sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O QUE FOI ISTO QUE ACONTECEU?…MILAGRE!


Se acaso alguém desembarcasse ontem, pelas 16 horas,  em Lisboa para revisitar os centros de decisão deste país, ficaria atónito com o súbito abalo das estruturas de Portugal. Parecer-lhe-ia deparar-se com uma paisagem lunar, onde em menos de 24 horas  tudo se havia virado da direita para a esquerda, o mesmo que dizer do avesso para o direito.
         A começar pela tragicomédia  solenemente representada  nos salões do Palácio da Ajuda, ao clássico estilo da velha Grécia, onde nada faltou: o corifeu, no alto do Olimpo,  nauseado Zeus de onze noites mal dormidas; o silencioso coro de anciãos depostos dos seus tronos, com as mesmas  onze mal dormidas noites. Eles tinham desfilado diante do corifeu supremo quando foram empossados em ….. gritando um hino patriótico  “Ave Caesar, morituri te salutant” (Os que vão morrer  saúdam-te, ó Imperador). De imediato, os jovens combatentes tomam a ribalta do grande palco e assentam-se nos tronos vazios. O esquálido Zeus empossa o novo comandante no cadeirão real, mas logo puxa a cavilha da bomba atómica que traz nas mãos e grita-lhe, alucinado: Dentro em pouco, vou dar cabo de ti.  Mas a beleza do cenário suplanta a “tragédia” : os jovens vitoriosos formam o semicírculo onde cabem todas as idades e todas as sensibilidades, direi, todas as etnias  do planeta e todos os cambiantes da condição humana, desde os mais fortes aos mais frágeis.
         Ficaria extasiado de encantamento o nosso visitante com a primavera que, desta vez, em corpo inteiro vinha passar o inverno a Portugal. Triste e vomitado, só o corifeu, com o seu “próssopon”, traduzido em vernáculo, com a sua máscara de malogrado desalento, identificado com o coro dos anciãos.
         Mas ainda mais atónito ficaria o atento observador quando chegasse à “Acrópole” das Leis, a Assembleia da Republica, ao ver cadeiras pelo ar, voando de cima para baixo e de baixo para cima (é mais fácil pôr cadeiras a voar do que gente a mudar de assento), uns do “céu” para o “inferno”, outros do “inferno” para o “céu”. Códigos soberbamente aprovados ontem e rasgados hoje em menos de um fósforo. Dentes, dantes afiados de soberania emprestada,  e hoje desdentados maxilares, colados aos olhos mortiços que só se abrem em  despeitados esgares de vingança.
         Enfim, que “tsunami” passou por aqui? --- perguntaria o nosso visitante. Se eu lá estivesse, responderia: Não foi um “tsunami”, foi o milagre, não o das rosas, mas o do Povo. Não o da multiplicação dos pães, mas o da soma inteligente dos votos, transformados em Dia  Novo e justa recompensa. Desta vez, o Eleitor viu o resultado do seu Voto. E o Eleito soube receber, interpretar e ampliar a força mensageira daquele mini-quadradinho, inofensivo e silencioso, que só a urna da vida secretamente guardou.
         Haja o que houver, venha o que vier, ficará o “4 de Outubro de 2015” com o brilho inapagável de um “25 de Abril” do século XXI,  porque aí o eleitor encontrou-se com o eleito, o fundo foi mais eloquente que a forma, o todo indiviso tornou-se maior que as partes divididas. Poderá dizer-se que, mais uma vez, cumpriu-se Portugal. É nesta ponte de convergências  que me apraz levantar a bandeira da Aliança “Povo-MFE”,  Povo-Movimento das Forças de Esquerda.
         Mesmo que nem tudo corra de feição --- o óptimo é inimigo do bom, filosofia dos tempos --- é preciso e é urgente marcar em termos indeléveis que não são os  “caudillos” que  transformam o mundo: é  o Povo, quando unido pela raiz,  é ele que vira os ventos da história. e afeiçoa-os à vela do seu barco até encontrar, ou seja, construir não “as ilhas do fim do mundo”, mas um país onde se possa respirar e sorrir. Voltemos a Pessoa:

Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo.  É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri.


