. Por outras palavras, cantam-se as vitórias, mas as vítimas perdedoras continuam a arrastar os efeitos colaterais.
         Falo hoje da construção do aeroporto da Madeira que, além dos transtornos da sua construção inicial, mais agravou o concelho de Machico com o prolongamento da pista. Desaparecem os contra-argumentos quando se olha a destruição do Aldeamento Turístico da Matur, único na Madeira, rivalizando até com  o que de melhor tinha então Portugal Continental. Não me demoro aqui com a multiplicada agitação dos debates, das divergências entre os procuradores empresa turística  e o governo regional acerca do projecto proposto. Fez-se o aeroporto. Muito bem. Mas… e o resto? As unidades hoteleiras que implodiram, as residenciais, o internacional Club de Bridge, as muitas centenas de postos de trabalho, a movimentação nos transportes, táxis e afins, a espantosa melhoria de qualidade de vida reflectida em novas habitações, investimentos levados a efeito no perímetro urbano de Machico, Água de Pena e, por contacto, o Caniçal, Santo da Serra! Já alguma vez bateu no coração e na mente dos governantes o tremendo prejuízo infligido, com mais gravosa incidência, sobre  Machico, dado que era neste concelho que se recrutava o grande volume de mão-de-obra? Sou testemunha das dificuldades inultrapassáveis que abruptamente arrasaram famílias inteiras, as lutas, as reuniões com governos de cá e de lá em que tive de participar aquando da construção, como presidente do Município!
         É esta uma dívida histórica, ainda por saldar. E não se badale mais a nauseabunda quanto estrábica acusação que  “Machico parou por causa das Câmaras da oposição”, não, porque nos mandatos das que precederam e sucederam, não mais se recompôs, pior, destruiu-se, toda a pujança de Machico, vocacionado para polo turístico alternativo ao Funchal. Disse “destruiu-se”, porque o que se fez em Machico, só por sofreguidão eleitoral, foi sobretudo betão e alcatrão para desviar desta cidade os viajantes na ilha. Aliás, esquartejou-se  anarquicamente a paisagem, o ambiente, a praia, roubou-se aos residentes o livre e amplo acesso ao mar, casos paradigmáticos os de Água de Pena e Caniçal. E se não o fizeram à praia de Machico foi porque a população opôs-se terminantemente, como terei oportunidade de demonstrar noutra altura.
         Deixo aqui este alvitre para o Dia de Machico (e, por arrasto, da Região) em forma de protesto pelo facto de Machico não ter sido cabalmente ressarcido das perdas e danos decorrentes de um equipamento que, sendo de indiscutível utilidade para o bem global da Região, causou prejuízos colaterais ainda por sanar. Não bastam os discursos anafados por fora, mas ocos por dentro. É preciso restituir o que foi levado.
         Felicito a Junta local por ter escolhido esta data para “Dia da Freguesia” e ainda por ter votado o soneto “À PÁTRIA DO AUTOR” do grande Francisco Álvares de Nóbrega para guião do hino oficial da autarquia machiquense. Bem o merece!
      
1.Jul.2015

Martins Júnior