27.Nov15
Martins Júnior


quarta-feira, 25 de novembro de 2015

A DEFESA DA MULHER E O “GADO” DE EÇA DE QUEIRÓS



Entre o 25 da primavera de Abril e o 25 do inverno de Dezembro toma hoje assento o 25 do outono novembrista, carregado  de memórias tantas e contradições muitas. Ele é o “25 de Novembro político” em Portugal, Ele é o centenário da relatividade de Einstein. Ele é o Dia da Eliminação da Violência contra as Mulheres. E ele é, ainda, o nascimento de Eça de Queirós em 1845. Pela minha parte confesso que há  um particular prazer lúdico-cultural quando se toma o pulso às efemérides que o calendário quotidiano nos oferece. Ficamos com a plena consciência de que a história não se esgota em nós, no nosso caso, no filme3 do aqui e agora. Pelo contrário, descobrimos que muito antes de nós há uma história vivida e contada. Neste percurso das histórias comparadas, encontramos um fio condutor ou uma relação estruturante, como a de “causa e efeito”, por onde ficamos a entender no facto passado a explicação do caso presente.
Hoje por hoje,, juntei no 25 de Novembro de 2015  duas peças, ambas de forte mensagem, ambas de estranha correlação: São as duas últimas, acima enunciadas: De um lado,  a violência de género e, do outro, a  depreciação da Mulher em Eça de Queirós. É de um simples jogo de datas e culturas que  trata este serão do dia ímpar. É também a constatação do relativismo conjuntural da vida e da sociedade.

1 – Eliminação da violência contra as Mulheres

Em 1981, o Primeiro Encontro Feminista, realizado em Bogotá estatuiu o “25 de Novembro” como o Dia Internacional  que hoje se comemora. A data deveu-se ao “25 de Novembro de 1960”, quando três raparigas irmãs foram assassinadas na República Dominicana, às ordens do ditador Rafael Trujillo. Minerva, Pátria e Tereza, todas da família Mirabal, eram lutadoras acérrimas contra a exploração das mulheres do seu país. Pagaram a factura fatal dos seus ideais! E hoje?... Hoje, nem é preciso ir às terras do Oriente, para sabermos que só neste ano foram assassinadas 27 mulheres em Portugal. Na Madeira, a taxa de incidência da violência doméstica é de 3,87/1000, enquanto no continente português fica-se pelos 2,62/1000. São dados oficiais hoje divulgados. No ano transacto, os Serviços da Segurança Social deram apoio a 143 pessoas; neste ano de 2015, o número sobe para 159, até à presente data. São muitas e refinadas as formas de perseguição, desde a violência física, a violência  passional, a violência psicológica até à violência económica, que a ONU considera “um dos crimes mais habituais e menos publicitados no universo da agressão machista”,  como foi o recente caso de  María del Mar, que conta ao El Mundo os seus dramas: “Durante 37 anos ele nunca me deixou dispor do meu dinheiro, o único dinheiro que entrava em casa. Não podia ter cartão de crédito e se quisesse fazer uma compra, tinha que pedir-lhe (ao marido). Ele, ao contrário, comprava carros com o dinheiro que era meu. Desde quando éramos noivos, ele violava-me, cuspia na cara, batia-me”… E, mesmo após a denúncia, o juiz deu-lhe uma pena irrisória.
         Quantos horrores escondidos, quantas vítimas humilhadas e ofendidas, aqui, acolá, mais além. No elenco das causas, sobressaem  os ambientes familiares, marcas hereditárias e, em todas, a mentalidade atávica que vem de longe, até das ditas sagradas páginas da Bíblia. E porque estamos em 25 de Novembro, dia do nascimento de Eça de Queirós, aqui deixo sucintamente alguns traços do figurino “Mulher” do Portugal decadente dos finais do século XIX.

         2. A depreciação da Mulher em Eça de Queirós

     Por muito que nos decepcione, a visão queirosiana da Mulher desentranha-se, à evidência, da galeria de personagens femininas dos seus romances. Poderíamos ficar apenas pelos Maias, desde a Maria Monforte “formosa, doida, excessiva, leviana” --- ela, causa da desgraça da família Maia ; “Faz o mal não por maldade mas por paixão” ---  até à diletante, ociosa e provocadora condessa de Gouvarinho. Mais chocante é a atitude dos homens quando costumeiramente, se  referem às mulheres: “Quando chegámos, o gado já estava lá”. Fruto da época, Eça  retrata, em versão inferiorizada, à lisboeta,  a  figura de  Madame Bovary, de Gustavo Flaubert,  na Leopoldina e na Luísa de O Primo Basílio, em termos degradantes: “Sonhadora, adúltera, mal educada, grande cabra, grande bêbeda … Queria uma outra vida, forte, aventurosa, perigosa, que a fizesse palpitar --- ser mulher de um salteador, andar no mar, num navio pirata  e, outras vezes, queria ser freira”…
Decepcionante, não é?! Mas é a tradução do  cosmopolitismo hipócrita do Portugal fim-de-século, que tanto marcou a  denominada “Geração de 70”. E nesse friso de personagens, a Mulher é quem mais paga. Fruto de mentalidades atávicas.
Mas o mais confrangedor é que, volvidos quase dois séculos e não obstante a valorização social e profissional da Mulher, os traumas e as tragédias continuam a ensombrar a condição feminina dos nossos dias.. A aproximação das duas efemérides revela também os contrastes de uma outra relatividade: os avanços da ciência e da tecnologia não curam, só por si, as profundas feridas da mentalidade humana, espelhada nas intraduzíveis guerras de género. Falta a cultura  dos valores, à qual  me associo, neste Voto de Saudação ao Dia Internacional da Eliminação da violência contra as Mulheres.

25.Nov.15
Martins Júnior
  

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

PORTUGAL --- UMA PROPOSTA DE SOLUÇÃO PARA A EUROPA E PARA O MUNDO




         Quero começar este dia ímpar com um desejo incontido, “ímpar” também, um misto de emoção e razão: que eu nunca venha a arrepender-me daquilo que hoje solto do mais fundo de mim mesmo --- um altissonante Voto de Congratulação, talvez mesmo uma Ode Triunfal em prosa!  Porque bem o merecem os autores de tamanho feito, criação eloquente da vontade livre e não de determinismos autoritários, quer do poder quer da ciência.
         Fica bem patente que estou a olhar a cúpula de todo um processo árduo mas glorioso, cimentado de convergências e renúncias, de juventude e de maturidade. É a luz ao fundo do túnel. Aconteceu hoje quando António Costa foi chamado a Belém para trazer a “boa nova” de um governo prestes a nascer.
         Mas não é o novo governo, enquanto tal, que me galvaniza o espírito e me leva a tecer esta mensagem. Isso seria uma visão tremendamente reducionista daquilo que se passou. “O que Costa sempre teve foi a ambição de chegar a Primeiro Ministro” --- repetem, esgotam-se ressabiados os morcegos ( às vezes, vampiros) ávidos de se perpetuarem nos armazéns ministeriais  do Terreiro do Paço. Porque  propositadamente escondem a face brilhante do acontecimento. E a face brilhante, o mais precioso troféu que ora se levanta a Portugal e ao mundo é outro: O encontro de vontades rivais de quatro décadas, a reconciliação de famílias que, sendo irmãs do mesmo berço transformador da sociedade --- a Esquerda --- andavam  desavindas, perdidas nas  escaramuças autofágicas de pretensa filosofia política, abrindo com isso as portas aos lobos devoradores para se refastelarem com a carne do rebanho. Finalmente, fez-se luz, juntaram-se os trilhos, até agora reduzidos a protesto, e começou-se a construir a grande auto-estrada da Unidade e do genuíno Interesse Público. Desde há mais de um mês que se recompõe a Aliança POVO-M.F.E, Movimento das Forças de Esquerda.  Caminho difícil, em que foi preciso partir pedra, pacientemente atirar para a fogueira  velhas juras partidárias de pendor exclusivista, foi preciso quebrar enferrujados canos de espingarda e colocar bem alto deles os imarcescíveis cravos de Abril.
         É esta a Ode Triunfal  de muitas mãos, tantas vezes escrita e outras tantas corrigida, rasurada, aperfeiçoada, ampliada, uma verdadeira epopeia em construção. Não tem particulares direitos de autor: António Costa, Catarina Martins, Jerónimo de Sousa e Heloísa Apolónia não são mais que os rostos visíveis dos muitos homens e mulheres que, entre consensos e dissensos, incógnitas e certezas, entusiasmos e receios, foram capazes de unir as diferenças multicolores de cada partido no tecido comum de uma só bandeira,  o Povo Português.
   Portugal oferece à Europa e ao Mundo --- a esta Europa dividida e a este Mundo cada vez mais retalhado ---  o infalível GPS para alcançar a meta da felicidade e da paz entre as nações. Esta é também uma, talvez, a melhor estratégia para vencer o terrorismo, dentro e fora de portas. Unir para ganhar. Dar as mãos para chegar mais Alto e mais Além.
         Quanto ao ainda periférico inquilino do Restelo --- uma desfigurada múmia que só mexe para desestabilizar o país --- deixe de preocupar-se com a entrada do novo governo. Preocupe-se, antes, com a sua desonrosa saída de Belém.  Ele há-de passar e o Governo vai ficar!

         Viva a Aliança POVO-M.F.E!

23.Nov.15
Martins Júnior


sábado, 21 de novembro de 2015

Sem interrogação e sem exclamação: NÓS --- OS JIHADISTAS



Não faço ideia de qual a resposta que cada um de vós, amigos e amigas, terá formulado à pergunta com que iniciei e concluí o último SENSO&CONSENSO:  Nós, os jihadistas?... Hoje, no meio da turbulência com que que os ajustes da bola fazem abarrotar as redes comunicacionais, proponho que se faça um “ponto de ordem” e se retire a incógnita então proposta e se lhe substitua pela expressão mais assertiva: Nós, os jihadistas.
         Comecemos pela evidência de constatar, ao vivo, a génese de outros tantos cataclismos sociais que a História registou ao longo dos séculos. Não se trata de  consultar a Wikipédia dos povos bárbaros que derrubaram a civilização greco-romana, ou estudar as Cruzadas, as lutas encarniçadas entre mãe e filho para implantar a independência do “Portuscale”, ou a Revolução Francesa,  nem mesmo o massacre nazi. Hoje coube-nos a sanção penal de ficarmos dentro dos horrores de outrora, sentir o dilúvio de fogo a afogar pessoas e bens, a calamidade em carne viva entrando pelas nossas portas adentro. Nós já não somos actores, mas autores das páginas sangrentas que os vindouros hão-de  relatar para a posteridade.
  Refiro-me aos cinco monstros que espalham em cima das nossas cabeças a destruição apocalíptica do planeta em que vivemos. Mencionei-os anteriormente e reproduzo-os em síntese: o dinheiro, a exclusão a guerra, a ambição “heróica” e a inércia comum. “Compra-se tudo” --- voltando à Velha Senhora” de Francis Durrematt. O dinheiro compra nações e consciências, compra graúdos e miúdos, compra cadeias e códigos penais, compra padres, bispos e papas, compra a opinião pública e a opinião  publicada. E fabrica os guetos, as armas, incita os heróis do nada e seca a força anímica de reagir.
 É este o chão fértil que tem envenenado as mentes e as lideranças e, por consequência, tem parido as fauces insaciáveis do terrorismo internacional. Não posso abusar do vosso capital disponível de tempo e espaço para levar-vos ao terreno e verificar esta indesmentível constatação. Mais descobriríamos que, na medida em que  se compra, em redobrada medida se paga. Não estará a geração presente a sofrer na pele as consequências do colonialismo estripador de gerações passadas? Absolutamente. Não significará tudo isto o furor dos explorados dos diamantes, dos petróleos, dos marfins, dos escravos com que “as ditosas pátrias” se locupletaram?  E  a barbárie da fé assassina em Allá não será o efeito de um inexistente Deus bárbaro que fez da Cruz a arma do Império, desde os longínquos continentes até às mais modestas aldeias?...


Se é verdade a inadiável intervenção cirúrgica da força defensiva e obstrutiva, também não é menos verdade a exigência de nos olharmos ao espelho da nossa consciência colectiva e vermos de que lado da barricada estamos nós, o nosso país, o nosso mundo. Não faremos nós parte indissociável dos monstros que devoram a civilização, a paz, a alegria de viver?
Exemplificando:
Quando permitimos  que legisladores fortes imponham normativos draconianos aos ombros dos mais fracos, não estaremos nós  a semear os gérmenes da guerra?... Quando chutam para a valeta do desemprego  milhares, milhões de braços famintos, sobretudo da juventude indefesa  … quando os julgadores condenam inocentes  e, a troco de dinheiro, deixam cá fora os criminosos … quando os milionários banqueiros despudoradamente diante de nós bebem o “sangue fresco” dos depositantes … quando um presidente mói no torniquete da sua teimosia a paciência de um país inteiro … quando se fabricam abrigos de gelo e abandono para quem se arrasta nas ruas e nos bairros de lata ---  que esperamos nós de volta senão a violência dos oprimidos contra a desumanidade dos opressores?!... E quando, em plena praça escolar, crianças, jovens e respectivas famílias  se digladiam no triste espectáculo do “bullying” impune… e quando, portas adentro, se adensa e fatalmente se consuma a mais selvática  violência doméstica --- em que diferem de nós as cenas, ainda que desproporcionais,  dos terroristas externos?...
Há uma excepção, imponente na sua humilde súplica, altíssima na sua coragem --- a de Francisco Papa, braços abertos nos Himalaias da História, bradando contra a “economia que mata”, interpretando o grito bíblico “O clamor do Meu Povo chegou aos Meus ouvidos, diz  o Senhor  do Universo”,  todo o dia apelando à inclusão, ao culto dos valores que libertam, à solução global para a angústia global. À sua volta, os jihadistas têm nome, são os cardinalistas e a arma, em vez da mortífera Kalashnikov, trazem-na sacrilegamente ao peito, uma cruz parricida e fratricida. A formar fileiras com a célula cardinalícia, vêm os bispos que se recusam a visitar o seu povo e os falsos guias espirituais que, sem pingo de escrúpulo, excluem da grande mesa festiva associações centenares da própria comunidade. Tudo isto é terrorismo requintado, jihadismo encoberto.    
Ficar mudo e quedo é colaboracionismo criminoso. Reagir pacificamente, até aonde se consiga  ---  é preciso, é urgente! Antes que o mal cresça...  
Assim como a pedra no meio do lago vai crescendo em ciclo ondulante até às margens, assim cada gesto nosso só se transcende em espiral de vitória, se ajudarmos a apagar o rasto dos jihadistas internos a que, por inércia ou oportunismo, ainda  pertençamos.

 21.Nov.15

Martins Júnior

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

NÓS, JIHADISTAS?...


Por mais que eu queira passar “além do Bojador”, não consigo. E duvido que alguém consiga. Mais concretamente, é  impossível descansar a cabeça ou, sequer, virá-la para a outra margem sem olhar o rio de sangue e lágrimas que corre diante dos nossos olhos. Porque os corpos estilhaçados e os estampidos das   Kalachnikov, moram aqui ao lado, entram pelas portas e janelas do quarto onde dormimos.
Longe de mim empurrar para cima de nós, aqui distantes,  os tornados depressivos em que se afogam os parisienses durante estes dias que são sempre noite escura, sobretudo para os familiares das vítimas. Tão-pouco repetirei análises exaustivas de comentadores especialistas que, vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, tentam decifrar-nos o indecifrável. Tentarei apenas colocar quatro ou cinco peças, as mais impressivas,  no xadrez intricado dos trágicos acontecimentos, afim de alcançarmos a síntese essencial das conclusões.
Onde estarão as raízes  do terrorismo islâmico ou, mais precisamente da formação do Daesh, o  auto-proclamado EI, Estado Islâmico? E se alguém vier fazer-nos a pergunta com que titulei este nosso diálogo vespertino dos dias ímpares, que resposta daremos? Nós, jihadistas?
Telegraficamente:
1 – Á cabeça desta e de todas as chacinas do nosso tempo (de todos os tempos!) está o dinheiro. A tesouraria. A máquina registadora. A conta bancária. Venham eles do petróleo, do armamento, da droga, do comércio de carne humana. O alibi da religião é igual  ao das caravelas quinhentistas que supostamente iam alargar “A Fé e o Império”, mas de lá só pretendiam domínio, território, ouro e especiarias…
2 – Da avidez do dinheiro, resulta a exclusão. O “apartheid”. A segregação. O gueto. O desemprego. Os bairros e favelas.  As polvorosas assimetrias e abissais percentagens entre ricos e pobres.
3 – Do ventre incestuoso entre dinheiro e exclusão sai o monstro da guerra. Monstro de sete cabeças que se alimenta da sua própria reprodução. Violência atrai violência. A intifada gera a metralhadora. A metralhadora  deseja  o míssil. Depois, o porta-aviões,   a  insaciável autofagia do corpo-a-corpo no terreno, a guerrilha urbana.  E, por fim, o feto nauseabundo das armas químicas. “Nunca haverá guerra que acabe com todas as guerras”.   
4 – Por mais estranho que pareça, do pântano dos mortos e esfomeados, filhos dessa maldita tríade --- “a economia que mata”, a exclusão e a guerra --- levanta-se o clamoroso grito da repulsa visceral que desperta, sobretudo nos jovens, a sede de heroísmo combativo, que os leva ao cúmulo da esquizofrenia capaz de apertar à cintura  o ferrete da morte e entregar a própria vida abraçados à bandeira do herói  e  à glória do mártir. A tanto chega o misterioso psíquico do ser humano!
5 – Por fim, para abrir portas e dar livre trânsito aos destruidores “quatro cavaleiros do apocalipse” que acabei de enunciar, lá está de serviço a inércia calculista dos líderes mundiais. A passividade interesseira: eu dou-te armas em troca de petróleo, eu ofereço-te tecnologia em troca de estupefacientes e produtos similares.
         Estava  (e está)  no âmbito desta síntese aproximar as evidências do actual estado de guerra que nos rodeia, mas deixo-as, por enquanto à vossa pesquisa. Proponho a metodologia mais expedita: começar pelo “teatro de guerra”  lá longe. E, depois,  regressarmos ao país, à região, à cidade ou à aldeia em que vivemos. Tudo, para respondermos frontalmente  à questão inicial: “Nós, jihadistas”?
HAJA CORAGEM!

19.Nov.15

Martins Júnior

terça-feira, 17 de novembro de 2015

HISTÓRIAS ANTIGAS QUE AS VISITAS NÃO CONTAM



Como nos ensina a oralidade popular, se “o mal ou o bem à face vem”,  ficámos sem saber, ao menos pelo semblante cavernoso de Cavaco,  se o “Sr. Silva” sempre descobriu aqui a “pólvora” para formar o arsenal do próximo governo de “iniciativa presidencial”. Aguardemos  se cumpre ou não a incógnita que deixei na minha última exposição. Agora, o que fica de pé é o passeio alegre de uma múmia ambulante que aqui veio deliciar-se com a criação dos peixinhos em cativeiro, medir o tamanho da banana madeirense, cheirar a farinha de batata doce (todos o ouvimos na comunicação social) e  tilintar os garfos em jantares pagos por nós. Tudo isto, enquanto o país inteiro está parado --- espera aí, sentado --- com orçamentos congelados, planos na gaveta, iniciativas e obras na barriga de aluguer, empresas em sinal intermitente e, sobretudo, a economia, o Povo sem poder seguir viagem.
    Perante a magnitude dos problemas em equação e o clamor de todo o país, , quer à esquerda quer à direita, o nosso “conselheiro Acácio” atira à frente, como um buldózer, o maxilar inferior e abre caminho para emitir uns monossílabos entaramelados, tais como “eu sei, eu sei muito bem”…ou “eu estive, em 1987, cinco meses num governo de gestão”. É preciso haver um madeirense bobo para envergonhar a nossa ilha e suportar “bobagens” destas. Aplicar em tempos do século XXI receitas do século passado! Preciso é também ser um acabado exemplar do bota-de-elástico salazarento a quem nem faltava o mesmo tique de falsete enfatuado. Deve ser a sina da Madeira: servir de “albergue espanhol” a presidentes fora-de-prazo, já desde os tempos do ditador Fulgêncio Baptista, de Américo Tomás e Marcelo Caetano…
Quero com isto dizer que Cavaco, primeiro tinha de dar conta da sua responsabilidade, a de dar posse a um novo governo de Portugal, seja ele qual for, e depois teria todo o tempo do Natal e Ano Novo para espraiar-se na ilha e andar a cumprimentar com o chapéu alheio, em almoçaradas e inaugurações quantas quisesse. Assim, é usar e abusar da nossa condição de ilhéus perante todos os portugueses.
Mas quero com isto dizer mais. De entre todos os governantes e Presidentes da República, Cavaco foi o que mais maltratou a Região. Recordo, para quem desconheça, que foi ele, enquanto Primeiro Ministro, que  obrigou a Madeira a pagar “já” a dívida a Lisboa, através do  leonino e famigerado  “Protocolo de Reequilíbrio Financeiro”. Aí encontrou no presidente do governo regional de então  um aliado tão insensível e implacável como ele, ao ponto de forçar as Câmaras, todas PSD,  a assinar “de cruz” o referido Protocolo, em virtude do qual ficaram as míseras tesourarias dos municípios madeirenses obrigadas a pagar as obras inauguradas pelo governo regional. Uma única houve que se recusou, a do Ponta do Sol. Posso dar o meu testemunho pessoal do quanto foi penoso para o concelho de Machico ter direito a receber 33.000 contos  mensais por via da Lei das Finanças Locais e,  feita retenção na fonte  já em Lisboa, recebia apenas 1/3, ou seja 11.000 contos que nem chegavam para pagar salários!  Tudo isto me caiu em cima das costas nos dois mandatos à frente da Câmara Municipal de Machico, totalizando a soma de 1 milhão e 800 mil contos,  isto é, em moeda actual 9 milhões de euros. Não foi Vasco Gonçalves nem Mário Soares nem Guterres. Foi o Senhor Cavaco Silva, conluiado com o antigo inquilino da Quinta Vigia. Foi também nessa altura que, perante os meus protestos contra aquilo que consubstanciava uma grave intromissão na autonomia administrativa e financeira dos municípios, sim, foi então que o quase vitalício ocupante da Quinta esbracejou e aos quatro ventos proclamou como dogma: “Cavaco Silva é um bom madeirense, o Pe. Martins é um reles cubano”!
Enfim, cenas herói-cómicas de uma ópera bufa que é preciso recordar  e  descrever como “persona não grata” quem deveria ter chegado cá e pedir perdão pela extorsão que fez aos municípios madeirenses.
Não é, pois, gratuita ou partidária a atitude adversa que nutro pelo visitante na hora do “canto do cisne”. Vem de longe, com justificados motivos, pelo mal que nos fez.  E vem de perto, pela mais cega incongruência do seu  argumentário.  Na Madeira, botou palavra e exigiu de todos os países europeus uma resposta à altura sobre os trágicos acontecimentos ocorridos em Paris. E definiu, de dedo em riste: “uma resposta rápida”!
E, para Portugal, que é nosso e não é seu, que pasmada resposta anda a remexer?... Mexa-se e dê a “resposta rápida” que o Povo urge.
Da minha parte, com os dois “dias ímpares” , apenas pretendo observar que  o “bom madeirense Cavaco” está enganado se pensa  ver em cada conterrâneo nosso o carinhoso sorriso das cagarras que visitou nas Selvagens.

 17,Nov.15
Martins Júnior

  

domingo, 15 de novembro de 2015

CAVACO SILVA À DESCOBERTA DE PÓLVORA NA MADEIRA


Os últimos acontecimentos ocorridos em Paris vieram demonstrar que o mundo vive em cima de um vulcão que pode acordar quando e onde menos se espera. Nem adianta adjectivar aquilo que substantivamente pertence ao reino da selva em plena cidade. Entretanto, como tive oportunidade de dizê-lo anteontem, as erupções, parecendo espontâneas, não nascem por geração espontânea. Há um vasto conglomerado de micro-génesis que vai crescendo silenciosamente até alcançar os paroxismos do macro-trágico.  Apontei, a título exemplar,  a sôfrega ambição dos mercados e o domínio, a qualquer preço, da “economia que mata”. Mas há outros micro-climas de teor político-administrativo que também minam a sociedade e de tal forma que daí explodem incontroláveis ataques de nervos, senão mesmo  perigosos focos de desestabilização.
Falo desses epifenómenos criados dentro da própria casa, crispações na política doméstica de efeitos imprevisíveis. E falando destes, sem querer perder muito tempo, refiro-me ao assunto de amanhã: a visita do  Presidente da República à Madeira.  Muitas têm sido as críticas, a nível nacional, contra a veleidade irresponsável que o Primeiro Magistrado da nação vem exibir na nossa ilha, a pretexto de um encontro de economistas ou inauguração de empresas, como se o país nesta altura sem-governo fosse um episódio irrelevante para quem assumiu compromissos constitucionais da maior repercussão na vida de um Povo. Quando tinha e tem à sua frente evidências normativas para  pôr o país a funcionar com a constituição de um novo governo,  o nosso Chefe anda à cata de uma vereda, de um buraco supostamente alternativo ou, pior ainda, dá-lhe para voar nas nuvens, lembrando-nos o imbecil e sádico Bush quando, no ataque bombista às Torres Gémeas, meteu-se num helicóptero a sobrevoar a cidade em chamas. Era inimaginável chegar ao século XXI e assistir ao ridículo de um Presidente da República escarnecido na comunicação social, como que derretido com as cagarras das Selvagens e o sorriso das vacas açorianas…
         Por tudo isto, merecia que se escrevesse na pista do aeroporto uma tarja de peso: “Nesta altura, Cavaco é ‘Persona non grata’ na nossa ilha”. Além das justificadas insinuações do mais descarado apadrinhamento da Direita, esta atitude de um homem que a si próprio classificou como “totalmente insensível”, abre o caminho a um acervo de proposições, as mais delirantes, como seja a Revisão da Constituição para haver já, já, novas eleições… ou tantas quantas até que venham à tona de água os malogrados náufragos,  seus filhos adoptivos. Pelas portas, esta ressaca de Pedro só podia ter vindo dos olhinhos lânguidos de Paulo.
Como cidadão, tenho o direito e o dever de exigir ao Presidente de todos os portugueses que ocupe o seu lugar. E que não use a Madeira como pretexto  para a fuga às suas actuais e insubstituíveis responsabilidades na condução pacífica do país, evitando perturbações ou sobressaltos, a todos os títulos, detestáveis. Tanto mais que o senhor, do alto dos seus quase dois metros físicos e outros tantos de  desadaptação social e intelectual, proclamava que “já tinha todos os cenários na mão e sabia bem o que iria fazer”.
Em todo este confuso labirinto, só lhe acho um presumível mérito: o de vir à Madeira descobrir a pólvora! Onde estará o paiol?--- perguntarão os meus amigos. E eu decifro:. Basta percorrer os dois atalhos que nestes dias têm ficado patentes aos olhos de toda a gente:
O primeiro: o PR pode optar constitucionalmente  por nomear um governo de iniciativa presidencial. O segundo: leiam a capa do jornal “Económico” de quinta-feira passada, dia 11: “Cavaco tem margem para um governo de iniciativa presidencial, mesmo que fique em gestão até  novas eleições”. Autor da proposta: Alberto João Jardim.
Como se usa dizer, entre os dois casos qualquer semelhança é pura coincidência.
Sem mais comentários: Será que o “Sr. Silva” vem convidar o extinto inquilino da Quinta para vigia deste país, encarregando-o de formar o tal governo de iniciativa presidencial?  
No delírio em que esta gente vegeta, no estertor da agonia até Janeiro, nada me surpreende. Esperemos para ver.  Talvez  Cavaco tenha descoberto a pólvora na ilha. Pois o que Portugal mais preciso nesta hora é mesmo  da pólvora, made in Madeira…
A tanto chega o oportunismo  rasteiro e caduco de quem ainda sonha com os moinhos de vento de trinta e seis anos de poder!
Basta de invencibilidades.

15.Nov.15
Martins Júnior